DE UM JEITO DIFERENTE

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Minha vida começou a se reestruturar em função da minha família, não apenas do trabalho. Comecei a fazer planos para o futuro, planos que exigiam uma caminhada árdua, uma coisa completamente diferente do que eu sempre fiz: fugir.

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A nova estufa estava pronta e as reformas na antiga também haviam terminado.

Como supervisor, Yashamaru caminhou por todo o lugar com prancheta na mão: estava se decidindo o que plantar e aonde. Ao lado dele, a velha Chiyo acompanhava o progresso de Sunagakure.

— Você abriu inúmeras portas para a prosperidade em Suna... — a idosa começou e continuou: — Com os novos estudos, venenos mais eficazes garantiriam nossa vitória em conflitos.

— Venenos? — o loiro murmurou entre uma anotação e outra — Não, apenas medicamentos.

— Venenos são medicamentos em doses erradas... — Ela deu uma risada falha ao final da afirmação.

— Como supervisor responsável do setor, pretendo desenvolver o estudo de medicamentos. Apenas medicamentos — o loiro fez questão de enfatizar.

— E se você é o supervisor do setor de botânica, é simplesmente devido ao meu apoio — o loiro preferiu ignorar aquela conversa e continuar anotando coisas importantes, o que não impediu que ela continuasse: — Não sou tola, Yashamaru. Se fosse eu fazendo aquele discurso, todos veriam meus propósitos escondidos, mas você não.

— E pretende que eu leve seus propósitos como meus? Realmente acha que eu faria isso?

Chiyo ficou em silencio por algum tempo, apenas o acompanhando e observando ao redor. Ela gostava de ignorar quando as coisas não andavam como ela queria, dava tempo de elaborar uma nova estratégia:

— Sabe o que dizem? Amigos perto e inimigos mais perto ainda... — ela sorriu — Você é um bom rapaz, não me faça apontar você para missões longes daqui do mesmo jeito que eu apoiei as estufas.

A idosa não esperou resposta alguma, deixou suas palavras ecoarem na mente de rapaz. Ele tomaria a decisão certa com o tempo. Foi uma clara ameaça: com ele sob o controle dela a contragosto, os venenos seriam produzidos em larga escada; com ele longe, ela assumiria o controle, cabia a ele escolher o que fazer.

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Em toda a minha vida até aquele ponto eu só havia caminhado sem rumo, fugindo das responsabilidades, dos compromissos e da tristeza. Mas agora havia algo diferente em mim, algo que me fez querer fincar meus pés onde eu estava, observar tudo o que eu havia conquistado e então continuar andando na direção de um objetivo.

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Yashamaru estava ajoelhado no chão, com alguns elásticos presos na boca e um em uma das mãos: estava fazendo um penteado na sobrinha para o primeiro dia de aula dela. A ideia original era maria-chiquinha, mas o cabelo volumoso exigiu quatro divisões.

Rasa observava tudo da porta, com um sorriso de pai orgulhoso e um olhar perdido. Ele imaginava o quão feliz e ansiosa Karura ficaria caso ainda estivesse lá... ela correria por toda casa, gritaria de felicidade, levaria a filha até a porta da sala e a cobriria de beijos.

— Se eu quiser vir para casa, eu posso? — Temari, que não estava muito feliz com aquela ideia de ir para um lugar desconhecido sem seus brinquedos, estava insegura.

— Não, princesinha... — o pai respondeu, acordando dos devaneios.

— É como se eu estivesse de castigo sem ter feito nada! — ela murmurou chateada.

— Você vai aprender coisas novas, vai conhecer crianças da sua idade... — o pai tentou convencer ela de que seria divertido.

— Posso ir só amanhã? — a pequena fez uma última tentativa de suplica.

— Temari-chan... — o tio finalmente falou algo, agora com a boca desocupada — Prometo estar lá quando a aula terminar, vai passar rápido.

— Como você sabe? Nenhum de vocês foi para a escola quando eram pequenos, só eu que tenho que ir! — emburrada, a garotinha cruzou os braços e encarou o chão.

Yashamaru não sabia o que responder, não sabia quais palavras usar e tão pouco se realmente deveria se justificar. Rasa, por outro lado, suspirou e começou a explicar da forma mais amena possível:

— Não fomos para a escola porque não haviam escolas naquela época. Lembra o que o papai contou sobre as brigas com outros territórios? — recebendo um aceno positivo e a atenção da filha, ele continuou — As crianças não podiam sair de casa, todas precisavam ficar escondidas. Seu tio precisou aprender as coisas sozinho porque queria ajudar...

— Eu sei, eu sei — a pequena Temari encarou o tio — você consertava as pessoas com a mamãe.

— Sim, querida — Yashamaru confirmou — Mas foi difícil.

— Muito, muito difícil? Porque eu também posso aprender sozinha, daí quando eu machucar o Kankuro, posso consertar ele sem ninguém saber...

Os mais velhos trocaram um olhar cumplice. Ambos queriam rir e se render às graças da pequena Temari, porém sabiam que manter a seriedade era fundamental naquela situação.

— Princesinha, vamos fazer um acordo? — novamente, Rasa tinha a atenção total da filha para si — Se você for para a escola e aprender muitas coisas novas, seu tio começa a ensinar você como consertar as pessoas...

— Promete!? — a loira sorriu, correndo até o pai e se abraçando em uma das pernas dele.

— Prometo? — o Kage encarou o cunhado, afinal, estava fazendo acordos usando ele.

— Prometemos — Yashamaru sorriu.

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Aos poucos, me dei conta de que a minha irmã estava sã em cada pequena escolha que tomou, ela só não havia medido as consequências. Agora, eu entendia a sensação de estabilidade que ela tentou manter se sacrificando por Sunagakure.

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Yashamaru estava na porta do quarto da sobrinha, olhava para a irmã radiante com a filha no colo. Ele prestava atenção em tudo o que a irmã falava, como se já imaginasse que Karura estar lá, cuidando da filha, pudesse se tornar apenas uma lembrança:

— Yashamaru, quero que a Temari seja uma médica! — ela sorriu — Uma tão boa quanto você, irmão!

— Mas por que médica?

— Para poder cuidar de Sunagakure, como você faz! — Ela sorriu.

Mesmo que Karura falasse aquilo de uma forma tão óbvia, o irmão não entendia o motivo.

— Você odiou cuidar das pessoas...

— Não, não... — Os olhos dela recaíram sobre o irmão, ela parecia estar assustada com aquelas palavras — Eu odiei ver elas morrerem em uma guerra, é por isso que vou continuar cuidando de Sunagakure. Quero que minha filha cresça em um lugar de paz e seja uma médica habilidosa como o tio — Novamente, ela sorriu.

— O Conselho só está enfiando essas coisas na sua cabeça para usar você, Karura! — Yashamaru tentou avisar, mas esses avisos nunca surtiram efeito.

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Entretanto, não demorou até que eu me lembrasse de um detalho sórdido: o sacrifício dela foi um assassinato muito bem elaborado.

Se ela, a esposa do Kage, não foi poupada pelo Conselho, eu não seria também.

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Rasa observava os conselheiros, sentados em volta da grande mesa redonda de reuniões. Ele já estava cansado de tentar dialogar, apenas deixava os mais velhos falarem o que queriam e concordava no final – lutar contra eles era uma ação em vão.

— E por que não ouvimos os relatórios sobre as estufas? — Ebizo sugeriu aos demais conselheiros.

O silencio se instalou na sala e todos direcionaram a atenção para Yashamaru.

Poucos sabiam – nem mesmo Rasa sabia -, mas ele iria tomar uma das decisões mais importantes da sua vida, o primeiro momento de confronto naquele capítulo da própria história: ser um amigo fiel de Rasa e se afastar ou ir contra a confiança dele e continuar perto.

— Estamos fazendo progressos consideráveis com os estudos em botânica...

— Pode apontar o mais relevante? Tenho certeza que vai surpreender a todos nós — a velha Chiyo sorriu. Estava ansiosa sobre os venenos, uma vez que sabia dos incessantes estudos do rapaz sobre um novo cacto.

— O projeto que tenho dado mais atenção é sobre um cataplasma de uma variedade nova de Nopal. Ainda estou testando os efeitos progressivos da ingestão, mas as pomadas já começaram a ser distribuídas aos ninjas — o rapaz sorriu.

— E quais efeitos seriam esses? — um dos idosos perguntou.

— Tem se mostrado um ótimo antibiótico.

— Só um medicamento? — Chiyo perguntou decepcionada, frustrada com suas expectativas.

— Sim, que pode ser disponibilizado para os moradores de Sunagakure e vendido para nossos aliados — Rasa respondeu pelo cunhado. Foi o suficiente para refletir os interesses de Yashamaru.

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Mas diferente dela, eu sabia ter uma vida dupla, sabia ser dois ao mesmo tempo. Não havia uma luta interna dentro de mim, porque ambos os meus lados queriam apenas manter tudo onde estava, a diferença eram os meios: um sorria e fingia não saber de nada, o outro se vingava enquanto isso.

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Chiyo e Ebizo estavam na sala do Kazekage. Rasa avia insistido para que os dois fossem conversar com ele depois da reunião, mas os idosos não esperavam encontrar Yashamaru lá também.

— E sobre o que é essa reunião? — o mais velho perguntou erguendo as sobrancelhas compridas.

— Sobre a tentativa de traição aos desejos do Kazekage — Rasa respondeu friamente, apoiando os cotovelos sobre a mesa e apoiando o queixo sobre as mãos.

— Ah... — Ebizo encarou a irmã — Devo imaginar que seja mais uma de suas tentativas? — em resposta, a velha senil apenas deu algumas risadas.

— Acha uma traição aos meus acordos algo engraçado, Chiyo?

— Não, mas admito que é engraçado o cão leal que esse rapaz é... — Ela olhou para Yashamaru — Quanto tempo demorou até ele pedir ajuda? Há quanto tempo sabe?

— Tem algo que Yashamaru deveria me alertar além dos desvio de verba e missões falsas que mandam os meus ninjas atrás do seu neto em buscas infrutíferas? — Rasa encarou a idosa.

— Irmã! — Ebizo olhou-a repreensivo, ele não fazia ideia do que ela andava fazendo.

— Ela também tentou me convencer a produzir e estudar venenos ao invés de medicamentos — o rapaz loiro respondeu.

Frente às acusações, Chiyo fingiu-se de desentendida e riu. Bancar a senil agora não a livraria de nada, mas daria tempo até que ela pensasse no que fazer. Porém, Ebizo tomou iniciativa quanto a situação:

— E o que precisamos fazer para que essas informações não cheguem aos outros membros do Conselho?

Deixar o posto já seria motivo mais do que suficiente para o povo de Suna inventar pretextos fantasiosos, mas deixar o posto sendo acusado de traição dava brecha até mesmo para os representantes do País do Vento tomarem medidas mais drásticas.

— Precisam apenas se afastar, quanto mais recluso melhor escondidas as acusações ficarão — o Kage respondeu friamente.

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Diferente da minha amada Karura, eu sabia ser um monstro. Mas igual a ela, eu fui importante para Rasa.

Igual, apenas de um jeito diferente.