UN CADEAU POUR MAMAN
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Como em tantas outras vezes depois de um dia cansativo, Adrien apenas entrou no quarto e se jogou na cama.
Normalmente, cenas da luta como ChatNoir preenchiam sua mente até que ele pegasse no sono. Porém, dessa vez ele se lembrava de praticamente nada, provavelmente efeito de ter se tornado uma das pessoas manipuladas pelo Ditador. Talvez Plagg se lembrasse de algo, mas o pequenino já estava aninhado em um dos travesseiros e parecia estar entregue ao sono.
Antes que Adrien pudesse fazer o mesmo que o kwami, foi forçado por seus instintos a se arrastar pela cama e esconder o pequeno ser por baixo das roupas: ouviu passos pesados se aproximando pouco antes da porta do quarto ser aberta abruptamente.
— Adrien! — Gabriel exclamou assim que colocou os pés dentro do quarto, parecia genuinamente preocupado — Filho, você... — os olhos azuis percorreram o rapaz, buscando qualquer mínimo detalhe que não estivesse tão perfeito como sempre — ... você não ia tomar um banho? — ele arqueou uma das sobrancelhas, constatando que o mais novo estava perfeitamente bem.
— É que... estou cansado demais para o banho agora — um sorriso sem graça acompanhou a desculpa idiota.
— Cansado? Você também foi forçado a destruir a escola? — o mais velho franziu minimamente a testa, sentindo uma grande culpa por ter falhado em protege-lo.
— Não, não! Nada parecido com isso! Eu nem sequer fui forçado a ajudar ele e lutar contra a LadyBug! Eu nem poderia me lembrar caso eu fosse, porque as pessoas acabam esquecendo de tudo, mas com certeza eu não fiz nada disso!
Talvez pelo jeito desengonçado com o qual o filho se explicou, talvez pelo excesso de "detalhes técnicos" ou talvez apenas por curiosidade de um pai preocupado, Gabriel perguntou:
— Então onde você esteve todo esse tempo?
Sentindo-se uma lebre indefesa entrando numa armadilha, Adrien preferiu não se arriscar contando a desculpa idiota que veio ensaiando mentalmente durante a volta para casa. Ele simplesmente preferiu responder com mais uma pergunta – bem idiota, diga-se de passagem:
— Como assim?
— Você sumiu por horas e eu fiquei muito preocupado com você, filho... — ele respondeu sinceramente, por mais que sua preocupação tivesse durado apenas alguns minutos.
— Eu só fiquei preso dentro de um armário — o loiro respondeu quase em um sussurro, praticamente cruzando os dedos para que o outro confiasse em suas palavras — Vi no LadyBlog que é um dos dez melhores lugares para se esconder — complementou, como se aquilo fosse mais convincente agora.
— E por que não atendeu os telefonemas?
— Telefonemas?
— Pedi para a Nathalie tentar todos os locais possíveis, até mesmo para hospitais... — o Agreste mais velho suspirou, se aproximando da cama e sentando-se em uma das extremidades. O olhar dele não estava mais em Adrien — Eu sabia que Nathalie era incompetente para tomar conta de você.
Agora, Adrien estava oficialmente chocado.
Desde o começo de toda aquela história de dupla identidade ele se perguntava o que poderia acontecer caso seu pai descobrisse que ele fugia de casa praticamente todos os dias, aí estava a resposta: ele ficaria desesperado. Ele sabe perfeitamente bem que Gabriel Agreste se desespera de um jeito... diferente.
A possível discussão que ele interrompeu no ateliê estava explicada: o pai estava discutindo com a assistente, jogando toda a culpa em cima dela. Nathalie já andava sobrecarregada e magoada com ele o suficiente para aturar mais aquilo. Não é como se ela realmente corresse algum risco de ser demitida... mas a vaga possibilidade de ela ficar farta da situação e ir por conta própria, fez com que o pânico fosse gerado na mente de Adrien.
— Ah, as ligações perdidas! Acabei de lembrar: eu deixo o celular no silencioso para não me desconcentrar nas aulas. Nathalie sempre me pede para me focar nos estudos! — o rapaz sorriu, tentando parecer o mais convincente possível — Falando em focar em estudos, amanhã é minha reunião e...
— Vou estar ocupado demais, mas já pedi para que Nathalie fosse no meu lugar. Porém, estou seriamente em dúvida se ela é capaz de me representar neste tipo de assunto... — Gabriel o interrompeu, deixando claro que sua confiança na assistente estava abalada, ou melhor, sua confiança na estabilidade emocional dela estava abalada.
— Claro que é! — rapidamente Adrien fez questão de defender a antiga tutora. Ela já tinha deixado de comparecer no desfile, se o próprio pai não poderia comparecer na reunião de Pais e Mestres, era ela quem deveria estar lá para Adrien.
— Filho, você com certeza já deve ter notado que ela... — depois de buscar palavras que dessem exatamente a noção que ele queria, o mais velho as trocou por conotações completamente aleatórias — ... ela está se envolvendo demais nos assuntos particulares, está sobrecarregada e talvez seja melhor mantê-la afastada de nós dois.
— Mas...
— Você é meu filho, Adrien. Quem escolhe o que é melhor para você sou eu, não a minha assistente. — as palavras saíram bem mais duras do que ele queria, a justificativa foi ainda pior: — Nathalie é apenas isso, a minha assistente. Envolver ela nos demais assuntos, como se fosse uma boa amiga, já se mostrou ser prejudicial.
Na mente de Gabriel, todas aquelas palavras não passavam de uma explicação simples, algo como: "É melhor eu aprender a separar a minha amizade com ela do trabalho em geral – e a vilania - e não a sobrecarregar com os seus cuidados, ela anda estressada e isso pode significar um risco para mim e para você".
Na mente de Adrien, tudo aquilo fez um sentido completamente errado, errado ao ponto de ele sentir medo pelo que poderia ser feito a Nathalie: "Ela não é da família, não pode se aproximar como família e o melhor é que ela entender essa distância. Ela está até mesmo tentando se aproximar de você! Ela é apenas uma assistente, nada mais e nada menos para nós dois. Qualquer coisa além disso é prejudicial... para ela! ".
— Mas pai... — ele sussurrou, tentando pensar em algum jeito de mostrar que Nathalie era importante, era da família... que foi ela quem juntou aquela família!
Antes que mais qualquer outra palavra fosse dita, algumas batidas suaves foram dadas à porta, antecedendo a abertura da mesma. Nathalie entrou, já recomposta e com sua habitual indiferença estampada no rosto.
— O jantar será servido em quinze minutos, senhor — ela encarou o Agreste mais velho e depois, com o olhar que tentava esconder a preocupação, ela observou Adrien atentamente — Foi um dia longo. Prefere jantar no quarto hoje?
— Ele desce assim que terminar o banho — Gabriel respondeu pelo filho, se levantando da cama e evitando ao máximo ter contato visual com Nathalie enquanto saia do quarto.
Uma vez a sós com o rapaz, a assistente permitiu que parte de sua máscara de indiferença fosse dissipada. Ela caminhou até a beira da cama, colocando as mãos sobre os ombros de Adrien e tentando parecer minimamente terna – fazia ideia de que Gabriel não deveria ter dado palavras muito gentis a ele.
— Está realmente bem para descer, Adrien?
Ela não recebeu resposta alguma sobre aquilo, mas recebeu um abraço. Diferente da primeira vez, ela conseguiu permanecer completamente centrada e esconder a surpresa daquele gesto, se limitando apenas a afirmar:
— Não importa o que seu pai tenha dito, não é sua culpa.
— E nem sua... — como se fosse possível, ele abraçou Nathalie com ainda mais força, como se a qualquer momento ela fosse desaparecer.
— Como assim minha culpa? — foi impossível para ela impedir que uma das sobrancelhas fossem erguidas. Se Gabriel começasse a usar ela como desculpa para ser um mal pai, estaria cruzando mais um dos limites básicos de convivência profissional.
— Você passa o tempo todo comigo e com o meu pai porque é o seu trabalho, mas eu gosto de ter você por perto... mesmo que nunca converse comigo e nem pareça gostar muito disso, porque eu sei que é só o seu jeito. Você é legal, porque se não fosse, minha mãe não iria ser sua amiga... — ele encarou Nathalie com o mesmo olhar que Emilie costumava usar — ... E se meu pai demitir você, eu posso te contratar para ser a minha assistente pessoal!
Nathalie simplesmente quis rir.
Adrien era adoravelmente divertido de lidar, calmo, obediente... e agora estava deixando claro que também tinha uma veia cómica como a mãe. Talvez, essa graça fosse reflexo de uma mente completamente inocente.
Ele era, sem dúvidas, a pessoa mais inocente que ela conhecia.
Apenas uma criança ou Adrien poderiam achar que caso Gabriel Agreste ousasse demiti-la, ela aceitaria pisar naquela casa novamente. Ou que ele permitisse a volta dela como "assistente pessoal de Adrien Agreste".
— Seria, com certeza, mais divertido — mesmo que quase imperceptível, ela esboçou um sorriso — Ainda não me respondeu, senhor: realmente está bem ou prefere jantar no quarto?
— Nathalie, eu estarei pronto em dez minutos. Por favor, me espere no salão e tome conta do meu pai enquanto isso — o rapaz disse divertido, adorando aquela brincadeira.
— Como quiser, senhor.
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Aquele foi um dos poucos jantares "em família" em que Adrien pareceu completamente disperso e indiferente à presença do pai. Não era algo proposital, mas a mente dele trabalhava incessantemente em alternativas para manter o emprego de Nathalie à salvo.
Quanto mais pensava sobre todas as tarefas fundamentais que ela exercia todos os dias, um sentimento de culpa começava a surgir: ele era praticamente uma criança mimada com ela. Ela quem tinha que acordar ele, ela quem tinha que organizar a agenda dele, ela quem o ajudava com as lições difíceis, ela precisava vigiar ele durante as refeições para ter certeza de que ele estava se alimentando...
— Pai... — ele encarou o progenitor — Por que a Nathalie sempre fica de pé?
Gabriel manteve a compostura – ou pelo menos tentou – enquanto olhava ao redor em busca da assistente. Ela estava lá, parada como uma estátua encarando o nada, de pé. Ele não saberia dizer com certeza se ela sempre ficava ali, se andava pelo cômodo ou se realmente estava sempre observando os dois, mas precisava de uma resposta.
— Etiqueta.
— Mas ela fica de pé o dia inteiro...
— Impressão sua — sem dar muita importância, Gabriel voltou a dar atenção apenas para a comida.
— E quanto é a folga dela? — era simplesmente inevitável para Adrien controlar a curiosidade, a primeira pergunta fez com que muitas outras viessem exigir suas respostas.
— Adrien, já chega desse assunto.
— Por quê?
— Por que dessa insistência toda? Você não era assim, conviver com esses "colegas" está te fazendo diferente.
Para a sorte de Gabriel, aquela resposta foi mais do que suficiente para suprimir as perguntas insistentes do filho. O jantar seguiu no mais absoluto silêncio.
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A manhã seguinte foi exatamente como todas as outras, exceto por um pequeno detalhe: quando levou Adrien ao colégio, Nathalie ficou lá com ele.
Enquanto o rapaz estava eufórico para apresentar aquele ambiente para alguém, a assistente sentia como se a qualquer momento fosse cavar um buraco no chão e se enfiar nele. Haviam adolescentes por todos os lados, alguns em pequenos grupos conversando, outros andando em duplas, mas ver todos de uma vez só foi o suficiente para relembrar Nathalie da época do colegial.
— Onde quer ir primeiro? Ginásio? Biblioteca? Cantina? — enquanto falava, o rapaz segurou uma das mãos da mulher e saiu a arrastando para dentro — Nathalie?
— Eu só quero ir para a reunião...
— Estou irritando você de novo? — ele puxou um pouco mais a mão dela, inseguro se realmente foi uma boa ideia pedir para que ela fosse até lá. Estressar ela com uma reunião inesperada poderia ser o que faltava para ela se cansar de tudo e...
— Claro que não! — mesmo nervosa e sentindo-se observada por todos, ela se esforçou para ao menos curvar os cantos dos lábios — é mais interessante ficar com seus amigos do que comigo e a reunião já vai começar.
— É só isso mesmo? — os olhos verdes a analisaram completamente, tentando descobrir a verdade.
Era impossível sustentar aquela desculpa, ele estava fazendo igualzinho a mãe quando queria pressionar Nathalie a contar alguma verdade. A última esperança era arrumar uma desculpa para se afastar de Adrien ao invés de responder, mas uma breve olhada ao redor só confirmou o que ela esperava: todos os adolescentes amontoados naquela entrada pareciam estar olhando para os dois.
— Estou começando a me sentir deslocada porque me sinto observada. Devem estar achando que sou uma professora substituta ou coisa do tipo pedindo ajuda a um dos alunos — ela respondeu rápido e baixo, só notando o quão estupido aquilo era quando se ouviu dizer em voz alta. Ela sabia lidar com adultos idiotas, não importava a quantidade, mas só de pensar em adolescentes curiosos com a presença dela, ela ficava tímida! Não fazia sentido algum, mas era isso.
— Acho que entendo... — o loiro murmurou baixinho, pensativo — Você está com vergonha de ficar perto de mim?
— ... O que? — ela arqueou uma as sobrancelhas, completamente desconcertada — Adrien, não sei que tipo de coisas o seu amigo Lahiffe anda colocando na sua cabeça, mas tenho certeza absoluta que você está entendendo as coisas do jeito errado.
— Não, o Nino não fez nada! Ou fez? — antes que ela tivesse tempo de responder, Adrien continuou — Se ele fez, pode me falar e eu converso com ele. Ou se o meu pai fez algo... ou alguém, qualquer pessoa!
— Adrien...
— Porque eu sei que ultimamente você anda estressada com alguma coisa, se essa coisa não sou eu...
— Não é.
— ... Então me diz o que é, eu juro que posso ajudar você! — ele insistiu — Porque você é a Nathalie que sempre faz tudo, sabe de tudo, cuida de tudo e sempre resolve tudo e...
— Adrien, por favor... — ela já conseguia sentir o nervosismo aumentando ainda mais. Parte era porque os jovens dos arredores pareciam agora cochichar enquanto os observava, em parte era porque ouvir Adrien falando coisas tão gentis como a mãe doía no mais profundo: culpa por não Emilie quem estivesse vendo o filho crescer.
— ... E se você desistir de mim e do meu pai, não vamos saber o que fazer — notando que talvez não tivesse sido o melhor jeito de acalmar uma pessoa, ele tentou uma de suas piadas: — ... Provavelmente colocaríamos fogo na mansão.
— Como se eu fosse deixar você fazer algo perigoso — ela sorriu, dessa vez sem ser algo forçado. Ainda estava nervosa, mas se sentia melhor agora.
— Tem certeza de que não vai se estressar na reunião?
— Tenho certeza absoluta. Você é um rapaz responsável e tira boas notas, não acho que tenham alguma reclamação sobre você.
Aquilo era um elogio.
Um elogio vindo de Nathalie.
Aquelas palavras foram mais do que o suficiente para que as bochechas de Adrien ficassem em um tom rosado, enquanto ele esfregava a nuca de uma forma desengonçada. A vontade que ele tinha era de abraçá-la, mas antes que conseguisse fazer qualquer coisa, uma voz esganiçada começou a chama-lo:
— Adrienzinho! Adrikins! — Antes que ele pudesse notar de que lado Chloé Bourgeois estava vindo, foi pego.
Como sempre fazia, a garota se agarrou ao pescoço dele e estava prestes a começar a falar alguma coisa desnecessária e que provavelmente ele não iria prestar atenção ou distribuir beijos irritantes pelo rosto dele, porém, ela o libertou depois de alguns segundos e ficou séria encarando Nathalie.
— O que ela está fazendo com você, Adrienzinho? — um tom bem mais sério deu lugar ao agudo, enquanto ela colocava as mãos na cintura.
— Como assim o que a Nathalie faz comigo? — o rapaz arqueou as sobrancelhas sem entender absolutamente nada.
— Ela foi demitida no desfile porque reservou o lugar errado da minha mãe, esqueceu?
Enquanto a mais velha encarava Chloé se perguntando se ainda havia salvação para aquele comportamento terrível, Adrien tentava ao menos relacionar uma coisa à outra: Nathalie não foi no desfile; Nathalie estava triste; Chloé achava que ela tinha sido demitida...
— Ah, claro! — o rapaz sorriu de um jeito diferente, como se estivesse imerso em ChatNoir — Mas a Nathalie não está aqui como a assistente do meu pai.
— Não? — no mesmo instante, a garota desfez a pose de arrogância e encarou Adrien completamente surpresa.
— Ela está como a minha responsável para a reunião — ele sorriu, segurando a mão de Nathalie mais uma vez — Vamos? Eu levo você até a sala!
Em resposta, a assistente deu um aceno afirmativo e seguiu com ele. Deixaram para trás uma garota mimada e mal-educada, que agora estava emburrada e provavelmente se sentindo tapeada.
Quando chegaram em frente a porta da sala de aula da senhorita Bustier, Adrien fez questão de abraçar Nathalie o mais forte que conseguia. Não havia ninguém pelos corredores o que encorajou a retribuição do abraço, mesmo que por apenas alguns segundos.
— Obrigado, Nathalie — o rapaz sorriu.
— Não precisa agradecer — com toda a delicadeza que conseguiu, ela desfez o abraço gentilmente.
— Até depois da reunião?
Ela acenou positivamente, abrindo a porta da sala. Não era uma mentira: mesmo que ela não encontrasse com ele quando a reunião terminasse, se encontraria no almoço.
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Gabriel sempre apreciou o silencio e a solidão, é a partir deles que a criatividade germina. Porém, naquela manhã em especifico, a única coisa que ele conseguiu estando sozinho no ateliê foi andar de um lado a outro.
Nathalie estava sobrecarregada.
Adrien estava preocupado com ela.
Gabriel não poderia arriscar responder todas as perguntas do filho sem pôr em risco sua identidade secreta.
Se Emilie voltasse: a vilania terminaria, Nathalie voltaria ao normal, Adrien ficaria feliz e tudo funcionaria como as engrenagens de um relógio. Porém, para ela voltar, ele precisava arriscar o que tinha no plano de Nathalie.
O plano não daria certo porque sua assistente estava sobrecarregada.
— É um maldito círculo! Por isso não vai terminar! — ele praguejou em voz alta, parando sua caminhada repetitiva e encarando o quadro da esposa — O que faço?
— Ligue para a senhorita Sancoeur — Nooroo falou baixinho com medo de ser repreendido por seu atrevimento.
— Não vou perguntar a ela o que fazer. — O homem endireitou a postura, encarando com ainda mais intensidade a pintura da esposa. No mais profundo, ele desejava que uma vítima propensa à akumatização surgisse e que fosse o mais forte entre todos, daí seus problemas estariam resolvidos.
— Não, mestre... — a pequenina criatura arroxeada voou para a frente dele — Faça uma vídeo-chamada, assista a reunião escolar do seu filho. Tenho certeza de que isso pode fazer o humor dela melhorar...
— E o que faz você pensar que me importo com o humor dela?
O pequeno kwami desviou o olhar para todos os pontos possíveis, estava nervoso. Queria responder a verdade, que estava sentindo a preocupação dele e que, principalmente, sentia que Gabriel tinha medo de quando a assistente ficava irritada ou descontrolada. Porém, a melhor resposta seria uma faca de dois gomos:
— O verdadeiro poder de criar um aliado, é multiplicar o próprio poder, mestre...
O Agreste ficou no mais completo silencio por alguns segundos, mas não emanava irritação alguma. Depois de um suspiro pesado, ele voltou para a bancada de trabalho e ligou para a assistente.
Nooroo ficou observando do alto, apreensivo se realmente tinha feito a escolha certa de palavras: tanto eram um provérbio quanto a força do miraculous da borboleta. Sua esperança, no momento, era que Gabriel não tentasse entender o significado de tudo aquilo.
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Quando Nathalie entrou na sala da tal reunião, sentiu o estomago revirar. Se alguns adolescentes olhando para ela já fugia completamente da tensão a qual ela estava acostumada, enfrentar uma sala repleta de pais preocupados com seus filhos era ainda pior.
Os únicos acentos vazios eram os da primeira fileira, o que tornava tudo ainda mais difícil: ela sentia os olhares acusadores atingindo-a pelas costas. Todos aqueles pais deveriam estar se perguntando o que uma assistente administrativa estaria fazendo ali, ou pior: que tipo de pai Gabriel Agreste era para encarar aquilo como uma "reunião de negócios".
Depois de alguns minutos encarando o nada, ela percebeu que isso só a faria parecer ainda mais deslocada. Os demais adultos da sala conversavam animadamente falando sobre seus filhos, nada que pudesse gerar uma brecha para ela se aproximar de alguém e tentar se socializar. Restava a opção mais convencional: tecnologia.
Tentando ser a mais discreta possível, ela pegou o tablet e começou a analisar quais tarefas poderia adiantar. Não haviam muitas, mas eram suficientes para se manter ocupada até a reunião começar: e-mails, revisões, encomendas... uma chamada de Gabriel Agreste.
Um tanto insegura se atender era realmente a melhor escolha, ela deslizou o dedo suavemente e aceitou a ligação. Em microssegundos o rosto desinteressado do chefe ficou emoldurado no aparelho.
— Senhor — ela saudou tentando não demonstrar o quão surpresa estava.
— Resolvi participar da reunião, Nathalie.
— Realmente vai vir para o colégio? — foi impossível reprimir uma das sobrancelhas de se arquear.
— Não é necessário, uma videoconferência basta.
— Fora de questão, senhor.
— Como? — foi a vez dele de arquear uma das sobrancelhas.
— Já é suficientemente ridículo eu estar aqui no seu lugar, me recuso a ficar aqui servindo de "seguradora de tablet". Se realmente quisesse participar da reunião do seu filho, teria vindo! — ao fim, ela ajeitou a mecha de cabelo que sempre teima em cair sobre o rosto.
— Nathalie! — a voz repreensiva de Gabriel subiu algumas notas.
— Lamento, senhor. Ou vem até aqui ou não participa da reunião! — O olhar gélido do superior não foi o suficiente para que ela voltasse atrás.
— Conversamos quando você chegar! — a voz fria também não a fez parar de encara-lo momento algum.
Depois de poucos segundos de silencio, ele encerrou a ligação. Com um sorriso vitorioso, a assistente voltou a mexer no aparelho até notar um ponto importante: qualquer um daquela sala poderia ter ouvido a conversa se estivesse prestando atenção nela.
Já imaginando as manchetes das revistas de fofoca do dia seguinte, que incluiriam adjetivos nada gentis à Gabriel, Nathalie abaixou a cabeça sobre a mesa e quis se fingir de morta.
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Agora sim: Gabriel Agreste estava emanando sentimentos negativos. Era uma mistura de irritação, raiva e frustração. O pequeno kwami queria arrumar algum jeito de desfazer aquilo, tanto por se sentir culpado tanto porque a energia negativa o incomodava.
— Mestre... — o pequenino chamou baixo.
— Satisfeito!? — a voz saiu desequilibrada, como se fosse uma mistura do Agreste e de HawkMoth.
Nooroo estremeceu, imaginando as piores possibilidades possíveis caso aquele comportamento mesclado entre vilão e estilista continuasse acontecendo. Já tinha reparado quando aconteceu a primeira vez, quando Nathalie o questionou sobre o desejo: nesse limbo entre vilania e bom-senso, qualquer um dos dois poderia assumir o controle.
— Mestre... — mais uma vez, o kwami o chamou — Tenho certeza de que a senhorita Nathalie vai pensar melhor e...
— Já não me interessa o que ela pensa ou deixa de pensar! O que importa é que preciso trazer Emilie de volta!
— ... Está no mesmo lugar de onde começou! — depois de retrucar, a criaturinha buscou um abrigo. Era a primeira vez que falava algo assim em um momento indevido, mas era necessário.
O silencio tomou conta de todo o ateliê.
Aquelas palavras funcionaram como um gatilho, fizeram com que Gabriel entendesse que não havia motivos para não arriscar o plano de Nathalie: se fosse um fracasso, seria apenas mais um fracasso. Ele se lembraria como mais uma de suas derrotas amargas, mas Nathalie não se lembraria de nada, não teria como ela se importar...
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Minutos se passaram até que a professora finalmente chegasse. Para a surpresa de Nathalie, ela estava acompanhada de Jean – o mordomo dos Bourgeois. Depois de deixar um envelope rechonchudo sobre a mesa dela, o mordomo se sentou ao lado de Nathalie.
Não houve tempo para cumprimentos ou coisa do gênero, a professora olhou rapidamente para todos da sala, conferindo se os responsáveis de todos os seus alunos já tinham chego e então começou:
— Bom dia a todos! — um sorriso adorável acompanhou a saudação — Como já estou alguns minutos atrasada, vou tentar ser o mais objetiva possível: meses atrás consegui uma atividade de campo no Hotel GranParis, onde os alunos desempenharam funções ligadas à um dos muitos serviços oferecidos. Neste semestre, eu quis expandir a experiência deles! — a professora se recostou na mesa, olhando ansiosamente para todos ali presentes — Quero a autorização de todos para coloca-los em serviços de verão, estágios, tudo supervisionado por quem aceitar fazer parte desse projeto. Há apenas uma condição: os alunos autorizados não poderão trabalhar no mesmo ambiente que os pais.
— E como os nossos filhos serão escalados para esses trabalhos? — Marlena Cesaire foi a primeira a levantar a mão.
— Vou fazer um teste vocacional, os resultados sairão no último dia de aula que será... — Caline rapidamente pegou o celular e checou a data — Que adorável, será no Dia dos Heróis!
— E por quanto tempo eles vão trabalhar? Aonde? — foi a vez de Jalil Kubdel questionar.
— O prazo mínimo é de uma semana, para que os alunos tenham tempo de experiência o suficiente para montar um relatório. Porém, talvez alguns tomem gosto pela coisa e queiram ficar mais tempo! — ainda com o celular em mãos, a professora fez com que o telão projetasse uma pequena lista de nomes — Estes tão os apoiadores do projeto até agora.
Dentre os nomes, Nathalie conseguiu reconhecer o prefeito Bourgeois e alguns artistas com quem Gabriel já trabalhou antes. Parecia ser um projeto promissor, mas o número de apoiadores era pouco.
— Como essa reunião foi organizada às pressas, não tive tempo o suficiente para montar uma apresentação melhor, mas espero que todos tenham entendido o espirito desse estudo de campo. Vou passar de mesa em mesa para tirar dúvidas e entregar os termos de responsabilidade.
A partir desse momento, Nathalie simplesmente parou de prestar atenção no mundo à sua volta. Os adultos começaram a falar ao mesmo tempo, ignorando completamente os pedidos de "calma" e "silencio" que a professora fazia.
O mordomo Jean, timidamente, se aproximou um pouco mais de Nathalie e tentou puxar algum tipo de assunto:
— Fico feliz que alguém como você esteja aqui também...
— Alguém como eu?
— Oh, perdão, não fui claro: estou feliz que mais alguém que não é realmente "responsável" de nenhum aluno esteja aqui. Sempre fico deslocado nessas reuniões, mas se eu não vir, ninguém viria pela senhorita Chloé.
A mulher apenas acenou positivamente, sabia que acabaria falando sua opinião sobre o comportamento da garota se continuasse aquela conversa. Jean, parecendo não entender quando um diálogo deve ser encerrado, continuou:
— Até mesmo eu não sinto muita vontade de estar aqui, sei que ela só está realmente comportada quando dorme, tirando isso, sempre está aprontando alguma coisa...
— Ou destratando alguém... — ela comentou.
— Ou gritando...
E assim começou uma longa conversa. Talvez a mais longa que a assistente de Gabriel Agreste tivesse tido nos últimos anos com um "desconhecido". Jean era educado e ao mesmo tempo divertido, além disso, entendia perfeitamente os problemas que cuidar do filho de outra pessoa poderia causar.
— Ela é parecida com a mãe, o problema é esse — constatou Nathalie.
— Exatamente! Se ela fosse parecida com o pai, metade dos meus problemas estariam resolvidos — ele suspirou — É bom ter finalmente alguém para conversar. Aposto que nenhum outro dos que estão nessa sala entenderiam esse meu desejo estranho de sofrer um acidente, nada muito sério, mas o suficiente para ficar internado algumas semanas em um hospital como se fossem férias...
— Não posso falar que me sinto exatamente igual porque normalmente eu quero causar um acidente sério o suficiente para que meu chefe fique internado e me dê paz...
— No meu caso não daria certo, a menos que todo o hotel pegasse fogo e só eu sobrasse ileso... o Sr Pelúcia — o mordomo deixou uma risada discreta escapar.
— Lamento interromper a conversa, mas todos os outros responsáveis já foram e só preciso da assinatura de vocês dois — Caline estendeu um papel para cada um — É o termo de responsabilidade que permite o aluno participar.
Nathalie leu cautelosamente linha por linha, verificando todas as cláusulas e tudo o que poderia resultar em uma quebra de contrato posteriormente. Diferente dela, Jean assinou assim que recebeu, sem nem mesmo fingir que leu alguma coisa, apenas para poder conversar com a professora mais um pouco:
— Como posso agradecer por ter me ajudado a trazer os papéis? — a ruiva sorriu timidamente, recolhendo o termo de responsabilidade que ele tinha em mãos.
— Que tal aceitando tomar um café comigo na...?
— Hoje! Depois do último tempo de aula?
— Já estou ansioso para nos vermos de novo, senhorita Bustier — com um sorriso conquistador, gentilmente ele segurou uma das mãos dela e desferiu um beijo.
— Oh Jean, por favor: Caline. — ela pediu.
— Como quiser, Caline.
Os dois trocaram mais um sorriso e alguns acenos antes que o mordomo saísse da sala. Quando a professora desfez a cara de apaixonada e voltou para o "mundo real", Nathalie já estava prestes a sair também.
— Ah, senhorita Sancoeur! Espere um momento, tem uma coisa que eu...
— Lamento, mas é impossível para remanejar todos os horários de Adrien. Ele não vai poder participar — Nathalie disse o mais séria possível, queria voltar logo para o trabalho.
— Tudo bem, ele pode fazer o relatório sobre a carreira de modelo — um tanto sem jeito, Caline a segurou pela mão e fez com que Nathalie se sentasse ao lado dela em um dos bancos — Eu queria pedir uma coisa, mas...
— Não posso garantir que o senhor Agreste participe desse projeto, estou disposta a falar com ele sobre o assunto e nada mais. Minhas decisões aqui se restringem a garantir que ele seja representado como pai.
— Não, não é isso... — ainda mais tímida, a professora entregou um papel — Bem, é sobre você ser a representante do Adrien.
— Algo aconteceu? Ele está com alguma dificuldade? Se comportou mal? — a seriedade foi substituída por preocupação, Nathalie pegou o papel e olhou para as várias linhas escritas à mão sem entender o que significava.
— O último parágrafo da redação dele: estou preocupada que talvez ele esteja com dificuldades em aceitar o desaparecimento da mãe. Talvez conversar com o pai possa ajuda-lo, mas se quiser a indicação de algum psicólogo infantil eu posso...
— Não, não é necessário — a assistente endireitou a mecha de cabelo — É apenas uma parte de uma história antiga que contei a ele, pode ficar tranquila.
— Certeza?
— Absoluta.
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Finalmente de volta à mansão, Nathalie foi o mais rápido possível para o ateliê. Mais especificamente: ela foi até o quadro dourado de Emilie e apertou os botões necessários para descer até o porão.
Enquanto esteve no carro, ela leu várias e várias vezes a redação de Adrien. Era simplesmente inacreditável o quanto ele tinha crescido e amadurecido em tão pouco tempo e, se alguém merecia saber desse progresso, este alguém era Emilie.
Quando o elevador secreto finalmente chegou ao destino, Nathalie andou o mais rápido que seus saltos permitiram até chegar ao local onde a amiga estava, chegando a dar breves corridas no percurso. Cuidadosamente, ela se aproximou do vidro e segurou o papel entre as mãos.
— Não sei se você realmente está ouvindo... Hoje eu fui em uma reunião escolar do Adrien... — ela começou enquanto retomava o fôlego — ... Mas depois falo melhor sobre o que ele fez, antes preciso que você escute isso:
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"Emilie Agreste foi uma artista internacionalmente reconhecida, tanto na indústria da moda quanto na cinematográfica. Ela é importante para a história da França porque realizou vários trabalhos de caridade quando não estava na frente das câmeras. Até hoje, quase um ano após seu desaparecimento, sua generosidade é uma inspiração para todos que almejam fazer o bem.
Entretanto, a minha mãe não é uma pessoa importante apenas para a história da França: ela é uma pessoa importante para todos que conviveram com ela. Minha mãe, por mais que apenas como uma figurante na história de muitos, motivou centenas de pessoas a seguir em frente. E como uma das personagens principais da minha vida sempre me ensinou que a gentileza e o amor é o que há de mais valioso para compartilharmos, coisa que pretendo ensinar a todos, assim como ela fazia.
Coisas ruins acontecem para que coisas boas também possam acontecer, sendo assim, por mais que doa admitir, acredito que ela continuou fazendo o bem até mesmo depois de desaparecer: ela deixou a Nathalie cuidando de mim, a melhor amiga dela.
Gostaria de que algum dia ela pudesse ouvir essas palavras pessoalmente, essas e tantas outras. Quero contar a ela que comecei a entender muitas coisas que não faziam sentido algum antes, que tenho amigos de verdade e que, se algum dia for preciso, eu vou ficar parado para que um deles possa seguir a vida".
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Quando Nathalie terminou de ler, as mãos estavam trémulas e ela estava se forçando a não quebrar por completo, por mais que uma lágrima ou outra teimasse em escorrer pelas bochechas. Enquanto estava lá, lendo aquelas palavras tão adoráveis, talvez Emilie nem as conseguisse ouvir.
— Espero que... que você me perdoe por estar aqui no seu lugar e saiba que... que eu estou disposta a parar a minha vida apenas por você... porque você merece voltar e sentir tanto orgulho do Adrien quanto...
— Nathalie!
A voz intimidadora de Gabriel preencheu todo o ambiente. A assistente se forçou a retomar as feições de indiferença enquanto passava desesperadamente as mãos no rosto em uma tentativa de esconder o choro.
— Aqui, senhor! — ela respondeu, por sorte conseguiu disfarçar a voz clamorosa.
Há quanto tempo ele estava lá? O que ele ouviu? O que ele viu?
Eram perguntas que ela não tinha tempo para pensar na resposta.
— Nathalie... — ele chamou mais uma vez. Estava próximo dela agora, havia surgindo de um lugar o qual a assistente não conseguiu identificar qual era — ... lembrou de pegar a encomenda de borboletas?
— ... Mantenho minha opinião de que não seja uma boa ideia trazer mais borboletas, senhor — ela tentou falar do jeito mais sério possível, precisava criar limites para aquele viveiro de insetos.
— Vamos precisar do máximo possível: quero colocar seu plano em prática o mais rápido possível.
Sem entender exatamente o motivo daquela mudança de opinião, Nathalie não questionou o superior. Pelo contrário, pela primeira vez em muito tempo ela estava animada para que ele realmente se tornasse o vilão de Paris.
— Como quiser, senhor — a voz saiu repleta de determinação. Ao fim da frase, ela deu um sorriso genuinamente ardiloso enquanto colocava a redação de Adrien em no bolso — A senhora Emilie finalmente voltará.
— Assim espero! — concordou o superior, dando-a as costas e caminhando calmamente na direção do elevador.
