A dor da traição


Era como se houvessem inúmeras kunais envenenadas, cravadas ali em seu peito, esfolando insistentemente aquela enorme ferida aberta. Sua alma estava comprimida pela dor.

Sentia os olhos arderem, sua cabeça latejar e seu peito sufocava sem ar. O nó amargo em sua garganta dificultava sua respiração e o ar frio, entrava cortando seus pulmões ofegantes.

Sentiu o toque do vento gélido mostrando que o tempo esfriara consistentemente. Ela não se importava mais com nada.

Sentou-se na beirada do desfiladeiro e viu a enorme altura dos seus pés, que balançavam displicentemente, até o rio revoltado.

Lágrimas caíam-lhes, ferindo seus olhos como cristais de diamantes. Diante de seus olhos esmeraldinos cenas de sua vida passavam-lhes de forma vívida como se estivesse diante de Deus, no dia do julgamento final.

Novamente o vento cortante fez seus dentes trincarem num trepidar angustiante.

Sua vontade era jogar-se para dar fim àquela dor dilacerante que torturava-a.

Gritou a plenos pulmões ouvindo o eco de sua voz rasgada pela dor da traição.

Traição...

Uma dor insuportável, rasgou seu peito ao lembrar das cenas chocantes de seu marido a traindo com sua melhor amiga. Urrou de dor e desespero... foi uma traição em dose dupla.

Sentia-se sem energia e sugada depois de tudo que vira e presenciara. Gritou novamente enterrando os dedos nos cabelos e puxando-os com força, numa atitude desesperada e desnorteada, para tentar amenizar a angústia que prevalecia sob sua sanidade.

Olhou novamente para baixo e viu os pés balançarem ao vento forte e frio.

Suplicou pela morte... Ela seria sua companheira, fiel pela eternidade, ela seria sua doce cumplice e tiraria aquele enorme adaga enterrada em seu coração por aquele amor amaldiçoado, amor bandido que usurpou sua felicidade.

Por um lapso de sanidade implorou ajuda aos deuses ou de algum ser divino que pudesse a amparar.

Pela segunda vez, urrou de dor ampla e desesperadamente sendo imediatamente cortado pelo próprio choro alto e desnorteado.

Encontrava-se num transe alucinado tão intenso que não percebeu duas mãos quentes a puxarem, arrastando-a para afasta-la de perto do desfiladeiro e depois, a abraçando com força.

Não se importou em ver quem era. Acreditou ter sido ouvida pelos deuses que apiedaram-se de sua vil existência.

Aceitou o abraço apertado e permitiu-se extravasar toda sua dor na camisa negra. Seus ouvidos sensíveis captaram um timbre melodioso, grave e calmo:

- Graças a Kami, cheguei a tempo. Chore o quanto precisar, estarei sempre a apoiando.

O homem sentia o coração cortar ao ver a ex aluna naquela angustia horripilante.

A garota tinha a vista nublada e cansada mas conseguiu encarar o rosto de seu salvador e se deparou com um par de belos olhos negros cujos filetes acinzentados davam um ar misterioso a sua íris preocupada. Os cabelos prateados ainda estavam molhados e a máscara escura que ocultava sua bela face era sempre presente.

- Você é jovem, linda e forte. A kunoichi mais forte que eu conheço depois da Hokage. Vai conseguir se erguer. A melhor vingança, nesse caso, é ser feliz, mostrando o quanto está melhor sem ele. – o rapaz prateado disse aquelas verdades com intensidade no timbre da voz.

O cheiro de suas próprias lágrimas davam náuseas a ela mesma. Afastou-se dele para expurgar um líquido verde e amargo que havia dentro do estômago. Encarou-o antes de cair desacordada sendo amparada novamente por ele.

Rapidamente, ele enlaçou sua cintura para leva-la para um lugar seguro. Correu o mais rápido que pode por entre as árvores indo em direção à casa do antigo aluno. Passou pelos guardas do portão dirigindo-se para lá.

Bateu à campainha com dificuldade tomando cuidado para não machucar a bela e doce flor de cerejeira desmaiada e abatida.

- Kakashi! Você a encontrou. Graças a Kami! – disse a mulher de olhos claros, cabelos lisos, loiros e compridos presos em dois rabos para trás das costas e um losango na testa.

O ninja entrou e deparou-se com um outro par de olhos azuis aliviados e outro perolado amamentando o primeiro filho.

- Por favor, sensei. Poderia leva-la ao quarto?

Ele fez isto, imediatamente com a rapidez característica de um ninja.

Deixou-a na cama aconchegante do quarto de hóspedes e antes de sair acariciou seu pálido e abatido rosto com um suspiro. Abaixou a máscara negra e deixou um cálido beijo em sua testa. Saiu em direção a sala onde estava o loiro, a esposa e a quinta Hokage, todos a sua espera.

- Onde ela estava? – pergunta o loirinho com a voz embargada em preocupação.

- Na beirada de desfiladeiro. – disse fazendo todos se assustarem.

- Não me diga que...?

- Sim ela estava prestes a pular, foi de cortar o coração. Estou por um tris, segurando-me para não mata-lo. – o homem disse indignado.

- Crápulas... como puderam fazer isto com minha pupila? – a loira cerrou os punhos. – Vou mata-los com meus próprios punhos.

- Melhor conversar com Sakura, quando despertar. – disse Naruto.

- O que fará, quinta? – o prateado perguntou preocupado.

- Farei o que ela decidir, no entanto, contra minha vontade terei de avisar ao miserável do marido que a encontramos. Ele ainda é seu esposo por lei.

- Mesmo discordando sobre avisar a ele, é a lei.

- Vou vê-la. – a loira disse angustiada. – Seria melhor ela ficar aqui, Naruto.

- Com certeza. – ela nem dignou-se a olha-lo, tamanho era sua preocupação. Saiu apressada em direção ao quarto.

- Tsunade-sama certamente saberá o que fazer com ela. Estava transtornada em desespero. – Kakashi disse já de costas para o loiro que lançou-lhe um olhar apreensivo. - Vou deixa-los, a sensatez manda eu ir embora. O melhor é não ver Sasuke por um tempo. Não conseguirei me controlar. Irei acabar lutando com ele. Qualquer coisa, me chamem sem hesitar. - O rapaz prateado saiu o mais rápido que pôde. Não queria ficar para olhar a cara insossa de Uchiha Sasuke. Depois de tudo o que ele fez, não compreendia como Naruto conseguia ser tão complacente e o perdoar de uma forma tão inconsequente. Ele mesmo já havia errado na vida, mas nunca chegou tão longe quanto o Uchiha. Não seria capaz de chegar tão longe!

Mais parecia a ele, que o clã Uchiha tinha a traição e a obscuridade como fatores preponderante em sua genética.

Foi caminhando, pesaroso, para seu apartamento tentando entender como aquele homem de olhos escuros teve a coragem de fazer algo tão mesquinho: trair a pessoa que mais o amava no universo com sua melhor amiga. Analisando melhor ainda chegou a pensar que com uma melhor amiga assim não se precisava ter inimigos. Ela não foi forçada a se deitar com ele, foi porque o quis.

Entrou em seu apartamento e tomou uma ducha fria. Queria afastar aqueles pensamentos de sua cabeça.

Passadas algumas horas, Sakura abriu os olhos e assustou-se não reconhecendo onde estava. Sua cabeça batia como uma ladainha, doía e latejava. Sentou-se na cama, passou a mão nos cabelos róseos. Imediatamente lembrou-se das palavras e do olhar preocupado de seu sensei. Ele deve tê-la trazido até ali.

As palavras dele martelavam-lhe o cérebro e ele estava coberto de razão. Sentiu vergonha de si mesma...

Ela era Sakura e em suas veias corria a força dos Harunos. Kakashi estava certo, a melhor vingança era dar a volta por cima e ser feliz por ela mesma, iria fazer isto. Esta seria sua nova meta de vida, eles não mereciam mais suas lágrimas, só seu desprezo. Arrumou seus cabelos, levantou-se, ajeitou sua roupa. Suspirou e disse em voz alta, firmemente:

- Darei a volta por cima ou não me chamo Haruno Sakura.

Fechou o punho e dirigiu-se à porta branca, abrindo-a. Reconheceu onde estava. Era a casa de Naruto e Hinata. Caminhando decidida, entrou no banheiro que havia no piso superior. Lavou o rosto e olhou-se no espelho. Observou a péssima figura que estava. Olhos inchados, nariz vermelho, olheiras em baixo dos olhos e vergalhões avermelhados no rosto causados pelo profundo estado de nervos que esteve no último dia.

Como ela podia ter pensado em dar fim a própria vida? Que direito ela tinha de fazer isso? Muitas pessoas dependiam dela. Envergonhou-se encarando as próprias orbes esmeraldas através do espelho. Disse em voz alta para seu reflexo, tocando o espelho com a mão ainda trêmula enquanto com a outra mão tocava o próprio coração.

- Eu juro a mim mesma que serei feliz e que darei a volta por cima. – pronunciou cada palavra com extrema intensidade, sentindo profundamente cada uma. – É uma promessa e um pacto que faço comigo mesma.

Respirou fundo e saiu do banheiro. Dirigiu-se para as escadas e começou a descer mais vagarosamente ao ouvir vozes masculinas. Foi parando ao reconhecer o timbre das vozes.

- Ela é uma inútil, Naruto. Não serve nem para me dar um filho.

- Cale-se, seu babaca estúpido. Não admito que fale assim de Sakura dentro da minha casa. Quem você pensa que é? No mínimo tivesse a decência de ter se separado antes.

- Cale-se você. Eu não quero me divorciar. Gosto de tê-la assim onde está.

- Então, não a traísse.

- Já disse... ela é seca.

- Seu grande filho da puta. - Agora você acha o que? Acha que tudo permanecerá como antes?

- Já fiz coisas piores e ela me perdoou. Porque agora seria diferente?

- Maldito egoísta, como pode falar isso? – gritou cuspindo as palavras e fechando o punho para bater nele mas ficou pálido e paralisou quando viu a figura rosada em pé no degrau inferior das escada, ouvindo toda aquela discussão sem sentido. Sasuke virou-se, encarando-a.

- Sakura! Venha aqui. – Sasuke disse calmamente. – Vamos para casa, precisamos conversar civilizadamente.

Ela simplesmente lançou-lhe um olhar de cima a baixo com nojo estampado no rosto, não lhe dirigindo a palavra.

Virou para o amigo loiro e sorriu. Era um dos seus melhores sorrisos falsos.

- Pode vir comigo e me ajudar com algumas coisas?

O loiro a olhou sem entender. Mas não ousou contra argumentar.

- Sim. Ajudo em tudo que você precisar!

- Sakura. – gritou o moreno e segurou seu braço com força. – Não me ignore.

A kunoichi lançou-lhe um olhar capaz de congelar até as labaredas do inferno. Ele estremeceu, soltando-a imediatamente. Nunca a viu com aquele olhar assassino antes.

- Eu o aconselho a nunca mais tocar-me ou dirigir-se a minha pessoa, Uchiha-san. Aparentemente não sou a parideira que você esperava. Sinta-se livre para reconstruir seu digníssimo clã com as vagabundas que mais lhe satisfizerem. Cuide da sua vida e saia da minha frente, Uchiha Sasuke. Não lhe devo nenhuma satisfação. – disse cada palavra tremendo de ódio.

- Você é minha mulher. Como não me deve satisfação?

- Você tem algum problema mental, patife bipolar? – passou por ele resmungando e dirigiu-se ao loiro, ignorando o moreno – Sei que você tem mais com o que se preocupar, meu amigo, mas pode me dar uma mão. Quero pegar minhas coisas o mais rápido possível.

- Você não vai pegar nada. Não vou aceitar isso... Uchihas não se separam. Não aceitarei um divórcio. – disse dando um passo em sua direção.

- Quem você pensa que é? Nunca mais vou chorar por você... Esqueceu que foi flagrado na cena do crime? Maldito! Sim... você quer o divórcio por bem ou por mal. Desapareça da minha frente e nunca mais fale comigo.

Ele sentiu um calor de raiva subir por sua espinha e saiu batendo a porta com força.

- Eu nunca mais vou chorar por ele, Naruto-kun. Juro que nunca mais.

Manteve-se firme e segura com os punhos fechados.

- Poderia me acompanhar?

Naruto a abraçou com força.

- Claro, Sakura.

- Só quero que a Hogake acelere meu divórcio o mais rápido possível. Não quero mais nada com o nome Uchiha em minha vida. Arrependo-me de ter feito tantas coisas e aberto mão da minha adolescência por ele.

- Não diga isso. Você cresceu e se tornou uma incrível mulher. Há coisas que nos fazem ser mais fortes na vida.

- Vamos. Quero pegar minhas coisas.

Continua...