1. O mangá/anime Naruto não me pertence. Todos os créditos são do honorável Masashi Kishimoto.
2. Escrevo sem fins lucrativos.
3. Sofro com crises de ansiedade e infelizmente elas afetam muito meu ritmo de escrita e confiança em geral. Estou em tratamento e quero voltar a encarar a escrita como algo divertido. Então, por favor, sejam pacientes comigo.
Havia laranja em todos os lugares. Nas paredes manchadas, no chão de terra, nas janelas fechadas e, acima de tudo, no ninja que deu azar de pisar na armadilha. A cor ofensiva escorria pelos cabelos, pingava das roupas úmidas e empoçava nas sandálias arruinadas. Folhas secas e pedaços de papel, soprados pela brisa vespertina, grudavam na tintura fresca e acentuavam a expressão de profunda infelicidade no rosto do shinobi.
Sentado numa barraquinha de oden, próximo ao Portão Principal, Kotetsu abafou o riso na tigela de sopa, tentando por tudo ignorar aquela tragédia ambulante e falhando miseravelmente.
— Tentando se afogar num balde de tinta, Zaji-san? — provocou sem pena enquanto fingia comer os vegetais cozidos.
Cuspindo um bocado de tinta, o recém-chegado lançou um olhar fulminante na direção do companheiro de armas.
— Eu peguei o caminho errado. — resmungou entre dentes.
Outra pessoa teria aceitado essa resposta, dado o assunto por encerrado e até mostrado algum grau de simpatia, mas Kotetsu nunca foi um cara bonzinho e nunca perdeu a chance de curtia uma boa piada. Ele encarou o shinobi, deixou o silêncio pairar, esperou, e finalmente Zaji suspirou e baixou os ombros, admitindo a derrota.
— Eu... eu pisei numa das armadilhas do garoto Uzumaki.
— Aah... — murmurou sem surpresa.
Para os moradores da Aldeia as pegadinhas do garoto eram lendárias. Enquanto a maioria dos encrenqueiros limitava o campo de ação às salas de aula ou a uma vizinhança em particular, Uzumaki Naruto parecia determinado a disseminar o caos entre os muros de Konoha.
Os ninjas eram seu alvo favorito e, diga-se de passagem, o garoto era bom em surpreendê-los.
— Bem... podia ser pior. — desconversou com um sacudir de ombros.
— Podia? — Zaji desafiou, abrindo os braços dramaticamente, respingando tinta no colete de Kotetsu.
— Uhum... — o rapaz engoliu os ovos cozidos e acenou com o hashi. — Semana passada ele explodiu uma mistura de ervas no terreno Inuzuka.
— E?
— Era uma bomba de fedor, Zaji. A pior que eu já vi. Metade dos homens do clã apagou com o cheiro e os cães ainda se recusam a voltar lá.
— Ish... — com o olfato aprimorado que tinham os Inuzuka provavelmente enfrentaram um verdadeiro inferno naquele dia.
Zaji avaliou as roupas imundas, a poça laranja que se formava ao redor de seus pés, e balançou a cabeça.
— Podia ser pior. — concedeu. Com uma pontinha de esperança acrescentou: — Tem alguma chance de você ter um removedor de tinta aí?
— Com Naruto circulando pela Aldeia? — abriu o bolso lateral do colete e puxou uma garrafinha de tíner. — Sempre tenho uma dessas comigo.
Murmurando um agradecimento para cada divindade que conhecia, Zaji se aproximou da tenta, puxou um lenço esfiapado e aplicou uma quantidade generosa do removedor, esfregando a pele com determinação maníaca. O uniforme estava perdido, mas ele tinha esperança de se livrar do máximo de tinta antes que secasse nos cabelos e rosto.
— E você? — perguntou distraído, passando o tecido atrás das orelhas. — Fugindo do serviço de novo?
— Como adivinhou?
— Topei com Izumo na rua. Ele parecia puto da vida, se quer saber.
— Boa. — Kotetsu cruzou os braços, satisfeito com a novidade. — Da próxima vez ele vai se lembrar de aparecer quando eu disser que precisamos conversar.
— Ele vai é arrancar suas bolas se você continuar brincando com seus deveres. — advertiu.
— Eu tinha um problema sério ontem, sabia? — a indignação era tanta que quase espetou Zaji com o hashi. — Ontem eu...
O que quer que tenha acontecido no dia anterior caiu no esquecimento porque naquele momento uma onda de chakra violenta cruzou os limites da floresta e sacudiu Konoha.
Eles prenderam a respiração, suando frio, enquanto a energia avassaladora diminuía e suavizava até se tornar um rumor distante, leve como o chakra de um genin recém-formado.
— Que diabos... — eles trocaram olhares assombrados, mas voltaram a si depressa ao avistar membros da Divisão de Inteligência convergindo para o Portão.
Kotetsu levantou, abandonando a tigela de oden, e Zaji lançou um henge sobre a atrocidade laranja em suas roupas. Ambos estavam ansiosos para ver que tipo de inimigo se aproximava tão descaradamente da Aldeia.
— Ele matou os anbus na floresta? — a pergunta de Yagoto, gritada do alto de um telhado, chamou a atenção de ambos.
— Não! — Hamaki respondeu à frete, saltando de casa em casa. — Ele cruzou a floresta, mas as assinaturas de chakra dos outros continuam estáveis.
— Isso é mesmo possível? — Kotetsu parou ao lado dos companheiros, espreitando a floresta com olhos atentos. — Ele teria que saltar a floresta inteira para conseguir isso.
— Ou ser um fantasma. — Yagoto franziu o cenho. — Ele não pode ser um fantasma, pode?
Ninguém se deu ao trabalho de responder. Ao longe, silenciosamente, uma figura sombria emergiu da floresta caminhando a passos lentos, cantarolando baixinho e parecendo completamente alheia ao caos.
O homem tinha ombros largos, enfatizados pelo casaco marrom, e quadris estreitos, de onde pendiam correntes com pergaminhos atados aos aros. A silhueta era esguia, com postura leve e descontraída, mas seus gestos falavam de um lutador experiente e autoconsciente. E havia um segundo homem, transportado como um saco de batatas, os braços balançando as costas do andarilho. Um prisioneiro ou um cadáver para ser entregue, talvez.
— Alto! — Hamaki avançou, o olhar afiado cravado no invasor. — Quem é você e o que quer aqui?
O homem interrompeu a marcha, estudou os ninjas aglomerados ao redor do Portão e deixou o prisioneiro cair de seus ombros. O corpo atingiu o chão com um baque, arrancando um gemido fraco do infeliz, mas sem acordá-lo.
O intruso afastou o capuz com movimentos suaves e deliberados, sem sinal de ameaça, e revelou uma suntuosa máscara de raposa, adornada com desenhos sinuosos e argolas douradas.
— Sou Namikaze Arashi, irmão caçula de Namikaze Minato. — anunciou numa voz potente. Empurrou o homem desacordado com o pé, deixando que o grupo visse o rosto pálido e marcado por cicatrizes. — E este é o homem que causou a morte de meu irmão.
Cruzou os braços sobre o peito e inclinou a cabeça, divertindo-se com o espanto no rosto dos ninjas.
— Ei, agora é a hora em que vocês chamam o Hokage, sabem?
De repente, sem nenhum motivo aparente, Zaji sentiu que o banho de tinta foi o menor de seus problemas.
Na área mais reservada da Unidade de Tortura e Interrogatório, onde as paredes eram revestidas com isolantes acústicos e selos de contenção, e as saletas se resumiam a paredes brancas e janelas de vidro negro, cinco ninjas resolutos travavam uma batalha silenciosa pelo controle da situação. Quatro deles, buscando a vantagem tática, permaneciam de pé e lançavam olhares fulminantes na direção do prisioneiro que, por alguma razão misteriosa, parecia felicíssimo em estar ali.
Graças ao chakra monstruoso que apavorou os aldeões e alarmou todos os ninjas ativos na Aldeia, e com a alegação de parentesco com o falecido Yondaime Hokage pesando em suas costas, Morino Ibiki e sua equipe foram convocados para liderar o interrogatório.
Imponente e sombrio, o chefe da divisão exibia uma expressão contemplativa, como se o intruso fosse um desafio interessante, um brinquedo que ele se divertiria em desmontar e desmembrar. Às costas dele uma mulher de cabelos curtos exalava irritação. Mitarashi Anki, furiosa por terem interrompido seu intervalo, sentia um rancor especial contra o cativo e estava mais do que ansiosa para começar o interrogatório. Havia também Mozuku e Tonbo, o primeiro conferindo se os selos de contenção estavam corretamente aplicados e o segundo, emprestado por Yamanaka Inoichi, se concentrava em continuar vivo no meio daqueles loucos.
De sua parte, o autoproclamado Namikaze Arashi apreciava o momento, indiferente ao metal que prendia seus pulsos, à pesada cadeira de ferro que o mantinha imóvel e aos selos que cobriam cada pedaço de seu corpo e absorviam seu chakra como sanguessugas.
Quando a última etapa dos preparativos foi concluída — o que significava exibir um bom número de ferramentas de tortura estranhas e ameaçadoras sobre a mesa no centro da sala —, Mozuku se aproximou para remover a máscara do prisioneiro. O homem afastou a cabeça num movimento brusco e o rapaz saltou para trás, suando frio, segurando a kunai como se sua vida dependesse disto.
— Sinto muito, mas a máscara vai ficar onde está. — o prisioneiro explicou num tom leve. — Eu a revesti com selos de sangue. Se outra pessoa tentar tirá-la de mim vai sofrer uma morte horrível. Acredite.
O comandante estudou o prisioneiro, avaliando suas opções e as possíveis consequências de abrir uma concessão para aquele estrangeiro. O aviso podia ser uma estratégia para intimidar e limitar as ações de seus homens durante o interrogatório, mas até o momento o prisioneiro se mostrara tão colaborativo e franco que era impossível encaixá-lo na imagem de um manipulador. De qualquer maneira Ibiki preferia não arriscar a vida de ninguém para testar uma teoria.
O comandante acenou para que Mozuku recuasse.
— Obrigado. — o homem relaxou no assento.
Estampando um sorriso agradável, que nunca foi bom sinal para os interrogados, Ibiki tomou a iniciativa nas perguntas.
— Imagino que exista uma boa explicação para sua visita à Aldeia, ou no mínimo uma história muito interessante sobre seu prisioneiro.
— A história é realmente boa. A explicação, por outro lado, é bem complicada. — confirmou animado. — Mas seria mais fácil contar tudo diretamente ao Hokage.
Anko rosnou, aborrecida com o tom insolente.
— Não vamos chamar o Hokage.
— Por que não? — o shinobi pareceu legitimamente chocado. — Eu sou um cara suspeito, prendi um Uchiha não identificado e me apresentei como irmão do Yondaime Hokage. Até eu me ouviria, se já não conhecesse a história toda! — ele se remexeu na cadeira indignado. Suspirou e parou por alguns segundos, a atenção fixa em Anko antes de apontar para ela. — Aliás... quer que eu tire esse selo de você? Seu sistema de chakra é uma bagunça por causa dele...
Num piscar de olhos Mitarashi disparou na direção do prisioneiro e cravou o palito de dango na clavícula do infeliz. Os olhos da mulher irradiavam uma fúria assassina enquanto sorria sadicamente ante a visão do sangue escorrendo na curva do esterno.
Amaldiçoando o gênio explosivo da kunoichi Ibiki se obrigou a manter a postura neutra, sem mover um músculo para deter o ataque. Os interrogatórios deviam ser limpos, metódicos e sequenciados; a tortura física utilizada em doses moderadas, intercaladas com ataques psicológicos constantes. Precipitação jamais deveria fazer parte do vocabulário de um bom interrogador. Contudo, por uma questão de unidade, Ibiki precisava agir como se todos os atos ocorridos naquela sala fossem premeditados, como se cada parte fosse aceita e aplaudida pelos homens ali presentes. Qualquer sinal de contrariedade, ou mesmo simpatia, poderia enfraquecer o grupo e fortalecer o interrogado.
O mascarado suspirou, exasperado.
— Era uma oferta real, sabia? Um "muito obrigada, Arashi-san" já seria bom. — encarou o ombro significativamente. — Mas me espetar com um palito? Sério?
— Continue falando e vou furar seus olhos. — Anko sibilou.
O homem, para alívio da equipe de interrogatório, manteve a boca sabiamente fechada.
A mulher torceu o espeto na carne antes de puxá-lo num movimento uniforme e preciso. Arashi, ou qualquer que fosse seu nome verdadeiro, se manteve quieto e observou Mitarashi voltar à posição anterior, encostada na parede, antes de se voltar para Ibiki.
— Eu preciso mesmo falar com seu Hokage. Tenho informações que não podem cair em mãos erradas. Coisa séria. Eu chamaria Gamamaru para provar o que digo, mas o velho sapo provavelmente me comeria vivo...
— Não vamos chamar o Hokage. — Ibiki negou em tom categórico.
— Ah, vamos lá! — o homem protestou e se sacudiu, chateado. — O que mais vocês precisam ouvir? Eu fiz um pedido simples!
Desistindo da abordagem impessoal — afinal o sangue já fora derramado de qualquer maneira —, Ibiki agarrou o dedo médio do prisioneiro e o dobrou para trás até o limite da tensão, os ossos e tendões resistindo ao movimento incomum o quanto podiam. Ele esperou pelos sinais de hesitação, um recuo dos ombros, um gaguejar nervoso, mas nada aconteceu... nem mesmo quando os ossos se deslocaram com um crack! desagradável.
— Chame seu Hokage. — a voz do prisioneiro adquiriu um tom grave, muito diferente do anterior, cheio de ameaça e exigência. — Estou tentando fazer as coisas do jeito fácil, mas se eu precisar usar a força... — uma aura sangrenta encheu o ar, uma intenção assassina tão pungente que mesmo Anko sufocou. — Vocês não vão querer estar no meu caminho.
O manto de seda esvoaçava às costas do Hokage, o tecido leve ressaltava os movimentos rígidos e lançava sombras difusas nas paredes ao longo do caminho. Uma fúria gélida queimava nos olhos de Sarutobi Hiruzen; o cachimbo de madeira, preso entre seus dentes, emitia estalos baixos conforme mordia a biqueira — um sinal discreto de sua contrariedade crescente.
Próximo ao fim do corredor, braços cruzados imperiosamente, Morino Ibiki mantinha a atenção fixa nas portas que levavam aos prisioneiros mais recentes. À direita estava o autoproclamado Namikaze Arashi, com chakra suficiente para destruir metade da Aldeia em um dia ruim; à esquerda, o cativo apontado como desertor e assassino do Yondaime Hokage. As circunstâncias eram tão improváveis que ninguém conseguia achar a menor graça naquela bagunça.
Reconhecendo a presença do interrogador com um aceno rápido, Hiruzen franziu o cenho para a monstruosa Intenção Assassina que vinha da sala à direita.
— Os relatórios diziam que o chakra dos prisioneiros estava contido. — acusou acidamente.
— E está. — Ibiki confirmou. — Nós o aborrecemos quando tentamos continuar o interrogatório... então ele nos expulsou da sala.
Quanto chakra esse homem tem?!, um estremecimento sacudiu os ossos do velho Hokage ao imaginar quanto estrago aquele único indivíduo causaria à aldeia se houvesse resistido a captura ou se desejasse realmente causar problemas. E tudo o que ele pede é uma audiência comigo, Sarutobi cravou os dentes na biqueira com mais força, lascando a madeira gasta, calculando todos os cenários possíveis para aquele encontro.
— Algo mais a relatar? — perguntou num tom neutro.
— O prisioneiro afirma que há selos em sua máscara e não ousamos correr o risco de acionar uma armadilha. Não conhecemos seu rosto e isto restringe nosso campo de ação. — Ibiki meneou a cabeça, aborrecido. — Encontramos relatos de um mascarando vagando por diferentes nações. As descrições correspondem, mas não é nada concreto. E ele deu a entender que conhece os sapos do Monte Myoboku, só que não conseguimos confirmar a veracidade desta alegação ainda.
— Sarutobi-san! — o chamado impertinente, vindo do outro lado da porta fechada, pegou os dois de surpresa. — É melhor se apressar e decidir se quer falar comigo ou não!
A voz rouca, ligeiramente cantarolada, soava alegre, confiante o bastante para ser preocupante.
Como alguém consegue ficar de bom humor em uma sala de interrogatório?, o velho se perguntou e sentiu, lá no fundo, que a sanidade daquela pessoa não devia ser das melhores.
— Você vai entrar? — Ibiki perguntou estreitando os olhos.
— Vou.
— Não gosto dessa ideia...
— Nem eu. — admitiu. — Mas precisamos de respostas.
— Ao menor sinal de perigo entraremos na sala e mataremos o prisioneiro.
Era tanto uma advertência quanto uma promessa e, com isto em mente, Sarutobi entrou na cela.
As paredes brancas estavam revestidas com selos de contenção, os símbolos brilhavam em resposta ao chakra agressivo embora fossem incapazes de suprimi-lo da maneira esperada. Manchas de sangue no chão e no tampo da mesa davam mostras do quanto o interrogatório saíra de mão antes de a equipe ser obrigada a se retirar.
Vendo que o Hokage finalmente o agraciava com sua presença o homem recolheu o chakra ofensivo, minimizando-o até quase desaparecer, transformando-o numa sensação calorosa ao invés de hostil.
Hiruzen considerou o sangue fresco no ombro, de uma pequena perfuração na altura da clavícula, os dedos torcidos na mão direita e as unhas arrancadas na esquerda; testemunhos físicos de que a teimosia daquele estrangeiro levara a melhor sobre seus interrogadores.
— Eu o cumprimentaria adequadamente, mas estou um pouquinho... preso... no momento. — ele brincou.
Sarutobi ignorou o comentário determinado a ir direto ao ponto.
— Quem é você, o que quer comigo e quem é o seu prisioneiro? — indagou asperamente.
O homem hesitou, movendo os pulsos contra as amarras, e suspirou.
— Vou pular a primeira pergunta, por enquanto. Ela é complicada. — ajeitou-se na cadeira e apontou para o banquinho do outro lado da sala. — Você pode querer se sentar. A história é longa...
O velho não se moveu e o rapaz anuiu, sem se ofender com a reticência.
— Catorze anos atrás Namikaze Minato comandou uma equipe genin. — o forasteiro relatou serenamente. — Na época Konoha estava em guerra contra Iwa e a equipe dele recebeu a missão de destruir a Ponte Hannabi, cortando os suprimentos das linhas inimigas. Infelizmente, devido a um ataque surpresa, Hatake Kakashi perdeu um olho e a companheira de equipe, Nohara Rin, foi sequestrada. Por insistência de Uchiha Obito eles desistiram da missão principal e tentaram resgatar Rin. A missão foi um desastre. A caverna desabou sobre eles e esmagou o garoto Uchiha. Como último ato Obito entregou seu olho para Kakashi. — o homem tomou fôlego e se inclinou para frente, conspirador. — Essa é a história que você e Minato conheciam, mas, lamento dizer, ela não acabava ali. Ao contrário do que seus companheiros imaginavam Obito não morreu no deslizamento... ele foi resgatado por Uchiha Madara.
— Francamente, que absurdo... — o Hokage se afastou exasperado.
— Eu diria o mesmo se estivesse em seu lugar. — a simpatia na voz do homem era real demais para ser questionada. — Uchiha Madara, com ajuda externa, alterou as informações sobre sua morte e se escondeu nas sombras, alongando sua vida através de métodos que nunca vou querer entender. O esconderijo de Madara tinha conexão com o túnel que soterrou Obito e os dois acabaram por se encontrar. O garoto foi levado a acreditar que seus sacrifícios foram em vão e, após presenciar a morte de Rin pelas mãos de Kakashi, as coisas simplesmente seguiram ladeira abaixo. Os detalhes exatos sobre o que aconteceu são desconhecidos para mim, mas os resultados vieram cinco anos depois, quando Namikaze-Uzumaki Naruto nasceu.
O cachimbo escorregou de seus dedos, bateu no chão de concreto com um estalido alto e derramou as cinzas pelo chão. Num movimento rápido, impensável para um velhote comum, o Hokage se colocou às costas do prisioneiro, uma mão empurrando a cabeça do mascarado para trás enquanto pressionava uma kunai contra a artéria da garganta exposta. Aquele era um segredo Rank – S, conhecido por um seleto grupo de ninjas dentro da Aldeia, então como aquele homem...?
— Sei o que está pensando, Sarutobi-san, mas a história não acabou ainda. — o estranho continuou a falar, indiferente a ameaça. — Quando eu terminar você pode decidir o que fazer comigo, certo?
Desconfortável com a inclinação do pescoço o homem suspirou.
— No dia em que Naruto nasceu Obito invadiu a Aldeia, assassinou o grupo encarregado de proteger a esposa do Yondaime e provocou a quebra do selo que continha a Kyuubi. Com o Mangekyo Sharingan ele instigou o ataque contra a Aldeia e o resultado, como você e eu bem sabemos, foi o sacrifício de Minato para impedir a destruição de Konoha e a morte de Uzumaki Kushina, pela extração forçada do Bijuu.
"É nesse ponto da história que eu entro. Passei o último ano seguindo os rastros de Obito e de todas as pessoas que poderiam estar envolvidas com ele. Por acaso o encontrei quando tentou dominar o Mizukage e o capturei. Aliás, recebi uma recompensa muito agradável de Yagura-san: uma proposta de paz duradoura com Konoha. As condições do acordo precisam ser debatidas, é claro, mas ele está esperando que envie um mensageiro para confirmar os ajustes.
Atordoado pela torrente de informações Sarutobi Hiruzen se afastou, começando a se sentir muito cansado e desgastado para aquele tipo de trabalho.
— E você espera que eu acredite que o homem na outra sala é Uchiha Obito? — a pergunta veio lenta, num sussurro incrédulo.
— Bem... não precisa acreditar em mim, se não quiser. Os membros do clã Yamanaka podem fazer uma varredura nas memórias dele, se você der a ordem. — o mascarado deu de ombros.
— E você? O que você espera que aconteça com esse suposto Obito? — indagou.
— Não creio que este Obito esteja pronto para admitir seus erros, nem creio que ele deseje ser perdoado... — suspirou. — Os Uchiha podem ser obstinados no que diz respeito aos rancores que guardam. De qualquer maneira, a vida dele não está mais em minhas mãos.
O alívio sutil na voz do estrangeiro deixou claro que vingança estava muito longe de ser sua prioridade, embora ele reconhecesse a necessidade de evitar maiores danos no futuro.
— Compreendo... — Sarutobi escondeu as mãos às costas, dominando a tensão, dando-se tempo para pensar e estabilizar seu espírito. — Ouvi sua história. Irei confirmá-la em breve.
— Claro. — o homem concordou facilmente e então se inclinou para frente. — Agora, respondendo à sua primeira pergunta...
Curvando o tronco, puxando as amarras nos punhos e braços, o forasteiro conseguiu desprender a máscara e sacudiu a cabeça para se livrar dos tecidos que cobriam os cabelos. Nenhuma ameaça nisso... o problema é que Sarutobi não estava preparado para enfrentar o sorriso turbulento no rosto bronzeado, ou encarar aqueles olhos azuis vibrantes que o fitavam com uma alegria desinibida.
Era como afrontar uma cópia em carbono do Yondaime Hokage, embora mais entusiasmada, brilhante e selvagem.
Indiferente aos sentimentos caóticos que despertava o rapaz jogou o disfarce sobre a mesa e sorriu alegremente.
— Estou numa situação complicada aqui, mas se o senhor puder colocar alguns selos de privacidade na área...
— Por que eu deveria fazer isso? — com esforço Hiruzen recuperou o controle.
— Pela mesma razão que o verdadeiro status de Uzumaki Naruto é um segredo Rank – S.
Houve uma pausa tensa, teimosa, ambos determinados a não cederem, decididos a manter as poucas vantagens que um acreditava ter sobre o outro. Contudo, vencido pela curiosidade, Sarutobi atendeu ao pedido, lançando selos nos quatro cantos da sala.
— Satisfeito? — resmungou de má vontade.
O rapaz avaliou os símbolos, considerou a grande janela espelhada e cantarolou distraidamente antes de cacarejar uma risada.
— Eu não sabia que você era tão ranzinza, jii-san.
— Eu não...
Hiruzen congelou ao perceber que as palavras do rapaz soavam estranhamente familiares. Havia nelas um maneirismo suave, um toque displicente e tão íntimo que sua mente respondera automaticamente porque era como se Naruto estivesse falando com ele.
Os olhos do velho Hokage se fixaram na curva firme do maxilar, mais acentuada que a de Minato, e na expressividade gritante daqueles olhos azuis.
— Desculpe a bagunça, mas eu não consegui pensar em outro jeito de entrar na Aldeia.
— Na-Naruto? — tartamudeou.
— E quem mais eu seria?
Agora Sarutobi precisava mesmo se sentar.
