O resto da semana transcorreu tranquilamente.
Na quinta-feira, mais de uma semana depois do sequestro, Felicity tirou os pontos do braço e pôde voltar à ioga. Animou-se quando, ao sair para o trabalho, levou junto a bolsa de ginástica. Esperava que os exercícios finalizassem a cura de sua contusão.
Ela disse a Oliver e Diggle que não precisava do carro, pois o estúdio ficava a uma distância curta da Smoak Tech. Os dois andaram com ela pelo trajeto de minutos.
Iris já estava lá quando chegou. Ela não escondeu a admiração ao conhecer os dois homens, especialmente Oliver. Ela sorriu, e Felicity jurou ter visto um leve rubor em suas bochechas. Quando se afastaram deles para entrar na sala, Iris agarrou o braço direito de Felicity.
- Ai meu Deus, não acredito que seu guarda-costas é Oliver Queen! – disse num sussurro agitado.
- É sim.
- Uau, ele é ainda mais bonito em pessoa, e aquele terno não parece esconder muito o corpo dele, amém. – Iris olhou brevemente por cima do ombro.
As duas pararam no canto da sala que normalmente ficavam.
- Ele está na minha lista de três.
- Três o quê? – Felicity perguntou.
- Lista de caras com quem tenho permissão para trair o Eddie.
- Ai meu Deus! – a CEO estava horrorizada.
- Geralmente a gente não conhece as pessoas da lista, mas agora que ele tá aqui eu tô me esforçando para não ficar encarando... – Iris não conteve um suspiro.
Felicity esperava aquela reação da amiga e ao mesmo tempo não. Esperava por se tratar de Oliver, e não esperava porque Iris parecia uma adolescente.
- Pelo menos o sequestro teve um lado bom. Se você tem que realmente ter seguranças atrás de si, o mínimo é ter caras como aquelas. Não, sério, qual é a dessa empresa?
Felicity já tinha se feito a mesma pergunta. Ela imaginou mandar uma carta de reclamação. Por favor, não contrate homens bonitos para sua equipe de segurança pessoal. Especialmente aqueles que parecem ter pulado para fora de um catálogo da Hugo Boss...
Mas, por mais que Oliver e Diggle parecessem legais, Felicity ainda preferia não tê-los conhecido.
A aula começou. Seu abdome contundido doeu um pouco, porém não ligo muito. O incômodo vinha da musculatura repuxando, alongando e se fortalecendo, e desde o início Felicity se surpreendera com o prazer que sentia dele. Representava seu corpo conhecendo e atingindo seus limites, e ela se tornou muito mais consciente de si fisicamente. Tomou como um desafio pessoal de se superar cada vez mais. Ela nunca foi e continuava não sendo fã de atividade física, e foi influenciada por Iris a começar a treinar, mas a ioga caiu perfeitamente para si. Cumpria a premissa básica de bem-estar físico e lhe trouxe ganho emocional ao aprender a se focar e meditar, o que refletia em sua postura na direção da empresa. Também ganhou força e definição muscular.
Sexta-feira, ela deu entrada na concessão de um novo carro, o que acabou gerando um debate entre elas e os seguranças sobre colocar ou não a carroceria inteira à prova de balas. Meu Deus, ela não era o presidente! Não precisava daquela armadura toda. Sem contar que fazia parecer que o risco à vida dela era maior do que verdadeiramente era. Acabou por acordar com uma proteção apenas nos vidros.
Felicity também concluiu que a origem da irritação na verdade era a TPM, ainda mais quando descobriu seu desejo inexplicável por hambúrguer. Então, no início da noite, antes de ir para casa, arrastou os homens até um Big Belly Burger, onde se fartou da boa, velha e deliciosa gordura. Ótimo jeito de terminar a semana.
Oliver não gostava de andar armado fora do expediente, por isso passou em casa antes de ir para o bar. Tomou uma ducha e trocou o terno por um jeans e uma camisa de meia manga. Quase não saiu de novo, porém já imaginava o sermão do melhor amigo caso furasse.
O bar estava cheio como de costume para uma sexta à noite e uma música baixa e animada ecoava. Tommy Merlyn estava no canto do balcão quando chegou. Ele abriu um sorriso e agitou uma ficha no ar ao ver Oliver.
- Quem é vivo sempre aparece. – Tommy cumprimentou Oliver com um aperto de mão e um meio abraço. – Que bom que chegou. Já não tava mais conseguindo guardar seu lugar. Ah e já estamos na fila da sinuca. – ele mostrou a ficha novamente.
- Acabei de chegar. – Oliver disse ao se sentar.
- Mas eu marquei às sete e são... – Tommy pegou o celular para conferir a hora. – quase oito.
- Foi mal, hoje demorei a sair do trabalho. Eu te avisei.
O barman surgiu e Oliver pediu uma cerveja.
- Vamos comer agora ou depois de jogar? – Tommy perguntou.
- Não vou comer nada. Tava comendo há pouco.
O amigo o olhou confuso.
- Você não tava trabalhando?
Oliver balançou a cabeça, pensando na ida ao Big Belly Burger e na insistência de Felicity para que tanto ele quanto Diggle comessem junto.
Foi até divertido. Oliver notou que Felicity definitivamente não queria um tipo de relação impessoal com os guarda-costas, com eles apenas seguindo-a como sombras. Também descobriu que ela era judia, mas não seguia a dieta kosher, tinha zero habilidade culinária e era alérgica a nozes.
A cerveja chegou. Uma das mesas de sinuca vagou e os dois homens se levantaram para ir até ela. Olhares os seguiram. Oliver Queen e Tommy Merlyn, mesmo que playboys reformados, continuavam sendo figuras conhecidas, ainda mais juntos.
- Hambúrguer com a sua nova cliente? – Tommy franziu a testa depois que ele contou. – Você quase não come besteira, ainda mais depois que descobriu a culinária. – O outro deixou de fora que também era por causa dos treinos de Oliver, o que, em sua opinião, beirava a obsessão. Mas era como Oliver lidava consigo. – Quem é a sua nova cliente?
Oliver tomou um gole da cerveja antes de deixá-la junto com a do amigo numa mesa alta no canto. Pegou os tacos enquanto Tommy arrumava as bolas. O outro ergueu a cabeça ao ver que ele não respondeu de imediato.
- O quê? Você acha que eu represento risco a sua cliente?
Oliver sabia que era brincadeira, mesmo assim não gostou. Na verdade, seu problema não era contar a Tommy, mas sim falar num ambiente público como aquele. Nunca se sabia quem poderia estar ouvindo. Seria paranoia se ele não tivesse trabalhado como agente especial por um bom tempo.
Mas Oliver também sabia que inevitavelmente as aparições públicas de Felicity colocariam algum destaque nele também.
- Felicity Smoak. – respondeu ao entregar um dos tacos. Em seguida, passou o giz na ponta do taco, bebeu mais da garrafa e deu a volta na mesa, decidindo que seria o primeiro.
- Esse nome não me é estranho. – Tommy ficou contemplando a mesa enquanto pensava.
- Talvez você já tenha passado num prédio com o nome dela estampado enorme? – Oliver ironizou enquanto se inclinava. Posicionou a mão sobre a mesa e o taco na mão, mirando e calculando mentalmente.
Depois do treinamento do Exército e da ARGUS, a mira de Oliver era excepcional, o que se refletia nos jogos. Então não foi surpresa que ele já encaçapou uma bola na primeira tacada.
Tommy revirou os olhos, tanto pela jogada quanto pelo sarcasmo.
- Grande coisa. Eu e você também temos nomes em prédios.
Oliver parou e fitou o amigo, realmente não querendo apontar que aquilo não era comum para as pessoas normais. Ele deu a volta na mesa para a segunda jogada, e Tommy sacou o celular para pesquisar.
- Felicity Smoak... Smoak... Ah sim. Porra, ela é gata. Muito gata. – Foi a vez de Oliver revirar os olhos. Nem parecia que Tommy era um adulto. – O seu trabalho é olhar pra ela o tempo todo? Onde eu me inscrevo?
Oliver bufou e acabou errando, não matando outra bola.
- Vai me dizer que ela não é maravilhosa? Tô vendo porque você foi comer hambúrguer com ela. – Tommy brincou enquanto pegava o giz.
O guarda-costas só não rebateu o tom sugestivo do amigo porque era isso que ele queria. Tommy, por sua vez, registrou todas as reações do outro.
- Por que a cara amarrada? Não é como se eu tivesse dito que está interessado nela... o que, por sinal, eu jamais julgaria.
Oliver contraiu o maxilar. Irracionalmente cogitou, por frações de segundo, acertar o amigo com o taco.
- Apenas jogue. – sibilou, lançando um olhar torto para o outro.
Tommy não conteve um riso. Guardou o celular, pegou o taco, bebeu cerveja e foi jogar.
- Jesus, cara, você tá muito ranzinza. Parece um velho. – Ele deu uma tacada, e as bolas se espalharam mais pela mesa. – Imagina quando enfim chegar aos trinta. Aliás, tá chegando, hein. Quais os planos pro teu aniversário? Desbloqueando uma nova década, amigo!
- Falta ainda um mês. – Oliver olhou a mesa, estabelecendo uma estratégia.
- Já tá na hora de planejar. A não ser que você não queira nada especial. – Tommy pausou e cruzou os braços, vendo o amigo se abaixar de novo para jogar. Notou algumas mulheres lá atrás trocando olhares arregalados, provavelmente estavam olhando para a bunda de Oliver. – É isso mesmo que você quer, to vendo. Tá oficialmente velho quando não deveria. Já se aposentou, huh? Qual o próximo passo? Sossegar, casar, formar uma família?
Oliver congelou, e Tommy notou o que falou. Fechou os olhos com força. Puta que pariu. Ele um imbecil de marca maior. Tommy não sabia cem por cento de tudo que Oliver passou nos últimos anos – assim como ninguém –, mas conhecia alguns de seus traumas e seu TEPT. Falar aquilo foi uma insensibilidade sem tamanho. Viu as palavras atingi-lo, lá no fundo, em seu ser, reabrindo feridas.
Tommy detestou acabar com o clima. Detestou machucar seu melhor amigo.
- Me desculpa mesmo, cara.
Oliver fechou os olhos por um segundo antes de se erguer. Por sorte fez a jogada antes.
- Tudo bem. Sei que não foi por mal. – abriu um sorriso meio sincero, meio forjado. Depois da rodada de Tommy, que matou uma bola e jogou de novo, ele continuou. – E, sabe, eu poderia perguntar o mesmo a você.
- Você me conhece, meu único amor sou eu mesmo. – o outro disse num tom zombeteiro.
- Muito fácil, então.
- Ah, às vezes eu me rejeito só pra manter as coisas interessantes.
O jogo continuou, e Oliver matou mais duas bolas.
- Sábado que vem começa a temporada de basebol. Vamos ao estádio, se você não for trabalhar? – Tommy perguntou. – A beleza de ainda ter ações da empresa e assim poder me aproveitar dos benefícios tais como ingressos para os melhores lugares.
- Não trabalho fim de semana. A não ser que a Srta. Smoak peça. Podemos ver o jogo sim.
Toda vez que via a fachada de pedra da grandiosa casa, Oliver pensava se ainda era um lar.
Era e ao mesmo tempo não.
Por mais que oficialmente não morasse mais ali fazia um tempo, com frequência estava de volta. No primeiro sábado após começar com a Srta. Smoak, Oliver foi para a Mansão Queen para um jantar. Foi cumprimentado por Raisa assim que a porta de entrada se abriu.
- Raisa. – ele curvou a boca num sorriso.
- Sr. Oliver. Spokoynoy nochi. – ela retribuiu o sorriso e abriu espaço para ele entrar.
- Spokoynoy nochi. Vsegda priyatno videt' tebya.
O grandioso hall de madeira surgiu e Oliver olhou ao redor, se familiarizando.
- Eu digo o mesmo. Como está?
- Bem, Raisa. E você? Seus filhos? – ele se virou para olhá-la. Raisa trabalhava para os Queen desde que ele era garotinho; praticamente crescera com ela. Ela não era apenas sua empregada mais querida, como era quase família, além de ter ensinado a ele russo, seu idioma natal.
- Estamos ótimos. Não tenho o visto ultimamente.
- É o trabalho.
- Sempre o trabalho, Sr. Oliver. – a mulher fingiu irritação, mas Oliver, mesmo sabendo disso, acabou levando a sério. Sentiu uma picada no peito.
Depois de voltar do Oriente Médio, seu novo emprego realmente o levou a inúmeras viagens. E, embora todas fossem a negócio, ele teve que mentir sobre cada uma. Sua presença em casa era inconstante, o que foi o pontapé inicial para os atritos com sua família.
- É um menino muito dedicado. – Raisa disse gentilmente.
Algo se contorceu dentro do homem com as palavras.
Ele forçou um sorriso, despediu-se dela e rumou para a sala de estar. As vozes de seus parentes foram se tornando mais clara.
- Oi. – ele disse.
Walter, Moira e Thea se viraram para ele. A mãe sorriu e o rosto da irmã se iluminou. Eles se levantaram. Oliver cumprimentou Walter com um aperto de mão e um tapinha nas costas, beijou o rosto de Moira e abraçou carinhosamente Thea.
- Oi, Ollie. Bem na hora. Já estou morrendo de fome.
- Não precisamos nos apressar para comer porque seu irmão chegou. – Moira disse e depois se virou para o filho. – Vai querer alguma coisa para beber, querido?
- Obrigado, mas só vou beber um pouco vinho no jantar mesmo. Tô dirigindo.
Eles ficaram sentados por mais uns minutos, o tempo suficiente para Walter terminar seu uísque, e foram para a sala de jantar.
- Thea, como vai aquele seu namorado? Ainda com ele? – Oliver perguntou depois que ela o abraçou pela cintura enquanto andavam.
- Sim, Ollie. – a garota revirou os olhos, mas abafou um riso, sabendo que aquela era a típica provocação de irmão mais velho protetor. – Ele teria vindo hoje, mas está trabalhando.
Thea Queen e Roy Harper, uma história de amor que começou no dia que ele roubou a bolsa dela. Quase dois anos depois, ele largou o crime e agora trabalhava na boate Verdant, cujo dono era Tommy.
- Aliás, você vai para a Verdant hoje? Ver Tommy?
- Não, fui pro bar com ele ontem, depois de tanto que ele cobrou uma saída de mim. Aliás, nem sei se ele vai estar na boate hoje.
- Pena. Tô pensando se dou uma passada lá. – Tommy sempre conseguia entrada para ela, e Thea fazia questão de aproveitar, ainda mais agora com seus vinte e um anos recém completados. – E por que você não tem saído com ele?
A família entrou na sala e sentou-se à mesa.
- Trabalho. Ainda mais agora que estou com uma nova cliente.
- Ah, é verdade. – Walter interveio. – Acho que vi na mídia.
- Eu não vi. Quem é? – Thea perguntou.
- Felicity Smoak. – Oliver achou estranho, afinal, ela sempre estava antenada, ainda mais que Felicity era um rosto conhecido.
Assim como ele, ele se deu conta naquele momento.
Ao redor, o jantar começava a ser servido.
- A CEO da Smoak Technologies? Que Walter comentou que foi sequestrada recentemente? – Moira perguntou.
- Ela mesma.
- Ela tem um senso fashion incrível. Sempre aparece usando umas roupas maravilhosas. Sem contar que ela é linda. – Thea falou animada. – Quer dizer que agora quando eu olhar para ela nas revistas eu também verei você?
Outra coisa que Oliver percebeu: ele voltaria à mídia, de certa maneira. Pelo menos, Felicity não era uma celebridade que vivia cercada de jornalistas e paparazzi.
- Acho que sim.
- Felicity foi uma das melhores analistas de TI que a empresa já teve. – Walter comentou.
- Pois é. Eu li a ficha dela e descobri que ela trabalhou na Queen Consolidated. – Oliver disse. – Achei que a conhecesse dos eventos corporativos.
- Que engraçado. – disse Moira.
- Ainda nos encontramos esporadicamente. – Walter começou a explicar. – Ela foi uma das raríssimas contratações que eu mesmo fiz. Conheci-a num evento de tecnologia e informática em Boston, na época que ela estava prestes a se formar no MIT. Ela ganhou o segundo lugar numa competição de tecnologia, e obviamente já tinha propostas de várias empresas do país. Para a QC ter qualquer chance, acabei fazendo a minha proposta pessoalmente. Deu certo. Ela não só é brilhante, como também uma mulher amável.
- Ela é de fato. – Oliver concordou, um leve sorriso escapulindo pelo canto de seus lábios.
Quando Felicity saiu de casa na segunda-feira, encontrou apenas Diggle esperando em seu carro.
- Bom dia, Srta. Smoak.
- Bom dia, Sr. Diggle. – ele ergueu a sobrancelha para ela. – Diggle. Eu não sei por que ainda me sinto desconfortável com isso. Sei que sou sua cliente e ao mesmo tempo eu sou a chefe e por isso devia ter um tipo de relação profissional, mas é um trabalho tão diferente porque você tá comigo o tempo todo...
Felicity fechou a boca, contendo-se. Realmente não sabia definir a relação com seus guarda-costas. Sendo sincera, ela achava que iria ser mais esquisito conviver com Oliver e Diggle, mas, quase uma semana depois de terem se conhecido, estava sendo mais descomplicado e natural do que jamais esperaria.
- E se for assim, você vai ter que começar a me chamar de Felicity.
- Um dia... Srta. Smoak. – Diggle abriu um sorrisinho e abriu a porta para ela.
Felicity parou antes de entrar.
- Onde está Sr. Queen?
- Ele vai chegar atrasado. Me mandou uma mensagem rápida dizendo que surgiu um contratempo inesperado.
- Ele está bem? – ela perguntou preocupada.
Felicity fingiu não perceber a sombra que passou pelo rosto do homem.
- Até onde sei, está. Já peço desculpas, Srta. Smoak. O trabalho é de nós dois e ele não está aqui. Gostaria que eu chamasse Rob?
- Não, não precisa. Se algo aconteceu com ele, não devo julgar. Temos que esperar para ver. Vamos, Diggle. – e entrou no carro.
Oliver acabou passando o resto do fim de semana na casa da família. Tudo começou com ele tomando mais álcool do que deveria por estar dirigindo. Assim, ele estava mais susceptível às garras de Thea, que o bajulou dizendo que sentia falta de suas omeletes francesas no café da manhã que, na opinião dela, eram as melhores.
O domingo foi bastante tranquilo. Um dos raros dias na vida de Oliver em que seus demônios não queriam dilacerar sua carne e seus ossos, e ele conseguia até relaxar. Correu pela propriedade, respirando o ar puro da vegetação, e, claro, fez a omelete para a irmã. À tarde, os dois ficaram vendo filmes e, no último deles, Moira e Walter se juntaram. Depois, os quatro ficaram jogando cartas até tarde. Oliver não se lembrava de ter passando tanto tempo em família daquele jeito, pelo menos não depois que ele e a mãe se reconciliaram. Ele acabou dormindo mais uma noite.
Ele estava se recolhendo quando encontrou a mãe no corredor. Moira o fitava fixamente. Ela era uma mulher impiedosa, mas naquele momento seus olhos azuis, tão iguais aos dele, brilhavam afetuosos e em paz.
- Fazia um tempo que a gente não tinha momentos assim. – ela disse se aproximando.
Oliver a entendia com clareza. Tinha uma sensação boa no peito que ajudava ainda mais a afastar a escuridão.
- Eu quase não ficava mais aqui.
- Eu sei. Você tem a sua vida em Starling e está tudo bem. – E de fato estava. Moira passou muito tempo ressentindo a mudança do filho. – Mas foi bom você ter ficado o resto do fim de semana aqui.
- Também acho.
- Espero que aconteça mais vezes. – ela disse sorrindo de leve.
A expressão no rosto dele suavizou.
- Também espero.
- Boa noite, querido.
Oliver cruzou a distância entre eles e a tomou num abraço.
- Boa noite, mãe. Provavelmente não vamos nos ver amanhã porque vou sair bem cedo para o trabalho.
Na segunda-feira, Oliver saiu com a casa ainda bem silenciosa. Antes de ir trabalhar, teria que passar em seu apartamento para se arrumar.
Tinha adentrado a cidade quando percebeu que estava sendo seguido. Tentou despistá-los e estava conseguindo quando seu celular tocou. Chamador desconhecido.
- Não há necessidade em tornar isso difícil. – ele ouviu assim que atendeu.
A voz. Aquela voz maldita. Poucas eram tão marcantes ou inesquecíveis.
O maxilar de Oliver se contraiu forte. Ele poderia perguntar onde conseguira aquele número ou se realmente eles iriam levantar caos somente para pegá-lo. Mas sabia a resposta.
- Não temos mais negócios. O que te faz pensar que eu iria de tão boa vontade? – ele disse, a voz dura e cortante.
- Porque, se não vier, eu coloco mais uma bala em Felicity Smoak.
A raiva lhe subiu de imediato, rápida e intensa, espalhando-se em suas veias como fogo. Estava ali, abaixo de sua pele, zumbindo, preparada para ser desencadeada a seu comando.
Algo que, ao contrário das outras inúmeras vezes que ele mergulhara no sentimento, fazia seu autocontrole tremer de leve.
Não ficava claro se era pela pessoa ao telefone ou por sua cliente ameaçada.
O pior de tudo era saber, sentir lá no fundo de si, que ela não mentia. Não quanto àquilo, pelo menos.
Para Amanda Waller, verdade e mentira eram conceitos a serem moldados conforme seu bel-prazer.
Era possível que houvesse uma mira em Felicity neste exato momento.
Oliver nem respondeu, apenas desligou. Depois, estacionou a moto numa rua, desceu e esperou. Um utilitário azul-marinho parou não muito tempo depois e de dentro dele saiu um homem, que o convidou para dentro. Ele lhe mostrou um capuz.
- Por segurança. – disse.
Oliver contemplou os passageiros do carro. Podia derrubar todos em questão de segundos. Era enlouquecedor.
- Não é sempre? – retorquiu sarcástico.
O capuz cobriu seu rosto, e o carro partiu. Oliver até contabilizou as curvas que faziam, porém não duvidava que os agentes tivessem sido orientados a confundi-lo de propósito.
Quando Oliver recuperou a visão, estava num escritório aparentemente normal, embora estivesse um pouco descuidado. Não era o quartel-general da ARGUS, afinal, passou quase dois anos lá. Deveria ser um esconderijo, mais um dos inúmeros que a agência tinha.
A ARGUS era semelhante a CIA em termos de inteligência e espionagem, mas mantida em completo segredo. A diferença era que a agência agia nas sombras, quando qualquer interferência de órgãos conhecidos poderia gerar consequências geopolíticas desconfortáveis ou em casos extremamente delicados. A sede, que ficava ali mesmo em Starling City, se passava como uma think tank.
Oliver só ouviu falar da ARGUS quando foi recrutado após o Afeganistão.
Logo a frente dele, de pé, com o terno cinza-escuro sempre impecável, o típico batom vinho e a expressão calculista de sempre, encontrava-se Amanda Waller, provavelmente a identidade mais secreta dos Estados Unidos.
Oliver deveria se sentir lisonjeado – e receoso e aterrorizado – porque a diretora da ARGUS não ia pessoalmente atrás de qualquer um.
Mas ele não era qualquer um.
- Sr. Queen. Quanto tempo. – a mulher disse.
- Podemos pular os bons modos, Amanda. – ele falou duramente. Seu corpo continuava alerta, pronto para entrar em ação em qualquer instante.
- Não imagino por quê. É algo básico nas relações sociais. Ainda mais depois de tanto tempo sem nos vermos.
Oliver se pronunciou segundos depois:
- O que você quer?
Waller se sentou à mesa.
- Um favor.
- Não sou mais um agente.
- Tenho plena consciência. Uma perda inestimável para nós. Poucos têm seu currículo e suas habilidades.
Os demônios despertaram nele. Seus pecados chocavam-se uns com os outros. Ollie Queen, Tenente Queen, Agente Queen. Playboy, soldado, espião. Várias facetas moldavam quem ele era, que tentavam se encaixar, mas eram impedidos pela escuridão.
Oliver era constantemente assombrado por não se sentir inteiro. Vivo. Como poderia, quando o que sobrara de sua alma eram pedaços?
- Então por que vir até mim?
Antes que a diretora pudesse responder, o celular de Oliver vibrou no bolso. Ele o pegou e viu uma mensagem de Diggle.
- É o Sr. Diggle? – Waller perguntou. – Acho que deveria dizer a ele que vai atrasar.
Oliver levantou o olhar para o da mulher. Sustentou-o por alguns instantes, pensando no que diabos era aquela reuniãozinha. Acabou fazendo o que ela disse.
- Sim, eu sei que você e ele são os guarda-costas de Felicity Smoak. Na verdade, é ela quem eu gostaria de discutir.
Os olhos de Oliver se estreitaram. A ira borbulhou ainda mais quente dentro de si.
- O que tem ela? – disse, a voz num tom mais baixo, grave e extremamente fria. Qualquer um teria se arrepiado.
Amanda tampouco reagiu. Foi por causa daquela aura letal que ela o contratou.
- Já ouviu falar da chave mestra? É uma arma cibernética que tem o potencial de invadir qualquer sistema no mundo. Era pra ser apenas teórica, mas Overlord, nosso codinome para o ciberterrorista mais procurado do mundo, está prestes de criá-la. Ele precisa de um conhecimento específico de um gênio da computação... E recebemos informação de que tal gênio é a CEO da atual empresa de tecnologia mais importante da América. Sua nova cliente. O que faz dela a segunda ciberterrorista mais procurada do mundo.
Oliver franziu a testa. Felicity, uma ciberterrorista? Não mesmo. Não fazia qualquer sussurro sombrio lá no fundo surgiu: Você é que não faz sentido.
Desde o Exército, Oliver não confiava em ninguém. Olhava para as pessoas e via apenas ameaças e alvos. Como poderia ser tão categórico quanto ao caráter de sua cliente? Dali a dois dias faria apenas uma semana que a conhecia.
Ele simplesmente não via. Felicity, falante, engraçada, ousada, inteligente e, como Walter apontara, amável. Seu histórico dizia que podia ser verdade. Sua intuição incrivelmente dizia que não.
Mas se fosse verdade... Esqueça gênio da computação, ela seria um gênio do crime.
- Está duvidando. – disse Waller. – Que seja então.
Ela apertou um botão na mesa e nela surgiu um teclado, além de uma tela na parede atrás de si. Ela digitou brevemente e imagens e documentos surgiram, incluindo informações sobre Overlord, confirmando o que Waller disse.
Depois, apareceu uma foto de uma garota com longo cabelo negro e mechas roxas e maquiagem preta carregada nos olhos. Quando Oliver viu a boca pintada de vinho, um tom semelhante ao que viu nos últimos dias, ele a reconheceu. Era Felicity.
- Esta é a Srta. Smoak na faculdade. Na época, ela acabou se envolvendo num caso do FBI. – Outra foto surgiu. Dessa vez era um garoto. – E este é Cooper Seldon, o namorado da Srta. Smoak na faculdade. Ele foi preso por hackear o Departamento de Educação e tentar apagar empréstimos estudantes. Ele confessou e foi oficialmente condenado, mas detalhes da investigação apontam que ele não teria conseguido se não fosse pela Srta. Smoak. É bem provável que ela tenha criado o algoritmo que ele utilizou. Sabe, os dois eram conhecido por serem o que se chama de hacktivista. A mesma investigação apontou para atividades na chamada dark web tanto dele quanto dela, embora nunca tenha sido descoberto o perfil dela.
Oliver se sentiu eclipsado pela suspeita. Tentou bloqueá-la, mas ela queria se infiltrar sorrateiramente como raízes. Não gostou nenhum pouco da sensação.
No entanto, os documentos só mostravam que a possibilidade do envolvimento de Felicity. Mas se havia tal possibilidade...
Alguém poderia argumentar que, dado o conhecimento de Felicity, ela poderia muito bem ter armado contra Cooper.
- Ela realmente não parece, não é mesmo? Ainda mais porque não é uma incógnita, e sim um rosto bem conhecido. – Amanda continuou a falar.
- Então por que não a aborda diretamente? – Oliver cruzou os braços, empurrando seus pensamentos para longe.
- Eu iria, se não fosse pelo fato de agora ela ter segurança vinte quatro horas por dia.
Oliver cerrou o maxilar ainda mais forte. Ele teve uma plena ideia do que a mulher queria.
- Não posso arriscar chamar atenção para minha agência. Sorte minha que um dos seguranças dela é um ex-agente meu.
- Não. – Oliver rosnou.
- Sr. Queen, nem sabe o que eu iria dizer.
- Você quer que eu espione Felicity Smoak.
- Não quero que a espione. Quero apenas que a sonde, veja se nota a existência de algum comportamento errante. Você está em contato direto com ela, acompanha a agenda dela. Caso a resposta seja afirmativa, então aí a ARGUS irá agir.
- Não. – o homem repetiu de novo. – Não trabalho mais para você. Minha resposta é não.
Uma sombra de irritação perpassou pelo rosto de Waller, quebrando sua impecável expressão impassível. Ele imaginou se ela mandaria atacá-lo. Que mandasse.
- Pensei que tivesse honra.
- Pensou errado. – Oliver devolveu.
A mulher o examinou fixamente por longos segundos.
- Acho que está se enganando, Sr. Queen. Você ainda tem senso de honra, mesmo que não seja tão óbvio ou comum.
- Por isso que pensou que eu aceitaria sua proposta?
- É uma questão de segurança nacional. Achei que quisesse defender seu país. Não foi por isso que entrou no Exército, Sr. Queen?
A tensão diminuiu no maxilar de Oliver. Memórias perpassaram em sua mente.
- As coisas mudam, ainda mais quando se ganha uma nova perspectiva. – disse, fazendo referência a um dos motivos que o fizera deixar de ser agente.
- Você pode ter mudado, mas isso não. Você entrou na ARGUS querendo defender o mundo. Tinha isso em mente mesmo quando eu disse para combater a escuridão usando sua escuridão. – a diretora continuava a falar.
No começo, Oliver realmente achou que estava fazendo a diferença, fazendo o bem. Acabou com esquemas de corrupção, quadrilhas internacionais, impediu ataques terroristas, derrotou criminosos de alto escalão.
Aí descobriu que Amanda Waller tinha o potencial para pior que tudo isso. Ela não tinha escrúpulos e fazia de tudo para completar a missão, mesmo que isso incluísse sacrificar vidas inocentes. Até mesmo seus objetivos podiam ser obscuros e não tão voltados para a salvação quanto se esperava.
Tudo supostamente em nome da segurança nacional.
E Oliver se viu em mais um ciclo sanguinário.
- Você realmente não vai mudar sua resposta? – ela perguntou depois de uns instantes.
- Não. – Oliver afirmou categórico.
Ele se perguntava por que a Waller não o eliminava. Não é como se ela não tivesse como fazê-lo e acobertar. Talvez, apenas talvez, fosse porque, por toda sua habilidade perigosa, ele não apresentava risco direto à agência.
Todavia, a verdade era que Waller se divertia com Oliver. Quando o conheceu, dias depois de ter sido dispensado do Exército como um herói de guerra, ela, com a expertise que poucos tinham de conhecer a psique humana e analisar pessoas, viu nos olhos dele uma divisão que não identificara em outros soldados e uma dom ímpar para compartimentar. Ela foi por atrás dele por causa de sua ficha militar tão confidencial que se contava nos dedos pessoas que nem ela que tinham acesso, mas resolveu recrutá-lo ao ver o conflito interno.
Por mais que nem ele mesmo tivesse noção, os dois lados dentro de Oliver lutavam entre si. A luz diminuta que ainda existia dentro si, apenas um ponto em comparação com os demônios, e a esperança – que surgia quando se menos esperava – advinda dela o faziam acreditar que talvez fosse possível ele conseguir salvar sua alma.
Já Amanda Waller acreditava que ele perderia definitivamente aquele conflito. Esperava esse dia para se provar certa mais uma vez, ainda mais depois de ele sair da ARGUS. Quando se estilhaçara uma alma tantas vezes, com tantos atos horrendos, não dava para se expiar.
- Sua rejeição não me dá outra opção. Saiba que terei de ir atrás da Srta. Smoak. – Waller era mestra do controle, inclusive em sua voz. Ela saía profissional, séria e impiedosa. Mas Oliver, conhecendo a verdadeira índole da mulher, conseguiu identificar, lá no fim, um quê de ameaça.
- Que venha. Boa sorte. – Ele derrotaria todos os membros da ARGUS com as próprias mãos se fosse necessário.
Só passando por cima do cadáver dele que alguém chegaria a tocar Felicity Smoak.
Oliver girou nos calcanhares e foi embora. Os agentes o levaram de volta à sua moto, ele montou nela, correu para se arrumar e depois para ir a Smoak Tech. Diggle estava na porta do escritório da CEO.
- Oliver, oi. Está tudo bem, cara? – perguntou.
- Sim. Eu acabei passando o fim de semana na mansão e tive umas questões familiares.
Diggle era a pessoa mais próxima de conhecer Oliver de verdade e por isso sabia que ele estava ocultando algo.
Já Oliver cogitou reportar a Diggle seu encontro com a ARGUS. O amigo era um dos poucos que conhecia a agência sem trabalhar nela. Isso porque, numa época, tanto Oliver quanto a noiva de Diggle, Lyla Michaels, eram agentes, o que tornava mais difícil ainda mentir, especialmente quando houve missões em que eles atuaram juntos.
- Agora, se me der licença... – Oliver disse e entrou no escritório.
Encontrou Felicity em seu pequeno laboratório em anexo, mexendo num tablet, totalmente alheia à realidade. A imagem dela ali em meio a tantos eletrônicos fez Oliver titubear. O pensamento de que talvez sua nova cliente fosse de fato uma terrorista cruzou sua mente.
Foi por isso que Waller nem insistiu tanto para que ele aceitasse a proposta. Ela só queria implantar nele a maldita semente da suspeita. E conseguiu.
- Bom dia, Srta. Smoak. – cumprimentou-a.
Felicity ergueu o olhar, soltou o tablet e se aproximou dele.
- Oliver, está tudo bem?
Havia preocupação genuína em seu olhar, e um peso se instalou no peito de Oliver. A intensidade naqueles olhos azuis o capturou, e ele se viu incapaz de desviar. Deixou-se levar.
Também não passou despercebido que era a primeira vez que ela o chamava pelo primeiro nome. Ele aprovou como soava nos lábios dela, hoje pintados num tom de vermelho.
- Sim, Srta. Smoak. Gostaria de pedir desculpas pela minha ausência mais cedo, por mais imperdoável que seja. Falhei com meu trabalho e com você. Infelizmente surgiu uma urgência familiar na hora e não pude avisar a tempo, muito menos deixá-la de lado. – Oliver não gostou de mentir para ela, sabe-se lá por quê.
Felicity sentiu que ele não estava sendo completamente honesto, mas ele parecia estar desapontado consigo mesmo de verdade. Jurou ter visto um relance de culpa nos olhos dele, além de uma sombra, que estava começando a achar que era normal nele. Não conseguiu deixar de achar que algo o perturbava.
Incrivelmente, sua reação a ele foi compreensão.
- Tudo bem, Oliver. – ela sorriu.
Oliver sentiu suas entranhas se revirando. A culpa o martelou. Não merecia a gentileza dela.
- Só peço para que, na próxima vez, faça o máximo para avisar de antemão.
- Não irá acontecer de novo, senhorita.
Oliver passou o dia com o conflito dentro de si. Felicity acabou se tornando um enigma contra sua vontade. Era irônico porque ela não escondia suas emoções. Como poderia ser um ciberterrorista?
Como poderia não ser?
Estavam num encontro do Conselho Empresarial Nacional para o Desenvolvimento Sustentável naquela tarde, e Felicity fazia uma apresentação. Ele estava próximo ao palco, observando os movimentos da plateia. Via-os completamente entretidos e focados nela.
Seria realmente genial ela fazer o mundo pensar que era uma empresária de sucesso quando, nos bastidores, usava seus conhecimentos para crimes digitais.
No coquetel que se seguiu, ele ficou próximo a ela enquanto Felicity conversava com várias pessoas. Notou como ela ficava empolgada quando discorria sobre diversos assuntos relacionados ao trabalho, e todos pareciam encantados por ela.
Oliver nunca se sentiu tão entusiasmado com algo na vida.
Num determinado momento, um homem alto, de cabelos e olhos escuros se aproximou.
- Olá, Felicity! – exclamou agitado.
Ela sorveu um pouco do champanhe na taça que tinha em mãos e se virou para na direção da voz.
- Hey Ray. – cumprimentou com um sorriso.
O homem se inclinou e deu um beijo na bochecha dela. Depois, ele se olhou para Oliver e travou.
- Oi. Desculpa. Eu devia ter... pedido permissão? Não sei como proceder com, uh, isso. Corri o risco de tomar um tiro e nem me liguei. – Ray riu nervosamente. Deus, ele era a versão masculina de Felicity? – Aliás, Ray Palmer.
Oliver apenas baixou o olhar brevemente para a mão que Ray esticou, depois voltou a fixá-lo no homem. Seu rosto era impenetrável como sempre, e Ray se sentiu um pouco desconfortável. Segundos se passaram, parecendo mais longos que o normal, até que Felicity lançou ao guarda-costas um olhar de esguelha um tanto carregado. Oliver só cumprimentou Ray por ela.
- Oliver Queen.
- Eu sei quem você é! – Ray exclamou sem se conter. – Ah, desculpa.
Até Oliver sabia quem ele era. Ray Palmer, o excêntrico inventor bilionário.
Ray, vendo que não conseguiria mais nada do outro homem, voltou-se para Felicity.
- Quanto tempo, não? Como você está?
- Bem. Eu soube que você me ligou no dia do sequestro. Muito obrigada. – Felicity respondeu.
- Que isso. Eu sempre vou me importar com você, Felicity. Se precisar de qualquer coisa, não hesite em entrar em contato, ok? Não importa quanto tempo a gente passe sem se falar. Aliás, desculpe por isso, acabou que fiquei muito ocupado por causa do trabalho.
- E eu com o trabalho e a vida. Sem problemas. – a mulher sorriu.
Os dois conversaram por vários minutos, especialmente sobre a área de trabalho deles, até que Ray se afastou. Um garçom passou e Felicity reabasteceu seu champanhe.
- Sabe, não precisava ter sido ríspido com Ray. – Felicity disse depois de um gole.
- Não fui ríspido. Só não estou aqui para socializar, Srta. Smoak. – Oliver respondeu enquanto seus olhos vasculhavam os arredores. Viu Diggle ao longe fazendo mesmo. – Nem para ser percebido.
Se fosse por isso, Oliver nunca deveria ter entrado na profissão, pensou Felicity. Não tinha como não notá-lo, não somente por ser quem era, como também por sua beleza arrebatadora e sua aura imponente.
- Certo, mas se por algum acaso alguém vier falar com você, pode muito bem responder. E se eu quiser que você lance um olhar amedrontador para um ex-namorado meu, eu aviso. Se bem que na verdade o único cara que merecia mesmo era o jogador de lacrosse do meu primeiro ano no MIT.
Oliver se virou pra ela.
- Você namorou Palmer? – perguntou antes que pudesse se conter.
- Sim. Um ano. – ela respondeu. – Por que a surpresa? – Não era como se fosse segredo absoluto. Dois empresários de sucesso? A mídia repercutiu. E ainda houve comentários sobre ela estar se relacionando com ele apenas para alavancar a carreira.
As atrocidades que uma mulher de poder tinha que aturar na vida profissional, ainda mais na área de tecnologia.
- É que existe uma boa chance de que você e ele sejam parentes.
Ela lançou a ele um olhar fulminante. Oliver desviou os olhos dela para o salão por algumas vezes, como se perguntasse o que tinha dito de errado.
Após Palmer, a próxima pessoa com quem ela falou foi Walter Steele. Oliver balançou a cabeça de leve para cumprimentá-lo.
- Srta. Smoak, é muito bom vê-la bem.
Felicity agradeceu e, assim como com Ray, agradeceu por ter ligado para ela por causa do sequestro. Walter mencionou a apresentação dela, e eles acabaram se envolvendo numa discussão sobre a integração de novas tecnologias com o desenvolvimento sustentável, que se estendeu para outros tópicos.
- Você devia ir jantar lá em casa um dia, Felicity. – Walter disse no fim da conversa.
- Seria ótimo.
Ela e Oliver se afastaram.
- Bom, aparentemente você vai ter um dia de folga. Não é como se você fosse me proteger na sua própria casa. É a sua própria casa? Você ainda mora lá? – ela tagarelou.
- Não, eu moro num apartamento aqui na cidade.
- Ah sim. Bem, vai ser engraçado jantar com meu guarda-costas... – Felicity rapidamente se deu conta das palavras e completou apressada. – Quer dizer, não assim. – Ela bem que queria culpar o álcool, mas estava apenas na segunda taça.
Oliver, todavia, nem pareceu se incomodar com o deslize dela.
- Quer jantar lá em casa? – Diggle perguntou.
Ele e Oliver acabaram de deixar Felicity em casa, o que significava que o dia estava terminado.
- Não, obrigado. Ainda tenho umas sobras na geladeira.
- Ok, então quer me contar o que houve?
Oliver pausou. Pensava se e como deveria contar sobre a reunião de Amanda. Um dos motivos para ele não querer ir para a casa de Diggle era justamente não ter que encarar Lyla Michaels, não hoje, pelo menos. Não sabia se Lyla tinha conhecimento do que Amanda lhe dissera e, se tivesse, o quão comprometida com o caso ela estava. Se a agente concordasse com a chefe, ele iria desgostar, e a amizade deles definitivamente ficaria abalada.
Ele e Lyla tinham opiniões parecidas e viam o mundo de um jeito muito semelhante, o que contribuiu para a parceria eficiente tanto no Exército quanto na ARGUS. Uma vez Lyla dissera que às vezes a bravura não era suficiente e que o mundo exigia que eles fossem ousados. Ela era uma das mulheres mais íntegras e justas que ele conhecia, mesmo trabalhando para Waller, mas Oliver podia apenas supor o nível de lealdade dela a agência para ela se opor a Waller.
Oliver acreditava mais que Diggle concordaria consigo, o que poderia colocá-lo em atrito com a noiva.
No fim, foi Felicity que o fez tomar a decisão final. Havia ameaça quase certa à vida dela, e Diggle, com seu guarda-costas, tinha que saber.
Oliver observou brevemente seu arredor, porém, por mais que tenha identificado câmeras de segurança, julgou que eles não estavam sob a mira de nenhuma. Mesmo assim, ele resolveu ser excessivamente cauteloso. Não se devia subestimar a Amanda Waller.
- Seu carro. – disse apenas.
O semblante de Diggle ficou confuso, mas ele notou a vigilância do amigo. Ainda não entendia, contudo confiava em Oliver.
Os dois seguiram para o veículo e entraram, fechando a porta. Oliver desligou seu celular e pediu para que Diggle fizesse o mesmo.
- Que diabos?
- Ligue o carro e dirija. – Oliver instruiu, o olhar sério e impenetrável fazendo com que seu parceiro obedecesse.
Oliver foi a Smoak Tech de moto e acabou deixando-a por lá ao acompanhar Felicity em casa, então calhou de ele estar ali sem levantar muita suspeita. Assim que eles começaram a andar, ele voltou a falar:
- Amanda Waller veio atrás de mim hoje.
Diggle o olhou de esguelha, surpreso.
- O quê?
- Ela queria que eu espionasse Felicity. Aparentemente, tem um ciberterrorista, que está no radar da ARGUS há um tempo, que está prestes uma arma cibernética capaz de invadir qualquer servidor, mas que precisa da ajuda de outro especialista em computadores. Ela acha que esse especialista é Felicity, o que a faz, na mente de Waller, uma terrorista também.
A expressão de Diggle se fechou.
- E ela acha que você é a melhor opção, por ser segurança de Felicity e estar acompanhando a agenda dela. Mesmo você não sendo mais um agente.
- Como se isso importasse para Waller. – Oliver resmungou acidamente. – Ela disse que só queria que eu observasse qualquer suspeita e que depois a ARGUS agiria.
O outro homem ficou em silêncio por um instante.
- E você acredita nela? Waller?
Oliver odiou a hesitação que lhe subiu.
- Tenho motivo para, ao mesmo tempo, acreditar e não acreditar nela. – disse diplomaticamente. – Ela me mostrou que Felicity esteve envolvida com hacktivismo e com um caso do FBI há alguns anos. Os documentos pareciam bem legítimos. O que abre a possibilidade. Mas nós dois sabemos que Waller é capaz de criar, inventar e distorcer fatos apenas para defender seus interesses, sejam eles alinhados com a segurança nacional, como ela mesma apontou, ou não.
Diggle balançou a cabeça, concordando.
- Qual foi sua resposta?
- Não, é claro. Não trabalho mais para ela.
- E Felicity? – Diggle perguntou, sentindo que havia mais.
Oliver hesitou de novo. Seu passado e instinto de sobrevivência divergiam.
- Você me diz, John. – Toda vez que ele se referia ao amigo pelo primeiro nome era quando a situação era bem delicada. – Sei que só tem uma semana que a conhecemos, mas...
Diggle fitou Oliver. Via o conflito nele, assim como também a mais. Algo que o impedia de dizer que, lá no fundo, acreditava em sua intuição que dizia que Felicity não era uma criminosa. Ele registrou essa observação com curiosidade.
- Ela tem uma mente afiada, é extremamente inteligente e parece ter um coração bom. Definitivamente não parece uma terrorista, mas sabemos que não devemos nos guiar pelas aparências. – Diggle adicionou o resto porque realmente acreditava, não apenas para apaziguar o conflito do padrinho de sua filha. – No entanto, eu não vejo, Oliver. Não vejo.
- E mesmo assim não consigo deixar de pensar que pode ser tudo verdade. – Oliver respirou fundo, a tensão em sua postura ficando mais clara.
- E o que vai ser daqui pra frente? Não é como se Waller fosse simplesmente deixar tudo de lado.
O rosto de Oliver voltou a assumir a mesma dureza do encontro com a diretora da ARGUS.
- Ela disse que vai atrás de Felicity. O tom dela foi de ameaça. E é por isso que estou contando tudo pra você. Seja lá como nos sentirmos em relação a Felicity, ela é nossa cliente. Temos que protegê-la. Não podemos ignorar uma ameaça tão grande como essa.
- Merda.
O silêncio recaiu sobre eles por um tempo. Oliver percebeu que Diggle seguia o caminho para seu apartamento. Também não notou nenhum veículo suspeito atrás deles.
- Outra coisa, Diggle. – Oliver disse. – Não gosto de pedir isso, mas você não pode contar nada disso a Lyla.
- O quê? Não posso esconder coisas assim da minha noiva, ainda mais perto do casamento.
- Não é como se ela não escondesse coisas da ARGUS. – Diggle lançou-lhe um olhar afiado. – Você sabe que isso é verdade.
- Mas é algo que eu entendo. Detalhes operacionais. É parte do trabalho dela. Não é como se ela pudesse ficar contando para o mundo quem el que faz.
- Eu sei, Dig. Por enquanto, não conte, por favor. É pelo bem do seu trabalho. – Oliver inspirou antes de continuar, irritado consigo, sabendo que as próximas palavras o fariam soar muito parecido com Waller. – O que você pode fazer é sondá-la, ver o quanto ela sabe sobre o interesse em Felicity, o quanto ela é leal a Waller. Se por algum acaso ela pensar como nós, o que eu acho que é provável porque Lyla é uma pessoa justa, então podemos colocá-la por dentro disso. Uma ajuda interna seria muito bom.
Eles praticamente fariam o Waller pedira, mas sem a diretora envolvida. Por um segundo, Oliver se perguntou se aquele tinha sido o objetivo da mulher com a reunião.
Diggle também ficou ligeiramente irritado, mas porque Oliver tinha razão. Xingou baixo.
- E o que fazer quanto a Felicity? Eu te conheço e não é algo que você vai deixar de lado, por mais que tente.
Oliver suspirou.
- Vamos continuar seguindo a agenda dela. Se por algum acaso tivermos indicação de algo que ela fizer que aponte para Waller estar dizendo a verdade, então aí decidiremos que atitude tomar.
Verdades, mentiras, meias verdades, meias mentiras, omissões. Dever, honra. Era tudo um conflito de interesses. Um cálculo de risco. Um jogo de estratégia.
Pareciam que estavam num campo de batalha de novo.
* Spokoynoy nochi = boa noite
Vsegda priyatno videt' tebya = É sempre bom ver você
(Se tiver errado, a culpa é do Google)
NA: Não sei por que na minha cabeça o Oliver falando "Srta. Smoak" soa quente.
Esse é o último capítulo do ano. Voltarei no primeiro fim de semana de janeiro. Tô pensando em mudar o dia de postagem para sábado, mas vamos ver.
Muito obrigada a todos que estão acompanhando! Que vocês tenham um fim de ano incrível. Até 2019!
