ESCLARECIMENTO: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Rachel Ford, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.
Capítulo 8
- Sozinhos ? - Sakura repetiu as palavras de Sasuke com dificuldade, como se estivesse hipnotizada, enquanto o pânico tomava conta dela - Claro que não iremos !
Enquanto Sasuke ainda lhe estendia a mão, os lábios apertados numa expressão de irritação, ela deu alguns passos para trás e escondeu as mãos nas costas. Desde seu retorno, ele parecera diferente. Mais irritável e impaciente, sim, mas de algum modo, de uma maneira estranha e impalpável, menos ameaçador. Agora, no entanto, a expectativa do que aconteceria quando estivessem totalmente sozinhos e ela à sua mercê pareceu-lhe um monstro marinho saindo das profundezas de sua mente.
- Não irei - ela repetiu desafiadora e, aterrorizada ante a fúria que os olhos de Sasuke expressavam, começou a correr de volta.
Ele a agarrou com duas passadas, obrigando-a a dar meia-volta com tanta força que ela se viu comprimida contra o seu peito.
- Você virá, Sakura - ele afirmou duramente -, nem que seja pela única razão de que nesta ocasião, ao menos, não permitirei que me faça de tolo.
Empurrando-a para a frente, os joelhos encostados aos dela, forçou-a a entrar no barco. Ela deixou-se cair no assento estreito, enquanto Sasuke soltava as amarras e saltava para dentro para ligar o poderoso motor. Deu marcha a ré muito rápido, quase batendo nas aparas do cais e então conduziu o barco na velocidade máxima para o mar aberto.
A ilhota, de fato, era minúscula. Tudo parecia em miniatura: uma pequena baía, limitada por dois rochedos avançando para o mar, e um minúsculo semicírculo de areia úmida, e logo atrás trechos íngremes que conduziam para um topo encimado por altos pinheiros.
Ele desligou o motor e deixou o barco flutuar com maestria, alinhando-o ao lado das pranchas de desembarque. Não a olhara nem ao menos uma vez durante a travessia, concentrando toda a atenção no caminho. Algo na postura zangada dos ombros e na expressão determinada do queixo aumentou ainda mais a sua apreensão. Sentia o estômago revoltado. Mas, desta vez, jurou a si mesma com firmeza, seu medo não transpareceria.
De repente ele se virou, percebendo o olhar reprovador que ela lhe dirigira. Ele se levantou, encarando-a como se ela fosse uma criatura desprezível que acabara de se arrastar de sua toca para o assoalho cheio de água.
- Por que será - ele falou afinal - que inevitavelmente você faz vir à tona o que há de pior em mim mesmo quanto estou tentando... evitá-lo com o máximo empenho ?
- Oh, está ? Eu não percebi - ela se retraiu ante sua expressão, mas, ao lembrar-se de sua decisão de desafiá-lo custasse o que custasse, acrescentou: - Talvez porque haja muito de ruim em você.
Ela o viu levantar as mãos à altura de seus olhos, apertar os punhos por um instante, e então deixá-las cair dentro dos bolsos do short.
- Seja muito cuidadosa, Sakura mou. Já agüentei muito mais de você do que de qualquer outra pessoa que já cruzou o meu caminho. É uma menina muito provocadora, e meus dedos padecem do desejo de colocá-la sobre meus joelhos e administrar a saudável reprimenda que você merece - ele respirou fundo - No entanto, não permitirei que me provoque, ao menos no momento. Agora, venha.
Entre os pinheiros, havia uma pequena casa, pintada de branco, no meio de um jardim bem organizado. Eles andaram por um caminho estreito, ladeado por tomateiros de um lado e por girassóis do outro. Enquanto Sasuke apoiava as malas entre os vasos de gerânio junto à entrada, uma senhora de ar matronal, vestida de preto, apareceu junto à porta aberta.
Ao avistá-los, apertou ambas as mãos, dando gritinhos de alegria e, enquanto Sakura olhava atônita, ela apertou Sasuke num abraço e começou a falar num grego rápido, ininteligível para Sakura.
Afinal, ele se libertou, beijou-a em ambas as faces e, antes que Sakura pudesse se colocar fora de seu alcance, ele colocou o braço ao redor de sua cintura, possessivo, empurrando-a com firmeza para a frente.
- Sakura, esta é Kaori. Foi minha enfermeira. Não - ele procurou por um momento a palavra inglesa correta -, minha babá, quando eu era criança.
Logo em seguida, a mulher envolvia Sakura num forte abraço.
Ela ficou tensa, tentando se afastar de leve. Ela tinha sido criada para nunca exibir emoções fortes, em particular. Mas ser envolvida naquele abraço carinhoso era quase como entrar, cansada e com frio, num banho quente e delicioso. E ela se abandonou ao abraço, retribuindo-o com igual afeição.
Finalmente, Kaori se afastou, olhou inquisitiva para o rosto da moça e então, como se estivesse satisfeita com o que vira, anuiu e comentou algo com Sasuke. Ele sorriu e se voltou para Sakura.
- Kaori está me dizendo que Kyria Uchiha é uma jovem senhora muito bonita.
Enquanto ela sorria incerta, a senhora passava a mão ao longo de seu braço e examinava-lhe o corpo de modo desconcertante. Depois deu umas palmadinhas na curva dos quadris e no estômago achatado com óbvia aprovação, riu e comentou algo mais com Sasuke.
Ele sorriu mais uma vez, mas Sakura, sempre atenta quando algo lhe dizia respeito, percebeu que o sorriso era apenas superficial, nem remotamente tocando seus olhos e desta vez ele não traduziu.
Kaori os encaminhou para duas velhas cadeiras e desapareceu dentro da casa. Sentaram-se, Sakura em silêncio constrangedor, Sasuke olhando para fora, até que a velha senhora voltou segurando uma bandeja com duas pequenas xícaras de café, dois copos de água e um prato de doces turcos. Sakura, sentindo-se incapaz de comer doces, ia recusar, quando o pé de Sasuke, por baixo da mesa, advertiu-a a não recusar. Ela sorriu agradecida e, de algum modo, conseguiu forçar um pouco do doce através da garganta, enquanto ele terminava o restante com aparente agrado.
Houve mais abraços e beijos, então ele apanhou as malas e partiram ao longo de um caminho estreito de pedras que margeava os pinheiros.
- Eu precisei levá-la primeiro até lá - Sasuke observou - Kaori jamais me perdoaria se não lhe tivesse apresentado logo minha jovem noiva para sua inspeção.
Ela o olhou de relance, irritada, os lábios se apertando ante a expressão sarcástica de seu rosto.
- Espero que você não tenha se incomodado - ele acrescentou calmamente.
- E teria adiantado algo se eu tivesse me importado ? - ela retrucou.
- De fato não. Enquanto estiver comigo, terá de mostrar-se delicada, e em particular para as pessoas que estão num nível abaixo do seu.
A gélida reprovação a perturbou. O rubor cobriu novamente suas faces, mas ela mordeu o lábio, reprimindo a resposta que pretendia dar, e se forçou a respirar fundo. Se permitisse que uma rixa raivosa se desenvolvesse entre ambos, sabia muito bem quem venceria... como nunca antes em sua vida, necessitava conservar o sangue-frio. É verdade que não estavam sozinhos naquela ilha horrível, como temera, mas Kaori, a empregada que adorava Sasuke, muito provavelmente não interviria se ele resolvesse tomar plena posse dela. Afinal de contas, ela era apenas uma das propriedades dos Uchiha.
- Sempre fui muito afeiçoado a ela - ele parecia mais brando, como se estivesse preparado para uma trégua - Quando Saito, seu marido, foi ferido num acidente e perdeu o emprego, ofereci-lhes a casa aqui, onde poderiam tomar conta da ilha para nós.
Sakura voltou o olhar para a encosta da colina, os atalhos banhados de prata pelos eucaliptos, por toda a parte o perfume do tomilho enchendo o ar e, atrás deles, além dos pinheiros, o azul-escuro do mar infinito, mostrando Tinos como um pequeno borrão no quente nevoeiro úmido.
- Creio que inúmeras pessoas tentam atracar aqui.
- Atualmente, não tanto - ele deu uma risada - Talvez isso tenha algo a ver com a arma poderosa de Saito, da qual ele jamais se separa, assim como do par de mastins que sempre estão ao seu lado.
- Não sabia que você teve uma babá - ela mudou de assunto.
- Oh, sim - ele replicou, secamente - Minha mãe nunca teve muito tempo para nós quando éramos crianças. Talvez um pouco para Shizune; ela era, afinal, uma menina, com a qual se podia brincar e vestir como uma boneca. Mas Sai e eu... - ela o viu contrair o rosto como se uma velha ferida tivesse sido tocada - Nós éramos, penso eu, bastante parecidos com meu pai.
- Oh, Sasuke, eu sinto muito.
Comovida pela dor que distinguia em sua voz, ela estendeu a mão, mas, ao perceber seu braço endurecer, ela a pôs novamente de lado.
Chegaram à casa. Era muito simples, comprida e baixa, as paredes revestidas de cor creme e sombreada por altos ciprestes. Não havia um jardim, mas a relva nativa era margeada por amendoeiras, duas ou três laranjeiras, o fruto brilhando, quase maduro, entre as folhas verde-escuro, e uma enorme amoreira silvestre.
Mas as linhas simples da casa e seus arredores realçavam a esplêndida vista além dos topos dos pinheiros, destacando o Mediterrâneo estendendo-se majestoso e prateado ao redor da ilha. Sakura ficou imóvel, sentindo a respiração presa na garganta diante da serena beleza do lugar...
Ao perceber que Sasuke a olhava, eliminou rapidamente a expressão de êxtase do rosto.
- Gostaria de comer algo ? - a voz dele era fria.
- Oh, não, obrigada. Mas teria algo gelado para beber ?
- Claro, nós temos uma geladeira movida por um gerador elétrico. Espere aqui.
Ele apontou para uma cadeira de balanço de madeira, e entrou na casa. Ao longo da varanda havia uma linha de arbustos aromáticos, lembrando lavanda. Ela quebrou um galho e esmagou a flor púrpura entre os dedos, liberando o óleo e o aspirando, concentrando-se por inteiro no aroma, na vista gloriosa, no farfalhar dos pinheiros, na brisa cálida, e apagando da mente os receios que ainda insistiam em ameaçá-la.
- Aqui está: suco gelado de lima, de acordo ?
- Mmm, maravilhoso !
Sasuke apoiou a jarra sobre a mesa, encheu dois copos e estendeu-lhe um.
- Nenhum doce turco, eu espero.
Inesperadamente, ele lhe sorriu e, antes que pudesse impedir, Sakura viu-se retribuindo o sorriso, mas então desviou o olhar rapidamente e tomou um longo gole da bebida. Ao apoiar o copo, ela lembrou-se de algo.
- O que foi que Kaori comentou um pouco antes de sairmos da casa dela ?
Por uma fração de segundo, ele hesitou, mas depois decidiu-se.
- Ela estava lhe avaliando profissionalmente. Informou-me que, com esses quadris, você poderá me dar muitos filhos saudáveis.
- Oh !
O suco de lima se esparramou sobre sua mão. Ela pegou um lenço no bolso do short e se enxugou, enquanto a cor tomava conta de suas faces.
- Você deve desculpá-la - a voz dele não revelava nenhuma emoção - Imagino que como ela esteve ligada a bebês durante toda a sua vida, eles ainda sejam sua principal preocupação - ele se interrompeu, sentindo o olhar da jovem - Mas, de qualquer modo, koukla mou, você não precisa ficar com medo. Não vai acontecer.
- P-por que não ?
- Porque eu vou libertá-la.
- Libertar-me ? - ela olhou-o de olhos bem abertos, mas ele contemplava no mar um minúsculo caiaque.
- Sim, vou deixar você partir. Voltar para sua casa, para a Inglaterra, onde poderá iniciar o processo de divórcio.
- Oh... - ela sentia-se completamente incapaz de dar qualquer outra resposta.
- Não é o que você quer, Sakura ?
- Bem, sim, claro - ela murmurou, ainda incapaz de raciocinar.
- Afinal de contas - apenas por um momento, o tom calmo de sua voz foi perturbado por uma amargura que a fez pensar -, não houve nenhuma mudança em sua situação. A base para a anulação permanece intacta. Enquanto estive em Atenas, eu consultei o advogado da família.
Ela o encarou, perplexa. Então as coisas já tinham começado a mudar. Tão rápido, tão cedo. Sasuke devia ter interpretado a sua expressão erroneamente.
- Não precisa se preocupar. Ikkaku é muito discreto. Alguma coisa deverá transparecer, isso é inevitável, mas nós a protegeremos o máximo possível da publicidade.
- Mas, mas eu não entendo - sua mente quase parara de funcionar.
- É muito simples, Sakura mou - ele sorriu com sinceridade - Considere-me um grego arrogante, se quiser, mas realmente acreditei que tudo o que eu tinha de fazer era trazê-la de volta para cá e que você cairia em meus braços com gritos de alegria. Mas você logo provou que eu estava errado e percebi que estava certa e que tudo fora, de fato, um erro lamentável.
Ele fez uma pausa e a encarou, os olhos brilhantes.
- Bem, tente parecer mais contente. Afinal de contas, vou deixá-la partir, não é o que você queria ?
- O quê? - ela falou distraída, a mente num turbilhão, mas acrescentou com fervor: - Oh, sim, claro - no entanto, não se sentia mais aliviada. De fato, não estava nem um pouquinho feliz...
- Foi por isso que fui a Atenas. Eu precisava refletir, longe da família e de você. Já havia tomado a decisão de que o que acontecera na rocha, naquela tarde, na praia, não se repetiria - sua voz exalava desgosto consigo próprio - Eu esperei três anos por você, mas jurei a mim mesmo que nunca a possuiria a não ser que você viesse até mim por livre e espontânea vontade. Eu poderia, mesmo agora, ter o seu corpo, mas desta maneira jamais teria o seu espírito, a sua mente, a sua alma. E então, Sakura mou - aquele sorriso estranho de novo -, eu estou libertando você.
Libertando-a ? Ele fora mesmo instado por ela a agir desse modo ? Ela o contemplou, pensativa, e então, do nevoeiro em que se transformara seu cérebro, surgiu um pensamento coerente.
- E o dote ? - ela perguntou - E sobre esse assunto ?
- Já lhe disse que o dote não tem importância - ele murmurou baixinho - Lamento ter lhe falado a respeito; foi, é claro, uma tentativa de pressioná-la ainda mais. Mas esqueça completamente esse assunto, para sempre. Não fale sobre isso nunca mais.
- Tudo bem. De acordo - mas, quer ele concordasse ou não, de alguma maneira ela iria pagá-lo. Outro pensamento a atingiu - Se está me deixando partir, por que me trouxe para cá ?
- Nós, gregos, temos a reputação de sermos hospitaleiros com os estrangeiros - ele estendeu as mãos, expressivo.
Ele a estava incluindo entre os estrangeiros. A fraca ênfase à palavra mostrava que ele sentia algo que não seria exatamente tristeza, mas lamento. Ele a estava excluindo da Grécia, da família e de si próprio.
- Você veio para cá de férias. Muito bem, posso garantir que as terá. Mas era necessário afastá-la dos outros. Por mais que eu os ame, eles estão... - ele fez um gesto vago - ...sempre presentes. Todos conhecem a nossa história, e portanto, a despeito de minhas ordens, as pressões sobre você estavam sempre visíveis. Assim, Sakura - ele se levantou, ajudando-a também a se erguer -, não precisa mais temer. Por uns poucos dias, serei mais uma vez, e apenas, o seu primo, que espero que você ainda estime um pouco, e nada mais.
P. S.: Nos vemos no Capítulo 9.
