Talvez.
Vamos falar dessa palavra muitas vezes.
Talvez eu esteja certa que meu ganho recente de peso seja um grande fator nessa equação, ou qualquer merda matemática. Eu estou, talvez, grávida. Não fiz testes, não tive sonhos ou qualquer sensação. Eu só soube.
Edward e eu ainda estamos muito afastados, mas em relação ao nosso tempo mesmo. O sexo é quase diário e minhas amigas ficaram encantadas com o meu marido médico na formatura. Ele ficou de pé ao lado do meu pai e, depois eu descobri, na festa surpresa, que ele nos preparou uma terceira lua de mel.
A primeira foi depois de todos as pontas serem amarradas sobre o caso de minha mãe. Ele acabou por ser afastado até a poeira baixar e então nós usamos esse tempo para a lua de mel. Fomos para a casa do lago do meu pai, um lugar afastado que era o mais seguro lugar para estar escondido do mundo. Só meu pai e alguns empregados da própria casa vinham aqui. Ele a usava para não pular no pescoço da minha mãe.
Passamos duas semanas lá, não só consumando o casamento, como também assistindo os filmes e séries que estavam se acumulando. Nadamos no lago, dançamos na varanda, ficamos abraçados na cama e no sofá durante as chuvas que caíram eventualmente. Ele e eu cozinhamos, fizemos dez minutos de trilha, até que uma das chuvas eventuais caiu.
A segunda foi no terceiro ano de casamento. Edward e eu, não muito certa, começamos a fazer amor sem proteção. Mas eu comecei a tomar injeções trimestrais e ele só soube depois que eu fiquei febril demais e ele leu meus exames depois de me levar ao hospital. Ficamos frustrados e ele ficou magoado. Apesar de ser uma escolha minha não ter filhos naquela época, eu estava casada e ele merecia saber das minhas decisões.
Depois então desse tempo, estamos na semana seguinte a terceira lua de mel e eu estou me sentido esquisita. Precisava comprovar isso. Desci as escadas com cuidado e encontrei Billy e Jacob no jardim. Depois de conversar com eles, saio no meu carro para o hospital onde Edward trabalha. Não posso deixar ele fora disso, de novo. Se eu estiver grávida, vamos descobrir, definitivamente, juntos. E se não estiver… bem, eu vou poder chorar no colo dele e vamos tentar de novo.
No meio do caminho, na rodovia 13, já que resolvi entrar no caminho mais longo para comprar um novo hidratante na farmácia, encontro dois carros engatados sendo removidos dali. O trânsito até ficou lento. Vi sangue no chão e gelei. Odeio ver sangue, tanto sangue. Não reconheci os carros também. Continuei no meu caminho, encontro o hidratante e mais alguns outros produtos de cuidados para a pele. Não consegui evitar ao ver aquela máscara de pepino nova.
Fui para o hospital e me identifiquei. O residente de Edward se ofereceu para buscá-lo. Ele teve uma breve reunião com a diretoria e não iria demorar. Eu olhei ao redor. Edward fez algumas mudanças ali. O quadro novo na mesa com uma foto nossa quando mais jovens e eu cliquei na tela do seu notebook, uma foto minha com um maiô vermelho e com flores cor-de-rosa. Eu seguro meu chapéu, que quase voou depois de toda aquela ventania. Sorri para a foto, eu lembro o motivo de eu sorrir tanto. Edward estava jogando elogios para mim e fez uma voz feminina e me chamava de amiga. Foi a imitação de voz fina mais ridícula que eu já ouvi.
Ele abriu a porta e, diferente de como eu imaginei, Edward não sorria. Meu sorriso morreu e começamos a falar ao mesmo tempo. A voz carregada de Edward acima da minha alegre e ansiosa.
- Preciso te contar uma coisa - eu disse.
- Você precisa ser forte. - Foi o que ele disse no mesmo segundo.
- O que…
- É a sua mãe, Bella. - Ele me segurou pelos braços. Até eu temia cair.
- O que houve? Ela veio para cá?
- Sua mãe sofreu um acidente ontem e só depois que vieram me confirmar que Bella Swan, a quem ela chamava, é a minha esposa. Ela… eu sinto muito. - Ele puxou uma respiração e eu senti a primeira lágrima.
- Ela já…
- Já chegou sem vida aqui - ele informou. Levei a mão a barriga e nem senti direito quando ele me levou para o sofá. - Respire, está ficando pálida muito rápido. - Ele desabotoou um botão ou dois da minha blusa.
- Edward…eu… - minha voz ficou ainda mais embargada.
- Calma. Respire fundo amor, eu sei que é difícil, mas por favor.
- Eu acho que estou grávida.
Ele ficou em silêncio e depois ligou seu modo médico, com resquícios do modo marido e agora, possivelmente, pai. Ele me pegou no colo e me levou a ala da obstetrícia. Conversou com a médica e entramos. Confesso não ter visto a reação das pessoas ao notarem que o Dr. Cullen estava levando a esposa pelos corredores nos braços. Eu tinha medo de ver os olhares pesarosos, sabia que eles perceberam que eu ficara abalada pela perda recente.
- Bem, visto que a sua dúvida não pode ser sanada quando você não tem condições de sanar as minhas, vamos fazer uma ultrassonografia. - Ela passou o gel na minha barriga. Deslizou o aparelho por ali e eu fiquei temerosa. E se eu não estiver grávida? - Achei. Aqui está.
Então eu chorei. Chorei pelo ciclo. Renné morreu hoje e no mesmo dia confirmei que estava mudando a minha história. Pensei no sangue no chão, imaginei minha mãe, numa maca como a minha, morta. Escutei Edward explicando o meu estado. A médica receitou um calmante e ela resolveu me internar por essa noite.
- Sua pressão está baixa demais, você está nas primeiras semanas e o risco… o risco é grande demais. - Ele amarrou a minha camisola verde e eu suspirei sem saber o que esperar dessa noite.
- Meu pai sabe?
- Liguei para ele antes de falar contigo. - Assenti sentindo meu peito apertar. Não conseguiria mais falar nada sem começar a chorar. Edward se deitou e me puxou para o seu peito.
- O que ela estava fazendo aqui? Ela estava perto da nossa casa.
- Como sabe? - Ele afagou meu cabelo.
- Entrei na rodovia 13 para ir à farmácia. - Ele parou de mexer no cabelo antes de voltar e passar um dos braços a minha volta com um pouco mais de força.
- Ela estava sem cinto de segurança. Atingiu um carro com um casal e um bebê dentro.
- Oh - abracei a barriga. - Ele… eles estão bem?
- Sim, um casal jovem e que tem muito da vida pela frente. Porém… a mulher ainda não acordou, seu cérebro ainda está se recuperando.
- Foi rápido? - Ele sabe que me refiro à minha mãe.
- Na hora. Apesar da morte cerebral ter acontecido quando ela estava chegando aqui.
- Pelo menos ela não sofreu. Eu acho… - suspirei antes de fechar os olhos e dormi. Sem sonhos.
Talvez ela tenha vindo se desculpar.
Talvez.
Dois dias depois eu vesti um jeans e uma camisa preta, coloquei o boné e saí ao lado de Edward. Nós desviamos dos repórteres, afinal, ainda éramos parente do senador e de uma ex-cantora que fez sucesso em sua época. Eu agora sou uma assistente social e as pessoas não entendem os meus motivos. Isso importa? E depois da morte da minha mãe, as pessoas passaram a procurar meu nome na internet. Eu não me importava. Eu não queria fama. Queria Renné. A mãe que eu sei que ela era, a mulher que se levou pelo poder. Seus defeitos não desapareciam quando eu pensava nela, mas ainda assim, sentia sua falta.
- Ela era um demônio. - Edward sussurrou.
- Eu sei.
- Não queria isso para ela.
- Eu também não.
- Você sabe que ela te amava, não sabe?
- Eu sei. - Sussurrei com um nó formado na garganta. - E agora? - O encaro, os olhos cheios de lágrimas.
- Seja tão boa quanto ela deveria ser, seja o que você queria que ela fosse. Mas não tente suprir os erros sendo quem você não é. Tudo o que você é, também foi graças a ela.
- Eu aprendi.
- Sim, meu amor. E agora você e esse bebê merecem o mundo e uma nova chance.
- Você também.
- Sim, nós três. - Ele beijou minha cabeça ainda coberta pelo boné. - E Bella?
- Hum?
- Eu te amo, pode chorar, pode sofrer, pode gritar e descontar o que quiser em mim, mas estarei aqui por você. Eu me sinto um pouco culpado.
- Nada disso aconteceu por estarmos juntos.
- Não?
- Não mesmo. Amor é assim mesmo, destrói e constrói, é batalha, nunca uma guerra. Eu e você nascemos para ser um e agora três. - Ele toca a minha barriga. Ele estaciona o carro em frente à minha antiga casa. - Tudo começou aqui.
Ele sai do carro e entramos na casa. Fico abraçada ao meu pai e a Rose por um tempo, a tarde chega e vamos para o cemitério. Lá, depois de um discurso bonito do meu pai, luto contra a tontura que me bate. Edward nota e me puxa para o seu peito.
- Respire fundo. - Solto a flor branca sobre o caixão e talvez eu tenha deixado o corpo mergulhar na escuridão.
Talvez.
Lá, vejo Renné ao meu lado, ela me dá um beijo frio, diz que me ama e tudo vai ficar bem agora.
