O nascimento de Hades
Monte Ótris – Alguns milênios atrás
Reia estava aterrorizada pela hora de nascimento do seu quarto filho. Andava pelo palácio do monte Ótris como se o tempo fosse seu inimigo. Já sentia as dores do
parto há 9 horas, mas não poderia parir sua criança antes que a noite chegasse. Havia enviado uma mensagem por Íris no raiar da manhã e esperava com ânsia que
o auxílio viesse. Levariam seu filho e o criariam bem. O lugar dele não era com ela, pensava. Não poderia manter seu filho com ela. Doía se separar da criança, mas
se separaria dela de qualquer forma. Não teria escolha. Então, resolveu ter uma escolha. Esconderia sua criança. E esconderia todas que fosse possível. Um dia, a
tirania do pai seria encerrada pelos seus filhos. Teve uma visão na noite anterior e sua esperança começava com essa criança. Aguentara tanto. Traições. Abusos.
Ganância. Humilhação atrás de humilhação. Ela poderia suportar um pouco mais. Seria livre quando os filhos destronassem o pai. Teria que seguir sobrevivendo até
lá. E protegeria seu filho do único jeito que podia, cedendo-o a outra pessoa. Em seu sonho, viu seu filho sendo treinado e bem-educado. Adulto e bonito. Ele não
seria devorado pelo pai. Cronos não absorveria seus poderes. Viveria nas trevas até a vida adulta. Mas viveria. Faltava meia hora para anoitecer. E a noite chegaria.
Era melhor se dirigir a seu quarto e se preparar para o parto. Como deusa do parto, uma vez que permitiu que a criança viesse ao mundo, ele veio. O pequeno
simplesmente parou de lhe causar dor e nasceu. A criança nasceu quieta e não chorou. Como se nem ao menos tivesse o direito de chorar. Como se soubesse da
clandestinidade de seu nascimento. Do quanto sua mater se esforçava para manter sua vida. Reia chorou no lugar de seu filho. E chorou ao perceber que ele não
poderia ver a luz do sol por tanto tempo e estes eram os últimos raios do sol que veria em séculos, talvez. Os raios de sol do momento de seu nascimento. E a noite
veio. De forma apaziguadora e tranquila. Sem estardalhaços, sem seus cavalos. Era uma jovem bonita aparentando estar em seus 15 anos, envolta em seu grande
manto negro e estrelado. Possuía uma lua minguante em sua testa. E um sorriso triste nos lábios.
- Nix! Vieste a mim. Não sabes como sou grata por seu apoio. Ninguém mais me ajudaria. Todos temem o poder de Cronos.
- Reia, porque eu temeria a alguém tão jovem e inconsequente. Sou mais velha e poderosa. Se eu quisesse poderia destruí-lo, mas estaria pulando etapas e
bagunçando com as tramas das Moiras. Cloto, Láquesis e Átropos enlouquecidas e ansiosas por minha cabeça. Posso lidar com elas, mas não será uma cena bonita.
Não que não fique tentada, mas as coisas têm que ser como têm que ser. Só interferirei diretamente, em último caso. Já indiretamente, sou livre para ceder aos meus
caprichos. - Dando uma gargalhada fina e jovial, estendeu aos braços a pequena criança nos braços trêmulos de sua mater. A criança sorria radiante como se
reconhecesse Nix como sua família e não a pobre mater que o dera a vida. Os poderes de Nix se assemelhavam aos de seu filho e ele a reconhecia.
- Nix, não importa o que te move até mim, agradeço seu auxílio. Agradeço por ser a mater do meu filho. Será uma boa mater. Vi em meu sonho. Será boa para ele e ele será bom para você e terá fará um grande favor no futuro. - Réstia entregou o pequeno bebê sorridente.
- Reia, tivemos o mesmo sonho, então. Realmente, necessito do seu filho. Mas será uma honra criar mais uma criança do Caos. Quem diria que o próximo rei do submundo não será uma das minhas crianças, mas ainda será uma criança criada por mim. E quem diria, um garoto das trevas com um sorriso matador como o meu. Vamos nos dar muito bem, garoto. Já sei nome dele, vi nos meus sonhos. Mas quero que a aquela que lhe deu à luz o nomeie já que ficará sem vê-lo por uns séculos. - disse com pesar.
Entre lágrimas, a deusa nomeia seu filho e lhe concede sua honra.
-Será Hades. Das profundezas do Tártaro. Deus da riqueza, da morte e das trevas. De tudo que vem do fundo da terra ou retornará a ela. Poderá dar a vida ou a morte. E um dia ajudará a salvar a sua mater. Leve-o agora antes que Cronos descubra meu delito.
- Certo. Então o que fará com Cronos para que não descubra?
- Farei uma ilusão e darei uma pedra. Colocarei um pouco da minha energia vital para que ele absorva.
- Sabe que você vai ficar cada vez mais fraca.
- Terei a eternidade para me recuperar. Alguns séculos de sofrimento não são nada. Agora vá. – repondeu Reia.
Nix se cobriu com o véu estrelado e desapareceu na noite com o pequeno Hades, enquanto Reia se curvou e se preparou para enfrentar seu algoz.
Glossário:
Reia: Deusa de segunda geração. Titã da terra e do parto. Filha de Gaia e Urano.
Monte Ótris: Montanha na Grécia Central. Lar dos Titãs.
Íris:é a personificação do arco-íris e mensageira dos deuses.
Cronos: Deus de segunda geração. Titã do tempo e rei dos titãs por casamento com Reia. Deus criado por Gaia.
Moiras: São as três irmãs que determinam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos.
Cloto: aquela que tece o destino. Dar início a vida.
Láquesis: aquela que deixa a vida mais leve ou mais pesada. Compromete o destino. Sorte de quem tiver a boa sorte de não ser sorteado para a morte.
Átropos: O destino final. Aquela que dar fim a vida.
Mater: mãe em grego.
Caos: Vazio primordial. A origem dos deuses.
