A brisa do Parque Lincoln era ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição.
Bênção, caso o dia fosse quente ou ensolarado, pois refrescava e deixava confortável aguentar altas temperaturas. Maldição, caso fosse frio, pois tornava o frio mais frio ainda.
Ali também era um dos primeiros locais a antever a chuva que vinha do oceano. Tudo porque o parque se localizava a beira da Baía de Starling.
Hoje o céu se apresentava pouco nublado na cidade, porém ainda era possível ver alguns raios de sol escapando entre as nuvens. O clima estava ameno, o que significava que o vento no parque estava um tanto desagradável.
O rosto por trás do capuz verde era a única coisa visível em Oliver Queen enquanto ele corria pela pista do parque. Mas as pessoas mal o identificavam, pois ele passava rápido como uma flecha, os pés batendo cadenciados no chão em perfeita harmonia com o entrar e sair do ar e os batimentos cardíacos.
Geralmente não corria naquele ritmo, embora seu corpo estivesse acostumado. Ele se apressou para completar o circuito porque dormira mais que o normal – na vida de Oliver, normal eram cinco horas de sono.
Ele reduziu o passo depois que a pista terminou, deixando seu corpo naturalmente fazer a transição entre correr e andar. A respiração se tornou mais audível em seus ouvidos. Sentiu o efeito da corrida em si, a clareza e o ânimo.
Oliver rumou para a saída do parque. Manteve o capuz na cabeça. Três anos que estava de volta e ainda sim recebia alguns olhares da rua.
Afinal, ele poderia ter se tornado um recluso da alta sociedade de Starling e separado sua vida dela, mas ainda sim era Oliver Queen, o herdeiro bilionário da tradicional família Queen.
A caminhada até o apartamento demorou minutos. O céu clareou nesse tempo, então assim que ele abriu a porta viu feixes de luz iluminar a sala cuidadosamente arrumada através das cortinas abertas da sacada.
O design de todo o apartamento era cortesia de Moira Queen, realizado contra a vontade dele, mas que Oliver permitira para apaziguar a distância e o atrito entre ele e a mãe. O resultado final era um local elegante e ousado, parecia saído de um catálogo com sua decoração em estilo industrial em tons escuros, o marrom reinando.
Na maioria das vezes nem parecia um lar.
Ele foi direto para o banheiro, tomou um banho, se arrumou e fez um rápido lanche pós-corrida e saiu para o trabalho. Zarpou preciso pelo trânsito com a moto para evitar atraso. Pelo menos, dormira mais no dia em que precisava chegar uma hora mais tarde que o usual.
Eram 9:58 quando entrou numa das salas de reunião do prédio do Blackhawk Protection Group. John Diggle, um de seus melhores amigos, parceiro de trabalho e do Exército, já estava lá sentado.
- Por dois, Tenente. – Diggle disse divertido.
- Dormi um pouco mais hoje. – Oliver falou um tanto desconfortável enquanto se sentava do outro lado da mesa, oposto ao amigo.
- Isso é muito bom, considerando o que é normal para você. – Diggle foi sincero em suas palavras. Conhecia Oliver há anos para saber de seus costumes e o que os moldara. – Aposto que não abriu mão de sua corrida matutina.
- Não como você, Dig. – Foi a vez de Oliver aplicar um pouco de descontração na voz. Diggle era uma das poucas pessoas com quem ainda conseguia. – Só lembre que o trabalho exige que a gente fique em forma. – disse, fazendo referência a última vez que correram juntos.
Qualquer um que olhasse para Diggle viria que como estava em forma. Diabos, o homem parecia capaz de derrubar o prédio inteiro com as próprias mãos.
- Diga isso a Sara.
Oliver ainda conseguiu abrir um meio sorriso, mas parecia que punhal cutucou seu coração. Era comum quando pensava na pequena Sara Diggle.
Sua afilhada.
Embora houvesse ficado extremamente lisonjeado pelo convite, Oliver não queria aceitá-lo. Era um papel importante na vida da bebê, e Oliver não via como poderia contribuir com isso. Ele não tinha o que oferecer. Aceitou apenas por consideração ao amigo. Até hoje Oliver não conseguia lidar direito com a garotinha. Não tinha nada a ver com ela, claro. O peso da responsabilidade – a culpa, a dor – o atingia sempre que olhava para ela.
Às 10:01, Knox, o chefe deles, entrou na sala.
- Bom dia, senhores.
Eles responderam e Knox partiu para o assunto, entregando-lhes dois envelopes. Oliver tratou de abrir o seu. Tanto ele quanto Diggle já sabiam que aquela reunião era porque tinham um novo cliente, e estavam ali para conhecê-lo.
Na tela do computador fixada numa das paredes, surgiram as informações. Uma foto mostrava o rosto de uma mulher loira e de olhos azuis.
- Esta é Felicity Smoak, CEO da Smoak Technologies, a empresa que mais cresce no país. Formada no MIT aos 19 anos, trabalhou como TI por quatro anos antes de começar a própria empresa. Três anos depois, é uma das empresas de tecnologias mais inovadoras e importantes do mundo.
O nome não era estranho a Oliver até que ele se lembrou de ouvir algo sobre um sequestro. Num jantar na Mansão Queen, Walter falou do caso. O padrasto aparentemente a conhecia, talvez do próprio mundo empresarial.
Novas fotos apareceram. Felicity em capas de revistas importantes como a Forbes ("A Nova Garota IT"), Time ("O Poder Tecnológico Feminino") e People ("30 Com Menos de 30 para Observar"), em entrevistas, como numa dada para o New York Times num especial para celebrar mulheres nas áreas de CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática), apresentações no TED. Surgiram seções de revistas locais de fofoca e entretenimento exaltando o estilo dela, com imagens cuja maioria era Felicity andando na rua e focando em suas roupas.
- Aparentemente, ela é um gênio e um ícone fashion. – comentou Knox.
Era possível que Oliver tivesse visto bem rápido algumas daquelas fotos em revistas que Thea sempre tinha em mãos.
As informações no computador mudaram, passando a mostrar a cobertura do sequestro de Felicity. Reportagens de jornais impressos e eletrônicos e de canais de televisão.
- Alguns dias trás, a Srta. Smoak sofreu um sequestro relâmpago a caminho de um compromisso de negócios. Ela foi resgatada pela polícia e passa bem, mas isso acendeu uma bandeira vermelha quanto à segurança. Já viram como ela é quase uma celebridade. A diretoria da Smoak Tech quer nos contratar, e escolhi vocês dois para serem os guarda-costas dela.
- Estamos dentro. – Diggle disse.
- O único problema é que é um contrato de apenas seis meses, mas vou ver se consigo acertar isso. Às onze, o Diretor de Gestão Corporativa da ST estará aqui para firmar o contrato, vou ver se falo com ele. Quero os dois nessa reunião também. Nesse tempo, vocês podem ler o perfil dela que está nos envelopes.
Após a reunião, já em sua pequena mesa, Oliver lia o conteúdo do envelope. A Srta. Smoak era nascida e criada em Las Vegas e formada em Ciência da Computação com Mestrado em Segurança Cibernética. O mais curioso foi ver que ela trabalhou como analista de TI na Queen Consolidated antes de abrir a própria empresa. Devia ser por isso que, na verdade, Walter a conhecia.
Quando o Diretor da ST, Daniel Hardman, apareceu, ele prontamente cumprimentou Oliver e Diggle antes de se sentar à mesa na mesma sala de antes. Além deles, havia representantes jurídicos de ambas as empresas. Começou-se a discutir outras cláusulas do contrato.
- Quanto à privacidade, os guarda-costas estão proibidos de divulgarem qualquer informação da Smoak Technologies que por acaso entrarem em contato. Além disso, também não deverão estar presentes em qualquer reunião estratégica ou que lide com questões sensíveis da empresa. – Hardman disse e olhou para Oliver de esguelha por um segundo.
Oliver entendeu perfeitamente o olhar. Mais um daqueles que recebia simplesmente por ser quem era. Embora sua postura continuasse impassível, ele sentiu um quê de indignação lhe invadir. Hardman pensava que ele seria uma espécie de espião corporativo? Ele não tinha qualquer ligação com os negócios da empresa de sua família.
Knox não tardou a abordar a questão do tempo do contrato.
- Entendo perfeitamente, Sr. Knox, mas foi uma exigência da própria Srta. Smoak para aceitar a segurança. Disse que queria um tempo de adaptação, digamos. Ela foi irredutível. Não há o que fazer, caso contrário perderemos o contrato. – Hardman explicou. – Entendo o ponto dela, embora não concorde. Ela não está feliz com a ideia e com a mudança que isso vai trazer à vida dela. Felicity Smoak é uma mulher extraordinária e independente, mas não gosta de se sentir impotente. Tenham isso em mente ao conhecê-la. – completou, dessa vez fixando o olhar em Oliver e Diggle.
O contrato foi firmado. Dali a dois dias, os dois guarda-costas conheceriam sua nova cliente.
Os dossiês estavam na mesa desde o dia anterior. Felicity não se deu o trabalho de ler nenhum. Ela não era de postergar, mas queria aproveitar o máximo seus últimos instantes de liberdade. Sabia que não deveria, afinal, se tratava de sua própria segurança. Era sensato que soubesse de antemão quem eram seus novos guarda-costas, ainda mais ela, que tinha a habilidade de descobrir praticamente qualquer mísera informação da vida de uma pessoa.
Hoje era o dia em que iria conhecer os dois homens. Eles chegariam a qualquer momento. Ela não tinha ideia do que esperar.
Para evitar pensar nisso, Felicity abriu as informações de um projeto no computador e começou a trabalhar. Envolveu-se tanto em consertar um detalhe que se esqueceu do mundo exterior.
O S do logo da Smoak Technologies curiosamente lembrava duas pontas de flechas em direções opostas. O símbolo em branco, preto e azul estampava tanto o topo da fachada do prédio quanto o painel interativo atrás da recepção do hall por onde Oliver entrou. As cores estavam presentes também no design moderno do vasto aposento, desde o chão claro até os mosaicos geométricos em azul em algumas paredes. No centro do teto, havia um enorme ilustre repleto de lâmpadas, além das outras iluminações embutidas. Parecia algo saído de um filme futurístico, mas era bem bonito.
O estilo dos corredores e escritórios se mostrava semelhante enquanto Oliver seguia o assistente de Daniel Hardman até que o encontrou numa sala de reunião.
- Sr. Queen, Sr. Diggle. Bom dia e sejam bem vindos. – Hardman os cumprimentou com um aperto de mão.
- Bom dia, Sr. Hardman. – disse Diggle.
- Por favor, sentem-se. Queria encontrá-los em meu gabinete, porém o cotidiano não deu... Bem, vamos aproveitar que não tem ninguém nessa sala por enquanto. Serei breve, afinal, o trabalho de vocês não é comigo. Sentem, se quiserem.
Hardman fez uma apresentação básica. Disse que os crachás deles já estavam sendo processados pelo RH e que eles, por mais que tenham sido contratados pela empresa, eram mais funcionários da Srta. Smoak, o que significava que recebiam ordens diretas dela. Logo, os horários deles estavam atrelados à agenda dela. Nada muito novo para Oliver. Por fim, o diretor falou que a CEO já estava à espera deles e deu instruções para chegarem a seu escritório.
Diggle parou no meio do caminho para ir ao toalete e Oliver aproveitou para subir na frente. Ele seguiu direto para a mesa do assistente executivo, Jerry, embora o canto de seus olhos captasse o movimento de uma mulher dentro de sua sala.
Oliver abriu a porta do escritório. Ali, assim como o resto do andar da presidência, era ligeiramente diferente do resto da empresa. À direita, havia uma parede revestida de madeira clara com uma porta embutida, além de algumas prateleiras. À esquerda, a parede de vidro apresentava uma vista do centro da cidade. Havia um conjunto de sofás cinza-escuro e poltronas bege com uma pequena mesa de centro logo no início, enquanto ao fundo encontrava-se duas cadeiras de estofado branco e uma longa mesa. Havia um quadro e mais itens decorativos na parede no extremo oposto do aposento.
Sua nova cliente encontrava-se sentada atrás da escrivaninha, de costas para ele, aparentemente contemplando a pintura na parede.
- Felicity Smoak? – Ela virou a cadeira e o rosto em sua direção. – Oi, sou Oliver Queen.
A caneta vermelha foi a primeira coisa que Oliver notou. Ela estava entre os lábios pintados de rosa de Felicity, que a segurou com a mão direita e ficou um tanto boquiaberta.
Aquele era definitivamente o homem mais bonito que já vira. Parecia um modelo, ainda mais com aquele terno. Alto, cabelos loiro-escuro curtos, assim como a barba, que destacava o maxilar bem desenhado. Os olhos azuis fixos nela eram tempestuosos, penetrantes e profundos. Ele tinha uma pose imponente, capaz de mudar de tomar todo o poder de um lugar para si ao entrar num recinto. Uma combinação tentadora de elegância, seriedade e sensualidade. E letalidade. Ele parecia um predador prestes a entrar em ação mais rápido que um raio.
Claro que ela sabia quem Oliver Queen era. Não tinha como residir em Starling City e não conhecer os Queen. Mas a imagem que ela e o mundo tinham de Oliver era de anos atrás, do playboy mimado de cabelos mais longos que constantemente estava nas capas dos tabloides.
Não tinha nada a ver com o homem a sua frente.
Felicity percebeu que deveria estar olhando estupidamente para ele e esperou que houvesse sido por uns dois segundos. Ela tinha de se recompor, por Deus. Levantou, alisou a saia e contornou a mesa.
- Sim, claro. Prazer em conhecê-lo, Sr. Queen. – disse estendendo a mão para ele. Felicity sentiu combinação de calor e a aspereza da pele dele, mas não de um jeito desagradável. Também teve que inclinar a cabeça para trás mais do que esperava para ver seu rosto.
E aí ela notou a maciez do tapete sob seus pés. Descalços. Cumprimentou o homem sem sapatos.
Ela olhou para baixo e depois para ele, que percebeu seu movimento e também baixou a cabeça.
- Os sapatos estavam machucando meus cortes. Mas o escritório é meu, certo, então eu posso ficar descalça quando quiser e, aliás, o tapete é tão fofinho. Comprei ele por isso. E você esperaria que eu tivesse comprado também um apoio para pés ou aquelas caixas de areia que a gente vê nos sites exóticos e modernos da internet que dizem que servem para relaxar, mas sempre esqueço. Mas você não veio aqui para me ver tagarelando, o que vai acabar em 3... 2... 1.
Oliver incrivelmente brigava para conter um sorriso. Era a primeira vez que sentia vontade de sorrir de verdade em muito tempo.
Felicity se virou para voltar ao assento. Ela usava um vestido estampado de azul-marinho e branco que ia até metade das coxas e destacava suas curvas. Os longos cabelos loiros estavam presos num rabo de cavalo impecável. Os óculos retangulares preto e vermelho emolduravam os olhos levemente maquiados. Um piercing decorava sua orelha direita, o que Oliver achou curioso, pois destoava de sua imagem tipicamente feminina. Ele também viu os arranhões na perna dela, além do curativo no braço esquerdo.
- Assumo que você seja meu novo guarda-costas.
Ele franziu o cenho.
- Pensei que já soubesse disso. – Os olhos dele brevemente vasculharam a mesa dela e captaram a ponta de uma pasta com o símbolo da Blackhawk, que com certeza continham os perfis dele e de Diggle.
- Bom, devo dizer que não estou muito feliz com a ideia de ser vigiada o tempo todo, então me abstive do máximo de detalhes possível. – ela explicou enquanto calçava os sapatos.
- Devo dizer que não foi muito prudente da sua parte, Srta. Smoak.
Felicity se esforçou para ignorar como ele dizia o sobrenome dela, de um jeito respeitoso, mas com um quê de suavidade no fim.
- E não estou aqui para vigiá-la, mas sim qualquer suspeita de ameaça à sua vida.
- Onde está seu parceiro? Posso não ter lido sobre vocês, mas sei que são dois.
Como se orquestrado, naquele momento a porta abriu-se novamente e Diggle surgiu.
Felicity ficou surpresa novamente, embora não tanto quanto com Oliver – ela não achava que poderia conhecer mais alguém que a desconcertasse daquele jeito. O homem era quase da mesma altura que Oliver, mas muito mais largo. Os braços pareciam querer explodir das mangas do terno. A pele negra e os traços de seu rosto lhe conferiam um tipo diferente de beleza.
Qual era a dessa empresa?
- Aí está ele. – Oliver murmurou, colocando as mãos no bolso.
- Srta. Smoak, bom dia. Meu nome é John Diggle. Prazer em conhecê-la. – ele esticou o braço para cumprimentá-la. A mão dele engoliu a de Felicity, embora o gesto tenha sido gentil.
- O prazer é meu, Sr. Diggle.
- Por favor, me chame de Diggle, Dig ou até mesmo John, se quiser.
Felicity ficou em pé olhando de um para outro. Ela abriu a boca ao notar o silêncio cair entre eles:
- Vou ser sincera com vocês, eu nunca estive nisso – ela gesticulou freneticamente entre eles. – então de verdade não sei o que fazer agora.
O canto dos lábios de Oliver tremeu, e ele prendeu outro sorriso.
- É perfeitamente normal, Srta. Smoak. – Diggle disse compreensivo. – Vamos acompanhá-la o tempo inteiro, menos na sua casa, claro. A ideia é não sermos percebidos, não ficarmos em seu caminho. Estamos aqui para observar e protegê-la. Nós dois geralmente trabalhamos com um homem perto, ao seu lado, e outro mais longe, para ter uma visão mais ampla de qualquer ameaça. O início do trabalho é mais uma fase de adaptação, tanto sua com a gente quanto nós com sua agenda. Depois dessa fase, pode ser que apenas um de nós a acompanhe no dia a dia. Tudo ficará a seu critério, claro, mas lembrando que nós devemos concordar pensando em primeiro lugar sua segurança.
- Há também um terceiro agente, Rob, que é nosso substituto, especialmente nos fins de semana. A informação sobre ele deve estar chegando hoje. Nós temos nossa própria identificação, que iremos apresentar a você daqui a pouco. Não confie em ninguém que diga ser substituto. Além de nós, Rob é a única outra pessoa em quem deve confiar. – Oliver completou.
- Vocês disseram que estarão comigo o tempo todo. Isso significa que vão me buscar em casa para o trabalho? – Felicity perguntou.
- Sim. – Diggle respondeu prontamente. – Foi uma ótima colocação, porque daqui para frente, de modo grosseiro, você não vai ter mais um carro. Nós também seremos seus motoristas. Acredito que você tem o carro?
- Sim, um Mini Cooper. Acho que não vão caber vocês os dois. Nem um, aliás. – ela ponderou, franzindo a testa levemente.
- Sinto informá-la que terá de devolver seu carro. – Oliver falou.
- Droga, eu acabei de recuperá-lo! – Felicity fez bico por um segundo. – Mas tá. É mais uma coisa que perco por causa desse sequestro idiota. Primeiro minha liberdade, depois meu apartamento, agora meu carro. – ela agitou a mão e deu as costas para os homens, voltando a contornar sua escrivaninha.
Diggle e Oliver se entreolharam, pensando no que o Diretor Hardman havia dito. Porém eles nem se incomodaram com a frustração nas palavras dela.
- Não queremos atrapalhar seu cotidiano de forma alguma, Srta. Smoak. Muito menos privá-la de sua liberdade. – Diggle falou solidário.
Felicity se largou na cadeira.
- Eu sei. – suspirou. – Desculpa. Não é culpa de vocês. Só estão fazendo seu trabalho. É só que tudo isso é... – ela grunhiu. – frustrante. Eu não sou uma donzela em perigo. Só estou fazendo isso pensando na minha empresa.
- A mulher que está construindo sozinha um império é tudo menos indefesa, Srta. Smoak. – Diggle tentou confortá-la. – Como disse antes, sentir-se desse jeito é perfeitamente normal. Saiba que estamos abertos a conversas. Tudo para que nossa rotina seja a mais suave possível.
Felicity inesperadamente se sentiu um pouco melhor com as palavras. Um fantasma de sorriso até apareceu em seus lábios.
- Você disse algo sobre o sequestro. – Oliver mudou de assunto.
- Imagino que já saibam sobre o que aconteceu comigo.
- De fato. Mas o que sabemos é o que foi divulgado, visto que se trata de uma investigação policial em andamento. Gostaríamos que falasse mais sobre isso, se puder.
- Bem, se trata de mais um sequestro como têm acontecido nas últimas semanas. – Aparentemente, Felicity pensou consigo mesma. Porque ela voltara a investigar mais por conta própria. Conseguiu resgatar mais três mil, porém o resto não teria mais volta. Hackeou o rastro até uma conta em Corto Maltese, uma ilha conhecida por ser um paraíso para companhias de fachada.
O que incitava ainda mais sua intuição de que, por mais que o crime parecesse comum, ela fora uma vítima escolhida. A questão era por quê.
E ela estava determinada a descobrir sozinha.
- A diferença é que eu fui a primeira a ser resgatada pela polícia no meio. – continuou a dizer. – E também que um dos bandidos tentou invadir meu laptop. Eles também disseram que sabiam onde eu morava, o que pode ou não ter sido um blefe. Mas mesmo assim foi o suficiente para eu decidir me mudar quando eu não queria. Ah é, e sem contar que fui baleada. Divertido. – ela esticou o braço para mostrar. – Pelo menos parei com os anti-inflamatórios, o que significa que posso voltar a beber.
- Por acaso é possível que você não tenha sido uma vítima aleatória?
Felicity se surpreendeu com a colocação de Oliver. Que mente afiada!
- Acredito que a polícia esteja contemplando todas as linhas de investigação possíveis. – falou, o que não era mentira. Thawne dissera que eles iam investigar após ela levantar esses pontos.
- Também foi uma ótima ideia se mudar. Já tem um lugar em mente? – Diggle adicionou.
- Não, to procurando ainda. Aliás, já teremos nosso primeiro compromisso juntos hoje. De tarde marquei com minha corretora para ver algumas locações. – ela pausou por um momento, observando-os. – Bom, senhores, se me permitem, agora voltarei a trabalhar. Ver se consigo voltar ao raciocínio de antes. Vocês podem se acomodar aí nos sofás e nas poltronas ou sei lá como preferem fazer seu trabalho. Fiquem à vontade.
Mas Felicity não conseguiu focar novamente no projeto. A presença dos guarda-costas era estranha e mudou a atmosfera do escritório.
Diggle sentou-se enquanto Oliver se posicionou na porta de vidro para observar o movimento lá fora. Felicity por vezes os olhava de esguelha. Após um tempo, acabou pegando as pastas com os perfis deles. Ela abriu as duas ao mesmo tempo.
Eles foram das Forças Especiais do Exército e atuaram no Oriente Médio, Oliver por mais tempo que Diggle. Nos últimos dois anos, serviram juntos. Diggle já era Tenente em atuação – ele entrara na força bem jovem –, enquanto Oliver só recebeu a promoção após voltar devido aos "serviços prestados". Ele também tinha uma condecoração por isso. Ambos eram especialistas em armas, estratégia e táticas de campo. Felicity se surpreendeu com a quantidade de artes marciais que Oliver sabia.
- Vocês se conheceram no Afeganistão? – ela perguntou.
Oliver continuou imóvel. Apenas Diggle direcionou o olhar para ela e confirmou:
- Sim, senhora.
- Então não é uma coincidência trabalharem juntos agora? Quer dizer, parece que vocês são amigos. Isso é legal.
- Ele está preso comigo. – disse Oliver, deixando escapar um pequeno sorriso. – Trabalhamos bem juntos.
- A não ser quando você está sendo um cabeça-dura. O que acontece sempre. – Diggle completou.
Felicity deu uma risada baixa. Era genuíno o senso de camaradagem entre eles.
De volta aos dossiês, ela viu que Diggle logo entrou para a segurança pessoal após a dispensa militar, porém Oliver só se juntou a ele um ano atrás, após ter trabalhado numa think tank.
Ela se pegou perguntando se houve algo que fez Oliver virar guarda-costas. Afinal, a família Queen continuava bilionária e ele era o herdeiro direto da fortuna. Honestamente, não precisava trabalhar mais pelo resto da vida. Ela não conseguiu deixar a curiosidade de lado.
Tentou lembrar-se da última vez que ouvira falar de Oliver Queen. Ela não era ligada na fofoca da alta sociedade, por isso suas memórias eram nebulosas. Era possível que seu retorno definitivo à cidade tivesse sido noticiado. Podia imaginar a mídia sensacionalista ávida para ter uma de suas manchetes preferidas de volta. Porém, ela não se lembrava de nenhum escândalo com o nome dele.
Bastava digitar o nome de Oliver na internet que refrescaria sua memória. Não foi o que fez. Ele obviamente estava mudado e muito mais reservado. Não importava o que provocara tal, ela o respeitaria.
Felicity ergueu minimamente o olhar para Oliver. Ele era sério, estoico e profissional, mas ele a olhara fundo nos olhos para ela identificar respeito e gentileza.
Por que achava que já tinha visto a alma do homem logo no instante que o conhecera?
O celular de Felicity se encheu de mensagens. Eram as meninas e o grupo formado por ela, Alena, Curtis e Cisco Ramon, seus amigos mais próximos da empresa. Curiosamente, o assunto em ambos era os guarda-costas. Felicity revirou os olhos.
O resto da empresa também embarcou na fofoca, julgando pelas mensagens de Curtis e Alena. Já sabiam também sobre Oliver, o que levou a um breve debate sobre a trajetória dele desde o Exército. Ela teve que ameaçar desativar o aplicativo, os celulares e os computadores – e deixar subentendido uma possível perda de emprego – para que eles sossegassem e voltassem a trabalhar.
Quanto aos guarda-costas, Felicity pôs na cabeça que eles estariam ali daqui para frente e resolveu aprender a trabalhar com as presenças deles. Também descobriu que eles iriam para qualquer lugar que ela fosse. Quando ela levantou e saiu do escritório para pegar um café, Oliver prontamente a acompanhou bem ao seu lado. Sentiu seu ombro esbarrar bem de leve no terno dele.
- Você realmente acha que alguém vai me atacar na copa? – perguntou divertida.
- Não se deve descartar nenhuma possibilidade, Srta. Smoak. – ele respondeu sério como sempre.
- Só se for alguém que não gosta de café. Imagina só. A pessoa vem e quebra violentamente a cafeteira. E aí vai atrás de quem a comprou. – ela fez uma pausa dramática. – Nesse caso, você ia ter que ir atrás dela mesmo.
Felicity não conseguia deixar de ficar calada. Sabia que falaria as coisas mais aleatórias até que o clima entre ela e os guarda-costas não fosse mais desconfortável para ela.
Oliver suprimiu um sorriso.
Eles entraram na copa.
- Oi Sandy! Não sabia que já estava de volta. – Felicity cumprimentou a copeira.
- Bom dia, Srta. Smoak. Voltei hoje mesmo. Como está? Não deveria ter vindo, sabe que é só me dar um toque que eu levo lá.
- Você sempre insistindo nisso.
- É apenas meu trabalho, senhorita.
- Eu sei. – a CEO sorriu amável. – Eu gosto do passeio, mesmo que seja bem curtinho. É bom para espairecer. Sabe, eu já consegui a solução de um algoritmo defeituoso só nesses passos. A empresa agradece. Aliás, estou bem sim, e eu que deveria estar te fazendo essa pergunta.
- Eu estou bem. A torção já sarou, mas ainda sinto um incômodo às vezes.
- Sei como é. – Felicity se aproximou da cafeteira e colocou a caneca que vinha carregando desde o escritório.
As duas trocaram mais algumas palavras; Sandy relatou especialmente o estado de seu tornozelo. Pelo que Oliver pôde inferir, ela sofreu um acidente na rua que a deixou vários dias de licença.
Ele também percebeu como Felicity não tratava a copeira como inferior, e sim como igual. Todas as palavras dela para Sandy eram sinceras, ela parecia genuinamente interessada no que a outra tinha a dizer. Sandy, claro, visivelmente mantinha um nível de respeito e formalidade, mas, mesmo assim, não era comum linearidade na relação entre executivos e serventes. A surpresa foi uma sensação refrescante.
- Aliás, devia ter agradecido antes, mas como fiquei fora, obrigada por aquela dica de matemática. Meu filho tirou uma nota boa. Fazia um tempo que eu não o via tão animado com a escola.
- Ah que isso, foi uma coisa tão pequena, não precisa agradecer. É bom ouvir isso. A escola mudou a minha vida. E se por acaso precisar de mais, estou aqui.
- A senhorita tem um coração muito gentil.
Felicity deu um sorriso acanhado e pegou o café já cheio. De repente, Sandy notou a presença de Oliver.
- Desculpe, senhor. Eu não o vi aí. Gostaria de algo?
- Ah, Sandy. Esqueci de apresentar. Esse é meu guarda-costas, Oliver Queen. Acostume-se com ele porque daqui pra frente ele estará sempre comigo. E o parceiro dele também, o Sr. Diggle, que ficou lá no meu escritório. – Felicity explicou e assoprou o líquido na caneca.
- Prazer em conhecê-lo, Sr. Queen.
- Igualmente. – Oliver falou.
- Vai querer café, Sr. Queen? – Felicity ofereceu. – Sinta-se à vontade para pegar quando quiser.
- Obrigado, Srta. Smoak, mas não deveria.
- É porque é seu primeiro dia, porque você acha que vai atrapalhar seu trabalho ou você é anti café mesmo? Porque se for o primeiro, ok, eu relevo. Se for o segundo, acho que na verdade você vai é se sentir mais disposto a me proteger. Mas se for o terceiro...
- Não sou contra café, senhorita. – Oliver não soube exatamente porque não parou por aí. – E mesmo se quisesse, eu não tenho uma caneca.
- Que besteira, isso é o de menos. – Felicity agitou a mão livre. – Aposto que sobraram algumas do kit de início do ano da empresa. Verei com Jerry se temos uma para você e o Sr. Diggle. Pense como um kit de boas vindas. Ah! – ela exclamou de repente, o olhar saindo de foco. – Já sei o que fazer! – e disparou para a saída da copa. Antes de cruzar a porta, ela girou de volta para Sandy. – Falei para você que esses passeios me inspiravam. Tchau, Sandy!
O riso que Oliver vinha segurando desde que a conhecera inevitavelmente escapou. Balançando a cabeça de leve com o olhar fixo nela, ele a seguiu de volta para o corredor.
- É melhor eu ir ao banheiro antes de sentar no computador de novo.
Antes que ela pudesse entrar, Oliver a impediu.
- Espere enquanto eu checo, senhorita.
- Tá. – Felicity revirou os olhos. Sério que teria uma cerimônia até mesmo nisso? – Só cuidado para não assustar nenhuma funcionária. Esta empresa tem tolerância zero com assédio. – provocou. Oliver apenas lhe lançou um olhar antes de cruzar a porta.
Por sorte, o local estava vazio.
- Segura para mim, por favor. – ela entregou a caneca na mão dele, que não teve o que fazer além de segurar, e entrou.
Ao retornarem ao escritório, Felicity pediu a Jerry para ver as canecas. Lá dentro, ela rumou direto para o computador e pôs-se a digitar. Oliver tinha quase certeza que, depois de um tempo, ela estava tão focada que tampouco prestava atenção ao mundo.
Somente durante aquele dia ela mostrou várias facetas, e Oliver, por mais que não percebesse, estava intrigado por cada uma delas.
Felicity Smoak era uma mulher notável.
Foi estranho dar as chaves do carro aos guarda-costas quando uma situação parecida com aquela era o motivo da presença deles ali.
Felicity se acomodou no banco traseiro do Mini Cooper, Diggle estava como motorista e Oliver como carona. De repente, pareceu que barras de ferro comprimiram seu peito.
- Você está bem, Srta. Smoak? – Oliver perguntou, virando-se para ela após notar sua reação no retrovisor.
- Uh, sim. É só que... da última vez que eu estava com homens no meu carro, eles, sabe, estavam mantendo como refém. – Ela engoliu em seco, procurando se recuperar.
Os olhos azuis dele escureceram, mas logo amansaram.
- Não se preocupe, estamos aqui para evitar isso. Você está a salvo. – disse num tom gentil.
Ela sorriu para ele, o nó indo embora.
- Achei que depois de uma semana não estaria mais afetada. – confessou.
- Algumas coisas demoram a passar. – Oliver falou, e Felicity jurou ter visto a sombra de novo, mas de um jeito bem mais rápido. – E tá tudo bem. Ninguém esperava que você fosse sair tranquila de um trauma desse. O negócio é lembrar da sua força e que já passou.
Felicity se pegou pensando se as palavras valeriam para além dela.
Até que Oliver e Diggle não pareciam tão apertados quanto pensava. Mesmo assim, ela teve que conter um riso ao ver o esforço de Diggle em ajeitar o banco.
- Guie o caminho, Srta. Smoak. – ele disse ao ligar o veículo.
Ela passou o endereço e eles partiram.
Foram quatro visitas naquele dia. Dois apartamentos ficavam perto do centro e dois num bairro ultramoderno e cosmopolita que era o novo eixo de expansão da cidade. Um deles era uma cobertura espetacular, e Felicity gostou bastante e resolveu colocar na lista de talvez.
Mas na verdade o que ela queria era um local que misturasse ao mesmo tempo a vida urbana e pacata. Um bairro predominantemente residencial, mas com algum comércio e lazer. Queria algo semelhante ao próprio bairro. A corretora disse que procuraria novas opções perto de onde já residia.
Eram cerca de seis horas quando chegou a sua casa. Diggle patrulhava as dependências do prédio e a rua enquanto Oliver a acompanhou até ao apartamento. Felicity esperava que ele fosse entrar e vasculhar, então já tomou um passo para o lado assim que destrancou a porta, e ele prontamente passou por ela.
- Tudo limpo, senhorita.
- Então vai ser assim todo dia? – ela perguntou assim que ele reapareceu.
- É o protocolo. – ele respondeu sem ter se ofendido.
Felicity deu de ombros e entrou no apartamento.
- Uh, acho que é isso por hoje.
Oliver meneou com a cabeça.
- Qualquer emergência, não hesite em nos contatar. Já lhe dissemos como.
- Boa noite. Ah, e diga ao Sr. Diggle boa noite também. Esqueci.
- Boa noite, Srta. Smoak. Até amanhã.
Ela o observou indo embora, pensando que o primeiro dia não foi tão ruim quanto pensava.
NA: Enfim nossos principais juntos. Espero que tenham gostado e comentem à vontade ;) Postarei o capítulo 4 no sábado que vem, depois pararei para o fim do ano e voltarei no primeiro fim de semana de janeiro.
Boas festas e até a próxima!
