"... ESQUECER NÃO É UMA COISA QUE POSSAMOS FAZER, É ALGO QUE NOS ACONTECE OU NÃO. A MIM NÃO ACONTECEU."
- John Fowles, O colecionador
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III
Das rosas que carrega em tua boca, diga meu nome entre elas.
Gina.
Pés descalços e o cheiro do café de Molly - doce e fraco. O sorriso amoroso do pai. Os beliscões ameaçadores de Ron.
"Não conte a mamãe sobre o carro, Gina."
"Não conte a mamãe sobre o filhote de dragão no sótão, Gina. Não conte, não conte."
Gui despenteava seu cabelo e lhe explicava sobre as estrelas e os planetas. Gina não entendia como todo aquele espetáculo poderia existir sem magia.
" As estrelas morreram há tempos, é tão triste.", dissera a menina uma vez enquanto arrancava um pouco de grama debaixo dos pés.
Gui riu baixinho.
"Não é triste, Gina. É lindo, veja!"
As risadas dos gêmeos preenchiam o ar quente da Toca, enquanto podia-se ouvir uma Molly Weasley irada até mesmo em Londres.
Fred e George eram terríveis, eles sempre a assustavam com as lesmas fluorescentes, puxavam suas tranças e colocavam pimenta-flamejante em seu leite.
"Olhe, Gina. Estamos preparando-a para Hogwarts. Você é nossa irmãzinha e futura estrela do time de quadribol", Fred apertou seu nariz e fingiu roubá-lo."Vamos cuidar de você, mas nem sempre estaremos por perto".
A menina revirou os olhos infantis e bufou diante do falso sermão, mas assim que seu irmão se virou, ela tocou severamente o próprio nariz, um tanto preocupada, verificando se ele ainda estava lá.
Loira .
Veja bem, ela nunca imaginou que usaria a identidade de Teresa Jones por tanto tempo. Não era sua intenção. Porém, tratando-se de Blaise Zanibi, Gina nunca teve controle sobre o que se seguiria, qual a jogada adiante.
A língua dele serpenteava um caminho já conhecido entre a clavícula e a base da sua orelha. Blaise era gentil e sedutor como os amantes dos romances trouxa, sempre a levava ao ponto máximo de prazer cego e angustiante. Seus convites eram tão impróprios e inimagináveis que por vezes a faziam rir alto e incontrolavelmente em antecipação e constrangimento.
"Ei, Loira. Diga-me ,o que está pensando?", desceu o polegar até a protuberância rosada do seio esquerdo dela. "Diga-me apenas dessa vez, hm." Gina queria ter encontrado Blaise no auge dos seus hormônios adolescentes do Quinto Ano em Hogwarts. Quis responder que ela sabia que ele a amava, e isso doía nela, mas também a fazia se sentir menos sozinha. Quis dizer quem era e beijá-lo logo em seguida. Quis pedir para que eles fugissem pra algum lugar trouxa - ela sabia que Blaise aceitaria. Gina quis confessar que nunca desejara tanto um homem. Quis contar a verdade para que ele a traísse logo antes que ela o fizesse.
"Eu gostaria de tê-lo conhecido antes, antes de tudo. Em outro tempo. Outra vida."
Aninhou-se mais a ele. Blaise não era mau, nem bom.
"Pois eu não, Loira. Eu não.", ele sorriu preguiçosamente antes de beijá-la.
Sardenta.
A risada tempestuosa de Leon foi seu som favorito durante muito tempo. Ele era o abraço dos irmãos e a piedade do pai. Era a rebeldia de uma Gina Weasley mais jovem e menos quebrada.
Ela conhecia a história de Leon, o que fizeram com sua família. Com sua irmãzinha. Isaak contara uma vez, os olhos tremulavam sobre a fogueira, lágrimas presas por entre os cílios, a dor compartilhada entre os dois. Gina não entendia como poderia haver um tempo em que Isaak não esteve com Leon e agradeceu silenciosamente que eles tivessem um ao outro.
Imaginou como seria sua vida se não tivesse escolhido a vingança também.
Isaak uma vez disse a ela que a amava tanto quanto Leon, e por isso mesmo ele não podia permitir que as missões continuassem até as últimas consequências. Eles não suportariam outra perda.
"Você não está mais sozinha, Sardenta.", Leon apertou sua mão, traçando pequenos círculos até torná-la sonolenta. Gina quis rir e também chorar, porque entendeu naquele momento o dissabor e o prazer daquelas palavras.
Ela morreria por aquele rapaz um pouco mais jovem que ela.
Gin.
Foi Luna quem escolheu o nome da filha de Hermione Granger. No início, Gina achou o nome infantil e tolo demais. Teve medo de encarar o bebê e odiá-lo. Odiá-lo por fazer Hermione tão fraca, odiá-lo por ter o sangue maldito dos Malfoy, por ser a criança fruto de um amor que fora negado a Ron, morto tão precocemente. Ela poderia ter sido a filha do irmão se o mundo não estivesse em ruínas.
No entanto, seus pensamentos foram silenciados quando colocou aquele pequeno pacote nos braços pela primeira vez. Gina chorou até o amanhecer.
Hope. A criança prometida ao Novo Mundo.
Sua menina prodígio, assim como um dia fora a mãe.
Os cabelos castanhos selvagens, o franzir do cenho tão familiar, exceto os olhos. Os olhos eram de um azul claro que poderia ser confundido com cinza se observado rápido demais. Gina franziu o nariz com tal pensamento - os olhos, indubitavelmente, eram do pai.
Todos mortos. Hermione. Rosmerta. Teresa. Blaise. O filho que nunca chegou a ser seu. Harry. Os pais. Os irmãos. Leon.
Hope era o que a prendia ao presente e a lembrava que ainda estava viva, que ela não era um fantasma como suspeitava, às vezes.
"Gin, conte-me novamente sobre como a mamãe conseguiu invadir o Gringotes?"
Ela sabia que depois do que ocorrera na Mansão Black, jamais poderia gerar outra criança. Mas então havia Hope - seu pequeno pássaro.
Ginevra.
Tinha vontade de revirar os olhos todas às vezes. Ninguém a chamava assim, nem mesmo sua mãe. Fred uma vez a apelidou de "Gineveve" apenas para irritá-la. Talvez fosse esse o intuito dele também, mas o que aconteceu com "Weasley" ou "Weasel"? Ela preferia esses, certamente.
"Gina", corrigia adicionando um tom seco não-intencional. Os encontros com Draco Malfoy eram um grande desprazer e nunca deixariam de ser, mas Luna havia obrigado-a a ser minimamente cordial com o pai de Hope, "cujos erros já foram julgados e pagos por anos em Askaban e restrição total e permanente à magia." - Gina sentia a picada na ponta da língua sempre que Luna iniciava esse discurso como um relógio de cordas a repetir e repetir, incessante.
Draco era um homem estranho e o tempo não tinha sido ameno com ele - a barba por fazer e as maçãs do rosto pronunciadas lhe davam um aspecto doente. Ele sustentava uma carranca que só era amenizada na presença da filha, ombros curvados e olhos baixos, quase envergonhados, Malfoy falava pouco.
Draco era um sussurro duro e frio, mas ainda aristocrático, o que intimamente irritava Gina.
Luna contou a ela sobre os rumores da internação do homem na ala hospitalar de Askaban. Foi há tantos anos, mas Gina lembrava-se da história todas as vezes que o encontrava, seus olhos caíam discretos para o braço direito constantemente coberto por alguma camisa ou sobretudo - Malfoy era um homem antiquado até mesmo em suas vestimentas.
"Ele usou uma lasca de vidro para arrancar a marca.", o horror na voz de Luna era palpável. "Esfolar o próprio braço, Gina. Disseram que ele perdeu tanto sangue que quase morreu".
Gina não sabia o que pensar.
Draco a salvou uma vez e teve a oportunidade de matá-la outras incontáveis, mas não o fez - Hermione Granger, a única redenção de Malfoy - ela poderia dizer.
Gina, no entanto, ainda tinha pesadelos com as lembranças daquele fatídico dia...
"Malfoy...por favor." - sua visão após a queda era turva e escura, Gina não sabia se era pelo trauma na cabeça ou pelo sangue que escorria da testa. "Por favor, mate-me." -sorriu sentindo o cansaço invadir seu corpo e a ironia de ser aquele homem o seu carrasco. Que grande azar ser o rosto rançoso de Draco a última coisa que Gina veria antes de morrer.
Malfoy ignorou seu surto de irracionalidade e falou tão profunda e irremediavelmente sério, quase um sussurro - uma confissão.
"Eu não dou a mínima, Weasley. Estupefaço."
...Por muitos anos quis culpá-lo por tudo que se sucedeu, mas guardava outras memórias também...
Os olhos de Draco petrificados sobre o corpo dela banhado de sangue, ele não sabia, nem sequer suspeitava. "Você ainda é um garotinho estúpido, Malfoy", quis gritar e cuspir sangue naquele rosto limpo e horrorizado, mas sua garganta queimava e a dor aguda no peito limitava seus esforços em continuar respirando.
Ela lembra de ouvi-lo gritar com outros que estavam na sala, mas Gina não conseguia ouvir mais do que sons desconexos. Tudo que pode sentir foi um tecido macio e quente cair sobre sua pele pegajosa.
"Weasley", a sombra dele pairou sobre sua cabeça e Draco tornou a murmurar em seu ouvido. "Não se atreva a morrer, está me ouvindo? Fique viva."
...Gina foi levada para Askaban e vinte dias depois Blaise Zabini invadiu sua cela para ajudá-la a fugir. Ela não precisou perguntar a ele como haviam escapado da prisão mais segura do mundo.
Enquanto ela ainda era Teresa Jones, podia dizer que das raras vezes que encontrou Malfoy, havia nele traços do garoto arrogante e precipitado que ela um dia conhecera em Hogwarts. Mas olhando agora para o homem a sua frente, ela via um reflexo oco de si mesma e isso a perturbava mais do que qualquer outra coisa.
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Notes:
Tenho que dizer, eu amo Ginny Weasley. Comentários são sempre bem-vindos. Deixe-me saber a opinião de vocês sobre essa história.
