ESCLARECIMENTO: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome de Rachel Ford, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.


Capítulo 9

Gratidão pura, misturada a espanto e alívio invadiram Sakura, tornando-a incapaz de falar. Mas, de qualquer modo, Sasuke não parecia querer uma resposta.

Ele se virara para apanhar as duas malas e estava entrando. Passou por uma sala de estar, toda branca e mobiliada com simplicidade: cadeiras e sofás de cana-da-índia. Depois passou por um corredor escuro e frio que acompanhava toda a extensão da casa.

- Kaori disse que preparou tudo para nós - ele observou ao abrir uma porta com o cotovelo.

Andou alguns passos e abriu uma persiana. Então deteve-se de repente, voltando-se para ela com uma curiosa expressão que era de desgosto, e que Sakura estava começando a conhecer tão bem.

- Normalmente, este é o meu quarto. Esqueci que Kaori presumiria, é claro, que nós o partilharíamos - ele deu-lhe um sorriso forçado - Quando estou sozinho, ela não o enfeita com tanto exagero floral. Mas, suponho, é sua maneira de dar as boas-vindas à minha esposa.

Sakura, olhando ao redor do quarto, viu que por toda parte havia inúmeros vasos e jarros, todos cheios de flores, enormes gladíolos, cravos e margaridas.

- Oh, quanta gentileza dela ! - ela exclamou - Deve ter levado muitas horas.

Sasuke colocou sua mala sobre a cama.

- Você ficará neste quarto. Acho que é o mais brando - ele atravessou o cômodo até um dos cantos e abriu uma porta - Este é o seu banheiro - ele parecia um hoteleiro, mostrando as acomodações a um hóspede recém-chegado - É muito pequeno, receio, e o suprimento de água é meio temperamental. Provém de uma cisterna nas colinas.

- Oh, eu tenho certeza de que ficarei muito bem, obrigada, mas - ela acrescentou com timidez -, se é o seu quarto, sinceramente não seria preferível...

- Bem, tudo arranjado então - Sasuke pegou a própria mala, acenou com um breve gesto de cabeça e desapareceu sem mais uma palavra.

Ela ainda estava em pé, olhando pela janela, quando ouviu sua voz.

- Esqueci de perguntar se você gostaria de comer alguma coisa agora, ou prefere nadar, antes ?

- Oh, prefiro nadar. Isto é, se você... – mas, como ele se afastava de novo, sua voz caiu no vazio.

Sakura pendurou as poucas roupas no pequeno armário de madeira e depois vestiu o biquíni. Contemplou-se no velho e estreito espelho da porta do guarda-roupa e estudou-se com atenção. Colocou então a saída de banho e começou a pentear os cabelos.

Estava se inclinando para a frente, lutando para firmar a massa cor-de-rosa num coque disciplinado, quando ouviu:

- Fique parada - e divisou as pernas nuas e bronzeadas de Sasuke ao seu lado. Ele apanhou o cabelo e com destreza o torceu, pedindo então: - Grampos.

Obedientemente, ela os estendeu, silenciosa.

- Pronto, acho que será o bastante - ele estava atrás dela, em pé, examinando-a de modo impessoal como se ela fosse a boneca de Maho, cujos cabelos podiam ser penteados – Vamos ?

Quando ela assentiu, Sasuke apanhou duas toalhas de banho que atirara sobre a cama e Sakura o seguiu para fora, sentindo o calor abrasador da tarde de verão.

- Há um atalho para a praia. Só viemos pelo caminho mais longo para visitar Kaori primeiro.

Ele a conduziu através de uma trilha íngreme entre os pinheiros. Chegando à praia, deixaram os pertences sob a sombra das árvores e correram para o mar, atravessando a areia que queimava seus pés. Lado a lado, mergulharam na água e, numa concordância silenciosa, dirigiram-se ambos para o fundo, além da baía.

Sakura se cansou primeiro e voltou. Sentou-se sobre a toalha debaixo das árvores, observando-o, mas quando ele finalmente diminuiu a velocidade com que nadava e começou a voltar à margem, ela deitou de bruços. Ouviu os passos dele bem próximos e depois sentiu as gotas de água que caíam contra sua pele quente enquanto ele se jogava ao seu lado.

No entanto, após alguns minutos de silêncio, ela o ouviu esticar-se e, quando o procurou através da curva do braço, ele estava sentado, de pernas cruzadas, trabalhando com vigor à areia à sua frente. Um tênue sorriso aflorou à sua boca; Sasuke era um homem atraente... e incansável.

Pouco a pouco, do monte de areia foi surgindo um grifo, um personagem mitológico grego, a mostrar os dentes arreganhados, o corpo escamoso e a longa cauda de serpente, enrolada. Incapaz de desviar os olhos, ela observava fascinada o mítico animal que ganhava vida sob as mãos de Sasuke. Fortes, capazes, eram as mãos de um homem que podia ter sucesso em qualquer coisa que empreendesse. Contudo, também seriam os dedos longos e sensíveis de um artista, um sonhador ?...

- Você gosta ? - ele perguntou, sem virar a cabeça.

- Oh, sim, é maravilhoso.

Ele deu de ombros e sentou-se sobre os calcanhares, sacudindo a areia das palmas das mãos.

- Achei que poderia diverti-la.

- Mas é muito bom - ela insistiu - Realmente parece estar vivo.

- Obrigado - ele acenou com um gesto de auto-caçoada - Na verdade, pensei em ser um escultor, quando jovem. Mas, com a morte de meu pai, quando eu tinha dezessete anos, e o império Uchiha esperando... - ele estendeu as mãos num gesto expressivo, mas então, como se quisesse quebrar qualquer traço de simpatia que ela pudesse estar sentindo por ele, levantou-se - Agora, almoço, eu acho. Estou morrendo de fome, caso você não esteja.

Ele estendeu a mão e ajudou-a a se levantar com facilidade, abaixando-se para apanhar sua toalha. Enquanto amarrava a saída de praia, ela viu-o desmanchar com o pé o grifo, sem piedade, revirando a areia até que a escultura não passasse de mais um monte de areia úmida.

De volta à casa, ela insistiu em ajudar a preparar a refeição. Trabalharam juntos na cozinha mobiliada de pinho e depois comeram, em silêncio amigável, do lado de fora, na varanda. A comida era simples: taramasalata, uma salada de queijo grego, e grandes tomates, uma salada de vegetais, pão preto caseiro, seguidos de um prato de grandes fios suculentos, e uma tigela de damascos frescos, que Sasuke apanhou de uma velha árvore ao lado da casa. Ele bebeu retsina, vinho branco resinoso, mas para ela abriu uma garrafa de aretsinoto, de sabor leve e fresco.

Enquanto comiam, Saito apareceu, com sua poderosa arma de fogo, aninhada sob o braço. Sua estrutura parecia de ferro, com o pescoço de touro e o rosto castigado pelo mar e pelo tempo, mas levou a mão de Sakura à boca, numa delicadeza digna de um cortesão, apertou as mãos de Sasuke, de homem para homem, jamais como patrão e empregado, ela notou. Depois, após outras poucas palavras, assobiou para os dois cães enormes que se alternavam em cheirá-la desconfiados, enquanto com Sasuke pulavam brincalhões, e foi embora.

Quando terminaram, Sasuke mostrou-lhe como preparar o café grego da maneira correta: duas pequenas xícaras, cheias até a metade com grãos, e depois água, fervida numa pequena chaleira de metal com uma grande alça e derramada diretamente nas xícaras.

- Agora, beba logo, enquanto ainda está quente o bastante - sorriu para ela, o novo, amigável, nada exigente Sasuke, ou antes, ela pensou, o antigo Sasuke...

Nadaram novamente, e depois de outra ligeira refeição, sentaram-se do lado de fora, ao quente cair da noite, prestando atenção nos pequenos sons dos insetos invisíveis ao seu redor e olhando a Lua realizar um pálido caminho de luz através da água do mar, prateando as pequenas ondulações na superfície.

Ele acendeu as luzes do terraço e, enquanto se concentrava na leitura de um livro, ela abriu a linda escrivaninha de madeira esculpida que ele lhe indicara. Abriu as gavetas, admirando a coleção de conchas devidamente acondicionadas, pedras e plantas marítimas secas. Ele lhe contou que a coleção fora feita pela avó, ainda menina.

Apenas quando estava na cama, olhando o luar se mover pela fresta da janela, formando um desenho delicado, ela percebeu mal ter pensado nas palavras dele durante o dia inteiro. Tudo se passara como se ambos tivessem ficado felizes e satisfeitos, agora que ele tomara a decisão de libertá-la. As tensões tinham se desvanecido, dando lugar à descomplicada liberdade do passado.

- Vou libertá-la... - a gratidão a animou novamente. Ele estava deixando-a partir; sem uma briga sequer. Ela sorriu e caiu alegremente no sono.

Acordou com um sobressalto, provocado por um mau sonho, do qual não conseguia se lembrar, e começou a suar. Um sentimento estranho, pesado, se instalara em seu peito, sentia a garganta apertada. Oh, não, não ia ficar doente, não era possível ! Colocou as costas da mão na testa; estava quente, mas não de modo anormal, devia ser apenas uma reação do sonho. Empurrando o lençol, dirigiu-se ao pequeno banheiro para tomar uma ducha.

De volta ao quarto, estava em pé diante do guarda-roupa, tentando decidir o que vestir, quando, sem bater, Sasuke entrou. Sakura não estava próxima à porta. Assim, por um momento, ele não a viu. Antes que ela pudesse se mover, ou fazer mais que cobrir com as mãos os seios descobertos, ele a avistou.

Ao vê-la ali, nua e tão desprotegida, Sasuke franziu as sobrancelhas, como se tivesse se aborrecido com o que via e, com um breve pedido de desculpas, ele se retirou.

Sakura percebeu que estivera prendendo a respiração. Soltou-a devagarinho, e deixou-se afundar na cama. Ele estava sendo sensato, fiel à promessa que fizera, ela reconhecia. Mas, ainda assim, precisava ter se retirado com um ar tão irritado ?

O dia seguinte não foi diferente do anterior. Teve natação, banho de Sol e agradáveis e demoradas refeições. À noite, Sasuke deu-lhe outra coleção de sua avó. Desta vez, um enorme livro com flores selvagens prensadas, e continuou a ler o seu livro.

Mas desta vez a novidade não interessara a Sakura, que apenas folheou as páginas antes de abandonar o livro. Quando Sasuke a olhou inquisitivamente, ela comentou apressada que estava cansada e ia para a cama. Ela pensou que ele tentaria persuadi-la a ficar, mas Sasuke apenas sorriu, observando casualmente:

- É natural, depois de ter nadado tanto - ele comentou, e voltou à leitura do livro.

Cansada ou não, ela não dormiu bem, acordando diversas vezes por causa do mesmo sonho, do qual não conseguia se lembrar, e despertou, sentindo ainda a sensação de peso a incomodá-la, agora bem localizada, como uma dor no peito, enquanto a garganta continuava seca e apertada. Talvez devesse contar a Sasuke. Mas certamente ele insistiria em voltar a Tinos no mesmo instante e ela não desejava isso.

Depois de ter tomado uma ducha, a dor cedera um pouco. Ela pôs o biquíni e por cima o short branco e uma blusa de voal cor de pêssego. Puxou os cabelos para trás num alto rabo-de-cavalo e desceu para a cozinha.

Sasuke usava uma camisa azul-marinho de mangas curtas e short bege e também acabara de tomar uma ducha, o que era óbvio pelas gotas que caíam dos cabelos negros, formando ondas molhadas junto à nuca. Ele estava colocando comida numa cesta de vime, que estava quase cheia, e depois acrescentou uma garrafa de vinho.

- Bom dia, Sakura ! - ele a olhou alegremente.

- Bom dia ! - o aperto na garganta fazia as palavras soarem forçadas, quase constrangidas, mas ele não pareceu perceber.

- Coma alguma coisa. Kaori trouxe pão fresco e iogurte. Vamos fazer um piquenique hoje. Já é hora de lhe mostrar a ilha - depois do café da manhã, partiram em direção oposta ao mar, subindo a colina atrás da casa, e, depois de meia hora de caminhada, eles chegaram a uma pequena enseada.

- Daremos um mergulho primeiro, antes de continuar.

Ele tirou o short, revelando uma sunga mínima, que acentuava os quadris estreitos e as pernas musculosas. Sakura fixou seus olhos na cintura do calção de onde avistava-se uma estreita linha mais pálida, mas logo desviou a atenção e começou a tirar a própria roupa.

Ela o seguiu pela praia e ficou em pé, parada, observando-o, a silhueta marcada contra o resplandecente azul e, quando ele se voltou para falar algo, seus olhares se atraíram como ímãs. Apenas por um momento ele permaneceu onde estava, semivoltado para ela, depois virou-se abruptamente e mergulhou de cabeça na água.

Durante todo o tempo em que nadaram, ele não se aproximou. Ela podia apenas avistar-lhe a cabeça escura adiante, sobre as águas. Quando ele voltou, Sakura estava deitada de bruços, o queixo apoiado no braço, mas desta vez ele sacudiu antes sua toalha e estendeu-a distante dela, deitando-se, por sua vez.

Embora nenhum dos dois tivesse falado nada, Sakura sentiu que o companheirismo fácil e relaxante dos dias anteriores evaporara. Ela estava no seu limite e Sasuke também parecia extenuado. Sakura quase podia ouvir a tensão pulsando nele. Talvez estivesse pensando que trazê-la para a ilha tivesse sido um erro, que teria sido melhor deixá-la partir. Talvez estivesse certo, ela pensou, sentindo-se infeliz. Se tivesse lhe contado que não se sentia bem, poderiam estar a meio caminho de Tinos, nesse momento.

Ela virou a cabeça, inquieta, e abriu os olhos, encarando-o diretamente nos olhos negros. Sentiu o pulsar do coração contra as costelas e desviou a cabeça, enquanto Sasuke se levantava de novo, já alcançando as próprias roupas.

- Venha. Vamos continuar.

Ele vestiu o short, apanhou a cesta e caminhou com largas passadas ao longo da praia, deixando-a para trás.

A enseada terminava num rochedo íngreme, e Sakura começava a imaginar que não conseguiria chegar ao topo, quando o caminho se nivelou. Chegaram a um estreito, entre a baía onde tinham estado e uma faixa de costa íngreme. A borda era coberta de relva e de tomilho silvestre. Mais adiante, havia um bosque de antigos e imponentes carvalhos e, bem no centro, Sakura não podia acreditar no que via e se voltou para Sasuke.

- Sim. É um templo, ou pelo menos era.

Pensativa, ela andou através do minúsculo prédio em ruínas e com cuidado subiu numa pedra circular que parecia uma plataforma. Havia apenas duas colunas de mármore, uma de cada lado, suportando um pequeno pedaço de frontão triangular. O resto não passava de um monte de pedras quebradas sob as árvores.

- É... é maravilhoso - ela comentou suavemente.

- Sim, é mesmo, não é ? - ele respondeu observando-a por um momento, mas depois desviou o olhar e começou a retirar os alimentos da cesta de piquenique, como se não desejasse compartilhar o momento mágico. Ela o contemplou por alguns segundos, sentindo o entusiasmo arrefecer como uma bolha de sabão estourada, e lentamente se aproximou para ajudá-lo.

Enquanto comiam à sombra das árvores, apoiados contra os troncos nodosos, ela não conseguia desviar o olhar do templo em ruínas.

- Vi apenas fotos de Delfos - ela comentou -, mas com certeza esta é uma versão menor daquele templo, como se chamava? O tholos.

- Gostamos de pensar que foi construído pelo mesmo arquiteto - ele deu um breve sorriso -, embora suponha-se que este tenha sido edificado a Dionísio, você sabe, a Baco, o deus do vinho. Se olhar para o topo daquela coluna, poderá perceber um padrão de folhas de uvas, que é o seu emblema. Há uma lenda que conta que ele e seu grupo de mulheres pararam por aqui, onde fizeram uma de suas orgias ou bacanais. Exatamente neste lugar.

Os olhos escuros ainda a examinavam, mas o rosto continuava inescrutável enquanto ele prosseguia.

- Assim, como pode ver, sua avó não possui apenas uma ilha, ela também tem um templo em ruínas.

- Sim. É maravilhoso ! - ela o olhou, os olhos brilhantes - Ninguém jamais me falou a respeito.

- E, naturalmente, será seu, um dia - sua voz continuava sem expressão.

- Oh, eu... eu nunca pensei nisso.

- Bem, precisará pensar. Não ainda, mas um dia.

- Sim, suponho que sim.

- Conseguiria um bom preço. As ilhas gregas não aparecem à venda no mercado todos os dias.

- Oh, mas eu jamais poderia vendê-la - ela pareceu ofendida.

- Isso é com você - Ele deu de ombros, com indiferença - Kaori e Saito não ficarão aqui para sempre e você não terá muito controle sobre o lugar quando viver a duas mil milhas daqui. Mais salada ?

Ele estendeu-lhe uma tigela de plástico, aparentemente indiferente ao turbilhão de emoções provocados nela.

- Oh, não, obrigada.

- Você não experimentou as azeitonas.

- Não gosto muito delas.

- Tolice. Com certeza você nunca experimentou azeitonas de Tinos. E, de qualquer modo, seria um insulto pessoal a mim, como nativo de Tinos, você partir sem comer algumas.

Será que ele precisava lembrar a todo momento que ela partiria?, pensou ela, ressentida, e precisava também parecer tão ansioso para vê-la longe ?

- Bem, me desculpe - ela falou -, mas não gosto delas.

Suas sobrancelhas se abaixaram e, por um momento, ela pensou que Sasuke a derrubaria sobre a relva e a forçaria a comer algumas azeitonas. Porém, ele fez uma expressão de indiferença, como se o assunto não tivesse a mínima importância.

- Tudo bem, faça como quiser. Mas não sabe o que está perdendo - e ele se serviu de uma mão cheia de azeitonas.

Ela continuou sentada em silêncio, observando-o comer. "Isto é ridículo. Toda esta beleza e estou me aborrecendo por causa de algumas azeitonas !". Apreendeu-lhe o olhar e devolveu-lhe um sorriso meio envergonhado.

- Desculpe - ela disse - Experimentarei uma, se quiser.

- Abra a boca - com delicadeza, Sasuke pegou uma azeitona e a serviu.

Ela mastigou um pouco, pensativa, e depois decidiu que de fato era boa. Preferia o sabor de sal; não o fruto defumado. Cuspiu o caroço e ele lhe serviu mais algumas, como se ela fosse um pequeno pássaro. Mas não podia deixar de notar que ele tinha grande cuidado em nunca tocar seus lábios com os dedos.

Para terminar, Sasuke colocou uma tigela contendo pêssegos e cachos das pequenas e doces uvas locais entre ambos e a paz foi restaurada. Apenas uma vez, enquanto pegavam, ao mesmo tempo, o mesmo pêssego, as mãos de ambos se tocaram e ele rapidamente afastou a dele, deixando-lhe a fruta.

Ele abriu a garrafa do vinho doce e borbulhante e ela lhe estendeu o copo vazio.

- Posso beber um pouco mais, por favor ?

- Bem - ele hesitou -, tem certeza? Você já tomou dois copos, e é mais forte do que parece...

- Absoluta - ela respondeu com firmeza - Afinal de contas, se não posso beber vinho no templo de Dionísio...

Com um erguer de ombros, ele encheu-lhe o copo e ela se apoiou contra uma árvore. Alternadamente, saboreando os olhos contra o brilho da tarde, vislumbrou as colunas de mármore brancas, vislumbrou o mar. O espírito misterioso e absorvente do lugar: as cores, o calor, o aroma do tomilho misturado ao de seus corpos, e Sasuke, sua proximidade, a mão bronzeada descansando sobre a relva a seu lado. Tudo se misturava em seus sentidos, penetrando-a como se ela fosse o copo de vinho. Bem no fundo de seu ser sentiu uma mudança, que não conseguiu detectar, começar a se movimentar e vir à tona.

Seu rabo-de-cavalo a irritava, ao encostar no tronco. Quase sem perceber o que estava fazendo, ela soltou o fecho que o prendia e, sacudindo com impaciência os cabelos cor-de-rosa, levantou-se. Sasuke olhava-a surpreso, quando ela saltou sobre a plataforma, ainda segurando o corpo, e, sem nenhuma preocupação com o que estava fazendo, começou a recitar o discurso de abertura da obra de Eurípedes, As Bacanais.

Estava quase terminando quando percebeu que Sasuke largara o corpo, e, apoiando o queixo na mão, a examinava com tamanha intensidade que a fez vacilar.

- Você me atrapalhou - ela rebateu, beligerante - Conheço o resto de cor.

- Estou certo que sim - disse ele, em tom pacificador - O seu domínio do grego antigo me surpreende, eu esqueci o meu há muito tempo.

- Bem, meu... - apaziguada, ela sorrira para ele. Ia começar a falar sobre o pai, mas teve presença de espírito suficiente para mudar: - professor me ensinou muito bem.

Ela ergueu o copo e, devagar, começou a derramar o que restava do vinho sobre o mármore, numa fina corrente dourada.

- Agora, o que você está fazendo ?

- Fazendo uma libação - ela balbuciou com dificuldade a palavra - para os deuses.

- Hmm, e particularmente para Baco, suponho. Não esqueça de fazer um pedido; sacrificar vinho dessa maneira admite um pedido, mas tenha certeza de que sabe o que seu coração quer.

Ela o olhou inquisitivamente, mas o rosto dele permanecia inescrutável, e ela desceu do pedestal enquanto ele se levantava.

- Vou voltar para dar mais um mergulho - ele mal a olhou de relance e nem mesmo perguntou se ela queria acompanhá-lo.

- Sim, tudo bem. Eu ficarei aqui.

A voz era quase infantil e, sem perceber, ela sentiu lágrimas escorrerem pelos olhos quando, logo a seguir, ele começou a descer o caminho íngreme. Mordeu com força o lábio, tentando reprimir as lágrimas, e permaneceu contemplando as duas colunas de mármore, que pareciam se mover para cima e para baixo como se tivessem vida própria.

Levantou-se, afinal, recolocando tudo dentro da cesta de piquenique. Raios de luz bruxuleante da tarde avançada já atingiam a clareira. Antes que ela ouvisse o ligeiro barulho de pedras rolando, Sasuke estava ao seu lado.

- Pronta ? - ele a inspecionou em silêncio.

- Sim.

Ignorando a mão estendida, ergueu-se e, apanhando a cesta de vime, partiu pela vereda íngreme. Podia ouvi-lo atrás de si e apressou o próprio passo, tropeçando na argila áspera.

- Tome cuidado - ele advertiu-a, e ela se voltou para rebater que estava perfeitamente bem. No entanto, seu pé esquerdo bateu numa pedra e, com um grito abafado, ela caiu ao lado do caminho, deslizando desamparada pelo solo abaixo, até conseguir agarrar alguns arbustos, o que deteve sua queda.

Enraivecida consigo mesma, ela permaneceu imóvel por um momento. Imediatamente, Sasuke saltou para baixo e a levantou nos braços.

- Você está bem ? - sua voz deixava transparecer a tensão provocada pelo choque.

- Sim, sim - ao avistar o rosto pálido sob o bronzeado, ela ensaiou uma débil imitação de um sorriso - Apenas uma torção. Oh, não, deixei cair a cesta. É que...

- Oh, esqueça a cesta. Tem certeza de que está bem? - ela acomodou-se melhor nos braços dele e depois ouviu-o praguejar, ao ver uma mancha de sangue em seu short branco. Com gentileza, ele levantou o tecido e ambos viram que o sangue provinha de uma escoriação profunda na coxa esquerda.

Ele praguejou baixinho, e ela, para aliviar-lhe a preocupação, apressou-se a dizer:

- Não dói, Sasuke, honestamente.

- Espere um pouco - ele replicou, sombrio - Preciso levá-la de volta para casa. Pode ficar de pé ?

Ela tentou ficar em pé, mordendo o lábio devido à dor que atravessava-lhe a perna, do tornozelo até a coxa. Ele devia ter ouvido o leve gemido, pois colocou um braço ao redor dos ombros dela, tomando todo o seu peso para si próprio.

- Oh, Sasuke - ela olhou ao redor e depois gemeu -, a cesta deve ter caído lá embaixo, na praia...

- Esqueça a cesta ! - ele exclamou, acrescentando algo em grego, que ela não entendeu. Com infinito cuidado, começou a ajudá-la na descida.

Foi um retorno lento e doloroso de volta à casa. De algum modo, a teimosia de Sakura manteve-a de pé e somente quando avistou a casa ela se endireitou, enxugando as gotas de suor que brotavam em sua testa.

- Oh, Sasuke, desculpe-me. Eu arruinei o dia de hoje - seus lábios tremiam - Você está certo, ainda sou uma menina boba.

Mas ele a atraiu com força para si.

- Oh, minha... - a voz sumiu.

Ele a levantou nos braços, carregando-a pelo resto do caminho, enquanto ela, inclinada contra o peito vigoroso, sentia o calor reconfortante da pele através da fina blusa.

Escancarando a porta do quarto, ele a colocou com cuidado sobre a cama, depois caminhou até a cozinha e voltou com uma tigela de água quente e um rolo de algodão. Ela sentiu sua mão sobre o zíper do short e todo o seu corpo ficou tenso.

- Oh, pelo amor de Deus, Sakura - ele se irritou, e, ao olhá-lo, ela percebeu que a ternura desaparecera. Havia algo de sombrio na expressão de sua boca e lábios que a assustaram, por isso ela recuou, permitindo obedientemente que ele lhe retirasse a roupa.

Suas mãos eram gentis como as de uma mulher. Ela se retraiu uma porção de vezes, mas quando ele passava os dedos sobre o tornozelo, procurando avaliar a extensão do ferimento, um leve suspiro escapou-lhe e suas mãos se interromperam por um breve momento.

- Eu machuquei você ?

- N-não.

- Mentirosa.

Por um momento, um sorriso iluminou-lhe as linhas sombrias do rosto. Sasuke apertou de leve a mão da jovem.

- É apenas uma torção. Vou colocar um pouco de creme de arnica e depois vou enfaixar bem apertado. Você estará bem em alguns dias.

- Obrigada. Com certeza Sai não é o único médico na família Uchiha.

De novo, o vislumbre de um sorriso e então ele começou a passar o creme com suavidade. Seus dedos, firmes e sensíveis, diminuíam a dor mas, ao mesmo tempo, irradiavam faíscas elétricas que se espalhavam por todas as partes do corpo...

Ele a obrigou a ficar na cama enquanto preparava uma refeição. Ela comeu sentada, enquanto ele se equilibrava desconfortável na cadeira de bambu. Ela ficou surpresa ao perceber como apreciava a refeição. Apesar da dor na perna, de algum modo era muito agradável sentar-se ali, falando pouco, pois Sasuke parecia distante, quase arredio. Mas era reconfortante tê-lo ao seu lado, ambos dentro do círculo de luz da lâmpada de cabeceira.

Ele retirou as bandejas, ao voltar com uma garrafa de água e gelo.

- Para o caso de você ter sede durante a noite - ele a examinou atentamente por um momento - Agora, cama !

Ele se abaixou e começou a desabotoar-lhe a blusa. Desta vez ela achou melhor não protestar, deixou-o retirar a blusa e depois o biquíni, que secara em seu corpo. Ele apanhou a camisola de algodão cor-de-rosa, debaixo do travesseiro, pediu que ela levantasse os braços, e depois a deslizou sobre o corpo nu. Tudo foi feito de modo tão... impessoal. Como se estivesse colocando uma criança pequena, Maho talvez, na cama...

- Oh, mais uma coisa - ele apanhou um pacote na penteadeira e o estendeu para ela. Ela afastou o papel e retirou um pequeno delfim de vidro, arqueado como se estivesse saltando alegremente sobre as ondas. A lâmpada brilhava através do vidro azul-esverdeado. Ela o contemplou, sentindo uma estranha dor crescer dentro de si.

- É adorável, Sasuke - ela conseguiu sorrir, mas ele não retribuiu.

- Eu tinha a intenção de dá-lo a você como uma lembrança de adeus - a voz, assim como o olhar, era inexpressiva -, mas achei que hoje poderia alegrá-la.

- Oh, sim, obrigada. Você acertou.

Porém, pelo contrário, suas palavras a haviam deprimido de novo. Não podia suportar que Sasuke sentisse sua disposição, por isso, inclinou a cabeça sobre o delfim, batendo os dedos de leve sobre a fria maciez, e depois colocou-o sobre a mesa.

- Chame-me, se quiser alguma coisa - ele olhava-a distraído, como se mal a visse, e depois descansou a mão de leve sobre sua testa - Boa noite, Sakura mou.

- Boa noite.

Ele apagou a lâmpada de cabeceira e, no instante seguinte, fechou a porta com suavidade. Sakura ficou de olhos abertos, contemplando a súbita escuridão que espelhava o seu íntimo.


P. S.: Nos vemos no Capítulo 10.