ESCLARECIMENTO: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome de Rachel Ford, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.


Capítulo 2

- Marido ?

Em outras circunstâncias, Sakura acharia a expressão do rosto de Atsui quase engraçada.

- É verdade, Sakura ? - ele olhou, pálido, de um para o outro. Ela assentiu de leve, incapaz de confiar na própria voz.

- Mas, há quanto tempo ? - também Atsui estava tendo problemas com a própria voz.

- Três anos - era um sussurro quase inaudível.

- Três ? Mas você era apenas uma criança e só tinha dezesseis anos... - ele se virou acusador para Sasuke, que permanecera apoiado na parede durante a troca de palavras, com um sorriso meio divertido nos lábios.

- Foi um casamento perfeitamente legal, se você está pensando em algo diferente - o sorriso desaparecera e a voz era gélida - Não foi um rapto ou um casamento forçado.

Atsui lançou a cabeça para trás, tentando se libertar do descaso.

- Você esteve vivendo na Inglaterra todo esse tempo, morando na escola, depois em Oxford com o professor Haruno, seu pai... ele está a par, ou foi um tipo de casamento maluco e secreto ?

- Oh, ele tem pleno conhecimento - Sasuke interrompeu sorridente.

Ela percebeu-lhe o longo olhar pelo canto dos olhos e desviou os seus com rapidez, apoiando as mãos cruzadas no colo com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos sob a pele tensa.

- Entendo - Atsui articulou lentamente - Bem, é isso aí, então - o rapaz hesitou um momento e, depois, encaminhou-se para a porta. Sakura empurrou a cadeira desajeitada.

- Onde você está indo ?

- Preciso pegar a balsa, lembra-se ?

Havia tamanha raiva em sua voz que ela piscou, assustada. Oh, que tola tinha sido, que idiota cega.

- Por favor, Atsui, tente entender - ela implorou.

- Tentar entender ? Todo este tempo você esteve me encorajando e era uma mulher casada !

- Encorajando-o ? Não é verdade, Atsui, e você sabe bem disso - sentia-se culpada, mas diante do estranho em que o jovem havia se transformado e terrivelmente consciente da presença de Sasuke, ouvindo todas as palavras humilhantes que estavam sendo trocadas, ela precisava se defender - Sabe que não é verdade - repetiu com doçura.

Mas Atsui lançou um olhar de profundo desprezo à moça e voltou-se, novamente, para Sasuke.

- Ela é toda sua, talvez seja mais prudente você marcá-la e controlá-la melhor no futuro.

- Atsui ! - Sakura levantou-se e estendeu as mãos, suplicante.

Ela simplesmente não podia deixá-lo partir desta maneira, sem explicação. Mas o que poderia dizer ? Como explicar, voltar atrás vinte anos, quando as sementes do desastre tinham sido semeadas ?

Seu pai, um pobre professor universitário de letras clássicas, já beirando a meia-idade, obcecado pelas línguas mortas, que eram a razão de sua vida... sua mãe, Mebuki Haruno, de uma rica família grega, linda, mimada, tendo qualquer desejo seu atendido: exceto aquilo que mais desejara de verdade. Aos dezesseis anos, adorara seu primo, o pai de Sasuke, que se casara com a filha de um magnata grego. Não se tratara de uma união de amor, mas de um casamento promovido pelas famílias, interessadas em unir as respectivas fortunas.

Por vários anos, Mebuki se recusara a casar-se com inúmeros pretendentes gregos de grande fortuna que a ela se apresentavam. Afinal, tendo encontrado um inglês completamente fora de seu mundo, e portanto inelegível, durante as férias em Tinos, decidira esposá-lo. Quase como uma vingança contra a família Uchiha, com suas tradições fechadas.

Mas a faísca de desafio por parte da mulher mimada levara a uma paixão pelo professor que se incendiara e durara apenas o suficiente para que uma única criança fosse concebida. Depois de três anos, e totalmente alienada das atividades dele na universidade de Oxford, Mebuki, um dia, simplesmente desaparecera da vida da filha.

Seu pai nunca mencionava o nome da mãe e jamais permitira que Sakura o fizesse. Todas as vezes que pacotes com selos exóticos, contendo presentes de Natal e de aniversário, caríssimos, chegavam, a excitação da criança era abafada pelos olhares de fria reprovação do pai, fazendo-a sentir-se culpada por querer abri-los. E quando Kyria Uchiha, sua avó, escrevera, fazendo um convite formal para a menina de doze anos passar as férias de verão na villa da família em Tinos, a reação de ambos fora de recusa pura e simples. Mas, para surpresa geral, foi tia Madoka que interferiu. Sakura ouviu trechos da conversa.

- Você deve deixá-la ir, Kizashi. Afinal de contas, goste ou não, eles são seus parentes e o fato de Mebuki ter agido de maneira tão infame não altera o fato de que é mãe dela.

Ela não conseguiu ouvir a resposta do pai, mas percebeu que a tia ria e murmurava algo sobre "não há nada com que se preocupar..." "muito sensata para tal..."

E então, aos cuidados da aeromoça da Olympic Airways, Sakura voou para o Egeu e seus lugares exóticos, de cores vibrantes. E encontrou sua "outra" família: a mulher de cabelos loiros e olhos verdes, da qual vagamente se lembrava como mãe, os primos exuberantes e extrovertidos. E Sasuke...

A menina inglesa calada, reprimida e quase gordinha, não estivera preparada para o impacto do encontro e o verão inteiro tinha sido um completo desastre: ou melhor, não tão completo como na segunda visita, quatro anos depois...

- Então ? - Atsui a contemplava com frieza.

- Oh, tudo é muito complicado - ela sacudiu os ombros, cansada, deixando os braços caírem, desanimada.

- Até logo, Sakura - ele abriu a porta e, sem olhar para ela, acenou com um gesto de cabeça e se retirou.

Ela fez um pequeno movimento involuntário, tencionando segui-lo, mas Sasuke, rápido como um gato, atravessou a sala e passou o braço ao redor de sua cintura, aprisionando-a.

No momento em que a porta se fechou, entretanto, ela se libertou do abraço e virou-se para olhar pela janela empoeirada. Alguns segundos depois, percebeu Atsui se encaminhando às pressas para o ônibus. Dois jovens do grupo estavam nos degraus de escada do veículo e ela observou, com curiosa sensação de frieza, que o rapaz dizia algo aos que esperavam. Um deles pareceu discutir um pouco, gesticulando em direção ao prédio do aeroporto, e então todos subiram e o ônibus começou a se movimentar.

Ela o observou afastar-se até desaparecer de sua linha de visão, e refletiu, então, que não era verdade. Que tudo não passava de um pesadelo e que bastaria esfregar os olhos para que tudo sumisse.

- Está pronta, Sakura ?

- Mas para onde iremos ?

- Para casa, é claro.

- Casa ? - ela repetiu fracamente.

- Para Tinos.

Tinos. Quase três anos já, mas apenas o nome era suficiente para conjurar imagens do passado... a Villa Ariadne; a mais espaçosa casa cor-de-rosa de estilo veneziano, cercada por ciprestes e oliveiras cinza-esverdeadas e animada pelos risos e vitalidade de uma família grega poderosa.

- Eles não estarão todos lá, estarão ? - conseguiu perguntar, umedecendo os lábios, nervosa.

- Mas é claro que sim - Sasuke estendeu as mãos como se estivesse se desculpando, mas ela percebeu o brilho irônico e divertido de seu olhar - Onde mais estariam, nesta época do ano ? É exigência de sua avó, para com todos nós - ele fez uma pausa e depois acrescentou com frieza: - Qual é o problema, Sakura ? Você está muito pálida.

Eram as mesmas palavras que Atsui usara no avião, porém ela não achava graça na coincidência. Só conseguia pensar: sua avó... todos os outros... como seria recebida, depois de tudo o que acontecera, do que fizera ?

- Não irei com você - ela falou em voz baixa. Sasuke a contemplou por um momento, os olhos escuros se estreitando como a examiná-la.

- Você não tem escolha - ele comunicou com dureza - Desta vez vai me obedecer, em tudo. E, se for preciso, vou carregá-la à força daqui para fora, o que, garanto, você lamentará bastante, depois.

O medo tomava conta dela como lenha pegando fogo, quase fora de controle, mas de algum modo ela tinha de disfarçar o que sentia. Invocou dentro de si um espírito cuja existência desconhecia e exibiu uma aparência de desafio, levantando o queixo com orgulho.

- Isso é ridículo, Sasuke, e você sabe disso. Se eu decidir pegar as minhas coisas e sair daqui neste instante, não haverá nada que você, ou qualquer um de seus lacaios cobertos de medalhas, poderá fazer para me impedir - ela esbravejou.

- Oh, eu tenho certeza de que você não seria tão tola para tentar algo do gênero - ele retrucou numa voz suave e dura como aço. Por um momento, ela o contemplou, com desagrado, depois, lançou-lhe um olhar irado, e pegou a maleta com mãos firmes.

No mesmo instante, ele apertou sua mão com tal força que ela soltou a mala com uma exclamação de dor. Ela mediu a distância para a porta, e então decidiu que outras táticas seriam necessárias.

- Com certeza você não está pensando em me levar a Tinos contra a minha vontade, está ? - sua risada soou forçada para si própria e ela lançou-lhe um olhar suplicante, numa tentativa desesperada de reviver um resto de afeto que, uma vez, há muito tempo atrás, ele sentira por ela.

Porém ele nada respondeu.

- Por quanto tempo pensa em me manter lá ? - ela indagou, ríspida.

- Oh, até... até eu decidir deixá-la partir.

- Nunca vai conseguir nada, Sasuke, nunca. Meu pai vai...

- Seu pai ! - ele cortou brutal - Seu pai, agape mou, não está em posição de interferir em meus assuntos. De qualquer maneira, esqueceu que ele está na Califórnia ?

Era verdade, então ele os controlava a distância. Ela ficou mais pálida, porém, antes de poder replicar, ele continuou:

- Parece que você ainda não entendeu a situação. Eu poderia ter trazido você de volta para cá, a qualquer momento, nos últimos três anos, se assim tivesse decidido, e seu pai não teria nenhuma possibilidade de me impedir. E agora que você foi tão insensata a ponto de retornar, ele pode ajudá-la ainda menos - ele fez uma pausa - Sou seu marido e você deve me obedecer.

Apesar da perturbação interior, ela se forçou a encará-lo, desafiadora.

- Obedecê-lo ? Oh, não, eu...

- E a propósito, o que queria dizer aquele rapaz encantador sobre você encorajá-lo ?

- Eu... - ela começou, mas se interrompeu. Uma parte, em sua consciência, lhe dizia que não havia necessidade de justificar suas ações, ainda que inocentes, para aquele homem. Mas outra, mais cautelosa, lhe pedia que deixasse o assunto bem claro.

- Não, Sasuke, não importa o que Atsui diz, juro que não o encorajei... - sua voz tremeu miseravelmente por um momento, ao lembrar-se do rosto zangado de Atsui - Juro-lhe, nunca esqueci que sou sua esposa.

- Oh, deixe disso, koukla mou, esteve tentando esquecer esse assunto de pouca importância desde que a festa do casamento acabou, ou já esqueceu disso ?

- Não, não esqueci - ela mordeu os lábios - Mas pode me censurar pela maneira como agi ? Todo mundo me pressionando, meu pai longe naquele verão, numa escola no Canadá, empurrada às pressas para a cerimônia, sem ter tido tempo de pensar. Eu tinha apenas dezesseis anos, lembra-se ? - ela continuou zangada - Ou também esqueceu disso ?

- Não - ele retrucou sombrio -, eu não esqueci.

- Minha avó, minha mãe, praticamente em seu leito de morte, você, todos me implorando para...

- Oh, não, Sakura - ele interveio com frieza - Você deve saber que não está em minha natureza implorar, e certamente não implorei para que fosse minha esposa.

- Mas poderia ter impedido tudo. Você não era uma criança. Tinha vinte e seis anos, era o chefe da família - ele abanou a cabeça, indiferente, mas ela prosseguiu: - E foi justamente por sua preciosa família; porque minha mãe e minha avó assim o desejavam.

- Não faço nada, e muito menos me casaria, apenas para agradar outras pessoas.

- Mas por que eu ?

Ela o contemplou desesperançada, vendo na mente as mulheres glamourosas e sofisticadas que naquele fatídico verão tentavam, algumas de modo sutil, outras bastante diretas, atrair a atenção de Sasuke, e todas fazendo com que ela se sentisse a menina gordinha e desajeitada que fora aos doze anos.

Ao invés de replicar, ele deu uma risadinha e com gentileza beijou-lhe a palma de uma das mãos, no mais suave dos beijos. Diante do toque, ela sentiu a pele queimar, enviando uma estranha sensação de formigamento ao longo do braço, mas, quando tentou retirar a mão, seu aperto ficou mais forte.

- Sim - ele comentou, olhando os dedos finos da moça -, acho que aquele jovem estava certo em uma coisa, ao menos. Terei de pôr minha marca em você de agora em diante.

Com um sentimento de fatalidade e sem esperança, como Cassandra, a profetisa grega do destino, ela o viu tirar uma caixinha do bolso de sua jaqueta. Abriu-a e ela viu no interior o seu anel de casamento. Enquanto o observava, paralisada, ele retirou a jóia.

- Dê-me a sua mão - a voz, agora, era desprovida de qualquer emoção, mas quando ela, instintivamente, escondeu as mãos para trás, ele rebateu zangado: - Não brinque, Sakura !

Sem dizer nenhuma palavra, ela estendeu a mão, mas, quando ele ia colocar o anel, ressurgiu o pânico e ela se afastou. Com uma imprecação surda, ele segurou-lhe o pulso e enfiou o anel à força. Entrou com muito mais facilidade que na vez anterior, ela refletiu, pois, naquela ocasião, os dedos ainda eram roliços como os de uma criança.

Ela contemplou o anel, por uma fração de segundo, e viu o aro de pesado ouro antigo, feito, como todos os anéis de casamento da família Uchiha, da enorme pepita que Hikaku Uchiha encontrara no Klondike em 1849 e trouxera para Tinos quando viera clamar a noiva, e que era, desde então, mantido nos cofres do banco de Platia Syntagma, em Atenas. Sua imaginação reportou-se a três anos atrás, ao dia em que Sasuke, com mãos pouco firmes, deslizara o anel em seu dedo gélido. E essa cena assumira uma dimensão estranha, quase irreal, em sua mente...

A família, o sorriso da avó, de silencioso triunfo; a mãe, já marcada pela morte, quase muito doente para estar presente, com os olhos brilhando de satisfação na face cinzenta; a minúscula capela branca nos arredores da vila, o doce canto que se estendia além do círculo das chamas das velas douradas; o perfume das flores; as vestes reluzentes do padre; os ícones dourados de suave olhar... até que tudo se esmaeceu, e havia apenas os dois: ela, como uma obediente boneca de cera e, afinal de contas, é o que fora exatamente, no fabuloso vestido de casamento de seda da avó, o corpete incrustado de pérolas verdadeiras, e Sasuke...

Sasuke ! Ela lançou a cabeça para trás, mas ele olhava com o cenho carregado e distraidamente para o anel. De novo, frente a frente, os dois, ela era forçada a imaginar, amedrontada, pela milésima vez, como ele teria suportado o golpe. Um homem tão orgulhoso, e os gregos davam tanta importância para as formalidades. Com certeza a família devia ter se unido e guardado tudo o que se relacionava ao casamento e à sua fuga como um segredo. Ele teria ficado muitíssimo zangado com ela, aliás ainda estava, um sentimento que fora alimentado durante três anos...

Ela estremeceu, atraindo o olhar de Sasuke. Suas faces estavam tão próximas que o calor da respiração dele tocava a boca da jovem.

Ele afinal soltou-a, mas, quando Sakura deu um passo para trás, ele levantou a mão e, deslizando os dedos pelo nó de seu lenço de cabeça, com destreza desmanchou-o, libertando os cabelos tão cuidadosamente escondidos. Eles caíram como uma cascata cor-de-rosa sobre os ombros delicados.

Ela percebeu a respiração dele acelerar e, enquanto se forçava com docilidade a ficar imóvel, ele apanhou algumas mechas, levantando-as e deixando-as cair através dos dedos.

- Eu tinha esquecido - ele falou baixo, como que para si mesmo - esta cor tão especial - dos cabelos, ele voltou o olhar para ela, e por um momento seus olhares se sustentaram - O que eu disse, uma vez, que eles pareciam ?

- Sorvete de morango - ela respondeu, com voz quase inaudível, e o ouviu dar uma leve risada.

- Achava que eu tinha dito algo mais romântico, mas, sim, você tem razão, eu lembro agora - Ele se virou abruptamente e apanhou a bagagem sobre a mesa - Venha.

Por um momento, ela hesitou e então apanhou a bolsa a tiracolo e seguiu-o através da porta, a cabeça levantada, sem sentir o próprio corpo sobre os pés. Parecia viver um sonho.

Ao invés de se dirigirem para o saguão principal do aeroporto, ele a conduziu através de uma porta lateral, para fora, direto do calor sufocante, onde um Mercedes preto estava estacionado, o porta-malas já aberto. O jovem que se encontrava na direção saiu rápido, apanhou a bagagem e a acomodou no carro. Sasuke a ajudou, na verdade conduziu-a ao banco de trás, apertando-lhe o cotovelo com força. Depois sentou-se ao seu lado.

Os dois homens conversaram com animação durante todo o percurso para o porto, mas Sakura, incapaz de compreender uma palavra do que diziam, e consciente de estar sendo examinada com franca curiosidade através do espelho pelo chofer, aninhou-se no canto do banco, bem distante de Sasuke, e passou a olhar para fora, pela janela, a expressão indecifrável.

O carro parou junto ao cais. O jovem descarregou a bagagem, despediu-se de Sasuke com um aperto de mão, disse algo que fez ambos rirem, acenou um polido "Herete" em sua direção e partiu.

Havia uma imponente lancha a motor estacionada ao longo do cais. Sasuke acomodou a bagagem na popa e saltou a bordo. Nesse momento, o apito estridente de um navio chamou a atenção de Sakura que, ao voltar-se, avistou uma enorme barcaça branca se afastando do cais. Entre os inúmeros passageiros que se inclinavam sobre a amurada, ela distinguiu, de relance, cabelos loiros e uma camiseta vermelha. Atsui ! Devia ser a balsa para Heraklion. Por um momento o pensamento maluco de correr ao longo do cais e se atirar sobre a balsa passou-lhe pela mente. Mas era tarde demais e, de qualquer maneira, Sasuke jamais a deixaria fugir uma segunda vez.

Ele a olhou como se lesse seus pensamentos, e estendeu a mão, que ela preferiu ignorar, entrando sozinha no barco. Antes mesmo de ter tempo de acomodar-se no banco estreito, ele deu partida no motor e manobrou no porto, lotado de barcos de luxo, em direção ao mar aberto.

Sakura virou-se de lado, apoiando os cotovelos na grade lateral do barco e espreitou, indiferente, a cidade de Mykonos, insensível à beleza das casas brancas, resplandecentes ao Sol, e dispostas ao longo da colina como blocos de um brinquedo gigantesco.

Aos poucos, a faixa de água atrás deles se alargou e mudou a cor para um profundo azul-marinho, pequenas ondas se levantando como renda branca. Ao olhar para trás, quase hipnotizada, quase sem ouvir o bater das ondas sobre o casco, ela reviu mentalmente sua última jornada através do mesmo estreito marítimo...

Nos poucos dias de noivado, após finalmente ter sucumbido aos urgentes rogos da mãe e antes da cerimônia, Sasuke fora muito correto, beijando-a apenas uma vez, de maneira formal, um beijo de primo, os lábios frios apenas tocando sua pele escaldante.

Exceto em uma ocasião; a respiração acelerou-se ante a memória do que acontecera, e estivera nervosa durante o dia inteiro, e terminara descendo muito cedo para jantar. Por isso se pusera a perambular pelo jardim deserto. De repente, vira Sasuke se aproximar, mas antes de poder escapar, ele tomara-lhe mão e conduzira-a ao longo do caminho entre os ciprestes atrás da villa.

Na conversa casual, ela sentiu a tensão interna que ele transmitia para sua mão e daí para todo o seu corpo, até ela começar a se retrair, tomada de nervosa apreensão, como um gato antes de uma tempestade. O caminho se estreitara e ela conseguira se libertar, andando na frente, quando soou a chamada para o jantar. Aliviada, ela se voltara, colidindo com violência contra ele. No momento seguinte, ele a abraçava com força.

- Sakura ! - a voz era baixa e ela sentiu-se presa contra o corpo forte. Quando ele baixou a cabeça, ela gritou.

- Não ! - conseguindo se libertar com um movimento brusco, ela saiu correndo, de volta para a segurança das luzes e das pessoas no terraço.

Quando Sasuke apareceu, pálido, e com os lábios apertados, mostrando a tensão interna, a refeição estava quase terminada. Depois desta ocasião, vira-o tão poucas vezes que chegou a pensar que ele a evitava.

Mas, na festa de casamento, sentada ao seu lado, na enorme mesa do terraço, sombreado por videiras, ela só sentira a presença dele. Tudo o mais, as risadas, as conversas animadas, o retinir dos brindes, os empregados passando e servindo comida, se esmaecera como um borrão.

Num dado momento, ele se inclinara sobre uma mesa para falar com alguém sentado a uma pequena distância e seu braço roçara no dela e a perna forte e musculosa se movera contra a de Sakura.

No mesmo instante, os dois se entreolharam e ela percebera, nos maravilhosos olhos negros, a mesma faísca em iminente ignição. Ele desviara o olhar de imediato e o substituíra por uma expressão fria e informal. Mas ela continuara sentada, imóvel, as mãos cruzadas no colo, cobertas pela toalha branca da mesa, as unhas se enterrando com selvageria nas palmas úmidas, lutando para recompor-se, enquanto rostos sorridentes a observavam. Sentira a face familiar de Sasuke se transformar, de maneira inesperada, na de um desconhecido ameaçador.

Levantara-se, murmurando uma desculpa incoerente, e apressara-se a entrar na casa. Enquanto abria a porta de seu quarto, ainda não tinha idéia do que pretendia fazer, e dirigira-se ao banheiro, para borrifar o rosto com água fria, evitando com cuidado olhar-se ao espelho.

De volta ao quarto, ficara parada alguns minutos e depois, subitamente, tirou o vestido de seda, jogando-o ao chão, apressada. Vestira saia e blusa, apanhara uma mala no armário, arrancara roupas dos cabides e jogara-as dentro, de qualquer jeito. Verificara, dentro da bolsa, a tiracolo, se lá estavam a carteira, o passaporte e o bilhete de retorno, uma passagem que, alguns minutos atrás, ela pensara nunca mais usar e, ouvindo as risadas no terraço lá embaixo, sentiu-se congelar. Mas a casa continuava silenciosa.

Ao abrir a porta, percebera na mão o anel de casamento. Ela olhara-o fascinada, enquanto sentimentos estranhos a invadiam e acabou por retirá-lo e colocá-lo, com precisão geométrica, no centro da mesa de cabeceira.

Agarrando a maleta, fugira pelas escadas abaixo, esperando a qualquer momento sentir, nos ombros, uma mão a impedi-la de continuar. Forçara-se a andar nas pontas dos pés, a respiração presa. Passara pela cozinha barulhenta e saíra, enfim, correndo, através das oliveiras, para a estrada que levava à cidade de Tinos. Continuara a correr até que um carro cheio de jovens turistas alemães parou a seu lado. Quase gritou de terror.

Eles a deixaram junto ao porto, mas a balsa para Mykonos acabara de partir. Ficara ali de pé, vendo-a se afastar, e ela devia ter demonstrado um pouco de ansiedade para um casal de ingleses, num iate próximo, pois eles a chamaram. Estavam partindo para Mykonos e, se ela desejasse uma carona...

Um borrifo de água salgada cegou-a por um momento. Afastou o queixo da amurada e olhou para Sasuke. Ele tirara o blusão e ela podia ver os braços fortes e os músculos dos ombros tensos enquanto ele dirigia, aproximando-se rapidamente da terra. Seus cabelos negros, ligeiramente alongados, exatamente como se lembrava, formavam anéis junto ao colarinho da camisa branca.

Sasuke... por que ele não a perseguira ? Ela se questionara tantas vezes, mas jamais chegara perto da resposta. Ele poderia tê-la detido com tanta facilidade, tanto durante a travessia lenta no barco a vela para Mykonos, como no aeroporto. E por que não a seguira à Inglaterra ? Ela imaginara que ele o faria, e sentia pavor ao pensar na inevitável confrontação furiosa entre ele e o pai.

Mas, aos poucos, o medo cedera. O pai ficara furioso de início, menos com ela do que com "aquele clã Uchiha", e falara zangado sobre obter uma anulação imediata. Porém, sua cautela inata reaparecera junto com a costumeira crença de que se um problema fosse ignorado por tempo suficiente, acabaria desaparecendo, e ele nada fizera, resumindo-se a comentar que haveria tempo suficiente para esse tipo de coisa no futuro.

Assim, tudo tinha ficado em segredo, partilhado apenas com tia Madoka, e ela voltara à escola, ainda como Sakura Haruno. Na normalidade da vida escolar, o episódio assumira a natureza de um desvio, um sonho efêmero, uma versão um pouco mais exagerada das histórias românticas de férias que os amigos costumavam narrar.

Realidade impossível de fugir que surgira apenas uma vez, poucas semanas depois de o semestre escolar ter se iniciado. Uma breve carta ao pai informava que Mebuki Haruno, nascida Uchiha, falecera. Após o casamento forçado de Sakura e sua fuga, estava fora de questão a presença dela ou do pai no funeral. Mas, mesmo assim, por várias semanas a jovem chorara até adormecer, lamentando a perda da relação com a mãe, que, na verdade, jamais acontecera.

Ela percebeu o motor parar e, levantando os olhos, viu que haviam chegado. À frente, reconheceu a pequena enseada, margeada por altos ciprestes dos quais se lembrava tão bem, e avistou a estreita faixa de areia dourada separando as árvores da água. Adiante, cobrindo a colina, a espessa folhagem mal deixava entrever a mancha rosada da casa entre os altos pinheiros.

Sasuke deixou o barco derivar até que um dos lados se alinhou ao lado do suporte de madeira do pequeno cais, enquanto ela permanecia sentada, calada, as mãos apertando com força a bolsa.

- Vamos.

Ele a esperava em pé, ao lado. Sem uma palavra, ela se levantou com dificuldade, mas uma vertigem a fez tropeçar e cair sobre ele, que a segurou pelo braço. Ele ficou tenso ao perceber a extrema palidez da moça.

- Não fique assim, koukla mou.

- A-assim como ?

- Como se fosse ser devorada por leões - ele sorriu a contragosto.

"Entrando na jaula dos leões". Ao eco destas palavras, seu corpo estremeceu numa forte convulsão e ele a forçou a sentar no banco.

- Sakura - os olhos escuros estavam muito sérios - Você precisa parar de agir como um animal indefeso sendo caçado. Ninguém dirá uma palavra a você sobre o que aconteceu, prometo-lhe. Está tudo esquecido.

- É claro que não está - ela interrompeu, brusca - Como poderia estar ?

Ela tentou libertar a mão, mas ele apertou-a ainda mais.

- Bem, talvez não esteja esquecido, mas nada - por um segundo ela distinguiu a despótica segurança da família Uchiha - será dito. Você sabe - seus olhos se estreitaram, pensativos -, se continuar desta maneira melodramática, começarei a pensar que você sente-se culpada por todo o caso.

- É o que sinto de verdade - seus nervos sobrecarregados abafavam as palavras - Sinto-me culpada por ter me deixado levar nessa estúpida charada - ela estremeceu ante a expressão dele, mas continuou: - E, para sua informação, desprezo a mim mesma por ter sido tão fraca. Assim, se você acha...

- Cale-se - ele falou baixinho, mas por um momento ela sentiu-se desconcertada.

- Não, não me calarei. Deixe-me perguntar-lhe apenas uma coisa: eu já o abandonei uma vez. O que o torna tão seguro de que não farei exatamente a mesma coisa no primeiro momento em que tiver a possibilidade ?

Os dedos dele se apertavam com violência maior no braço da jovem, como se quisesse sacudi-la. Porém ele conseguiu se controlar.

- Sabe, minha cara, aos doze anos, você era exasperante e agora me parece mais exasperante ainda - ele a olhou pensativo - Terei apenas de me certificar de que você não tenha chance de desaparecer novamente.

Apesar do calor, o tom ameaçador da voz, aparentemente gentil, a fez sentir-se gelada.

- Agora, venha - e ele a levantou.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 3.