ESCLARECIMENTO: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Rachel Ford, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.
Capítulo 4
A longa mesa de cavalete estava posta, exatamente como Sakura se lembrava, no terraço sombreado por videiras e primaveras. A maior parte da família já estava lá e o som de animada conversa alcançou Sakura enquanto ela se detinha incerta na porta. Mas a mão de Sasuke, bem nas suas costas, a impelia para a frente. O bate-papo animado se interrompeu e o silêncio predominou, dando-lhe a certeza de que toda a família conseguia ouvir o seu coração batendo com força.
Entre os inúmeros e surpresos primos de segundo e terceiro grau que a encaravam, ela reconheceu algumas faces. A avó, é claro, estava na cabeceira da mesa, resplandecente em seda negra e pérolas... Shizune, a versão mais suave de Sasuke, sua irmã mais velha, com o marido, Kakashi... e aqueles deviam ser seus filhos adolescentes, bem mais crescidos que da última vez que os vira... E, também, a caçula da família, Maho, sentada serena entre a mãe e o pai e que não passava de um bebê quando Sakura deixara a ilha. Era, agora, uma linda menininha de olhos escuros vestida de branco... Thia Chiyo, a tia-avó de Sakura, cujo noivo fora morto na guerra civil e que nunca se casara, ainda de luto há quarenta anos...
A mãe de Sasuke não estava presente. Quando o marido morrera, ela cortara todas as ligações com a família e agora passava os verões num iate ancorado na Cote d'Azur, a Riviera francesa. Aliás, não viera nem mesmo ao casamento... no outro extremo da mesa, entretanto, aquele devia ser Shinji, o irmão mais velho de sua mãe, com a elegante esposa, Risa e a filha Matsuri, sim, ela se lembrava bem de Matsuri, que costumava atormentá-la até que Sasuke a fizesse parar. Que idade teria agora ? Vinte e cinco, com certeza, quatro anos mais jovem que Sasuke, e ainda mais bonita, com os cabelos castanhos emoldurando o dourado da pele bronzeada, estonteante num simples, aliás enganadoramente simples, Sakura refletiu, vestido branco, e pesadas jóias de ouro cintilando no pescoço e nos pulsos. Os olhos das duas moças se encontraram e, durante um breve momento, Sakura sentiu-se como a desajeitada estudante de doze anos...
Sasuke deve ter sentido o tremor que percorreu todo o seu corpo, pois aumentou a pressão da mão e empurrou-a para a frente. Mais uma vez, ela sentiu o ar de autoridade, sem dúvida adquirido por ter sido obrigado a assumir a chefia da família muito cedo, em virtude da morte prematura do pai, e ela quase podia distinguir as ondas de alerta que emanavam dele. Nenhuma palavra fora de lugar, era a sua advertência para todos.
Como se fosse uma resposta à ameaça implícita, houve um polido coro de "Kalispera, Sasuke, Kalispera, Sakura", e então ela se deixou cair na cadeira que ele puxava para ela, grata pelo sorriso caloroso e aparentemente sincero da irmã de Sasuke. E de novo as conversas recomeçaram.
Ele deslizou para o lugar ao seu lado, a perna encostando na dela, o que a fez afastar-se um pouco, e então ele começou uma animada conversa com o cunhado. O grego clássico que ela estudara na escola, e aperfeiçoado pelo pai, era suficientemente próximo ao idioma moderno para ela poder acompanhar o que se dizia a seu redor, e, de qualquer modo, sempre que alguém lhe dirigia alguma observação, tomava o máximo cuidado de usar um inglês impecável.
Mas, na maior parte do tempo, Sakura, os nervos à flor da pele e consciente dos olhares de esguelha, ainda que veladamente cuidadosos, com que era examinada, manteve os olhos abaixados para o próprio prato, incapaz de falar.
Com esforço conseguiu mastigar e mesmo engolir um pouco do delicioso suflê de queijo fetta colocado à sua frente.
- Oriste, todo mundo - saudou um jovem, de short de brim desbotado e blusa preta, entrando a largos passos pelo terraço - Sakura, querida.
Antes que ela pudesse se esquivar, ele a levantara e estava plantando um amplo beijo em seus lábios.
- Está muito atrasado, Sai - admoestou a voz severa da avó.
Sai, o irmão mais jovem de Sasuke, mais exuberante que nunca. Afinal, ele libertou a moça e lançou à tia um amplo sorriso nada arrependido.
- Desculpe, Thia Yukino - e sentou-se no único lugar vazio, bem em frente a Sakura.
Ela conseguira voltar ao próprio lugar e se esforçava para engolir mais um pouco de suflê quando ouviu Sai dirigir-se alegremente a todo o grupo.
- O que há no menu hoje ? Carne de cordeiro, suponho.
Desta vez, Sakura foi mais rápida que Sasuke em entender. Ela lhe lançou um rápido olhar de lado e o viu franzir a testa, aborrecido.
- O que você quer dizer, Sai ? - perguntou, gélida, a avó.
- Bem, com certeza, deve ser cordeiro, para celebrar o retorno de minha linda cunhada pródiga !
Um ligeiro choque pareceu perturbar a respiração de todos à mesa, mas Sai não pareceu dar a menor importância. Sakura tinha certeza de que não havia nenhuma malícia na observação de Sai; ao contrário, ele estava apenas tentando dizer, ao seu modo, "bem-vinda", e ao mesmo tempo desanuviar a tensão que parecia ter se apoderado de todos no terraço. Mas, ainda assim, suas mãos agarraram a faca e o garfo com força...
- E o que teremos mais tarde ? - Sai continuava, sem se deixar abater - Torta humilde, suponho ?
Sakura, vermelha devido ao constrangimento, ouviu uma risadinha, de Matsuri, tinha certeza.
- Basta, Sai.
Sasuke não levantara a voz, mas ela distinguiu a advertência gelada por trás da superfície.
- Ou eu estou excessivamente atrasado? Eles já a obrigaram a comer, Sakura mou ?
- Sai...
Sasuke ainda não movera um músculo, mas Sakura, quase se retorcendo na cadeira, estremeceu diante da fúria impressa no tom de voz dele, e Sai, após trocar um longo olhar com o irmão, hesitou e finalmente calou-se, não cometendo mais nenhuma indiscrição.
Em vez disso, pôs-se a dar um vívido relato de uma operação de apendicite de emergência a que assistira na semana anterior, no hospital da Escola de Medicina na qual ele estudava em Atenas. Embora a descrição sangrenta ameaçasse claramente impedir o resto da família de saborear o garithespilafi, o pilau, a comida oriental com enormes camarões cozidos em especiarias aromáticas e que tinha sido colocado à mesa em dois enormes recipientes de cerâmica, Sakura sentiu que todos estavam aliviados por ele ter abandonado o assunto proibido da sua volta.
O resto da refeição decorreu em lentidão agoniante, mas, na hora em que a deliciosa sobremesa de baklava foi servida, com suas camadas de massa folhada finíssima embebidas em mel e recheadas com amêndoas, ela conseguira, com a ajuda de um copo do leve vinho branco grego, coragem suficiente para trocar umas poucas palavras com Shizune. Mas ela sabia que seria incapaz de agüentar o que seria a ainda mais demorada cerimônia do café e dos licores. Desajeitada, levantou-se.
- Desculpem-me, eu estou muito cansada - murmurou, sem ousar olhar para Sasuke. E, no meio de um coro murmurado de "Kalinikta, Sakura", ela empurrou a cadeira para trás e fugiu.
De volta à escuridão refrescante de seu quarto, ela sentou-se à beira da cama, respirando fundo, numa tentativa vã de acalmar-se.
A família tinha aprendido bem a lição, obedecendo ao pé da letra as instruções severas de Sasuke, exceto, é claro, o irreprimível Sai, mas, ainda assim, ela não podia ficar. Seria um completo desastre, em todos os sentidos, se o fizesse. Partiria amanhã. Precisaria contar a Sasuke. Desta vez, não fugiria covardemente, escondida, mas iria de fato, e ele teria de compreender. Por mais zangado que ficasse, com certeza o orgulho não lhe permitiria detê-la pela força.
Tensa, olhou, pela janela, para a noite estrelada lá fora, os sentidos aguçados pela escuridão, esperando a qualquer momento ouvir o som da porta do quarto abrindo. Mas a única coisa que ouviu, por um longo tempo, além do bater violento de seu coração e do distante zumbido dos insetos no bosque de oliveiras, foi o tilintar delicado de taças, proveniente do terraço, o baixo murmúrio da conversação, e em meio a todas as vozes, o timbre profundo e inconfundível da voz de Sasuke.
Ao que tudo indicava, ele decidira que ela estava de fato exausta e, não receando que ela tentasse outra fuga, tivera tato suficiente para deixá-la sozinha nessa noite. Ela teria preferido informá-lo de sua decisão de imediato, enquanto a resolução era bastante firme, mas teria de esperar até a manhã seguinte.
Enquanto isso, o torpor provocado pela fadiga começava a tomar conta de sua mente e de seu corpo, e ela sentia dificuldade em permanecer sentada na cama. Lavou-se rapidamente, nervosa por ficar demasiado tempo no banheiro partilhado, e depois vestiu a camisola cor-de-rosa, salpicada de pequenas flores, e desabou na cama.
As oliveiras agitadas pela brisa quente ressoavam no ar e além delas o mar batia na praia coberta de seixos. Lá embaixo, no terraço, a conversação suave e fluente parecia amainar...
Ela acordou com um violento sobressalto, a boca seca, o pânico a invadi-la. Perscrutou a escuridão. A casa estava silenciosa, mas algo a perturbara. Quem sabe uma coruja caçando no bosque de oliveiras ou, talvez, Sasuke, que já teria subido.
Por longos minutos, ficou contemplando a porta de comunicação, sem se mexer, tendo certeza de que só ficaria sossegada quando soubesse que ele estava no próprio quarto. Saiu da cama e, com o coração batendo diante de cada ruído do assoalho de tábuas, encaminhou-se, pé ante pé, à porta e abriu-a com cuidado. Não havia nenhuma luz, nenhum som, porém o suave aroma de colônia de sândalo permanecia no ar, e ela estava quase certa de distinguir o som de uma respiração regular.
Expelindo o ar retido, com alívio, ela fechou a porta de novo, voltou à cama, virou-se, puxou o lençol até os ombros e então ficou petrificada.
Uma sombra escura estava sentada no banco da penteadeira, a silhueta sombreada com nitidez contra o pálido semicírculo do espelho.
- O-o q-que você está fazendo aqui ? - ela sentou-se, envolvendo-se ainda mais no lençol.
- Não pretendia perturbá-la.
- Então por que veio ? - desconfiança e medo permeavam-lhe a voz.
A escuridão foi iluminada por um rápido brilho do sorriso de dentes brancos.
- Será que um marido necessita de motivos para ficar junto à cama da esposa ?
- N-não, é claro que não. Ao menos... - ela se interrompeu, ao ouvi-lo dar uma risada.
- Não se preocupe, koukla mou. Sairei daqui a pouco e não perturbarei mais o seu sono.
Porém Sasuke atravessou o quarto na direção da cama, e, antes que ela pudesse se enfiar debaixo dos lençóis, ele sentou-se ao seu lado. Tomou-a pelos ombros, transmitindo o calor das mãos através do fino algodão até a pele delicada. Puxou-a com gentileza num abraço forçado.
Pousou os lábios sobre a boca fechada da jovem. A princípio era um beijo gentil, sem urgência. Mas a sensualidade da pele dele contra a sua levou-a involuntariamente a relaxar-se e distender a tensão da própria boca. Nesse minuto traiçoeiro, em que as defesas se enfraqueceram, ele deslizou a língua dentro da boca úmida e quente, acariciando-a, brincando, persuadindo uma rendição, provocando uma resposta que ela, no íntimo, procurava desesperadamente não corresponder.
Mas sua resolução foi em vão, ela só conseguia saboreá-lo e senti-lo, e ouviu o próprio gemido fraco. Podia sentir uma de suas mãos na nuca, brincando com as longas mechas sedosas, enquanto a outra se movia para se apoderar do queixo, os dedos firmes sobre a pele macia. Distinguia o bater de seu pulso se acelerando.
E foi esse mesmo pulso errático que a salvou, ela teve a súbita certeza de que Sasuke não era nem frio nem controlado como supusera. De fato, longe disso, ela podia sentir a chama do desejo a impulsioná-lo e ela afastou a cabeça com força, empurrando seu dorso, irritada. Jamais Sasuke a beijara daquela forma e, ao sentir as ondas que atravessavam seu corpo e a tragavam, o pânico se apoderou dela.
- Não, não, Sasuke, pare.
Mas ele ainda a reteve, tão apertada que ela podia sentir as batidas irregulares do coração, por longos minutos, antes de finalmente soltá-la.
- Tudo bem, koukla mou.
Aparentemente, ele estaria acalmando uma criança assustada, que despertara de um pesadelo, mas sob a calma ela ainda distinguia a respiração, que não voltara ao normal, e uma pulsação denunciantes. Ele pegou-lhe a mão, levou-a aos lábios num gentil beijo na palma e largou-a.
- Boa noite, Sakura
- Não, não vá embora ainda, Sasuke - ela sentiu-o hesitar, ao levantar-se.
- Não ?
- Eu, eu preciso falar com você - ela acrescentou rápida, receosa de que ele a interpretasse erroneamente. De fato, ela desejava com desespero ficar sozinha, mas seria melhor conversar com ele agora que esperar até a manhã seguinte. E, também, ela tinha certeza de que não conseguiria mais dormir nessa noite - Não posso ficar, Sasuke - ela explodiu - Partirei amanhã cedo.
Ele ficou em silêncio.
- Foi tudo um terrível erro. Você sabe disso muito bem. Foi um erro na última vez, e ainda é.
Ele não replicou.
- Por favor, tente entender - havia uma nota de súplica na voz dela - Eu era jovem demais.
- Sim, você tem razão - a voz sombria de Sasuke ressoou na escuridão - Nesse ponto, ao menos, nós a julgamos mal; você, aos dezesseis anos, em nada se assemelhava a uma moça grega da mesma idade. E concordo que foi sujeita a uma pressão que muitos poderiam considerar injusta. Chantagem emocional, inclusive, ser solicitada a aceitar o desejo da mãe moribunda.
- Mas por quê - ela hesitou -, por que ela queria com tanto desespero que eu ?...
- Que você se casasse comigo ? - havia dureza na voz - Talvez ache difícil de acreditar, mas ela pensava com sinceridade no seu próprio bem. É claro que ela tinha consciência da própria morte iminente e acho que queria deixá-la sob minha proteção legal.
- Sob sua proteção ? Mas eu já estava sob os cuidados de meu pai. Aliás, lembre-se, desde que ela nos abandonou, estive sempre aos cuidados de meu pai.
- Sim - a voz era gentil novamente - Mas você deve saber muito bem o que ela pensava sobre ele. E desejava com desespero libertar você dessa influência.
Sakura sentiu-se enrijecer de cólera. Mas, antes que pudesse fazer qualquer comentário, ele continuou:
- Quando você veio para cá, há três anos, todos vimos que havia mudado. Você tinha sido uma criança retraída e inibida. Tornara-se uma jovem rígida, encerrada em si mesma, receosa da própria beleza, do próprio corpo, com medo dos sentimentos naturais. Percebemos que você corria perigo de ficar à margem da vida, tornando-se uma réplica gélida de seu pai.
- Meu pai ! - a cor surgiu no rosto da jovem - Você não o conhece como...
- Não, mas sua mãe sim - ela estremeceu diante do frio desprezo na voz - E, por isso, quando você, com tanta alegria, contou-lhe dos futuros planos que ele reservava para você, de como ele já arranjara um trabalho na biblioteca de sua própria faculdade...
- Mas não estou fazendo nada disso. Recusei-me, aliás - na verdade, sair de casa e matricular-se num curso de administração de empresas fora sua única reação de independência em toda a vida.
- Mas não sabíamos que isso ocorreria. E parecia obsceno deixar que uma linda jovem se enterrasse entre prateleiras de velhos livros empoeirados, como a princesa posta a dormir para sempre no caixão de vidro, justo quando ela estava às vésperas de tornar-se mulher - ele se interrompeu - Sua mãe parecia achar que casar comigo seria a sua salvação - ela percebeu o tom de auto-desvalorização, mas não conseguia falar nada, e ele continuou: - Sakura, ela se importava com você. Amava-a muito, de verdade.
- Oh, sim - ela não conseguiu esconder a amargura - Amava tanto que me abandonou quando eu tinha dois anos de idade.
- E quanta culpa ela sofreu por isso, não imagina, pelo resto da vida, pela escolha que fizera: entre você e o amante que se recusara a incumbir-se de uma criança ?
Sakura olhou para ele, horrorizada.
- Sim, é verdade. Seu pai jamais lhe contou toda a verdade, mas agora que você não é mais uma criança, é hora de saber de tudo.
Sakura continuou perdida em meio a um redemoinho de pensamentos.
- Você deve compreender que a tragédia de sua mãe - ele prosseguiu - começou quando ela tinha dezesseis anos e foi impedida de casar com o único homem que amaria. Acho que ela queria reviver em nós o amor que ela sentiu por meu pai, e foi correspondida.
Mais uma vez ele se interrompeu, mas ela ainda continuava incapaz de replicar, os dedos agarrando nervosamente o lençol.
- Você precisa entender, Sakura, que ela amava meu pai tão apaixonadamente que, em nosso casamento, ela via a cura final da ferida terrível em seu próprio ser.
Ela não queria, não podia pensar nisso, não se permitiria enxergar o acontecimento traumático do próprio casamento nessa nova perspectiva. E, de qualquer modo, como podia Sasuke falar de amor nos termos de sua própria união arranjada, sem afeto ?
- Mas era errado da parte dela - ela finalmente conseguiu falar - Ela nunca deveria ter feito tal proposta, e você não deveria ter concordado. Eu tinha apenas dezesseis anos.
- Mas não tem mais dezesseis anos - por trás da irritação, havia um frisson macio de sensualidade, levando-a mais uma vez a agarrar o lençol - E agora que é mais velha, você pode, com certeza, decidir por si própria e, se desejar, ignorar tais pressões. Além disso, prometo-lhe, desta vez não haverá pressões familiares.
Mas não estava ali a família de Sasuke, em dobro de novo ? A prima em segundo grau, e o marido. E com certeza haveria inexorável pressão, aberta ou mais sutil, da parte dele ?...
- Sim, eu posso decidir por mim mesma agora, e é por isso que partirei amanhã cedo. Eu, eu não o amo e...
- Amor ? - ele interrompeu, rude - O que tem o amor a ver com isto ? Você sabe muito bem que sua mãe não amava seu pai. Acha que sua avó amava o homem que foi escolhido para ela, ou que minha mãe amava meu pai ?
- Não, mas...
- Aonde pretende ir ? Reencontrar os amiguinhos em Creta ?
- Não. Voltar à Inglaterra. Voltarei para meu pai e procurarei meu advogado, iniciarei o processo de anulação do casamento.
- Sobre qual base ?
Ela sentia-se grata pela escuridão, pois podia sentir o rubor tomar conta de seu corpo.
- Não consumação. Meu pai disse que o casamento pode ser anulado...
- E quando ele disse tal coisa ? - sua voz era fria e calculada, enervante.
- Quando voltei pela primeira vez.
- E ele continuou a falar no assunto desde então ? - definitivamente, havia algo que ela desconhecia.
- Bem, não - ela admitiu relutante – Mas, em todo caso - ela injetou um tom de desafio na voz - , tenho idade suficiente para me ocupar de meus próprios assuntos. Portanto...
- E suponho que você também esteja planejando devolver o dote.
- Dote ? Que dote ? - ela teve um sobressalto.
- Oh, seu pai esqueceu de mencioná-lo ? - ele prosseguiu, com voz suave - Que descuido o dele !
- Mas não houve dote - ela argumentou surpresa - Como poderia ter havido ? Mesmo na Grécia, os dotes, se é que ainda existem, são dados pela noiva, não para ela. Até eu sei disso - ela prosseguiu mais confiante. Se ele estava tentando confundi-la, não fora bem-sucedido.
Mas Sasuke ignorou suas palavras.
- É claro que eu não quis um dote - a arrogância em sua voz a irritou ainda mais -, mas sua mãe e sua avó insistiram que tudo fosse feito do jeito certo, à moda antiga. E, entre ambas, providenciaram um dote para você.
Ela não entendia mais nada. Ninguém falara sobre esse assunto antes do casamento. Mas, afinal de contas, ela fora apenas uma marionete...
- Neste caso, não precisa se preocupar - ela replicou com frieza -, não precisa me devolver nada. Vovó também estará de acordo, quando aceitar que é melhor que nos separemos.
- Você não entendeu nada, minha querida - antes mesmo de vê-lo, ela pressentiu o seu sorriso irônico - Eu já o devolvi. Dois dias depois de você ter partido, eu o enviei à Inglaterra - a surpresa dela era completa agora.
- Mas... eu não entendo. Deve haver algum engano.
- Nenhum engano, eu posso lhe assegurar - ele retrucou, severo - O dinheiro foi depositado na conta de seu pai em Oxford e descontado no prazo de quarenta e oito horas...
Sakura o esquadrinhou através da escuridão, sentindo os olhos dilatarem. Não tinha mais dúvidas de que ele falava a verdade. Mas por que havia feito aquilo ? Que pergunta tola. Conhecendo Sasuke, sabia bem que ele fizera isso como um gesto de desprezo por ela e o pai. Mas por que seu pai nunca lhe falara a respeito ? Certa de que Sasuke estava deleitando-se com a sua desolação, ela tentou se recompor.
- Nesse caso, nós... eu devolverei o que lhe devemos - ela afirmou resoluta, embora estremecesse ao pensar no seu magro saldo bancário.
- Tem certeza ?
- É claro.
- Acha mesmo que poderá me devolver o dinheiro ? - sua voz era mais branda ainda.
- Quanto é ?
- Um milhão de libras.
- Um milhão ! Mas isso é impossível - as palavras saíram abruptamente, sem controle.
- Posso lhe garantir que é verdade.
- Não acredito em você.
- Duvida de minha palavra?
Ela precisava, do contrário...
- Um milhão de libras foi o que sua mãe estimou ser seu mérito. Não esqueça, quer queira ou não, você é uma Uchiha..
A arrogância da voz bastava como prova.
- Bem, o dinheiro estará ainda intacto. Não deve ter sido tocado.
- Tem certeza, Sakura ?
- Sim, claro que eu tenho certeza - ela retorquiu, indignada - O que você pensa que nós somos ? Ladrões? Podemos ser pobres, comparados a vocês, mas...
Ela se interrompeu abruptamente, quase desfalecendo de raiva, não apenas por si mesma, mas também pelo pai. E então, de repente, a indignação, a fúria que a inflara, estourou como um balão furado. Sua mente foi obscurecida por uma suspeita que a aterrorizou, pois logo se transformou em terrível certeza.
A mudança, poucas semanas após sua volta, das acomodações da faculdade para a bela casa de estilo Eduardiano, com um grande jardim... a mobília antiga... os livros... a estátua valiosa de mármore de um jovem grego que adornava o estúdio do pai ...
Quando ela perguntara, ele apenas comentara, hesitante, o que ela atribuíra ao embaraço natural, que a esposa lhe deixara um legado em seu testamento, e ela aceitara a explicação, contente, pensando que a mãe tentara, após a morte, se relacionar com ele como não o conseguira em vida. Não se falara mais em anulação de casamento. O pai lhe dissera para deixar as coisas como estavam, na ocasião, deixar tudo a seu cargo. E ela aceitara, pensou abatida...
Sentiu o coração afundar em desespero. Como ele pudera agir dessa maneira ? E como poderiam pagar Sasuke? Bem, para começar, teriam de vender a casa. E a estatueta grega, ao menos. Os preços relativos a propriedades imobiliárias e antigüidades, haviam subido nos últimos anos... seu rosto mostrava a determinação do que pretendia empreender.
- Não se aborreça - Sasuke comentou distraidamente, como se estivesse lendo-lhe os pensamentos - O dinheiro não tem importância.
- Talvez não para você, mas para mim é importante - seu desespero a deixava cada vez mais zangada - Eu fui passada de uma mão para outra, vendida, de mãos atadas, como um animal no mercado - porém o desespero venceu novamente, afastando a irritação - Um milhão de libras, como poderei pagar ?
- Oh, há muitas maneiras, eu posso lhe assegurar - a vibração rouca voltara à voz e ela o sentiu afastar com gentileza uma mecha de seu cabelo - Afinal de contas, Sakura, você é uma mulher que qualquer homem se orgulharia de ter como esposa.
"Mas eu não quero ser sua esposa", ela queria gritar.
- Tudo o que você me contou não mudou nada – ela replicou, controlada - Partirei amanhã cedo.
Os dedos dele se apertaram momentaneamente na mecha de cabelos até ela gemer de dor.
- Você não partirá amanhã - ela sentiu que ele mantinha a voz baixa com um tremendo esforço - Nem amanhã, nem nenhum outro dia. Eu a previno de que não tente escapar. Aprendemos muito bem a nossa lição desde sua última loucura. Dei ordens para você ser observada, a cada segundo do dia. E, quanto às noites, bem, é o que veremos - ele se levantou e saiu do quarto.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 5.
