LE COMPAGNON
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Nathalie estava sentindo os olhos arderem, mas se controlou para não deixar transparecer absolutamente nada. Se fosse mais uma das suas recentes crises de estresse, precisaria esperar até Adrien estar sã e salvo em casa: já bastavam todas as ideias erradas que o loiro tinha sobre si mesmo em relação ao "trabalho que dava a todos".
Ela segurou o volante com força quando foi obrigada a parar em um sinal vermelho. Se estivesse sozinha, iria fazer todas as manobras arriscadas para chegar mais rápido, mas com Adrien ela preferia ser regrada. Aproveitando a pequena pausa, ela olhou pelo retrovisor e viu o rapaz sorrir sem jeito no banco de trás, olhando para ela. Há quanto tempo ele estava observando ela? Tinha notado algo?
— Nathalie... — ele chamou tímido.
— Algo errado? — ela parou de encará-lo pelo retrovisor e se inclinou no banco, olhando diretamente para ele.
— Não! Claro que não! Bem, o que poderia ter tido de errado na escola ou qualquer coisa do gênero? — enquanto falava, os olhos verdes encaravam qualquer lugar menos para Nathalie. Depois das desculpas sem jeito, ele murmurou baixinho: — Nada que pudesse estragar a minha vida, eu acho...
— Então quer alguma coisa?
O Agreste pareceu pensativo. Na verdade ele não queria absolutamente nada além de ir para casa, se transformar em ChatNoir e destruir as folhas de redação com um cataclismo – nem mesmo sabia do porquê ter escrito elas. Porém, com um sorriso adoravelmente irresistível ele respondeu:
— Tem uma coisa que eu quero muito, mas só você pode me dar.
— Um dia livre? — Quando recebeu um aceno negativo, Nathalie levantou as sobrancelhas desconcertada por não conseguir prever com clareza o que seria.
— Algo melhor que isso...
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Nino estava se esforçando para não fazer o mesmo que Nathaniel: dormir durante a palestra desinteressante do Sr. Damocles. Entretanto ele não queria ter o mesmo destino do colega de classe, que foi advertido com trabalhos extras depois da aula.
Atrás dele, Alya e Marinette conversavam animadamente sobre alguma coisa. Ele não conseguiu distinguir bem sobre o que falavam, mas era algo sobre hamsters, cães e gatos. Não as culpava, se Adrien estivesse ali ainda, estariam fazendo o mesmo.
— Vejo que está prestando bastante atenção à tudo... — o diretor comentou com sua voz grave enquanto encarava Nino e franzia as sobrancelhas.
— Er, claro! — Lahiffe disse endireitando o boné — Eu adoro quando o senhor dá esses sermões sobre coisas importantes nas nossas vidas, é muito divertido! — Ao fim, ele deu um de seus melhores sorrisos falsos.
— Bem, neste caso... — ele respirou fundo e encarou as duas amigas nas carteiras atrás de Nino — Você, Marinette, troque de lugar com seu colega. Vocês duas estão atrapalhando com essa conversa paralela.
— Mas... — Alya tentou intervir, mas o diretor levantou uma das mãos e fechou os olhos, ignoraria qualquer argumento. Em contragosto, Marinette e Nino trocaram de lugar.
— Voltando para o assunto de antes, é fundamental que vocês sejam responsáveis! E agora, vamos ao próximo item... — antes que o diretor conseguisse terminar seu discurso, agora sem inconvenientes, a professora Caline entrou na sala com vários papéis na mão e um sorriso no rosto.
— Agora, vamos aos testes vocacionais! — ela anunciou animada, tomando a atenção dos alunos e encerrando a participação do Sr. Damocles.
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Nathalie ainda sentia os olhos arderem, mas precisava se controlar.
Adrien havia feito um pedido tão pequeno e simples que ela simplesmente não quis negar: "podemos almoçar juntos? ". Ela deixou que ele escolhesse o lugar, só nunca imaginou que seria o Le Grand Paris, nem que ele iria andar por ai como um cavalheiro levando a mão de uma dama presa no braço e falando sobre como foi seu dia na escola – como ele conseguia ignorar todos aqueles olhares e agir de forma tão espontânea?
Para a sorte dela haviam poucas mesas ocupadas devido ao horário, caso contrário estaria em um misto de crise de estresse e timidez. Entretanto, ela não conseguia parar de pensar sobre aqueles olhares em cima de si, muito menos de imaginar o que passava pela mente de todos vendo os dois como uma tentativa de "mãe e filho" – Gabriel com certeza estava envolvido nisso como "péssimo pai".
— Nathalie... — Adrien a chamou, despertando-a de tudo o que estava pensando — Essa mesa está boa?
Ela o encarou por alguns segundos, olhou ao redor e constatou que era um excelente lugar: discreto, longe das pessoas e das janelas – ou seja, longe de possíveis fãs tentando fotografar o modelo.
— Está ótima.
— Então... — O loiro sorriu e puxou a cadeira para que ela se sentasse — Vamos almoçar juntos hoje.
— Adrien, você é muito gentil, mas não precisa agir desse jeito... — ela tentou falar da forma mais amena possível, afinal não era uma repreensão.
— Você é minha convidada hoje.
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Marinette encarava a folha cheia de perguntas objetivas sobre a mesa.
Ela e Alya estavam conversando sobre como seus planos foram frustrados mais uma vez: ela pretendia fazer as atividades de verão trabalhando com o estilista que mais gostava, Gabriel Agreste, podendo ocasionalmente se confessar para o rapaz que gostava, Adrien Agreste; infelizmente, o estilista não fazia parte dos apoiadores do projeto.
Dos apoiadores, havia o fotógrafo Vincent que constantemente fotografava Adrien, mas ela não tinha prática alguma com fotos – e conseguia se ver derrubando os equipamentos caríssimos por estar distraída demais. Jagged Stone também era um dos que apoiavam os trabalhos de verão, mas ser fã das músicas não era verdadeiramente uma vocação para o trabalho de apoio. Haviam também seus pais: a Tom & Sabine Boulangerie Patisserie abriria as portas para que um dos alunos aprendesse o básico da confeitaria.
Das três "alternativas" mais chamativas, a padaria era o único trabalho que ela já tinha experiência e que não seria repreendida por ser desastrada – no máximo, ficaria de castigo no final de semana.
Agora, com um trabalho em mente, a garota de maria-chiquinha começou a responder as perguntas da maneira que considerava certa para "ter vocação em confeitaria".
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Jean estava de pé ao lado da mesa, esperando o jovem Agreste e sua acompanhante se decidirem sobre qual prato pedir. Era impossível ele não deixar um sorriso escapar vendo os modos tão atenciosos que o rapaz tinha com sua amiga Nathalie – já a considerava uma amiga, afinal, se lamuriou no ombro dela durante horas na reunião de Pais e Mestres.
— Gosta de aves? Peixe? Prefere um ensopado ou um assado? Você é vegetariana? — o rapaz loiro perguntava enquanto corria o olho pelas várias opções. Era uma das poucas vezes na vida em que podia escolher livremente o que iria comer.
— Gosto de qualquer coisa, na verdade...
— E o que eu escolho?
— O que você gostar de comer — Ela sorriu — Pode pedir o mesmo para mim.
— Nathalie... — ele chamou um pouco mais baixo — O que eu gosto de comer?
— Croissants.
— Dois croissants, por favor!
— Adrien — a mulher o repreendeu, mas logo voltou ao tom ameno de antes quando se dirigiu ao mordomo: — Um gigot d'agneau com a entrada à casa, por favor. E Adrien... — Ela olhou para o Agreste — Você não almoçou no colégio, não pode substituir uma refeição por croissants. Se quiser, pode comer depois.
Apesar de já ter recebido os pedidos, Jean continuou apenas para presenciar a reação de Adrien. Estava tão acostumado com as pirraças e infantilidades de Chloé quando ela recebia uma recusa que não conseguia imaginar um comportamento diferente naquela ocasião. Porém, o Agreste apenas sorriu e respondeu com uma animação nata:
— Obrigado Nathalie!
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Nino estava apagando todas as respostas do teste vocacional pela segunda vez.
Diferente da maioria dos colegas, ele tinha uma carreira em mente para a qual tinha vocação: ser um diretor cinematográfico. Outro diferencial é seu posto na rádio do colégio e como DJ nas horas vagas.
Diferente dos colegas, ele não sabia qual dos caminhos queria trilhar naquele trabalho de verão: tinha mais experiência com a gerencia da rádio, tinha mais contatos como DJ e tinha mais vocação como diretor...
O rapaz olhou para o lado e viu a namorada responder a última das questões com um sorriso enorme. Ela também sabia qual carreira queria seguir, mas diferente dele, ela estava muito bem resolvida com o que queria "agora".
Nino respirou fundo, mordiscou o lápis e voltou a olhar para o nada. Acabou reparando no teste da amiga sentada logo a frente, Marinette: estava completamente em branco enquanto ela parecia divagar. De repente, no entanto, ela começou a responder tudo como se tivesse descoberto o que queria...
Aquilo fez com que uma ideia um tanto ousada passasse pela cabeça do Lahiffe: se Marinette gostava de moda, provavelmente seu teste vocacional a mandaria para um estilista; provavelmente, este tal estilista seria Gabriel Agreste; se ela fosse trabalhar com Gabriel Agreste, estaria perto de Adrien. Nino também queria ficar perto do amigo durante as férias – algo impossibilitado pela agenda cheia do jovem modelo, mas facilmente contornável caso trabalhasse na casa dele.
Nino tirou o lápis da boca e começou a copiar as respostas de Marinette.
Era errado, mas ele julgou ser uma "causa justa" a sua tentativa.
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Audrey Bourgeois estava na entrada do Le Grand Paris, brigando no telefone com uma assistente incompetente que havia contratado pela manhã.
Havia visto um dos carros de Gabriel na entrada, logo, imaginou que ele estaria lá dentro. Sabia que o horário de almoço já estava encerrado, que a qualquer momento ele iria sair de lá... Apesar de tentar esconder, ela estava ansiosa quanto a ver Gabriel de novo – e ao mesmo tempo não queria falar com ele no Hotel, os empregados eram enxeridos demais.
Não demorou nem mesmo um minuto até que Adrien saísse do Le Grand Paris quase saltitando pela calçada - a intuição dela estava mais do que certa. Todavia, ela também viu a antiga assistente de Gabriel saindo... ela estava acompanhando Adrien? Havia sido demitida!
A editora chefe da revista de moda desligou o celular e caminhou apressada, conseguindo chegar até os dois antes de entrarem no carro. O rapaz acenou para ela e sorriu, já a outra apenas a ignorou.
— Ei, você! — Audrey a chamou e quando Nathalie olhou, ela continuou como se estivesse acusando-a: — O que está fazendo com Adrien? Gabriel sabe que você está tentando sequestrar o filho dele!?
— Vamos logo, Adrien... — Nathalie disse baixo, tentando ao máximo não começar um escândalo com a Bourgeois. Ela entrou no carro e esperou que o rapaz fizesse o mesmo, mas para a surpresa dela Adrien respondeu em seu lugar.
— O que a minha assistente e eu fazemos, não é da sua conta Srª Bourgeois. Aliás, meu pai só demitiu a Nathalie como um capricho seu porque ela agora trabalha para mim — diferente de qualquer outra vez que Nathalie pudesse se lembrar, Adrien falou cada palavra em um tom sério e frio que chegava a beirar o pai — Confesso que ele também queria evitar suas várias e várias ligações irritantes.
Audrey se preparou para responder, mas Adrien entrou no carro e fechou a porta antes de ouvir qualquer palavra vinda dela. Nathalie deu partida, apesar de não saber exatamente o que fazer - jamais imaginou Adrien agindo daquela forma com alguém, ainda mais a "amiga" do pai.
— Nathalie... eu ainda posso comer croissants? — o rapaz perguntou dócil como sempre, como se não tivesse feito nada de errado.
— Quantos quiser, senhor Agreste — ela sorriu, se ele preferia ignorar o que aconteceu, ela também ignoraria.
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Timidamente Adrien entrou na Tom & Sabine Boulangerie Patisserie. Nathalie deu a ele o cartão de créditos, disse a senha e avisou que esperaria por ele no carro. Não era a primeira vez que ela fazia algo parecido, mas era a primeira vez que ele tinha total controle do que comprar – ou melhor, de quantos croissants poderia comprar.
— Olá! — Sabine disse animada, reconhecendo o colega de classe da filha.
— Oi! — Adrien a cumprimentou e sorriu um tanto sem jeito — Eu gostaria de...
— Cinco — Plagg sussurrou.
— Cinco croissants... — o rapaz repetiu o que o kwami havia dito.
— E um Camembert suculento! — o pequenino sussurrou novamente.
— Nada de queijo, Plagg!
— Temos os de chocolate, são os únicos sem queijo — a proprietária disse tão simpática quanto antes, parecendo nem ao menos notar que Adrien estava falando com o próprio bolso – afinal, a filha dela costumava conversar com a bolsa, deveria ser algum tipo de moda entre os jovens. Ao menos era melhor do que se arriscar fazendo parkour por aí.
— Er... — ainda mais sem jeito, Adrien tentou se retratar: — Três de queijo e dois doces, por favor.
Quando o pedido já estava entregue e faltava apenas a impressão do comprovante de Adrien, a Srª Cheng tomou a liberdade de pedir um favor:
— Você poderia agradecer à Senhorita Sancoeur por mim? No primeiro dia do desfile ficamos procurando pela Marinette e no outro não a encontramos em lugar nenhum...
— Agradecer? — O loiro ergueu as sobrancelhas.
— Ah, que cabeça a minha! — a asiática deu uma risada rápida, lembrando bastante o jeito da filha — Um pouco antes do desfile começar, a esposa do prefeito queria se sentar na primeira fila, no lugar da Marinette, acredita? A Srtª Sancoeur cuidou de tudo, mesmo recebendo ameaças...
— Ameaças? — Adrien pareceu ter terminado de montar um quebra-cabeças de mil peças — Então a Nathalie foi só por culpa da Audrey, meu pai e ela ainda são amigos! — Ele sorriu, finalmente.
— Ela foi demitida!? — Sabine colocou ambas as mãos no rosto, sentia-se culpada por Nathalie perder o emprego.
— Não! Mais ou menos... — Adrien acabou dando um de seus sorrisos adoráveis enquanto coçava a nuca — Meu pai só fingiu que demitiu ela, eu acho. Mas ela trabalha para mim também, e eu nunca vou demitir ela.
Sem realmente entender direito se Nathalie estava ou não demitida, a proprietária da padaria sorriu e entregou o comprovante para o rapaz. No fundo ainda sentia uma pontada de culpa, mas seria melhor conversar com ela mais tarde.
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Enquanto isso, na mansão Agreste, Gabriel estava em busca de seu sapato perdido. Se ao menos conseguisse se lembrar dos detalhes da briga, seria mais fácil de encontrar – o máximo que se lembrava era de tentar fugir enquanto um monstro acertava coisas nele.
Como se ficar se arrastando pelo chão procurando pelo sapato embaixo de passarela (ou mesa de reuniões) já não fosse suficientemente ridículo, o Agreste bateu a cabeça no tampo da mesa quando ouviu o toque do celular. Levando em conta a péssima hora para uma ligação, só poderia ser Nathalie o castigando mesmo que a distância.
Ele pegou o aparelho e atendeu sem nem mesmo ver quem estava ligando. Ele tinha certeza absoluta que era a assistente, mas infelizmente ele estava errado:
— Gabriel, como assim você não demitiu aquela incompetente!? — Audrey parecia estar tão irritada quanto Nathalie — E NÃO ADIANTA MENTIR: EU VI ELA COM O SEU FILHO!
— Audrey, eu não posso simplesmente... — ele tentou se justificar em vão.
— PROMETEU QUE DEMITIRIA ELA EM NOME DA NOSSA AMIZADE!
— E vou! Eu vou!
— Quando!? — Ao fundo, dava para ouvir o som do salto dela batendo contra o chão.
— Não posso ficar sem a Nathalie e não posso arrumar pessoas para colocar no lugar dela tão rápido assim...
— Gabriel Agreste, se você não demitir aquela... Aquela... — Audrey não completou, um urro de raiva foi a última coisa que o Agreste ouviu antes que ela desligasse.
O estilista respirou fundo, abandonou as buscas pelo sapato e saiu do ateliê. Ele se sentou na mesma cadeira que antes – quando havia se despedido da esposa -, exatamente do mesmo jeito. Nathalie não estava lá dessa vez para um abraço.
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Depois do teste vocacional, os alunos foram liberados.
Marinette estava cansada, responder as perguntas tentando manipular o resultado era bem mais difícil do que apenas responder... a garota caminhou já estava tão alheia com tudo a sua volta que nem prestou atenção no que a mãe estava tentando falar com ela, simplesmente subiu para o quarto e se jogou na cama.
— Marinette! — Sabine a chamou mais uma vez, subindo no quarto da filha — Não prestou atenção em nada do que eu falei, não foi?
— Desculpa mãe...
— Filha, sabe se a Nathalie foi demitida?
— A Nathalie foi demitida!? — a garota quase gritou enquanto se sentava na cama.
— É exatamente isso o que eu acabei de te perguntar pela terceira vez... — a mais velha colocou uma das mãos na testa — Deixa pra lá, depois conversamos. Você deve estar cansada...
Depois que a mãe saiu do quarto, Marinette abriu a bolsa onde sua kwami estava e se permitiu entrar em desespero:
— A Nathalie foi demitida! Se ela for demitida, Adrien vai ficar arrasado e vai me culpar por ter dito que ela não seria demitida! Ele nunca mais vai levar a sério o que eu falo...!
Diferente de tantas outras vezes, a pequena Tikki apenas flutuou para fora da bolsa e se sentou no travesseiro de costas para a dona. Ela pareceu não se importar com todo aquele drama, estava incomodada com outra coisa:
— Pelo menos assim você não dá meus biscoitos para ele!
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Como o bom cavalheiro que é, Adrien abriu a porta para Nathalie e esperou ela entrar. Estava pronto para se despedir de "sua assistente pessoal" depois da ótima companhia.
Assim que a mulher entrou, com um sorriso ameno por todas as gentilezas que tinha recebido, voltou a ficar preocupada e estressada vendo o chefe sentado em uma das poltronas da sala de visitas. Ele só poderia estar em mais uma de suas crises de artista.
— Tudo bem, Nathalie? — o rapaz loiro perguntou.
— Não sei ao certo... — ela respondeu e indicou o outro Agreste.
— Pai!? — Adrien disse surpreso, indo até ele — Aconteceu alguma coisa? Se sente mal? — a voz dele transparecia toda a preocupação.
— Filho... — Gabriel murmurou — Melhor ir para o seu quarto, preciso conversar com a Nathalie agora.
— Senhor Agreste, o que houve? — ela se aproximou.
— Houve que você não é a única amiga ciumenta que eu tenho! Isso que houve! — o mais velho passou a mão pelos cabelos, tentando inutilmente os manter no lugar — Adrien, para o quarto!
— Mas pai...
— Adrien — o tom de voz mudou para algo bem mais repreensivo.
— Adrien, querido, por que não vai para o quarto e depois nos falamos? — a assistente deu um sorriso discreto, tentando deixa-lo calmo.
— Está bem... — finalmente o rapaz se rendeu — Só não briguem — ele pediu já subindo os degraus da escada.
— Nathalie, Audrey me ligou e...
— Eu não me importo com o que você disse para a sua amiguinha preferida, mas é melhor resolver isso, porque Adrien acabou descobrindo e pelo jeito que ele se comportou, não ficou nem um pouco feliz! — a mulher o interrompeu.
— Consegui ganhar tempo, mas ela não vai me deixar em paz se eu não demitir você e...
— E é claro que você vai fazer o que ela quer! Porque você não sabe dizer um "não" para a sua amiga preferida!
— Eu só preciso... — Gabriel não conseguiu terminar, foi interrompido:
— EU PRECISO DE AMIGOS MELHORES! — a assistente disse entrando no ateliê e batendo a porta atrás de si, tinha trabalho a fazer e não podia ficar perdendo tempo com problemas do chefe.
O Agreste esperou alguns segundos e se levantou. O melhor a fazer era voltar ao trabalho e tentar contornar aquele assunto, hora ou outra Audrey se esqueceria de Nathalie. Infelizmente, Nathalie nunca se esqueceria de Audrey.
Pronto para enfrentar a assistente irritada mais uma vez, ele entrou no ateliê e tentou se manter apático à forma ameaçadora com a qual Nathalie digitava. Porém, ele cometeu um deslize que a irritou mais ainda com uma simples pergunta:
— Nathalie, por acaso viu meu sapato?
— Serve esse!? — ela perguntou irritada, atirando-o no chefe.
Gabriel não sabia de onde aquele pé de sapato surgiu e muito menos como a assistente conseguiu arremessar com uma mão enquanto digitava com a outra, apenas agradeceu aos reflexos ágeis por ter se abaixado em tempo de evitar ser acertado.
— Obrigado, Nathalie...
