texto em itálico são pensamentos
palavras em negrito são enfáticas na entonação
os nomes de quem fala estão antes de cada fala, em negrito apenas para que saibamos quem são
OS NOVOS PLANOS DE UMA RUIVA ANTIGA
O dia seguinte veio e depois a noite e, com ela, o reencontro do casal Logan. Ohana foi encontrá-lo e quase nem precisou influenciar sua saída, o desprendimento foi muito mais fácil e de lá mesmo ela criou um portal até a Mansão, abrindo-o na mata ao lado do dojô do canadense; este ficava num setor meio isolado da construção principal, mais próximo da piscina. E foi por ela que ambos volitaram e viram Jubilee e August brincando, entre um amasso e outro, dentro da piscina. Logan ficou revoltado!
Wolvie: Onde já se viu, tomar essas liberdades com a menina, Ohana! Quando eu sair daquela prisão vou ter uma conversa com esse guri… - grunhindo algumas outras palavras.
Ohana: Quer dizer que só depois de casado se pode ter certas liberdades? Não ligar pra câmeras de segurança? Essas coisas?… - e mesmo agora, ela enrubesceu levemente lembrando de como ignoraram a delegacia e mandaram ver!
Wolvie: Que bom que tu mesma pergunta e tu mesma responde, gata! É claro que quando estamos casados tudo muda de figura, né?… Eu sei lá se esse muleque imagina o que seria ser pai! Se ele gostaria de ser pai, saca?… E eu conheço a Jubs o suficiente pra saber o quanto ela sofreria se algo assim acontecesse. Ela ia bancar a forte, mas por dentro, quanto sofrimento e, quer saber, a vida não foi feita pra sofrermos não…
A porta da cozinha estava bem próxima, mas antes do casal chegar nela Jean apareceu em posição de quase combate, sendo depois relaxada quando os reconheceu.
Jean: Ah! Que susto vocês me deram! Co-como chegaram aqui?!
Wolvie: Olá, ruiva, a gente veio pra ver todo mundo e pra saber do Charlie e bater um papo contigo…
Ohana: Oi, Jean! – e foi abraçá-la – Eu percebi que conseguia liberar meu duplo facilmente e, então, foi atrás de treinamento pra conseguir fazer o mesmo pelo Logan. Em seguida, aprendi uma coisa e outra que me permitiu nos trazer até aqui.
Jubilee: 'Tá tudo bem, Jean? Precisa de ajuda? - gritou lá da piscina, já que viu a telepata conversando, aparentemente, sozinha.
Jean: 'Tá tudo bem sim, Jubi! Estou conversando com dois amigos. – e voltando-se para eles, sentenciou: Vamos ao LabMed, uma das respostas que procuram está lá…
Wolvie: Eu vi que tá surpresa em nos ver, mas achei que pareceria mais feliz, Jean… – e levou uma olhada da esposa, encolhendo os ombros e fazendo com os lábios "o quê?"
Jean: Desculpe, Logan! Minha cabeça está cheia de conflitos e problemas. Claro que estou feliz em vê-los! Como não estaria! Saber que a Ohana conseguiu se virar sozinha é um orgulho, não é?
E chegaram na porta do LabMed. Hank estava dentro, já um pouco mais encorpado depois do ataque da mutante, mas ainda precisaria de muito treino para conseguir recuperar seu físico. Ele recebeu Jean com um sorriso cansado, havia passado a noite tentando encontrar um meio de trazer a mente do Professor Xavier de volta, sem sucesso.
Hank: Jean, o que faz aqui tão cedo… Vá descansar também, me renda um pouco antes do almoço.
Jean: Logan e Ohana estão aqui, Hank, eles vieram ver Xavier e saber como andam todos na Mansão.
Hank olha em volta e, como nada vê, aproxima-se de uma bancada e pega um óculo; depois que o coloca abre um sorrisão e vai até Ohana, estendendo a mão para cumprimentá-la e faz o mesmo com Logan.
Hank: Infelizmente, não inventaram ainda aparelhos de escuta do plano astral, portanto, Jean terá que intervir, se quiserem que eu os ouça. Só queria dizer que sinto muito, Ohana, por sua lua-de-mel ter saído às avessas, minha cara!
Ohana explica, traduzida por Jean, que ela até estava gostando. Serviu para aprender muito mais sobre o Japão e, também, sobre si mesma. Ela também explicou apressadamente que estavam ali pela capacidade que havia desenvolvido de rapidamente liberar seu duplo etéreo e conseguir, depois de estudar e praticar, abrir portais espaciais.
Hank: Mesmo? Isso é deveras interessante, Ohana! O único que conheço que abre esses portais é o Dr. Strange… Quando vocês voltarem, dentro de 5 meses, se me permitir, poderemos estudar um pouco mais sobre isso, sim?… E, com certeza, as dificuldades abrem possibilidades dependendo de como as encaramos.
Wolvie andou até o azulão e passou o braço por sobre o ombro dele, Jean traduziu dizendo que ele queria saber como ele estava, pois parecia cansado. E passaram alguns minutos assim, conversando através de Jean, fosse sobre ele, fosse sobre Xavier. Na verdade, Hank já havia perdido as esperanças da volta do Professor. Ele manteria o corpo intacto o quanto a tecnologia permitisse, mas gostaria, na verdade, de ter o aval do dono para deixá-lo partir.
Hank: Eu imagino que isso não agrade a todos, mas depois de passar quase um mês aqui velando por ele, percebi alguns probleminhas de saúde que podem ser agravar e, desse modo, sua qualidade de vida não seria a mesma, sabem?… Eu sempre fui contra a eutanásia, mas essa dificuldade me ensinou que ela é necessária em alguns casos. E saber que a essência dele sobreviverá é um alívio, não? Ou estou sendo egoísta demais?
Jean chorava leve, entendia as razões do amigo, mas não concordava com elas. A simples presença do Professor naquela instituição já angariava parcerias e patrocínios de empresas que entendiam a importância de se investir na convivência pacífica entre as espécies. Ela estava com planos de voltar a transformar o Instituto numa escola primária e, para isso, precisaria da presença do Professor X. Ao menos, era o que ela pensava.
Ohana e Logan olharam para Hank e fizeram sinais de positivo com os dedos, um sinal universal de entendimento e comunhão. O geneticista ficou feliz, saber que não estava sozinho dentro da própria Mansão o dava segurança se necessitasse abortar o tema. Após se recompor, Wolvie pede pra Jean se despedir de Hank "Até uns meses, azulão" e diz pra irem a um local mais tranquilo para conversar. Jean diz que outros mutantes ainda estão por lá, comenta sobre a "cura" de Remy o que deixa os dois exultantes, dizendo que Kitty ficaria até ambos voltarem e que a viagem de Ororo e Warren teve um desvio e foi parar no Brasil.
Wolvie: Esse país é lindo! Estive umas duas vezes lá e posso afirmar, vale a pena voltar. Quem sabe não elejo esse meu segundo país depois que não puder mais voltar ao Japão? – e uma ponta de ressentimento se faz sentir na sua voz.
Ohana: Querido, tente transformar esse ressentimento em algo mais, sim? Eu sei que não adianta muito pessoas de fora falarem, lembro o quanto você tentou me alertar sobre onde meu ódio me levaria… Mas o ressentimento também causa problemas. Você fez o melhor que podia, dentro de uma situação muito complexa! Esqueça, foram forças alheias, sabe?
Ele não respondeu em palavras, a abraçou pelo ombro e sacudiu a cabeça positivamente, dando-lhe um selinho em seguida. Com isso, chegaram ao escritório de Charles Xavier e Jean perguntou se poderia ser ali a conversa, ao que ambos concordaram.
Wolverine explicou que foi ele o responsável por essa "intervenção" e que Ohana não queria abordar de modo tão direto o assunto, mas que ela o conhecia bem o suficiente para saber o quanto ele preza aqueles que considera amigos. A telepata ouviu tudo de modo natural, sem alterar o semblante e, com certeza, concordando com tudo que dizia, olhava algumas vezes para Ohana e recebia olhares de comunhão da amiga. Logan explicou como souberam de tudo através de Freyja e Jean ainda tinha a capacidade de se espantar em como determinadas culturas antigas identificavam esses seres cósmicos de modo tão natural. Quando o canadense abordou o fato em si, querendo saber os motivos que a fizeram não ajudar Ohana e vê-lo todos os dias na prisão, apesar de ter aceitado fazer essa ponte a telepata emudeceu. Não sabia o que contava, se toda a parte, desde Logan dar sempre em cima dela, até o momento onde ela resolveu apagar essas memórias da mente dele ou se abria o jogo sobre o desmoronamento atual de seu casamento com Scott e que ela nutria alguns sentimentos em relação a Logan que afloraram depois do casamento dos dois. Fato é que era realmente inconsciente, ela não tinha intenção de magoar os amigos e a si mesma.
Jean: Bom, eu peço paciência, pois voltarei um pouco no tempo… Serei totalmente sincera, pois gostaria que fossem comigo também. – e assim contou sobre a chegada de Logan aos X-Men, sua aproximação direta, incomodando Scott e dando a ela a sensação de que era a mulher mais desejada do Universo – "E Ohana agora sabe que sensação é essa, eu tenho certeza que ela a sente todos os dias" –, a falta no casamento dos Summers, os encontros e desencontros em corredores, onde ele sempre dava a entender o quanto a faria feliz. Ohana já suspeitava de algo, nada dos informes a chocou; já Logan estava paralisado diante daquela narração. Ele não tinha consciência de nada daquilo e, vendo o rosto interrogativo do amigo, ela chegou na parte onde apagou essas memórias… – "Cê teve a coragem de mexer nas minhas lembranças, mesmo sabendo o que elas significam pra mim? Dessa vez tu foi longe demais, Jean…" – Mas a ex-mutante achava que na época do casamento o canadense estava totalmente decidido; essa reviravolta deu uma leve pontada no ego de Ohana que ao sentir essa "fisgada" se controlou; importava o que Logan era quando estava com ela, esposo, amante e pai. Ela havia se proibido questionar sobre as ações do marido quando não estavam juntos, pois ela compreendia o quanto era confuso o passado que, no caso dele, tende a ser muito maior. Ao olhar a esposa Logan se convence de ter escolhido a pessoa certa! Ele não encontra expressões de rancor ou tentativas de uma discussão, ela estava serena e isso o fez achar mais execrável ainda a atitude de Jean, mostrou um lado dela que o canadense não conhecia e não gostava; ele não imaginou a telepata fazendo o melhor que podia naquele momento, com as opções existentes, mas quem sabe com o tempo ele não veria isso…
Jean resolveu contar tudo mesmo, inclusive o atual estado de seu casamento. Ao que Ohana se manifestou dizendo que ela não deveria ficar presa a algo por obrigação. "Não estamos mais no século XVIII! Você é livre, Jean… Somente o seu medo a prende em algo assim. Não tenha medo e tenha certeza, se meu esposo foi capaz de ver algo em você, outros também serão. A vida nos dá sempre possibilidades e, como disse um amigo, o medo só nos limita."
Uma ruiva agradece a outra, Wolverine fica quieto, estava ainda lutando contra todos os sentidos que diziam não ser aquela uma pessoa confiável. Contudo, todos erramos! E que momento devemos estar com os amigos, senão quando estes erram tentando acertar? É muito fácil ser amigo de alguém que nunca nos critica, nunca nos alerta, faz sempre aquilo que desejamos. Isso, muitas vezes, não é um amigo! É um "boneco" guiado pelo medo da solidão; porém, quem a todos quer agradar acaba desagradando a si mesmo! São situações insustentáveis.
Ohana: Eu espero que tenha forças para se desvencilhar disso antes de eu chegar, mas no que precisar, pode contar comigo, Jean! - e pela força do hábito, atravessa a mesa e vai abraçá-la.
Ambas olham para Logan que apenas diz: "Vamos ver os outros, Ohana. Valeu pelo papo aberto, ruiva…". E sai, esperando Ohana no corredor. A esposa de Logan pede para que Jean dê tempo ao tempo, apesar de saber que ela já imaginava essa reação.
Jean: Eu sempre imagino, mas dói cada vez, Ohana… Eu o estimo muito e não queria que ficássemos de mal, mas eu realmente invadi algo que ele preza demais e, agora, é "pagar as consequências", o que no fluxo temporal dele pode significar anos sem me tratar como antes.
Ohana: Acho que seria mais realista não desejar as coisas como antes, não acha? Afinal, foi isso que os levou até essa situação insustentável. Deseje que as coisas sigam para o melhor e isso acontecerá, Jean. Agora e sempre, estou aqui, ok? – e fez menção de sair para encontrar Logan.
Jean: Você está diferente, Ohana… Eu não sei dizer, parece mais "madura", mas você sempre foi alguém assim. De qualquer modo, agradeço e então, desejo que tudo concorra para o melhor entre nós três, sempre! - e acenou com a cabeça que estava tudo bem ela ir embora.
Ambos ficaram nas alas sociais da Mansão, vendo as conversas dos amigos, ouvindo planos e segredos. Ohana não queria estar lá sem a anuência das pessoas, mas Logan estava achando aquilo o máximo! Clarisse tinha um sexto sentido incrível! Ela estava sentada no colo do pai que comentava sobre ela ter um irmãozinho e o que ela acharia disto quando, do nada, ela corta a conversa para falar sobre Ohana e Logan:
Clarisse: Já pensou que legal seria se a dona Ohana também tivesse um bebê junto com a mamãe e todos ficássemos aqui na Mansão? Você e o seu Logan iam ser pais corujas e eu ia poder ter dois irmãozinhos ao invés de um! O que me diz, papá?
Remy: Mas que ideia genial, mon petit! Eu tenho que pedir desculpas a Logan por uma ou duas coisinhas e seria muito bom podermos ser pais juntos, non? O que nos diz, ma belle?
Vampira: Nossa! Que papo mais louco!… Eu curto muito a Mansão, Clarisse; mas também 'tô com saudades da nossa casinha. Eu toparia passar alguns verões aqui, mas queria ter seu irmãozinho no aconchego do lar, sabe? Aqui tem muita gente, ainda mais se a Jean revitalizar a escola, aí vai ficar impossível de criar uma criança nesse lugar! 'Cê entende? Mas 'cê acha que a Ohana 'tá grávida de novo? Eles merecem ser felizes, assim como nós, né, mozão? – e pega Clarisse no colo, levantando-a até o teto ao que ela solta uma risada muito gostosa.
Ohana e Logan se entreolham e agradecem pelos amigos que têm. Pensam juntos no que Vampira falou sobre ficar impossível de morar na Mansão e o canadense lança:
Wolvie: Tu toparia morar no dojô? Quando eu sair da prisão posso construir uma outra área nele, colocar uma cozinha e uma sala de banho, o que me diz, Ana?
Os olhos de Ohana brilham, seria muito bom ter privacidade e ainda assim continuar na Mansão, pois ela já imaginava como poderia ser útil para "pagar" a estadia dela por lá, se Jean ia reativar a escola ela tinha algum conhecimento básico de secretariado e poderia fazer esse papel no setor administrativo. Elas precisariam conversar, mas a ruiva acreditava que era questão de acertar detalhes e de ser firme em não querer receber nenhum salário por isso! Essa seria a parte mais difícil da contratação… Voltando-se para Logan ela sorri abertamente e lhe dá um beijo bem carinhoso, soltando um baixo "Sim, eu gostaria muito".
Wolvie: Então tá decidido! Pode ser que cê tenha que ficar com o bebê dentro da Mansão por algumas semanas, mas eu prometo fazer o mais rápido que conseguir, valeu? Cê já vai 'tar experiente pelo tempo passado na casa da Yukio e, falando sério, eu acho que tu vai estranhar no começo o retorno pro método ocidental de fazer as coisas… – e se abraçaram rumando para o dojô e Ohana criando um portal para retornarem à casa das japonesas.
Warren e Ororo ainda ficaram alguns meses no Brasil, viajaram para o Sul e, depois, para o Centro-Oeste; abismaram-se nalguns lugares onde um boi vale mais que uma vida humana e, noutros onde a água que existe é salobra e os políticos constroem poços ou dessalinizadores para privilegiar compadres ou mesmo valorizar suas terras… Ororo teve muito trabalho em algumas cidades do interior! A chuva benfazeja precisava chegar e encher as cisternas e os açudes. Alguns políticos os juraram de morte e poucos tentaram realizar o intento, obrigando-os a mostrar que não estavam lidando com amadores… Desses tantos, um deles resolveu até mesmo mudar de vida, apoiando a população e incentivando políticas públicas que melhorassem a autonomia das famílias. Esse foi o ponto fora da curva… Mas, depois de quatro meses no país eles decidiram que era hora de voltar e avisar o pessoal da Mansão que Warren voltaria a morar com os X-Men. Ao ouvirem os planos de Jean sobre reativar a escola ambos a apoiaram na forma de professores; eles já tinham essa experiência e não custaria dar uma força, no início, para Jean. Ambos decidiram ficar juntos, sem casamentos ou anéis, mas com o compromisso real de viverem para o bem comum, pois não conseguiram ver tantas injustiças sociais. Já era hora dos X-Men agirem em causas sociais humanas e eles se viram como portadores dessa mudança. Sabiam das dificuldades, especialmente no que tangiam as "politicalhas", mas fariam seu melhor, como uma vez Charles fez pelos mutantes.
O ânimo de Jean em reativar a escola só conseguia ser quebrado pelo marasmo de Scott. A cada fim de dia, quando finalmente se viam no quarto para dormir, ela percebia que não deviam mais ficar juntos… E foi com um prazer até mesmo mórbido que ela anunciou ao marido que queria a separação. Ela se preparou o dia todo para dizer isso a Scott e, quando finalmente disse as palavras, surgiu um sorriso em seu rosto, era um sorriso de dever cumprido, de vitória, de liberação.
Scott: Jean, você não está sendo racional, amor… Vamos conversar sobre isso, até há pouco você estava animada em adotar uma criança, que é isso?
Jean: Scott, ser racional nunca foi meu forte. Não me chame mais de amor, pois se o que temos é isso, então eu abdico de ser amada para o resto da vida! Nós estamos em caminhos diferentes e não há conversa que nos coloque no mesmo trilho. Eu já decidi que eu não quero mais adotar uma criança, mas eu quero essa Mansão com mais de 100 crianças! Eu vou reativar a escola, Scott! E esse instituto não vai ser só para mutantes, mas para todo tipo de criança que tem interesse em estudar e dificuldades financeiras. Charles deixou esse legado, nós temos patrocinadores interessados, seja na Terra quanto fora dela, não vou deixar essa oportunidade morrer…
O silêncio caiu como chumbo e, como era impossível ver os olhos de Scott para avaliar o que ele sentiria, Jean continuou:
Jean: Eu já te amei muito, Scott, você sabe e Deus é testemunha disso; sua humana e cometi meus erros, claro! E se for possível perdoar, peço perdão. Mas não vou terminar meus dias sem me sentir viva de novo e, tenha certeza, desejo o mesmo para você! Seja feliz, pois eu sei que esse desafio me deixará muito feliz sim! – e levantou-se, pegando o travesseiro: Não se incomode em responder, eu vou dormir no quarto que era da Ohana, tá bem?
E Ciclope sentou-se virado para o lado da janela, onde uma lágrima escorreu, sem sabermos se era de tristeza ou de alívio…
Antes do horário matinal da maioria acordar o celular de Jean recebeu uma ligação do LabMed, informando que o Professor X havia despertado, contatando Hank telepaticamente ela notou que o mesmo havia passado a noite lá e estava ao lado da maca. Levitando rapidamente com sua telecinesia Jean chega e o encontra sentado, conversando com o Dr. McCoy.
Prof. X: E foi lá que descobri como os Shi'ar mantém-se vivos por quase a eternidade, Hank… É a mesma tecnologia que temos aqui, mas não quero viver preso a um corpo sem condições e também não desejo fazer um transplante de mente para outro corpo! Eu acho que a vida precisa manter um ciclo e a morte faz parte dele, sabe?…
Hank: Claro que entendo, Professor. Estive conversando com outros X-Men que dividem essa mesma lógica. O senhor é o responsável pelo seu corpo, pelo que será dele então, nem se fala! Mas alguns são refratários a esse pensamento*
Jean: Eu sou uma delas, Professor… Peço desculpas, mas acho que se a tecnologia existe para dar qualidade de vida e ampliar o ciclo ela deve ser usada. Hank identificou alguns órgãos que podem apresentar falhas futuras e eu queria muito substituí-los, Professor!
Prof. X: Minha filha, não! Eu quero morrer com peças originais! – e riu de um jeito que fez Jean chorar de saudades do som há tanto não escutado. – Senão eu poderia ter deixado de ser paraplégico há tanto tempo! Eu decidi arcar com esse ônus, do mesmo jeito que percebo ser importante começar a pensar em arcar com a falência de alguns órgãos.
Parando um pouco para sondar os últimos acontecimentos, o velho Professor demonstra sua alegria na forma de ruguinhas que aparecem do lado de seus lúcidos olhos e, depois, transformam-se num sorriso. Chamando Jean para perto de si, ele fala:
Prof. X: Entendo que é um momento frágil para você, minha filha… Decisões difíceis, mas necessárias. Eu as apoio integralmente, você já imaginava, não? E a ideia de reativar a escola e dar nova releitura a ela pôde deixar este velho muito feliz, obrigado! Mas não podemos nos apossar daqueles que amamos, correndo o risco de criar monstros dentro de nós… Amar, e você já deve estar cansada de ouvir isso, é libertar, Jean! E eu liberto todos os Filhos do Átomo, os que existiram e existirão! Eu consegui compreender que não deixarei de amá-los e esse será um dos combustíveis que me fará viver para sempre, não acha? – e abraçou uma das suas primeiras pupilas.
Ambos ficaram vários minutos assim, Hank havia saído para chamar os outros e informar que o Professor acordou e queria fazer um pronunciamento. Nesse ínterim, Jean ficou mais tranquila; todos os "senões" que ela pensava em externar para o Professor ficar morriam na mente, pois ela via serem fruto de um egoísmo infantil. Sentindo a luta interna dela o ancião pediu ajuda para sentar-se em sua cadeira de rodas hightech e com a telecinesia dela foi muito fácil colocá-lo lá, ainda mais pelo peso pluma que em cinco meses e meio ele havia se transformado.
Prof. X: Vamos comunicar nossa decisão aos outros? – endireitando a cadeira para passar pela porta.
Jean: O senhor é quem manda, Professor. – e o seguiu até a sala de estar coletiva, com vários sofás e pufes onde todos podiam se ajeitar.
Todos os presentes na Mansão compareceram: o casal LeBeau e a filhinha, os novatos August e Gian e os veteranos Kitty, Jubilee, Scott e Hank. O Professor X se encarregou de colocar os ausentes num "chat" mental, como Warren e Ororo que empreendiam a viagem de volta à Westchester, Logan e Ohana ainda na condição de presos ao Japão, Kurt e Colossus, Moira e até mesmo Arnold e Lilandra. Ele sentia-se tão feliz e capaz que não limitou seu raio de ação. Praticamente todo mutante que tenha passado pela Mansão X, fosse para estudos iniciais quanto para fazer parte dos X-Men estava nesse momento conectado ao Professor.
Prof. X: Meus queridos X-Men e eternos estudantes e filhos! Venho falar-vos do quanto vocês propiciaram felicidades e desafios sem fim para este velho Professor. Não poderia transmitir em palavras o quanto essa vida foi plena e sinto-me privilegiado em conseguir me despedir desta maneira tão lúcida! Imaginei vários fins alternativos e sei que em algumas realidades paralelas eles realmente existem, mas nunca o pensei como agora. Acho que viver é isso, fazer seu melhor, deixar o cérebro que não descansa nunca fazer predições mas, acima de tudo, aceitar a realidade como sendo o que de mais importante poderia existir. Eu decidi informá-los de meu fim físico mas não para fazê-los sofrer ou chorar, senão para avisá-los que não deixarei de existir em cada um de vocês e, também, como individualidade no plano astral. Local este que alguns já visitam, seja com conhecimento de causa, seja de modo empírico, durante o sono. Esperarei o retorno de Ororo e Logan, incitando os outros a também auxiliarem na ideia de Jean de revitalizar a capacidade educacional desta Mansão. Nesse mês e meio agilizarei os papéis para transformá-la em bem imóvel integrante de um Fundo de Auxílio às Crianças, primeiramente encabeçado pela Jean, mas que possa alternar essa diretoria e haja de modo transparente em relação aos gastos e às interferências reais na sociedade. Também legarei o espaço do dojô e um alqueire ao redor dele para o casal Howlett, peço que respeitem minha vontade… Esse local será de ambos enquanto casal e não será transferido para seus descendentes, pois a inserção de Ohana, atualmente sem poderes mutantes é o divisor de águas desta nova instituição. E com certeza, minha filha, Jean aceitará conversar contigo sobre seus planos futuros no Instituto. A cada um conectado mentalmente a ele havia uma palavra de ânimo e conforto. Até finalmente chegar em Scott, que junto à Jean, Hank e Warren foram os primeiros X-Men. A ele, o professor resolveu dizer que não havia mesmo o que lamentar, foram anos maravilhosos, com tanta riqueza e realizações que ele só podia agradecer. O Professor sabia que faltava pouco para o ex-líder dos X-Men explodir, ele percebeu o leve tremor das suas mãos em forma de punho e o ricto no lábio. Quando Charles disse "E não digo só em relação à minha vivência contigo, Scott. Posso me atrever a falar que não há culpas quando não existem culpados".
Scott: Fale pelo senhor, Professor! Eu a culpo sim! E a culparei para sempre, pois deixei de viver várias coisas para ficar com ela, de conhecer melhor tantas pessoas e agora é isso que recebo? Só pode ser brincadeira… – e lançando o olhar em direção à Jean ele saiu pisando pesado.
Nem todos entenderam, nem todos saberão, mas fato é que o Professor disse à Jean que mentalmente ficasse ali e continuou a discursar em agradecimento. Finalizando com "Não importam as distâncias, um pai, mesmo postiço como eu, será sempre pai e vocês são os melhores filhos que eu poderia querer." – e na mente de Scott lançou: "Todos vocês…"
