ESCLARECIMENTO: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Rachel Ford, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.


Capítulo 3

Atravessaram a floresta de pinheiros sem uma palavra. O único som era o de seus pés amassando as agulhas dos pinheiros caídas no chão. Embora Sakura soubesse que Sasuke tencionava manter-se em silêncio, ainda assim a total falta de comunicação a enervava. De vez em quando, ele a olhava de relance, mas seu rosto taciturno repelia a idéia de qualquer tipo de conversa. Além disso, a subida era tão íngreme que, embora ele carregasse sua bagagem, ela aos poucos ficou para trás, acalorada e arquejante.

Finalmente alcançaram o bosque de oliveiras. Na primeira vez que viera a Tinos, aquele lugar lhe provocara uma fascinação infantil. Ela amara os cinzentos troncos nodosos, os ramos retorcidos e, nas tardes quentes, muitas vezes ela se esgueirava para lá com um livro, grata pela solidão e pelo silêncio.

Tinha sua árvore preferida, muito antiga. Era tão sua favorita que a família, em tom de brincadeira, a chamava a ''árvore de Sakura''. Uma vez, Sasuke a encontrara lá e lhe dissera que esta árvore tinha quase mil anos de idade. Ela costumava sentar-se à sombra, apoiada contra o tronco áspero, ou ficava deitada sobre um tapete, contemplando a luz do Sol filtrar-se através da folhagem dourada.

- Qual é o problema ? - ele parou, esperando que ela o alcançasse.

- Oh, eu estava apenas procurando aquela velha árvore. Você se lembra, a que eu costumava procurar. Era bem ali !

- Morreu há dois invernos atrás - ele comentou brevemente.

- Oh, não, que pena ! - ela deixou escapar, horrorizada, sentindo os olhos se encherem de lágrimas. Sabia que o olhar penetrante dele a examinava e se virou, zangada consigo mesma. Chorar por uma árvore, por todos os céus !

- Mas nós pegamos uma muda dela e a plantamos no mesmo lugar. Olhe, está ali - ele apontou para um pequeno arbusto e depois acrescentou, casualmente: - Parecia uma pena deixar morrer a "árvore de Sakura".

- Oh - sentia-se tocada e só conseguia olhar para ele através da largura do caminho, mas seu rosto era inescrutável na densa sombra, e depois de alguns momentos ele continuou a caminhar, deixando-a para trás, a segui-lo.

As oliveiras rodeavam os campos da villa como um mar verde-cinzento e, por detrás de uma cerca viva florida, podiam-se ouvir gritos e risadas. A piscina, estavam todos lá. Quase sem perceber, ela ficou mais próxima de Sasuke, o coração batendo violentamente. Ele não comentou nada, mas segurou-lhe o braço com firmeza e levou-a rapidamente através da grama banhada de Sol para a sombra do terraço.

Felizmente tanto o hall de entrada como o pátio estavam desertos, embora um par de marcas de pés pequenos e úmidos formassem uma trilha através dos ladrilhos rústicos de cor avermelhada. Ela o seguiu escada acima e então, sem refletir, encaminhou-se para o pequeno quarto que ocupara nas visitas anteriores.

Sasuke, entretanto, continuou ao longo da passagem aberta em direção ao fundo da velha casa onde, no outro extremo, uma janela estava aberta, deixando entrar o ar frio das colinas para dentro da villa. Ele abriu uma porta e gesticulou, chamando-a. As persianas fechadas tornavam o quarto fresco e quase escuro, mas ele logo abriu uma pela metade. Ela olhou ao redor, rápido, e então, avistando um par de jeans masculinos jogado numa cadeira, um par de alpargatas pretas ao lado, sua boca ficou seca e ela recuou, deixando-se cair numa cadeira.

- É o seu quarto, não é ?

- É - ele anuiu.

É claro. Como fora ingênua, para onde mais ele a levaria ? Seus olhos deslizaram sobre a pesada cama de casal, coberta com uma colcha de algodão rústico, bordada, de cor creme, e depois ela desviou o olhar, confusa.

- Bem, eu não... - ela o desafiou.

- Não imaginei que você estaria disposta - ele comentou, com os lábios retorcidos - Ao menos - ele fez uma pausa para conseguir um efeito maior - ainda não - seu olhar significativo a fez corar, mas ele continuou: - Mas você vai ficar nesta ala da casa. Tenho meu velho quarto de vestir preparado, ali.

Um amplo banheiro, bastante antiquado, conduzia ao quarto que ele mencionara. De má vontade, ela o seguiu até uma porta no fundo do banheiro. Atravessando-a, entraram no quarto, que ficava no ângulo da casa. Era pequeno, com janelas altas, protegidas por persianas e, embora simples, de decoração bastante acolhedora, com uma cama de solteiro, uma cômoda de pinho, uma mesa e um armário.

Ele deixou cair a mala sobre um dos tapetes de lã de colorido alegre e brilhante que cobria o chão.

- Este é o seu quarto. Ao menos até que...

Ele deixou a sentença inacabada e ela se voltou, apoiando o mais devagar possível a bolsa a tiracolo sobre a mesa.

- A propósito - ele continuou -, talvez tenha escapado à sua atenção, mas receio que terá de partilhar meu banheiro. No entanto, nós podemos chegar a um arranjo amigável, não tenho dúvidas.

Ao olhar para a porta, ela percebeu, horrorizada, que não tinha chave nem fechadura.

- E, talvez, também não tenha percebido que o único caminho para este quarto passa pelo meu próprio.

Ela o contemplou, tensa. Então, era uma prisioneira e Sasuke, seu carcereiro; estava completamente indefesa. Um sentimento de completo desamparo a inundou, paralisando-a de tal maneira que ela caiu em estado de letargia. Desta vez, sabia, não haveria escapatória...

Ele a olhou por um breve momento, acenou de leve com um gesto de cabeça, bastante satisfeito pelo óbvio efeito de suas palavras.

- Sua avó desejava vê-la assim que chegássemos, mas pensei que talvez você necessitasse de alguns minutos para se preparar.

Quando a porta se fechou atrás dele, ela se deixou cair sobre a cama, alguns segundos antes de as forças a abandonarem por completo.

Ela estava sonhando, precisava estar. Era mais um dos inúmeros pesadelos que tivera durante vários meses após sua fuga, mas, agora, quando mordeu com selvageria os próprios lábios, a dor que sentiu foi bastante real. O que faria ? A questão agitava o seu cérebro, mas depois, com surpreendente calma, ordenou a si própria: lavar o rosto e pentear os cabelos. Se Sasuke, ao voltar, não a encontrasse pronta, ficaria zangado.

Ela o vira furioso de fato apenas uma vez, quando Sai, seu irmão caçula, já interditado de dirigir por excesso de velocidade, "emprestara" seu novo Aston-Martin esporte e se chocara contra uma parede de tijolos. Mas a lembrança da fúria de Sasuke, sete anos atrás, ainda estava fresca em sua memória...

No banheiro, ela borrifou o rosto e os pulsos com água fria. Queria desesperadamente uma ducha fria, mas já percebera que também no banheiro não havia fechadura e, ainda que nenhum som viesse do quarto de Sasuke, ela não ousava se despir.

Na tentativa de mostrar desafio, pensara em não se trocar, mas, após refletir, concluiu que uma camiseta suada e um jeans velho dariam a todos uma vantagem bastante considerável. Por isso ela voltou ao quarto, abriu a maleta e tirou a primeira coisa que avistou: um vestido simples, de mangas curtas, de algodão, estampado com pequenas flores, e o vestiu.

Sentou-se no banco da penteadeira, ao lado da qual havia um espelho e, desajeitada, começou a passar o pente pelos cabelos sedosos. A impaciência inicial foi dando lugar, aos poucos, ao costumeiro sentimento sensual que lhe provocava o pente, fazendo-a sentir-se como um gato sendo acariciado. Apoiou o pente afinal, levantou-se ajeitando o vestido e, com vagar, observou-se à meia-luz. Pernas longas e bem torneadas, o busto arredondado, os quadris formando uma curva suave... embora não fosse uma rainha da beleza, ao menos deixara de ser a adolescente roliça, que costumava chorar desesperançada achando que jamais teria um corpo esbelto. Porém, da noite para o dia, seu corpo se afinara e uma linda jovem surgira.

E também tinha boa postura, analisou-se serena. Os exercícios antiquados do departamento de ginástica da escola, equilibrando na cabeça um livro pesado, e a voz da professora advertindo-a "Cabeça para cima, Sakura, peito para fora, barriga para dentro", haviam dado bons resultados.

O rosto que via no espelho era pálido, as feições delicadas tensas de apreensão, os grandes olhos verdes agora quase tão escurecidos quanto os de Sasuke.

Ela percebeu um leve movimento e viu-o atrás de si, refletido no espelho, observando-a. Ela se voltou rápida.

- Você deveria bater.

- Foi o que fiz, mas você estava muito ocupada admirando a si própria - a voz era calma, baixa, mas seus nervos aguçados captaram qualquer coisa diferente. Zanga ? Não, nada disso, ela pensou, de repente em pânico... e a expressão nos olhos dele só fizeram aumentar seu senso de isolamento e vulnerabilidade.

- Estou pronta - ela conseguiu pronunciar, depois de respirar fundo.

Em silêncio andaram, juntos, pelo corredor, as tábuas do assoalho rangendo sob seus passos. Desceram uma escada e, afinal, Sasuke bateu numa porta.

- Peraste.

Por um instante, Sakura teve a idéia instintiva de fugir, mas Sasuke, com um ligeiro aperto em seu braço, mais uma advertência que um apoio, a orientou para dentro do quarto.

- Sakura está aqui, Thia Yukino.

E antes mesmo que seus olhos tivessem se acostumado à escuridão das cortinas fechadas, ele partira...


Sakura escovava os cabelos metodicamente. Não fora tão mau assim. Fora como uma visita ao dentista quando, apesar do medo, necessitava de uma revisão.

A avó não poderia ter sido mais gentil. Havia beijado Sakura em ambas as faces, envolvendo-a numa nuvem de fragrância de Balenciaga, dera-lhe algumas amêndoas açucaradas de cor rosa, guardadas numa caixa de papier-maché que sempre mantinha para os membros mais jovens da família, a fizera sentar-se num banquinho para examiná-la. Afinal, com a mão coberta de jóias, acariciara o seu rosto e declarara que ela estava ainda mais bonita do que na última vez em que a vira.

Fora tudo. Nenhuma acusação, muito menos admoestações. Uma Sakura confusa emergira, sentindo-se vagamente como Alice no País das Maravilhas ao sair do toca do coelho. Sasuke estava certo. Ele lhe dissera que ninguém faria comentários sobre a sua ausência, o que parecia verdadeiro. Seus terríveis delitos, sua fuga e, pior ainda, a permanência longa, que devia ter chocado toda a família Uchiha até o mais fundo âmago do coração grego, deviam ser ignorados, permanecer como um segredo, como se jamais tivessem acontecido...

Uma batida despertou-a do devaneio; uma batida que parecia significar: "Estou batendo apenas porque decidi que quero fazê-lo, mas não me faça esperar", e Sasuke entrou no quarto. Havia trocado de roupa. Agora usava uma calça de tecido rústico e uma camisa de algodão de cor limão claro. Esquecera que, na villa, os membros mais jovens da família abandonavam as roupas formais que usavam quase o ano inteiro, por outras bem esportivas. O vestido que trouxera, de jersey de algodão azul pálido, comprado para as noitadas em Creta, seria adequado para o ambiente da ilha.

Desta vez ela não se voltou, mas olhou para ele através do espelho, a escova suspensa sobre o cabelo, enquanto ele atravessava o quarto e se colocava atrás dela. Como se se tratasse de outra pessoa, ela observou enquanto os olhos dele a examinavam com vagar, passando pela curva dos seios e quadris, sugeridos através do sutiã de renda de algodão branca e calcinha igual. De repente sentiu-se ruborizar e todo o corpo tremer.

Desejava com desespero levantar-se e vestir o roupão que deixara sobre uma cadeira, há alguns minutos. Mas conseguiu se controlar, antecipando o sorriso irônico que essa atitude provocaria. Contentou-se em sentar-se mais à frente, de modo a impedir que a calça dele encostasse em suas costas nuas, provocando um formigamento na fina pele dourada.

Desde que Sasuke a capturara no aeroporto, ela sentira-se como se estivesse boiando com dificuldade na água, tentando desesperadamente ficar à tona. Mas agora, encontrando o olhar impenetrável no espelho, sentiu correntes invisíveis a percorrê-la inexoravelmente, ameaçando tragá-la e levá-la à destruição. Não podia, de maneira nenhuma, enfrentar o olhar de Sasuke refletido no espelho, por isso transferiu toda a atenção para o ato de escovar os cabelos, o que passou a fazer com os dedos, devagar, separando mecha por mecha.

- Já está pronta ? - ele interrogou abruptamente - O jantar será servido dentro de alguns minutos.

- S-sim, quase. Irei ao seu quarto, se quiser me esperar lá - mas ele preferiu ignorar a sugestão e sentou-se sobre a cama.

- Obrigado, mas prefiro ficar.

Ela se levantou, tentando agarrar o vestido, que estava sobre a cama, ao lado dele. Porém, intencionalmente ou não, a perna dele prendia a roupa.

- Desculpe-me - ela disse entredentes, e puxou-o com força.

Dando as costas para ele, vestiu-se logo, passando o vestido pela cabeça e ombros. Teve um violento sobressalto ao sentir o ligeiro toque de dedos em suas costas, fechando o longo zíper com habilidade. Ordenou-se a não tentar resistir quando ele lhe virou o rosto com vagar. Fixou os olhos no terceiro botão de sua camisa, mas depois sentiu-se gelar quando ele levantou seus cabelos para libertá-los da gola do vestido, deixando-os cair sobre os ombros.

Afinal, levantou-lhe o queixo, fazendo-a encará-lo. Estudou seu rosto por longos momentos e depois murmurou baixinho, quase como se estivesse falando sozinho.

- Aos dezesseis anos, Sakura mou, você prometia uma grande beleza, e agora esta promessa está plenamente cumprida.

Ela o olhava hipnotizada, os olhos verdes se abrindo cada vez mais.

- Aos doze - ele deu uma risada estranha, quase contida -, você era surpreendente. Gorducha, os cabelos maravilhosos presos em dois feios rabos-de-cavalo, aparelho nos dentes, e suas roupas...

Ele revirou os olhos de modo expressivo e com angústia. Sakura lembrou-se das blusas de algodão fechadas, o short bege, as sandálias confortáveis mas sem nenhuma graça que a velha governanta de seu pai comprara para ela...

Amolada de modo insuportável pelos novos primos e por uma em particular, Matsuri, de cabelos castanhos e brilhantes, um dia ela se refugiara entre as oliveiras, soluçando baixinho com o rosto apoiado entre os joelhos, até que Sasuke a encontrara. Ele vinha subindo da praia, com a última namorada, uma criatura bela e sofisticada, que, para Sakura, mais se assemelhava a uma deusa. Mas, ao avistar a menina imersa em lágrimas, ele se afastara da moça e sentara-se ao seu lado, pondo um braço ao seu redor e insistindo para que lhe contasse o que estava errado.

Apesar da dificuldade em se exprimir, ele captara, afinal, que uma pequena parte de tanto sofrimento provinha da desprezada roupa que ela usava. Com rispidez, ele ordenara que ela secasse os olhos, depois levou-a de barco a Mykonos, onde se encaminharam para a loja mais chique da cidade.

- Sente-se melhor, agora ? - ele perguntara ao ajudá-la a desembarcar, quando voltaram. Ela segurava, maravilhada, os olhos parecendo estrelas brilhantes, o lindo pacote, amarrado com uma fita dourada e contendo a nova camiseta cor de pêssego e short combinando, uma saia rodada com margaridas estampadas e, o melhor de tudo, o lindo e brilhante vestido de praia cor-de-rosa.

Incapaz de confiar na própria voz, ela apenas acenara com um gesto de assentimento e depois, vencendo a própria timidez, o abraçara convulsivamente, dizendo a si própria que amaria esse generoso primo para sempre...

De algum lugar, ecoou o som suave de um gongo por toda a casa.

- Jantar - disse Sasuke.

Ele se levantou, estendendo a mão para ela, que se permitiu ser conduzida para fora do quarto.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 4.