LES PRÉSENTATIONS
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Adrien estava de pé, parado em frente as grandes portas do colégio Dupont. Ele sempre esperava Gorila chegar para leva-lo para almoçar, mas dessa vez tinha algo de errado: já haviam passado quinze minutos e não havia sinais dele.
— Irmãozinho... — Nino o chamou, escondido atrás da porta — A barra está limpa?
— Uh? Está sim — o loiro respondeu com ar de riso — Vai mesmo ficar com medo da Nathalie?
— Medo de quem? — Alya se intrometeu, indo para o lado de fora enquanto puxava uma certa amiga desastrada — Da assistente do seu pai?
Adrien olhou para as amigas pronto para começar a contar a história, mas antes que conseguisse falar a primeira palavra, o celular dele tocou. Era Nathalie.
— Nathalie, está tudo bem? — ele mudou completamente: agora parecia preocupado.
— Sim, sim... Adrien, seu pai e eu precisamos ir para uma reunião urgente, você se incomodaria de almoçar no colégio hoje, com seus amigos?
— Está... Está falando sério!? — novamente ele mudou por completo, parecia ter recebido uma das melhores notícias da vida.
— Só se você quiser...
— Obrigado, Nathalie! — ele agradeceu e desligou, antes que ela tivesse a chance de voltar atrás. Faltava pouco ele saltitar de alegria.
— Pelo visto foi uma notícia bem feliz! — Alya comentou, achando incomum aquela animação toda.
— Posso ficar o intervalo no colégio hoje, com vocês!
— Maravilhoso... — Marinette disse distraidamente, se corrigindo depois: — Maravilhoso você ficar, não você, não que você não seja maravilhoso! A não ser que seja por algo ruim, mas você é maravilhoso! A-A notícia é maravilhosa!
— Cara... — Nino finalmente havia saído de trás da porta — É seguro deixar seu velho sozinho com ela?
Toda a animação de Adrien se transformou em preocupação mais uma vez. Da última vez que tinha visto os dois juntos, estavam brigando... talvez a reunião fosse apenas a continuação daquela briga.
— E-Eu acho que a Nathalie vai ficar bem... — ele tentou sorrir, porém os amigos notaram que era algo forçado. Qualquer um notaria.
— Não era com o teu velho que você deveria estar preocupado? — o amigo cruzou os braços, sem entender mais nada.
— É uma longa história, Nino...
— Temos todo o intervalo pra você contar ela! — Alya sorriu — Se quiser, é claro.
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Nathalie e Gabriel estavam sentados um de frente para o outro na grande mesa central do ateliê – ou passarela, quando necessário. Ela tinha reunido papéis, listas, todas as informações que tinha conseguido remontar, todas organizadas e impressas. O tablet tinha o mais importante: a apresentação de slides: ela sabia que dar uma visão geral de tudo seria mais eficaz.
O Agreste, por outro lado, parecia apático ou desanimado. Era um risco alto, mas seria válido... em sua mente ele só ouvia as palavras de Nooroo ecoando repetidamente, como se indicassem algo além de uma nova tentativa. Dentro dele também havia uma mudança sobre tudo aquilo: ele se sentia dividido.
— Precisamos de tempo para conversar — ela disse como justificativa para fazer uma ligação antes de começarem. Não avisou para quem estava ligando, Gabriel só descobriu pouco depois de ela ser atendida: — Sim, sim... Adrien, seu pai e eu precisamos ir para uma reunião urgente, você se incomodaria de almoçar no colégio hoje, com seus amigos? — era quase perceptível um sorriso dela, antes de continuar: — Só se você quiser...
O estilista estava certo de que o filho rejeitaria aquela proposta. O que uma cantina barata poderia oferecer em comparação ao chef? Almoçar com amigos era uma bobagem, iriam ficar apenas conversando sobre motivos aleatórios ao invés de se alimentarem direito! Adrien não era esse tipo de rapaz!
— Adrien aceitou, teremos bastante tempo.
— Meu filho preferiu almoçar lá do que na própria casa? — o superior ergueu as sobrancelhas, desconsertado.
— Ele vai estar com os amigos.
— Ele estaria com a família aqui!
— Ele almoçaria sozinho aqui, senhor... — Nathalie suspirou — Não acho que começar tudo com mais uma briga seja a melhor ideia.
— E eu não acho que você ficar se sobrecarregando com o Adrien seja o melhor. Por que você não faz só o seu trabalho?
— Porque eu me importo com ele e porque se eu fizesse só o meu trabalho, eu não iria estar ajudando um terrorista à roubar joias mágicas de crianças!
— É pela Emilie! — ele subiu o tom de voz, apenas pelo calor do momento.
— E é só por isso que eu vou te ajudar! — Nathalie o acompanhou.
— Ótimo! — ele desviou o olhar.
— Ótimo não, perfeito! Perfeito como todos os outros planos que eu já tive que cancelar na minha vida pra ajudar você! — ela disparou, começando a mexer nos papéis e tentando recobrar a calma antes de continuar.
— Vai começar a me culpar por tudo de novo!? Faz anos desde que você ficou jogando esse tipo de coisa na minha cara! — o estilista a encarou, abaixando o tom de voz e sussurrando a pior ofensa que poderia: — Está parecendo a Audrey...
— NÃO OUSE ME COMPARAR COM ELA, GABRIEL AGRESTE! — a assistente jogou nele todos os papéis que já havia juntado, tentando pegar mais coisas espalhadas sobre a mesa para brincar de tiro ao alvo.
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Durante o almoço, Adrien apenas ficou remexendo na comida enquanto tentava imaginar o que os adultos que mais gostava poderiam estar fazendo sem ele. Uma reunião de última hora era possível, mas depois da briga que tinha visto, estava começando a imaginar coisas demais...
— Então...? — Alya perguntou — Estou curiosa sobre a Nathalie.
— Vocês não vão acreditar no que a Dona Nathalie conseguiu fazer com o robô Agreste! Ela, ela é... ela é a Nathalie! — Nino enfatizou, chegando a gesticular.
— ... E o que isso quer dizer? — Marinette perguntou risonha, interessada sobre a tal história.
A essa altura, todos encaravam Adrien cheios de expectativa. O loiro, por outro lado, estava desanimado. Nino, sabendo perfeitamente que o amigo precisava se distrair um pouco, deu uma leve cutucada nele:
— Quer dizer que a Dona Nathalie faz tudo, sabe de tudo e cuida de tudo. Mas que também é vingativa! — disse risonho.
— Ela não deve ser tão vingativa assim, ela nem foi akumatizada... — Alya encolheu os ombros, confusa. Devido seu trabalho "jornalístico" e a um recente blog afiliado, tinha notado grandes padrões nas vítimas, resumindo-as em dois grupos: pessoas que incomodam as outras e pessoas que são incomodadas. A assistente pessoal dos Agreste não parecia pertencer a nenhum dos dois, ela era completamente apática.
Com o comentário da colega, Adrien arregalou os olhos. Nino repetiu os gestos do amigo, acrescentando as mãos sobre a cabeça, segurando o boné. As meninas, sem entender absolutamente nada, apenas se entreolharam e esperaram as explicações.
— Cara... — o rapaz tirou as mãos da cabeça — No dia em que isso acontecer, o mundo acaba!
— Não acho que HawkMoth queira akumatizar ela, com certeza já teve várias chances e preferiu não arriscar... — o loiro começou — Ele é um vilão, claro, mas com certeza tem amor à própria vida! Ele não faria isso!
— Garotos...? — a morena deu um ar de riso para todo aquele exagero — Estão brincando?
— HawkMoth é um ser completamente sem escrúpulos, ele já akumatizou até um bebê... — Marinette, tentando controlar as palavras que diria como LadyBug, estava começando a se interessar sobre o assunto mais do que deveria.
— Ele não passaria dos limites com ela, ninguém ousa passar...
— Teu velho deve ter sido o único que sobreviveu.
— Provavelmente.
— Vão contar ou não? — Alya encurralou os dois, cansada de tantas "promessas" sobre o quão fantástica aquela mulher poderia ser, sem realmente nenhuma prova disso.
— Teve a vez, depois do Colecionador... — Adrien começou.
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Novamente, Nathalie e Gabriel estavam sentados um de frente para o outro na grande mesa central do ateliê, vulgo passarela quando necessário.
Ela tentava recuperar o fôlego enquanto juntava os papéis que haviam sobrado esparramados pela mesa. O cabelo estava solto, os óculos tortos sobre o rosto. O tablet, por sorte, não foi danificado no meio de toda a briga: acertar a cabeça de Gabriel amorteceu consideravelmente a queda.
Já ele endireitava o cabelo: o penteado foi destruído enquanto tentava se livrar de uma chave de braço. Fora as roupas amarrotadas e um sapato perdido no meio da luta, estava ótimo.
— Acredito que já podemos recomeçar a reunião — ela anunciou, endireitando os óculos e a mecha de cabelo que teimava em ficar no rosto.
— Perfeitamente.
— Tudo será dividido em algumas etapas. A primeira é resumida em uma batalha demorada na madrugada do Dia dos Heróis: precisamos cansa-los ao máximo. Após, a segunda etapa, como eu já havia explicado anteriormente, será realizada com a ajuda de Lila Rossi — Nathalie mostrou a ficha da garota no tablet, com todas as informações que sabia sobre ela — Utilizaremos as ilusões dela para gerar pânico em Paris, praticamente uma euforia.
Gabriel apenas acenou com a cabeça, se manteria calado.
— A terceira etapa consiste em eu ser akumatizada... — o Agreste fez questão de murmurar algo entre tosses forçadas — Alguma objeção, senhor?
Movendo a cabeça de um lado ao outro enfaticamente, ele negou.
— Precisa me dar o poder de aumentar o seu, assim, poderá akumatizar quantas pessoas quiser.
— E depois? — ele perguntou, sem muita expectativa.
— Conseguirá pegar as jóias...
— Nathalie, Nathalie, Nathalie, minha doce e perigosa assistente... — ele suspirou — Eu já fui derrotado com cada um dos meus akumatizados, o que iria mudar dessa vez? A Quantidade? Já vimos que esse tipo de coisa não deu certo com aquelas duas crianças gêmeas...
— Dessa vez você vai saber exatamente o que cada um deles faz, o que cada um deles quer e como tirar vantagem deles.
— Andou fazendo planilhas de novo?
— Esse não é o ponto! E por que ninguém gosta das minhas planilhas? — um tanto ressentida, ela continuou: — O ponto é: temos todas as informações ao nosso alcance, vamos conseguir contornar qualquer variável e montar um exército imbatível.
— Realmente tem certeza?
Como resposta, ela apenas estendeu o tablet para o superior. Lentamente ele passou os slides, analisando todos os tipos de informação que ela havia coletado. Ao fim, ele já estava sorrindo com a vitória próxima.
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— Ela é a Nathalie, ela é eficiente, simples assim. Ela faz tudo o tempo todo, ela sabe de tudo e ela cuida de tudo. A Nathalie é a Nathalie, ela está sempre lá e sempre resolve tudo... mesmo que as vezes ela seja um pouco assustadora. — com isso, o loiro terminou de contar uma das várias histórias sobre a assistente do pai.
— E-eu... admiro ela! — Marinette disse tímida e entusiasmada ao mesmo tempo. Se se lembrava perfeitamente do dia do desfile, quando a mais velha arriscou o próprio trabalho confrontando Audrey Bourgeois.
— Depois de tudo isso, eu também admiro ela! — a aspirante a jornalista endireitou os óculos — Consigo ver ela claramente apontando o dedo para o HawkMoth e falando que ele não manda nela!
— Ela provavelmente acabaria com ele! — Nino disse animado — Dona Nathalie fez aulas de caratê e tudo!
— Poderia contar mais sobre a "Dona Nathalie", ainda temos dez minutos! — Alya sorriu, já vendo ela como uma super-heroina moderna, talvez até mesmo a LadyBug, ou uma LadyBug do passado, talvez uma que tenha vindo do futuro...
— Ela e o meu pai andam brigando... — Adrien disse desanimado, encarando a comida praticamente intacta no prato. No dia do colecionador, seu pai e Nathalie haviam brigado, mas não tanto quanto ultimamente.
— Mas eles sempre se acertam, né? — Nino tentou consolar o amigo.
— Dessa vez é diferente... — o loiro suspirou — Ela está estressada demais com ele, ela está triste por minha culpa também, porque eu sempre sumo. Meu pai falou até que ela precisa manter distância e que não está fazendo o trabalho direito... — em uma tentativa falha de esboçar um sorriso, ele encarou os amigos: — Mas se ela for demitida, pode virar minha assistente... certo?
— Er... Cara... — Nino não teve coragem de continuar.
— Não quero piorar as coisas, mas se ela for demitida depois de aturar o seu pai por tantos anos, acho que ela nunca mais vai querer ver ele... — a morena comentou baixo, completando o que o namorado queria falar.
— Ah... — mais uma vez, o Agreste suspirou e tentou parecer bem — Entendo. Eu acho que ela também não iria querer me ver mais e nem ser minha assistente, sabe? É que eu sou meio mimado... Acreditam que as vezes eu irrito ela pedindo ajuda com a lição de casa? As vezes eu também faço ela desmarcar algo importante em cima da hora, isso significa que eu não sou bom com responsabilidades, né?
Apesar de tentar sorrir como em seus ensaios fotográficos, era notável o quão triste Adrien estava por falar aquilo. Ele realmente acreditava que a briga entre o pai e a antiga babá tinha relação com ele, nem que fosse mínima.
Os amigos, preocupados em deixa-lo pior ainda, apenas ficaram em silêncio. Alya se sentia culpada por ter dito aquilo, mas era melhor do que deixar ele criar falsas esperanças quanto a "Super Dona Nathalie". Nino não tinha sequer coragem de olhar o irmãozinho. Marinette, dos três, parecia dispersa tentando encontrar um novo assunto para quebrar aquele silêncio tristonho:
— E se não for uma briga de trabalho?
— Tipo...? — Nino murmurou, tentando entender.
— Eles trabalham juntos há anos, certo? Então eles com certeza são amigos, amigos as vezes brigam... é normal.
— Acha mesmo isso, Marinette? — o Agreste encarou a amiga. Sabia que ela era a melhor em entender as pessoas e em lidar com qualquer tipo de problema... ou melhor, quase tão boa quanto sua LadyBug.
— Acho perfeito... — ela falou baixo, fora da realidade enquanto apreciava os olhos verdes tão de perto.
— Perfeito? — ele repetiu, sem entender bem. Aquilo bastou que ela voltasse a realidade e começasse com os gaguejos:
— Pe-erfeitamente você! Não, perfeitamente isso o que eu acho, que você é perfeito! Quer-quer dizer, você é perfeito também, mas é perfeitamente isso o que eu acho! Isso! Perfeitamente amigos, como você é perfeito! Não! Você não é perfeito... É sim! A-A situação deles que é perfeita! Pe-perfeitamente! — no fim da explicação embolada, ela sorriu e olhou para os outros amigos — Vocês também não acham?
Alya e Nino se entreolharam, risonhos, e concordaram em uníssono:
— Perfeitamente isso! — E riram.
Adrien acabou achando graça de tudo aquilo, em parte se sentindo mal por achar o problema de fala da amiga tão engraçado nessas ocasiões.
O importante, acima de tudo, é que ele estava sorrindo mais uma vez e pronto para contar mais sobre a incrível Nathalie:
— Lembram quando Paris ficou inundada por causa daquela sereia? — quando os amigos tinham total atenção nele, o loiro continuou — Nathalie e o meu pai ficaram presos no ateliê porque ele teimou que a LadyBug resolveria tudo rápido...
Marinette, Nino e Alya: os três se entreolharam, prenderam as risadas antecipadas e aguardaram ansiosamente a continuação da história.
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Aproveitando ser a única no ateliê, Nathalie estava analisando todos os depoimentos da sua página de coleta de dados: queria ter certeza de que não havia deixado nenhum fora da sua nova planilha.
Na página da Le Paon, primeira a deixar seu relato foi a dona do LadyBlog, Alya Césaire.
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"Nós não somos nós mesmos quando akumatizados.
O vilão que HawkMoth nos faz ser é apenas um reflexo de todos os sentimentos ruins que estávamos sentindo na hora, não é como se tivéssemos muitas escolhas. Pelo menos, eu não tive.
Quando vejo as imagens e vídeos onde eu atacava pessoas, LadyBug e ChatNoir, mal consigo acreditar que realmente sou eu com uma fantasia e poderes. Não me lembro de absolutamente nada, mas mesmo assim sinto culpa por tudo, por não ter conseguido lidar com os "sentimentos ruins" do jeito certo.
Quando fui akumatizado, estava sofrendo com as consequências um tanto injustas por me antecipar e criar uma resposta fácil para o grande mistério de "quem é realmente a LadyBug". A tal resposta felizmente estava errada. Acho que a resposta correta é simplesmente observarmos a nossa heroína e aceitar que, seja lá quem ela for, quer o bem de todos nós.
Mesmo tendo sido uma experiência horrível, estou tirando coisas boas: ando trabalhando bastante para conseguir lidar melhor com todos os meus sentimentos, principalmente os ruins!
Este foi meu depoimento.
Achei super legal você criar essa página, acho importante sentir que não sou o único que passou por algo assim, saber como as pessoas estão lidando e etc. Só de ter alguém para conversar sobre esse assunto já é bastante reconfortante! De verdade!
Espero que essa página ajude muitas outras pessoas!
Abraços!"
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Nathalie achou interessante ela ter se passado por um rapaz, mesmo sendo um comentário anônimo.
Porém, de nada adiantou: ela havia utilizado os melhores artifícios na criação da página, incluindo um rastreador de IP. Ou seja, a assistente eficiente sabia exatamente quem fez cada um dos acessos, cada um dos comentários. Foi assim que era remontou sua base de dados tão rapidamente.
O comentário seguinte pertencia a Nadja Chamack:
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"Acho que 'usada' é a melhor definição de como eu me senti depois de ser akumatizada. Praticamente toda Paris me viu tentando acabar com LadyBug e ChatNoir, me viu usar a vida de pessoas inocentes como se não fosse nada...
Admito que as coisas melhoraram bastante depois disso, como se tudo não passasse de uma provação. Consegui o cargo dos meus sonhos, apesar de estar 'pegando leve' com o trabalho. Passo mais tempo com a minha filha, saio mais, me divirto mais!
Acho que ser akumatizada me fez entender que eu estava prestes a surtar.
Mas, mesmo assim, não justifico e muito menos apoio as ações do HawkMoth. Ele é um ser horrível que precisa ser parado!
É bom ter um lugar para compartilhar esse tipo de pensamento, falar sobre isso é praticamente proibido: as pessoas têm medo até mesmo de pronunciar esse nome.
Está fazendo um ótimo trabalho, Paon, seja lá quem for!"
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— Nem imagina que ótimo trabalho eu fiz... — a assistente disse com certo veneno, continuando a ler alguns outros comentários. Já haviam mais de quarenta, mas ainda faltavam bastantes akumatizados.
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Antes mesmo do sinal indicando o fim do intervalo soar, Marinette já havia arrastado Alya de volta para a sala. Ela queria ter algum tempo sozinha para conseguir ajeitar a "idiotice" que fez:
— Amiga, por que só não devolveu as redações pra ele? — a dona do LadyBlog perguntou de braços cruzados, estava apoiada na porta e vigiando para ninguém entrar.
— Porque eu ia devolver antes dele ir para casa, pra ele só ter tempo de ver dentro do carro. Ele iria ficar tão feliz de eu ter devolvido que nem ia notar que eu li as redações, daí ele iria me agradecer quando voltasse, talvez até me pedisse ajuda para escrever as próximas redações, daí nós...
— Se casariam, teriam um cachorro, um gato e um hamster? — as duas acabaram rindo — Amiga, ele não vai achar que você leu as redações, só devolve de uma vez!
— Vou colocar exatamente no mesmo lugar da mesa, ele nem vai notar que alguém mexeu! — enquanto falava, Marinette analisava a mesa e buscava meticulosamente pelo ângulo perfeito para colocar as tais folhas de redação.
— Ele não vai notar que alguém mexeu porque ele esqueceu elas em cima da mesa, ele literalmente esqueceu...
— Eu esqueci!
— Aposto que é exatamente isso que ele vai falar.
— Não, Alya! Eu esqueci a minha bolsa na cantina com as redações! — a essa altura, a DupainCheng já puxava as maria-chiquinha e esboçava a melhor cara de pânico que conseguia — Alguém vai achar minha bolsa, ver as redações e falar pro Adrien que eu roubei elas, daí ele vai falar para a Senhorita Bustier e eu vou ser expulsa da escola!
— ... Ou o Nino vai ver que você esqueceu a sua bolsa lá e vai trazer ela, simples assim. Daí você aproveita e devolve de uma vez as redações.
Não adiantava tentar melhorar a situação, Marinette já estava em pânico só de imaginar os piores jeitos que aquela situação poderia acabar.
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Gorila estava na cozinha. Foi avisado de que não precisava buscar Adrien para o almoço e, para aproveitar o intervalo prolongado, estava lendo uma revista qualquer sobre carros enquanto esperava o almoço ficar pronto. O cozinheiro, também aproveitando que o "miúdo" não iria almoçar, decidiu preparar as refeições um pouco mais tarde.
Os dois estavam tão entretidos que só notaram a presença de mais uma pessoa na cozinha quando ouviram a porta bater. Os dois olharam de sobressalto: Gorila pronto para uma invasão e o cozinheiro pronto para atacar a "alma penada comedora de queijos".
— Se-Senhor Agreste? — o chef gaguejou, olhando-o de cima abaixo — Vais, er... vais almoçar mais cedo hoje? Estou a acabar tudo... ou, ou preferes no horário de sempre?
O Agreste ignorou as perguntas e os olhares, ou melhor, os retrucou da forma mais gélida possível enquanto pegava uma xícara de café. Porém, antes de sair da cozinha, avisou o que fez aquilo com ele:
— Nathalie está de mau-humor.
O cozinheiro deixou a colher-de-pau escorregar para dentro da panela que estava mexendo, usou as duas mãos para segurar sua toque blanche. Gorila continuou sentado no mesmo lugar, lendo sua revista e aceitando que sua morte chegaria a qualquer momento, cruzando por aquelas portas.
— Que faço? Que faço!? Não tem geleias no estoque, não tem doce algum e nem tenho tempo de fazê-la uma torta! Céus!
— Talvez ela nem queira matar ninguém hoje...
— Impossível! A moçoila sempre está a querer matar alguém!
— ... É — o grandalhão apenas confirmou. Ele já havia aceito a morte, de qualquer forma.
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O intervalo já havia terminado e tanto Nino quanto Adrien continuavam no refeitório vazio.
O Agreste estava na quinta tentativa de ligar para Nathalie e avisar que estava tudo bem, mas infelizmente a ligação foi diretamente para a secretária eletrônica.
— Cara, manda uma mensagem ou um áudio pra ela... — o amigo sugeriu enquanto pegava as mochilas dele, de Adrien e de Marinette.
— Boa! — o loiro sorriu e colocou no aplicativo de mensagens — Er... Oi Nathalie! Só queria te avisar que está tudo bem e que... — antes que ele conseguisse terminar, o sinal do fim do intervalo tocou mais uma vez, uma espécie de última chamada para a aula.
Esse foi o primeiro áudio incompleto que Nathalie recebeu.
— Oi Nathalie! Eu só queria avisar que está tudo bem e que eu já almocei. Obrigado de novo por me deixar ficar aqui e...
— Dona Nathalie, ele não comeu quase nada! — Nino alertou ao fundo — Não foi culpa minha!
— Nino! — o amigo o repreendeu, tentando abafar o celular.
— Sei que é coisa de modelo comer pouco, mas você não comeu nada! E a Dona Nathalie já anda preocupada com você, ela precisa saber dessas coisas...
Esse foi o segundo. O terceiro tinha a voz do Sr. Damocles avisando aos dois alunos que deveriam se apressar para a aula. No quarto, era a voz doce de Caline alertando ao aluno de que não deveria entrar na sala falando ao telefone.
Por fim, Adrien acabou desistindo dos áudios – apesar de ter enviado todos eles – e preferiu mandar uma mensagem por escrito:
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"Oi Nathalie! Só queria avisar que está tudo bem por aqui e que me diverti almoçando com os meus amigos. Está tudo bem com você e com o meu pai? A reunião já terminou? ".
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Quando Caline entrou na sala, Marinette entrou em verdadeiro pânico: devido à interrupção na aula anterior causada pelo Ditador, quase metade da turma não havia apresentado as redações.
Adrien ainda não havia apresentado as redações.
As redações dele estavam com ela.
— O problema agora é que você não vai poder olhar quando ela responder... — Nino comentou com Adrien enquanto entravam na sala — ah, aqui — ele estendeu a mochila do amigo e a de Marinette, para que ele devolvesse.
— Mas pelo menos avisei que estou bem, assim ela não fica tão preocupada... — o loiro respondeu, se sentando à carteira assim como o amigo. Antes de falar qualquer outra coisa, ele se virou para trás e estendeu a bolsa de Marinette — Aqui, você esqueceu na cantina — ele sorriu.
— Você achou! Quer dizer: obrigada por achar! Mas você não achou nada nela, não é? Não que tenha algo escondido para você achar, é só que...
— É que você esqueceu uns papéis em cima da mesa e minha amiga esquecida aqui pegou para te entregar, mas ela esqueceu até a mochila! — Alya completou, risonha. A tal amiga esquecida deixou os gaguejos de lado e pegou as redações de Adrien, estendendo para ele de uma forma um tanto desajeitada.
— Obrigado, Marinette! — o rapaz pegou os papéis com uma mão e coçou a nuca com a outra, um pouco sem jeito, mas sorrindo mais ainda de alívio por ter sido ela e não a professora quem achou — Nem sei como te agradecer...
— E-Eu é que não sei como te agradecer pela mochila...
— Dá um desses biscoitos que você sempre leva pro cara, ele não comeu nada hoje... — Nino se intrometeu.
— Biscoito? — Marinette e Adrien repetiram, boquiabertos.
— Você sempre coloca biscoitos nessa bolsinha ai, Marinete — Alya confirmou o que Nino tinha dito — Dá um pro Adrien...
— C-Claro... — na mesma hora a garota enfiou a mão na bolsinha que sempre levava a tira colo, na qual guardava tanto sua kwami quanto os biscoitos que ela comia. Apesar de Tikki tentar impedir segurando a ponta dos dedos de Marinette, a garota pegou todos os biscoitos e entregou a Adrien.
— Eu posso comer mesmo? Eles são seus e... — mesmo tentando disfarçar, ele estava com fome agora que não estava tão preocupado com Nathalie e com o pai — ... E devem ser tão gostosos...
— Claro! — a garota sorriu.
Antes que mal alguma coisa pudesse ser dita, Nathaniel entrou na sala com os equipamentos necessários para uma apresentação com o retroprojetor. Logo atrás dele, Chloé e Sabrina entraram de braços cruzados e foram diretamente prestar queixas à professora:
— É completamente ridículo que ele tenha roubado a minha ideia de apresentação! Eu fui a única que se prestou a fazer algo completamente novo e interessante, e agora vão roubar a minha ideia! — a loira falava inconformada, apontando para Nathaniel.
— Não é justo se aproveitarem das ideias da Chloé assim, professora! — Sabrinha reforçou.
Caline, que ouviu tudo e manteve o sorriso calmo, passou pelas duas alunas e foi ajudar Nathaniel com a montagem do equipamento.
— Garotas, eu li todas as redações na aula passada. Com o acidente, nem todos os alunos conseguiram se apresentar... Nathaniel só me pediu para usar o retroprojetor para mostrar alguns vídeos e imagens sobre o tema dele. Ninguém roubou sua ideia de entrevista com você mesma, digo, com a QueenBee.
As duas garotas se sentaram à carteira, inconformadas. A professora terminou de ajudar o aluno para começar a falar com a turma:
— Adrien — o rapaz, que estava com todos os biscoitos enfiados na boca de uma vez só, olhou para a professora atônito, imaginando ter feito algo de errado em comer na sala. Porém, ela continuou: — Alix; Chloé; Marinette; Nino e Nathaniel. Qual de vocês quer se apresentar primeiro? — alguns segundos se passaram e todos da sala mantiveram-se em silêncio — Que tal você, Nathaniel?
— Po-pode ser... — o rapaz respondeu, não muito confiante em ser logo o primeiro.
— Diga a turma então o seu tema! — a professora sorriu.
— M-Meu tema é sobre a primeira super-heroína da literatura francesa, a Fantômette... — o rapaz respirou fundo antes de continuar — E-Eu achei alguns vídeos de uma série de TV que fizeram dela, também trouxe alguns quadrinhos que meu amigo me emprestou.
E assim Nathaniel continuou sua apresentação, um pouco mais relaxado quando os colegas de classe começaram a achar divertida a super-heroína. Foi impossível não fazer uma pequena comparação entre ela, uma heroína da ficção, e LadyBug, a heroína real de Paris.
Depois dele, foi a vez de Alix Kubdel fazer sua apresentação sobre o arquiteto Ieoh Ming Pei, o responsável pelo projeto de ampliação do Louvre e como ele contribuiu com a cultura francesa.
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Gabriel Agreste estava imergido em sua rotina de trabalhos estilísticos. Preferiu não falar mais sobre o plano, qualquer dúvida poderia ser entendida como ofensa e resultar em um estado ainda pior do qual ele se encontrava.
Nathalie, por sua vez, ainda estava entretida demais lendo os depoimentos um a um. Era interessante ver as formas diferentes com a qual cada akumatizado lidou com tudo. Ela notou que alguns realmente esperavam alguma resposta dela, algum conselho sobre o que fazer...
— Senhor... — ela chamou o superior — Eu sou boa em dar conselhos?
— Normalmente sim...
— Normalmente?
— Meia hora atrás me sugeriu ir à... — ele respirou fundo e apertou as têmporas, a última coisa que precisava era irritar ela outra vez — Você é ótima dando conselhos, Nathalie. Principalmente sobre como melhorar a produtividade.
— E sobre sentimentos?
— Você tem sentimentos?
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Enquanto Nathaniel se apresentava falando e mostrando todo o material que tinha reunido, Adrien não ouviu sequer uma palavra. Ele não ouvia absolutamente nada, estava concentrado demais em encarar a professora e as folhas que tinha na mão.
Ele já estava começando a suar frio.
"Se ela disse meu nome, eu vou ter que me apresentar? Mas como eu vou me apresentar se ela não me devolveu a redação? Eu deveria lembrar o que estava escrito? Tudo!?"
Antes que pudesse pensar mais alguma coisa, ele notou que Nathaniel não estava mais na frente da turma: agora era Alix quem estava lá. Faltava um pouco menos para chegar a vez dele agora.
"Estão se apresentando rápido, muito rápido! Eu também preciso me apresentar rápido? ... Mas... Mas e se a professora souber das outras redações? Vou precisar apresentar as três!?"
O rapaz escondeu as folhas na mochila, em uma esperança vaga de que tudo iria ficar bem se ninguém as encontrasse.
"Ninguém sabe sobre elas, ninguém além dos meus amigos. Eles não contariam, certo? Eles são meus amigos, não iriam contar! Ninguém precisa saber sobre essas redações! ... Será que alguém leu elas? Não, Marinette não faria isso, ela é legal..."
Por pensar na amiga, Adrien se lembrou dos biscoitos – que ele teve a brilhante ideia de enfiar na boca de uma vez só. Ainda estava com as bochechas cheias, precisava mastigar e engolir... mas estavam secos demais. Ele sentia a garganta começar a apertar com uma sensação áspera. Não iria cuspir eles: sua amiga tinha dado com toda a boa vontade do mundo.
Felizmente, apesar de certa dificuldade, ele conseguiu terminar de comer sem chamar a atenção de ninguém.
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Não era apenas Adrien que estava em pânico: Gorila também estava.
O grandalhão foi chamado até o ateliê diretamente por Gabriel. Das poucas vezes que algo do gênero aconteceu, foi para receber uma repreensão e uma quase demissão – sorte a dele que foram pouquíssimas vezes.
Entretanto, desta em específico, ele nem ao menos sabia o que fez: não avançou sinais de transito, não recebeu mais multas do que já estava acostumado – aquele guarda idiota tinha uma verdadeira cisma com ele -; nem mesmo se atrasou nos últimos meses!
Talvez fosse receber uma punição por deixar Nathalie dirigir. Mas não era exatamente culpa dele: ele não teve escolhas, teve?
— Trabalha aqui há anos, o suficiente para conhecer seus colegas de trabalho. Correto? — os olhos duros de Gabriel encararam o guarda-costas do filho, fazendo-o sair de todos os pensamentos que tinha.
Gorila acenou positivamente, prendendo a respiração e tentando se manter calmo: sentia que o mais seguro era fugir de lá o mais rápido possível.
— Vá direto ao ponto, senhor — Nathalie exigiu, cruzando os braços atrás das costas. Teve o gesto repetido pelo superior. Ambos o encaravam com a mesma pose e o mesmo olhar vago.
— Vou fazer uma pergunta e precisa ser o mais sincero possível: não se preocupe com as consequências... — O loiro informou.
Agora, o grandalhão tinha certeza de que seria sacrificado! Os dois estavam irritados, precisavam de um sacrifício com sangue para acalmar os ânimos ou qualquer coisa demoníaca que os dois faziam! Só assim para ser chamado lá e não ter consequências!
— ... sua colega... — o Agreste encarou a assistente pelo canto do olho e depois voltou a dar atenção ao guarda-costas — ... ela tem sentimentos?
— ... ira, rancor e ódio contam? — o grandalhão sussurrou com esperança de não ser ouvido por ninguém.
— Considera isso melhor do que não ter sentimentos? — o Agreste mais uma vez encarou a assistente, quase esboçando um sorriso vitorioso. Esse ar de "vitória" não durou muito tempo: Nathalie estava rangendo os dentes, ela estava irritada. Muito irritada.
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Adrien estava com os olhos vidrados em Chloé, mas não por achar a apresentação dela sobre Audrey Bourgeois interessante ou por achar engraçado os erros que ela cometia tentando ler as palavras "difíceis" – provavelmente Sabrinha quem tinha feito a redação para ela. Ele estava olhando-a sem nem ao menos piscar apenas por medo: ele não se lembrava quando a apresentação de Alix havia acabado, só havia olhado um pouco para a professora e pronto: lá estava outra pessoa se apresentando.
Ele não ouvia o que os colegas estavam falando, as vozes estavam abafadas demais pelos pensamentos dele sobre estar cada vez mais perto de ser ele na frente da turma, lendo suas redações proibidas.
"Se eu pedir a professora para ir ao banheiro, ela vai deixar com toda a certeza! Daí é só eu me transformar em ChatNoir e fugir! Plagg sempre disse que seria divertido fugir da escola..."
Quando o rapaz olhou para a professora, ela o encarou de volta sorrindo como sempre. Antes que ele pudesse abrir a boca para falar algo, Caline apontou para onde Chloé estava se apresentando antes. Ela já não estava mais lá e só poderia significar uma coisa:
"É A MINHA VEZ! Eu não posso me apresentar, eu não posso ir! Eu preciso fugir dessa sala! "
Enquanto o Agreste começou a olhar para todos os lados em busca de achar uma brecha para sua fuga, sua amiga Marinette foi até a frente da turma. Ele se acalmou um pouco quando viu ela se apresentando no lugar dele, segurando a folha quase tampando o rosto e ficando um pouco mais vermelha que o normal enquanto falava...
"Ela é a melhor amiga que alguém poderia ter! "
Ele sorriu.
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Gabriel estava encarando o grande quadro de Emilie. Ele se perguntava se seria mais seguro apertar os botões escondidos e procurar um abrigo seguro em seu covil do mau ou se era melhor esperar o mau-humor de Nathalie passar sem fazer movimentos bruscos.
Gorila, igualmente assustado e procurando a melhor forma de manter-se vivo, já estava encostado na porta de saída enquanto se arrependia amargamente de não ter se fingido de morto ao invés de responder à pergunta do superior.
Nathalie, por sua vez, encarava um e depois o outro enquanto gritava e tentava se decidir sobre qual presa iria atacar primeiro:
— NÃO SINTO NADA ALÉM DE IRA, RANCOR E ÓDIO!? VOU ME LEMBRAR DISSO NA PRÓXIMA VEZ EM QUE EU SENTIR FRUSTRAÇÃO PORQUE EU PASSEI DIAS ME DEDICANDO NUM DESFILE E NEM MESMO PUDE IR! — ela fez uma pausa para recuperar o fôlego. Gabriel já estava com as mãos prontas para apertar os botões, bastava ela dar um passo — E TUDO ISSO PARA QUE!? FICAR COM "CIUMES" DO MEU CHEFE COM A AMIGUINHA FÚTIL DELE!?
Antes que o Agreste conseguisse apertar a combinação secreta, Gorila chamou a atenção do monstro demoníaco ao mexer na maçaneta da porta. Ele não imaginou que fosse fazer tanto barulho...
— E VOCÊ! SABE QUANTAS VEZES EU ATUREI AS CANTADAS IMBECÍS DAQUELE GUARDA CARECA PARA LIVRAR O SEU PESCOÇO DE MAIS MULTAS!? SABE!? — para a sorte de Gabriel, ela caminhou na direção do guarda-costas — CLARO QUE NÃO SABE PORQUE EU NÃO SINTO NADA ALÉM DE IRA, HOSTÍLIDADE E ÓDIO, NÃO É!? — ela pressionou a ponta do indicador sobre o peito do colega em cada uma das palavras.
— N-Não falei hostilidade... — o grandalhão sussurrou, vendo Nathalie como uma aranha gigante cuspidora de fogo da qual ele não conseguiria fugir com vida.
— ENTÃO EU NÃO POSSO SENTIR HOSTILIDADE TAMBÉM!?
— E ciúmes... — Gabriel comentou baixo, mas não baixo o suficiente para que ela não ouvisse.
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Adrien estava sentindo os olhos arderem.
Já não haviam mais nenhum outro colega de classe para se apresentar, restava apenas Nino – o qual já estava se apresentando – e ele.
Ele encarou cada uma das janelas e constatou que estavam todas trancadas. A abertura do duto de ar estava parafusada. A porta estava aberta, mas o diretor estava tampando a passagem – ele apreciava assistir as apresentações dos alunos, principalmente quando envolviam super-heróis.
Não haviam saídas.
"Se eu me transformar em ChatNoir, posso usar o cataclismo e fugir pelas janelas! Só preciso ser rápido o suficiente para ninguém me ver! Posso me esconder no refeitório até o Gorila vir me buscar! Não... Melhor eu chegar em casa e ficar escondido lá! ".
— Plagg, mostrar as... — o loiro sussurrava com a cabeça enfiada na mochila, quando sentiu uma mão repousar sobre o ombro. Ele olhou ao redor e encontrou Nino o encarando.
— Bro... — começou ele — Eu achei que estava me saindo mal, mas agora eu entendi você estar se escondendo na mochila... — ele segurou o ombro do amigo um pouco mais forte — Acho que é a primeira vez que eu emociono tanto alguém em uma apresentação, irmãozinho — o rapaz já estava com os olhos marejados também.
— E-emocionou? — Adrien questionou, mas se lembrou que os olhos estavam ardendo antes. Não era ardor, ele estava chorando de tanto nervosismo...
— Adrien? — a professora o chamou gentilmente, caminhando até a porta da sala. O diretor deu passagem a ela, caminhando até o centro da turma e começando um discurso o qual Adrien não ouviu. — Pode vir comigo? Traga suas coisas, por favor — ela pediu.
O loiro segurou a alça da mochila como se a qualquer momento algum lunático fosse tentar roubar as redações que estavam protegidas dentro dela. Ele seguiu a professora pelo corredor até que chegassem à sala do diretor, agora vazia.
— Adrien, eu entendo que sua rotina de modelo é bem mais rígida do que a dos demais alunos. Espero que você não se sinta mal com isso, mas não vai poder participar dos trabalhos de verão e... — finalmente ela encarou o aluno com mais atenção — sinto muito, querido. Não queria que ficasse tão triste assim... — ela mexeu no cabelo dele em uma tentativa de amenizar tudo, jamais imaginaria que ele fosse chorar por algo tão simples.
— Não... não, eu só estou nervoso com as apresentações. Estava! E-Eu... — ele coçou a nuca sem jeito, tentando pensar em alguma desculpa que pudesse usar — E-Eu acho que perdi minha redação, senhorita Bustier.
— Você deixou ela comigo, lembra? Acabei entregando ela para a sua responsável, na reunião. Não precisa se preocupar — ela sorriu — Aliás, é para isso que estamos aqui: vou ligar para a sua responsável e avisar que você foi liberado mais cedo. O restante da turma vai fazer um teste vocacional agora...
Finalmente Adrien respirou sem sentir o ar faltar. O nó na garganta também desapareceu, até mesmo o ardor nos olhos... Quando o rapaz já estava quase tão tranquilo como sempre costumava estar quando percebeu um pequeno detalhe:
Sua professora iria ligar para Nathalie, que provavelmente estava ocupada em uma reunião de negócios ou em uma briga, para avisar que ele foi liberado mais cedo e que precisavam ir buscar ele. Ele traria problemas à ela mais uma vez com algo que não foi previsto...
— E-Eu não quero ir embora! — o rapaz avisou, mas depois deu um de seus sorrisos falsos — Quer dizer, eu quero, mas prefiro ficar na biblioteca adiantando a tarefa de química.
— Lamento, mas não posso deixar um aluno sozinho pela escola — a professora sorriu e pegou o telefone sobre a mesa do diretor, já discando o número. Ela preferiu ignorar aquela atitude suspeita — Alô? Senhorita Sancoeur?
Adrien fez algo que jamais se imaginou fazendo depois de tantos anos com uma conduta exemplar: ele tomou o telefone das mãos da professora e praticamente se escondeu embaixo da mesa do diretor.
— Oi Nathalie! Só liguei para saber como estava indo a reunião... — ele deu uma pausa — Hun... Não, era só isso mesmo! Desculpe atrapalhar... — mais uma vez ele deu uma pequena pausa — Er... O Gorila pode vir me buscar então? Não! Está tudo bem! Eu estou ótimo! Só fui liberado mais cedo por causa de uma atividade extra e... Nathalie? Como assim esperar na porta? Tem certeza que não é melhor ele vir? Como assim já está dirigindo!? E-Eu espero! — o rapaz colocou o telefone sobre o gancho de novo, estava em pânico mais uma vez.
— Adrien, por que fez isso? — a professora olhava-o esperando explicações para tudo aquilo. Não estava julgando o comportamento dele, estava apenas preocupada.
— N-Nathalie está vindo e pediu para esperar ela lá fora, professora.
Foi tudo o que ele conseguiu falar enquanto caminhava para fora.
Se antes já estava nervoso por ter que ler algo comprometedor na frente dos amigos, agora encontrava-se amedrontado por tudo de errado que poderia acontecer com a assistente do pai dirigindo, falando ao telefone e preocupada com ele...
"Se alguma coisa acontecer com ela, a culpa é minha..."
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Quando Gabriel começou a pressionar os botões do quadro já era tarde demais: a ponta do dedo de Nathalie já estava nas costas dele.
Aquilo era pior do que um tiro à queima roupa.
— Ciúmes de quê, senhor? — ela perguntou friamente. Se gritar já indicava o nível de fúria alarmante, ela falar mais baixo agora significava que o fim estava próximo.
— Ciúmes de m... — o Agreste respirou fundo, não era o momento para irritar ela ainda mais — ... do seu grampeador. De que mais poderia ser?
— Exatamente: de que mais eu poderia ter ciúmes? — ela se afastou dele — De vocês!? A ÚNICA COISA QUE EU SINTO POR VOCÊS DOIS AGORA É UMA IMENSA VONTADE DE... — o celular vibrou antes que ela pudesse cuspir todas as formas de tortura que conhecia. A mulher respirou fundo, passou a mão pelo rosto ajeitando a mecha de cabelo e pegou o celular — Sim?
Ela ouviu uma mulher falando, mas logo depois tudo ficou em silêncio até que ouviu um rapazinho falar, um que conhecia muito bem: Adrien.
— A reunião está quase acabando. Aconteceu alguma coisa? Quer falar com o seu pai? — ela esperou que ele respondesse, mas um comentário que andava ouvindo com certa frequência a fez interromper: — Você não atrapalhou em nada, Adrien. Tem certeza de que só ligou para saber da reunião? Não quer falar mais nada? — por algum motivo, ela sentia que ele estava escondendo algo.
Tanto o Agreste quanto Gorila notaram como ela estava se controlando para falar amigavelmente com Adrien, mas nesse dado momento da conversa tudo mudou para preocupação:
— O que houve!? Adrien, você está bem!? — Nathalie esperou alguma resposta enquanto caminhava até o guarda-costas. Ela sabia em qual bolso as chaves do carro ficavam, apenas as pegou e foi para a saída da mansão.
Os dois homens se entreolharam e ouviram ela falar algo como "Me espere na porta! ". Depois, tudo ficou em absoluto silêncio.
Gabriel caminhou até uma das janelas e conseguiu ver a assistente partindo com o carro. Ele finalmente respirou aliviado.
Gorila voltou para a cozinha: iria se esconder na dispensa; provavelmente deixaria algum doce para despistar a aranha demoníaca cuspidora de fogo caso fosse atrás dele.
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Caline Bustier e Adrien cruzaram as portas do colégio Dupont bem a tempo verem Nathalie estacionar o carro como se estivesse em um filme de ação. A professora respirou fundo e deu um de seus melhores sorrisos, estava pronta para explicar toda a situação; Adrien, por outro lado, sentia como se tivesse feito uma grande besteira por incomodar a assistente do pai.
Assim que Nathalie saiu do carro caminhou às pressas até Adrien, chegando a subir os degraus da pequena escadaria de dois em dois. Quando estava próxima o suficiente, colocou as mãos sobre os ombros do rapaz: estavam trêmulas.
— Você está bem? — Ela perguntou deixando transparecer grande parte da preocupação na voz. Na verdade, ela estava quase tão nervosa quanto no dia do desfile só por imaginar o que poderia ter acontecido.
— Estou! Está tudo bem, Nathalie — ele sorriu e colocou as mãos sobre as dela — Eu só fui liberado mais cedo.
— Os alunos vão fazer um teste vocacional e... — Caline começou a explicar, mas notou que estava se explicando a ninguém.
— Melhor voltamos, soube que você não comeu nada — Nathalie falava enquanto levava o rapaz para o carro. Ela ignorou completamente a professora: não foi por mal, haviam prioridades.
Os dois partiram e deixaram a professora lá, ignorada por completo. Ela não estava ofendida e nem nada do tipo, ela estava um tanto pensativa com o comportamento e a mecânica familiar dos Agreste. Sua intuição estava se manifestando.
