Capítulo 22 - O desespero de Sasuke

- Imprudente... Irresponsável... Imbecil... Inconsequente...

Sasuke resmungava em voz alta e andava em círculos dentro da sala de sua casa.

- Como pude cair na conversa daquela Karin? Como pude fazer isto com a minha rosada? Como pude perdê-la para meu próprio professor? Como pude ser tão estúpido?

Uchiha Sasuke gritou e ouviu a própria voz rebater nas paredes da casa voltando para si.

- O que eu faço agora? O que devo fazer? – tremia descontroladamente.

- Preciso de ajuda Kamisama... se você existe, me ajuda. – esta foi a primeira vez em sua vida que rezava aos deuses.

Sozinho e desolado, sentou-se na poltrona e chorou arruinado, protegendo a cabeça com ambas as mãos. Sentia-se afogado dentro de uma convulsão de lamento.

Ficou assim um certo tempo sem saber o que deveria fazer. Extravasou toda a raiva contida dentro de seu peito em lágrimas.

Gritou desnorteado...

Aquilo era algo que havia feito duas vezes na vida, quando viu a morte de seu clã e depois de ter morto o irmão, descobrir a verdade. Gostaria de entender por que a sua existência era tão dura e vil?

A razão mandava que ele primeiro procurasse a Hokage. Ela era uma médica magnífica e poderia confirmar se o que Karin disse e o que viu era verdade, depois veria o que fazer. Na verdade ele queria que fosse tudo mentira.

Esperou um pouco como a quinta havia pedido e antes de anoitecer foi a sala da Hokage imediatamente.

- Com licença. – abriu uma fresta da porta, parcialmente.

- Sasuke? Entre! O que quer? – a loira foi bem direta. Naruto que já estava de volta depois de levar os três ninjas patifes para a prisão, elevou a cabeça e deu um sorriso para o moreno.

- E ai, Sasuke? Tudo beleza? – cumprimentou-o.

- Não, tudo horrível, pior impossível. Estou vivendo um pesadelo acordado na terra – ele respondeu ríspido e Tsunade olhou-o. Tinha olheiras fundas e a boca seca. Estava magro e curvado para frente. Nitidamente, passara a noite acordado.

- O que aconteceu, Sasuke? – Naruto perguntou preocupado observando a mesma coisa que a Hokage.

- Vou ser direto e tentar explicar sem rodeios. Karin me disse ontem que eu tenho problemas de... fertilidade. – sua a respiração era ofegante e ele suava frio. Falar que poderia ser infértil estava sendo muito difícil para ele.

- Mas como? – Tsunade pergunta sem entender, embora já suspeitasse tudo era um mistério.

- Ela me contou e eu mesmo vi o que ela fez. Ela dopou-me e retirou meus... sémens sem que eu percebesse e fez uma inseminação artificial nela mesma.

Tsunade e Naruto deixaram a boca entreabrir ligeiramente. Aquilo era realmente algo inacreditável.

- Preciso confirmar se tenho mesmo este problema e se isto for verdade o que posso fazer? – Tsunade levantou de sua cadeira e suspirou cansada.

- Só conseguirei examiná-lo amanhã. Venha aqui o mais cedo possível.

- Hm – fez o seu característico e indecifrável som, virou-se e saiu...

...

Sakura e Kakashi estavam reluzindo em esplendor e felicidade. A primeira coisa que a rosada fez foi visitar Hinata e Naruto para contar a novidade. Já era noite quando o casal apareceu para uma visita.

Hinata estava amamentando o esfomeado Boruto quando o sino da campainha tocou. Naruto babava ao observar a esposa amamentar o pequeno Naruto-mirim. Levantou para atender a porta.

- Sakura-chan... Kakashi-sensei... que ótima surpresa. Sejam vem vindos, entrem.

- Você está linda, Sakura. – disse Hinata com um largo sorriso.

- Obrigada, Hina-chan. Viemos contar a vocês duas novidades. – Kakashi deixou que a noiva falasse. – Primeiro, estou grávida. – disse sorrindo.

- Oh, Sakura-chan... que maravilha. Fico muito feliz por vocês – a perolada sorria muito. A amiga merecia isto depois de tudo que sofreu.

- ... E de gêmeos... – Sakura alargou ainda mais o sorriso mostrando todos os dentes.

- Ora, Kakashi-sensei... você não brinca em serviço. – Naruto abafou um risinho safado.

- Mas nem por um segundo! – ele comentou com um ar charmoso, demonstrando o sentido oculto da frase, procurando entrar na brincadeira do loiro.

- Pior que é mesmo. – Sakura murmurou tão baixo que só Hinata ouviu, corando.

- E como se sente, Sakura. – Naruto perguntou pois sabia profundamente de todo o sofrimento que a rosada tinha passado por achar que nunca seria mãe.

- Você sabe como estou, mal consigo caber dentro de mim. Juro que achei que nunca seria mãe, muito menos de gêmeos.

- Kakashi-sensei - Naruto o abraçou apertado, dando-lhe umas palminhas em suas costas. – Parabéns, sensei. Como está aí dentro?

- Eu estou tão feliz que nem sei me expressar direito pra falar a verdade. – ele riu por baixo da máscara e coçou a nuca ligeiramente constrangido.

- Ele está todo orgulhoso. – Sakura respondeu para o noivo e entrelaçou seus dedos aos dele. - Nunca o vi mais abobalhado, ele não me deixa nem lavar a louça e só falta me carregar pela casa pra cima e pra baixo. – Hinata soltou uma gargalhada tímida e foi acompanhado por Naruto que comentou.

- Entendo o que está sentindo, Kakashi-sensei. Espera nascer pra você ver a emoção. Realmente, estou muito feliz por vocês. No caso será em dose dupla! A barra vai ser na hora de amamentar, mas... acho que vocês dão conta do recado. – Naruto proferiu um discurso bem diferente do que havia dito a Sasuke.

- E quando vão se casar? – Hinata pergunta.

- Sim... este é outro assunto que viemos falar com vocês. Vamos nos casar no fim desse mês e gostaria que Hinata, Naruto e Shishou ocupassem o lugar da minha família já que só restou a mim.

- Nossa, Sakura-chan, será uma enorme honra. – disse Naruto todo emocionado.

- Precisa correr então, com os preparativos. – Hinata animou-se, dando um pulinho empolgado, quando se lembrou do próprio casamento.

- Sim... poderia me ajudar?

- Claro. Será lindo! Como vocês pensam?

- Casamento tradicional com direito a festa mas tudo bem discreto, somente para os amigos mais íntimos.

- Então temos que correr mesmo. Vou falar com Tenten e mais algumas meninas para ajudar. – a morena se endireitou e deixou seu pequeno bebê no carrinho.

Naruto ficou observando a alegria da amiga de infância e seu antigo professor. Quem iria imaginar isto? Sua antiga paixão de infância, extremamente obcecada pelo antigo companheiro Uchiha estava noiva e carregava duas crianças de seu antigo professor. Isso o fez lembrar do ocorrido mais cedo na sala da Hokage. E ele ficou um certo tempo indeciso em se contava ou não. Por fim decidiu que a amiga tinha o direito saber a verdade.

- Saruka... – Naruto a chamou sério – preciso te contar uma coisa muito desagradável e, bem... bastante triste. - Naruto a encarou bem dentro dos olhos. - Hoje logo cedo, Sasuke foi conversar com Tsunade-oba-san para pedir ajuda. Ele estava horrível, olheiras nos olhos, magro como uma pessoa doente. Ele comentou que ele era estéril e que Karin o enganou, pegou seus sémens às escondidas e fez uma inseminação artificial.

Sakura levou ambas as mãos a boca sem acreditar e engoliu o som estridente da própria voz. Lembrou da única vez que ousou levantar estas suspeitas e que ele quase a enforcou e lhe bateu. Logo a seguir, vieram uma avalanche de pensamentos e episódios de sua vida, passando como um flash back. Ficou segundos em prostração sem dizer nada vendo aquelas cenas em sua cabeça. Sentiu o toque sutil do noivo em sua pele a acariciando mostrando para ela o caminho de volta. Ela piscou inúmeras vezes...

- Não posso acreditar nisso, como ela fez? Como isso é possível?

- Não sei os detalhes e não falei com Tsunade-oba-san depois mas achei que depois de tudo que ele te fez, você devia saber. Vovó Tsunade o obrigará a passar por terapias psicológicas e psiquiátricas novamente e ele continuará afastado de todas suas funções até o médico responsável julgar que ele tem condições.

- Estou completamente chocada. – ela disse ainda em estado de catarse.

- A vida é assim mesmo, meu bombom de cereja, não dá descanso. Eu lembro muito bem que o avisei que o caminho que ele escolheu de obscuridade iria destruir a vida dele completamente e ele nunca me deu ouvidos. As coisas acontecem para nos mostrar o que fazemos de errado ou certo. Espero que agora sua arrogância diminua. Por mais que ele tenha feito todos sofrermos, ele foi meu aluno e é muito doloroso ver qualquer um de vocês mal.

- Eu compreendo, sensei. – Naruto disse cabisbaixo. – Mas... deixem isto pra lá e vamos voltar ao casamento de vocês. – o loiro sorriu tentando recobrar a boa vibração anterior.

E passaram a conversar como quatro pessoas muito animadas. Na verdade, Hinata e Sakura quem estavam muito animadas, já resolvendo as flores e detalhes da cerimônia de casamento...

...

Sasuke já não sabia mais o que fazer. Voltou do escritório da Hokage e não parava de tremer. Já era noite e a única pessoa que conseguia pensar em seu auxílio era em Sakura. Mas ele a perdera definitivamente para o ex-sensei, admitira a si mesmo sua derrota e jurou não importuná-la nunca mais. Sakura estava completamente indisponível, apaixonada até o ultimo fio de cabelo por Kakashi.

Lá no fundo de seu cérebro desnorteado, a imagem meiga e maternal de sua medica, surgiu como um alento, um ar de frescor.

Movendo-se como um zumbi, procurou o pedaço de papel que havia guardado com endereço que a médica lhe dera uma vez, dizendo que se ele precisasse, fosse o que fosse, poderia procura-la.

Akemi, além de ser uma pessoa compreensiva, era sua psiquiatra. Sem pestanejar ou pensar muito suas pernas o guiaram até a casa da medica, até o numero indicado. Tocou a campainha.

Rapidamente a porta foi aberta e ele viu sua médica vestindo um avental de cozinha com o símbolo de seu clã, uma flor-de-lis.

- Sasuke!? – ela assustou-se com o estado calamitoso do rapaz - O que aconteceu? Por que está assim?

- Dr. Hana... preciso de ajuda! – a voz saiu doentia e extremamente dolorida. - Desculpe, não sabia mais a quem recorrer.

- Entre, por favor, sente-se.

Imediatamente a porta da sala foi aberta e o homem entrou abatido e apático e sentou-se como ela pedira.

Não conseguiu se segurar, chorou como uma criança órfã...

- Calma, querido. – ela aproximou-se e, sentando-se ao seu lado, afagou seus pesados cabelos negros como uma mãe acaricia a um filho machucado - Conte-me, o que aconteceu?

Ele não conseguia falar... chorava copiosamente...

- Acalme-se, Sasuke. Está me deixando preocupada.

Ver um homem tão orgulhoso como era Sasuke debulhar-se em prantos, era de sentir pena. E aquilo era realmente preocupante, mas mostrava dois pontos positivos: o quanto ele confiava e a respeitava e o quanto ele estava mudado.

Ela ficou acariciando seus cabelos até que ele se acalmou um pouco.

- Olha, estou terminando o jantar. Me acompanha? Comer sozinha é bem chato.

Ele não disse nada e a seguiu...

Os olhos parados em algum lugar da casa a estavam preocupando. Ela, vez ou outra, olhava-o de rabo de olho. O que poderia ter acontecido? Perguntava-se ela.

Akemi encheu duas vasilhas com sopa confortante e quente e deixou uma delas em frente ao moreno. A movimentação o tirou de seus devaneios.

- Obrigado. – ele disse movido ao automático.

- Coma tranquilamente, conte-me o que aconteceu quando conseguir. Não se force. Estarei esperando seu tempo.

Eles comeram em silêncio até a metade do ensopado...

- Hoje cedo fui visitar Karin. Estava decidido a tentar recomeçar com ela minha vida e procurei ser atencioso. – ele a encarou – Karin, sem querer, soltou um desabafo dizendo que... eu sou... estéril.

Respirava ofegante e pesado enquanto falava. Akemi arregalou os olhos.

- Mas como isso pode ser possível?

- Eu não acreditei e vi com meu próprios olhos. Ela fez uma inseminação artificial sem meu consentimento e nesse dia descobriu que a... Sakura não engravidava por isso, minha culpa, minha causa.

Akemi tapou a boca com ambas as mãos. Sabia o quanto reconstruir o clã era uma questão essencial para manter a mente do Uchiha sã. Sasuke continuou:

- Eu sou o único culpado por Sakura não ter engravidado. Eu sou o único culpado por ela estar agora apaixonada por Kakashi. Eu sou o culpado... Eu... não deveria existir! Itachi devia ter me matado junto com meu clã. – concluiu com lágrimas que escorriam e pingavam dentro do alimento, esfriando completamente a sopa.

- Calma... não fale assim. Vá procurar Tsunade.

- Já fui mas terei que voltar amanhã.

- Mas isto não é o fim do mundo. Se ela conseguiu engravidar uma vez, mesmo através de uma inseminação, conseguirá outra. Ela é uma Uzumaki afinal.

- Eu quase a matei, tamanho ódio que senti. Senti-me traído. Ela tinha que ter me contado.

Akemi suspirou...

- Sasuke... sinto dizer mas, tanto você quanto Karin precisam de um acompanhamento integral. Vou deixa-lo pensar um pouco por um tempo mas terá de ficar internado. Terei de intensificar seu tratamento e me ocupar a direcionar Karin para um terapeuta. Vá falar com Tsunade e confirmar sua situação e depois quero que volte para o Hospital.

Ele não disse nada, via suas lágrimas pingarem no ensopado formando ondas que batiam na borda da vasilha. Manteve-se absorto naquele movimento e as pequenas ondas criadas por suas lágrimas os fez concluir:

"Parece que a ressonância de minhas atitudes são como as ondas dentro desta vasilha e estou colhendo o fruto dos meus erros. Ainda bem, que uma hora isso parece que acaba!"

Ficou segundos assim até seus olhos se secarem e ele se acalmar.

Seguiu para sua casa, precisava ficar sozinho. Precisava pensar...

Continua