ESCLARECIMENTO: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome de, Rachel Ford, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.


Capítulo 7

Sakura abriu os olhos com a luz do dia e seu primeiro pensamento consciente foi que, contra todas as expectativas, dormira. Logo depois de ter voltado ao quarto e se despido, de fato ela mergulhou num sono profundo.

Ficou deitada por alguns minutos, atenta a qualquer sinal de movimento no quarto de Sasuke. Não tendo ouvido nada, tomou um rápido banho e se vestiu. Abriu, hesitante, a porta do quarto e espiou para dentro, esperando avistar a cabeça escura sobre o travesseiro. Mas a cama estava vazia. O lençol estava amarrotado, sinal de que ele voltara. Felizmente não passara, como ela havia temido, a noite inteira no bosque de oliveiras. Já devia ter descido à piscina para um rápido mergulho antes do café da manhã. Talvez devesse se reunir a ele, uma primeira tentativa, talvez, de tornar a relação entre ambos menos pesada.

Mas Sasuke não estava na piscina, e sim sentado, sozinho, à mesa do café; quando a avistou, sorriu, polido e impessoal.

- Kalimera, Sakura - e voltou a atenção para um maço de papéis que estivera examinando.

Ela deslizou para a cadeira em frente a ele, serviu-se de café, e depois, de maneira disfarçada, começou a observá-lo por cima da borda da xícara, vendo-lhe os olhos negros, meio escondidos pelos espessos cílios negros, movimentando-se ao examinar uma folha de cada vez. Seu rosto parecia preocupado. Finas linhas marcavam o canto externo dos olhos, brancas contra a pele bronzeada, e havia tensão nos lábios... ela contemplou cada uma das linhas tão familiares, demorando-se um pouco até que, de repente, como se sentisse o exame sobre sua pessoa, ele levantou os olhos.

Encararam-se por um momento e, então, ele bebeu, de um longo trago, o que restava do café, empurrou a cadeira para trás e se levantou.

- Preciso ir a Atenas esta manhã.

- Oh...

Sakura apoiou a xícara com tanta força sobre o pires que quase o quebrou e, pela primeira vez, reparou que ele não estava vestindo suas roupas esportivas de praia, e sim uma camisa branca muito formal, embora os dois botões de cima estivessem abertos, e uma calça cinza-prateada muito leve.

- E-eu não sabia.

- Bem, algo urgente surgiu; a minha presença é exigida.

- Mas quanto tempo você ficará fora ? - ela perguntou sem pensar. Ele deu de ombros, despreocupado.

- Talvez uns dois dias - ele apanhou a pilha de papéis, rearranjou-os, então foi para perto dela e pôs-se a olhá-la - Você ainda está muito pálida, koukla. Divirta-se enquanto eu estiver fora; lembre-se, está de férias.

Ela o olhou de relance, mas não distinguiu a menor ironia por trás de suas palavras. E então partiu, sem um beijo, um até logo, um olhar para trás, quase como se estivesse contente de partir, ela pensou, com uma alfinetada de ressentimento.

Sakura continuou sentada, ouvindo os passos se afastarem. Apanhou um pãozinho macio e, com cuidado, começou a espalhar a pálida manteiga grega, mas, num súbito impulso, afastou o prato e levantou-se.

Encontrou-o no amplo escritório nos fundos da villa, o qual, com seus terminais de computadores, máquinas de fax e teleimpressora, servia como centro de verão para o império de negócios diversificados da família Uchiha. Ele estava de pé junto à escrivaninha, de costas para ela, guardando pastas numa maleta negra para documentos.

Ela ficou parada olhando-o, observando as mãos ocupadas. Então, embora não tivesse feito nenhum som, ele deve tê-la sentido atrás de si, pois se virou. Por um breve momento, parecia haver algo em seus olhos, mas desapareceu rápido, e ela achou que era a sua imaginação.

- Sim ? - a polidez formal a fez sentir um arrepio e, ao perceber que ela nada respondia, ele acrescentou impaciente: - Quer alguma coisa, Sakura ?

De repente, ela sabia bem o que desejava. Pedir-lhe para acompanhá-lo a Atenas. É claro que não ousaria, não seria sensato. Mas, de qualquer maneira...

- Sasuke - ela começou, mas, ao se aproximar um pouco dele, ouviu passos se aproximando rápidos pela passagem atrás de si.

- Bom dia, Sakura. Acordou cedo, hein ? Veio se despedir ?

Os cabelos negros de Sai estavam despenteados e ele estava ainda enfiando a camiseta dentro do short. Deu-lhe um amplo sorriso ao passar por ela, e então, ao olhar rápido de um para o outro, acrescentou:

- Se quiser, voltarei mais tarde, Sasuke...

- Não - a voz do irmão era cortante - Eu estou pronto - olhou de relance para Sakura - Sai vai me levar até a cidade de Tinos para pegar a balsa matinal até Mykonos, onde pretendo alcançar o avião para Atenas. Não é preciso que você venha conosco.

Sem esperar por uma resposta, ele voltou-se, apanhou uma folha de papel do maço de uma das ruidosas máquinas e após examiná-la brevemente amassou-a e jogou-a no cesto de papéis. Vestiu um paletó cinzento, apertou o nó da gravata de seda azul e finalmente apanhou a maleta.

Ela continuou imóvel, respondendo automaticamente às despedidas de ambos os homens e observando-os descer a rampa, as altas figuras emolduradas contra a luz do Sol pela porta aberta. Devagar, começou a caminhar de volta ao terraço.

Uma empregada trouxera um bule de café fresco. Ao se servir de uma xícara, ela ouviu o ruído de um motor sendo acionado e avistou o carro se afastar por trás da villa e subir o caminho que conduzia, através dos ciprestes, à estrada para Tinos.

O primeiro longo dia passou, e o segundo, entrando no terceiro. A crise, qualquer que fosse, estava demorando para ser resolvida, ou Sasuke não tinha pressa de voltar. De qualquer modo, ela não podia se permitir perguntar à família, nem mesmo a Sai, se tinham alguma idéia de quando ele voltaria.

Passava horas descansando junto à piscina ou tomando banho de Sol na praia. A delicada pele fora cuidadosamente protegida e, em vez de se tornar vermelha como camarão, como muitas vezes acontecera, desenvolvera um bronzeado leve e dourado.

Ela poderia ter se sentido solitária. Com a partida abrupta de Sasuke, Matsuri se tornara mais taciturna ainda e Sai encerrara-se no quarto, inteiramente imerso em seus estudos médicos, uma vez que deveria prestar exames brevemente numa matéria em que fora reprovado. Mas havia Maho, a pequenina parecia ter se afeiçoado a ela. Sakura começou a lhe dar aulas de natação na piscina todas as manhãs, e sua companhia descomplicada e o grego balbuciante de alguma maneira acalmava os seus nervos em frangalhos.

No calor das tardes, enquanto todos os outros cochilavam, ela vagava sem rumo ao redor da villa até seus passos a conduzirem ao quarto de Sasuke. Acariciava o algodão macio da coberta da cama, esticava com cuidado cada um dos tapetes, apanhava e recolocava as coisas na penteadeira: escovas e pentes, uma porção de chaves e uma foto dos pais.

Uma tarde, ao sentar-se no banquinho da penteadeira, sua mão soltou-se para a gaveta de cima. Hesitou e abriu-a. Lenços e gravatas de seda. Um sentimento aflorou em seu íntimo e ela ergueu devagar uma foto em sua moldura. Lembrava-se claramente de quando fora tirada: apenas alguns dias após ter chegado na segunda visita à ilha, quando Sasuke era ainda apenas seu primo.

Quem a tirara ? Tentou se lembrar, como se fosse importante. Sim, fora Shizune. Ela e Sai estavam sentados lado a lado na beira da piscina, as pernas balançando dentro da água azul. O rapaz sorria para ela, que, entretanto, estava olhando para alguém acima de seu ombro, alguém que não apareceria na fotografia. Nesse exato momento, Sasuke aparecera, de calção de banho, uma toalha apoiada no braço e ela o olhava, os lábios entreabertos, com uma intensa emoção no rosto, um elo, quase desejo. Mas era impossível, completamente impossível...

Contemplou a foto por mais um momento e colocou-a de novo dentro da gaveta. Levantou-se rapidamente. A porta do guarda-roupa estava entreaberta. Aproximou-se tímida de início, mas, de repente, abriu-a por completo. Por alguns minutos ficou imóvel, depois começou a passar as mãos pelas camisas, calças, paletós esporte, ainda imbuídos do aroma de sândalo do corpo dele.

Não havia roupas de inverno ali, e somente sapatos de praia e sapatilhas. A villa era para o verão, e quando o breve inverno grego chegasse, ele voltaria para Atenas de novo... e ela, onde estaria ? Fechou a porta do armário, atravessou o quarto e deitou-se na própria cama, numa vã tentativa de adormecer à tarde.

Na quinta manhã, após Sakura ter dado sua aula de natação a Maho, Sai pediu-lhe para ajudá-lo a rever a matéria, e ambos trabalharam com afinco sobre as páginas de patologia, que a língua grega tornava ainda mais ininteligível para ela. De repente, ele fechou o livro com impaciência.

- Chega. Não agüento mais. Venha, vamos até a cidade.

Eles correram a toda velocidade para Tinos no MG escarlate de Sai. Ao chegarem, começaram a vaguear pelas ruas estreitas e animadas, olhando, através das portas abertas, para dentro das lojas como bazares, admirando os tapetes bordados, as blusas de lã trabalhadas, maletas de couro, objetos de cobre batido, tudo espalhado pelo chão de modo convidativo.

- Quer alguma coisa ? - Sai perguntou.

- Não, não hoje, obrigada.

Mas havia algo que ela precisava fazer, e que não poderia mais ser adiado. Sai continuara a andar numa rua abaixo, deixando-a junto a uma pequena loja de souvenirs. Ela entrou rapidamente, comprou dois cartões postais idênticos e dois selos e escreveu duas mensagens idênticas: "Mudei de planos. Estou com Sasuke em Tinos".

Contemplou as poucas palavras, sabendo que deveria ter escrito mais, mas era incapaz de fazê-lo. Endereçou um cartão ao pai e o outro à tia Madoka. Enquanto enfiava os cartões na caixa postal, pensou: "Uma vez enviados ao seu destino, o que acontecerá ?". Mas Sai voltou e ela se livrou deles.

- Que tal uma bebida ? - ele a orientou através das ruas congestionadas, até alcançarem o pavimento de um café ao longo do porto - Que multidão ! Cada ano que passa parece que vêm mais pessoas para o Paniytrie.

- O Paniytrie ? - Sakura perguntou.

- Sim, você sabe, a peregrinação para a imagem da Virgem.

Claro. Ela se lembrava agora de terem lhe contado, nas visitas anteriores que fizera, sobre como, a cada dia quinze de agosto, metade dos habitantes da Grécia, ou ao menos assim parecia, se apertavam em Tinos para celebrar o aparecimento miraculoso da imagem extraordinária, incrustada de jóias. Também ela a vira, muda de espanto, quando, na época de sua primeira visita, a avó a levara à igreja de mármore branco de Panagia Evangelistria.

- No ano passado, nesta ocasião, nós saímos da villa - Sai continuou - Estava bastante apinhada, não havia um quarto vazio em toda a ilha. Fomos para a ilhota de sua avó por alguns dias. É muito primitiva, é claro, mas estamos planejando ir para lá de novo este ano, dentro de um ou dois dias - ele se interrompeu para tomar um longo gole de cerveja típica grega, chamada lager, ultragelada, e depois continuou com voz suave: - Sasuke, então, estará de volta.

- Oh, claro que sim - ela olhava para o seu copo de suco de laranja gelado, os dedos desenhando círculos sobre a borda.

- Estamos tão contentes por você ter voltado para ficar conosco, Sakura. Sabe disso, não é ?

Ela levantou os olhos, confusa, e percebeu que os olhos do rapaz, usualmente brilhantes de bom humor, a estavam contemplando com bastante seriedade. Desviou o olhar para a ampla baía, em cujo cais inúmeros barcos brancos estavam ancorados.

- Sim, é claro - ela pronunciou afinal, e se ouviu acrescentar: - Bem, quase todos vocês, de qualquer maneira.

- Você está pensando na prima Matsuri ? - quando ela anuiu relutante, ele continuou: - Sim, como você viu no outro dia, ela nunca foi boa perdedora.

Ela hesitou, mas precisava saber.

- Você está querendo dizer, quanto a Sasuke ?

Sai demorou um pouco para responder, mas olhou para ela, os lábios contraídos, como se estivesse tomando alguma decisão clínica.

- Ela sempre foi louca por Sasuke, e seus pais a estimularam nesse sentido - comunicou ele, decidido.

- Estimularam ? - ela repetiu tolamente.

- Eram a favor do casamento dos dois. Foi há cinco ou seis anos. Houve uma terrível discussão, uma verdadeira explosão dos Uchiha - ele sorriu devido à lembrança, mas, ao captar o olhar inquiridor dela, continuou: - Mas Sasuke já se havia decidido sobre ela há muito tempo e, de qualquer maneira - sua ampla mão bronzeada fechou confortadora sobre a de Sakura -, ele casou com você, não foi ?

- Mas isso só porque minha mãe e minha avó quiseram... - ela interrompeu.

- Queriam que ele casasse com você, quer dizer ? Sim, é um fato. Mas, minha querida Sakura - ele revirou os olhos expressivamente -, você ainda não conhece meu irmão bastante bem para entender que não nasceu a pessoa que obrigue Sasuke Uchiha a fazer qualquer coisa, qualquer coisa, que ele não deseje ? A menos, é claro - ele sorriu malicioso -, que essa pessoa seja você.

Antes que ela pudesse reagir, ele se levantou e estava tirando moedas do bolso do jeans.

- O dever chama, receio eu. De volta à patologia.


- Venha, Maho, aproxime-se.

Sakura estendeu os braços, e enquanto a menina chapinhava na água, ela segurou seus pulsos e aproximou Maho, levantando-a com gentileza.

- Consegui, não foi, Sakura ?

- Sim, minha bonequinha. Você se saiu muito bem.

Abraçando Maho, beijou-lhe o nariz, e a menina devolveu-lhe o abraço, feliz.

- Mais uma vez, Sakura.

- Não - ela negou com firmeza - Você está cansada - mas ao ver a expressão de desalento no rosto da menina, acrescentou: - Faremos nova tentativa hoje à tarde.

Maho sorriu e, olhando para cima, exclamou:

- Oh, Thios Sasuke, Thios Sasuke !

Ela virou-se. Ele estivera encostado à base do trampolim, mas agora caminhava até elas. Obviamente acabara de chegar, ainda usava a calça, e o paletó pendia de um ombro. Sakura, ao observá-lo se aproximar, foi invadida por uma onda de intensa alegria. Precisou se agarrar um momento à escada da piscina para se controlar.

- Thios Sasuke, Sakura está me ensinando a nadar. Olhe.

A menina começou a bater com as mãos na água, chapinhando em direção ao tio. Sasuke apoiou o paletó numa espreguiçadeira e se abaixou à beira da piscina.

- Muito bem, koukla. Continue assim e estará competindo nas próximas Olimpíadas - ele se inclinou para a frente e, ignorando seus protestos, levantou-a - Não ouviu Sakura dizer que você está cansada ?

Envolveu-a numa toalha de praia cor-de-rosa, e a menina, com um último sorriso inocente para ambos, saiu correndo em direção à villa.

O que restava da alegria desapareceu. Sakura alçou-se com dificuldade para fora da água e, como ele não se movia, aproximou-se.

- O-olá, Sasuke - estava prestes a levantar a mão, mas ao percebê-lo imóvel, deixou-a cair novamente. Não sentiu nele calor nem alegria por estar de volta; nada transparecia nos altivos olhos negros - Você fez boa viagem ? - desta vez as palavras pareciam roucas.

- Sim, obrigado - a voz dele era indiferente - Consegui completar o que precisava fazer.

- Que bom - ela replicou meio indecisa, mas sem estar certa do que ele pretendera dizer, incapaz de encará-lo, deixou o olhar voltar-se para os próprios pés, que faziam círculos no chão turquesa.

- Vim para dizer-lhe que se apronte. Nós vamos partir.

- Partir ? - era quase um grito. O que ele pretenderia ? Será que ele cansara afinal do jogo, admitia a derrota e a estava deixando partir ? Mas, não, ele dissera vamos. Ela percebeu que ele continuava a falar.

- Iremos à ilha de sua avó por alguns dias...

- Oh, entendi - sentiu tudo ficar mais claro - Partimos por causa da Paniytríe.

Sentiu um estranho sentimento. O desapontamento e a frustração de que afinal ele não a estava libertando cederam lugar a uma emoção que ela não conseguia identificar.

- Sai contou-me que vocês estavam planejando ir para lá - ela balbuciou, para encobrir a própria incerteza - Mas eu não sabia que a minha avó possuía uma ilha.

- É uma pequena ilha - ele sorriu - Como poderá ver. Tão pequena que nem aparece nos mapas. Mas acredito que você gostará dela - olhou-a, sombrio, e continuou: - Então, é melhor começar a arrumar as coisas imediatamente...

Ela sentiu a tensão destas palavras finais. Olhou-o e percebeu as linhas ao lado da boca, ainda mais contraídas que antes. Esta viagem de negócios obviamente o irritara, e agora ele estava ansioso para partir o mais rápido possível.

- Bem, estou indo, então - rápida, ela se envolveu na saída de banho. Parou, na expectativa de que ele fosse acompanhá-la.

- Tudo bem, eu irei vê-la mais tarde - ele se limitou a comentar e, apanhando o paletó, virou-se, deixando-a. Ela apanhou os óculos de Sol, a loção de bronzear e o livro e colocou tudo na bolsa de praia.

De volta à villa, não avistou ninguém. Todos deviam estar nos quartos, fazendo as malas, confusos com a decisão de Sasuke de partir imediatamente, sem nem sequer esperar pelo almoço.

Sakura tirou o biquíni molhado, tomou uma ducha, vestiu um short de algodão rosa e uma blusa de gola branca. Passou um pente pelos cabelos molhados, amarrando-os num rabo-de-cavalo com uma fita azul. Abrindo o armário, pegou algumas blusas de algodão e saias, shorts de brim e camisetas. Hesitou. Era suficiente; ficariam fora provavelmente apenas dois ou três dias. Por outro lado, no entanto, podia imaginar Matsuri, nesse exato instante. enchendo uma dúzia de malas com roupas glamourosas que dariam para passar um mês em Atenas...

Bem, talvez fosse conveniente algo para usar à noite. Ela pegou o vestido simples de verão, de alças de amarrar nos ombros, e procurou, no fundo do guarda-roupa, um vestido que uma amiga de Oxford insistira em lhe emprestar, e que era muito mais sofisticado do que qualquer coisa que ela normalmente usava: jérsei de algodão preto, com uma saia colante drapeada, corpete justo e um decote imenso na parte de trás.

Parou indecisa, a mão no cabide, depois apanhou-o e o colocou sobre o vestido branco. Pôs o biquíni molhado num saco plástico, apertando-o sobre o topo da maleta junto com a bolsa de toalete.

Sem fôlego, enquanto tentava fechar o zíper da maleta, ouviu lá embaixo o som alto de vozes. "Oh, não, chega da exuberância grega, não agora!" Porém, aguçando o ouvido, percebeu que se tratava de mais uma discussão inflamada.

Ela foi até à janela aberta e inclinou-se para fora, mas não avistou ninguém. Podia ouvir Sai, entretanto, discutindo algo; era rápido demais para ela acompanhar as palavras, os tons mais comedidos de Sasuke, depois Sai de novo, desta vez mais apaziguado.

Porém ouviu Matsuri intervir, num protesto agudo, tendo Sasuke como provável alvo; depois de um longo intervalo, Sakura o ouviu irromper autoritário, silenciando a moça imediatamente. Poucos segundos depois, uma porta bateu, fazendo ranger todas as persianas da casa.

Ela ainda estava junto à janela quando ouviu-o no quarto ao lado. Contou até dez e então bateu.

- Peraste.

Ele já havia trocado de roupa. Vestia agora short de brim e uma blusa de marinheiro. Ele atirava roupas dentro de uma maleta aberta sobre a cama.

- Sim ?

- Estou pronta.

- Bom - ele mal a olhou.

- Posso ajudá-lo a arrumar as coisas ?

- Se quiser, Sakura - seu sorriso era irônico. Ele fez um gesto em direção ao terno, apoiado sobre uma cadeira - Pode guardá-lo no armário e também isto - apanhando um terno de seda de cor creme da cama, ele o atirou para ela. Virou-se e continuou a pôr roupas na mala.

Ela pendurou o terno e depois o de cor creme nos respectivos cabides. Ajeitou o terno de seda com a mão, eliminando um vinco. Como ele deveria ficar bem vestido com essa roupa, mas nunca o veria nela... se fosse uma esposa de verdade, poderia ajudá-lo desta maneira todas as vezes que ele viajasse a negócios... ao encontrar os olhos dele no espelho, ela apressou-se a acabar de pendurar as roupas e tentou esconder o rubor que inflamara-lhe as faces.

De volta ao próprio quarto, estava apanhando a mala quando avistou a caixinha sobre a penteadeira, onde ficara intocada desde a noite no bosque de oliveiras. Contemplou-a um longo momento, então abriu de novo sua maleta e atirou a caixa dentro.

Ele estava esperando-a no terraço, batendo os dedos impacientemente na madeira do corrimão.

- Tudo bem, vamos - apanhou a maleta de sua mão - Eu já disse até logo por você a sua avó e a Thia Chiyo.

- Por quê ? - ela olhou-o, espantada - Elas não irão ?

- Não, não irão - ele respondeu - Agora vamos.

Apenas quando ele diminuiu o passo junto ao cais, ela finalmente conseguiu alcançá-lo. Gotas de suor afloravam sobre seu lábio superior e ela as enxugou com as costas da mão. Lançou-lhe um olhar queixoso.

- Você está com pressa, não ?

Ao invés de replicar, ele continuou a andar pelo cais e atirou as duas maletas dentro do barco. Voltou-se para ela, que, no entanto, permanecia imóvel, ignorando sua mão estendida. Enquanto caminhavam rápidos através das oliveiras, uma idéia lhe surgira.

- Onde estão os outros ?

A villa parecia envolta em silêncio quando haviam partido. Seus olhos verdes se voltaram indagadores para Sasuke.

- É isso mesmo. Nós vamos sozinhos.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 8.