"A traição e a violência são facas de dois gumes: ferem mais aqueles que as manejam do que seus inimigos."
E. B.,O morro dos ventos uivantes.
Caliban: O ponto zero.
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Draco acha que para entender o estado natural das coisas basta observar as chamas que lambem as paredes da Mansão Redwood. O telhado desintegrou-se como gravetos e a fumaça negra invadiu o céu, misturando-se com a escuridão.
Contaram trinta e cinco corpos, recebeu um tímido aperto nos ombros em parabenização.
"Bom trabalho, Mafoy.", disseram.
Outra explosão e a janela da frente se transformou em estilhaços, o cheiro de carne queimada lhe invadiu as narinas, Draco estreitou os olhos. Não conhecia nenhum deles, era algo engraçado de se pensar, que diferença faria se conhecesse? O cheiro seria o mesmo. Ficou ali até ser o último homem no local.
O "Caçador" - em seu íntimo orgulhava-se disso. O trabalho inicial para o ataque limpo e impecável. Malfoy sabia falar russo e francês, era de família nobre, o que potencializava seus contatos e influência, mas eram seus métodos, acima de tudo, que fizeram dele um dos homens mais importantes do Reino Unido. Observar e conhecer sua missão. Observar, observar, observar. Silencioso e paciente.
Seu trabalho era encontrar os Outros e rastrear as bases. A partir disso, as ações ficavam por conta de gente como sua tia e os irmãos Carrow.
Quando Lúcio morreu, Draco não foi capaz de chorar. Quando Voldemort ordenou que ele abandonasse a Mansão Malfoy para iniciar seu treinamento, ele não olhou para trás. A sombra frágil do que se tornou Narcisa, no entanto, o destruiu. Das raras vezes que voltou a vê-la, sua mãe não o reconheceu.
Não soube dizer quando o menino covarde que mijou nas próprias calças ao receber a Marca no braço se tornou um fantasma. Ou quando o fantasma usou de sua discrição e conhecimento para se tornar um caçador. Mas certamente houve essa transformação, lenta e gradual. Seus pais, entretanto, estavam mortos e ninguém mais ligava se a família Malfoy alcançara o respeito que lhe custou tudo.
Naquela noite, Draco não foi para casa direto como sempre fazia depois de terminar uma missão. Ele aparatou na propriedade dos Hazel. Clément Hazel era um homenzinho incoveniente e sádico, os dentes desgastados molduravam um sorriso desagradável e pior que ouvir seu riso infantilizado era ter que apreciar sua companhia enquanto Clément rangia os dentes. Ele não sabia como Pansy aturava seu marido.
Ela o recebeu com uma taça de vermute e para a surpresa de Draco, ainda estava sóbria. A mansão tinha todas as luzes acesas, incluindo os abajures e velas decorativas, Draco suspeitava que essa era a forma da Sra. Hazel afastar a solidão e a culpa.
-Se está procurando Clément, sinto em lhe dizer que não terá nesta noite a presença adorável do meu marido. - Pansy piscou dramaticamente.
-Um homem não pode fazer uma visita despretensiosa a uma velha amiga? - riu, roubando a taça da mulher. Pansy semicerrou os olhos divertidos.
-Sei muito bem qual despretensão o trouxe até aqui. -disse estalando os lábios carmesim. Draco observou a pequena forma da mulher entrar em um dos aposentos e quando ela retornou, segurava um pergaminho negro. -Cortesia do Sr. Hazel.
A próxima missão.
Draco sorriu diante do mau-humor de Pansy. A razão de estar ali estava no pergaminho estendido a sua frente, mas também era verdade que a ausência de Clément adiantou sua visita. Ele quis perguntar se ela estava se cuidando, se estava feliz, se queria que ele a levasse daquele labirinto cheio de luzes e ranger de dentes, mas limitou-se a divagar.
-Você parece bem, Pansy. - em resposta, um único supiro: um pouco melancólico, um pouco irritado.
Draco despediu-se silenciosamente, mas Pansy agarrou-lhe o braço, a serpente queimava sob o toque, mesmo por cima da camisa.
-Esta missão. -sussurrou incerta. -Você não tem que aceitá-la.
Pansy, Draco notou, havia cortado o cabelo na altura do pescoço, ela costumava usar esse corte em Hogwarts. Só então percebeu quão jovem ela ainda era.
-São eles, Draco.
O silêncio preencheu a sala da Sra. Hazel.
Ele sabia que esse dia chegaria. A Resistência liderada por Weasley crescia em fama e problemas, tornando-se uma ferida grande demais para ser ignorada. Draco também conhecia os efeitos disso em Pansy, e absolutamente não discutiria sobre o assunto com ela. Ele se lembrava de como Pansy ficou assustada naquela época, como lutara ao lado de Potter e se ressentira com Draco no fim. Com a ascensão de Voldemort, ela foi obrigada pelos pais a se casar com Clément Hazel, silenciando-se e escondendo-se por trás de uma persona que Draco temia ruir a qualquer instante.
-Boa noite, Parkinson. - era uma coisa entre eles, provocá-la com seu nome de solteira, um resquício da imaturidade de um tempo esquecido.
-Mesmo se você quisesse, não conseguiria encontrá-los.- levantou os olhos desafiadora. -Eu conheço seu estilo, Draco. Você precisaria de um deles para rastrear o restante e não há mais ninguém.
Draco apertou os ombros da mulher com firmeza, ela o preocupava. Quis gritar e pedir para que Pansy parasse de dizer tal estupidez em voz alta, algum elfo poderia ouvi-la.
-Esqueça isso. - os olhos dela tentavam descobrir se ele blefava.
-Não há mais ninguém para você atormentar com seus jogos. -riu sem humor- Saia da porra do meu castelo, Sr. Malfoy.
Pansy arremessou a garrafa de hidromel na direção de Draco, mas ele já havia partido.
"Sempre há alguém, Pansy.", quis dizer a ela.
O sol ainda era uma luz tímida no horizonte quando Draco finalizou a carta ao Ministro da Justiça e das Leis Supremas. Tocou o selo ainda morno no formato de uma serpente.
Excelentíssimo Senhor Ministro Aurélio Duirmen,
Diante da barbárie dos últimos ataques acometidos ao Ministério da Magia, venho por meio deste documento solicitar ao digníssimo que me autorize a acompanhar uma das prisioneiras de Askaban por um período indeterminado, creio que as informações obtidas serão cruciais para o ataque aos rebeldes denominados como Resistência do Centro. Assumo total comprometimento e responsabilidade diante do pedido para interrogar a prisioneira de sangue impuro Hermione Jean Granger, acusada por usufruir irregularmente da Magia, assassinar três homens leias ao Lorde, além de manipular armas bruxas e poções com conteúdo venenoso. Agradeço-lhe desde já e aguardo sua decisão.
O sangue acima de tudo, o sangue acima de todos.
Toujours Pur.
Mencionar aquele nome estranhamente conhecido depois de tantos anos despertou-lhe o que parecia ser uma coceira incontrolável abaixo da pele. Draco encarou seu próprio reflexo diante do espelho de seu aposento e se perguntou mentalmente sobre a possibilidade de enxergar nele os resquícios do garoto assustado que assistira Bellatrix rir sobre o corpo de Granger.
Seus devaneios foram interrompidos pelo crocitar agudo e impaciente da coruja sobre o parapeito da janela. Ela o fitava impassível, os olhos amarelos eram duas enormes luas e pareciam procurar o mesmo que ele.
A coruja piou novamente, tão forte dessa vez que lembrou a ele uma risada humana.
...Ela ria, ria, ria. Draco sentiu que estava prestes a colocar pra fora suas tripas junto com sua última refeição. A intensidade do olhar de Lúcio sobre ele queimava sua nuca e enrijecia seus ombros. Ela ria, ria, ria, curvada sobre um corpo que Draco suspeitaria estar sem vida se não fosse pelos pés balançando desenfreadamente, pés desesperados que cavavam o chão de granito, cada vez mais e mais...
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Notes:
Vocês verão muito de "O morro dos ventos uivantes" nessa história (olá, fãs de Dramione).
É muito difícil pra mim escrever do ponto de vista do Draco. O primeiro problema vem do fato dele ser um personagem masculino, o segundo é também o primeiro, pois essa história tem o seu esqueleto desde meados de 2012 e até aqui, alguns limites entre Draco ser um personagem cinza e um babaca total ficaram mais nítidos. Sendo assim, tive que mudar muitas coisas porque não quero que ele soe como um misantropo ou que seus relacionamentos sejam pautados em algum tipo de abuso (eu geralmente sinto isso quando leio histórias que envolvem Draco num universo pos-Hogwarts-Voldemort-win. Então por favor, deixem-me saber se eu estiver cruzando alguma linha perigosa nos próximos capítulos). Comentários fazem o meu dia!
"Brasil acima de tudo. Deus acima de todos", foi a frase utilizada pelo atual presidente (MILICIANO) do meu país durante sua campanha eleitoral. Se não é de arrepiar, eu não sei mais o que poderia ser. Gostaria que os últimos acontecimentos desde a sua posse também fossem parte de um universo alternativo, de uma distopia. Infelizmente não é. Infelizmente falta 3 anos para o fim do seu mandato e até lá, muitos índios, lgbtqi, mulheres e negros serão assassinados.
