ESCLARECIMENTO: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome de Rachel Ford, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.


Capítulo 5

Bem, ao menos num ponto Sakura estivera certa. Ela teve uma noite sem sono, conseguindo apenas cochilar quando a luz do dia começava a atravessar as persianas...

Apanhou uma laranja numa cesta sobre a mesa, descascou-a, cortou-a em partes iguais e começou a chupar o suco despreocupadamente. Sentia-se grata por estar sozinha no terraço. A família já tomara o café da manhã, era o que podia deduzir das xícaras vazias de café e restos de pão sobre a mesa.

Ela pegou um pequeno cacho de uvas da ilha, sem sementes, e inclinou-se, quando um ligeiro movimento no jardim chamou sua atenção. O jardineiro, ainda no mesmo lugar, mexendo nos mesmos gerânios vermelhos, bem próximos... do mesmo modo que, ao sair do banheiro e entrando no quarto de Sasuke, encontrara uma das empregadas no chão, ocupada em encerar o assoalho já brilhante.

"Dei ordens para que você seja vigiada a cada segundo do dia." A advertência pronunciada em voz suave ecoou em seus ouvidos. Desta vez não haveria fuga mágica, e ela podia ir se acostumando a tal fato. De qualquer modo, se conseguisse escapar, voltar à Inglaterra, haveria o inevitável confronto com o pai.

Como ele pudera agir daquela maneira ? Ela se perguntou, pela centésima vez. E mais uma vez, também, encolheu-se envergonhada ao pensar no desprezo de Sasuke por eles durante os três longos anos. Naturalmente, seu pai era fraco; ela não lembrava bem a idade que tinha quando percebeu que o ídolo da infância tinha pés de barro. Mas ela não era fraca, pelo menos agora não o era.

De alguma maneira, independente do tempo que levasse, ela devolveria o dinheiro, cada centavo. E até consegui-lo, o dinheiro representava um peso em sua cabeça, um elo gigantesco da corrente que a ligava a Sasuke. De repente ela percebeu que girava sem cessar o anel de ouro que ele pusera em seu dedo à força, no dia anterior.

Nesta situação de pesadelo, ela estava totalmente sozinha. O pai a traíra, e a família Uchiha, por sua parte, conspirava contra ela... de repente percebeu, no próprio rosto, um sorriso envergonhado. Mas seria mesmo exagero ? Certamente fora enganada e manipulada por todos. Mas isso fora há três anos. Agora ela era uma pessoa diferente, inclusive nem mesmo se assemelhava mais à garota que voara para a Grécia há vinte e quatro horas. Tinha dezenove anos e, de agora em diante, ia dirigir a própria vida. Ninguém mais iria manipulá-la de novo, não, nem mesmo, e principalmente, Sasuke.

- Gostaria de mais café, Kyria Uchiha ?

A mocinha, segurando o bule de café, a fez sobressaltar-se.

- E, quando estiver pronta, Kyrios Sasuke disse para ir encontrá-lo na praia.

- Oh, ele falou ? - Sakura sorriu agradecida para a jovem e, no íntimo, tomou a decisão de passar o dia inteiro entre as oliveiras, ou, melhor ainda, trancada no quarto. Ficou sentada observando a empregada se retirar ao longo do terraço e, distraída, bateu a faca contra o prato. Kyria Uchiha... o novo título lhe provocava um sentimento desagradável, como o roçar de uma unha quebrada sobre uma meia de náilon. Era como se Sakura Haruno começasse inexoravelmente a desaparecer, sua identidade imergindo na de Sasuke, tornando-se uma de suas posses; uma posse dos Uchiha, ela acrescentou silenciosa.

Não podia escapar, isso era óbvio, até Sasuke decidir-se a libertá-la. Mas ele não era um homem paciente, e mais cedo ou mais tarde ficaria cansado de esperar e, talvez, afinal, decidisse deixá-la partir. E a melhor maneira de assegurar isto, ela pensou com cínica frieza, era manter o casamento na mesma postura em que se encontrava.

Mas então, de repente, ela sentiu novamente o toque de suas mãos sobre os ombros, os lábios apertados contra os seus, a língua invadindo o calor úmido de sua boca... como seria, de fato, ser acariciada pelos dedos longos, fazer amor com ele ?...

O pensamento ardiloso se infiltrara nas profundezas de seu subconsciente e ela o descartou, zangada. "Não seja tão fraca, sua louca", disse a si própria com orgulho. "Se você se entregar a ele uma única vez, se lhe permitir tornar o casamento uma realidade, estará perdida. Está tomando as próprias decisões de agora em diante, lembra ? E isso inclui escolher o próprio marido. Sair da concha de um casamento dissolvido, tão cedo quanto possível, e então quando, não, se você casar novamente, deverá amar o homem que você escolher, e ele deve amar você".

Engoliu o resto do café forte e cheiroso, levantou-se e de repente parou, inclinando-se sobre a mesa e remoendo o lábio num pensamento repentino. Talvez devesse descer para a praia, afinal. Se ela se afastasse o dia inteiro, Sasuke e os outros adivinhariam que ela estava se escondendo, do mesmo modo como fazia quando tinha doze anos. Sentiria mais uma vez a mistura de piedade e desprezo que sempre receara e que até então não conseguira superar. Desta vez enfrentaria a todos e iniciaria seu jogo de espera com Sasuke, e eles veriam quem se cansaria primeiro.

Subiu correndo pelas escadas para se trocar, quando um pensamento a invadiu como um raio e ela sentiu-se paralisada, agarrando o corrimão, a garganta seca. Sasuke não ousaria, não podia possuí-la à força ! Com certeza o orgulho o impediria de infligir-lhe tal degradação ? Mas, ao se despedir, quais tinham sido as suas últimas palavras ? "Quanto às noites... bem, veremos..."

Ela avistou a empregada, aplicada em esfregar a cerâmica do hall e, com o máximo de sobriedade, subiu para o seu quarto.

Pouco antes de alcançar a parte baixa do caminho, já invadida pela brisa marítima, pôde distinguir gritos e, ao emergir da sombra agradável azul-esverdeada dos pinheiros para o surpreendente calor, ela avistou dois altos postes e uma rede, colocados sobre a areia macia, e um barulhento jogo de vôlei se desenrolando.

Dois sobrinhos adolescentes de Sasuke lançavam contra ele e, com um sentimento estranho que não conseguiu identificar, registrou a presença de Matsuri.

Os meninos lhe acenaram alegremente, Matsuri a ignorou, mas Sasuke jogou a bola na areia, interrompendo por um momento o jogo, e se dirigiu a ela. Quando ele se aproximava, ela se virou, deixando cair a sacola, estendeu a toalha de praia em tons branco e preto sobre a areia, ajoelhou-se, ajeitando-a com calma deliberação.

Ela não olhou ao redor, nem quando ouviu seus passos na areia, bem próximos. Somente quando, com o canto do olho, avistou-lhe as pernas nuas e bronzeadas bem ao seu lado, uma delas encostando em sua coxa, ela se endireitou bem devagar.

A despeito de si mesma, seus olhos relancearam pelo corpo másculo observando o contorno bem formado que se percebia através da velha camiseta e do short curto de algodão azul, envolvendo os quadris esbeltos e o abdômen liso.

- Kalimera - a saudação saiu meio sem graça. Ela não conseguia enfrentar-lhe o olhar, o que deixava-a irritada consigo mesma.

- Você demorou bastante.

O tom distraído aumentou a irritação que sentia. Pôs os óculos escuros e olhou para ele de má vontade.

- É claro que nunca lhe ocorreu que eu não estaria disposta a correr para obedecer às suas ordens, não é ?

- É evidente que não pensei nisso - ele levantou um ombro num gesto despreocupado - Por que eu esperaria tal atitude ?

- Talvez eu tivesse preferido fazer alguma outra coisa pela manhã.

- Como esconder-se no bosque de oliveiras, você quer dizer ? - seu tom de voz não era agradável - Bem, pelo menos seria como nos velhos tempos, não seria ? - ele a olhou com frieza por alguns instantes - Eu ia perguntar se você dormiu bem, mas é óbvio que não.

- Claro que não dormi bem - ela rebateu - Você se assegurou desta impossibilidade antes de partir.

- Desculpe-me - sua expressão demonstrava uma perplexidade inocente - Foi algo que eu disse ?

Seus lábios ficaram tensos, mas antes que pudesse pensar numa réplica, ficou consciente dos dois meninos, deixando-se cair pesadamente na areia, enquanto observavam a cena marido-mulher com indisfarçada curiosidade, e Matsuri de pé, atirando a bola de um lado para o outro com impaciência.

- Tenho a impressão de que sua companheira o reclama. Não interrompa o jogo por minha causa.

E, ao avistar a expressão de Sasuke ficar irritada, ela deixou-se cair sobre a toalha e começou a remexer na sacola, como se ele já tivesse se afastado. Ela o ouviu murmurar algo ininteligível e então se voltar, espalhando um pouco de areia sobre ela. Aproximou-se dos outros, tirou a camiseta e jogou-a no chão.

Assim que o jogo recomeçou, entretanto, Sakura abandonou a loção para bronzear que estivera segurando, sentou-se, o queixo nos joelhos, espectadora compulsiva do jogo. Sasuke estava junto à rede e ela observava como seu corpo largo e esbelto se estendia ao máximo para alcançar a bola, bem acima da cabeça, os músculos sobressaindo sob a macia pele bronzeada. Com um grito de triunfo ele a apanhou no ar e a rebateu, esmagando-a sobre a areia bem longe do outro lado.

Mesmo àquela distância, ele exalava uma sensualidade desembaraçada e instintiva e, enquanto ela o contemplava, fascinada, sentia sua própria respiração se acelerar descontrolada e ouvia o sangue latejar em sua cabeça.

- Sasuke.

O choque de ouvir a própria voz pronunciar alto o nome dele devolveu-a à realidade. Lançou a cabeça para trás, bruscamente, como se alguém a tivesse atingido e, à medida que a sua respiração se acalmava, desviou os olhos para observar os outros jogadores, que por alguns momentos haviam deixado de existir.

Matsuri, ela notou, tirara a toalha de praia verde-esmeralda enrolada no corpo, revelando o biquíni mais minúsculo que ela jamais vira: dois minúsculos retalhos cor de esmeralda como parte superior e uma estreita faixa amarrada por um cordão na parte de baixo.

Provavelmente, a avó jamais viera à praia, Sakura refletiu, sardônica. O que pensaria dos seios quase nus de Matsuri, aliás quase todo o resto também, ela mal podia imaginar. Engraçado, ela sempre pensara que as moças gregas fossem mais reservadas, não exibindo os próprios atrativos de modo tão liberal. Mas, sem dúvida, Matsuri era diferente, fazendo as próprias leis.

Contemplou a outra moça por mais alguns instantes, depois, ficou em pé, desabotoando a saída de banho de cor turquesa, e atirou-a dentro da bolsa de praia. Olhou para o próprio biquíni, que combinava com a saída, comprado de última hora numa rápida expedição em Oxford. Estivera um pouco preocupada, então, que fosse muito revelador, mas, nesse ano, todos os modelos pareciam bem mais ousados. E a roupa de banho era para ser usada com o grupo em Creta. Agora, sentia-se muito tímida ao pensamento de tão alarmante exposição do corpo ante os olhos negros de Sasuke...

Por outro lado, entretanto, agora que o vestia pela primeira vez desde que o experimentara na loja, podia ver como se ajustava bem, o top desestruturado e as alças bem apartadas dos ombros realçavam com perfeição os seus seios, enquanto a cintura fina e a longa e graciosa curva dos quadris era enfatizada com delicadeza pelo corte alto da calcinha.

Tudo o que ela precisava era de um bom bronzeado. Esfregou com cuidado um pouco da loção solar especial que trouxera para proteger a pele delicada, ao menos nos primeiros dias, tirou os óculos escuros e sentou-se novamente. O Sol e o alto dos pinheiros, balançando com suavidade, movidos pela brisa quente, combinavam formando um padrão dourado contra os seus olhos fechados. Sentia o intenso calor atravessar a pele, entrar fundo no corpo, eliminando pequenos nós de tensão, até que ela permaneceu deitada completamente relaxada, dormitando, abençoadamente esquecida de tudo, até do jogo de vôlei que se desenrolava ao lado...

Quando uma chuva de gotas de água fria tocou sua pele, ela levantou-se assustada, avistando Sai, de calção de banho azul-marinho, se agitando e sacudindo a água do próprio corpo como um cachorrinho.

- Oh, Sai, vá embora ! - ela exclamou, exasperada.

- Desculpe-me, Sakura - ele se deixou cair ao seu lado, sorridente.

- Vencemos, Sasuke querido ! - eles ouviram a voz triunfante de Matsuri.

Sem conseguir desviar os olhos, Sakura observou a moça se agarrar ao corpo de Sasuke. Bem, ao menos ele não fazia nenhuma tentativa de devolver seus beijos; mas, também, não fazia muito esforço para se libertar do abraço, ela refletiu com azedume.

Ao se voltar para Sai, percebeu que ele a observava com atenção. Nesse momento, os rapazes correram para a água e Sai, levantando-se também, obrigou-a a acompanhá-lo.

- Venha, Sakura. Vamos mostrar para eles.

- Oh, não, Sai, por favor - ela começou, mas ele já a empurrava com determinação através da areia quente.

Sasuke finalmente se desembaraçou do abraço de Matsuri e ficou parado, de pé, observando-os se aproximar. Quando Sakura se aproximou, percebeu que ele a observava com intensidade. Sua expressão era enigmática, mas, de repente, ela desejou, tarde demais, não ter tirado a saída de praia.

- Sakura e eu os desafiamos para uma partida ! - Sai exclamou - Não é verdade ? - ele indagou, voltando-se para ela.

- Bem... - ela hesitava.

- Talvez Sakura não jogue vôlei - Matsuri insinuava com o olhar gélido - Talvez você devesse tê-la consultado antes, Sai.

- Você joga, não é mesmo ? - ele voltou-se para ela.

Ela se sentia como um rato numa armadilha. Seu olhar pousou lento da expressão insolente de Matsuri para os olhos negros e enigmáticos de Sasuke, e o velho pânico se apoderou dela. Nunca jogara vôlei em toda a sua vida, e com certeza não aprenderia nesta partida.

Ela fez um pequeno movimento, quase involuntário, tencionando se virar, mas captou o brilho de triunfo malicioso nos olhos negros de Matsuri e ouviu a si própria dizendo:

- Não tenho jogado muito, mas é claro que sim, isto é, se você não se importar em fazer a maior parte do trabalho, Sai.

Sorriu calorosamente para o cunhado e, mesmo sem ter dado o menor relance de olhos a Sasuke, sentiu-o relaxar.

No início foi um pesadelo. Ela perdeu quase todos os arremessos, de modo que Sai precisava percorrer toda a quadra, para dar-lhe cobertura, e perdeu ponto após ponto, enquanto seus braços e pernas se recusavam duramente a reagir às mensagens do cérebro tenso. Mesmo os arremessos fáceis, que ela tinha certeza de que Sasuke lhe enviava para ajudá-la, terminavam na rede ou fora da quadra.

E então, quando se estendia desesperada para rebater uma cortada de Matsuri, ela tropeçou e caiu sobre a areia. Enquanto se levantava, bem devagar, pensou de repente: "Isto é ridículo. Tudo bem, eu nunca joguei este estúpido jogo durante a minha vida, mas fui capitã de basquete feminino e hóquei, e veterana do campeonato de tênis feminino, não fui ?"

De fato, quando voltara à escola, há três anos, ela atirara-se às atividades esportivas com afinco, pela primeira vez, descobrindo, para sua própria surpresa, que tinha aptidão natural para jogos de bola. E agora, lá estava ela, permitindo que as tensões e as neuroses da menina gorducha de doze anos a dominassem uma vez mais, levando-a a se comportar desajeitadamente.

- Pronto ! - ela bateu a areia do próprio corpo e respirou fundo. Matsuri fez um arremesso alto e extenso, mas ela rebateu e cortou a bola do outro lado da rede, esmagando-a bem aos pés da oponente.

- Oh, belo arremesso, Sakura !

O grito de Sasuke a fez brilhar de prazer, do mesmo modo como antigamente bastava uma pequena palavra de elogio por parte dele para deixá-la feliz. Porém, o entusiasmo arrefeceu. Afinal de contas, por que ficaria tão grata e ansiosa por uma migalha de congratulações dele ?

Cerrando os dentes com determinação, ela lhe passou a bola e depois rebateu-a de volta com violência e fora de alcance. De repente, a partida mudara de figura. Não se tratava mais de um jogo de praia descontraído. Era muito mais uma competição aguçada, e cada lado lutava silenciosamente pela vitória. Sasuke e Sai eram muito bons, jogavam corretamente, mas Matsuri, Sakura percebeu, estava preocupada demais em fazer lances graciosos, e saltos destinados mais a exibir suas curvas do que a manter a bola em jogo.

Aos poucos, a diferença de pontos foi diminuindo e Matsuri, começando a mostrar frustração, começou a jogar apenas contra a sua oponente. Muitas vezes, os duros arremessos dirigiam-se a Sakura, jamais a Sai, e finalmente atingiu-a no ombro. Bem, ela pensou sombria, enquanto esfregava o local atingido, se Matsuri queria jogar desse jeito...

No próximo set, os dois lados empatados, cada um precisando apenas de dois pontos para a vitória, Sakura, pela primeira vez, usou o poderoso arremesso duplo, com ambos os pulsos, aperfeiçoado após longas horas nas quadras para uma partida vital de tênis contra outra faculdade. Enviou a bola diretamente para Matsuri. De algum modo, entretanto, Sasuke interceptou-a e devolveu-a, mas no arremesso seguinte, Sakura, agora zangada com os dois, arremessou contra o diafragma de Matsuri.

- Oh, isso dói - Sai comentou com uma estrondosa gargalhada.

- É contra as regras, e você sabe muito bem que é proibido - Matsuri a olhava com indignação.

- Oh, eu sinto muito - a voz de Sakura parecia de veludo - Não pretendia machucá-la. Eu estava apenas seguindo o que outras pessoas pareciam estar fazendo.

E Matsuri, com o rosto escarlate, lançou-lhe um olhar mortal e tomou novamente seu lugar.

Saque de reinicio de jogo. Enquanto Sakura se preparava para lançar, Sasuke captou em seu olhar um brilho que parecia uma diversão secreta. De repente, toda a sua frustração e zanga reprimida, consigo mesma e contra ele, explodiram em seu cérebro e se transferiram para o saque que ela arremessou contra ele. Rápido em seus reflexos, ele conseguiu alcançar a bola e devolvê-la, mas Sakura a rebateu.

Os outros dois participantes pareceram esmaecer, não passavam de duas figuras secundárias enquanto Sasuke e Sakura lutavam pela supremacia. Pela primeira vez ela percebia que ele estava tão ansioso quanto ela para vencer, e tal constatação alimentou sua determinação em vencer a única batalha, ao menos, que não perderia para ele. Estava sendo conduzida cada vez mais para longe da rede; era agora ou nunca. Levantou ambas as mãos, com toda a força do próprio corpo, conseguiu colocar um efeito na bola, de modo que ela caiu na areia do outro lado da rede.

- Travma, Sakura !

Com um grito de triunfo, Sai a abraçou e levantou-a acima dos pés e beijou-a, radiante. Sakura, numa felicidade efervescente, riu alto e devolveu o beijo.

Mas, nesse momento, quando ele a levantou ainda mais alto, acima da cabeça, o riso morreu abruptamente nos lábios quando ela avistou Sasuke, em pé, imóvel na areia, mãos nos quadris, observando-os, o rosto zangado como uma nuvem de tempestade.

Ela se libertou dos braços de Sai, enquanto Sasuke se aproximava.

- Bom jogo, o de ambos - ele pronunciou o mais claro possível, mas seu olhar, sustentando o dela, era frio.

- Sim, eu acho que nós formamos um bom time - Sai se intrometeu - Não acha, Matsuri ?

A moça não confirmou. Ao invés disso, virou-se com um abrupto movimento dos cabelos castanhos, apanhou sua saída de praia e se dirigiu ao caminho que conduzia para a vila.

Observaram-na retirar-se em silêncio.

- Cara, cara - comentou Sai -, acho que estamos num dia difícil, hoje. Porém eu estou fervendo. Vamos tomar uma bebida - ele apontou para uma geladeira portátil à sombra dos pinheiros.

- Agora, não, Sai - Sasuke replicou, sem alterar a voz.

- E você, então, Sakura ?

- Não - Sasuke falara com bastante suavidade, mas algo no tom de voz a fez enrijecer - A bebida pode esperar - ele estendeu a mão para a moça - Venha nadar agora.

Mas ela não queria, e estava ansiosa por um bebida gelada. Estava preparada para desafiá-lo, quando captou a advertência ameaçadora em seu olhar.

- Um minuto, então. Espere enquanto eu prendo o meu cabelo.

Sasuke a acompanhou em silêncio, deixando Sai, que se encaminhava aos pinheiros. Com mãos trêmulas, ela remexeu na bolsa, até encontrar uma fivela azul de plástico. Prendeu, no alto da cabeça, a trança com que amarrara os cabelos, para maior conforto. Enquanto isso, Sasuke a examinava, seu silêncio tornando-se cada vez mais opressivo.

Como ela ainda hesitava, ele pegou-a pelo pulso e levou-a à praia, os dedos apertando-lhe o pulso com força.

- Solte-me, Sasuke. V-você está me machucando - a voz tremia, menos de dor que do súbito medo provocado pelo olhar estranho ao seu lado. O que havia de errado com ele ? Por que estava tão zangado ? Ele era bastante maduro para partilhar a irritação de Matsuri pela perda de uma partida. Então, de que se tratava ? Ela sabia, por intuição, que sem saber cometera algum tipo de crime; mas qual ?

- Não tente lutar, ou doerá muito mais - ele comentou entredentes, mas ela recuou, o que o levou a apertar ainda mais seu pulso, com tanta selvageria que ela precisou abafar um grito. Forçou-a a entrar na água sem ondas.

Os dois meninos estavam no fim da praia, mergulhando do cais onde o barco ainda estava atracado desde o dia anterior, mas para ela parecia que haviam chegado lá há um século. Sasuke continuava com a expressão fechada, com ela presa ao seu lado, e quando um dos meninos os saudou ele soltou uma exclamação de impaciência e gesticulou em direção a uma curva na praia, margeada por escuras rochas.

- Vamos para lá.

Ele soltou seu braço, tirou o short, revelando uma sunga preta e minúscula, que mal cobria os quadris, e mergulhou na água, dirigindo-se para os rochedos com um rápido crawl. Sakura ficou parada por um momento, a água ao redor dos joelhos, ainda agora brincando com a idéia de desafiá-lo voltando à praia. Mas, incapaz de esquecer a imagem sombria, andou um pouco na margem esverdeada e límpida e, depois, começou a nadar em direção a lugares mais profundos, de uma linda cor azul-escuro.

A sensação da água fria ao redor do corpo era deliciosa, mas ela estava tão preocupada que mal sentia qualquer bem-estar. Encaminhou-se para a direção apontada, alcançou-o e começou a nadar ao seu lado. Quando estavam completamente fora do campo de visão da praia, ele se deteve diante de uma rocha achatada.

- Aqui. Suba.

Ele se içou primeiro e depois estendeu as mãos para ajudá-la.

- Eu posso me arranjar sozinha, obrigada - ela replicou, ignorando as mãos estendidas.

Uma vez sobre a rocha, ela se levantou devagar, desconfortável com a proximidade do corpo quase nu, das gotas de água brilhando através dos finos pêlos negros que cobriam-lhe o peito, da água escorrendo pelo corpo forte, sobre as coxas musculosas.

Desviou os olhos e começou a observar com atenção a encosta íngreme da colina ao longo da costa, a princípio ressecada e árida, dando lugar, mais acima, a terraços verdes cobertos de vinhedos e figueiras e, mais acima, a uma faixa verde-escura de pinheiros e eucaliptos.

Ainda sentia-se furiosa por tê-lo obedecido tão docemente, mas reconheceu com relutância que não tivera escolha, estava bastante consciente de seu mau humor para ousar agir de outra maneira. Ela deixou-se cair pesadamente sobre o rochedo e começou a espremer com afinco a grossa trança de cabelos. Mas, de repente, suas mãos ficaram paradas.

- O que você disse ? - a pergunta parecia engasgada.

- Eu dsse - Sasuke repetiu, sombrio - que você parece correr o risco de esquecer com qual dos irmãos Uchiha está casada.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 6.