LE SOUCI

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Passaram-se horas.

Nathalie focou o restante de seu tempo de expediente em trabalho e em checar como estava indo o alcance da página de internet que havia criado. Em média, ela olhou uma vez a cada quinze minutos nas últimas duas horas, ou seja, das dez visitas registradas ela era responsável por oito... nove: quando deu uma pausa para pegar café, checou antes de sair do ateliê e quando voltou.

Para as esperanças dela, ainda havia uma visita contabilizada!

Com ansiedade, ela fez questão de verificar de que lugar era seu visitante – poderia ser uma pessoa famosa na internet, que auxiliaria a compartilhar aquela página. Porém, quebrando todas as suas expectativas, ela constatou que era apenas uma pessoa aleatória da Tunísia.

Quanto tempo demoraria até que os visitantes chegassem? Quanto tempo levava até a página alcançar fama e visualizações? Aquela parte do plano já podia ser considerado um fracasso? O que havia de errado? Essas foram apenas algumas das tantas e tantas perguntas que Nathalie fazia a si mesma.

Se ela queria refazer seu banco de dados de uma forma mais optimizada, sabendo das exatas razões para cada uma das akumatizações, ela precisava ser rápida e fazer aquela página de novo, mas do jeito certo! Do jeito que funcionava!

Como inspiração, ela utilizou uma das páginas mais famosas entre o público da faixa etária que ela queria alcançar: o LadyBlog. Nathalie trocou as linhas retas, o ar "empresarial" e a linguagem excessivamente profissional por algo mais simples, com formas arredondadas e uma abordagem direta com uso de termos coloquiais. Uma alteração muito importante foi a cor: as infinidades de tons de cinza foram substituídas por uma monogamia de azul claro com letras escuras. Azul é uma cor que gera tranquilidade.

Ela deixou escapar um sorriso enquanto vislumbrava a nova página, estava muito melhor do que o primeiro.

— Terminou o que estava fazendo? — Gabriel perguntou quando já estava de pé em frente à mesa dela, curioso sobre o motivo daquele sorriso.

Pelos últimos quarenta minutos, o tempo que ela levou reformulando toda a página, havia se esquecido completamente da existência do chefe. Na verdade, desde antes, ela já não levava em consideração a presença dele naquela mesma sala...

— Em aproximadamente noventa e oito por cento — a assistente respondeu, parando de admirar sua obra prima e encarando o superior.

— E quando vou poder saber o que é?

— Amanhã, quando eu explicar cada minúscula peça do quebra-cabeças.

— Nathalie, por que você tinha que ser tão eficiente em guardar segredos? — o Agreste murmurou a pergunta retórica de um jeito descontente enquanto voltava para o seu lugar costumeiro, curioso sobre tudo aquele sigilo exagerado.

A assistente estava pronta para repreender a altura, utilizando seu conhecimento sobre HawkMoth e sobre a Emilie como exemplos do motivo de ela ser eficiente naquele "setor", mas ela pensou um pouco melhor. Gabriel era igualmente capaz de esconder as coisas, ele mantinha uma vida dupla afinal de contas. O que tinha feito com que ele contasse a ela sobre aqueles segredos tão profundos e comprometedores?

— Senhor... — ela chamou e, quando teve a atenção voltada para si, continuou: — O que faz com que uma pessoa como o senhor conte segredos para uma pessoa como eu?

— Para quem mais eu contaria, Nathalie? — respondeu ele, como se fosse óbvio.

— O guarda-costas, o cozinheiro, Adrien... Por que me escolheu?

— Porque somos parecidos — ele colocou as mãos atrás das costas — Contei a você porque precisava de apoio e somente alguém como eu conseguiria me dar isso. Se, por exemplo, fosse a Emilie à saber sobre o HawkMoth, ela tentaria tirar essa ideia da minha cabeça...

— Eu também tentei, senhor.

— Mas me entendeu... por isso está me ajudando com o plano — mais uma vez, ele soou como se fosse óbvio.

Nathalie voltou a olhar para a página que havia criado. Estava bem melhor, mas não havia nada lá que fizesse as pessoas quererem contar algo, afinal, deveria ser uma experiência no mínimo esquisita. Ela pensou por alguns minutos, até que finalmente entendeu o que precisava e começou a digitar o texto central:

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"Espero que todos sintam-se bem-vindos aqui!

Criei esta página para proporcionar alivio e conforto para todas as vítimas dos terríveis akumas, um lugar longe de julgamentos.

Sintam-se livres para deixarem depoimentos de forma anônima e encontrar compreensão dos que passaram pela mesma situação. Busquem em mim uma figura conselheira.

Atenciosamente, "

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A mulher tentou se amaldiçoar internamente. Era óbvio que precisava criar uma persona para responder aos visitantes! Precisava ser uma figura sofisticada o bastante para passar seriedade, mas ao mesmo tempo precisava gerar empatia e, acima de tudo, manter a identidade de Nathalie longe o suficiente dos curiosos... algo como a identidade de HawkMoth, Ladybug e ChatNoir...

— Senhor... — Nathalie encarou o Agreste — Me diga o nome de um animal que seja misterioso.

— Para...? — ele arqueou uma das sobrancelhas.

— Vai saber amanhã, só me diga algum animal que não seja borboleta e nem algum animal associado com algum dos heróis — ela pediu novamente, deixando uma vasta gama dos que poderiam ser escolhidos.

Gabriel não respondeu absolutamente nada. Era facilmente notável o quão curioso ele estava, por mais que tentasse esconder isso virando-se de costas para a assistente e encarando o quadro.

— Senhor?

— Pavão.

Nathalie permitiu que um sorriso discreto fugisse enquanto terminava finalmente o texto da página.

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"Atenciosamente, la Paon. "

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Estava feito: uma de suas peças de base para o grande plano estava terminada! Bastava agora que ela assegurasse algumas visitas.

Com o novo layout da página e aquele "novo propósito", não havia problema algum em se ver associado com o LadyBlog, portanto, Nathalie enviou o link de sua página para o e-mail da aspirante a jornalista, Alya Césaire.

Sem ter mais o que fazer além de esperar, a assistente encerrou o expediente. Precisava descansar o máximo que conseguisse.

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Como em todas as manhãs, Nathalie acordou, administrou as agendas dos Agrestes, acordou Adrien utilizando o método da meia Plagg e foi para a grande sala de jantar. Como sempre, Gabriel Agreste estava gritando enraivecido com algum fornecedor:

— Não me importa se estão fora da época ou não! Eu quero um lote inteiro! — o Agreste fez uma breve pausa para bebericar o café, apenas para praticamente cuspi-lo e voltar a berrar: — UM LOTE INTEIRO! INTEIRO! Não me importa se vai desestabilizar o equilíbrio da natureza, eu quem não posso ficar desestabilizado! — mais uma vez ele fez uma pequena pausa, mas agora só respirou fundo e continuou — Minha assistente cuidará disso... Não, eu realmente não me importo... Claro! Pode falar até mesmo com a LadyBug, eu não ligo! — ele avisou, estendendo o celular para Nathalie.

Rapidamente, a assistente tomou o aparelho entre as mãos e tentou entender do que se tratava a ligação.

— Sou a assistente executiva do senhor Agreste, Nathalie. Poderia falar do que se trata o pedido? — normalmente ela saberia o que era, mas não haviam encomendas para aquele dia, logo, deveria ser algo particular.

— Simplesmente não tem como eu conseguir um lote de borboletas sem que o equilíbrio do zoológico fique prejudicado! Eu já tentei explicar isso ao senhor teimoso, mas não entra na cabeça dele! — o homem já tinha perdido completamente a paciência — Ou a metade de um lote ou nada!

— Só para ter certeza que eu entendi bem: o Senhor Agreste está encomendando um lote inteiro de borboletas? — Nathalie encarou o superior, completamente desacreditada — E elas, aparentemente, estão fora da época de procriação e por isso é impossível enviar um lote inteiro?

— Finalmente alguém entende a minha língua!

— Retornarei a ligação em alguns minutos com a resposta — ela desligou e encarou o chefe, tentando controlar os impulsos de esgana-lo.

— A resposta é: eu quero um lote INTEIRO! — Gabriel disse irritado depois de terminar de beber todo o café — Você pode pegar a minha encomenda amanhã, depois da reunião de pais e mestres.

— Para que seria necessário um lote inteiro de borboletas, senhor? — tentando manter as mãos sob controle, Nathalie endireitou a mexa de cabelo — Tem várias dessas criaturas asquerosas voando no sótão, para que precisaria de mais? — disse ela entre os dentes.

— Para o grande plano! Imagino que você esteja planejando algo grande, precisamos de várias delas...

Nathalie suspirou, deu alguns passos, respirou bem fundo e tentou se controlar para não gritar o quão desnecessário aquilo era: as borboletas que tinham eram mais do que o necessário! As pequeninas se multiplicavam como coelhos!

— Senhor, as borboletas, elas... — enquanto tentava pensar em palavras simples de explicar um ciclo daqueles insetos no covil, cujo a escuridão parecia proporcionar uma maior atividade reprodutora, finalmente ela se atentou a um comentário importante: — Disse para busca-las depois da reunião de pais e mestres?

— Sim — o Agreste respondeu calmamente, levantando-se da cadeira e observando a assistente com toda a tranquilidade que normalmente não era dele.

Era impossível Nathalie não saber sobre a reunião! Ela checava todos os e-mails centenas de vezes por dia, aquilo não teria simplesmente fugido dela... quando aquela reunião foi programada? No calendário escolar não havia nada sobre ela! Até a noite anterior não tinha aviso algum sobre reunião marcada!

— ... Quando?

— Amanhã de manhã. Lembre-se de pegar as borboletas na volta — ele comentou para reafirmar a sua encomenda.

— Por que eu vou ir na reunião de pais e mestres do Adrien? — a assistente colocou as mãos atrás das costas. Ela não poderia matar o superior antes do plano, por mais tentador que fosse.

— Faz parte do nosso acordo, lembra-se? — o homem também cruzou as mãos atrás das costas, lembrando-se de cada detalhe daquele acordo.

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Gabriel Agreste estava observando a vista das câmeras do sistema de segurança com certa agonia. Pareciam fazer horas desde que constatou que seu filho havia fugido de casa e que sua assistente foi atrás dele.

Quando viu o carro passando pelos portões da mansão, precisou se controlar para não sair correndo do ateliê e ir até o lado de fora esperar por Adrien e recebe-lo com um abraço. Apesar de ser o que ele mais queria, precisava agir com cautela o suficiente para não incentivar este tipo de comportamento – não era a primeira vez que Adrien fugira de casa.

Ele acompanhou o trajeto do filho e da assistente até onde as câmeras permitiam. Depois disso, não demorou até que ouviu o som da porta da frente se fechando.

Com certa urgência, ele saiu do ateliê enquanto já preparava um sermão carregado de exagero sobre todos os perigos do mundo exterior, mas encontrou apenas Nathalie na entrada. Adrien já tinha ido para o quarto, aparentemente.

— Adrien já está se preparando para as lições na sala de jantar, senhor — Nathalie comunicou com a indiferença de sempre, como se o rapaz jamais tivesse deixado a segurança da mansão.

— Ele estava indo para a escola?

— Exatamente, como o senhor havia dito — depois de receber um resmungo aborrecido, a assistente ousou perguntar: — Como sabia que ele estaria lá?

— Recebi um telefonema do diretor esta manhã, perguntando sobre a finalização do processo de matricula, Adrien se passou por mim para se matricular naquele lugar... — Gabriel colocou as mãos atrás das costas, lembrando-se que havia bem mais motivos para ficar irritado do que preocupado com o filho — Do que adiantou eu explicar tantas vezes que ir para a escola não é o melhor para ele se meu filho simplesmente ignorou tudo e fugiu de mim? — as palavras foram ditas com um misto de ressentimento e irritação.

— Ele queria muito ir para a escola e fazer amigos...

— Eu sei, mas é perigoso...

— Mas ele queria tanto e... — a assistente se calou quando notou o olhar acusatório do superior sobre si.

— E? — ele arqueou uma das sobrancelhas, esperando a continuação.

— ... Eu... achei que seria o melhor para ele e concordei em ajudar. Quando o senhor recusou eu simplesmente deixei a matricula de lado, não esperava que ele fosse fugir!

— Nathalie! — Gabriel cuspiu aquele nome como se estivesse falando um xingamento.

— É o melhor para ele! Ele precisa de amigos!

— Eu decido o que é melhor para o meu filho!

Aquilo foi o suficiente para que Nathalie entendesse que aquela conversa não levaria a lugar nenhum. Gabriel estava certo, ele era o pai de Adrien e era ele quem deveria saber o que era melhor para o filho, já que Emilie não estava mais lá. Ela suspirou pesadamente e foi para a sala de jantar, continuaria sendo a tutora de Adrien por mais algum tempo.

Gabriel ficou encarando-a até sumir de vista, apenas para ter certeza de que a última palavra foi a dele. Depois, voltou para o ateliê e planejou cada palavra do sermão que daria ao filho. Quando finalmente encontrou as palavras certas para usar, foi até os dois e interrompeu a aula:

— Excelente! — Nathalie exclamou com algum acerto de Adrien, sem notar que o superior tinha acabado de passar pelas portas. Era raro ouvir ela usar aquele tom sem indiferença.

— Me dê um minuto, por favor, Nathalie — Gabriel pediu, finalmente fazendo-se ser notado.

— Sim, senhor — a mulher afirmou, se distanciando da grande mesa de jantar e de seu aluno.

Adrien ficou encarando-a por alguns segundos, confuso, e logo em seguida encarou o pai. Para ele ir falar algo diretamente, deveria ser realmente sério ao ponto de tira-lo do trabalho.

— Você não vai para a escola, eu já disse!

O mais novo ficou claramente assustado com aquilo, ou melhor, desapontado. Para a sorte de Gabriel, aquele olhar foi direcionado para Nathalie - o filho deveria estar achando que ela havia contado tudo. A assistente encarou o chão, sem possibilidade alguma de explicar, mas Adrien tentou fazer isso por si mesmo:

— Mas pai... — e, antes que qualquer outra palavra conseguisse ser dita, ele foi interrompido.

— Tudo o que você precisa está aqui, onde eu possa ficar de olho em você. Você não vai sair para esse mundo perigoso!

— Não é perigoso, pai. Eu sempre fico preso aqui sozinho, por que eu não posso sair e fazer amizades como todo mundo? — mais uma vez, Adrien tentou se justificar, apenas para ser interrompido novamente:

—Porque você não é igual a todo mundo: você é meu filho! — aquilo foi o suficiente para que o rapaz se calasse de vez e desistisse. Notando isso, Gabriel precisava colocar as coisas nos trilhos mais uma vez: — Continue — ele pediu para Nathalie. Ela não havia tirado os olhos dele um momento sequer, como se o julgasse por todas as palavras ditas.

Gabriel não deu tempo para contestações e nem mais nenhuma desculpa. Em passos rápidos, ele deixou os dois sozinhos e voltou para o Ateliê. Não demorou mais do que poucos minutos até que Nathalie se juntasse a ele, parecendo estar pronta para mais uma discussão.

— Mandei continuar a aula... — ele encarou a assistente por cima da sua tela de trabalho.

— Achei melhor dar um intervalo ao Adrien.

— Por que?

— Porque ele saiu correndo logo depois que o senhor saiu. Provavelmente está jogado na cama e se perguntando o motivo de não poder ter amigos! Senhor, ele precisa de companhia! — Nathalie perdeu o pouco da calma que estava lutando para manter desde a fuga de Adrien.

— É perigoso lá fora!

— Ele vai amadurecer mais! Vai aprender a reconhecer os perigos e evita-los com o tempo!

— Já disse que não!

A esta altura, os dois já estavam frente a frente, discutindo sem se importarem com a altura.

— Prometo que ele não vai se atrasar ou faltar em qualquer compromisso, deixe ele ir à escola!

— Não! O melhor para ele é continuar em casa!

— Senhor... — Nathalie respirou fundo antes de apelar para a última coisa que poderia usar como vantagem: — Sem o Adrien estar presente, vai poder se dedicar melhor em ser o HawkMoth...

— E? — claramente, o Agreste levava a proteção do filho muito mais à sério do que seu "passatempo".

— E não vai precisar cumprir nenhuma responsabilidade escolar, eu posso cuidar de tudo...

— Vou pensar sobre isso.

— E eu vou pensar sobre o sistema de janelas retráteis...

A assistente observou o superior voltar ao trabalho, sabia que aquela discussão estava ganha.

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— Eu estava me referindo à outra coisa — Nathalie suspirou pensando em todas as coisas que precisaria remanejar para comparecer na tal reunião, não valeria à pena — Eu não posso ir em uma reunião de pais e mestres no seu lugar!

— E por que não?

— Porque eu não sou uma das professoras dele e nem uma das responsáveis, não tem sentido algum eu ir.

— Claro que tem: você era a tutora dele e é uma das responsáveis legais. Lembre-se de pegar o meu lote de borboletas — ele disse mantendo a tranquilidade em níveis incomuns, enquanto deixava a assistente sozinha no salão.

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Enquanto isso, Adrien estava terminando de se aprontar para a escola.

Apesar de ter sido acordado de um jeito nem ao menos ético, ele estava mais disposto do que nunca para as aulas do dia: seria a entrega da redação. Talvez os demais colegas de classe tivessem feito trabalhos mais elaborados, mas nenhum deles teria um tema tão interessante quanto o que ele.

— Ainda dá tempo de fazer sobre o ChatNoir... — Plagg comentou com esperança enquanto enfiava um pedaço de queijo na boca.

— Já disse que não... — Adrien resmungou, estava terminando de colocar tudo o que iria precisar na bolsa.

— E se você esquecer essa redação em casa?

— Ela já está na bolsa, Plagg — o rapaz sorriu de canto — Com certeza vão ter várias redações sobre o ChatNoir.

— Mas nenhuma delas vai ser feita pelo próprio ChatNoir! — o gatinho preto resmungou — Já colocou meu queijo extra?

— Já, já coloquei o seu queijo fedorento...

— E já falou com o robô sobre a reunião urgente?

— Encaminhei o e-mail da senhorita Bustier assim que a Nathalie saiu do ateliê. Ele já deve ter lido e não vai ter como ela ir no lugar dele — o rapaz sorriu esperançoso — A menos que ele esteja ocupado demais...

— Com certeza ele vai estar ocupado demais, garoto... — Plagg pousou nos fios loiros do dono — E qual o problema da Nathalie ir na reunião?

— As redações vão ser entregues, ela não pode ler o que eu escrevi de jeito nenhum!

— Avisei que estava meloso demais — o gatinho disse com certo deboche.

— Não é isso, Plagg! Ela já anda estressada com tudo, vai ficar irritada comigo de verdade se ler aquilo e descobrir que eu encontrei...

— Ela mesma disse que nunca ficaria irritada com você! — o gatinho negro interrompeu e cruzou os braços — Se eu fosse você, aproveitava essa vantagem e encomendava um caminhão inteiro de queijo.

— Você comeria tudo em dois minutos! — Adrien deixou uma risadinha escapar.

— Pode apostar!

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Horas depois, Adrien já tinha sido deixado no colégio Dupont e Nathalie já estava de volta, depois de resolver algumas pendências bancárias. Ela passou o caminho todo pensando nas palavras certas que usaria para a explicação de seu plano, resolvendo ao final que utilizaria algumas imagens também – estilistas eram mais visuais.

Quando a assistente atravessou as portas do ateliê encontrou Gabriel observando o quadro dourado como sempre. Ele parecia distraído, mas bastou que ela desse alguns passos para que recebesse um olhar ansioso.

— Posso finalmente saber sobre o que planejou? — o superior indagou praticamente como uma cobrança e, ao receber um aceno positivo, foi até a grande mesa de reuniões no centro do cômodo — Imagino que será necessário muito tempo de preparação...

— Na verdade, não — ela deixou um ar de sorriso aparecer, enquanto caminhava até ele — Utilizei alguns artifícios e algumas informações, tudo deve estar pronto em alguns dias, no máximo.

— Quero ouvir cada detalhe.

— Tudo começa com uma das suas vítimas mais poderosas e fáceis de controlar: Lila Rossi, vulgo, Volpina. Ainda não consegui me aprofundar nas causas especificas de cada akumatização, mas geralmente o motivo é a irritação ou desespero. As ilusões dela vão causar isso em todas as pessoas.

— E como? — ele observou a assistente com certa dúvida, mas tudo o que ela fez foi mostrar o calendário, mais especificadamente: um dia próximo — No Dia dois Heróis...

— Sim. Ela odeia a LadyBug, este dia fará com que a raiva dela cresça em níveis suficientes para que ela coopere com seja lá o que você mandar. Vamos ter o anuncio do trailer do filme para proporcionar ainda mais irritação e ataca-la diretamente...

— Espera... — Gabriel suspirou — Nathalie, do que está falando? Trailer de filme?

— O filme de animação sobre a LadyBug e o ChatNoir que o senhor está financiando, lembra-se? O trailer vai ser transmitido no Dia dos Heróis... — ela encarou o superior — Imaginei que talvez pudesse usar isso para...

— Não lembro de estar financiando filme algum, ainda mais sobre a LadyBug, Nathalie.

— Seu filho dublou um dos personagens, como pode não se lembrar? — ela ergueu as sobrancelhas, incrédula — Adrien quem pediu para fazer o teste de voz, o senhor financiou para que ele ficasse com o papel.

— Eu realmente fiz isso?

— Fez!

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Há alguns meses atrás, Adrien invadiu o ateliê do pai com um panfleto nas mãos e um sorriso contagiante. Era raro ele entrar naquele lugar sem bater na porta antes, acontecia apenas quando ele estava eufórico demais com alguma coisa.

— Pai! — ele chamou, mas não esperou ser convidado para se aproximar — Por favor, me deixa fazer esse teste? — o loiro estendeu o panfleto.

— Quantas vezes eu preciso lembrar que você deve bater antes de entrar, Adrien!? — Gabriel grunhiu, encarando o filho com o semblante mais severo que conseguia.

— Desculpe, pai... — o rapaz encarou o chão, mas no momento seguinte já estava animado mais uma vez, balançando o papel que tinha nas mãos — Olha isso, por favor!

Por mais irritado que estivesse com a interrupção, Gabriel não tinha coragem de expulsar o filho do ateliê ou ignorar seja lá o que ele queria. Com certo custo para retomar a indiferença, ele pegou o panfleto e começou a analisar.

— Um teste para... — ele arqueou uma das sobrancelhas — ... dar voz à um personagem?

— É! — os olhos verdes ficaram com ainda mais brilho — É o ChatNoir de um filme de animação, por favor!

— Eu não sei se é realmente algo que combine com... — Gabriel tentou buscar palavras que resumisse o quanto aquilo fugia dos trabalhos de modelo do filho — ... suas habilidades...

— Por favor... — Adrien pediu novamente, suplicante.

Gabriel encarou a assistente e Nathalie afirmou positivamente na mesma hora. Ela sabia o quanto Adrien gostava daquele tipo de filme, poder dar a voz à um personagem que faria par com sua amada LadyBug o deixaria mais feliz do que qualquer coisa... quase qualquer coisa.

— Nathalie vai verificar na sua agenda — o Agreste mais velho respondeu, finalmente, enquanto entregava o folheto de volta.

— Obrigado, pai! — o rapaz não se conteve e abraçou ao pai, deixando claro o quão feliz estava com tudo aquilo. Gabriel, mesmo sem saber ao certo como reagir a demonstrações tão espontâneas de carinho, retribuiu ao abraço.

— Pode ir amanhã de tarde... — a assistente comentou depois de checar toda a agenda e fazer algumas alterações.

— Obrigado, Nathalie!

No dia seguinte, em um dos raros jantares em que Gabriel e Adrien estavam juntos, o mais velho notou que o filho estava completamente desanimado. Para alguém que no dia anterior parecia estar empolgado para o teste, agora o rapaz parecia mais angustiado do que qualquer outra coisa...

— Como foi o teste, filho? — Gabriel perguntou, tentando abrir uma brecha para perguntar sobre o motivo daquele desanimo.

— Não é algo que combine com as minhas habilidades... — o loiro suspirou, empurrando o prato para longe — ... Com licença.

— Adrien, o que foi?

— Só... — os olhos verdes encararam o pai e logo depois voltaram-se para baixo — ... foi um dia puxado, só isso — foi tudo o que ele deu como justificativa antes de se retirar da sala de jantar.

— Realmente precisava comentar sobre o teste? — a assistente murmurou quando teve certeza absoluta que os dois estavam sozinhos — Se Adrien está desanimado assim, era obvio que o motivo é o teste de voz!

— Eu só queria saber como foi o dia dele! — Gabriel tentou se justificar — E o que deu tão errado no teste?

— O diretor queria alguém mais velho... — Nathalie suspirou — Provavelmente não vão escolher ele.

— Como iriam recusar o meu filho para algo do tipo? Ele seria um ChatNoir perfeito!

— Mas a voz dele... — antes que a assistente pudesse explicar melhor como funcionava o mundo da dublagem, que nada tinha a ver com aparência estética, foi interrompida.

— Nathalie, consiga o papel para Adrien.

— Mas senhor...

— Arrume um jeito, qualquer jeito! Se meu filho quer fazer a voz de um personagem, ele vai fazer!

O Agreste não esperou resposta ou confirmação, deixou a assistente sozinha no salão para pensar em algum jeito de lidar com aquilo. Para a sorte de Nathalie, o filme ainda não tinha atraído muitos investidores, seria a porta de entrada perfeita.

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— Não importa agora, o que importa é o plano. Não adianta ela deixar Paris com várias vítimas em potencial se eu só posso akumatizar uma pessoa de cada vez... — o superior apertou as têmporas. Aquilo, com toda a certeza, era a sua maior fraqueza.

— Está se esquecendo do real poder que essa joia mágica pode te dar, senhor...

— Que seria?

— Poder dar o poder que quiser para quem quiser! — notando que Gabriel não estava assimilando tudo, Nathalie foi mais especifica — Pode me dar o poder de aumentar o seu.

— Isso é... simplesmente... — ele se levantou, encarnado a assistente — ... a pior ideia possível!

— Como assim!? — ela também se levantou.

— Você já é perigosa o suficiente sozinha! Não vou dar poder algum a você!

— Mas eu não teria como... — e, antes que ela pudesse se explicar, foi interrompida.

— Não!

— Mas senhor...!

— A resposta final é não, Nathalie! É arriscado demais!

— Se me deixar explicar vai ver que eu não poderia fazer nada de arriscado ou comprometedor!

Antes que o Agreste pudesse retrucar mais uma vez, sentiu uma onda forte de sentimentos negativos o atingindo: mais uma pessoa seria um hospedeiro para seu akuma. Apressado, ele caminhou até o quadro dourado de Emilie e apertou os botões escondidos, dando uma breve justificativa para o término antecipado da "reunião":

— Eu preciso ir agora, Nathalie.

— Vai me ouvir quando voltar?

— ... Deseje-me sorte! — foi tudo o que ele disse antes de subir junto ao elevador.

— Desejo-lhe bom-senso... — a assistente murmurou, voltando para a própria mesa de trabalho.

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Há praticamente uma hora atrás, Adrien tinha acabado de entrar na sala de aula. A maioria dos colegas de turma ainda não tinham chego, os que estavam lá se concentravam em últimos detalhes do trabalho ou em discutir sobre os temas, como Alya e Nino:

— Você nem sabe quem ela é de verdade, é claro que o meu trabalho envolveu mais pesquisas! — o rapaz apoiou as mãos na mesa.

— Eu destaquei todos os motivos pelos quais a LadyBug é uma heroína de verdade! Você só colocou coisas aleatórias no seu trabalho para preencher a quantidade de linhas! — ela colocou uma das mãos na cintura.

— Um trabalho sobre o grande diretor Thomas Astruc alcança a quantidade de linhas brincando!

— Ah é? — Alya tomou a redação do namorado entre as mãos, dando uma rápida olhada — Então é realmente necessário saber que o nome do gato dele é Chachat? — ela arqueou uma das sobrancelhas.

— Foi uma curiosidade extra! — Nino tomou o trabalho de volta — E eu queria completar pelo menos vinte linhas...

— Vinte linhas!? — Marinette perguntou com certo pânico na voz, quase se descabelando enquanto tentava escrever ainda mais rápido.

— Amiga, você está mesmo fazendo a redação agora? — Alya balançou negativamente a cabeça — Quer ajuda?

— Não! — ela pensou melhor — Sim! — por fim, suspirou e apoiou o rosto sobre a mesa — Eu fiquei escrevendo e reescrevendo, eu não sei mais o que fazer...

Nino e Alya se entreolharam. Ela precisava de ajuda e, mesmo que não pudessem fazer muita coisa, estavam dispostos a ajudar.

— E sobre o que está escrevendo? — a morena se sentou ao lado dela, tentando ver o tema da redação.

— ChatNoir... — Marinette murmurou completamente desanimada.

— Talvez eu possa ajudar... — Adrien finalmente disse algo. Durante todo o tempo ficou observando a discussão dos amigos e pensando se realmente tinha escolhido um tema "valido".

— Você também escreveu sobre ele? — Nino perguntou olhando para as folhas que Adrien estava segurando.

— Não, eu escrevi sobre uma outra pessoa...

— LadyBug?

— Não, não é um super-herói de verdade, mas eu...

— Seja sobre quem for, você escreveu bastante coisa! — Alya comentou, olhando para as folhas também — Fez quantas linhas?

— Quarenta e duas — Adrien respondeu timidamente — E vocês?

— Vinte e uma — a administradora do LadyBlog sorriu, orgulhosa.

— Catorze e meia... — a garota de maria-chiquinha respondeu enquanto tentava escrever mais algumas palavras.

— Vinte linhas sobre uma pessoa importante para a história de Paris, uma super-herói comum e atual — Nino cruzou os braços, convicto de que falar sobre um diretor de cinema era mais correto do que falar sobre os heróis de Paris.

— Você quis dizer dezenove, né? O nome do gato dele não conta em nada para a redação! — Alya recomeçou a discussão.

— Pelo menos eu sei quem ele é e não precisei escrever dois parágrafos com suposições! — o outro retrucou.

— Já chega, crianças! — a voz doce e tranquila da professora interrompeu o casal — Por favor, todos em seus lugares — ela pediu, esperando até que todos já estivessem mais "calmos" e devidamente comportados — Vou ir de mesa em mesa para recolher as redações. Assim que todos já estiverem em sala, as apresentações poderão começar. Alguma pergunta?

— A-Apre... Apresentações!? — Marinette se desesperou ainda mais. Já tinha sido custoso o bastante escrever sobre o parceiro sem revelar algo comprometedor, apresentar aquele trabalho iria exigir ainda mais atenção e autocontrole.

— Claro! — Caline sorriu, recebendo olhares assustados dos alunos — Todos deverão falar sobre os temas e o motivo pelo qual os escolheram!

— Aposto que você escolheu falar sobre esse tal Thomas alguma coisa só por causa do gatinho dele... — Alya comentou de um jeito implicante, sussurrando as palavras para Nino.

— E eu aposto que metade da turma vai falar sobre a LadyBug — retrucou ele.

— E eu aposto que vocês dois estão loucos para se apresentarem primeiro, não é mesmo? — a professora encarou os dois alunos, divertida, enquanto começava a recolher os trabalhos.

— Se tem alguém aqui que merece ser a primeira, sou eu! — Chloé disse com sua habitual superioridade enquanto passava pelas portas da sala e ia para o centro, Sabrina vinha logo atrás dela, segurando a redação; Kim e Max também entraram, mas estes seguravam todo o equipamento necessário para usar o retroprojetor.

Por mais que a única intenção da Beurgeois fosse ser o centro das atenções, ela livrou tanto Alya quanto Nino de serem os primeiros.

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Horas haviam se passado desde que Gabriel foi para seu esconderijo secreto para exercer sua vilania sobre Paris. Nathalie estava tão entretida que nem se deu conta de quanto tempo havia se passado. Estava se dedicando ao trabalho e a montagem de uma apresentação em slides sobre o plano, até que recebeu uma ligação: era Gorila.

— Sim? — foi a única coisa que ela teve tempo de falar quando atendeu a ligação, o colega de trabalho a interrompeu e começou a disparar perguntas sem dar tempo para as respostas:

— Adrien está no colégio? Você falou com ele? Você sabe onde ele poderia ter ido? Ele ligou para você? Sabe se...

— Calado! — ela mandou, respirou fundo e depois continuou — Que monte de perguntas são essas!? Onde você está!?

— Colégio Dupont.

— Por que está ai?

— Vim buscar o Adrien — o guarda-costas respondeu — Está tão ocupada assim que nem notou que horas são? Pelo menos sabe o que está acontecendo?

— Do que você está falando?

— Parece ser mais um daqueles vilões loucos, os alunos estão destruindo a escola — Gorila tentou explicar, mas estava nervoso e nem ao menos sabia ao certo o que estava acontecendo — Adrien ligou para você? Disse onde poderia estar? Eu já dei duas voltas no quarteirão e não encontrei ele, não sei se ele está lá dentro ainda e...

— Fica calmo! — Nathalie mandou, interrompendo o colega — Entra no colégio e procura o Adrien, eu vou começar a procurar também, quem encontrar primeiro avisa ao outro.

— Certo!

Ela encerrou a ligação, mordendo o interior das bochechas e tentando controlar a vontade de ir até o esconderijo e atacar diretamente o causador de tantos problemas. Na maioria dos ataques, o colégio onde Adrien estudava quase sempre era atacado, ele sempre corria riscos de se machucar!

Nathalie encarou o relógio, já era para o Agreste estar em casa. Em parte, ela se culpou: se não tivesse se distraído tanto, teria notado a falta dele... mais uma vez, ela colocou outras coisas na frente de Adrien e agora ele poderia estar em apuros.

A assistente balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos negativos e se concentrar no que precisava fazer:

Primeiro ela ligou para todos os colegas de Adrien, incluindo os da classe de esgrima; os poucos que atenderam não sabiam de nada.

Depois foi a vez de ligar para todos os conhecidos a quem o modelo poderia pedir ajuda, desde pais de amigos a até mesmo o fotógrafo Vincent. Ninguém sabia sobre Adrien e o pior: a maioria também estava desesperada por notícias sobre os próprios filhos.

Por fim, foi a hora de recorrer a um dos últimos lugares onde ela gostaria de encontrar Adrien: hospitais e prontos-socorros de Paris. Apesar do nervosismo, ela conseguiu fazer uma extensa lista com todos os números e começou a ligar para cada um deles, fornecendo a descrição do rapaz e se dividindo em duas cada vez que recebia uma recusa: ficava triste por não o encontrar, mas ficava com um pouco de esperança de que ele ainda estivesse bem.

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HawkMoth bateu a bengala contra o chão quando sentiu a ligação com sua vítima ser desfeita.

As longas horas que havia passado ali, trabalhando arduamente para garantir a vitória, fez com que ele não tivesse forças de fazer seu discurso cheio de promessas de vingança. Ele queria fingir que havia perdido apenas mais uma luta, não a luta mais longa que já teve, principalmente quando estava tão perto de conseguir ao menos um dos Miraculous que precisava.

Mais uma vez, ele bateu a bengala contra o chão. Em um murmúrio esgotado, ele desfez sua transformação e voltou a ser apenas um dos maiores nomes da moda de Paris: Gabriel Agreste.

— Mestre... — Nooroo sussurrou, voando ao redor dele e tentando analisar os sentimentos que Gabriel emanava — Deveria ouvir a senhorita Sancoeur.

— Tem razão, Nooroo... — e, para o espanto da pequena criatura roxa, o Agreste concordou — Vou ouvir o plano dela.

— Não, deveria deixar que o tempo avance até que a medicina seja capaz de... — antes que o pequenino pudesse explicar sobre o que estava falando, o olhar gélido de seu mestre fez com que ele se calasse.

O silencio permaneceu, sendo o único barulho audível naquele ambiente os sons de engrenagens se movendo. O kwami procurou um esconderijo antes que o elevador acabasse de submergir no ateliê.

Para a surpresa de Gabriel, ele encontrou a assistente andando de um lado a outro do cômodo, descabelada, com lágrimas e parte da maquiagem escorrida pelas bochechas e com o telefone grudado ao rosto.

— Isso, isso! Loiro e com olhos verdes! — ela disse entre alguns soluços — A-Achou!? Ele está ai!? Como assim estava!? Como podem liberar uma criança!? — Nathalie respirou fundo, pareceu se acalmar um pouco e então continuou — não, não era ele... Ele tem só quinze anos.

— Nathalie? — o Agreste chamou com certo receio em se aproximar — Com quem está falando?

— Estava... — ela respirou fundo, passando as mãos no rosto — Não importa, eu não achei Adrien lá também — e, sem dar mais qualquer outra explicação, ela voltou para a frente do computador e começou mais uma busca por telefones de hospitais e coisas do gênero.

— Achar Adrien? — e, como num passe de mágicas, todo o esgotamento físico de Gabriel foi substituído por irritação e preocupação — Onde meu filho está!?

— Eu não sei! Ele sumiu desde o ataque do Atacama e eu não encontrei ele até agora! — Nathalie usou as mãos para gesticular, a voz saindo arranhada com certa lástima.

— Akuma, Nathalie! Akuma! — o homem grunhiu enquanto começava a andar de um lado ao outro — Você precisa tentar ligar para ele! Para os amigos dele! Escola! Qualquer lugar que ele possa estar!

— Eu sei, eu sei! Eu já... — a assistente deu uma pequena pausa para fungar o nariz — Eu já fiz tudo isso e não encontrei ele ainda!

— Como você consegue ser tão irresponsável com o Adrien!? — o Agreste encarou a assistente com ressentimento — Você falhou comigo, Nathalie... Comigo e com o meu filho.

— Não preciso que você me fale o óbvio, senhor...

Realmente, tudo o que Nathalie menos precisava naquele momento era sentir ainda mais culpa ou ficar ainda mais estressada. Ela já tinha quebrado a sua pose de profissionalismo e mandado a sua habitual indiferença para o inferno, agora ela era apenas uma pessoa preocupada, não precisava de ajuda para ficar pior.

— Precisa! Você precisa entender que ele é meu filho, não seu. Precisa entender que o que você está sentindo nunca vai poder se comparar ao que eu sinto!

— "Ele é meu filho, não seu..." — a assistente murmurou, encarando o superior — Já me disse isso umas mil vezes, sabia?

— E parece que nunca adianta de nada! — Gabriel colocou as mãos atrás das costas, tentando se controlar o máximo possível e pensar sobre o que faria.

— Eu nem sou mãe dele conheço o Adrien muito melhor do que você... — a voz dela saiu entre os dentes — É por isso que nunca adianta!

— Nathalie, eu...! — antes que o Agreste conseguisse terminar seja lá o que iria falar, foi atingido por um de seus manequins de gesso. Para a sorte dele, os reflexos permitiram que ele segurasse a peça e a impedisse de cair no chão, mas a custo de todo o folego e suas reservas de energia.

— Já que você tem tempo para ficar apontando as minhas falhas como assistente, porque você não começa a agir como um pai e passa horas com o traseiro grudado em frente ao computador buscando números de pronto-socorro porque seu filho desapareceu e nenhum conhecido dele sabe onde ele está!? — ela encarou o superior, respirando fundo e continuando a falar: — Ah, já sei! É porque você fica muito ocupado tentando roubar joias idiotas de duas crianças enquanto eu faço isso no seu lugar! Para começar, se você não tivesse atacado a escola do seu próprio filho, ele estaria aqui!

— Foi SUA ideia colocar ele em uma escola!

— Toda criança precisa de outras crianças! Se ele estivesse sozinho aqui até hoje, ele já teria se matado! — enraivecida, ela se armou de mais um dos manequins de gesso — E nem vou me repetir dizendo de quem foi a ideia brilhante de destruir a escola!

— Está falando que eu não sou um bom pai!? Depois de tudo o que eu fiz por essa família!? — tomado pelo calor do momento e uma súbita adrenalina correndo pelas veias, ele ergueu o manequim que estava segurando: se alguém podia quebrar aquele ateliê inteiro, este alguém era ele e apenas ele.

— ESTOU! — ao fim da confirmação, Nathalie jogou a peça que segurava em cima do chefe.

Talvez pela resposta cruel dita em tom mais alto, talvez pelo cansaço acumulado de tantas horas como HawkMoth, talvez até mesmo por uma falha de comunicação entre o cérebro e os músculos. Em suma, não importava a causa, o que importava era que Gabriel Agreste, o grande estilista, estava estirado no chão com os restos estilhaçados de seus dois manequins próximos a ele. O homem mal teve tempo de respirar e entender como havia sido pego daquele jeito antes que precisasse se esforçar e rastejar pelo chão para conseguir não ser atingido pela terceira peça de gesso.

— Foi por um bem maior! — o Agreste tentou se justificar e apaziguar as coisas. Nathalie estava verdadeiramente irritada. Era um risco não só a ele como para a mansão em si: ela iria destruir tudo até não sobrar nada.

— Bem maior é a segurança e felicidade do seu filho! — ensandecida, ela começou a buscar por alguma coisa que pudesse arremessar na direção do chefe, mas se conteve ao constatar que sobraram apenas as fotos de Adrien como decoração.

Nathalie continuou as buscas por algo "jogável" até encontrar uma foto de Adrien, em um porta-retratos escondido em um dos armários, de quando o rapaz ainda era uma criança. Sem nem mesmo entender o porquê, ela agarrou a moldura e tentou se acalmar, mas na verdade apenas voltou a se culpar por tudo o que estava acontecendo: enquanto ela perdia tempo brigando, Adrien poderia estar machucado ou até mesmo...

— Coloque no lugar! — o superior mandou.

— Não! — como se fosse possível, ela se agarrou ainda mais ao objeto, como se isso fosse capaz de trazer o Agreste mais jovem de volta para casa.

— Você já destruiu o suficiente, Nathalie! — impaciente, Gabriel caminhou até ela e a segurou pelos ombros. Parte dele queria esgana-la por tudo aquilo, outra queria fugir o mais rápido possível e uma pequenina parte restante queria que ele fosse um "melhor amigo" de verdade — Devolva...

A assistente chegou a abrir a boca para dar a resposta, mas nada saiu. Ela respirou fundo e, por mais que tenha tentado segurar as lagrimas, elas voltaram a escorrer pelo rosto. Ver Nathalie esboçar alguma emoção já era algo raro, ver ela demonstrando fraquezas chegava a ser surreal.

Sem saber como reagir, o Agreste a balançou um pouco em uma tentativa de "traze-la de volta", seja lá o lugar aonde a verdadeira Nathalie pudesse estar. Como não adiantou, sentindo-se frustrado, ele achou melhor mudar o assunto: ao invés de brigar com ela pelo desaparecimento do filho, iria brigar por como o plano dela poderia ser uma catástrofe.

— Você é instável demais, é por isso que nunca daria certo!

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Adrien observou a mansão Agreste se aproximando com certo nervosismo.

Já era noite e o rapaz não se lembrava do que havia acontecido na maior parte de seu dia. Era como se HawkMoth tivesse roubado algumas horas do tempo de seu tempo, algo que só poderia ser descrito como um sentimento de perca – pobres vítimas, sempre passavam por isso. Claro, sua Lady iria contar cada detalhe de tudo para ele... mas apenas depois.

Quando a luta terminou, ela foi para um lado e ele para outro, mais especificamente: colégio Dupont. Lá, ele encontrou o guarda-costas logo na entrada, enraivecido com o aparelho celular.

"Foi mal! Eu me escondi em um dos armários e acabei ficando trancado! ". A desculpa esfarrapada foi o suficiente para que o grandalhão se acalmasse e agisse como se nada tivesse acontecido, como se apenas tivesse ido buscar o filho do patrão depois das aulas.

Quando o carro parou, o loiro saiu e correu para a entrada. Começaria a pior parte: se explicar para o pai e para Nathalie. Considerando o número de ligações que tinha recebido enquanto esteve fora, os dois estariam como feras.

Sem a mesma urgência que teve no trajeto até as portas principais, Adrien caminhou lentamente até as portas do ateliê. Estranhando a quietude de tudo, ele abriu lentamente uma das portas, até ter uma brecha o suficiente para ver algo que jamais imaginou:

Seu pai, o homem que sempre estava em sua elegante pose de indiferença, parecia estar mais nervoso do que nunca. Nathalie, que era sempre apática e indiferente, estava chorando...

Reparando melhor, Adrien notou o que os adultos estavam fazendo, ou melhor, o que Gabriel estava fazendo: ele estava chacoalhando a assistente, algo longe de parecer reconfortante. No chão, próximo a eles, estavam os restos do que um dia foram manequins de gesso.

— Você é instável demais, é por isso que nunca daria certo! — o estilista disse quando afastou as mãos da mulher. Ele parecia mais irritado do que nunca, o que explicava toda aquela destruição.

— Se você me escutasse pelo menos uma vez... — uma murmurou, praticamente em um sussurro.

— E para que!? — Gabriel colocou as mãos atrás das costas e começou a ziguezaguear pelo cômodo — Olhe só o seu estado! Você precisa aceitar quando as coisas não dão certo, Nathalie! Acontece!

Como se ter sua eficiência duvidada fosse o pior dos crimes, Nathalie se obrigou a parar de chorar para poder se defender:

— Mas ainda não deu errado! Ainda nem tentamos!

— E nem vamos tentar! Você é instável demais, não tem como algo assim dar certo! — ele parou de andar e suspirou pesadamente, antes de encarar a assistente mais uma vez — Encontre o meu filho.

— É o que eu estou tentando fazer há horas, senhor... — ela se justificou, se abraçando um pouco mais ao porta-retratos.

— Então faça direito, ele não vai simplesmente...!

— Pai, Nathalie, eu já cheguei! — Adrien avisou do lado de fora, se afastando da porta e correndo para as escadas.

Por mais doloroso e estranho que fossem suas interpretações sobre o que os adultos estavam falando ou fazendo, ele não iria deixar que continuassem discutindo por causa dele. O que não quer dizer que ele estava disposto a conversar e entender tudo aquilo.

— Adrien!? — Gabriel saiu o mais rápido que pôde do ateliê, queria ter certeza de que o filho estava bem. Encontrou ele subindo as escadas, praticamente saltitando pelos degraus para ir mais rápido.

— Eu preciso de um banho! — o rapaz justificou, nem ao menos olhando para o pai — Coisa de modelo! — explicou, entrando no quarto e batendo a porta.

O estilista continuou parado no mesmo lugar enquanto reprimia os impulsos de ir atrás dele. Haviam coisas para serem feitas, lidar com Nathalie era uma delas... ou algo que ele poderia mandar outra pessoa fazer.

— Você... — ele encarou o guarda-costas do filho que tinha acabado de entrar — Lide com ela — mandou, apontando para dentro do ateliê. Sem esperar por respostas, ele subiu as escadas.

O grandalhão foi até a porta do grande cômodo, esperando encontrar um monstro sanguinário e seu rastro de destruição, mas encontrou apenas algumas coisas quebradas e a colega de trabalho chorando, agarrada à um porta-retratos. Era de se esperar que ela estivesse assim, afinal de contas, ela se preocupava com Adrien.

Para a sorte de Gabriel, Gorila sabia exatamente como lidar com uma "Nathalie quebrada".

Apressadamente, ele foi até a cozinha e voltou minutos depois, armado de um copo com água e um pote de geleia de frutas – sabia que a colega não deveria ter comido nada nas últimas horas, ela andava ocupada demais.

— Nathalie... — ele chamou, observando atentamente enquanto ela colocava o objeto potencialmente perigoso sobre a própria mesa de trabalho.

— Hun? — ela finalmente deu algum sinal de atenção, enquanto se deixava cair sobre a cadeira.

— Sinto muito — Gorila avisou previamente, jogando toda a água do copo em cima da colega.

Diferente das outras vezes, ela não ficou irritada. Estava cansada demais para realmente se importar com aquilo. Nathalie simplesmente passou as mãos pelo rosto e respirou fundo, já tinha ficado estressada demais para um dia só.

— Adrien já está bem... — ele comentou, entregando o pote de geleia para ela, observando com certa graça o jeito desesperado que ela ficava em relação à doces, em alguns segundos ela já tinha enfiado duas colheradas da calda açucarada na boca — E o Gabriel foi falar com ele.

— Ele... o que? — ela arqueou uma das sobrancelhas.

Aquilo era o cumulo! Gabriel não sabia lidar com o filho nem mesmo em circunstâncias normais, quem dirá depois de um acontecimento como aquele!? Adrien precisava de um tempo, de descanso, de se sentir querido... não precisava que o pai exigisse explicações ou o culpasse por ter sumido! Não precisava de um sermão!

Entretanto, Nathalie iria acabar de comer toda a geleia de frutas antes de ir resolver aquilo. Comeria de um jeito desesperado e enraivecido, mas ao menos comeria alguma coisa.