FIM

.

Eu me sentia destruído com a inevitável morte da minha irmã. Já para Rasa, eu não tinha exatamente uma palavra para definir o quão mal ele se sentia: mistura de culpa por deixar os filhos sem mãe, impotência por não conseguir impedir, remorso por Karura estar aceitando tudo tão bem, ódio pelos conselheiros e medo do próprio futuro.

.

.

.

— Eu não me tornei Kazekage, eu vendi minha alma ao demônio... — Rasa lamuriava, com o rosto apoiado sobre as mãos em uma tentativa tola de esconder as lagrimas — Minha alma não! A minha, a da Karura, a dos meus filhos... —as mãos saíram do rosto e foram para os cabelos, apertando os fios e tentando arranca-los.

— Não podemos ficar assim agora, precisamos dar apoio para ela enquanto ainda está aqui — Yashamaru tentava se manter forte, mas a verdade é que simplesmente estava tentando ignorar toda a agonia que sentia.

— Eles já cuidaram disso... — o Kage suspirou e, com as mãos tremulas, pegou a agenda que mantinha todos os compromissos programados anotados — ... cuidaram para que eu passasse os próximos meses em viagens longas, buscas pelo Terceiro e por Sasori. Eles realmente se empenharam dessa vez.

.

.

.

Não era segredo para ninguém que os conselheiros odiavam Karura. O que seria pior do que fazer alguma espécie de controle mental para que ela aceitasse trocar a própria vida para que um demônio fosse colocado em um de seus filhos? Simples: castiga-la ainda mais. Eles eram pessoas podres e baixas, ao ponto de castigarem a minha irmã e fazer com que ela ficasse longe dos próprios filhos e do marido.

Começou exatamente no dia em que meu cunhado fez a primeira viagem.

A velha Chiyo invadiu nossa casa com sua equipe iryo-nin. Eles não perguntaram se poderiam transformar tudo em uma ala médica, eles não ligaram de como Karura se sentia com isso, eles não queriam saber se ela precisava ou não ficar presa em uma cama, eles apenas fizeram tudo isso. Usaram meu sobrinho, que não tinha nem um mês de gestação ainda, como desculpa: precisavam garantir que o selo estava intacto.

.

.

.

— Eu posso muito bem cuidar dela sozinho. Pessoas demais aqui só iriam estressar ela e as crianças! — a voz de Yashamaru tinha certa dose de desespero — Meus sobrinhos precisam da mãe!

— Seus sobrinhos precisam de um lugar seguro, assim como todas as crianças de Sunagakure... — a idosa não fazia questão alguma de olhar diretamente para ele.

— Vocês sabem que não é seguro deixar uma mulher grávida assim. Será que nem ao menos conseguem se importar o mínimo possível com ela? Nem quando ela está sendo "útil" para vocês?

— Estamos garantindo que a criança fique estável com o selo — foi tudo o que Chiyo deu em explicação, julgando já ser mais do que o necessário.

.

.

.

Eu não pude evitar e comecei a sentir culpa também. Não tanta quanto Rasa, mas eu me sentia bem próximo do estado dele.

Aquela briga interna entre ciúmes e alegria não aconteceu comigo de novo, ou melhor, se transformou em uma briga entre ciúmes e preocupação.

.

.

.

— Você está péssimo...

— Você também — Rasa respondeu ao cunhado com um misto de irritação e desanimo — Só vim buscar alguns documentos, saio pela madrugada ainda.

— Achei que ficaria um pouco mais, como da última vez. Karura pergunta muito sobre você, nem suas cartas andam chegando! — Yashamaru se aproximou mais de Rasa — Você continua as mandando, certo?

Ao receber um desvio de olhar como resposta, o mais novo suspirou e esfregou as mãos pelo rosto. Rasa suspirou e tentou encontrar as palavras certas para se explicar:

— Por mais que eu a ame e me preocupe com ela, não posso demonstrar isso se faz com que ela se sinta pior. Da última vez eu tive que assistir médicos dando calmantes para a minha própria esposa porque ela estava chorando e ficando inquieta porque eu ia me atrasar por ter dado atenção a ela... Eu assisti tudo isso... Sem coragem para interferir e sem coragem de sair até que ela ficasse mais calma.

As palavras saiam de uma forma dolorosa, mas Rasa não chorou pronunciando nenhuma delas. Ele já estava ficando tão seco quanto o deserto, suas lagrimas estavam se tornando escassas demais para serem usadas com lembranças ruins.

Lembranças estas de sua esposa culpando a si mesma por todo o mal que ela estava vivendo, quando na verdade, a culpa era de todos que a cercavam. Karura jamais faria mal a outra pessoa.

— E realmente acha que isso é a resposta? — a voz de Yashamaru era fria.

— Eu quero dar ao menos um pouco de paz a ela — a resposta foi praticamente sussurrada com culpa.

.

.

.

Meus sobrinhos eram crianças pequenas demais para entender tudo o que acontecia, o que não quer dizer que não sofressem também. Eu que cuidava deles o tempo todo, mantinha-os longe dos conselheiros e de qualquer mal que fosse... mas ainda assim, eles preferiam a mãe.

A esta altura, ela já tinha se tornado muito mais frágil e de aparência doente. Ela passava os dias deitada na cama, com médicos monitorando até mesmo quantos fios de cabelo ela tinha, mas nenhum se importava com ela.

.

.

.

— Com licença... — docemente, Karura murmurou para um dos médicos que checavam os aparelhos ligados a ela — Poderia me dar um pouco de água?

— O soro cumpre completamente a função de hidratação.

— E-Eu entendo, mas minha boca está seca demais e... — antes que ela conseguisse, o médico a interrompeu de forma frigida novamente:

— É apenas impressão sua, acostume-se.

Karura suspirou e desviou o olhar. Ela já estava acostumada a implorar ao longo de toda a sua vida, mas nas últimas semanas aquilo já estava quebrando o pouco de amor próprio que ela ainda nutria.

— E-Eu imploro... Pode me dar um pouco de água? Eu juro que só quero um pouco, por favor... Faço o que quiserem que eu faça em troca de água, por favor... — algumas lagrimas não puderam ser contidas enquanto ela se esforçava para conseguir juntar as mãos e ergue-las.

O médico, olhando a cena e notando a drástica mudança nos resultados da aparelhagem, nem um pouco contente, ignorou-a por completo e advertiu antes de sair, garantindo em exterminar as esperanças dela:

— Líquidos são servidos meia hora antes das refeições.

— Entendo... — ela suspirou, tentando prender o choro e sorrir — Farei o meu melhor.

Ouvindo tudo aquilo, horrorizado, Yashamaru deixava as lagrimas escorrerem livremente pelo rosto. Ele não tinha condições de lidar com aquilo, de impedir, de lutar... tudo o que ele fazia era cuidar dos sobrinhos e ouvir tais absurdos pela parede dos quartos adjacentes.

.

.

.

Ainda assim, ela manteve sempre um sorriso no rosto porque estava sendo útil para Sunagakure e estava fazendo algo bom para os filhos. Aquele sorriso insuportável só se tornava maior quando eu levava Temari e Kankuro para verem ela...

.

.

.

— Meus amores! — ela exclamou, sorrindo.

Uma vez ao dia, Temari e Kankuro eram permitidos de verem a mãe. Karura se derretia em risos, elogios e palavras doces para os filhos. Ela mal conseguia sustentar o peso dos braços, mas se esforçava para abraçar as crianças com o máximo de força possível.

— Mama! — Temari sorriu, estendendo os braços na direção dela.

Diferente da irmã, Kankuro não sabia balbuciar muitas palavras. Nada alarmante, visto que ele era um bebê novo ainda. Porém, era inegável que ele apreciava aquelas visitas à mãe.

— Como estão se comportando? Andam dando muito trabalho? — dessa vez, Karura olhava diretamente para o irmão.

— São adoráveis e comportados — o rapaz sorriu, levando-os para mais perto da cama — A única coisa estranha que eu tenho notado é que o Kankuro costuma ficar horas olhando aqueles brinquedos. As vezes eu me pergunto se ele espera que se mexam sozinhos — Yashamaru deu uma leve risada depois de contar, enquanto colocava as duas crianças próximas da mãe.

— É por causa do nome dele... — a irmã começou a explicar, abraçada aos pequenos — Rasa escolheu porque era de um titereiro muito famoso — sorriu — Com certeza o meu príncipe vai ser ainda mais famoso que ele...

— Sem dúvidas... —o irmão concordou, observando a cena adorável de Karura abraçada aos filhos.

Infelizmente, ela não compartilharia do destino deles.

.

.

.

Eu não aguentava mais ver ela daquele jeito, principalmente porque eu já estava começando a aceitar a morte dela... não, pior: eu estava começando a desejar a morte dela.

Não sei em que momento aconteceu, mas as minhas metades que lutavam o tempo todo com ciúmes e preocupação foram substituídas por um sentimento que eu não sabia ao certo como descrever. Era algum tipo de aceitação medonha que ela finalmente estivesse saindo do meu caminho, que eu finalmente poderia ter tudo o que eu queria...

Fiz questão de estar longe o suficiente para que, no último momento, eu não tentasse mudar os fatos.

.

.

.

— Me pediram para interceptar um grupo que anda roubando sementes na fronteira... — Yashamaru falou casualmente, fazendo com que o cunhado quase pulasse da cadeira — Como você vai ficar aqui, as crianças vão ficar sob seus cuidados.

— Você não pode fazer isso! — Rasa vociferou, encarando o cunhado com irritação — A Karura está prestes a...!

— Morrer — o rapaz completou em um sussurro — Eu preciso ir, eu preciso de um tempo para conseguir lidar com isso do jeito certo.

— Yashamaru, você não pode deixar a sua irmã agora! Ela precisa de apoio! — o Kage estava prestes a entrar em pânico — As crianças!

— Você é o protetor dessa família, Rasa... — ele sorriu, se aproximando um pouco mais do cunhado — Então... por favor... — ele queria se manter forte, mas os olhos já estavam marejados devido ao medo que ele tinha. Jamais pensou que estivesse tão bem com a morte da irmã e ele se sentia um monstro por isso — E-Eu preciso ir.

.

.

.

Na verdade, eu fugi.

Fugi para o mais longe que pude, perseguindo qualquer objetivo sem fundamentos, apenas para me manter longe daquele olhar doce e daquele sorriso que ela sempre tinha. Eu não conseguia suportar me sentir tão amado por ela, quando na verdade, eu queria ser ela – e minha irmã precisava desaparecer para isso.

.

.

.

— Promete voltar logo? Vou morrer de saudades de você... — ela abraçava ao irmão mais novo com o máximo de força que conseguia.

— Também vou morrer de saudades de você... — confessou Yashamaru, a abraçando delicadamente — Prometo que volto logo.

— Promete cuidar das crianças?

— Prometo. Sabe que eu adoro cuidar das crianças...

— Promete cuidar do Rasa?

— E-eu... Eu prometo — a voz dele saiu com mais determinação — Prometo cuidar do Rasa.

— Você é a única pessoa que eu confio para cuidar de tudo o que é importante para mim, porque você é meu irmão, meu amado irmãozinho — ela sorriu, um sorriso triste e com olhos marejados.

— E você sempre será a minha irmã amada, que cuidou de mim todos esses anos... — ele acariciou gentilmente o rosto dela — Prometo cuidar de tudo no seu lugar, irmã...

— Obrigada, Yashamaru — o sorriso ficou ainda maior devido à calma que aquelas palavras trouxeram para ela.

Os dois permaneceram assim, encarando um ao outro com sorrisos tristes.

Era uma despedida dolorosa.

.

.

.

E então eu precisei voltar e encarar tudo.

Minha caminhada foi lenta porque eu não queria verdadeiramente voltar. Eu queria continuar fugindo de toda aquela situação, daquele sentimento terrível que estava dentro de mim.

A areia escaldante parecia ser muito mais aconchegante do que voltar. Tanto ao ponto de eu fazer diversas pausas, apenas para admirar os grãos de areia voando com o vento e para ter certeza de que eu chegaria atrasado.

Quando eu já conseguia ver a imponente falésia e seus guardas, algo dentro de mim fez com que todos os músculos do meu corpo quisessem correr. Bastava que eu escolhesse a direção – em frente ou voltar -, porque eu tinha certeza absoluta que conseguiria correr mais rápido do que já corri em qualquer outra tentativa na minha vida.

.

.

.

— Yashamaru! — um dos guardas anunciou, gritando e balançando os braços. Não demorou até que os outros imitassem o gesto.

O jovem médico saiu em disparada, correndo pelo deserto até que algo além de seu nome conseguisse ser compreendido em meio aos gritos:

— Ela está dando a luz! É agora! Rápido, Yashamaru! — eles avisavam, enquanto o rapaz continuava sua corrida.

.

.

.

E eu escolhi voltar para os braços da minha irmã.

Eu escolhi deixar aquele sentimento podre de lado e me forçar a demonstrar todo o amor que eu sentia por ela, demonstrar toda a importância que ela tinha na minha vida no pouco tempo que ainda tínhamos juntos.

Enquanto eu corria para casa, minha mente começou a brigar novamente: uma parte em culpa e outra parte em alegria.

Céus, eu havia me esquecido completamente que tudo aquilo começou porque Karura estava grávida do meu sobrinho! Eu teria mais uma criança para cuidar! Eu faria parte da vida de mais uma pessoa!

.

.

.

Aqueles sentimentos dançando na mente fizeram com que ele mantivesse a corrida na mesma velocidade. Ele precisava chegar até lá, não só por ele, mas por Karura e pelo seu sobrinho recém chego.

Ele não parou de correr quando chegou perto das imponentes paredes de pedra. Ele não parou de correr quando as atravessou pela fenda. Ele não parou de correr quando chegou em frente à casa. Ele não parou de correr quando cruzou a porta. Ele só parou quando já estava ao lado de Karura...

— Irmã? — ele chamou em um sussurro.

.

.

.

Quando eu entrei no quarto dela, tentando recuperar o folego para tentar falar todas as palavras que expressavam tudo o que eu sentia por ela, tentar me despedir com o mesmo amor que ela sempre teve por mim... era tarde.

Minha irmã já tinha partido.

Não posso falar que foi doloroso ver o corpo frio dela porque estaria enganando a mim mesmo, eu diria que foi uma libertação para Karura. Rasa ficou abraçado a ela o tempo todo, dividindo o calor dele com minha irmã e meu sobrinho recém-nascido, protegendo-os.

.

.

.

— Ela se foi. — O rapaz falou da forma mais firme que conseguiu. Teve que engolir tudo o que sentia, por mais que isso formasse um amontoado de amargura preso em sua garganta.

— NÃO! — Rasa se agarrou mais ao corpo de Karura, cuidando para que seu filho continuasse protegido em meio ao abraço — Ela já vai acordar! Ela vai acordar, ela vai sorrir e falar que está tudo bem porque ela prometeu que ia proteger o Gaara! Ela vai proteger ele como protegeu Temari e Kankuro!

— Ela protegeu aos três se sacrificando, Rasa... — Yashamaru tentou ao menos justificar todo o esforço da irmã.

— Por que ela fez isso? Por que fizeram isso com ela? Por que eu não impedi? Eu... Eu sou um monstro, eu...

O homem já não era nem a sombra de um Kage. Rasa parecia uma criança assustada, chorando, em absoluta negação ao que tinha acabado de acontecer naquele quarto. Ele continuaria se lamentando e assumindo toda a culpa facilmente, se o choro fraco de Gaara não o fizesse despertar daquele pesadelo.

— Viu? O Gaara-chan deve estar com fome... — a voz de Yashamaru tentou soar doce — Por que você não leva ele? Tenho certeza que Temari e Kankuro vão adorar o irmão!

— Vão? — o outro perguntou entre um soluço de choro e outro.

— Claro... — cuidadosamente, Yashamaru o fez soltar Karura e segurar o pequeno bebê de cabeleira ruiva, sorrindo docemente durante o tempo todo — Agora vá lá e cuide do seu filho, ele precisa muito do pai agora. Ele e meus outros sobrinhos — para ter certeza de que a mente de Rasa conseguiria processar toda aquela informação, ele segurava o rosto do mais velho e fazia-o olhar diretamente para si.

— Eu serei... — ele fungou, tentando parar de chorar — Serei tudo o que eles precisam.

— Sem duvida alguma — o rapaz não conseguiu conter uma leve caricia, limpando as lagrimas de Rasa — Vá... Eu vou cuidar da Karura agora — e sorriu, observando atentamente o outro abraçar o filho um pouco mais e sair do quarto.

.

.

.

A realidade caiu sobre mim como se eu estivesse sendo enterrado sob toneladas de areia. Meus joelhos não sustentavam todo aquele peso, aquelas responsabilidades subentendidas que já começavam a me sufocar.

E então, eu despertei de todas aquelas ilusões que eu havia criado, eu finalmente enxerguei o meu papel, eu seria o novo pilar daquela família e não poderia colocar nada acima dos meus sobrinhos e de Rasa.

Uma nova briga interna se iniciou: metade de mim desejava que eu fosse mais e mais necessário até conseguir substitui-la, a outra metade era de aceitação sobre minha nova condição e do que eu poderia fazer para permanecer naquele posto.