Esse genjutsu quase me enganou. Os detalhes são ótimos e têm um realismo fora do normal, mas o roteiro é péssimo. Uchiha Madara conspirando com Uchiha Obito para destruir a Aldeia?, Sarutobi balançou a cabeça, cético. Agora estou curioso... quando ele me pegou? Quando tirou a máscara? Ou quando me virei para pôr os selos de privacidade? Não me lembro de tê-lo visto se mexer ou fazer qualquer gesto significativo... Seria uma kekkei genkai?, considerou a possibilidade por alguns segundos e deu de ombros. Ah, não importa. O fato é que caí nessa como um amador. Acho que estou perdendo o jeito para esse tipo de coisa... Quanto tempo vai levar até Ibiki perceber que tem algo errado? E qual é o plano desse homem agora? Ele vai me arrastar para fora da Aldeia e exigir um resgate? Ou vai me assassinar aqui mesmo?

Sentado no banquinho de metal, as costas apoiadas na parede e olhos fixos no prisioneiro, Hiruzen deixou os pensamentos vaguearem por uma série de ideias desconexas e inúteis, abraçando com alegria anárquica qualquer besteira que o poupasse de encarar o problema à frente; isto porque ele não podia acreditar — e muito menos aceitar — que o homem algemado naquela cadeira, vestido de negro e sorrindo como uma raposa no galinheiro, era Uzumaki Naruto.

Não podia ser.

Seu Uzumaki Naruto passara a manhã inteira escondido, planejando outra de suas pegadinhas e, mais tarde, foi visto correndo pelas ruas após despejar quantidades absurdas de tinta laranja sobre ninjas e aldeões desavisados — vitimando também duas galinhas, um gato e um inocente cacto na varanda da floricultura. Um garotinho alegre e barulhento perfeitamente comum; não um rapaz com chakra suficiente para colocar Konoha inteira em estado de alerta.

— Eu não posso ter mudado tanto assim! — o homem protestou indignado. — Olhe para mim! Não consegue ver as semelhanças?

Hiruzen balançou a cabeça teimosamente e se negou a atender ao pedido. Com sorte acordaria dali a alguns minutos, em seu escritório, e descobriria que estivera numa alucinação provocada pelo excesso de trabalho. Sim. Isto sim fazia sentido.

— Estou dizendo a verdade, jiiji, e posso provar. — baixou a voz, assumindo um tom conspirador. — Uma vez encontrei sua coleção de livros pornôs. Você me pediu para nunca contar a ninguém... e eu nunca contei... então nós somos os únicos que sabem o verdadeiro conteúdo dos arquivos Aoi Hi...

O Hokage engasgou, horrorizado.

— Como?!

— É uma história longa e complicada. — o cativo se remexeu na cadeira, testando as amarras e esticando os músculos dormentes. — Essa bagunça começou três anos atrás... quase dezoito anos no seu futuro... Minha equipe e eu estávamos fazendo uma incursão por Uzushio. Queríamos encontrar informações úteis, pergaminhos... talvez armas... qualquer coisa que nos ajudasse na Guerra. — a expressão do rapaz se tornou sombria, demasiado séria para alguém tão jovem. — Fomos atacados e chegamos a um salão oculto... de alguma maneira acionei um conjunto de selos. Eu não sei para quê serviam, mas eles quase me mataram... eles teriam me matado se não fosse Kurama...

— Quem? — perguntou confuso.

— Kurama... é o nome da Kyuubi. — um lampejo de alegria cintilou em seus olhos e ele riu suavemente. — Aquela bola de pelos tinha o humor de uma tsundere, mas era um bom amigo... exceto quando entrava no modo homicida, claro. — o sorriso desmanchou num suspiro triste. — Kurama sacrificou tudo o que tinha para me manter vivo. Desistiu de sua consciência e existência para superar o poder do selo. — engoliu em seco. — Quando acordei estava nas ruínas, mas algo estava errado. Só depois entendi que eu estava no tempo errado.

Eu sinto que já ouvi uma história semelhante..., Sarutobi percebeu de súbito.

Era uma lembrança antiga, quase esquecida, que envolvia o último Uzukage e um acidente obscuro envolvendo sua assistente pessoal.

As edições mais antigas do bingo bukku descreviam Uzumaki Aruku como um demônio no campo de batalha, sendo perigoso demais para ser caçado sozinho e poderoso o bastante para invocar o Shiki Fuuji sem se matar no processo. Reconhecido como um talentoso usuário de fuuinjutsu, além de contar com reservas de chakra absurdamente elevadas, Aruku possuía uma criatividade incomum e sabia como usá-la em seu favor — mesmo Senju Tobirama reconhecia seu talento. Era um oponente assombroso, verdade, mas também era um idiota sem salvação. O grande Uzukage tinha o senso prático de uma criança de seis anos, a memória de um velho senil e jamais teria conseguido cumprir seus compromissos sem a paciência da assistente pessoa que sempre o acompanhava — uma mocinha adorável que dormia com um yari ao lado da cama e tinha o temperamento de uma megera.

Em sua última visita à Konoha, dois anos antes do ataque que devastaria o País do Redemoinho, Uzumaki Aruku passou o dia no escritório de Hiruzen, evitando a secretária e bebendo como se não houvesse amanhã. O Uzukage dissera que a assistente desaparecera por três dias e ninguém sabia para onde ela tinha ido; pouco depois a moça retornou, acusando-o de tê-la jogado em um selo experimental sem nem ao menos dizer para quê servia. Toda a história era uma bagunça e Aruku estava enlouquecendo tentando descobrir o quando deveria fazer o que já tinha feito.

Na época Hiruzen descartou a conversa acreditando ser um devaneio causado pelo estresse, mas olhando para aquele homem — para aquele Naruto — o contexto ganhava novas cores e se tornava extraordinariamente realista.

Se não estivesse morto agora, Aruku, eu ajudaria sua secretária a matá-lo, cerrou os dentes, irritado, e encarou o rapaz mais uma vez. Examinou aqueles olhos azuis, tão honestos e límpidos quanto uma manhã de verão, e se perguntou que tipo de deus antigo ele havia irritado na vida anterior para ter um karma tão ruim.

— Se o que diz é verdade, por que não voltou para Konoha imediatamente?

O homem sorriu, parecendo um pouco contrariado.

— E como eu poderia? Quando entendi que estava vivo e me convenci de que isto era real, voltei para o País do Fogo o mais depressa que podia. — estendeu as mãos, pedindo por compreensão. — Não pensei no que estava fazendo, ou nas consequências, ou no que encontraria. Eu só queria ir para casa. — baixou as mãos, derrotado. — Quando cheguei aos portões senti o chakra... o meu chakra... e percebi que era impossível voltar para cá como Uzumaki Naruto porque ele existia.

"Depois disso perdi o meu caminho. Nos primeiros meses tentei voltar para minha linha do tempo. Revirei os escombros de Uzushio e estudei todos os pergaminhos que encontrei, mas não consegui nada. Viajei para Myobokuzan e conversei com Gamamaru... fui instruído a não tentar reabrir ou selo ou mesmo revertê-lo. Eu precisava aceitar que estava preso aqui."

Por baixo do tom irreverente Sarutobi sentiu vibrações mais sutis, coisas que Naruto se esforçava para esconder. Ele viu os ombros curvados pelo cansaço, o modo como o sorriso vacilava, a hesitação em encarar o homem que crescera chamando de avô. Havia dor ali, do tipo que escavava a carne e se derramava no espírito até amortecê-lo, um tipo de tristeza que não desaparecia da noite para o dia. Se ignorasse a bravata o que restaria?

— O que aconteceu? Por que saiu de Myoboku?

Para surpresa de Hiruzen o rapaz caiu no riso.

— Os sapos são os piores terapeutas que conheço. Acredite. Eles tentaram me embebedar, me levaram para recitais de poesia, me fizeram aprender caligrafia arcaica e até me obrigaram a ser babá dos girinos. — suspirou, ainda se divertindo com as memórias. — No fim Gamabunta decidiu bater algum juízo em mim. Ele me fez ver que as pessoas daqui não são as mesmas que conheci, e isto não significava o fim do mundo. Eu podia refazer nossos laços, lutar por elas mais uma vez, construir uma vida melhor...

"Saí do Monte decidido a mudar a história, corrigir todos os erros e evitar que o futuro — o meu futuro — se repetisse. Eu sei de coisas que ninguém mais sabe... segredos que poderiam fazer a diferença... e tinha uma vantagem contra a maioria dos inimigos que surgiriam. Eu decidi fazer isto dar certo. Viajei através das Nações como um andarilho anônimo, inofensivo o bastante para não alarmar as Aldeias, e busquei rastros de todos que mostravam interesse em caçar os jinchuuriki — graças a eles a Guerra começou então mais justo que persegui-los primeiro."

"Meu trabalho está quase no fim. Fiz todos os ajustes possíveis e restam apenas quatro alvos para caçar, por isso eu... eu quis tentar voltar mais uma vez. Não consigo evitar. Konoha sempre foi o meu lar e... talvez eu só precisasse de um novo objetivo quando tudo acabasse? — Naruto engoliu em seco, reprimindo as lágrimas que ameaçavam transbordar. — Fukasaku-san disse que seria seguro me associar aos Namikaze, já que não há um clã oficial ou qualquer pessoa que possa desmentir a fraude, e Shima-san elaborou um conto convincente para sustentar a mentira."

Devagar, sem palavras, Hiruzen recolheu o cachimbo caído no chão, limpou a boquilha e empurrou uma quantidade razoável de fumo no fornilho. Gestos simples, movimentos deliberados, postura tranquila.

Se quisesse manter este Naruto a salvo, longe das salas de interrogatório, precisaria agir conforme as exigências de sua posição e considerar todos os riscos que enfrentariam para sustentar essa burla. Por mais que amasse o garoto — e, por conseguinte, o homem que ele se tornara — Sarutobi não podia se dar ao luxo de agir emocionalmente. Ibiki continuava atrás do vidro e suas reações, mesmo as mais discretas, seriam analisadas e arquivadas para a posteridade; se alguém suspeitasse daquela conversa nem mesmo seu status de Hokage os salvaria das consequências.

— Então você passou os últimos anos rastreando o paradeiro de Uchiha Obito?

— Na maior parte do tempo, sim. Mas conseguir capturá-lo foi um tremendo golpe de sorte. — Naruto admitiu. — Por um lado atrapalhei os planos de Madara e deixei Zetsu sem um aliado valioso, e por outro eu encontrei a desculpa perfeita para entrar em Konoha.

— Você disse que faltam quatro nomes para completar sua lista. Quem você já capturou?

— O primeiro que peguei foi Deidara, de Iwa. O encontrei antes que explodisse metade da cidade e o entreguei aos cuidados do Tsuchikage. Pensei que receberia alguma ajuda como recompensa, mas Oonoki é muito teimoso e desconfiado... eu tive sorte de ele me deixar sair em termos amigáveis. Depois disso, vigiando as Estações de Recompensa, encontrei Mokade, um subordinado de Sasori da Areia Vermelha, e Zangei, um conhecido de Kakuzu. — suspirou. — Levei um mês inteiro para decidir como enfrentaria Sasori... Não tenho mais Kurama ao meu lado para me curar, então eu precisava me preparar para lutar contra centenas de marionetes e ainda sobreviver aos venenos que aquele pirralho adora. Para encurtar a história, eu venci, mas quase fui capturado pelo Kazekage.

"Permanecer em Suna estava fora de questão. Se eles ficaram empolgados com a captura de Sasori imagine o que fariam quando encontrassem o corpo do Sandaime Kazekage entre as marionetes? Minha melhor chance era sair de lá, ir para o lugar mais distante que conseguisse. Acabei me escondendo em Kiri e, por uma razão ou outra, participei um pouquinho do Golpe de Estado contra o Mizukage. Foi complicado sair dessa, especialmente com aqueles Espadachins malucos tentando me retalhar a cada encontro, mas valeu a pena."

"Preciso dar um jeito em Kakuzu e tenho algumas pistas sobre a localização de Hidan. Também estou vigiando Orochimaru e sei que ele anda bem zangado comigo depois que destruí algumas de suas instalações de pesquisa. Pain é uma história complicada e não sei como vou abordá-lo sem acabar morto..."

E eu achando que os relatório de Kakashi eram confusos..., o velho acendeu o cachimbo, encarou as paredes brancas e soprou uma linha de fumaça na direção do teto. Tenho que confirmar todos esses nomes, descobrir as datas dessas capturas e encontrar provas de que ele fez o que disse ter feito... Odeio burocracia, mas se Gamamaru está disposto a mentir pelo garoto então o mínimo que posso fazer é encarar a papelada...

— Bem... acho que consigo arranjar sua entrada na Aldeia. — informou através da fumaça.

Naruto mordeu o lábio, emocionado. Se não fossem as amarras o Hiruzen teria sido alvo de um abraço sufocante e lacrimoso.

— Não se anime ainda. — repreendeu num tom ameno. — Nós temos que pensar nos detalhes desse plano. — apontou para ele com o cachimbo, um gesto que seria deselegante ao extremo se não fossem a estranha conexão que os unia. — Você vai continuar como Namikaze Arashi?

— Essa me parece uma opção segura... e seria muito estranho tentar mudar a história depois de ter me apresentado assim nos portões...

— Verdade. — concordou facilmente. — Você e seu pai são semelhantes demais, de qualquer maneira. — esfregou a barbicha, distraído. — Imagino que você também tenha planos para sua versão mais jovem.

Naruto concordou, cheio de entusiasmo.

— Se tenho planos? Eu tenho milhares de planos! — ele se remexeu na cadeira, ansioso para se colocar em movimento. — O garoto tem potencial, só precisa melhorar o foco e aprender a ser menos impaciente. Sem falar que os treinamentos comuns da academia não funcionam bem para quem tem reservas tão absurdas de chakra. Eu posso me tornar um instrutor, ou qualquer coisa do tipo... há tantas coisas que ele precisa entender e há tantas coisas que posso ensinar!

O semblante do rapaz suavizou significativamente.

— Eu sempre quis uma família e esse sentimento não mudou, então... se ele tiver ao menos um amigo que o entenda... já estaremos fazendo uma grande diferença.

A culpa atingiu Sarutobi com a gentileza de um doton desgovernado.

Era tão estranho — tão terrivelmente cruel — perceber que Naruto algum dia cresceria e se tornaria um homem formidável e, mesmo assim, continuaria preso às mentiras do passado e a mercê da solidão, atado ao sofrimento pelas decisões tacanhas de outras pessoas.

Não posso deixar isso acontecer... não de novo! Não vou deixar a criança na sombra da ignorância... e não vou deixar esse homem se afundar na escuridão, decidiu.

O velho gemeu.

— O Conselho vai me matar. — resmungou desanimado. Pôs-se de pé e removeu os selos de privacidade.

— Matá-lo? — Naruto zombou. — O Conselho vai comer você vivo, com wasabi extra.

— Você podia ao menos fingir alguma simpatia.

— Ah, claro. — concordou animado. — Lamento por você e prometo chorar muito no seu funeral. — e sorriu tão brilhantemente que ninguém no universo acreditaria em uma única palavra que dissera.

— Imagino. — murmurou secamente. — Considerando tudo, acho que você me deve.

— Devo, é? — ele se recostou na cadeira, ainda se divertindo. — E o que você quer de mim?

— Quero ouvir sua história. Toda ela.

Naruto se aquietou.

— Algumas coisas podem ser difíceis de ouvir... e outras não devem ser ouvidas por ninguém além de você...

— Compreendo. — concordou e, voltando-se para a janela de vidro, acrescentou. — Reúna o Conselho. Conferência urgente em dez minutos.

Atrás do espelho falso, com os braços cruzados sobre o peito e olhos estreitados em desconfiança, Morino Ibiki se perguntou o quê exatamente aqueles dois andavam tramando e quais segredos estavam escondendo.

O comandante se afastou dali, taciturno e sombrio. Ele descobriria a verdade, de um jeito ou de outro.


Boatos são tendenciosos, imprecisos por natureza, e muito perigosos quando levados a sério. Os rumores que circulavam por Konohagakure no Sato, por exemplo, diziam que um homem misterioso ultrapassara as defesas ao redor da Aldeia e chegara ao Portão Principal antes que a anbu pudesse detê-lo; contavam que o estrangeiro trouxera consigo um nukenin desconhecido, informações sobre caçadores de jinchuuriki e uma oferta de paz duradoura com Kiri; também falavam que, pela primeira vez em sua carreira, Morino Ibiki fracassara em obter uma confissão e que o Hokage em pessoa confrontara o invasor, fazendo uma descoberta tão assombrosa que o Conselho foi convocado para uma reunião urgente; e, acima de tudo, as pessoas sussurravam sobre "Namikaze Arashi" e sua jornada para vingar o Yondaime Hokage.

Eram boatos, palavras jogadas ao vento, devaneios de mentes ociosas... só que desta vez eles estavam certos.

Para os cinco shinobi reunidos na arena do Estádio as histórias murmuradas nos corredores da Jounin Taikijou ganharam novos contornos e a ansiedade crescente ameaçava destruir a fachada confiante que exibiam. Estavam inquietos, retraídos, incertos quanto ao que enfrentariam. A prática lhes dizia que algo fora do padrão aconteceria ali, que aquele não era um encontro comum e que os procedimentos de segurança foram burlados de todas as maneiras possíveis. Nada de bom poderia sair disto... não segundo a experiência que tinham.

Yuhi Kurenai esquadrinhou as arquibancadas, o corpo tenso e os sentidos em alerta máximo, pronta para agir ao menor sinal de ameaça. Os homens que a acompanhavam, jounins experientes e versados nas mais variadas técnicas de combate, pareciam igualmente confusos e cautelosos.

— O que disseram para você? — Sarutobi Asuma perguntou de repente, parado ao lado dela. O cigarro apagado permanecia preso entre os lábios, sinal óbvia de sua perturbação com o chamado repentino.

— Nada que possa nos ajudar. — respondeu baixinho, desistindo de procurar armadilhas nos bancos vazios e paredes lisas. — Disseram que devo avaliar um candidato à jounin e que precisava vir para cá. Somente.

— O mesmo para mim.

— Acho que isto tem alguma relação com o incidente três dias atrás? — Kurenai se aproximou, mantendo o tom discreto.

— Provavelmente. — percebendo o cigarro apagado ele o jogou fora num gesto impaciente. — Temos uma especialista em genjutsu, — olhou para ela. — um em taijutsu, — indicou Gai. — e um em ninjutsu. — apontou para Raidou. — Imagino que Genma e eu fomos chamados para julgar o desempenho do combate, ou para substituí-los, se um de vocês for nocauteado. Pensar nisto como uma avaliação faz sentido, considerando tudo. — apoiou as mãos nos quadris. — De qualquer forma, ou estamos lidando com um perigo grave...

— Ou com um segredo de alto nível. — ela completou.

Naquele momento o Hokage surgiu na arquibancada principal surpreendendo o grupo abaixo.

Mantendo vivo o hábito Mitokado Homura acompanhava o Sandaime de perto, a expressão austera em seu rosto acentuava a maneira como seus olhos escuros avaliavam criticamente os shinobi na arena; em seguida, num passo mais comedido, Utatane Koharu surgiu, franzindo as sobrancelhas finas, torcendo o leque em suas mãos num traço evidente de impaciência. Por fim, mais afastado, quase oculto pelas sombras, Shimura Danzou se fez presente.

— Este encontro está classificado como segredo Rank – S. — o Hokage anunciou alto, imperturbável, a postura relaxada contrariando a importância do momento. — Nada do que será dito ou visto aqui poderá cruzar os limites destes muros, entendido?

— Sim, senhor! — os cinco responderam em uníssono.

— Em termos de habilidade e experiência de combate vocês são os melhores, por isto os convoquei. — explicou. — Preciso que avaliem o desempenho de um candidato e me digam se ele está apto para receber o título de jounin. As habilidades dele são desconhecidas, portanto recomendo prudência em suas investidas.

Asuma cruzou os braços, aborrecido, e Kurenai crispou os lábios.

— Não podem estar falando sério. — murmurou indignada.

Encarou os membros do Conselho buscando traços de discordância ou coação. Nada. Voltou-se para os companheiros, esperando que alguém tomasse a frente e expressasse o absurdo que era permitir a entrada de um estrangeiro na Aldeia. Silêncio.

— Essa pessoa deve valer muito se estão dispostos a abrir esse tipo de exceção. — a voz de Asuma não mostrava qualquer emoção.

— Mas quem poderia ser tão importante? — Kurenai sussurrou.

As perguntas foram esquecidas no momento em que as portas da arena abriram pela segunda vez naquele dia e três figuras peculiares entraram no Estádio. A um lado Mozuku, com o rosto escondido entre as mãos e parecendo próximo ao colapso; do outro, Mibu Shinobu, que exibia uma expressão digna, embora um lenço de papel estivesse enfiado no nariz para conter a hemorragia nasal; e, entre eles, vibrante como o sol de verão, estava o homem cuja existência contrariava todas as expectativas.

Os cabelos louros, na altura dos ombros, eram contidos por uma fita vermelha e preta; pergaminhos de selagem pendiam da cintura esguia, atados numa fina corrente de prata; e os olhos, de um azul intenso, brilhavam calorosamente. Em qualquer ocasião, ignorando uns poucos detalhes, aquele homem seria uma cópia perfeita do Yondaime.

— Arashi-kun... — o chamado cordial do Hokage não disfarçou a nota de acusação. — O que você fez desta vez?

— Bem... eles queriam ver um jutsu então mostrei um de minha autoria e...

— Não precisa explicar! — Shinobu cortou depressa, saltando para frente. — Nada de grave aconteceu, Hokage-sama!

— Nada! Absolutamente nada! — Mozuku gemeu, o rosto corado surgindo brevemente por entre as mãos.

— A missão está completa, então... hum... se nos dão licença...

Shinobu agarrou o companheiro pela gola do macacão cinzento e o arrastou para fora da arena o mais depressa que podia. O Sandaime lançou olhares cheios de censura na direção do convidado.

— Eu quero ouvir uma explicação?

— Ah... provavelmente não... — admitiu.

É por causa dele que estamos aqui?, ela trocou olhares com Asuma e mediu o visitante da cabeça aos pés. A postura descontraída, a ausência de hostilidade, as respostas amigáveis... cada pedacinho dele, dos sorriso amplos aos gestos expansivos, falava de uma personalidade gentil e bem-humorada, nada condizente com o ninja de alto nível que teoricamente deveriam avaliar.

O Hokage pigarreou de modo teatral, atraindo a atenção do grupo para si.

— Em consideração às alegações feitas por Arashi no dia de sua chegada nós consultamos os Sapos do Monte Myoboku e realizamos testes de laboratório para confirmar o suposto parentesco entre ele e Namikaze Minato. — fez uma pausa breve, reflexiva, antes de anunciar: — De fato, ele é um Namikaze.

Os cinco avaliadores reagiram com diferentes níveis de surpresa e espanto, murmurando entre si, lançando olhares intensos na direção do rapaz — ele parecia encabulado com tanta atenção, se as bochechas levemente coradas significavam alguma coisa.

— Enquanto caçava ninjas desonestos em Kiri, Arashi-kun encontrou um homem que pode estar envolvido no incidente envolvendo a Kyuubi ocorrido seis anos atrás. — o Hokage continuou sua explicação indiferente ao burburinho. — Ele o capturou, descobriu sua filiação e o trouxe para nós. A identidade do nukenin será tratada como segredo Rank – S, acessível somente para o Conselho, os interrogadores e as famílias diretamente envolvidas no caso.

Os membros do Conselho, aproveitando o ensejo, tomaram a frente.

— Dadas as circunstâncias decidimos oferecer abrigo e alistar Namikaze-san em nossas fileiras. — Koharu anunciou. Seu tom não dava margens para questionamentos. — Quando concordou com nossos termos, ele jurou lealdade à Aldeia e às regras que a regem. Seu desempenho, e suas ações em combate, estarão em constante avaliação.

Em outras palavras, se ele representar uma ameaça, descumprir uma ordem ou mesmo quebrar qualquer regra, será eliminado, Kurenai percebeu. Como ele consegue permanecer tão tranquilo depois de ouvir algo assim?

— Agora que conhecem seu oponente, e o motivo deste encontro, espero que deem o melhor de si nesta avaliação. — o Hokage arrematou e sorriu de maneira encorajadora. — Quem quer ser o primeiro?

— Eu irei. — Kurenai se adiantou.

— Essa pode não ser uma boa ideia... — Arashi vacilou.

A mulher sorriu presunçosamente, encarando a hesitação como sinal de fraqueza, e formou a sequência de selos que o prenderia numa ilusão bastante realista. O primeiro movimento faria seu oponente acreditar que estavam entrando em batalha, mas todo o resto não passaria de ilusão. Como o esperado o homem congelou, piscou e recuou alguns passos.

— Árvores? — ele encarou o chão, parecendo quase nostálgico, e formou o selo tigre. — Kai!

Um pico no fluxo de chakra rompeu o genjutsu.

— Eu tentei explicar... Conheci um bom número de usuários de genjutsu e me acostumei aos mecanismos da técnica. Posso não ser bom construindo uma ilusão, mas sou ótimo fugindo delas. — Arashi se curvou, um pedido de desculpas sincero no olhar. — Lamento tê-la feito perder tempo, Yuhi-san!

— Não se desculpe por ter uma habilidade útil, Namikaze-san. — ela voltou para o lado de Asuma, aliviada pelo fim rápido do confronto e aborrecida consigo mesma ao ser derrotada tão facilmente. — Há algum tipo de genjutsu que funcione em você?

— Tramando uma revanche? — ele provocou com uma risada animada. — Vejamos... se um jinchuuriki me pusesse num genjutsu eu teria alguns problemas... os Nidaisengama tem poder suficiente para me matar, se eles quiserem... — pensou mais um pouco, balançou a cabeça e pareceu chegar ao fim da lista. — E acho que um shinobi nível Kage poderia ser interessante de enfrentar, mas eu não pretendo lutar com nenhum deles, então nunca vou saber.

Essa pessoa tem ideia do quanto soa assustadora?, franziu as sobrancelhas, confusa com a dissonância entre o poder que o homem dizia ter e seu comportamento brincalhão.

Os membros do Conselho discutiram o resultado entre si, um pouco frustrados com o desenlace rápido e anticlimático da batalha. O Sandaime, por outro lado, indicou que o próximo candidato deveria se aproximar.

Ninguém ficou surpreso quando Maito Gai substituiu Kurenai, estalando os dedos e alongando os ombros alegremente.

— Pronto para um confronto?

— Claro! — se possível o rapaz parecia tão empolgado quanto o próprio jounin. — Taijutsu?

— De preferência. Outra pessoa avaliará suas habilidades em ninjutsu.

— Tudo bem. — ele concordou facilmente e se colocou em posição.

O vento soprou forte, carregando poeira e folhas secas num redemoinho ligeiro. Uma única folha de bordo dançou entre os oponentes, suave e vacilante, e quando tocou o chão a luta começou. Gai avançou, deu um salto para o alto, avaliou os melhores ângulos de ataque e desferiu um chute com potência o bastante para jogar o oponente para trás... mas Arashi se esquivou no último segundo. Aproveitando o impulso residual o jounin se agachou e tentou aplicar uma rasteira. Tarde demais.

— Você é rápido. — Gai aprovou. — Então posso aumentar o ritmo...

A sequência de socos, chutes e cotoveladas atingiu tamanha velocidade que os dois descreveram um círculo completo ao redor dos avaliadores, uma dança que envolvia graça e ferocidade. A força empregada nos golpes provocou rachaduras no chão e causou danos irreparáveis a uma árvore inofensiva, porém os lutadores apenas sorriam um para o outro, absortos no combate.

— Ele é bom. — Asuma comentou de repente, olhos estreitados em admiração. — Gai está atacando, mas até o momento não conseguiu uma resposta ofensiva. Arashi está mantendo o controle do combate.

A luta progrediu. Maito Gai apostou nos movimentos rápidos para baixar as defesas do oponente, mesclando fintas e ataques reais numa velocidade alucinante; contudo o Namikaze acompanhava as mudanças no fluxo com maestria de um experiente praticante de taijutsu.

— Qual o seu objetivo para esta luta, Maito-san? — Arashi perguntou escapando por um triz de levar um soco no plexo solar.

— Objetivo?

— Bem... você está me avaliando... — dobrou o corpo para trás, evitando o punho que vinha em direção à têmpora esquerda. — Seria mais fácil se eu soubesse o que devo fazer...

— Avaliando?

Gai interrompeu a saraiva de ataques, se voltou para os companheiros que esperavam e deu uma risadinha constrangida.

— Eu me esqueci disso... — admitiu.

Claro que ele ia esquecer, Kurenai bufou uma risadinha discreta. Quando encontra um oponente interessante é muito difícil para ele manter o foco.

— Você é rápido e tem boa resistência física, contudo... — recompondo a postura Gai levantou um dedo para enfatizar seu ponto. — Não sei se consegue aparar um golpe direto ou quanto dano seus ataques podem causar.

— São boas observações.

E, para completa estupefação de todos os presentes, Arashi assumiu uma posição defensiva real, estendendo as mãos com os braços levemente flexionados, as pernas separadas num ângulo suave e os pés firmemente plantados no chão.

— Boa postura. — o especialista em taijutsu aprovou. — Pretende me atacar agora?

— Não. Você é que vai me atacar e eu vou bloquear seus golpes... ou ao menos tentar...

— Oh! — o jounin brilhou com o desafio. — Sem esquivas desta vez?

— Sem esquivas. — confirmou.

Conhecendo a natureza exuberante do companheiro, e sabendo até onde ele ia quando se empolgava, o grupo tomou uma distância segura, próximos à parede da arquibancada principal. Kurenai e os outros mal tiveram tempo de se afastar. A luta recomeçou com força total.

O som dos punhos atingindo os antebraços, o modo como os chutes eram bloqueados no último minuto, a dança brutal daqueles corpos focados na destruição um do outro encheu os shinobi de admiração. Sabiam que era apenas um teste, que ninguém morreria, mas os dois lutavam como se nada mais importasse.

De súbito Gai mudou a dinâmica do combate e segurou as mãos de Arashi, impedindo-o de mover os braços e bloquear a joelhada que certamente renderia algumas costelas quebradas e um pulmão perfurado.

Mas o golpe nunca veio.

— Seus dedos estão quebrados. — a surpresa na voz do jounin era clara mesmo àquela distância.

— Está tudo bem. Eu pensei que ninguém notaria. — o rapaz se desvencilhou, descartando as atenções. — Podemos continuar. Acredite.

Gai negou com um movimento da cabeça.

— Estou encerrando minha avaliação. — anunciou e se voltou para a plateia. — As habilidades de Arashi-san em taijutsu são excelentes. Lutamos por quase uma hora, sem pausa, e mesmo assim sua respiração continua estável e não há sinais de cansaço. Esta não foi uma batalha real, no entanto estou satisfeito por ter encontrado alguém que pode me acompanhar em um treinamento.

Ele chamou isso de "treinamento"?, a mulher levantou as sobrancelhas, incrédula. Depois de assistir esse combate ela nem queria imaginar o que Gai classificaria como "batalha" em seu vocabulário.

Os lutadores se afastaram com reverências amistosas e o próximo a entrar na arena foi Namiashi Raidou. O guarda-costas de elite se ofereceu para reajustar as bandagens do oponente antes de começar sua avaliação e Arashi aceitou a ajuda sem hesitação.

Embora se sentisse confusa pelo encerramento repentino do duelo, Kurenai encontrou ânimo para sorrir quando Gai se postou ao lado dela.

— Se divertiu? — perguntou a guisa de boas-vindas.

— Não muito. — ele cruzou os braços, sério como nunca. — Você se divertiria se soubesse que seu oponente está se segurando?

Ela arregalou os olhos. Asuma dissera que Arashi tinha controle da situação e o próprio Gai elogiara a resistência e agilidade do oponente, mas jamais teria imaginado que o rapaz estivesse se contendo de alguma maneira.

— Ele me avaliou o tempo todo. A primeira rodada foi para descobrir meus limites; a segunda para testar minha força. Em nenhum momento ele se mostrou interessado em mostrar suas habilidades verdadeiras. — crispou os lábios, aborrecido. — Quando eu o segurei, o que era uma trapaça descarada, ele tinha pleno direito de revidar, e mesmo assim preferiu perder o golpe. — sacudiu a cabeça, as sobrancelhas grossas sombreando os olhos escuros. — Qual o sentido de enfrentar alguém que não deseja contra-atacar?

— Ele não nos reconhece como inimigos. — Genma entrou na conversa, a senbon clicando contra os dentes.

— Ele me considerou fraco. — Gai lamentou.

— Eu diria que ele tem uma política muito própria. Ele nos considera amigos, ou ao menos amigos em potencial... — o tokujo os olhou de esguelha. — Vocês feririam um amigo?

Eu não tinha pensado sob essa perspectiva, e com isto em mente reavaliou sua própria luta. Se Arashi conseguia escapar de um genjutsu, e conhecia os mecanismos de gatilho, então por que não a prendera em um? Por que se limitara a fugir sem revidar? Ninguém o acusaria de ser cruel se respondesse à ofensiva. Que tipo de pessoa você é, Namikaze Arashi?

— O intervalo acabou. — Asuma informou.

Arashi agitou os dedos, satisfeito com a melhora na mobilidade da mão.

— Obrigado.

— Você é bem-vindo. — Raidou estudou o terreno acidentado, calculado suas opções. — Pronto para a última etapa?

— Sobre isso... — o ninja loiro coçou a nuca. — Nós precisamos mesmo lutar um contra o outro?

A suspeita balançou os instintos da kunoichi e sussurros contrariados foram ouvidos das arquibancadas.

— Se você preferir, posso observar e avaliar suas técnicas à distância...

— Eu prefiro! — Arashi se apressou em concordar.

Os dois se postaram em campo aberto, de costas para a arquibancada, aproveitando o espaço livre e ao mesmo tempo tendo cuidado para não destruir as paredes do Estádio. A conversa entre eles foi rápida — centrada em perguntas sobre o que deveria ser feito para obter uma avaliação positiva —, e então o jounin recuou, colocando-se na zona segura.

O que assistiram foi um espetáculo de Domínio Elemental e ninjutsu básico. Clones das Sombras foram invocados, todos sólidos e assombrosamente resistentes. Alguns foram instruídos a esperar e não resistir enquanto os outros foram liberados para usar quanto poder quisessem. O resultado foi uma catástrofe controlada. Caixões de pedra foram levantados com a Liberação de Terra; a outra parte da arena foi dominada por um pântano fétido; as Liberações de Vento, combinadas com as de Água, aniquilaram boa parte do cenário, e a combinação Vento e Fogo destruiu o restante. O interior da arena foi reduzido a cinzas e escombros em menos de dez minutos, e ninguém se atreveu a comentar como Raidou empalideceu e suou frio após a demonstração.

— De onde esse monstro saiu...? — Kurenai ofegou.

— E isso importa? — Asuma enfiou as mãos nos bolsos da calça. — Enquanto ele for nosso monstro a origem dele é irrelevante.

Com uma reverência respeitosa — e um polegar erguido, no caso de Gai —, Arashi cumprimentou os avaliadores e lhes deu espaço para ficarem às vistas do Conselho e do Hokage. A essa altura o anúncio não passava de uma mera formalidade.

— Nós reconhecemos Namikaze Arashi como jounin. — Asuma declarou em alto e bom som. — E será um prazer lutar ao lado dele, quando a hora chegar.

— Ótimo. — o Sandaime soprou uma espiral de fumaça. — Então está na hora de você conhecer seu sobrinho, Arashi-kun.

Eles congelaram no ato, interrompendo as saudações amigáveis, engolidos por uma mortificação sem precedentes enquanto uma sensação de mal-estar se instalava no Estádio silencioso.

Devagar, com medo de ser flagrada, Kurenai se virou para o recém-nomeado jounin e o viu encarar o Hokage com uma incredulidade sincera demais para ser forjada. Ele tremeu e respirou fundo, absorvendo a novidade, e finalmente balançou a cabeça.

— Existem maneiras melhores de dizer esse tipo de coisa para alguém, sabia?! — acusou.

E, para desalento da kunoichi, o Hokage sorriu brilhantemente.