ESCLARECIMENTO: Só reiterando que esta história não me pertence, ela é uma adaptação do livro de mesmo nome, de Rachel Ford, que foi publicado na série de romances "Julia", da editora Nova Cultural.
Capítulo 12
- Não vá ainda para a cama, Sakura. Quero conversar com você.
- Parece ter melhorado tanto nestas últimas semanas, papai.
- Sim, bem, nós demos uma boa caminhada hoje através de Cummor Hills. Aos domingos eu costumava levar meus alunos para lá. Bem, Sakura, há algo sobre o qual eu preciso lhe falar. Há meses que me perturba, acho até que foi por isso que adoeci. Dizem que a culpa provoca doenças.
- Culpa ? - o coração de Sakura começou a acelerar.
- Sim. Tenho de confessar-lhe algo, minha querida. Durante todo o tempo em que estive no hospital, isso esteve em minha mente... sabe, quando você foi à Grécia, há três anos ? Bem, ao voltar, tinha se casado contra a sua vontade. Fiquei tão zangado e então, alguns dias depois, Sasuke me enviou...
- Por favor, papai, não precisa continuar - ela podia adivinhar a agonia em que ele se encontrava - Olhe, eu...
Mas o professor Haruno ignorou o seu protesto e continuou:
- Seu dote, eu estava zangado com tudo o que acontecera e tinha intenção de devolvê-lo. Mas era uma grande quantia de dinheiro e, bem, receio ter agido erradamente, usei-o para comprar essa casa, a bela mobília que sempre desejei para nós e o meu Apolo - sua mão acariciou a linda cabeça de mármore ao seu lado - E menti para você, dizendo que era um legado de sua mãe. Oh, é verdade, ela deixou uma herança, uma soma considerável de dinheiro e jóias, mas não para mim. Era para você herdar aos vinte e um anos. Durante meses me eu preocupei, inclusive fiz arranjos provisórios para voltarmos ao antigo alojamento na faculdade, vender esta casa e devolver o dinheiro para Sasuke. Isso foi antes...
- Antes ? - ela indagou.
- Antes de pedir Tomoko em casamento - ele concluiu - Espero que não se incomode, querida.
- Oh, paizinho - ela se ajoelhou no tapete a seu lado - , é a notícia mais maravilhosa do mundo.
- É claro que venderei esta casa e pagarei a minha dívida, mas me mudaria para a casa ao lado. E Tomoko está ansiosa para que você venha morar conosco.
- Estou contente por ter me contado, papai - ela respirou fundo - Olhe, eu também tenho algo a confessar...
- ...assim, eu não podia deixá-lo enquanto estava doente, é claro, mas agora quero de fato voltar para Atenas, para meu marido.
- Minha querida menina - ele pegou-lhe a mão -, estou tão feliz por você. Havia algo em seu rosto, eu notei nos primeiros dias no hospital, quando estava tão preocupada comigo, uma alegria reprimida. Mas sumiu nas últimas semanas. Como fui egoísta. Só mais uma coisa, Sakura. Seus sentimentos por Sasuke são mais que uma fantasia passageira, não são ?
- Oh, papai, não se preocupe. Amo Sasuke do fundo do meu coração.
Era outono em Atenas, também. À medida que Sakura atravessava a pequena praça de um seleto bairro da cidade, as folhas mortas das árvores caíam aos seus pés.
Mas Sasuke não estava em casa. Sua governanta, de cabelos grisalhos, introduziu-a no espaçoso apartamento de cobertura, serviu-lhe chá numa ampla sala de estar, cercou-a de cuidados, preocupada pelo súbito aparecimento de Kyria Uchiha, e depois deixou-a.
Ela começava a lamentar o impulso que a fizera ir ao apartamento de Sasuke sem aviso prévio e, deixando o chá intocado, começou a andar inquieta pela sala, observando os lindos enfeites e lendo os títulos das capas dos livros que enchiam as estantes de cada lado da lareira.
Avistou-se no espelho de moldura dourada e fez uma careta involuntária. Quando saíra de Oxford estava pálida, o bronzeado desaparecera há muito tempo, mas agora a apreensão que a invadira no momento em que descera do elevador e chegara à porta de Sasuke havia drenado qualquer vestígio de cor em seu rosto. Só restava o verde dos olhos. Pensou em retocar a maquilagem, mas logo afastou a idéia.
Para acalmar os nervos, decidiu aproximar-se da janela e observar a rua, o tráfego e as pessoas caminhando às pressas.
Por muito tempo ficou olhando, esperando avistar Sasuke atravessando a praça, mas escureceu e ela foi obrigada a entrar. Subitamente, ouviu a porta da frente do apartamento ser aberta. Tremendo de emoção, viu Sasuke adentrar o hall de entrada. Olhou-o paralisada, sentindo um aperto na garganta que a impedia de respirar. Inconsciente de sua presença, na sala de estar às escuras ele tirou o casaco, pendurou-o e continuou parado em pé, como se estivesse indeciso quanto ao que iria fazer.
Ele parecia exausto, e seus ombros estavam curvados de uma maneira que ela jamais vira. Ela queria correr através da sala e jogar-se em seus braços. Mas algo nele, uma espécie de alheamento, a impedia.
Ele pegou a maleta e caminhou pelo corredor. Sem pensar no que estava fazendo, ela o seguiu. Viu uma luz atrás de uma porta. Abriu-a e parou.
Sasuke se sentara a uma escrivaninha, a maleta aberta à sua frente, os papéis espalhados. Tirara o paletó e trabalhava.
Este era um Sasuke diferente. O Sasuke Uchiha, poderoso chefe de um grande império de negócios. De repente ela foi vencida por uma timidez que a paralisou. Levou a mão ao pescoço, mexendo na corrente de ouro que usava nervosamente. Ele sentiu-lhe a presença. Ergueu a cabeça, viu-a e ficou imóvel.
- Sakura...
Ela se forçou a dar alguns passos sobre o carpete.
- O-olá, Sasuke.
- Quanto tempo você pretende ficar ? - ele perguntou sem se levantar.
A firmeza da voz e do olhar a congelaram até os ossos, mas ela forçou-se a sorrir.
- Quanto tempo você quer que eu fique ?
- Está certa de que quer a minha opinião ?
Ela o olhou, magoada. E, no entanto, era exatamente o que temera. O abismo que crescera durante as semanas de separação estava ali, à sua espera. Sabia por instinto que ela é quem deveria tentar alcançá-lo. Respirou fundo, atravessou a sala e se aproximou.
- Vim para ficar o tempo que você quiser, Sasuke. Mas se não... - ela ia dizer "me ama", mas lembrou-se que ele jamais dissera amá-la e retraiu-se, por isso disse apenas: - ... quer que eu fique, eu posso ir embora agora...
Ele continuou imóvel, apenas contemplando-a, uma das mãos brincando com a caneta, e ela sentiu-se desesperada. Como poderia tocá-lo ?
- Quando estávamos na ilha, você disse que queria meu espírito, minha mente e minha alma. Bem - ela levantou as mãos - , aqui estou.
Sasuke ficou em pé, enquanto ela sorria, tímida, os papéis voando por todos os lados.
- Oh, minha querida menina, eu tinha tanto medo que... - ele não conseguiu dizer mais nada. Abraçou-a com força e assim ambos ficaram por um longo tempo.
Atrás deles, a porta se abriu e a governanta anunciou que o jantar estava pronto, retirando-se de imediato.
- Venha - Sasuke sussurrou, afastando-a com gentileza - Você deve estar com fome, e, além disso, Nagisa é muito ciumenta quanto à sua reputação como uma das melhores cozinheiras de Atenas, e não quero ofendê-la - ele deu-lhe um sorriso caloroso - Eu detestaria ter de viver de fondue pelo resto da vida - acrescentou, provocador.
Na verdade, eles mal conseguiram engolir um pouco de comida, pois estavam muito ocupados devorando-se mutuamente com os olhos.
Após o jantar, ele levou uma bandeja de café para a sala de estar e Sakura sentou-se no tapete de lã em frente à lareira, onde um tronco ardia. Recostou-se confortavelmente nos joelhos de Sasuke, enquanto ele levantava mechas de seus cabelos, fazendo-os brilhar contra o fogo.
- Oh, Sakura - ele murmurou - Quase cheguei a acreditar que você nunca voltaria para mim.
- Foi por isso que você começou a ficar tão frio ao telefone, e depois nunca estava quando eu telefonava ?
- Bem, eu estive muito ocupado, resolvendo uma série de problemas nos negócios. Mas sim, acho que, na verdade, estava tentando me acostumar à idéia de viver sem você. Veja, eu tinha tanto receio de que, assim como sua mãe a pressionou a agir contra a própria vontade, desta vez você permitisse seu pai persuadi-la a não voltar para mim.
- Mas é diferente agora, Sasuke - ela se virou e o olhou - Eu era uma criança naquela época e agora não sou mais, não é ?
- Não, não é - os olhos dele brilhavam - E agora é uma linda e muito desejável mulher. Mas quando você partiu, comecei a imaginar se não teria sido apenas a mágica da ilha que a influenciara e, uma vez que você estivesse longe do acampamento...
- Se foi mágica, Sasuke, ainda está fazendo efeito.
- Oh, minha querida !
Com determinação, ela começou a desatar o nó de sua gravata. Então seus dedos se imobilizaram e ela deu um pequeno grito.
- Sasuke, percebe que você nunca disse que me ama ?
- Nunca lhe disse ?... - ele quase gritou - Sua pequena feiticeira, o que se passa pela sua cabeça ? Será que todas as minhas palavras, todas as minhas ações não lhe disseram que sou louco por você ? - ele se inclinou e a beijou nas pálpebras - Sakura mou, s'agapo, eu te amo.
- E eu s'agapo você - ela sussurrou.
- Gramática horrorosa, mas acho que captei a mensagem - ele respondeu com uma careta.
E ele se deitou no tapete ao lado dela...
O fogo estava baixo. Sasuke atirou mais algumas achas e ela continuou deitada, olhando-o, os cabelos espalhados numa cortina de seda.
- Sabe, koukla mou - ele levantou-lhe a mão e a beijou -, eu te amo há muito tempo. Escolhi-a para mim quando tinha doze anos e decidi, então, que ninguém mais a possuiria. Embora sua mãe tivesse ficado felicíssima com nosso casamento, não foi idéia dela, mas minha. Pedi-lhe sua mão, mas concordamos que seria melhor para você pensar que era pelo desejo dela e de sua avó. Embora você já tivesse o corpo de uma mulher, era ainda uma criança e eu estava desesperado, com receio de assustar você - ele sorriu - E foi o que acabei fazendo. Acho que você me via não como seu protetor, mas como a maior das ameaças.
- Mas agora eu voltei, e nunca mais irei embora, prometo - ela suspirou feliz.
- Em que está pensando ?
- Apenas em amar você, viver com você, por muitos e muitos anos. Vê-lo envelhecer.
- Muito obrigado - ele comentou, seco, mas gargalhou a seguir.
- Sei que você entende o que quero dizer - ela acariciou-lhe o rosto com as pontas dos dedos - Oh, Sasuke, você tem um fio de cabelo grisalho. Não se mexa. Olhe - ela o levantou - Não, é branco.
- Minha querida, tendo conhecido você por tanto tempo, estou surpreso de ainda possuir cabelos em minha cabeça, brancos ou de qualquer outra cor - ele beijou seu nariz e depois levantou-se - Fique aqui - ele pediu.
Ao voltar, estava vestindo um robe de banho azul-marinho e carregava uma enorme pele de carneiro, na qual a envolveu.
- Venha, quero que admire a vista.
Ele abriu as pesadas cortinas e a levou para o terraço. Aos seus pés, havia um tapete de luzes, toda Atenas se descortinando até o Pireu e, mais além, a escuridão do mar. Sakura prendeu a respiração: devia ser a Acrópole, iluminada, parecendo flutuar no céu azul-escuro.
- Oh, Sasuke, é tão bonito !
Ela se aconchegou em seus braços, encontrando-lhe os lábios ávidos, e sentiu o desejo inflamá-la de novo, indo de encontro ao que ele sentia. Abraçaram-se, e os lábios de ambos se uniram num beijo apaixonado.
Um vento frio os alcançou. Ela estremeceu e Sasuke apertou-a nos braços, protegendo-a com o seu corpo. Na escuridão, Sakura sorriu. O verão dourado e mágico de seu crescimento terminara, mas ela podia deixá-lo partir sem lamentos. Haveria muitos outros verões.
P. S.: E aqui nós chegamos ao final de "Armadilhas de Verão", a minha quinta adaptação. Eu espero que vocês tenham gostado de mais esta adaptação.
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