ESCLARECIMENTO: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Rachel Ford, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.


Capítulo 6

O olhar de Sakura se anuviou e por alguns momentos ela o encarou, estupefata.

- Oh, não seja ridículo ! - ela conseguiu pronunciar, afinal - Você não está com ciúme de Sai, não é ? - continuou, percebendo que ele continuava com a expressão irritada.

- Quando eu a vejo beijá-lo daquele modo fico, sim, com ciúme. Como ficaria de qualquer homem que você beijasse. Você é minha esposa - ele acrescentou, rude - Pertence a mim.

- Não pertenço a ninguém - ela esbravejou, imprudente - Mas no caso de você estar preocupado, posso lhe assegurar de que não há a menor chance de que eu esqueça, por um minuto apenas, que pertenço a você; ainda que você tenha se esforçado, durante os últimos três anos, para esquecer que também estava casado comigo.

- Explique melhor o que está insinuando, Sakura mou - a voz dele era gélida.

- O que quero dizer é que - a voz dela estremecia de raiva - todas as vezes que eu abria uma revista especializada em reportagens sobre o jet set internacional, encontrava sua foto com a última, como se chama, oh, sim, companheira, agarrada a você...

- Cale-se ! - ela silenciou ante a fúria transparente na voz dele - As fotos, as histórias, os mexericos, não percebe que tudo funcionava como uma charada arquitetada para protegê-la ?

- Para me proteger ! Oh, sim, eu...

- Sim. Para salvá-la da humilhação de sua história patética sendo espalhada através das primeiras páginas dos jornais e revistas européias.

- E suponho que você não estava preocupado com sua própria humilhação ?

- Claro que sim. Qual homem gostaria que o mundo soubesse que a mulher com quem ele se casara há menos de duas horas o abandonou ?

A despeito da raiva em ebulição, Sakura sentiu um súbito aperto que não sabia como explicar. Sua culpa ?

- Por sorte, a cerimônia foi em nossa capela particular e todos, padres, empregados, a família, é claro, juraram segredo... - então ela estava certa, refletiu; uma conspiração de silêncio fora tecida sobre o seu desaparecimento - Mas - ele continuou -, se da noite para o dia Sasuke Uchiha parasse de sair com lindas mulheres - seus lábios se contorceram num riso forçado e cínico -, então, as pessoas começariam a questionar. Os farejadores de escândalos, os paparazzi, bem - ele fez um gesto desanimado -, eu precisava mantê-los felizes e afastá-los de você.

Ela continuava a olhá-lo sem expressão, o que aumentou-lhe a impaciência.

- Será que você gostaria, ou a diretora de sua escola teria apreciado ter o estabelecimento feminino tão exclusivo invadido pelos ratos do jornalismo sórdido à procura da noiva fujona de Sasuke Uchiha ? Mas tudo não passou de um plano deliberado para despistar intrometidos.

- Você espera que eu realmente acredite no que está me contando ? - ela explodiu - A mim, parecia que você estava aproveitando cada minuto. Todas aquelas fotos no Festival de Cinema de Cannes no ano passado, com você e...

Ela se interrompeu abruptamente, a despeito de si própria, ao lembrar com dor como, durante as últimas férias escolares, deparara, por acaso, com as fotos numa velha revista. Enfiara-se na cama, sentindo-se miserável, caindo numa torrente de lágrimas. Descera para jantar abatida e de olhos vermelhos, mas, felizmente, o pai estava tão absorvido com dois erros de impressão que descobrira num artigo seu recentemente publicado que nada percebera.

Tentou recompor-se, mas não pôde evitar o comentário em tom queixoso...

- Bem, não tente me dizer que não estava se divertindo, e muito...

- E se assim for ? O fato de você ter resolvido encerrar-se num convento de freiras por três anos não justifica que eu tenha de levar uma existência monástica.

No íntimo ela sabia que não deveria ter se incomodado, mas por alguma razão ainda inconsciente, aquela situação a perturbara muito. Sasuke percebeu sua expressão desorientada, pois tentou uma conciliação.

- Não, koukla mou, não foi nada disso; nada do que está pensando, eu posso lhe garantir.

Ele pegou-lhe a mão e começou a acariciar a palma. Esfregando o polegar para cima e para baixo, com um movimento sensual e quase hipnótico dos longos dedos sensíveis. Havia tanta beleza naquelas mãos, tanto poder...

- Oh, Sakura - ela o ouviu suspirar -, por que você sempre provoca o que há de pior em mim ?

Ela o encarou por um momento fugaz e ele lhe sorriu, o velho Sasuke. Oh, por que as coisas devem ser feitas deste jeito ? Por que tudo mudara para pior ?, ela pensou. Seu relacionamento fora sempre tão bom, tão descomplicado: um caso simples de adoração de um herói, de um lado, ela sorriu ao lembrar-se, e um primo mais velho e afetuoso do outro. Se tudo pudesse ter continuado daquela maneira para sempre...

"Oh, acorde", ela se repreendeu. É claro que não era possível. Sasuke se tornara seu marido, agora, e tudo era diferente. Todas as vezes que se falavam, ou melhor, discutiam, a tensão os rondava, envolvendo-os num turbilhão de emoções. Mas não poderiam ainda ser amigos ? Seria tão impossível ?

- Desculpe-me, Sasuke - ela lhe lançou um sorriso trêmulo - Não houve provocação na minha atitude com Sai - enquanto ele levantava as sobrancelhas escuras com ar indagador, ela prosseguiu: - Quero dizer... é que, bem, eu gosto muito dele. É tão divertido. Ele é como o irmão mais velho que eu costumava imaginar quando era criança. Mas você... é muito mais... - a voz lhe faltou e ela não conseguia continuar.

- Gostaria que prosseguisse... - ele apertou o seu braço ligeiramente e ela mordeu o lábio.

- T-tão mais... - ela estivera para dizer ameaçador, mas se interrompeu, procurando outra palavra menos provocadora e afinal encontrou "exigente". Mas a esperança fora em vão.

- Exigente ? - era quase um grito - Fui mesmo tão exigente, Sakura ? - ele agarrou o seu braço, obrigando-a a encará-lo, e ela sentiu-se aterrorizada pela raiva que vislumbrou nos olhos flamejantes - Talvez eu não tenha sido exigente o bastante, ao permitir-lhe agir como a criança insensata e mimada que ainda é. Talvez devesse tê-la seguido à Inglaterra e exigido que voltasse para mim. Talvez, ao invés de tratá-la como uma preciosa peça de porcelana, eu devesse ter me imposto à força, exigido meus direitos ao seu corpo. É isso que teria preferido, Sakura mou !

A voz soou áspera em seus ouvidos e ela instintivamente tentou libertar as mãos, mas tarde demais. Ignorando os golpes furiosos em seus braços, ele a puxou para si. Ela saboreou o gosto de sal dos lábios dele, e então sentiu a boca feroz contra a sua, a língua forçando seu caminho com selvageria. Ela soltou um gemido, implorando para ser solta, mas a única resposta foi ele apertá-la ainda mais, como se desejasse fundir os dois corpos num só.

Sasuke arrancou-lhe a parte superior do biquíni, jogando-o longe, num movimento seco e pousou os dedos sobre os seios nus, acariciando-os com avidez. Por um momento ficou parado, desfrutando do contato macio. À medida que os dedos se moviam, Sakura sentiu o corpo reagir, o seio ficando tenso e ereto ante o toque.

Sasuke recomeçou a beijá-la ao longo da linha do queixo, descendo aos poucos para os bicos dos seios, começando a sugá-los vorazmente, provocando uma resposta involuntária, pois os seios pareciam ter vida própria, respondendo ao que lhes era exigido.

Sakura sentia-se perdida na turbulência das emoções estranhas e excitantes, percebendo que o centro de suas sensações estava na aréola dos seios. Porém Sasuke, impaciente, continuou a explorar-lhe o corpo, deslizando os lábios pelo abdômen macio e provocando sensações intensas e jamais imaginadas.

Quando os dedos másculos dele se fecharam sobre a calcinha do biquíni, Sakura despertou do torpor que as carícias de Sasuke lhe provocavam e, deixando escapar um soluço estrangulado, ela lhe segurou os braços, os olhos arregalados. Lutando para controlar a respiração, Sasuke se afastou com um movimento brusco e ela percebeu a emoção quase incontrolável que o dominava. Ele voltou os olhos, escuros e brilhantes, para a boca intumescida, depois seus próprios lábios se contorceram e ele a afastou de repente, fazendo-a quase perder o equilíbrio.

Logo em seguida, ele mergulhou de cabeça bem fundo nas águas azuis, o corpo esbelto cortando a água como uma flecha. Veio à tona alguns metros adiante, sacudiu a água dos cabelos negros e, sem olhar para ela, começou a nadar, afastando-se, com tanta pressa como se pretendesse alcançar a costa da África.

Sakura ficou sentada ali por um longo tempo, aninhada no rochedo, olhando sem enxergar até muito tempo depois de ele ter desaparecido de vista. Levantou-se, afinal, entrou na água e nadou devagar de volta à enseada.

Sasuke não reapareceu até o final do dia. Somente quando se vestia para o jantar, ela ouviu ruídos em seu quarto e, depois, o barulho do chuveiro.

Ela estava começando a vestir seu vestido branco quando o chuveiro foi desligado, e apressou-se a amarrar as alças que prendiam a parte de cima. Recostou-se à parede, esperando tensa pela inevitável chegada de Sasuke.

Porém, alguns minutos depois, distinguiu a voz dele se elevando do terraço, numa conversa com a irmã e o cunhado. Ela percebeu que estavaem pé, como se estivesse enraizada no chão, e conseguiu afinal dirigir-se à penteadeira, onde terminou de se arrumar, puxando os cabelos cor-de-rosa para trás e amarrando-os na nuca.

Ao ouvir o gongo anunciando o jantar, hesitou. A maior parte da família já estava à mesa quando ela entrou no terraço, evitando olhar para a área onde o instinto lhe dizia que Sasuke estava sentado.

Ela beijou a avó e Thia Chiyo e, ao sentar-se, forçou-se a levantar os olhos e enfrentá-lo. Mas ele não estava olhando para ela e sim brincando com Maho, que estava em seu colo, as mãozinhas roliças cheias de conchas que ela mostrava ao tio. As duas cabeças, uma grande, outra pequena, estavam inclinadas juntas na mesma contemplação interessada, e Sakura olhava-os fixamente, sentindo um estranho aperto no peito...

Shizune estava lhe falando e ela forçou-se a se concentrar o suficiente para sorrir e deslizar na cadeira vazia ao lado da cunhada, aliviada ao perceber que estava bem distante de Sasuke.

Não que isso fosse de grande importância, ela pensou, desolada, duas horas depois. A refeição se arrastou, e ele mal lhe dirigiu a palavra e, sempre que olhava em sua direção, dava um rápido olhar, os olhos de ambos se desviando logo. Por sorte, todos os outros estavam empenhados em conversas barulhentas, no jeito bem típico dos gregos, por isso o fato de dois membros da família estarem se alimentando em total silêncio passou despercebido.

Quando o jantar terminou, ela sonhava em repetir a retirada estratégica da noite anterior, mas o orgulho, alimentado pela reação de indiferença de Sasuke, forçou-a a unir-se ao êxodo geral para a varanda em frente à casa, onde o café estava sendo servido. Sasuke, entretanto, não os acompanhou. Seguindo-o com o olhar de esguelha, ela o viu levantar-se e desaparecer dentro da casa com Shizune, carregando a adormecida Maho nos braços.

Ela retirou-se para o extremo da varanda e sentou-se num velho sofá. Uma empregada ofereceu-lhe uma xícara de café que ela apoiou no colo, inclinando a cabeça contra as costas almofadadas e distraidamente prestando atenção na conversa geral, mais suavizada agora, e no agradável tilintar das xícaras e copos. Podia distinguir fracamente, do hall de entrada, a voz de Sasuke. Era a conversa de uma pessoa apenas, ele devia estar ao telefone...

Ela semicerrou os olhos. No céu a Lua brilhava, e no terraço algumas lâmpadas haviam sido apagadas e uma suave luz amarela se filtrava através das folhas do vinhedo sobre sua cabeça. Sentia-se levar em suave abandono.

- Gostaria de um licor ?

Arrancada do seu devaneio, viu Sasuke em pé à sua frente, as luzes piscando através das folhas e formando sombras sobre seu rosto, de modo que ela mal podia discernir as suas feições.

- Oh, não, obrigada.

Com destreza, ele apoiou a xícara de café e o copo de conhaque que estava segurando sobre uma pequena mesa de vime e deixou-se cair no sofá.

Ao tentar pegar o copo, Sasuke roçou seus dedos nos ombros nus de Sakura. Com os sentidos alertas, ela olhou-o justamente quando ele se virava e, pela primeira vez naquela noite, seus olhos se encontraram. No mesmo instante, com um esboço de contrariedade que somente ela percebeu, ele afastou o braço, como se o contato o queimasse.

Lado a lado, eles sorriam para os outros, unidos aos protestos suscitados por mais uma das anedotas estarrecedoras de estudante de medicina de Sai. O tempo todo, entretanto, ela sentia a presença de Sasuke. Juntos, eles representavam o casal perfeito. O pensamento amargo brotou nela, e então, conscientizando-se de que estava roendo as unhas, apoiou ambas as mãos no colo.

A presença dele ao seu lado, tão perto fisicamente e tão distante em espírito, foi tornando-se insuportável para Sakura. Ela relanceou o olhar ao redor furtivamente, enquanto Sasuke tomava um gole de conhaque. Algo de sua inquietação foi captada por ele, pois ele perguntou com voz neutra e calma:

- Está se sentindo bem ?

- S-sim - A voz era tão baixa que ele precisou se inclinar para ouvi-la - Acha que também posso tomar um pouco de conhaque ?

- Vou buscar um pouco - ele murmurou

- Não é preciso - ela recusava-se a chamar atenção sobre si mesma, certa de que tinha o rosto pálido devido à tensão - Se concordar, tomarei um golinho de seu copo, por favor - ele deu de ombros e estendeu-lhe o copo. Ao beber, sentiu o calor dos dedos ainda no vidro, e aspirou o poderoso perfume da bebida. Engoliu, deixando o calor do líquido aquecer a boca e a garganta, revitalizando-se, até quase engasgar. Respirou fundo, determinada a ainda engolir mais alguns goles.

Com firmeza, ele tomou o copo de suas mãos, mas a bebida ingerida já fazia efeito. Havia dominado todo o pânico que a invadia, e assim ela encontrou coragem para levantar-se, murmurar algo sobre estar muito cansada e, antes que ele pudesse detê-la, sorriu vagamente para todos e retirou-se.

Em seu quarto, entretanto, não conseguia se acalmar. A mente parecia um turbilhão de pensamentos confusos. Talvez fosse efeito do forte café grego que tomara. Puxou a camisola debaixo do travesseiro, mas, ao invés de se despir, sentou-se ao lado da balaustrada da janela, olhando para fora. A Lua cheia brilhava no azul-escuro do céu, banhando de prata o topo das oliveiras e lançando um pálido reflexo no mar logo abaixo. As ondas batiam suavemente contra as pedras que ficavam ao longo da linha da maré.

A voz de Sasuke fazia-se ouvir a distância. Era óbvio que ele não tinha pressa de subir, e, no entanto, cedo ou tarde, ele viria. E quando ele chegasse, ela percebeu que as palmas das mãos estavam frias, a despeito do calor da noite de verão, com certeza pretenderia continuar o que iniciara pela manhã ? O fato de ter agido com a máxima indiferença durante a tarde significava apenas que ele recuperara seu controle e superara a raiva que a salvara temporariamente.

No entanto, aquela aparente despreocupação devia ser uma máscara para o turbilhão em que ele também deveria estar mergulha do. Afinal de contas, seu orgulho, mais do que qualquer outra razão, o determinaria a assegurar que nem os membros mais próximos da família tomassem conhecimento da situação carregada que existia entre ambos.

Ao lado dele, no terraço, ela sentira a tensão se estender cada vez mais, como um fio de aço esticado no seu limite máximo e que arrebentaria a qualquer momento, ricocheteando de volta sobre o rosto dos dois antagonistas.

Com certeza ele a procuraria durante a noite, para resolver tudo sem mais delongas. E desta vez ela não seria capaz de interrompê-lo. Passou a ponta da língua sobre os lábios, sentindo-os ainda mais sensíveis devido à investida violenta que sofrera.

Contemplou a porta do banheiro, como se esperasse vê-la aberta a qualquer momento. Ao ouvir o ranger de uma tábua no assoalho, em alguma parte da casa, levantou-se de repente, abriu a porta abruptamente e atravessou o quarto de Sasuke, também banhado pelo luar.

Correu ao longo do corredor e desceu as escadas na ponta dos pés, os pulmões quase estourando pela tensão acumulada. Estava aterrorizada, com medo que um dos empregados pudesse estar no hall, mas não havia ninguém. À noite eles relaxavam a guarda, contando com a vigilância da família e do próprio Sasuke.

Através da porta entreaberta, podia distinguir melhor o som da conversa. Andava junto à parede da casa. Uma risada, uma cadeira arrastada, e então uma sombra, negra e angulosa, contra a lâmpada de luz amarela como se alguém, - Sasuke ? - , se levantasse e se dirigisse a ela.

Com rapidez, ela atravessou o terraço e começou a correr pelo jardim iluminado pelo luar. Correu às cegas, sem saber para onde se dirigia, mas, de algum modo, seus pés a conduziram para o bosque de oliveiras, o velho santuário infantil.

Nenhuma brisa agitava os ramos das árvores, que pareciam pintados com filigranas de prata. Ela vagueou ao longo dos caminhos estreitos, a ampla saia de seu vestido branco roçando suave contra a alta grama, e finalmente sentou-se, inclinando-se contra o tronco áspero de uma árvore.

A imobilidade absoluta, a paz do lugar, contribuíram para acalmar seus nervos extenuados, e o bater descompassado do coração voltou ao normal...

- Achei que a encontraria aqui - ela abriu os olhos, avistando Sasuke - Não sabia que é perigoso dormir debaixo de uma oliveira ? - ele continuou - Ainda mais em noite de Lua cheia ? Roubará sua alma.

Ele parecia brincar com ela mas, quando se abaixou, ela percebeu-lhe a expressão sombria.

- E-eu não conseguia dormir - os dedos se ocupavam nervosamente a preguear o algodão do vestido, aliás já pregueado - Deve ser o café. Eu não estou acostumada.

- É claro.

Ele se acomodou no chão ao lado dela e segurou-lhe a mão. De algum modo ela se forçou a não reagir, mas Sasuke sentiu o tremor que a percorria e começou a dar leves pancadinhas em sua mão. Depois, seus dedos ficaram imóveis. Ele olhou ao redor. Embora sua expressão fosse impenetrável, Sakura percebeu que ele olhava o largo anel de ouro de casamento.

- Eu precisava encontrá-la - ele sussurrou - Não podia deixá-la esta noite sem antes... - ao avistar a expressão de pânico no rosto da jovem, interrompeu-se e deu um sorriso melancólico - Não precisava se preocupar, agape mou. Eu estava decidido a deixar você sozinha esta noite. Mas queria lhe dar isto.

Do bolso, ele tirou uma caixinha e a estendeu a Sakura. Pensativa, ela a abriu e avistou, acomodado em seda branca, um anel de ouro em que uma grande pedra brilhava com leitosa luminescência ao luar. Desviou o olhar do objeto para o rosto impenetrável de Sasuke.

- É lindo - ela murmurou - Que pedra é ?

- É uma pedra da Lua.

Sakura tirou o anel da caixa e o levantou, percebendo que ele brilhava como fogo branco translúcido.

- É - ela hesitava -, é um anel de noivado ?

- Bem, talvez. O caminho normal, acredito eu - sua voz era ríspida - é dar o anel de noivado antes do casamento. Em nosso caso, as circunstâncias foram excepcionais e agora, bem, encare como quiser. Mas comprei-o para você e nenhuma outra mulher jamais o usará.

- Oh...

Ainda incapaz de encará-lo, ela estava devolvendo o anel de volta à caixa quando ele disse:

- Use-o, por mim, Sakura, pelo menos...

Sasuke se interrompeu, mas, movida por algo indefinível em sua voz, ela o atendeu e, obedientemente, estendeu-lhe a mão esquerda. Ele se levantou, levando-a junto, e enfiou o anel em seu dedo.

- Uma pedra da Lua é a mais apropriada para você. Essa pedra representa Selene, a caçadora, a deusa da Lua. Acho que você se assemelha a ela. Esta noite, sobretudo...

Seu olhar se moveu sobre o vestido branco, reluzente como prata, e então, bem devagar ele se inclinou até ela, que sentiu a respiração cálida próxima ao rosto. O luar estava lhe provocando estranhas sensações, fazendo seu pulso bater descompassado mais uma vez. Sasuke ia beijá-la de novo, e desta vez ela não resistiria.

Semicerrou os olhos para receber o beijo, mas ele se limitou a soltar-lhe os cabelos, com gentileza e deixá-los cair sobre os ombros, escorrendo-os entre os dedos como faixas de seda pálida.

- Como você é linda ! - ela ouviu a respiração entrecortada na garganta - Mas, agape mou - ele lhe deu a sombra de um sorriso triste -, você ainda me lembra uma jovem estátua do Museu da Acrópole. Ela está em pé, o rosto voltado para escuridão, o desconhecido, adiante dela, mas uma de suas mãos está erguida e sua cabeça voltada para trás como se temesse deixar a segurança da luz. E assim ela permanece, encerrada em mármore, congelada para sempre entre a luz e a escuridão.

Levantando-lhe o rosto, ele começou a traçar com os dedos o contorno da boca macia e quase sem perceber ela começou a se inclinar para ele...

Pesados passos foram ouvidos ali perto e eles se separaram abruptamente. Dois meninos, segurando toalhas de banho, irromperam entre as árvores, poucos passos adiante, mas mudaram de direção ao avistá-los e se dirigiram correndo à praia.

Ambos permaneceram imóveis, até que os sons desapareceram e então Sasuke tomou-lhe as mãos, levou-as aos lábios e as beijou. Ela contemplou sua cabeça inclinada, sentindo estranhas emoções se confrontarem em seu íntimo.

- Sasuke... - ela balbuciou rouca, mas ele já dera um passo para trás, afastando-se.

- Volte para a villa, agora - e, como ela não se movia, acrescentou: - Ficarei aqui mais um pouco; como você, acho que não dormirei bem esta noite - deu-lhe um rápido sorriso - Você tem razão, deve ser aquele café. Mas não se preocupe, eu não a perturbarei - e ele se afastou.

O gesto significava uma abrupta despedida, mas Sakura, as mãos ainda formigando pelo toque do calor de seus lábios, ficou a examiná-lo por alguns momentos. E então caminhou lentamente de volta à vila, sentindo a mente agitada em turbulentos pensamentos, afastando qualquer racionalidade. Olhou ainda uma vez para trás e o viu inclinado sob a mesma árvore. Os braços estavam dobrados e ele contemplava o chão.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 7.