Nix perdida
- Eu sei, eu sei...eu, não vou. Eu não posso, eu não... Vale a pena viver. Cada vida tem valor... - Sacudia a cabeça em desespero enquanto olhava para sua tina. Sua voz cada vez mais fraca. - Me deixe em paz. Não cairei. Jamais cairei. Você não me terá! - disse decidida e elevando a voz.
- Tem certeza? - Uma sombra escura se projetava da sua tina. A água borbulhava e transbordava. Escorria como lama em sua direção, tentava alcançá-la, tocá-la, tomá-la. - Não. Hoje não. Hoje não. Não. Não. Por favor, não! - Erguera os braços tentando se proteger enquanto se encolhia apavorada.
- Nix, acorde. - E com uma única inspiração a deusa despertou. Olhou assustada. Não estava no salão de previsão. Não havia sinal de sua tina. Ninguém tentava alcançá-la. Seu marido a observava com o semblante franzido.
-Está perto. Erebeus, está perto. Cada vez mais perto. Não posso deter o fluxo do tempo. - disse Nix apavorada segurando firmemente suas cobertas enquanto o deus meneava a cabeça em dor. Não havia nada que pudessem fazer. O tempo corria. E chegaria o momento que perderia a batalha e a si mesma.
Nix observava o mundo humano. Da entrada de seu palácio podia avistar Hélio segurando o céu. E além dele, via aos humanos.
- Tantas dificuldades os humanos passam para viver tão pouco. Pelo menos o sofrimento acabava. Eventualmente, tudo acabava. E após o fim de suas tolas vidas mortais, ainda tem a graça de se desvincular de todo o sofrimento. De toda a dor. De todo pesar. Poder beber do rio Lete e esquecer os horrores da vida é o maior presente que uma alma mortal poderia sonhar. - Amargurava a deusa a despeito de como era fácil ser mortal.
- Lamento que nós deuses não tenhamos tantos privilégios. Embora possamos usurfruir do Lete. Teríamos que secá-lo para sobrepor tanta dor. Não nos resta muito o que fazer, só podemos usar nossas máscaras e continuar vivendo. - Afligia-se a deusa diante dos limites do mundo conhecido pelos humanos.
- Fiz o que podia por esse mundo. Criei monstros? Verdade. Mas também criei deuses bondosos. Lutei com as sombras todos os dias. Me tornei a minha melhor versão. Defendi as mulheres como pude da opressão masculina. Lhes dei forças, doei minha magia e ensinei a se defender. Mas...estou aqui. Totalmente enfraquecida. Com a minha última criança me roubando as forças. - Nix acaricia a própria barriga com pesar. - É incrível como aquela que me destruirá será tão boa para tantos. E fará tão grandes coisas. Estou no meu limite de sanidade agora. - Estendeu a mão para amparar um de seus mochos que voava a seu redor sentido sua aflição.
- Acalme-se Lua. Chamaste meu garoto como pedi? - perguntara ao animal. - Sim? Ah, que bom! Vá descansar agora. - Incitou a ave a voar para seu ninho.
Estava tão cansada. Mentalmente e fisicamente cansada. Suspirou e acariciou novamente sua barriga.
- Criança, tão logo você nasça, não poderei lidar mais com a minha verdadeira natureza. Serei tomada. Não sobrará muito de mim para lutar. Espero que você seja abençoada com toda força que precisa para lutar com a sua máter um dia. Queria que não fosse assim, mas foi assim que vi e assim será. Somos deuses, mas mesmo nós deuses temos que obedecer ao fluxo do destino. Lutar seria bom, mas só pioraria as coisas. O destino sempre chega de um jeito ou de outro.
-Senhora, me chamaste? - Nix, olhou com admiração para a criança que criara. A criança que salvaria a sua filha um dia.
-Hades, sempre me chama de senhora. Sou praticamente sua mater. Por que nunca me tratastes assim?
-Desculpe-me, senhora. - disse um deus encabulado olhando para o chão.
- Ah, esqueça. Pelo menos fico feliz que goste dos meus filhos como se fossem seus irmãos. - Observou o deus franzir ao cenho ao lembrar dos filhos de Nix e corrigiu sua fala com um sorriso. - Bem, pelo menos gosta de alguns deles. Gosta dos meus gêmeos, Hypnos e Thanatos. Cuide bem deles, serão seus braços direito e esquerdo. Não poderia conseguir melhores amigos!
-Do que a senhora está falando? - perguntou um deus confuso com os olhos arregalados.
- Nada. Quando a hora chegar, você entenderá. Tome. Meu último presente para você. - Nix retirou seu manto estrelado, converteu em um elmo negro que entregou a Hades. Logo, precisará disso. Sei que você prefere treinar na região de Asfodélos, mas necessitarei de seu apoio em alguns dias. Venha por mim, sim?
-Como a Senhora desejar. - respondeu o deus com um mesura.
- Sempre tão formal. Me desgosta assim. - disse a deusa suspirando - O elmo lhe dará a invisibilidade e o dom de andar silencioso. Embora seja tão calado que acredito que nesse ponto não seja de muita utilidade...Mas, a invisibilidade é meu segundo presente! Sua criação e treinamento foram meu primeiro presente. O terceiro presente é o melhor! Você vai precisar dos outros presentes para dar conta do terceiro presente! Bem, você terá que lidar com o terceiro presente, quando for a hora. - disse a deusa sorrindo e desfazendo em sombras prateadas, enquanto abandonava um jovem deus sem entender muito do que ela estava falando afinal.
