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O RECOMEÇO

Ohana pede a Jean para ficar um pouco no quarto com Lliurè, pois ela tinha um encontro astral com seu guru e preferia fazer isso da casa construída por Logan. A telepata aceitou o convite e não encontrou resistência da parte da adolescente, que estava em negação ainda pelo acontecido. Ao mesmo tempo que queria estar ao lado de Wade, desejava um contato mais próximo com mulheres. No estado atual, preferia não escutar nenhuma piada do amado, pois não sabia como reagiria. Por Jean ela soube que Wade estava acomodado no sofá da sala e ficou tranquila por ele ainda estar na Mansão.

Era engraçado como várias cenas corriqueiras brincavam na mente de Ohana; como ele sorria, como apoiava a mão atrás da cabeça, como demonstrava amor quando estavam só os dois e, acima de tudo, como deixava claro o quanto ela era importante... Da parte dela, não houve nenhum arrependimento, nenhum pensamento de que poderia ter demonstrado mais, ou poderia ter feito x em lugar de y... Eles viveram cada dia, como o presente que é e isso não nos permite arrependimentos.

Entrou na casa e a encontrou limpa e sem resquícios da correria que foi ao levar Logan para o LabMed. Imaginou quem teria feito aquilo e agradeceu mentalmente ao Universo, pois ainda ter que limpar o sangue do marido morto não estava nos planos dela...

Estendeu o shikibuton e sentou-se em cima dos pés nele, assumindo uma posição de meditação passiva. Assim que se sentiu forte o suficiente, ergueu seu corpo astral, abriu um portal para o Sanctum Sanctorum de NY e apareceu no saguão de entrada da casa do Dr. Strange, encontrando-o logo em seguida.

Dr. Strange: Seja bem-vinda, senhora Logan. Venha, venha! Vamos subir até onde está seu marido, sim?

E ela o segue, ansiosamente contida, para não trazer pensamentos de dor ao ser amado.

Dr. Strange: Isso mesmo, Ohana! É importante saber da capacidade criadora dos pensamentos e do quanto eles são como bumerangues, não? Algumas vezes alimentando-se no ponto de 'chegada' antes de retornarem para nós. – abrindo uma das inúmeras portas que existiam no casarão, o místico mostrou para Ohana onde Logan, ainda deitado, se recuperava do desencarne. Psylocke, que estava ao lado dele, virou-se e cumprimentou Ohana. Em seguida, James apareceu, abraçando a mãe e lançando um olhar de profunda compreensão para ela.

Ohana: Eu estou bem, filho... Como posso reclamar tendo a chance de vê-lo e de te ver? – e diz isso dando um profuso abraço – Seria hipocrisia, meu amor...

James: Eu concordo, mas o sentimento de saudade é tão egoísta que, algumas vezes, saber que o outro está vivo e bem não é o suficiente para nos trazer paz, não é mesmo? – direcionando-se para o lado da cama onde o pai estava.

Psylocke: Ele ainda não acordou desde que Strange o trouxe. Esperamos que sua presença ajude a contornar a situação. Seja bem-vinda, Ohana. Estou maquinando uma proposta para você... Mas falamos disso depois.

E indo segurar a mão de Logan, Ohana aproxima os rostos e sussurra que era hora de acordar. Perguntou como ele estava se sentindo, se havia algo que ela poderia fazer por ele para deixá-lo mais confortável.

Ohana: Como eu prometi, vim te encontrar, querido e gostaríamos de conversar com você...

Esse contato e palavras o fizeram mover levemente a mão, sem contudo abrir os olhos. Ela compreendeu, por intuição, que ele não queria conversar com os outros, somente com ela e, ao perceber isso, Ohana pergunta aos dois se eles poderiam esperar lá fora. Assim que saem, ela vê os lindos olhos azuis do esposo aparecerem, lúcidos e saudosos. Ele a abraça e beija, sussurrando que estava com saudades e que ela não ia mesmo se livrar tão fácil dele, pois ele não queria simplesmente sumir com Psylocke e James dali, para nunca mais vê-la. Ambos se sentaram na cama e então Betsy apareceu atravessando a porta, fazendo Logan baixar a cabeça em sinal de desculpas.

Psylocke: E é aí que vem a minha proposta, Logan e Ohana... Conversei com o dr. Strange e ele me autorizou a montar uma força tarefa etérea, por assim dizer... Sabemos que teremos mais dificuldade em agir no mundo da matéria, mas as ameaças que forem místicas, poderemos ser muito úteis e, com isso, seremos capazes de manter o Planeta protegido e em harmonia.

Ambos ouviram a proposta e, em seguida, a porta abriu com a entrada de James. Ele não esperou o pai levantar a cabeça e foi em sua direção, dando um forte abraço. Eles ficam um tempo assim, sem que Logan dissesse nada, até que James fala:

James: Não tem do que se envergonhar, pai! Eu também fingiria de morto se tivesse chance de perder aquilo que mais amo...

Wolvie: Mas é que eu também te amo, cara... Taí o motivo, desculpa...

James abraça tanto Logan quanto Ohana e solta uma gostosa risada, enquanto Betsy também sorri com a cena. O clima descontrai e então o Dr. Strange entra, pedindo licença e dizendo que seria interessante resolverem logo se aceitavam ou não o convite, pois Ohana precisava retornar para as cerimônias fúnebres.

Dr. Strange: Independente do que decidirem, o encontro do casal poderá acontecer sempre, pois o laço energético de vocês é forte o suficiente para isso. Agora, se decidissem fazer parte de algo maior que vocês* - e Wolverine o interrompe.

Wolvie: Isso é tudo que eu tenho feito na vida, xará! Não venha me falar sobre o que seria o certo, moralmente falando... – e na sua voz era palpável o peso dos anos, o quanto defender uma raça que os temia havia cobrado seu preço.

James: É que a minha irmã ainda está lá, né? Seria um jeito de manter o mundo seguro para aqueles que amamos e que ainda não podem se defender. Se bem que meu exemplo foi fraco, pois se tem uma coisa que Lliurè sabe é como se defender de ataques psíquicos... – e coçou a nuca, como Logan fazia quando estava envergonhado.

Wolvie: Entendi... Tu quis apelar pro coração, né, guri? Me fazer pensar o quanto ainda posso fazer por aqueles que amo e não pela humanidade que nos odeia. 'Tá certo, é uma opinião. – e virando-se para Ohana ele diz: Que tu acha, guria? Toparia fazer um extra, além dos X-Men? Pois eu só 'tô dentro se você 'tiver...

Ao que Ohana aceita, pois essa seria a continuação dos ideais de Charles Xavier, de modo ainda mais anônimo do que os X-Men fazem. Seria a realização bíblica do "que sua mão direita não saiba o que faz a esquerda" e, acima de tudo, sem buscar reconhecimentos exteriores.

Após acertarem o local de encontro como sendo o Sanctum Sanctorum e que seria necessário, a princípio, quatro encontros semanais, Logan questiona onde morará, ao que Betsy diz para não se preocupar, pois cuidaria de tudo. Despedem-se, com auspiciosas promessas e Ohana comenta:

Ohana: Pra mim está mais do que claro que você não está mais lá. Mas para aqueles que te conheceram, aquele corpo representa você e, como sua esposa, precisarei representar essa conexão deles contigo, durante a cerimônia, tudo bem?

Wolvie: Eu soube que vai ser na Mansão mesmo, né? Tem um mutante com poderes de calor extremo e ele aceitou cremar um professor. Que bizarro! Acho que ele não ia muito com a minha cara... Mas se for parar pra pensar, eu mais deixava os estudantes com raiva do que tudo! – e soltou uma gostosa gargalhada, compartilhada pelos demais.

Betsy: Quando a gente está apanhando, não consegue perceber a grande lição de defesa por trás disso, não é, meu amigo?! – e faz pose de quem está atacando, ao que Logan finge se esconder atrás da esposa, completando:

Wolvie: Eu ainda não perguntei qual vai ser minha utilidade aqui, vou mais me esconder atrás dela do que tudo, porque não manjo quase nada de plano astral e não sei qual a vantagem das minhas garras num lugar desses, saca?

James: Tudo isso será explicado nos próximos dias, pai. Você não é só um sexteto de garras... Tem muita estratégia e poder mental aí. – batendo no ombro do pai e acariciando sua nuca, enquanto Logan simulava um golpe e o pegava dando uma gravata de brincadeira.

E com essa última imagem de família completa e feliz, Ohana retorna para a Mansão, recebendo o aviso mental de Jean que a cremação seria mesmo naquela tarde, com a presença de alguns amigos íntimos e sem muito alarde.

Kurt, pela sua capacidade de teleporte, foi o primeiro a chegar; alguns outros vieram com seus transportes particulares: jatos, propulsores, helicópteros ou mesmo voando.

O local contava com quase uma centena de pessoas que conversavam sobre vários momentos da vida do canadense, sempre com muita descontração. Não era uma consagração da morte, mas uma comemoração pela vida. E que vida! Uma vida longa como aquela só poderia ter marcado várias pessoas.

Tudo foi organizado por Kitty e Jubilee, elas adquiriram um envoltório de amianto e colocaram o corpo dentro dele, após todos terem velado o mesmo por algum tempo. O mutante escolhido para realizar a cremação teria o calor contido por outra que criava campos de força e todos os professores estariam de olho, caso alguma coisa desse errado, uma vez que eram estudantes ainda, sem plenos conhecimentos da amplitude de seus poderes.

Ohana foi chamada a dizer algumas palavras e levando Lliurè consigo, próximas ao caixão, ela só conseguiu agradecer pela presença de todos, expressar que o mais importante era o presente e dizer que se pudesse, repetiria tudo, sem nenhuma alteração, pois até o que era considerado erro tinha, de algum modo, levado todos até aquele momento e, ali, diante de todos, ela sabia que não tinha arrependimentos; só agradecimentos.

Lliurè apenas agradeceu também as presenças e disse que o tempo havia sido curto, mas que poderia contar sempre com as lembranças – olhando de soslaio para a mãe – para aliviar seu sofrimento e a saudade.

Os estudantes fizeram todo o combinado de modo perfeito. Ao final da cerimônia, uma urna foi entregue a Ohana e Lliurè, contendo metade das cinzas de Logan, enquanto a outra metade partiria para o cemitério dos Yashida através do Samurai de Prata, irmão de Mariko.

Ohana convidou Wade para passar a noite na casa deles, sempre havia um shikibuton sobrando e os três estariam juntos. Ela sabia que somente seu corpo estaria naquele quarto e seria muito bom poder contar com um ex-mercenário para guardar algo tão precioso...

A urna foi colocada num apoio central do quarto, sendo necessário arrumar a mesma, com adereços, fotos e lembranças, mas isso seria providenciado no decorrer dos dias e semanas. Não havia mais pressa para os Howlett, aliás, parecia haver uma lentidão temporal abatendo-as e, de certo modo, a Wade também. Este ajuda as duas a arrumarem o quarto e vai até a cozinha preparar um sanduíche de mel com creme de amendoim para todos. Chama-as para comer no deck e ficam ainda relembrando algumas cenas engraçadas envolvendo o canadense.

Recolhem-se e depois de alguns minutos é sem estranheza que Ohana ouve o que começou como um choro baixo que em seguida é confortado pela voz baixa da filha. Wade havia aguentado o quanto pôde, mas ali, naquela casa feita totalmente por Logan e com as recentes lembranças ele finalmente entendeu que um dos grandes amores de sua vida não voltaria mais. E isso o oprimiu de tal modo que ele continuou a chorar de soluçar. A mãe pensa ser uma boa hora para a filha desfocar do seu sofrimento e se encontrar capaz de confortar outra pessoa pela mesma perda. Ela os deixa conversando e inicia seu desprendimento, pensando em encontrar Logan onde quer que ele estivesse no Universo. Conjura uma porta e não se surpreende quando a mesma abre para um cenário de inverno forte, com uma cabaninha ao longe; quando ela coloca os pés na neve, percebe que está calçando sapatos de pele de algum animal. Percebe também estar totalmente agasalhada por roupas artesanais de pele e continua sua jornada, vendo fumaça sair da chaminé da cabana e uma luz de lampião convidativa aparecendo pela janela. A caminhada é estafante, pelo vento gélido que não poupa as partes de pele descobertas e assim que pisa no primeiro degrau, percebe alguém abrindo a porta e vislumbra o vulto de Logan.

Wolvie: Mas é você? Por que demorou tanto? Eu já estava ficando louco de esperar... O Strange me falou pra pensar onde eu queria estar e eu só consegui pensar nessa cabana aqui. Numa lembrança da época que eu tive minhas memórias mexidas. Mas quando eu cheguei aqui, esperando encontrar tudo como eu conhecia, vi que na porta não tinha RP&L, mas O&L e foi aí que eu percebi o quanto você tinha conseguido me dar paz, ruiva... Entra aí! Vamos conversar, comer... 'Tô doido pra te beijar de novo! – e enquanto entrava, dizia – Nossa! Faz tanto tempo!

Ohana explica que o tempo é muito relativo e atrelado ao desejo que temos de algo acontecer. Que eles estavam distantes há somente algumas horas.

Ohana: Por que aqui, Logan? Esse lugar é inóspito demais... – e aceitou um abraço que ele oferecia, enquanto se ajeitava em cima de umas peles, perto da lareira.

Wolvie: Porque eu mereço, gata!... Fiz muita gente sofrer e aqui a Natureza me obriga a manter minhas mãos e mente tão ocupados em "sobreviver" que nada mais me importa. Nada o c cete, né? Eu 'tava sofrendo porque tu não 'tá aqui, mas isso faz o momento do encontro mais gostoso também. – fazia um gostoso cafuné enquanto externava esses pensamentos.

Ohana: Se você tivesse visto a conversa dos presentes na sua cremação, não ia achar que fez tanta gente sofrer. Quer dizer, eu entendo e até acho louvável pensar naqueles que sofreram durante sua vida, mas tem o outro lado também, né? Não são só sombras. Todo mundo as tem, mas as poucas luzes servem pra nos dar um propósito.

Wolvie: Eu sei que na hora certa vou ser capaz de seguir adiante, red! – e a encheu de beijos que foram retribuídos pela esposa – Ah! Eu fiquei te devendo alguma coisa, não foi, antes de bater as botas? – e a pegou no colo, levando-a para o quarto contíguo.

E, enquanto descansavam abraçados, Ohana passou a imaginar as incríveis possibilidades de uma espécie de sucursal dos X-Men no plano astral, reunindo não só aqueles que já morreram, mas também todos os mutantes com possibilidades psiônicas, unidos pelo bem comum. Com um sorriso, ela olha para Logan, que descansava suavemente e pensa: finalmente, meu amado, é hora de você se sentir realmente livre! E agradeço ao Ser Supremo por dividir esse momento com ele.

- O RECOMEÇO -