Notes:

Uma história de 2 partes (Skyfall e Íris) que tem início, meio e fim bem definidos, mas é totalmente não-linear (o que pode ser bem confuso). Desculpe por isso.

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

PARTE I - SKYFALL

Skyfall is where we start

A thousand miles and poles apart

Where worlds collide and days are dark

I.

Teresa

Voltou a olhar seu reflexo no espelho de Rosmerta. O corpo moldado em um vestido verde esmeralda que a expunha em um decote desconcertante, estava mais magra que o normal, ossos saltando pela coluna e ombros. No entanto, como uma piada sem graça, o vestido tornara anos de tortura e desgaste psicológico em uma elegância melancólica. Os lábios finos e pálidos davam lugar a um carmesim semelhante aos cabelos de uma garotinha que ela conhecera anos atrás. Dez, treze anos? Quanto tempo havia passado desde o último verão? Há quanto tempo ela havia parado de contar?

Os fios avermelhados tão característicos de sua origem, estavam camuflados em um tom de loiro quase branco que a fez se lembrar a contragosto de Draco Malfoy. A poção Colorus no entanto, não foi o suficiente para omitir as sardas persistentes sobre sua pele.

Gina podia admitir para si mesma que aquele era um plano impulsivo e egoísta, que de nada poderia contribuir para a Resistência, mas há tempos ela havia desistido dos métodos morais semeados na época da Armada de Dumbledore.

Haveria um futuro justo para aqueles que lutavam agora? Seus filhos e filhos de seus filhos se lembrariam daqueles que foram sacrificados para um futuro de paz e igualdade? Eles conheceriam o nome de Ron e de seus outros irmãos? Ou saberiam apenas que uma vez houve um homem chamado Tom Riddle que não tinha escrúpulos e se tornou uma besta e que houve um jovem com uma cicatriz em forma de raio que lutou contra a besta. Lutou nobremente. Lutou bravamente. Lutou honradamente. E morreu.

"Um cão enlouquecido procurando caos sem atingir um fim realmente", foi o que John Hurley, comandante da Resistência do Norte havia escrito para eles ao receber o relatório das últimas ações arriscadas e lideradas por Gina, responsável pela Resistência do Centro. A transferência de Edward Kane para sua base era meramente política, os olhos e ouvidos de John. Gina fingia não saber das trocas de mensagens particulares entre os dois. Ela não poderia culpá-los, o sentimento de vingança a alimentava, mas também a corroía: o limite de dor e auto-preservação pareciam se expandir a cada missão. O controle da base estava fugindo de suas mãos, Neville parecia muito mais consciente e preparado para tal função, ela podia sentir isso, os outros também.

Ginevra Weasley era um fantasma que habitava sua mente, Teresa seria apenas outro entre tantos. O que sua família pensaria dela se estivesse aqui? Quis rir, levaria um tapa de Molly, possivelmente.

Estremeceu ao ouvir a batida na porta e a voz doce e apreensiva de Rosmerta avisando que ele a aguardava no saguão.

- Gina…- a voz de Rosmerta morreu ao receber o olhar reprovador da mulher. - Certo!Certo! Teresa! Melhor assim?

Gina não respondeu, forçou-se a sair do quarto, mas logo foi interceptada.

- Ainda há tempo para desistir. Por Merlin! Isto é loucura,menina.

- Eu sei o que estou fazendo. -Tentou colocar fim à conversa, mas Rosmerta apertou seus braços com força.

- Você sabe o que pode acontecer se ele descobrir...Não, Gina! Ouça-me! Você pensa que sua coragem será o suficiente para ter aquele homem desprezível tocando-a durante o resto da noite, pensa que seus motivos serão o suficiente, mas não serão…

- Basta. - a voz de Gina não passava de um sussurro, mas foi o suficiente para que a mulher a sua frente a soltasse, Rosmerta acendeu um cigarro e a fitou novamente, o cenho franzido em uma preocupação quase maternal.

-Cinco anos atrás eu a encontrei jogada em um beco qualquer banhada de sangue, seu sangue. Uma memória curta não condiz com uma vida longa, menina. - disse afundando o indicador na têmpora da jovem de forma agressiva, como se quisesse que suas palavras enterrassem permanentemente na cabeça da loira. Gina empurrou sua mão com a mesma delicadeza, odiava quando a mulher a chamava assim. Voltou a caminhar, um pouco mais irritada do que antes, e insegura.

"Foda-se você, Rosmerta. Chore seus conselhos para algum bêbado que queira ouví-la.", pensou.

Desceu as escadas em direção ao homem que a aguardava encostado no bar, os ombros descontraídos sobre o balcão e uma postura que indicava segurança. A cada degrau, as palavras de Rosmerta ecoavam mais alto, como um mantra que a ninguém serve, soando como malditas mandrágoras. Aquele homem acharia estranho o fato dela não fitá-lo diretamente nos olhos. Não conseguia encará-lo, parecia-lhe mais interessante o sapato de couro polido. Seu pai nunca usou esse tipo de sapato, eram mais simples - de um tecido espesso e cor de terra molhada. Gina calçava-os quando pequena, tropeçando pela casa, fingindo ser tão grande e importante quanto o pai. Por vezes, era impedida de descer os degraus da Toca por mãos maiores que a dela, mãos que a rodopiavam no ar com a facilidade que se levanta uma boneca, os sapatos do pai deslizavam pelos pezinhos.

"Ginny!", cantarolava um dos irmãos. Fred? Gui? Não soube dizer, não lembrava mais.

Pronto. Terminado.

O silêncio.

Ele perceberia.

Ele já sabia, certamente.

- Madame Rosmerta tinha razão. Você tem algo de especial, loira. - Gina ergueu os olhos e Blaise Zabini sorriu confiante.

Ela mal se lembrava dele em Hogwarts, e talvez, por ventura, o mesmo ocorresse a ele. No entanto, seu medo não cessou, aquele homem que lhe estendia a mão era um seguidor das Trevas, mas não era Voldemort.

Soube naquele curto instante que as chances de sucesso eram nulas porque com os resquícios de Tom Riddle, uma parte dela conseguia fugir para dentro da sua mente e por mais que Voldemort a tivesse torturado, não havia nada de humano nele para ferí-la além da carne.

Porém, não eram os olhos opacos e reptilianos que a despiam agora. Eram dois abismos, ela não podia ver nada e contra toda a sua vontade, a puxava para perto, era a mesma sensação de equilibrar-se na ponta dos pés na borda de um precipício.

Indigno e dissimulado.

Neville, Dean, Luna, Molly, Harry, Tom, Voldemort. Não queria admitir, mas o modo como aqueles olhos voltaram-se em sua direção... ninguém nunca a olhou daquela forma.

Notes:

Um trecho foi retirado da saga do grande George R. R. Martin: " Rhaegar lutou bravamente. Rhaegar lutou nobremente. Rhaegar lutou honradamente. E Rhaegar morreu."

Aos poucos, a história começará a fazer sentido (ou não, rs)