TUDO QUE ERA DELA

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Com gritos e ameaças sem fundamentos, impedi que os demais médicos e qualquer outra pessoa se aproximasse de Karura, do que havia restado neste mundo. Minha amada irmã agora não passava de uma lembrança doce separada de um corpo sem vida.

Para minha sorte, Rasa estava ocupado demais com os filhos para voltar até aquele quarto mais uma vez. Ele não veria minhas lagrimas se misturarem a água enquanto eu lavava o corpo oco da esposa.

Esta foi a primeira das responsabilidades que eu precisava cumprir.

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Com as mãos delicadas como uma brisa, Yashamaru acariciava a pele fria de Karura enquanto limpava quaisquer vestígios de dor e esforço que ela pudesse ter, como o suor seco misturado com lágrimas de alegria.

— Sabe, irmã... — ele sussurrou o mais baixo que conseguiu — Eu continuo sendo a criança medrosa de sempre. Lembra quando nos despedimos? E-Eu... — um soluço de choro o fez parar, mas o jovem médico fez questão de retomar a conversa unilateral — Eu fugi, eu fugi como fugíamos da guerra. Fugi porque eu não queria ver você assim, mo-orta...

Ele precisou parar e segurar as mãos dela, respirar fundo e esperar até que os soluços o permitissem falar palavras inteiras.

— Eu demorei de propósito, porque eu queria que tudo já estivesse resolvido! — sussurrou em desespero — Eu fiz de propósito!

O Iryo-nin se agarrou ao manto que a irmã sempre usava. Afundou o rosto buscando prolongar um pouco mais a presença dela, sentir mais uma vez o calor aconchegante de seus abraços, seu perfume de flores delicadas...

— Eu não fui corajoso o suficiente e olhar para você mais uma vez, eu não quis me despedir porque eu não queria que você fosse! — confessou entre as lagrimas, se debruçando sobre o corpo sem vida — Eu não queria que você descansasse em paz enquanto eu continuo nesse inferno!

Yashamaru continuou lá, chorando como uma criança assustada, até que finalmente teve coragem para erguer o rosto e encarar a situação. As lagrimas cessaram, os soluços desapareceram e, então, ele pode fazer uma última promessa:

— Vou transformar esse inferno no meu paraíso, irmã. Vou fazer isso como você fez.

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O enterro foi feito na calada da noite, com a desculpa de que a morte de Karura poderia gerar uma má impressão nos cidadãos de Suna. Porém, mais parecia que os conselheiros queriam sumir com a prova do que fizeram.

Rasa ficou de pé ao lado da cova, acompanhando tudo com um olhar perdido em lembranças. Meu cunhado se mantinha em negação sobre tudo o que aconteceu, as crianças estavam quietas devido ao sono e eu apenas estava lá, sem sentimentos, sem saber o que fazer e nem o que sentir.

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Quando o caixão começou a ser coberto por areia, Rasa sentiu como se ele quem estivesse sendo enterrado. A boca estava seca, a pele fria, o corpo recusava a se mexer como ele queria... o medo e o vazio tomou conta de si. Ele chorou.

Temari, pequenina, pareceu entender que havia algo de errado. Ela viu a mãe ser colocada naquele "esconderijo", ela viu o pai se desabar em lagrimas...

— Mama! — ela balbuciou, apontando para a cova e encarando o tio.

Yashamaru respirou fundo, buscando palavras simples para explicar o que estava acontecendo. Foi então que seu lado vil assumiu, respondeu com amargura:

— Ela se foi, Temari.

— Mama foi? — a menininha perguntou ao pai, que não deu resposta alguma — Mama! Mama! MAMA!— ela chamou, gritou repetidas vezes e não obteve resposta alguma. Restou se esgueirar para perto do buraco e procurar sozinha pela própria mãe, mas ela não estava mais lá, só tinha areia.

A constatação foi seguida de choro, um choro desesperado de uma criança que mal entendia o que tinha acabado de perder. Kankuro, a quem Yashamaru segurava, seguiu as ações da irmã e também começou a chorar mesmo sem entender o que estava acontecendo.

Gaara, que estava no colo do pai, permaneceu entregue à um sono profundo e calmo. Se sentia acolhido entre as mãos de Rasa, as lagrimas quentes que pingavam sobre si não o incomodava em nada.

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Quando a dor finalmente me atingiu e permiti que lagrimas escorressem pelo meu rosto mais uma vez, já estávamos em casa. A mesma casa na qual moramos juntos nos últimos anos, mas que agora parecia não ser mais habitada.

Rasa se recusou a entrar no próprio quarto, preferiu dormir no quarto de Temari com as crianças. Eu não teimei, não tentei mais fazê-lo aceitar a perda e muito menos toquei no nome da minha irmã, mas admito que fiz algo muito pior:

Me aproveitei da quietude e anestesia daquele momento e apaguei quaisquer que fossem os vestígios dela. As roupas, objetos, fotos, lembranças... até mesmo os equipamentos médicos fiz questão de remover do quarto, da casa, da vista de quem quer que fosse.

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Na madrugada silenciosa, Yashamaru caminhou pela areia do deserto até a habitação dos honoráveis irmãos da areia. Na entrada, ele conseguiu identificar a silhueta de Chiyo.

Quando já estavam próximos, o rapaz não falou uma palavra sequer, apenas estendeu o pergaminho que continha todos os equipamentos selados dentro de si.

— Me perguntei quanto tempo levaria até você fazer isso... — a ânsia comentou, segurando o pergaminho sem menção de que iria verificar o conteúdo — ... Droga! Perdi a aposta por quatro horas!

— Do que está falando? — a voz dele soou bem mais fria do que o ar gélido do deserto.

— Não pense que me faz de idiota — a velha respondeu e estendeu uma das mãos — Se quisesse devolver os equipamentos, não teria vindo até aqui!

— Mas eu...

— Entregue logo! — ela mandou — Sei que trouxe os pertences de Karura para que sejam guardados no depósito.

— Como? — Yashamaru perguntou enquanto entregava o outro pergaminho.

— Como? — com um olhar desdenhoso, ela encarou o jovem diante de si e respondeu: — Porque eu sei perfeitamente como lidar com a dor perdas assim, Yashamaru. Não é o jeito certo, mas é o que parece machucar menos.

O rapaz encarou o chão por alguns segundos, antes de se curvar em respeito e partir novamente. Não aceitaria palavras de apoio de uma assassina como aquela, principalmente sobre como lidar com a morte de Karura.

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Foi a noite mais longa que já enfrentei, seguida da manhã mais dura.

Meu cunhado, quando notou o que eu havia feito, gritou e brigou comigo como se eu tivesse cometido o maior de todos os crimes – o que, de fato, eu havia feito. Não fui culpado de matar a minha própria irmã, mas eu tentei matar as lembranças dela.

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O Kazekage caminhou desesperado pela casa.

A única coisa que o fez ter certeza que Karura não foi apenas o mais doce sonho que já teve era a presença dos filhos e do cunhado.

O rapaz, aliás, estava preparando o café da manhã como em um dia qualquer, como se nada tivesse acontecido, como se a vida dos dois não tivesse sofrido uma perda sem reparos.

— Bom dia, Rasa — o mais novo sorriu, notando o olhar do cunhado sobre si.

— Karura! As coisas dela!

O sorriso de Yashamaru desapareceu e feições mais sérias foram adotadas. Ele observou o Kage por alguns segundos antes de voltar ao preparo das refeições e contar, como se fosse algo casual, o que havia feito:

— Coloquei-as no depósito.

— Por quê!? — ele perguntou com fúria, mas lagrimas de tristeza escorrendo pelo rosto.

— Porque é o melhor, Rasa... — Yashamaru o encarou novamente — É melhor do que lembrar dela a todo momento.

— Eu sempre vou me lembrar dela! — vociferou, controlando os impulsos de esganar o irmão da mulher que mais amou na vida.

— Mas não podemos viver de lembranças — calmamente, o mais novo aproximou as mãos do rosto de Rasa e tentou limpar as lagrimas. Ele ignorou o olhar de raiva, ignorou as tentativas de ser afastado e os resmungos de descontentamento — É o melhor para os seus filhos.

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Com muito custo, o fiz entender que seria melhor para as crianças que Karura ficasse apenas como uma lembrança distante, mencionada ocasionalmente. Ver a figura da mãe os faria sofrer além do necessário, faria com que tivessem curiosidade... ver a figura da minha doce irmã em todos os lugares, faria a luta em meu interior despertar mais uma vez entre os ciúmes e a culpa.

Mas uma foto dela, sorridente, foi o suficiente para que todos lidassem melhor com a ideia de que ela já não estava lá.

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Durante uma das visitas da velha Chiyo para verificar o progresso de Gaara como portador da Bijuu, ela levou um porta-retratos com a foto de Karura. Yashamaru não reagiu, simplesmente ignorou o objeto enquanto terminava de pentear os cabelos loiros de Temari – impossibilitando que a sobrinha tivesse alguma visão do que era. Kankuro olhou curioso, mas não o suficiente para tentar falar algo. Gaara, que estava sendo segurado pela velha Iryo-nin, olhava vidrado para a imagem da mãe.

— O certo é aceitar e seguir em frente, Yashamaru — ela disse calmamente.

— Já aceitei e estamos seguindo em frente.

— Seguir em frente não é correr e ter que voltar do começo várias vezes, é caminhar e olhar para trás quando precisar.

— Duvido que olham para trás, duvido que se arrependeram de tudo! — ele cuspiu as acusações com certo veneno, mas cauteloso o suficiente para não despertar a curiosidade na sobrinha.

— Foi uma decisão dela contribuir com Sunagakure...

— Vocês a controlaram.

— Foi pela segurança de Temari, Kankuro e Gaara também — segundos se passaram e tudo foi mergulhado em silencio, até que ela terminou com a frase habitual ao final das verificações: — O selo está estável.