Fuga de Astéria
Astéria se encontrava desolada olhando as paredes tão alvas de sua prisão tão limpa. Era como ela. Tão aparentemente limpa. Mas tão suja. Esse palácio havia sido construído sobre sujeira. Mas era tão limpo. Construído sobre mentiras. Não era à toa que fora criada ali. Era tão suja e coberta de mentiras como o palácio. Dissera a seu marido que tudo ficaria bem. Conseguiriam a menina e fugiriam. Ela esperava que fosse verdade. Mas ela sabia que não seria possível. Nas suas visões vira o marido morto. Mas ela precisava salvar a criança. E sacrificara seu marido. O amava tanto e o matara. Uma mentira. Não suportou tanta dor e desatou a chorar. Chorou pelo marido morto. Pela mestra que estava perdida. E pela criança que iria criar sob uma mentira. Sabia que iria escapar e sabia para onde ir. Não iriam encontrar a criança lá. Nem a ela por um longo tempo. Tempo suficiente para a menina ser tornar uma moça. Era o tempo que levaria para retornar a Grécia. Secou as lágrimas e esperou que viessem até ela, conforme sua visão.
Os arredores do Palácio da Noite eram cercados por uma nuvem espessa. Mesmo para os deuses era difícil de encontrar a entrada e totalmente impossível para os mortais. Mas Hades havia crescido ali. E não foi difícil chegar soturnamente até seus aposentos na área mais externa do palácio. Sabia que Hypnos provavelmente esperaria lá. Ao entrar, encontrou Hypnos com os olhos marejados. Conhecia Hypnos desde criança. O deus deveria ser um pouco mais velho do que ele. Algumas centenas, mas agora não faria muita diferença. Ambos adultos, mas deuses jovens ainda. Mas em todo esse tempo jamais o vira chorando. As coisas estavam catastróficas no Palácio da Noite.
- Hypnos, irmão. O que houve?
-Hades, o tempo chegou. Nix enlouqueceu. Está trancada em alguma parte do palácio com minha irmã. Um bebê recém-nascido ainda. Matou a Perses. Aprisionou a Astéria. E ordenou o cerco ao Palácio da Noite. Ninguém entra ou sai.
- Nix é uma deusa boa. Me criou. Fez tanto por tantos. Como é possível? Não posso acreditar que fariam algo assim. Onde está Erebeus? - perguntou Hades aturdido.
- Hades, não sei. Sabe como é papai. Passa boa parte do tempo nas profundezas do Tártaro. Não acredito que se interesse muito pelos os problemas do Palácio da Noite ou por minha mater. - respondeu Hipnos descrente.
- Não posso acreditar em tal coisa. É o marido dela. É da filha dele que estamos falando também. - disse Hades desolado.
- Hades, a verdade que a cada século que passa, minha mater tem perdido a lucidez. Estás a ficar louca. Ouve vozes. Fala coisas estranhas. Olha para o vazio e chora. Você nunca percebeu isso porque sempre foi um cordeiro obediente e dedicado. Além de tudo nos últimos 300 anos não passou muito tempo no Palácio da Noite. Nós que ficamos, vemos e sofremos por cada pedacinho de sanidade que ela perde.
- Por que não me falaram? Não me contaram. Ela é tudo que tenho. Vocês são tudo que eu tenho.
- Você tem seu próprio destino. Suas próprias responsabilidades. Foram ordens da mater que você se mantivesse distante e treinasse. Na verdade, não creio que ela quisesse que observasse o declínio dela. Você sempre foi o favorito. A criança adorada que ela salvou e protegeu. - explanou Hypnos com um pouco de ressentimento na voz. - O deus realmente não estava bem. Nunca maltratara a Hades. Sempre o tratou como um irmão adorado, mas até do que tratara a outros irmãos.
- Eu, a criança adorada? Céus, ela me deixava perdido nesse Palácio por dias sem comida.
- E agora você sabe andar nele melhor do que eu. - ressaltou Hypnos cínico. - Ela te ensinou a andar no palácio.
- Sim. - respondeu em choque Hades que agora percebera que fora treinado para se locomover no palácio e encontrar Nix.
- Encontre-a e salve minha irmã. - disse o deus.
- Nós nunca fomos convidados ao salão da previsão. Não sabemos onde fica e não podemos ser percebidos no Palácio.
- Minha mater te deu o manto dela. Acredito que ela sabia que tudo aconteceria. Use-o. Ande em silêncio. Seja soturno. Misture-se com a noite e salve a minha irmã.
- Eu o farei. - respondeu Hade.
-Thanatos e eu enfrentaremos aos daemones e libertaremos a Astéria. Ela é uma deusa da profecia como minha mater. Se veio para salvar minha irmã, concederei a proteção de minha irmã a deusa.
- Te desejo sorte. - disse Hades.
- A você também meu irmão. Você precisara mais dela do que nós. - respondeu Hypnos, enquanto se desvanecia num brilho dourado.
Depois de muitas noites em claro, pensando no que estava acontecendo. Se perguntava por que queria tanto a criança. Essa criança a fizeram matar um aluno de seu marido. Aprisionará sua melhor aluna. Porque queria manter a criança. Tudo começou porque enfraquecida com o parto, agora não conseguia mais fazer frente a loucura que estava tomando cada vez mais. E o ódio pela menina crescia a cada dia.
- Criança maldita. Estragastes tudo. Tudo estavas bem antes de sua concepção. Estou a caminho de minha derrota por tua culpa. Acho que devias pagar por seus crimes.
- Quais crimes acusas minha filha de ter cometido? - Erebeus chegara na hora que Nix se aproximava da menina com a decapitadora de deuses. - Deixe-a em paz. Não percebes que está sendo tomada pela loucura. Ele está dominando você. Cada dia você perde terreno e ele se aproxima de seu renascimento. Um corpo físico é tudo que ele sempre sonhou!
Hades ouvia a conversa perplexo do casal. Havia entrado na sala e tentava pegar o bebê. Mas não sabia como fazê-lo sem que a deusa percebesse. Quase havia declarado sua presença quando a deusa avançou em direção a criança. A chegada de Erebeus o havia salvado de revelar sua presença. Seu sangue gelara quando viu a lâmina perto do rostinho da menina. Mas Erebeus foi rápido e deteve a esposa. E agora falava coisas estranhas que ele desconhecia. Mas entendera que alguém estava influenciando a deusa. Dominando a deusa. Como posso pegar a menina? - pensava Hades - De repente, ele viu o olhar do deus sobre ele. Erebeus sabia que ele estava na sala. Olhara diretamente a ele. E a compreensão veio. O deus estava distraindo a deusa para que ele pegasse a menina. Ele enxergava através do elmo do véu estrelado. Nesse momento Hades saltou no berço apanhou a menina e correu pela porta. Só pode ouvir o grito de Nix pelo Daemones e o esbravejar do deus que a segurava, enquanto corria Palácio afora.
Astéria ouvia murmúrios do lado de fora da prisão. Os guardas eram Daemones, deuses menores sem tanta influência, que serviam aos deuses maiores em troca de abrigo e proteção. Ela era forte, mas havia muito daemones no Palácio. Não era uma deusa guerreira, era uma deusa da lua, uma deusa da profecia. Sem chances de ganhar um combate desses. Precisaria esperar. De qualquer forma ela sabia que viriam ao seu resgate. Só precisava esperar mais um pouco. Estava cansada e com fome. Dias já haviam sido passados desde o incidente. Ela chamaria o ocorrido de incidente. Sem emoções. Sem dor. Veja tudo friamente. Era o que ela dizia assim mesma. E o que ela aprendera desde a infância. O único jeito de viver a eternidade. Mantenha-se fria e distante. De repente havia um barulho na porta. Astéria se colocou em posição de luta. Dois deuses surgiram. Um dourado e um platinado. Os daemones que estavam na porta estavam todos caídos no chão.
O dourado respondeu. - Calma, moça. Aqui já tenho tudo resolvido. Nem foi necessária a ajuda do meu irmão aqui. Até pensei em deixar essa tarefa para o meu irmão. Um toque da morte seria útil. Mas os daemones só estão fazendo o seu trabalho. São servos de minha mater. Fiéis a ela. Mas só meros servos. Não tem culpa. Carecem dela para viver. Meu toque dos sonhos foi suficiente. Então, meu irmão foi inútil como sempre. - disse Hypnos risonho.
-Ha, ha, ha. Estou morrendo de rir. Você é muito engraçado um toque da morte. Inútil como sempre. Sua falta de respeito com a morte é algo a se considerar. Mas deixemos para outra hora. Vamos levar a garota, antes que acordem.
Thanatos, Hipnos e Astéria esperavam Hades nos limites do mundo inferior com o mundo humano. Enquanto isso os gêmeos brincavam e provocavam um ao outro. Isso era algo que a intrigava. Como eles podiam parecer se divertir com tudo que estava acontecendo. - Parem com isso! Estamos em uma crise! A deusa da Noite enlouqueceu e vocês não sabem se comportar como adultos sérios.
- Deuses sérios. - corrigiu Hipnos.
- Deuses sérios. - acatou Astéria.
- Sabemos. Mas o ambiente estava pesado demais. É nossa mater que perdeu o controle. Ela é a rainha. E terá que ser deposta. Vamos ter que lutar contra nossa própria mater. Não temos como ficar mais tensos do que isso. - replicou Hipnos.
- Temos que tentar manter o nosso humor. Ou nós é que ficaremos loucos. - falou um Thanatos sorridente, mas de olhar vazio. - Sabemos e lamentamos seu marido também. Talvez os deuses também tenham alma como mortais. Talvez ele possa voltar algum dia. Talvez vocês possam se encontrar de novo algum dia. Não estamos debochando do seu sofrimento. Só tentando sobreviver ao nosso sofrimento.
- Obrigada. Obrigada. Obrigada - Astéria caíra chorando diante de dois deuses gêmeos bobos mais adoráveis que já conhecera. - Cuidarei bem da irmã de vocês. - Os três deuses sorriram.
Nesse momento, Hades chega com a deusa bebê nos braços. Os quatro deuses se encaram e Hades passa o bebê a Astéria. - Cuide bem dela. É só um bebê, mas já passou por muita coisa no seu pequeno tempo de vida. - falou enquanto brincava com os dedinhos da menina. - Pequena, um dia voltaremos nos encontrar. Não podemos fazer muito por você agora. Mas vamos recuperar a sua casa para você. Cresça forte. Os gêmeos disseram em uníssono. - Irmã, cresça forte e volte logo.
Após as despedidas. Astéria transformou a pequena deusa em uma pedra da lua, pendurou em seu pescoço. Em seguida, se transformou em uma condorniz e voou para longe das portas do mundo inferior. Voou pelo mar mediterrâneo em direção ao sul.
