Fazendo Amigos no Egito
Astéria tinha feito uma viagem árdua com o pequeno bebê deusa. Voaram por tanto tempo. Mais do que já havia voado em tantos séculos de vida. Mas não havia
escolha. Não poderia criar a pequena deusa no território dos gregos. Então voou pelo mediterrâneo até terras mais distantes e desconexas do poder dos gregos. Em
uma terra distante, talvez conseguisse ganhar tempo antes que Nix a encontrasse. Ela a encontraria. Sabia. Mas ganharia o tempo que pudesse e ensinaria a menina
o que pudesse. Mas infelizmente teria que bloquear seus poderes. Ou Nix as encontraria em um piscar de olhos. Viveriam como camponesas comuns. Era o mais
adequado. Não chamaria a atenção e não usaria os seus poderes. Assim, também não poderia dar muito ao bebê. Mas daria tudo o que tinha. E assim, chegaram ao
Egito.
13 anos depois...
Era mais um dia insuportavelmente quente. Mas o que se podia esperar com o deserto tão próximo? Chuva? - sorriu Astéria amargamente. - Mas estava quente
demais. Quente demais mesmo para um passeio perto do rio.
- Pequena, não brinque muito perto do rio ou poderá ser levada pelos servos de Sobek. - atentou Astéria preocupada com a presença do deus que habitava o Nilo e
de seus servos.
- Sim, máter. Não irei muito longe. - respondeu uma menina bonita de longos cabelos negros em seus 13 anos. - E os cães vão comigo. Eles sempre me protegem!
- Claro que protegem. Lhe reconhecem como uma igual. - brincara Astéria com a menina.
- Está me chamando de cão? Pobre de mim. Minha mater me confunde com animais! - A menina retrucou divertida. E voltou a correr entre as gramíneas que cresciam
em torno do rio Nilo seguida por cães ávidos a prestar continência. Mal sabendo ela que os poderes dela realmente estavam ligados ao mundo inferior e a noite,
portanto os cães a seguiam como a líder. Ela não havia brincado como reconhecê-la como uma igual. Embora, eles a seguissem como a chefe e não como uma igual.
Ao menos todos os cães do mundo sempre a protegeriam. Era alguma garantia de segurança contra os humanos pelo menos.
Há 10 anos moravam ali. Em Mênfis no Delta do Nilo. Longe dos gregos e longe dos deuses daquela terra também. A capital ficava mais acima do Nilo, em Tinis. A
distância era boa. E segura. Ficava longe dos olhares dos poderosos e longe dos olhares dos deuses também. Deuses e suas manias de grandezas. Sempre ansiavam
a ficar perto da grande civilização. Bem, ali ainda não era. Seria no futuro. Podia sentir. Local de grande civilização. Também havia escolhido o Egito por ser banhado
pelo mar Mediterrâneo. Era como se sentir em casa, mais perto de casa ao menos. Como não podia usar seus poderes para modificar sua aparência já que poderia
atrair a atenção dos deuses acabava por entregar sua origem estrangeira. Assim, resolvera se apresentar aos moradores como uma viúva de comerciante relegada a
própria sorte, forçada a trabalhar nos campos de cevada para sustentar a única filha. Bem dramático, verdade. Mas condição essa relegada a muitas mulheres cujos
maridos resolveram explorar a efervescente região tão próxima das grandes capitais do mundo.
A triste realidade que realmente era uma viúva relegada de seu próprio povo que tentava criar uma filha de coração. Uma filha que protegeria a todo custo, embora
não tivesse nascido dela. Uma filha arteira e desobediente que agora tentava se debruçar de uma pedra no Nilo, enquanto os cães se desesperavam ao seu redor
diante de um servo de Sobek que a espreitava a poucos metros. Astéria em desespero se pôs a correr em direção a menina. Afastara o servo de Sobek com a
presença de deusa que emanava, discretamente, é claro. Puxara a menina com força para trás de suas costas. Servos de Sobek eram perigosos mesmo que não
percebessem sua origem e a relatasse ao deus, podiam eventualmente devorá-la. Eram crocodilos vorazes e habitavam todo o Nilo.
- Pequena, levante-se imediatamente! Não lhe pedi para que ficasse longe do rio? - Pegara a menina com muita ferocidade pelo braço e agora ela desatara a chorar. E
os cachorros começaram a rosnar. Seus fiéis cães queriam atacar uma deusa para defender sua senhora. Um absurdo real. Um real absurdo.
- Mater, desculpe. Não sei o que fiz...o que fiz? - A menina a olhava apavorada. Nem havia percebido o perigo que passara. E mesmo que houvesse percebido,
desconhecia a sua identidade e não sabia do perigo que corria se os deuses locais descobrissem que era uma deusa e uma filha dos gregos.
- Nada querida. Pensei que fosse cair no rio e fiquei aflita. Peço que tome mais cuidado e acalme a seus cães. Eles ficaram preocupados por você. - Desconversou
Astéria.
- Sinto muito. Serei uma menina melhor. - disse visivelmente triste. Tinhas os olhos no chão e a expressão desolada.
- Tudo bem. Mas rasgou seu vestido de novo. Sabe como roupas são caras? Terei que lhe comprar outro vestido. - disse Astéria observando o estado das roupas da
menina sem se preocupar com o estado muito pior de suas próprias roupas.
Astéria vivia preocupada. E desolada. As sustentava trabalhando nos campos de trigo e a deixava todo o dia sozinha. Temia que os humanos a atacassem. E temia
que os deuses a levassem. Quando bebê, a carregava em suas costas. Agora não o podia levá-la e não queria que trabalhasse nos campos. Era jovem demais. Além
disso, uma deusa não deveria ser forçada a um trabalho desses. Ela, Astéria, também não deveria ser forçada a um trabalho desses. Mas não podia usar seus
poderes. E não ganharia nada de graça ali. Os mortais a tratavam como um deles e não dariam nada a elas sem trabalhar por isso.
- Certo. Mater, vou ser uma boa menina. Vou ficar perto de casa. - disse a menina visivelmente chateada.
Astéria sabia que não poderia contar que a menina curiosa e agitada cumprisse com as suas promessas. Contudo, ela precisava trabalhar e não podia tomar conta
dela o dia inteiro. Assim, foi para os campos de trigo, esperando que pelo menos os cães a protegessem dos humanos.
Era uma vida dura pensava Astéria trabalhando nos campos de trigo. O sol quente queimava sua pele que uma vez já foi branca como a luz do luar. Era um trabalho
cansativo e o sol nunca parecia dar uma trégua. Dez anos fizeram que ela se acostumasse a dureza do trabalho, mas achava que não importava quantos anos
passassem nunca se acostumaria com aquele sol inclemente. Era uma deusa da noite afinal. Deixa de lamentar -pensou a deusa - Há destinos piores do que sofrer no
sol.
- Erguer a foice e cortar o trigo. Erguer a foice e cortar o trigo. Erguer a foice e cortar o trigo. - Era quase um cântico para ela agora. Mas isso não fazia seu corpo
doer menos ou sua pele arder menos.
Era sol do meio dia. Hora de parar e comer. Impossível continuar a trabalhar. Caiu sentada como um velho ao lado do trigo que ainda teria que cortar. Havia centenas
deles para cortar, pensou a titã desanimada enquanto desembrulhava seu pão e começava a comer.
- Mais um dia. Mais um dia. Vivendo no inferno. Trabalhando no inferno. E comendo esse pão seco infernal. - reclamou Astéria em voz alta. - Deu uma profunda
mordida e achou que estava louca quando começou a ouvir uma risada baixinha. Percebeu que não estava só quando de repente não havia mais sol queimando sua
pele. Ergueu a cabeça e franziu o cenho ao perceber quem viera importuná-la. Estava protegida agora do sol sob a sombra de um papiro gigantesco que não estava
ali há um momento. Nem todos os deuses ela conseguira evitar nesses anos. Havia deuses locais nessa cidade também. Essa deusa em particular, adorava
atormentá-la. Cismara com ela e achava que poderia ser boas amigas. Estava muito interessada no seu dom de previsão e como poderia ajudá-la a obter mais poder
entre os deuses locais.
- Astéria, Astéria. Reclama tanto! Só faz reclamar! Mas rejeita toda a ajuda que querem te dar, então há de pagar... - cantarolou a deusa recém-chegada.
- Uto, não careço de sua ajuda. Estou me saindo muito bem. Não pode ver. - disse Astéria irônica enquanto levantava e mostrava seu vestido muito usado e
desgastado.
- Sabes que poderia ajudá-la e cuidar de você. Com certeza, precisas de roupas novas. - disse a deusa Uto fazendo aparecer um lindo vestido egípcio em Astéria.
Há quanto tempo não usava roupas de boa qualidade. -pensou Astéria - enquanto tocava o linho macio plissado de sua saia. Havia um trabalho muito bonito de fios
de prata trançados. Por um momento, ela ficara tentada.
- Uto, como trabalharia nos campos com essas roupas? Não acha que chamaria muita a atenção? - disse uma Astéria debochada.
- Sabes que não precisa fazer esse trabalho tão servil. Poderia ser me braço direito no Baixo Egito. És poderosa! Não sei por que anseias tanto por viver como uma
reles mortal. Do que tens tanto medo? Ou melhor, de quem tens tanto medo? - perguntou a deusa curiosa.
- Creio que meus problemas não lhe dizem respeito. - replicou Astéria na defensiva.
- Claro que me dizem respeito! Não desejo que seus problemas atinjam o meu lar! Embora, creio que possa lidar com a situação. Não sou uma deusa qualquer. Sou o
olho de Rá e a protetora do Faraó no Baixo Egito. - esbravejou a deusa se gabando de seu poder sobre aquelas terras.
-Nem mesmo você pode com ela. - respondeu Astéria exasperada olhando para o céu.
- Como não? Vocês gregos se acham mesmo muito especiais. Muito poderosos! Nós deuses do Egito somos tão poderosos quanto ou talvez até mais. Tenho certeza
que podemos dar cabo de qualquer um dos seus problemas, Astéria. - brandou Uto.
- Uto, meu problema é Ela.
- Ela, A noite.
A deusa se assustou de imediato. Até mesmo o papiro murchou diante do terror que a deusa passou.
- Astéria, o que fez a Ela? É perigosa. Uma das mais perigosas dos seus. Como pôde desafiá-la?
- Tive que fazê-lo algo. Há alguém a quem devo proteger. Era meu destino. Veio até mim em sonhos.
- Entendo. Mas você tem razão. Não há nada que possa fazer por você. - Disse a deusa se transformando em uma serpente e desaparecendo no campo de trigo.
- Eu sei, eu sei. - disse a titã olhando para o céu. A presença da deusa Uto só serviu para deprimir ainda mais a Astéria.
A menina deusa era agitada, levada e curiosa. E estava louca por aventuras. E atrás de aventuras estava indo.
- Chavi e Kaphiri! Calma, não corram! Já vamos brincar na colina. Estão ansiosos demais! Acalmem-se! - disse a menina.
Os cachorros estavam ansiosos a subir a colina. Tão ansiosos que não ouviam a sua dona gritando para se acalmarem. Tão ansiosos que não perceberam a sua dona caindo.
- Oh, não! - gritou a pequena menina quando percebeu que cairia de costas e rolaria colina abaixo.
- Menina, você deveria tomar mais cuidado.
As costas da menina haviam sido amparadas no peito do rapaz que evitara que rolasse colina abaixo.
- Anúbis, que bom te ver! Chegara na hora certa! Os cães foram muito rápidos. Não consegui acompanhar sua corrida.
- Não importa. Devia tomar mais cuidado. Poderia ter morrido. - retrucou o rapaz.
- Só faço tomar cuidado...Mater e você sempre me mandam tomar cuidado. Não. Existe. Ninguém. Que tome. Mais. Cuidado. No mundo. Do que eu! - disse a menina enfatizando cada palavra e visivelmente emburrecida.
- Toma tanto cuidado que quase rolou colina abaixo! - respondeu o jovem num tom calmo inabalável mesmo diante da birra da menina.
- Foi um acidente! Acho que os cães ficaram ansiosos para ver você!
- Talvez. Ou talvez você não tome cuidado suficiente. - replicou o rapaz.
- Ah, desisto! Só não entendo como eles ficaram ansiosos para ver você, se você estava chegando atrás de mim ainda. Não teria como você está lá em cima e estar logo aqui embaixo. - disse a menina confusa.
- Eles sabem o caminho. E ficam ansiosos a subir. Já vieram aqui muitas vezes.
-Verdade! Só pode ser isso! Não é como você pudesse estar em dois lugares ao mesmo tempo, né?
A verdade que sim. Sim, os cachorros correram para ele. Sim, ele estava no topo da montanha quando sentiu o desespero dela. Sim, ele se teletransportou para ela e
amparou antes que caísse. Mas não diria nada disso. Era só um jovem amigo para ela. Um que ela gostava de conversar. O único amigo que tinha. Não queria
assustá-la com a verdade.
- De qualquer forma. O que te traz aqui hoje? - perguntou Anúbis.
- Nada! - falou a menina sorrindo de orelha a orelha.
- Nada? Vem me importunar por nada? - disse Anúbis espantado.
- Não tinha nada para fazer. Queria brincar no rio, mas não posso. Não posso ir à aldeia sozinha também. Não posso fazer nada! Só posso ficar naquela cabana escura
ou andar em torno dela. Ou vir aqui e ver você!
- Ah, obrigado! Sou a terceira opção. - falou Anúbis sorrindo de lado ironicamente.
- Não fique assim! Falar com gente é sempre a minha primeira opção! - falou estufando o peito e erguendo a cabeça. - Mas não é uma opção vir todos os dias ou minha mater poderia desconfiar e me proibir de fazer mais uma coisa.
- Certo. O que você gostaria de fazer hoje? Treinar os cães para que te obedeçam na próxima vez?
- Eles sempre me obedecem. Só não me obedecem quando estão pertos de você.
- Então, devíamos treiná-los mais.
- Treiná-los mais? Às vezes, acho que leem minha mente!
- Significa que os treinamos bem! Bem, o suficiente para pressentir o que devem fazer.
Anúbis sorriu. Conhecia a menina há um ano. Vendo a andar tão desamparada lhe dera dois filhotes de cães para protegê-la. Filhotes dos cães dele. Portanto, filhotes
mágicos. E os cães desde muito pequenos simplesmente faziam tudo para protegê-la. Seguiam a fielmente. E atacavam vorazmente qualquer um que se aproximasse
com más intenções. Ela nem percebia. A menina era uma deusa da noite e os cães estão acostumados a obedecer a deuses da noite. Qualquer inspiração ou
expiração dela já ficavam alertas. Exceto, quando ele estava por perto. Abaixavam a guarda e corriam para ele com saudades. Bem, isso não era bom. Deveria treiná-
los melhor, depois. Enquanto estava perdido em pensamentos sentiu alguém chegando. Alguém se aproximando soturnamente. Achou melhor mandar a menina para
casa.
- Acredito que tenha vindo muito tarde hoje. Falta pouco para o sol se pôr. Deveria voltar para casa.
- Mas já? Já vai se pôr? Parece tão cedo.
- Vai se pôr mais cedo hoje.
- Certo. Vou para casa. Até outro dia! - disse a menina acenando e descendo a colina correndo.
Observava a menina descendo a colina com preocupação. Sempre ficava preocupado com ela. Mas enfim, fazia o que podia para protegê-la. Dera os cães, ensinara a
ler os hieróglifos e a ler em grego também. Explicava ciência e matemática. A magia não poderia ensiná-la ou poderia colocá-la em mais perigo.
- Não se preocupes tanto. É jovem demais para ter rugas. As deusas ficariam arrasadas se essa pele pálida ficar marcada tão precocemente. - disse a presença que
sentira a pouco.
- Como pode brincar com uma situação dessas, Uto?
- O que posso fazer? Nada. Só posso brincar. - replicou a deusa sorrindo.
- O que você devia fazer era descobrir o que ameaça a criança e a mãe. Me incumbiu de me aproximar e cuidar dela porque Astéria não me conhece e seria mais fácil
assim. Mas como posso cuidar dela se não sei o que a ameaça?
- Melhor não falarmos sobre isso. - disse a deusa reticente. - Não é algo que possamos lidar.
- O que uma deusa da magia e um deus da morte não podem lidar? - perguntou Anúbis estressado.
- Querido menino, há muitas coisas que não podemos lidar. Há deuses bem fortes espalhados pelo mundo e alguns não podemos lidar. O desconhecimento, às vezes,
é a melhor proteção. Manter-se distante do caminho deles também. Não te envolvas demais, nem te apaixones demais. Pode ser que ela não dure muito. Mesmo
sendo uma deusa. - disse Uto desaparecendo da mesma forma que chegou.
- Apaixonado. Ela é só uma menina! - gritou o deus perdendo a calma. - Uma menina que foi dada a ele para proteger. E iria fazer tudo por ela. Não deixaria que ela não durasse muito.
Glossário:
Sobek:deus do antigo egito. Representado por crocodilos.
Uto: deusa padroeira do Baixo Egito. Criadora do papiro. Adota a forma de serpente.
Anúbis:um dos deuses da morte do Egito. Guia as almas. Adota a forma de chacal.
Mênfis: Segunda capital do antigo Egito.
Tinis: Primeira capital do antigo Egito.
