Parte 5: Uma pela Outra
Akio e Yuko olhavam de modo surpreendente depois do que ouviram, mas ficaram em silêncio.
"É verdade." Exclamou Usagi num tom triste. "Rei e eu nos amamos verdadeiramente. E sei disso porque quando penso nessa, meu coração dispara além do normal e fico ofegante. É como se eu sentisse um fogo me tomando por inteiro, mas de um modo confortante."
Rei falou em seguida. "Eu digo o mesmo. Usagi foi a primeira pessoa que sinceramente fez sentir-me amada. Quando tenho dificuldade pra dormir, os afagos dela me trazem a tranquilidade que preciso e assim, consigo dormir gostoso."
"Agora vocês sabem. O que temos uma pela outra é real, sentimos isso. Por favor, não fiquem bravos." Usagi falou quase chorando, juntando as palmas das mãos.
"Calma, Usagi, calma." Yuko acalmou-a. "Não estamos bravos. É que foi um choque saber disso. Sabíamos que vocês se gostavam, mas não pensamos que era tão profundo."
"De toda maneira," Prosseguiu Akio. "falamos que iríamos apoiá-las e era verdade. Mas acho que merecemos saber como isso começou."
Usagi e Rei concordaram. "Bem, faz alguns meses, uns três eu acho."
"Três meses? Não era nesse tempo que você e Mamo..."
"NÃO ME DIGA ESSE NOME." Gritou Usagi. "Ops. Me desculpem. Não queria ter gritado, mas foi uma coisa horrível com ele."
"Quão horrível foi isso, querida?" Yuko perguntou preocupada.
Flashback
Estava um dia de muito sol, brilhante e quente. Tinha tudo para ser um ótimo dia para os apaixonados, e era como Usagi se sentia, enquanto seguia para o apartamento de Mamoru, levando para ele uma caixa de doces de amêndoas com chocolate, seu doce favorito. Ela estava ansiosa porque iria sair com ele e não havia nada que pudesse estragar um dia tão bonito e com uma motivação tão maravilhosa.
Usagi chegou ao apartamento e foi logo entrando, já que tinha a chave. Passou pela sala e ia direto pra quarto de Mamoru, mas foi quando escutou uns gemidos vindo do quarto. Abriu uma fresta da porta e o que viu foi chocante: Mamoru estava na cama com uma bela ruiva, ambos quase nus e trocando beijos e toques sensuais.
"Escute, Mamoru." Perguntou a ruiva. "Tem certeza que quer isso mesmo? Você não tem namorada?"
"Fala da Usagi? Ela é só uma criança. Prefiro mulheres mais maduras. Sei que ela vai achar outro, mas do jeito que ela é volúvel, não creio que consiga uma relação fixa." Ele deu uma pausa e seguiu. "Bem, não falemos mais disso e comecemos nossos planos de viagem para a Europa, onde quero ficar apenas com você."
"Hmmm, eu te amo, Mamoru."
"E eu também te amo, Sissi. Sempre te amei."
Usagi não conseguia crer no que tinha visto. De tão magoada, nem teve força ou vontade de abrir a porta ou gritar. Em vez disso, só deu meia volta e saiu do apartamento. Ao chegar a rua, olhou a caixa de doces na sacola e abriu-a, degustando todos os doces, sem se importar que seu vestido novo estava ficando manchado de chocolate ou que o tempo começara a fechar. Ela só andava cada vez mais lentamente e os passos a guiaram até o parque. Chegando ao playground, sentou-se no balanço e lá ficou, nem ligando que a chuva começava a cair e cada vez mais forte, molhando-a. Finalmente lágrimas escorriam de seus olhos azuis, parecendo se misturar com a chuva.
Naquela hora, Rei corria o mais que podia para fugir da chuva que apertava mais, tendo grande dificuldade por causa das sacolas que levava num braço e segurando o guarda-chuva com só uma mão. Cortando caminho pelo parque, ela viu que Usagi estava sentada no balanço, totalmente indiferente da chuva que a encharcava.
"Usagi? Por que você está aí se molhando toda?" Rei perguntou preocupada, mas não teve resposta. Olhando melhor para ela, viu as lágrimas que caiam lentamente dos olhos da amiga. Com muito custo, Rei levantou Usagi e a levou para sua casa. Uma vez lá, a conduziu ao banheiro e lhe deu um banho quente e em seguida, roupas secas.
Rei fez um pouco de chá e encheu 2 xícaras, mas Usagi não parecia com vontade de beber. Isso a deixou preocupada.
"Usagi? Usa-chan? O que aconteceu, querida? Por que estava na chuva? Por favor, me conte."
"Foi Mamo-ch...digo, Mamoru. Ele...ele foi..." Olhando fixamente para a amiga, Usagi começou a falar, mas não conseguiu completar a fala e no instante seguinte, se explodiu numa crise de choro, jogando-se no ombro de Rei.
Usagi tentava falar, mas o choro sufocava todas as palavras. Rei a recebeu com um leve sorriso.
"Está tudo bem, Usa-chan. Pode desabafar e chorar tudo que tiver. Eu estou aqui."
Após uns minutos, Usagi finalmente pôde se acalmar e contou o que havia ocorrido: sua ida ao apartamento, a ruiva com Mamoru, o que Mamoru tinha dito.
Rei ficou furiosa com tudo aquilo. Como Mamoru teve coragem de fazer tal traição com alguém tão doce quanto Usagi? Uma menina pura, honesta e adorável, capaz de confortar e animar os corações mais duros e solitários. E nisso Rei tirava de letra, pois Usagi foi sua primeira amiga e mesmo com várias discussões e brigas, a considerava a pessoa mais querida de sua vida, junta a seu avô.
Usagi conseguiu tomar um pouco de chá e ficar mais calma, mas estava exausta e abatida demais, então Rei lhe preparou uma cama e a deitou.
No dia seguinte, Rei despertou e viu que Usagi ainda dormia. Se arrumou, deixou uma refeição para sua amiga e saiu, indo até o prédio de Mamoru. Foi logo até o apartamento dele, batendo na porta com muita raiva.
"Mamoru, seu desgraçado. Abre essa porta. Como pôde magoar a Usa-chan? Saia daí, seu maldito. Saí ou arrebento esta porta e te arrebento em seguida."
Mas ninguém respondia. Rei batia cada vez mais forte quando um homem de outro apartamento surgiu.
"Com licença, moça. Se estiver procurando o sr. Chiba, ele foi embora ontem de noite."
"FOI EMBORA?"
"Foi, sim. Ele cancelou o contrato de aluguel e partiu com uma bela mulher. Disseram algo sobre irem para Europa, e que não iriam voltar. Também pediu para dar isto para uma menina chamada Usagi." Ele mostrou uma mochila verde. "Tem tudo que pertence a ela. A conhece?"
"Conheço, sim. Minha melhor e mais querida amiga, e se por acaso o Mamoru ligar ou der alguma notícia, fale que se ele ousar voltar, terá alguém muito furiosa a espera dele." Dizendo isso e pegando a mochila, Rei foi embora.
De volta em casa, Rei viu Usagi na cozinha, comendo e um pouco mais animada do que estava ontem.
"Como está, Usa-chan?"
"Um pouco melhor. Obrigada por tudo."
"Quando quiser, querida." Usagi logo abaixou a cabeça, desanimando-se.
"O que há de errado comigo? Por que ele fez isso? Nem precisa dizer. Sou uma inepta, inútil, uma criança boba. Não tenho talento nenhum e não sirvo pra nada. Ninguém vai querer uma tonta para uma relação fixa."
"Usagi." Falou Rei num tom severo, segurando-a pelos ombros. "Nunca mais se atreva a dizer tais coisas. Tudo isso é mentira. Mamoru é um estúpido superficial, incapaz de ver o que existe de bom nas pessoas, especialmente em você, que é a garota mais amável, generosa, divertida, sincera e altruísta que eu ou qualquer outro já conheceu. Seria impossível não haver uma pessoa que não pudesse se apaixonar por você."
"Mesmo? Se puder me citar ao menos uma que me ame como sou, eu acredito."
De fato ela não esperava ouvir aquela citação, mas sabia que se não desse uma resposta, sua amiga nunca se recuperaria.
"Sim, Usagi. Há uma pessoa que te ama, e bem mais do que eu falei. E é..." Rei se segurou um instante, mas logo deu um passo a frente e beijou-a nos lábios. Usagi tomou um susto e sua primeira reação foi de fugir, mas se segurou. "R-Rei. V-v-você..."
"Sim, Usa-chan. Eu te amo de todo meu coração. A verdade é que todas aquelas brigas e discussões que tivemos foram pra disfarçar o ciúme que tinha por você e M...ele estarem juntos. Quantas vezes eu desejava expôr meus reais sentimentos a você, porém eu me contive porque para mim, a felicidade de quem eu amo é mais importante, mesmo que ele estivesse com outro. Sua felicidade é minha felicidade."
Tendo ouvido tudo isso, Usagi não sabia o que dizer. Sua amiga de todas as horas sempre nutriu tais sentimentos e os conteve em favor dela. Quando experimentou o beijo de Rei, reconheceu que nunca sentira nada igual quando estava com Mamoru, e vendo fixamente os olhos de Rei, percebera algo diferente, que nunca havia sentido. De modo que, sem aviso, se precipitou para cima dela e a beijou, agora com mais intensidade do que recebera. Ambos os lábios tinha um gosto doce, seguido dos movimentos de suas línguas, cada uma só se concentrando na garota à sua frente.
"Snif, snif. Eu amo você, Minha Rei, Por favor, nunca me abandone."
"Também te amo, minha coelhinha. Juro que ficarei com você. Te protegerei, te confortarei e te amarei."
Fim do Flashback
"Passamos aquele dia juntas o dia todo, e nos meses seguintes, nosso amor só aumentou. Nunca mais soube...dele, mas não me importo." Usagi pegou a mão de Rei carinhosamente. "Porque encontrei o amor nesta garota, que soube me aceitar por quem eu sou, e nunca fui mais feliz."
Akio e Yuko continuavam ouvindo silenciosamente tudo que as meninas diziam. Foi quando Akio decidiu que era hora de falar.
"Então foi por isso, filha, que nos pediu para adotar Rei?"
"Foi uma das razões." Respondeu Usagi com seriedade, mas logo mudou o tom para um mais suave. "Mas a verdadeira motivação foi que meu coração não suportava ver Rei triste por ter perdido o vovô e Yuuichirou naquele assalto. Só a ideia dela ir para um orfanato ou um lar adotivo que possivelmente não daria o amor que ela merecia me doía demais, principalmente depois de tudo que ela fez por mim. Por isso pedi que a adotassem, porque vocês seriam os pais certos para ela. Fiz isso por ela. Por favor, não nos separem." Concluiu Usagi abraçando Rei ternamente.
"Mas por que iríamos fazer tal coisa?" Perguntou Yuko, seguido de um largo sorriso. "Saibam, meninas, que estamos muitos felizes, e ao mesmo tempo, orgulhosos."
"Estão...orgulhosos? Por que?" Foi a dúvida de Rei.
"Por sermos os pais mais sortudos que poderiam haver, e por que? Porque nossas filhinhas são as meninas com os corações mais puros que existem, já que colocam a felicidade da amiga e irmã acima da própria. Cada uma só pensou no bem da outra. Esse é o verdadeiro amor. Se todos no mundo fossem assim..."
Akio logo falou: "E cada uma de vocês é tão importante quanto a outra para nós."
Rei disse um pouco apreensiva: "Mesmo eu, sendo que...?" Yuko a interrompeu.
"Amorzinho. Você pode estar conosco a pouco tempo, mas é como se fizesse parte da família desde que nasceu. Usagi tem sorte em ter alguém tão querida ao lado dela, e nós também."
"Tudo que queremos é a felicidade de vocês. Sejam como a quiserem viver, nós as apoiaremos: melhores amigas, irmãs, namoradas ou até irem além disso." concluiu Akio.
Rei não conseguiu conter mais a emoção e com lágrimas nos olhos, correu na direção dos pais adotivos e os abraçou fortemente.
"Papai. Mamãe."
Usagi não ficou parada e também foi abraça-los. Todos juntos pareciam uma só pessoa. O amor que emanavam era enorme. Yuko segurava as cabeças das filhas como se as ninasse.
"Ah, minhas bebezinhas."
A família ficou abraçada mais uns minutos e depois se soltou.
"Certo, meninas. Que bom que tudo se resolveu, mas é hora de dormir. Vocês tem escola amanhã cedo."
"A escola para mim não é mais preocupação. Agora estou pegando firme nas matérias." Falou Usagi com determinação.
"Pode ser, mas deveria melhorar sua pontualidade. Quase que preciso te acordar com um balde de água." Rei respondeu com certo sarcasmo. Usagi olhou com certa frustração.
"Rei. Como pode dizer isso? Sou sua namorada, e nós nos amamos."
"É verdade. Sou sua namorada, mas também sou sua irmã, e estou fazendo meu trabalho de irmã, ou seja, implicar com você."
"Ahhh. Você é uma chata."
"E você, uma bobona."
"Mais bobona é você, ou melhor, bobona e meia, já que se gaba de ser a mais velha, mesmo que só por uns meses de diferença."
"Humpt." Ambas disseram na mesma hora em que se viraram de costas e num minuto, se encararam com uma careta e mostrando a língua uma pra outra.
"BLÉÉÉÉÉ."
Assim ficaram por uns segundos enquanto Akio e Yuko observavam com uma gota de suor na cabeça. Yuko, com uma veia exposta na cabeça, mexeu o dedo negativamente.
"Meninas, meninas." Ela falou num tom de severidade. "Não é assim que mocinhas deviam se comportar. Parem com isso ou não vão namorar por um mês."
Usagi e Rei se voltaram para a mãe e se curvaram, com uma gota de suor atrás das cabeças e uma cara de arrependimento.
"Desculpe, mamãe."
"É. Nos desculpe, mamãe."
"Muito bom. É assim que eu gosto. Agora façam as pazes."
"Podemos fazer isso com um beijinho?" Usagi perguntou. Akio e Yuko consentiram.
Rei e Usagi se olharam e se beijaram na boca. Um beijo doce e intenso. Seus pais viram abismados.
"Ei. Disseram que podíamos nos beijar, mas não disseram como." Rei retrucou.
"Hã...bem...é verdade." Akio teve que reconhecer. "Mas, olhem. Se vão mesmo namorar, tentem ser discretas, tá? Se for no quarto, ou aqui em casa quando ficarem sozinhas, tudo bem. Só pedimos pra não darem na vista, está bem?"
As duas balançaram a cabeça positivamente e com alegria nos rostos, deram as mãos e foram para a cama. Rei logo saiu correndo na frente.
"Ei, isso não vale." Reclamou Usagi.
"Corrida para o quarto vale tudo. Blééé." Rei mostrou a língua e esticou a pálpebra para baixo, zombando de Usagi, que saiu atrás dela.
Akio e Yuko não podiam deixar de achar graça. "Mas que coisa. Se gostam como melhores amigas, amam-se como namoradas e mesmo com tudo, brigam como irmãs."
"Elas tem um amor muito especial. Lembra quando nos conhecemos na escola, querido? Eramos mais ou menos desse jeito."
"Com certeza lembro. E achei estranho você não ter ficado chocada com o beijo que elas deram."
"Já vi algo parecido. Tinha duas amigas no colegial chamadas Kiyone e Mihoshi..."
Já algumas horas depois, Rei e Usagi estavam deitadas nuas na cama, sem poder dormir. Usagi apoiava a cabeça num braço enquanto que com o outro afagava os belos cabelos negros de Rei, que estava muito à vontade com a cabeça deitava sobre os seios de Usagi, ao mesmo tempo que brincava com a longa mecha loira da namorada. As duas mostravam-se felizes.
"Como se sente, Usa-chan?"
"Mais tranquila, minha Rei-chan. Como se tivesse tirado-me um peso do peito. Claro que não me refiro a você, linda. Pode se apoiar em mim quando quiser."
"Eu também estou contente. Você estava certa. Mamãe e papai aceitaram de boa o que sentimos e como somos. Agora tenho tudo que queria: uma família amorosa e compreensível e uma irmã e namorada linda e gentil."
Usagi ainda tinha algo a dizer: "Olha, lembra quando papai nos falou sobre namorarmos ou ir além disso?"
"Claro."
"Então. Acha que nós um dia...?"
Rei se aproximou e beijou-a com paixão. "Nada me deixaria mais feliz. Eu te amo e aceitarei quando for a hora."
"Eu também te amo, minha cabecinha quente. Vou aguardar ansiosa." E com essas últimas palavras, as duas finalmente caíram no merecido sono.
Além do relacionamento de Usagi e Rei, sempre gostei do fato de haver uma relação entre Kiyone e Mihoshi de Tenchi Muyo, o qual pretendo retratar em futuras histórias.
