A notícia sobre o sequestro repercutiu na mídia menos pela violência em si e mais por se tratar da mulher mais jovem a ser CEO de uma empresa tecnológica de sucesso no país. Ela extrapolou a cidade e atingiu o nível do estado. Apareceu aqui e lá em noticiários de abrangência mais regional.
E na era da informação e da tecnologia, qualquer mínima especulação afetava o mercado.
Com a Smoak Technologies não foi diferente.
Felicity bem que queria ficar na cama o dia seguinte inteiro, ainda mais tendo dormido menos do que o necessário para se recuperar. Se ainda fosse uma analista de TI, talvez poderia, mas, como CEO, sabia que não.
Seu corpo estava dormente enquanto ela se arrumava. Mal prestou atenção nas roupas que pegou no closet.
Seu cérebro, por sua vez, não demorou a ligar e a disparar pensamentos na velocidade da luz.
Depois de resgatar o que fora vasculhado de seu laptop, Felicity o desativou. Ficou aliviada ao ver que nada grandioso tinha sido roubado. No entanto, não teve a mesma sorte com os milhares de dólares. Após ser transferido para a conta que Knight lhe dera, o dinheiro foi movimentado para outras contas, chegando até mesmo a ser fracionado. Foi aí que ela teve que expandir seus algoritmos para três rotas diferentes. Ela só conseguiu recuperar onze mil, pois os outros rastros sumiram. Teria que investigar mais a fundo e, naquela altura, até mesmo sua brilhante inteligência começou a sofrer os efeitos da exaustão e ela decidiu dormir.
Agora ela ficava pensando em outras maneiras de solucionar o mistério.
Felicity pegou uma bolsa e uma carteira antigas. Sorte que tinha um pouco de dinheiro vivo em casa, além de um cartão de identidade antigo do MIT. Ela bufou, pensando no esforço que teria pela frente para recuperar os documentos.
Ao sair de casa sob um céu cinzento, Felicity encontrou a viatura policial, mas não era a dupla que a trouxera no dia anterior. Falou para eles a acompanharem até o trabalho e depois estariam dispensados. Ela ainda estava abalada, porém não ficava confortável de estar abusando de dois policiais como suas babás. Além do mais, o prédio da empresa tinha sua própria segurança.
Ela pegou um táxi para o trabalho. O tempo todo lançava olhares de esguelha para o motorista, monitorando seus movimentos. Ela detestava a sensação de insegurança e de falta de confiança. Porém permitiu-se senti-la. Só assim para superar.
Felicity não ia viver eternamente com medo.
No prédio da Smoak Tech, ela entrou e foi direto para recepção pedir um cartão temporário. Um dos seguranças, um que ela sempre cumprimentava e trocava algumas palavras, perguntou-lhe se estava bem e ofereceu qualquer ajuda que precisasse.
No caminho até o escritório, recebeu alguns olhares e alguns cumprimentos. Seu assistente executivo já estava sentado à mesa quando ela chegou.
- Bom dia, Jerry.
Jerry prontamente levantou e a acompanhou para dentro do escritório. Tendo estado com Felicity há anos, Jerry conhecia a chefe o suficiente para saber que, por mais que um trauma justificasse a ausência do trabalho, ela não deixaria de vir hoje. Então ele nem mencionou isso.
- Bom dia, Srta. Smoak. Vou evitar perguntar como está. Aposto que já ouviu muito isso hoje. Mas espero que esteja bem, na medida do possível.
Ela respondeu com um pequeno sorriso.
Ao invés de sentar à sua mesa, Felicity rumou para o conjunto de poltronas e sofá que se localizava no centro do aposento. Ela largou-se numa das poltronas cor de creme. Jerry sentou em outra.
- Jerry, acredito que hoje vai ser um dia mais complicado que o usual, então aguente firme comigo que vamos conseguir.
- Tô aqui para isso.
- Então, como foi ontem? – ela nem precisou elaborar muito para que ele entendesse.
- Eu soube que algo estava errado quando o pessoal da Starling University ligou perguntando sobre seu atraso. Tentei te ligar, mas nada. Só por volta das duas horas quando vi na internet o tiroteio no Starling National que eu comecei a me dar conta. Logo o Sr. Holt veio aqui um tanto exasperado perguntando por você, pois ele soube que havia um carro muito parecido com o seu no local. Por sorte, você não tinha outros compromissos externos, mas deixei alguns de sobreaviso. Depois que as notícias começaram a sair nos jornais, nós tivemos certeza de que você estava envolvida. Aí as coisas ficaram caóticas. Recebi ligações de outros diretores, até mesmo de gente de fora, como o Sr. Palmer, Sr. Steele... Disse que o que sabia era o que foi divulgado. Liguei até mesmo para a universidade. Eles entenderam que não foi sua culpa. Acredito que o projeto não esteja perdido. Passei do meu horário, mas consegui conter a maré.
- Você realmente não precisava, Jerry. – ela disse, gentil. Felicity não permitia que ele passasse do horário, mesmo quando ela mesma ficava no escritório até tarde, mas às vezes ele insistia, e ela sempre ficava incomodada de estar abusando dele.
Desde o início da empresa, Felicity tinha uma resolução em mente: tratar todos seus funcionários como seus iguais, independentemente de hierarquia. Procurava manter uma relação linear, mais acessível. Ela fazia questão de conhecer pessoalmente todo mundo, desde cada novo contratado até os zeladores. Queria uma empresa que pensasse em seus empregados como humanos, acima de tudo, não como recursos iguais a móveis e cadeiras, como acontecia em muitos outros lugares.
Não era surpresa, então, que naquele ano a Smoak Tech concorria a um prêmio de melhor ambiente empresarial para trabalhar do país.
Felicity tinha planos voltados para o bem-estar dos funcionários, tais como espaços de recreação e descanso e até mesmo uma possível creche para facilitar a vida dos pais. Porém, ainda estava focada em capitalizar a empresa. Era uma questão de tempo até que a empresa se consolidasse cem por cento como potência e aí ela poderia tocar seus projetos internos com mais tranquilidade.
- Não foi nada. Já era uma preparação para hoje.
- A reunião da diretoria continua de pé? – Felicity perguntou já prevendo a resposta.
- Sim. Vai querer cancelar?
- Não, deixa. Minha vida não parou, então a empresa também não. Hoje não tem nenhum compromisso externo, certo?
- Não, só amanhã.
- Certo. É o seguinte. À tarde, vou priorizar resolver meus problemas. Encomendar um celular novo, um computador, uma carteira. Tenho que tirar uma nova via de identidade. Acho que tem que fazer um pré-cadastro online. Veja isso para mim, por favor. Também tenho que pegar meu carro de volta, passar no banco... Você entendeu. Neste momento, vou entrar em contato com a universidade e salvar o negócio. Vou ter pouco tempo para ver a pauta da reunião e anotações, mas vai ter que ser assim. Mantenha meus compromissos até segunda ordem. – ela se levantou, já no modo empresária.
Jerry também levantou e se encaminhou para a saída. Ele se virou para a chefe uma última vez.
- Ah, a Diretora Holgarth te procurou ontem, não muito depois que você saiu. Não informou o que queria.
- Chame-a para mim, por favor.
Jerry saiu, fechando a porta atrás de si. Felicity abriu as persianas da janela antes de se sentar à mesa. Um chuvisco caía lá fora.
Felicity ligou para o Departamento de Engenharia Biomédica da Starling University. O chefe do estudo com quem ela encontraria no dia anterior foi solícito e entendeu sua situação. Ela comemorou a vitória internamente. O projeto consistia em pesquisar e usar chips para ajudar a restaurar lesões na espinha. Usar a tecnologia para melhorar a vida das pessoas, em especial na saúde, foi o que inspirou Felicity a criar a empresa. E agora tinha o pontapé inicial para concretizar esse sonho. Um dia, Felicity esperava achar um jeito de tornar tais dispositivos mais acessíveis para as pessoas.
Pouco tempo depois de ter aberto as anotações para a reunião do conselho, Alena apareceu no escritório.
Alena era mais que empregada de Felicity, era uma grande amiga. A história delas começou quando, num dia de tédio e vinho tinto, Felicity voltou a dark web depois de anos de hacktivismo na faculdade, sob o mesmo nickname: Ghost Fox Goddess. Foi quando recebeu mensagem de uma Kojo Sledgehammer, que sabia praticamente todos seus grandes feitos.
As duas conversaram durante um tempo, até que Felicity resolveu pesquisar mais sobre Kojo e descobriu sua verdadeira identidade: Alena Holgarth, também residente de Starling.
Quando se conheceram pessoalmente, a pedido de Alena – que até então não sabia ter sido desmascarada –, Felicity ficou surpresa com a animação da outra. Era a primeira vez que Felicity tinha uma fã, além de que Alena lembrava ela mesma, desde a tagarelice até os óculos. Alena lhe disse que tinha se tornado uma hacktivista por causa dela e que era isso que queria fazer da vida, o que a fazia pensar em até mesmo largar seu curso de Ciência da Computação.
Felicity notou a habilidade de Alena com computadores, especialmente pela outra ter sido capaz de rastreá-la desde sua volta a dark web. Era um talento que estava quase em seu próprio nível.
A ideia da Smoak Tech já existia e começava a dar seus primeiros passos. Foi então que conseguiu convencer Alena de largar o hacktivismo e continuar com o curso com a proposta de juntar-se a ela após a graduação.
No início, Alena titubeou, especialmente por não ter nenhuma experiência profissional fora estágio. Porém não permitiu se abalar; Felicity tinha depositado nela o voto de confiança. Quantas vezes na vida seu ídolo te convidava para trabalhar com ele? Ainda mais em um negócio tão audacioso quanto a criação de uma empresa de tecnologia.
O negócio deu tão certo que Felicity a queria parte da diretoria da empresa, assim como o cofundador dela, Curtis Holt. Dos três, Alena foi a que mais passou por dúvidas e obstáculos, ainda mais que, conforme a empresa foi crescendo e contratando, ela se deparou na estranha situação de ser mais nova que muitos de seus subordinados. Felicity sempre estava lá como mentora: Alena tinha o talento e a criatividade que ajudaram a construir a Smoak Tech do zero, então tinha todo o direito de fazer parte de sua gerência. E a loira fora irredutível: qualquer problema que tivesse em relação à hierarquia, ela mesma resolveria.
E assim três anos se passaram.
- Oi.
- Oi, Felicity. – Alena disse desconfortável, cruzando o vasto espaço até chegar à mesa.
- Eu estou bem, antes que pergunte.
- Ah, bem, confesso que não sei exatamente o que dizer para alguém que acabou de passar pelo que... você... passou.
Felicity balançou a mão esquerda no ar, como se dissesse que não era nada.
- Pode me contar por que me procurou ontem.
Alena olhou para trás, para checar tanto se a porta estava fechada quanto se Jerry estava prestando atenção. O assistente estava entretido em suas próprias atividades.
- Eu realmente não devia estar falando nada, ainda mais depois de você ter passado por um trauma há tão pouco tempo...
- Alena. – Felicity a interrompeu suavemente. – A vida continua. Por favor, fale.
A diretora sentou em uma das duas cadeiras em frente à mesa. Contou tanto das tentativas de invasão, quanto de sua investigação e suas suspeitas.
Felicity concordou plenamente com o raciocínio da amiga. Mais ainda, o sussurro que a perturbava desde ontem ressurgiu, e ela começou a ter uma ideia. Se o sequestro de ontem foi proposital e ela era o alvo, será que as invasões teriam algo a ver? E se sim, quem estaria por trás?
- Obrigada, Alena. Vou dar uma olhada nisso pessoalmente quando puder. Enquanto isso, se houver qualquer nova tentativa, por favor, me avise. Ah, e mantenha isso entre nós e quem mais trabalhou com você. – Felicity parou e olhou para o relógio do computador. – Acho melhor irmos para a sala de reuniões.
No andar do outro lado do escritório da CEO, alguns membros da diretoria já estavam presentes. A alguns minutos do começo da reunião, havia uma discussão em andamento que pintava o ar com certa tensão.
Na parede atrás de uma das extremidades da grande mesa, duas das três televisões estavam ligadas, embora o som saísse baixo. A tela de cima, também a maior, mostrava a repercussão do sequestro de Felicity nos canais de notícias – e esse fora o ponto de partida da discussão.
- O mercado reagiu mal ao sequestro. – dizia Daniel Hardman, Diretor de Gestão Corporativa. Ele apontava para a segunda tela, que mostrava gráficos e informações financeiras. – Vejam que hoje tivemos uma queda nas nossas ações. O ataque impactou negativamente a imagem da empresa. Não podemos nos mostrar vulneráveis frente aos investidores.
Isso era exagero, pensou Curtis Holt, Diretor de Inovação. Sim, de fato houve queda, mas nada preocupante ou que afetaria profundamente a Smoak Tech. Ele sabia que, dentro de alguns dias, tudo voltaria ao normal.
- De fato. Como uma empresa de tecnologia pode vender sua segurança quando não consegue nem mesmo manter sua presidente segura? – completou Alicia Pearson, Diretora Comercial e de Desenvolvimento de Negócios.
- Com licença, – Curtis interrompeu de seu canto, recostado à parede. Era o único dos quatro presentes a estar de pé. – mas o ataque a Felicity não teve a empresa como causa, e sim a cidade.
- Alguns podem ver a violência da cidade em que a empresa está localizada como fator negativo... – ponderou Alicia.
- Tudo causa impacto numa empresa frente ao mercado financeiro. – Curtis argumentou, exasperado. – Não significa que vamos reagir a qualquer flutuação com desespero. Isso sim configuraria como uma vulnerabilidade.
- O Sr. Holt tem razão. – concordou Harold Metcalf, o Diretor Financeiro.
- Falando em vulnerabilidade, nesses últimos dias nosso sistema interno estava um tanto inconstante. Depois, ouvir rumores sobre ataques cibernéticos. Não seria preocupante se eu não tivesse notado que a Diretora Holgarth alienou alguns de seus deveres, acredito que para auxiliar na crise.
- Rumores. Por favor, Sr. Hardman, não estamos na redação de um tabloide. – Alicia comentou, divertida.
Deus do céu. Aparentemente a pauta que Hardman traria para a reunião hoje era "ataque". Ou "vulnerabilidade". O que tinha dado naquele homem?
- E você acha que nossa segurança cibernética está falha também? – Curtis perguntou.
- Não quis implicar nada, Diretor Holt. Só queria levantar o alerta.
- Empresas sofrem tentativas de hackers o tempo todo. – disse Harold. – Não significa que sejam sucedidos. O que acredito que não foi o caso dessa vez, senão todos teríamos percebido se... sei lá, o sistema tivesse caído.
- Vamos esperar a Srta. Holgarth. Com certeza ela sanará suas dúvidas, além de reafirmar que nossa defesa, que devo dizer que é o melhor do mundo, está em perfeitas condições.
Curtis queria dizer que não havia por que se preocupar com hackers quando se tinha Felicity Smoak por perto. Também queria dizer que, numa noite de diversão, Felicity o desafiara a invadir a própria empresa e ele, mesmo usando de todas suas artimanhas e seu vasto conhecimento, falhara. Alena, praticamente a Mini Felicity, quase fora sucedida, e olha que ela participara da construção da segurança.
Ciberneticamente falando, Curtis acreditava que somente a dona da empresa poderia quebrá-la.
A discussão continuou com Hardman insistindo que a situação em que se encontravam tinha potencial de ser uma fraqueza considerável ("Por Deus, nossa presidente foi baleada!"). Pearson concordava, dizendo que a violência urbana poderia se configurar como impasse para novos negócios, ainda mais para uma empresa de tecnologia, pois o grosso desse setor se localizava na Califórnia. A Smoak Tech era um ponto fora da curva, pois era a nova potência tecnológica e não estava em Silicon Valley. Metcalf apontou que Starling City era um polo financeiro-industrial, não só da região, como do país, pois abrigava outros grandes impérios, como Kord Industries, Merlyn Global Group e Queen Consolidated, o que significava que a cidade em si não era fator de impedimento. Mesmo assim, Curtis podia notar que ele estava mais inclinado a concordar com seus dois colegas.
Curtis segurou um muxoxo. Adorava trabalhar com todos ali, mas hoje estava sendo de longe o dia mais complicado. E a reunião de verdade nem tinha começado.
- Ok. Vamos assumir que temos de fato um problema de segurança. Como pensam em resolvê-lo? – Curtis interveio, sentindo um pouco de paciência esvair.
- Garantir a segurança da empresa é garantir a segurança de sua imagem. E não há representante maior dela do que a própria Srta. Smoak. – Alicia respondeu.
- Claro. – Hardman concordou. – Usando as palavras do Diretor Metcalf, vejam as grandes empresas dessa cidade. Seus CEOs não vão a lugar nenhum sem segurança própria.
- O que está sugerindo? Que a empresa contrate guarda-costas para a Srta. Smoak? – Metcalf disse.
- Sim. Vejam bem, o setor tecnológico do país, não, do mundo, conhece nosso nome. Se continuarmos com uma estratégia sólida, ousada e inovadora, em breve a Smoak Tech será um império. Somos uma das empresas que mais crescem no país, se não a que mais cresce. O principal motivo disso é a Srta. Smoak. Ela é o trunfo, o bem mais essencial. A imprensa está de olho em nós, assim como investidores e especialistas. Com toda essa atenção, novos riscos surgem, especialmente para nossa CEO. Não podemos correr o risco de perdê-la.
- Entendo seu ponto, Sr. Hardman, mas, pelo que me parece, está falando como se a decisão já estivesse tomada. Está esquecendo-se da opinião da Srta. Smoak. É ela quem deve permitir, ainda mais quando é a própria segurança dela que está em jogo. – disse Alicia.
Metcalf balançou a cabeça, concordando. O tom de Hardman o incomodava; parecia ver Felicity como um recurso, não um ser humano. Ele apontou isso em voz alta.
- Perdoem-me pelo tom. – o outro homem disse, sincero. – Mas acredito que nenhum de nós aqui não pode dizer que não nos importamos com a Srta. Smoak, afinal, foi ela que nos colocou aqui.
De fato. Mais do que as experiências e habilidades de cada um, o que os fez diretores foi a relação deles com a CEO. Pelo menos num primeiro momento, Felicity queria estar cercada de pessoas que confiava na criação da empresa. E ela jamais colocaria alguém ali se a tratasse menos como merecia.
- Então é isso. – disse Pearson em tom finalizador enquanto desligava as telas. – Adicionemos essa proposta na pauta da reunião.
Os outros balançaram a cabeça em afirmação. Curtis, por sua vez, manteve-se em silêncio. Ele conhecia Felicity há mais tempo que todos ali, já conseguia prever a reação de sua amiga com a proposta.
O resto da manhã não seria mais tão tranquilo.
Felicity e Alena entraram na sala poucos minutos depois da discussão. A loira cumprimentou todos com a mesma animação de sempre. Se não fossem os curativos no braço e no pé, pareceria que nada tinha acontecido.
Felicity sentou à cabeceira da mesa. Abriu o tampo que continha o computador, ligou-o e projetou o documento de pauta.
A reunião começou com discussões sobre o planejamento estratégico da empresa, passou por novos projetos, sejam internos ou externos, e em seguida para o segundo relatório trimestral de resultados para os investidores.
Foi aí que a queda de ações – e consequentemente o ataque a Felicity –, entrou no assunto.
- Já estou ciente disso. – a CEO falou com firmeza. – É passageiro e sei que nosso trabalho falará mais alto e a situação voltará ao normal. Não tenho preocupações quanto a isso... A não ser que alguém aqui tenha?
- Nossa preocupação, Srta. Smoak, não é com a empresa em si, mas sim com você. – disse a Diretora Pearson.
Felicity franziu o cenho em confusão e a mulher explicou.
- Absolutamente não! – exclamou chocada. – O que aconteceu comigo foi uma infelicidade pontual, não significa que eu precise de guarda-costas. Não quero ninguém atrás de mim como babás. – Ela estava irritada. Não era a porra de uma donzela em perigo.
- Srta. Smoak, não é apenas sobre o sequestro. Ele foi um abridor de olhos. – disse o Diretor Hardman. – Você é um das mulheres mais importantes da América. Você é querida e admirada pelo público e o mundo empresarial. Infelizmente, nesse meio pode haver gente que lhe deseja mal, seja por qualquer motivo. A questão de um guarda-costas não é porque necessariamente algo de ruim vai acontecer, mas de avaliação de risco.
- Sua empresa oferece produtos de segurança. Não preciso explicá-la sobre risco em relação a isso. – disse Metcalf.
Alena balançou a cabeça, começando a concordar com os outros diretores. De fato Felicity era uma espécie de celebridade corporativa. E toda celebridade que se preza tem guarda-costas.
- Todos os grandes CEOs têm segurança pessoal. É algo até normal, digamos. – disse Pearson.
- Eles têm um ponto. – Alena entrou na conversa. – Veja bem, já foi mostrado que sua segurança afeta o mercado da empresa. Essa decisão tira essa variável de jogo.
De repente Felicity parou para pensar. Ela não era mais uma pessoa comum. Era alguém criando um legado, ou melhor, concretizando um legado, visto que a Smoak Tech era uma realidade. Não podia pensar somente em si mesma.
E se algo acontecer de novo e ela perder uma oportunidade incrível de negócio? E se colocar seu sonho em cheque por causa dela mesma?
Uma voz baixa vinda lá do fundo adicionou: e se sua intuição estivesse certa e ela fosse mesmo um alvo? Os bandidos não tiveram sucesso no sequestro, será que retaliariam?
O agito dentro dela amansou. Felicity suspirou, ainda não acreditando na decisão tomada. É mais do que ela. É pela empresa, pelo sonho.
- Ok, então. – disse. – Mas tenho ressalvas. Vai ser algo temporário, um período de adaptação, digamos. Só quero um contrato de seis meses. – ela imaginou que esse tempo seria mais que suficiente para determinar se havia alguém atrás de si. Antes que qualquer um se manifestasse, ela logo adicionou. – Essa é a minha condição e é inegociável. E você vai lidar com isso, Daniel.
Jordan Longcross esperava por Felicity quando ela retornou da reunião. Ela parou de súbito ao vê-lo, surpresa.
- Jordan, olá. Não temos nada marcado para hoje.
O homem se levantou do sofá onde estava e a cumprimentou. Embora sua expressão profissional aparentasse calma, ela conseguia detectar algum nervosismo na postura. Por frações de segundo, o olhar dele passou pelo curativo no braço.
- Srta. Smoak, perdão por aparecer tão de repente. – falou cumprimentando-a com um aperto de mão. – Seu assistente disse que estava em reunião e sem previsão para retorno, mas achei que deveria esperar esperando que tivesse um tempinho antes do almoço.
- Tenho sim, claro. Por favor, entre. – ela abriu a porta do escritório e entrou.
Felicity conseguia até imaginar o que o trouxera até ali. Gerentes pessoais não são tão pessoais assim. Mas era fato que os chefes de Jordan não ficaram felizes por seu papel no desenrolar do crime do dia anterior, ainda mais por se tratar de um cliente tão importante quanto a dona da Smoak Technologies.
Os dois se sentaram à mesa dela.
- É bom ver que está bem dentro do possível, Srta. Smoak. – ele disse.
- Foi só um susto, mas vai passar. – ela falou.
- Em nome do banco Starling National e principalmente meu, gostaria de pedir desculpas pelas minhas ações ontem. Deveria ter percebido algum sinal ou inconsistência e tomado as medidas cabíveis para a segurança de seu patrimônio e especialmente a sua.
- Por favor, Jordan. Você não tem culpa de nada. O banco não tem culpa de nada. Ela é única e exclusivamente dos sequestradores. Acho que eu é que fui convincente demais na minha história forjada. Qualquer um fica inspirado sob ameaças. – ela deu uma risadinha.
- Saiba que assim que tivemos informações sobre o tiroteio, entramos em contato com a polícia. Já entramos com as medidas cabíveis para lidar com isso, especialmente as legais para ver se conseguimos retomar o dinheiro e, se não, pelo menos trazer os criminosos à justiça.
- Infelizmente, não acho que os bandidos deixarão o dinheiro parado por muito tempo. – ela disse como se não tivesse seguido o rastro no dia anterior.
O gerente se mexeu na cadeira desconfortável, não querendo admitir que ela tinha razão.
- Bloqueamos os acessos online a sua conta por preocupação. Seu cartão também foi bloqueado, embora nenhuma compra tenha sido feita ou tentado ser feita. Tomei a liberdade de pedir um novo, exatamente igual ao que você já tinha. Se não era para ter feito isso, por favor, pode dizer.
- Não, está ótimo. Já é menos uma coisa a fazer na minha lista.
- Espero que não esteja repensando sua escolha de banco.
- Não estou. Como disse, o banco não tem culpa de nada. – ela disse sincera.
Jordan não escondeu muito bem seu alívio.
- Como compensação, nós ampliamos suas vantagens, inclusive já foi triplicado a sua pontuação no nosso programa de fidelidade.
Felicity não deixou de ficar impressionada. Ela não tinha ideia de como o banco a estimava.
- Só falta me dizer que você já tem um celular novo à minha espera.
O homem não conseguiu conter uma risada baixa.
- Não, Srta. Smoak, mas acredito que os parceiros de nosso programa têm algo que lhe agrade. – ele pausou por um instante antes de continuar. – Acho que é isso. Tem alguma dúvida? Alguma coisa que o banco pode fazer?
- Não, por enquanto não. Obrigada por ter vindo.
- Eu é que agradeço pela atenção, Srta. Smoak. Qualquer coisa, basta entrar em contato.
Eles se despediram, e Jordan saiu.
Pouco antes do almoço, Felicity recebeu uma ligação de Iris. A jornalista lhe ligara no dia anterior dizendo que não conseguiria passar em seu apartamento.
- Vai tá ocupada hoje à noite? – Iris perguntou animada. Ao fundo ouvia-se barulho de fundo característico de um escritório. Ela devia estar no trabalho.
- Não, por quê?
- Lembra que ontem eu disse que, se não conseguisse ir à sua casa, hoje juntaríamos as meninas? Bem, todas elas não têm compromisso e, como estão todas preocupadas com você, querem vê-la.
Felicity sentiu o resquício da frustração da reunião ir embora. O canto de sua boca se elevou num sorriso.
- Claro. Pode ser por volta das 19h na minha casa?
- Por mim tá ótimo! Vou falar com elas. Aliás, por favor, arranja logo um novo celular porque a gente combinou tudo isso no grupo. – Iris se referia ao grupo de mensagem composto por ela, Felicity, Caitlin Snow e Dinah Drake.
- Farei isso hoje à tarde. Mal to vivendo sem um celular. Quando elas confirmarem, manda recado pro Jerry, por favor.
- Beleza. Até mais tarde então!
Elas se despediram e desligaram.
Felicity saiu pra almoçar com Alena e Curtis. Ele estava interessado nos detalhes das tentativas de invasões, que Alena esclarecera tudo na reunião após a discussão sobre os guarda-costas – obviamente o caso não estava mais somente entre as duas. A diretora dissera também que o Departamento de TI estava dando o máximo para evitar novos casos.
- Você não pareceu muito preocupada. – o homem apontou.
Felicity deu de ombros enquanto mastigava.
- Eu confio no que criei.
Ao se despedir dos amigos, Felicity disse que passaria a tarde fora da Smoak Tech resolvendo as consequências do sequestro.
A primeira coisa que fez foi ir ao depósito onde seu carro fora levado. Em seguida, seguiu para a loja de sua operadora. Além de um novo celular, conseguiu resgatar o número antigo. Saiu de lá já com alguns dos aplicativos que usava, inclusive o de mensagens. Ele explodiu em notificações ao abrir, especialmente o grupo com as meninas. Ela falou no grupo e mandou uma mensagem para a mãe. Depois veria o resto.
Estava indo comprar o novo laptop quando recebeu uma ligação de Billy.
- Olha quem está de volta ao mundo. – ele disse brincalhão depois de se cumprimentarem.
- Parabéns, você foi minha primeira ligação. Estava monitorando esse número?
- Não, juro que foi por um acaso quando abri o Whatsapp e vi que você estava online há alguns minutos.
- Deveria estar trabalhando, Detetive.
- E estou, Chief. Por isso descobri que você se livrou da sua escolta. Não posso dizer que não fiquei preocupado. Pensei até em ligar para seu escritório.
- Eu estava em reunião, mas podia ter ligado, Jerry me avisaria. Aliás, eu não me livrei da escolta. Eu os dispensei pois acho que não posso monopolizar policiais quando a cidade tem tantos outros problemas que precisam deles.
- A função da polícia é defender a população, Felicity, e você é parte dela. Nenhum dos policiais da sua escolta fez algo fora da rotina. E você foi ameaçada. A não ser que você tenha os dispensados porque está se sentindo cem por cento segura... Está?
Felicity hesitou. Ela falava com Billy pelo Bluetooth do carro, mas seus olhos estavam fixos no trânsito, mais presos e alertas que o normal. Qualquer movimento que minimamente julgasse estranho e seu coração pulava no peito.
- Não posso dizer cem por cento.
- Posso conseguir uma nova viatura assim que você sair do trabalho. – ele disse suavemente.
- Não precisa. Até porque segurança pessoal é uma coisa que vou ter constantemente daqui para frente. Diria que é o tema do dia. – ela suspirou.
- O quê?
- A empresa vai contratar guarda-costas pra mim. Meus diretores surtaram com esse sequestro, e olha que eu estava lá. Disseram que eu sou uma pessoa importante demais para correr tanto risco. To detestando a ideia.
Billy ficou em silêncio.
- Ai meu Deus, você concorda com eles!
Ela o ouviu respirar do outro lado da linha.
- Olha, eu sou policial, entendo o ponto de vista deles. E você é um rosto conhecido. Sua segurança acaba sendo mais crucial do que a de outras pessoas.
- Não quero babás. Ainda mais gente que não conheço! – ela parou por uns instantes. – Hey, não tem como você virar meu segurança, não? Eu já o conheço e você tem conhecimento tático.
- Não acho que seria ético você dormir com seu próprio guarda-costas. – Billy riu.
- Tem um filme todo com essa premissa, Billy.
- Não, Whitney Houston. Por mais que eu adore a ideia de protegê-la, gosto demais do meu trabalho para largá-lo.
Felicity suspirou.
- Bem, o que me resta é aproveitar meus últimos dias só.
- Posso te fazer companhia, se quiser.
- Hoje não dá. As meninas vão lá pra casa. Ah, olha. Terei proteção policial hoje. – disse, referindo-se a Dinah.
- Que tal jantar sexta à noite?
- Combinado!
Felicity desligou se sentindo mais leve. Sexo com certeza contribuiria para acabar com o estresse do sequestro.
- Meus últimos dias de liberdade e eu nem posso beber. – Felicity lamentou agarrada ao seu copo de limonada.
- Você pode, mas pode cair mal no estômago. – disse Caitlin Snow do outro sofá.
- Malditos anti-inflamatórios.
Era noite, e as duas mais Dinah e Iris estavam no apartamento de Felicity. A televisão estava ligada, mas as quatro mais jogavam conversa fora e bebiam do que assistiam. Com exceção da CEO, todas bebiam vinho.
Felicity estava meio sentada, meio deitada no sofá, as costas numa almofada apoiada na lateral de Iris. Já Dinah estava no colchão colocado entre os sofás, visto que todas iam passar a noite ali.
Na TV, uma cena de luta se desenrolava. Quando um dos homens deu uma cotovelada no rosto do outro, Felicity comentou sem perceber:
- Espero que, olhando de fora, eu tenha parecido isso.
As meninas a olharam. Iris quase engasgou enquanto tomava um gole da taça.
- Você... bateu nos bandidos? – ela perguntou cautelosa.
- Só um. Quando tentei escapar depois do banco. Meio que foi o que começou o tiroteio.
- Os bandidos começaram o tiroteio quando, sabe, eles atiraram. – Caitlin corrigiu.
- Eu bati num dos caras. Tentei me lembrar do que Dinah nos ensinou e do que vi num filme.
Dinah havia ensinado alguns golpes de defesa pessoal especialmente para Felicity e Caitlin. Iris, influenciada por ter crescido com um policial, já tinha feito algumas aulas.
- Felicity Smoak, você é foda. – Dinah riu.
- Foi idiotice, mas eu tive que fazer alguma coisa. Pelo menos o cara ficou mancando, mesmo que no fim não tenha dado certo e eles fugiram. – ela suspirou e ficou quieta por uns segundos antes de continuar, procurando coragem para falar algo que pensava há um tempo. – Gente, acho que vou ter que me mudar.
- Por quê? – Dinah perguntou, franzindo o cenho.
- Porque os bandidos disseram se eu sobrevivesse, eles sabiam onde eu morava.
A policial sentou imediatamente. Sua postura ficou alerta.
- Você não deveria ter dispensado sua proteção policial.
- Vou ter proteção demais daqui pra frente. – Felicity não conseguiu conter uma leve irritação na voz.
- Eu acho a ideia de se mudar ótima mesmo sem todo o sequestro envolvido. – Iris disse antes que a loira falasse algo mais. – Olha esse apartamento.
- O que tem ele? – Felicity amava sua casa. Era pequena, mas aconchegante e a decoração descontraída era a cara dela.
- É lindo e adorável, mas não é a cara de uma dona de uma grande empresa. Você precisa de algo maior e incrível. Um loft moderno com uma varanda e um visual de matar.
O nó no peito de Felicity afrouxou. Se realmente tivesse que sair dali, poderia muito bem se dar uma aprimorada. Uma mudança para uma nova fase de sua vida.
Ela só não sabia se seria boa ou não.
NA: Comentários são sempre bem vindos.
Tá faltando personagem aí né? Que bom que no próximo capítulo isso muda ;) Já adianto que ele se chama "Caneta Vermelha" porque não tem como ser diferente.
Até o próximo domingo!
