ESCLARECIMENTO: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Rachel Ford, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.


Capítulo 11

Recomeçara a chover. Sakura se abrigou sob uma árvore, observando as gotas estalarem numa poça d'água próxima.

Uma súbita rajada de vento provocou a queda de uma porção de folhas amareladas; caíram sobre seu ombro e ela as afastou, ausente. Outono. A sra. Komiyama, a lúgubre caseira do pai, a informara com alegria que nessa mesma manhã chegara o inverno e que todas as lindas dálias amarelas do jardim dos fundos haviam enegrecido devido à geada, há duas noites...

O barulho de risadas acordou-a do devaneio e, olhando através da relva, ela avistou um casal de estudantes, com certeza tomando um atalho pelo parque em direção aos flats em que moravam na Banbury Road. Olhou-os sem curiosidade, mas de repente achou que os conhecia. Sim, a moça estivera no seu curso de administração, deveria estar no segundo ano agora. Ela não voltara ao curso, quando se iniciara o novo semestre, em setembro...

E o rapaz se parecia com Atsui. Ela não o reconhecera a princípio, talvez porque ele estivesse de anorak sobre a calça pesada, tão diferente do short e camiseta que usava da última vez que o vira. Mas, de qualquer modo, tudo aquilo já fazia parte do passado. Sua vida mudara desde que Sasuke a transformara de menina em mulher, desde que ela e Sasuke...

Sasuke ! O nome provocava-lhe uma dor familiar, cortante, que a acompanhava, dia e noite, desde os últimos minutos tensos, insuportáveis, no aeroporto de Mykonos...

Ela estava abrindo o portão do jardim de sua casa quando ouviu uma voz, chamando:

- Desculpe-me, um momento.

Ao se virar, avistou uma mulher de meia-idade, segurando um cão de raça dachshund numa coleira.

- Você deve ser Sakura Haruno, a filha do professor Haruno.

- Sim, sou eu mesma - Sakura respondeu com cautela, pois tanto o anel de casamento como o da pedra da Lua estavam nas respectivas caixinhas na gaveta da cômoda, e responder Sakura Haruno a salvava de inúmeras complicações.

- Sou Tomoko Izawa - a mulher estendeu-lhe a mão, acrescentando, enquanto Sakura a olhava -, sua nova vizinha.

- Oh, sim, é claro - Sakura voltou à realidade - Como vai ? - de fato, como tudo o mais nos dias anteriores, ela mal registrara o caminhão de mudanças chegando na sexta-feira passada - Sinto muito, eu deveria ter ido ver se você precisava de alguma coisa - disse ela, desculpando-se.

- Oh, não se preocupe, minha cara. Sente-se, Soppy - ordenou ao cão que saltava sobre os joelhos de Sakura.

- Soppy ? - ela sorriu.

- Bem, o seu verdadeiro nome é Sófocles, mas como não soa correto gritar: "Espere até eu te pegar, Sófocles" quando ele foge, eu uso a abreviação - o rosto da mulher, fino e severo, ficava suave quando sorria - Sei que não é um nome apropriado, todo mundo me diz.

- Oh, não, eu acho Soppy adequado para ele - Sakura acariciou a cabeça sedosa.

- Na verdade, o nome foi dado por uma das garotas da escola.

- Oh, você é professora.

- Era titular de letras clássicas numa escola em Sussex. Mas então, bem... comecei a sentir que queria mais tempo para mim mesma. Viajar, sabe, e escrever; e quando um parente mais velho morreu, deixando-me uma boa herança, eu decidi me aposentar e voltar a Oxford.

- Já morou aqui antes ?

- Estudei aqui, muitos anos atrás - a srta. Izawa abanou a cabeça com nostalgia - Fui uma das primeiras alunas de seu pai. Ele não era então Professor, mas apenas o jovem dr. Haruno. Todas nós o adorávamos, sabe; sentávamos a seus pés como adoradoras diante do oráculo.

Um adoradora ? Sakura a olhou. Podia esta mulher, de voz áspera, vestida severamente com tweed caríssimo e malha combinando, ter, alguma vez em sua vida, sido uma jovem estudante ? E então percebeu o suave rubor que aflorava às faces da mulher, tornando-a mais jovem. Sim, podia ser verdade.

- Foi por essa razão, para ser honesta, que, quando o corretor de imóveis me contou quem morava na casa ao lado, eu senti que precisava comprar esta casa, ainda que seja grande demais para uma senhora de meia-idade e seu cão. Porém, eu adoraria encontrar o professor de novo. Ele está em casa ?

- Bem, sim, está - Sakura admitiu.

De fato, o pai nunca saía. Ele passara dias e noites ociosos, primeiro com tia Madoka, depois, quando a tia voltara a sua prática veterinária em Cumbria, ficara sozinho, no hospital Radcliffe. Quando o pai voltara para casa, ele frustrara todas as suas tentativas de voltar a ter uma vida normal. É claro que não voltara a lecionar, mas quando lhe sugerira que talvez apreciasse visitas dos estudantes, ao menos para um conversa e um chá, ele rejeitara a idéia. Por isso, ela esfriara a impaciência, a imprescindível necessidade de voltar para Sasuke.

Mas ao menos a culpa que a atormentara na volta a Oxford desaparecera, quando, dois dias após sua chegada, encontrara o cartão na caixa do correio. Fora enviado, por engano, aos Estados Unidos e depois chegara ao destino correto.

Precisaria contar ao pai sobre ela e Sasuke. Depois de muita angústia, aterrorizada com a idéia de provocar uma recaída na saúde do pai, tirara os anéis e os guardara. Mas não era justo para com Sasuke, nem consigo mesma, não contar-lhe logo...

E ainda havia o assunto do dote, aquele milhão de libras. Por enquanto adiara uma confrontação com o pai, mas não podia evitá-lo para sempre...

- Seria bom revê-lo de novo - ela percebeu que a srta. Izawa ainda falava - Eu gostaria de contar-lhe o quanto apreciei seu livro.

- Sim, mas ele tem estado muito doente e...

- Oh, eu sei, fiquei muito triste quando ouvi sobre a doença. Talvez quando ele ficar mais forte, então... - ela sorriu para a mulher, despediu-se, e entrou.

Dentro da casa, começou a retirar as roupas molhadas no hall. O único som era o tique-taque regular do relógio do avô e ela sentia de novo a sensação de claustrofobia se apossar dela.


- Já cheguei, sra. Komiyama - avisou - Vamos tomar o chá, agora, por favor.

Entrou na sala de estar, encontrando o pai ao lado da lareira, um livro aberto no colo, embora não o estivesse lendo. Desde o infarto, ele sentia-se incapaz de se concentrar em algo por um tempo muito longo. Estava sempre inquieto.

Ela estava servindo o chá quando a mesma dor a atingiu de novo, no peito. Não ficou surpresa, acontecia sempre na mesma hora, todas as tardes. Durante o dia, mantinha-se ocupada; arrumando armários já arrumados, vagueando sem rumo pelas lojas de Oxford, cozinhando, sob a orientação da sra. Komiyama. Estava se tornando uma cozinheira eficiente; e estudando. Comprara uma gramática de grego moderno e sempre que o pai descansava, lutava para desvendar os mistérios da língua. Mas ao final de todas as tardes, quando, cansada, parava com as atividades do dia, a saudade voltava, o terrível vazio, a fome física por Sasuke, pelo seu toque, seu abraço...

Enquanto levava a bandeja do chá de volta à cozinha, o telefone tocou no hall. Seu coração exultou. Desta vez o pressentimento deveria ser correto. Mas era tia Madoka, num de seus telefonemas rotineiros para saber como o irmão estava.

Sakura recolocou o fone no lugar e ficou em pé olhando para o aparelho através de uma nuvem de lágrimas. Queria tanto ouvir a voz de Sasuke. Mas por que ele não telefonava ? Após as duas primeiras semanas, em que ele telefonara todas as noites e que ela precisara se esquivar sobre quando voltaria, os telefonemas escassearam. E quando ele ligava, a voz parecia longe, diferente, como se a distância entre ambos fosse cada vez maior.

Num súbito impulso, ela abriu a gaveta sob a mesa do telefone e encontrou o papel onde escrevera o número de seu apartamento em Atenas. Com dedos trêmulos, discou o código e depois o número do telefone. Porém, uma vez mais, foi a governanta quem atendeu, e Sakura foi informada que Kyrios Sasuke estava fora, na ilha de Rhodes. Da última vez ele tinha estado em Istambul, e, na vez anterior, em Roma. Até parecia que estava fugindo dela.

"O que devo fazer ?", ela se perguntou. Estava perdendo Sasuke. Deixaria sair de sua vida o seu elo mais importante. Logo suas lembranças seriam as poucas cartas que ele lhe escrevera e que ela guardava no quarto, junto com os dois anéis e o delfim azul-esverdeado.

Mas devia haver alguma saída para ela. Fechou os olhos, apertando as mãos nas têmporas e, muito lentamente, da escuridão surgiu uma idéia...


- Convidei uma pessoa para o chá, papai - Sakura comunicou no dia seguinte.

- Você sabe que ainda não estou bem para receber visitas... - o pai argumentou, contrariado.

- É a nossa nova vizinha. Convidei-a ontem à noite, por telefone. Afinal de contas, é uma questão de gentileza. Além disso, você a conhece.

- Sim ?...

- Ela foi uma de suas primeiras alunas - Sakura deu um sorriso brincalhão - Ela me contou que todas as alunas o adoravam.

- É sério ? Bem, eu suponho que os jovens sejam sempre impressionáveis - mas ela percebeu que o pai estava satisfeito com o que ouvira.

- Quem é ela ?

- Tomoko Izawa. Cabelos bonitos, alta...

- Não me diga... Tomoko Izawa ! Lembro-me bem, ela foi uma de minhas melhores alunas, minha cara.

Ele suspirou, os pensamentos voltando para os dias dourados, anteriores ao tempo em que encontrara a esposa. Sakura sentiu uma onda de afeto, contemplando o pai, subitamente rejuvenescido pelas recordações. Aproximou-se e beijou-o nas faces.

- Vou fazer bolinhos de aveia e pedirei à sra. Komiyama para fazer um café especial e o bolo de amêndoas de que você tanto gosta.

- É muito gentil, querida. Oh, Sakura, poderia subir e verificar se minha jaqueta de lã precisa ser passada ? Não posso receber visitas com esta roupa velha...

- Mas, meu caro K.H., deve iniciar o trabalho de seqüência para Esquilo, a Trilogia Perdida. Há trinta anos, o mundo escolar espera por isso.

K.H... Sakura inclinou a cabeça para a frente para esconder o sorriso involuntário, e enquanto colocava chá nas xícaras pensava que não precisaria ter se preocupado; eles estavam tão concentrados na conversa que nem se lembravam de sua existência.

- Sim, bem, é claro, srta. Izawa, mas posso chamá-la de Tomoko ? Lembro-me de você como uma linda garota - Sakura percebeu que Tomoko corava como uma adolescente - Eu tencionava começar a seqüência, após todas as descobertas que fiz sobre os desenvolvimentos lingüísticos de...

Sakura recostou-se no assento, degustando o bolo e oferecendo migalhas a Sófocles, que estava sentado junto a seus pés como uma pequena estátua. A conversa entre o pai e Tomoko Izawa fluía fácil.

Era muito tarde quando a srta. Izawa partiu. Ela se deteve no hall.

- Eu convidei seu pai para tomar chá amanhã à tarde. Tenho uma pequena coleção de cerâmica grega, herdada alguns anos atrás de um primo arqueólogo. Gostaria de vir também ?

- É muito gentil de sua parte - Sakura exultou -, mas eu preciso ir ao cabeleireiro.

E quando a srta. Izawa se retirou, ela executou alguns passos de dança no hall.


P. S.: E, a seguir, o último capítulo.