Capítulo 2: O encontro
Sábado, 22 de maio de 2556. Marte, Cidade Marineris.
A cidade Marineris é uma das 10 maiores cidades de Marte. Ela se localiza perto Dos Valles Marineris, um grande sistema de cânions do planeta.
A colonização de Marte começou na metade do século 21,e na metade do século 22 já haviam cidades com centenas de habitantes. No século 23, haviam cidades com centenas de milhares. E no ano de 2556, já existem centenas de pequenas cidades independentes com milhares de habitantes, e muitas cidades com milhões. As maiores delas, como Marineris, tinham cerca de 10 milhões de habitantes. A população marciana atualmente é estimada de cerca de 300 milhões de habitantes.
As cidades de Marte precisavam estar todas em cúpulas que variavam de algumas de centenas até dezenas de milhares, tendo a maior cúpula em torno de 50 mil quilômetros de área. Os motivos para isso são óbvios. Marte não é um planeta que naturalmente sustenta vida e nem é favorável a vida terrestre. Logo é necessário criar um ecossistema fechado e controlado, onde se possa controlar condições como oxigênio, clima, temperatura e gravidade. E assim criar um lugar adaptado para a vida terrestre e auto sustentável. Onde tudo que é consumido foi produzido lá, e é reaproveitado.
O projeto de terraformação de Marte já havia começado há uns 200 anos. O processo de terraformação consiste em mudar as condições de um planeta para condições similares a Terra, por exemplo aumentando as taxas de oxigênio e inserindo água e plantas, criando um ecossistema no planeta. E por consequência, permitindo os humanos e outras formas de vida terrestre a viverem foras das cúpulas. Quando isso acontecer, a população poderá sair das cúpulas e explorar o resto do planeta vermelho, que nesse ponto não seria vermelho, e sim um planeta verde e com muita água como a Terra.
Atualmente o processo de terraformação está em 70%. A estimativa é que em torno dos próximos 20 a 30 anos ele se conclua, e seja seguro sair das cúpulas e explorar mais o ambiente marciano. Isso facilitaria muito o crescimento das cidades, o deslocamento no planeta, a explosão do crescimento da população e da imigração da Terra e a produção de recursos gerais.
Em alguma rua na Cidade Marineris
Era noite, e Yusha caminhava numa rua movimentada de Marineris. Carros voavam como sempre, prédios muito altos e arredondados estavam por todos os lados, haviam luzes de ourtdoors em todos os cantos, e as pessoas aproveitavam seu tempo de diversas formas.
E ao seu lado direito estava Yumi, agarrada ao seu braço. Ela segurava a sua mão e parte do seu braço. Os cabelos dela encostavam no dele.
"Yumi, você não acha que está um pouco perto…demais?" Yusha disse meio envergonhado.
"Sim, eu estou perto demais. Algum problema com isso?" Ela disse com um sorriso olhando para ele.
"Hmm, eu tenho um problema com isso sim." Ele disse ainda envergonhado.
"Mas você pode superar esse problema e aproveitar nosso passeio?" Ela disse.
"Eu acho que...posso" Ele disse envergonhado,e cedendo àquela situação. Ela estava perfumada, e ele a conhecia bem. Não era um real problema ela estar agarrada no braço dele. Ele só não estava acostumado com aquela aproximação que a Yumi estava tendo.
Dias atrás Yumi havia convidado Yusha para um encontro no sábado a noite. Yusha aceitou ao convite, e ele foram ver um filme no cinema. Eles lancharam depois disso, e agora estavam caminhando de volta para casa. Eles moravam próximos, então o caminho era o mesmo. Essa não era a primeira e nem segunda vez que eles haviam saído juntos,mas isso foi há bastante tempo. E dessa vez a atitude de Yumi para ele estava diferente.
Yusha nesse momento usava uma calça jeans e uma camisa vermelha. E Yumi usava uma camisa rosa e uma calça jeans também.
Como eles estavam em silêncio,e isso incomodava um pouco Yusha, ele perguntou:
"Yumi, porque você quis sair comigo hoje?"
"Hmm, porque eu realmente queria ver aquele filme, e você é uma boa companhia." Ela disse olhando para ele com um grande sorriso.
"Certo, e porque eu sou uma boa companhia?"
"hmmm..." ela colou o dedo indicador na sua boca e olhou para cima "...você me trata bem, e eu gosto de ficar perto de você" Ela sorriu.
"Mas não existe nenhuma outra pessoa que te trate bem e que você goste de ficar perto?"
"Ah….talvez exista, quem sabe? Mas eu te escolhi, Yusha. E você…. por que aceitou sair comigo hoje? "
"Por que? Deixa eu pensar um pouco sobre isso" ele refletiu por 10 segundos e disse "Eu não tinha planos para hoje, e aceitei um convite ao cinema para ver um filme. Então entre ficar em casa hoje a noite, e ir ao cinema com uma amiga, eu escolhi a segunda a opção."
Essa resposta deixou Yumi um pouco frustrada.
"Então você só saiu comigo porque não tinha planos?" Ela disse com uma cara frustrada fazendo um bico " Então se qualquer pessoa te chamasse para sair você iria? E aquele homem ali, se ele te chamasse para ir ao cinema, você iria também?" Ela disse apontando para um homem gordinho que lia algo num tablet.
"Yumi, se aquele homem me chamasse para sair, eu não iria, eu não o conheço."
"Ah, então você saiu comigo hoje porque foi eu que te chamei?"
Yusha parou de andar, se virou para ela, fez contato visual e disse com um tom sério.
"Eu quero te deixar uma coisa bem clara. Eu estou aqui com você não exatamente porque eu não tinha mais nada para fazer em casa. E sim porque você é minha amiga, e eu não tenho mais ninguém que me chamaria para sair ou fazer algo diferente. Eu realmente estou gostando de ter saído com você. Yumi, obrigado por ter me chamado para sair. Eu realmente gosto da sua companhia. Então por favor, não tenha mal entendidos ou ache que só estou aqui com você agora por não ter nada de melhor para fazer." Ele disse e depois deu um sorriso.
Yumi ficou espantada e muito envergonhada ouvindo isso. Ela não esperava aquilo, mas ela gostou muito de entender melhor como Yusha pensava.
Yusha e Yumi haviam se conhecido há 5 anos na escola, quando ambos tinham 12 anos. Yusha era (e ainda é) um garoto sozinho, introvertido, tímido, calmo, que tinha dificuldade de se comunicar e de se expressar. Já Yumi sempre foi o contrário disso. Ela era popular, bonita e animada. Ela se interessou por Yusha em algum momento quando eles tinham 12.
Algo em Yusha chamava atenção de Yumi. Por isso ela se aproximou do garoto e foi a primeira real amiga dele. Talvez tenha sido curiosidade, ou admiração, porque apesar de suas dificuldades de lidar com suas emoções e de se relacionar, Yusha ainda era confiante, inteligente, corajoso e realmente se importava com ela mais do que seus outros amigos. E foram essas as características de Yusha que chamaram atenção de Yumi e fizeram ela gostar dele. Chegando ao ponto que atualmente ela é a única amiga que ele tem, e ele é a pessoa com quem ela mais passa tempo junto.
No fundo, o que mais Yumi quer é fazer Yusha se sentir bem e fazê-lo sorrir. Ela não entende porque ela quer isso, ela só sabe que quer proteger os raros sorrisos de felicidade do Yusha.
"Tá bom, eu já entendi, desculpa por ter te chateado." Ela disse olhando para baixo um pouco envergonhada.
Eles ficaram alguns segundos parados, enquanto Yusha olhava para ela.
"Eu não quero ir para a casa agora. Quero te mostrar uma coisa." Ele disse com um tom sério.
"O que?" Ela perguntou olhando de volta para ele.
"Só venha comigo." Ele pegou na mão dela, e a guiou ela até algum lugar.
Yusha segurava na mão de Yumi e eles caminhavam para um lugar que ela não conhecia bem. Ela não estava mais agarrada ao braço dele, mas gostou da atitude dele de pegar na mão dela, coisa que ele nunca tinha feito antes.
Eles subiram uma pequena colina. E Yumi ainda não tinha entendido o que eles estavam fazendo ali.
Quando chegaram no topo da pequena colina, Yusha disse:
"É aqui." ele disse com um leve sorriso.
"Aqui o quê?"
"É, eu realmente não te expliquei. Então faz o seguinte, senta no chão." Ele disse já sentando no chão. Ele olhou para ela e deu um sorriso, esperando que ela fizesse o mesmo.
"Tá bom Yusha, se é o que você deseja." Ela sentou,sem tirar os olhos dele.
"Agora a gente deita." e ele deitou na grama no topo daquela colina. Ele estava realmente aproveitando aquele momento.
E Yumi deitou ao lado dele. E nesse momento, quando olhou para cima, ela viu o céu mais estrelado e bonito que ela já tinha visto na vida.
"Ohhh, isso é...bonito" Ela disse lentamente.
"Sim, é." Ele disse deitado olhando para o céu.
"E porque você me trouxe aqui?"
"Você me convidou para um encontro, nós passamos um bom tempo juntos, e eu quis te mostrar um dos meus segredos. De vez em quando eu venho nessa colina, olhar para esse céu estrelado, e pensar na minha vida e no universo. E descobrir esse lugar me fez me interessar por astronomia, para saber o que são cada uma daquelas luzes." Yusha disse com um sorriso.
"Ah, então é por isso que você se interessa por astronomia."
"Sim, eu acho que esse é o motivo que me fez me interessar. E eu quis compartilhar esse pequeno segredo da minha vida desinteressante com você, como um agradecimento. E desculpa se as vezes eu pareço rude, frio ou que não ligo para você, eu só não sei me expressar bem."
Yumi achou aquelas palavras muito fofas vindo de alguém tão frio como Yusha.
"E obrigado também por ter me mostrado que jogar Monstros de Duelo era algo tão divertido" Yusha disse.
Yusha e Yumi haviam jogado várias partidas desde o primeiro duelo entre eles. Algumas Yusha venceu, outras Yumi venceu. Duelar foi uma maneira deles se aproximarem ainda mais.
"Me sinto honrada de saber que fui merecedora de saber desse seu segredo. E que você quis compartilhar ele comigo." Ela disse sorrindo. Mas Yusha não respondeu nada. Um vento passou e isso deu a eles uma sensação boa. Eles estavam aproveitando o momento.
E alguns minutos em silêncio se passaram.
Até que:
"Yusha..."
"Que foi?"
Ele estava deitado. Ela se virou e ficou por cima dele, com suas duas mãos uma ao lado de cada braço dele. Yusha ficou muito envergonhado.
"Yumi, eu não sei porque você fez isso, mas seja lá o que for fazer, faça direito e não se arrependa depois." Yumi ficou vermelha depois de ouvir isso.
"Yusha….eu"
"..."
"eu…..eu….." Ela estava muito nervosa para continuar. E Yusha também ficou muito nervoso.
"Yumi, eu sei que você gosta de mim. Pronto, não precisa sofrer tanto com essa pressão. Eu já sabia há muito tempo." Yusha disse ainda parado vendo ela em cima dele. Ele estava desconfortável e nervoso, porque não sabia o que dizer. Então ele apenas disse isso por impulso para aliviar a situação para eles dois.
Yumi ficou super envergonhada. Mas também ficou aliviada por Yusha saber o que ela sente por ele. Mas mesmo assim algumas poucas lágrimas saíram dela. Ela saiu de cima dele e ficou sentada chorando um pouco de costas para ele.
"Yumi, não aconteceu nada de verdade para você chorar." Ela estava de costas para ele, enquanto se levantava e se sentava no chão
"Você é um idiota, Yusha." ela disse.
"Por que eu sou um idiota?"
"Você foi insensível e tirou meu momento de confessar meus sentimentos para você".
Yusha pensou sobre isso, e viu que ela estava certa. Ele realmente tirou isso dela. Talvez aquele momento fosse mais importante para ela do que para ele. Ele precisava reparar isso de alguma forma. Por isso ele se levantou, foi até ela, chegou na sua frente, e se sentou. Yumi estava olhando para ele sem entender muito o que ele estava fazendo. Ele limpou as lágrimas delas com seus dedos e segurou nas duas mãos de Yumi.
"Pronto Yumi, fale o que você quiser agora. Eu não vou estragar seu momento." Ele disse com um sorriso olhando ela nos olhos.
"Tá bom" Ela olhou para ele, se acalmou, respirou fundo e disse. "Yusha, eu gosto de você " Ela disse muito envergonhada.
"Tudo bem Yumi, e eu estou feliz que você gosta de mim" Ele disse com um sorriso. E Yumi retribuiu com outro sorriso. "Mas e agora? O que acontece?"
"O que acontece? É óbvio o que acontece." Ela disse isso, mas ela mesmo não fazia ideia do que aconteceria. Ela olhou para baixo pensando um pouco. Até que disse a melhor ideia que veio a mente dela.
"Agora você me beija!" Ela disse franzindo a testa.
"Eu? Por que eu? Não foi você que se confessou para mim?" Ele disse com um sorriso debochado. Porque nem ele mesmo sabia o que fazer naquele momento, muito menos beijá-la
"Sim, mas você tem que me beijar."
"…..." Yusha ficou com uma cara surpresa e assustado.
Yumi fechou os olhos e fez um biquinho.
"Yumi, eu preciso ser sincero com você. Eu não vou te beijar. Não porque eu não quero, e sim porque eu não sei lidar com isso que você está fazendo. Eu nunca beijei uma garota, e nenhuma nunca se confessou para mim antes, eu não sei o que eu faço. Me desculpa, mas eu tenho di-" e nesse momento ela se aproximou, e deu um selinho nele que durou uns 5 segundos.
Depois ela se afastou e observou ele por um tempo.
Yusha estava confuso e um pouco assustado com o que acabara de acontecer.
"Obrigado Yumi... por me ajudar com... isso. Mas eu não posso... me relacionar com você dessa maneira. Eu só...não sei como fazer isso." Ele estava com dificuldade de entender o que estava acontecendo e não sabia lidar com a situação.
Yumi olhou para ele com um olhar melancólico e disse com um sorriso " Tudo bem, eu te respeito, vou esperar você estar pronto."
"Obrigado."
Os dois saíram da pequena colina com o lindo céu estrelado, e voltaram para as ruas, para irem para suas casas. Eles andavam de mão dadas.
Chegando na porta de casa da Yumi, ela disse.
"Então eu acho que é só isso, não é?" Ela disse, como se esperasse mais algo.
Yusha não sabia como responder a isso. Claramente parecia ter mais alguma coisa que ela queria, ela estava parada, mas ele não sabia p quê fazer.
Até que ele olhou nos olhos dela, e sentiu que ela queria outro beijo. Ele sentiu que essa era a coisa certa a se fazer. Ele foi em frente lentamente, e a beijou. Foi um beijo doce que durou alguns segundos.
Depois do beijo, ela disse " Obrigado por ter entendido. E obrigado por ter saído comigo" Ela disse com um doce sorriso. E Yusha retribuiu com outro sorriso.
"Eu quero te ver amanhã, no parque." Yusha disse.
"No parque? Tudo bem, a gente se vê lá amanhã, vamos jogar de novo." Ela disse.
Eles se despediram, Yumi entrou em casa e Yusha caminhou de volta para sua casa, pensando que esse era um dia que ele não queria esquecer.
