Felicity entrou em casa junto com Oliver, abandonando o protocolo do guarda-costas de vistoriar o local antes. Ele não disse nada, somente contemplou-a enquanto se largava no sofá e tirava os tênis e o boné.

- Srta. Smoak, você vai ficar bem?

Felicity não respondeu, apenas balançou a cabeça em afirmação. Ela não falava nada havia um bom tempo. O trajeto de volta ao apartamento foi em completo silêncio.

Aquela não era sua cliente.

- Eu vou embora agora, ok? Qualquer coisa, me liga.

Ele deu as costas e caminhou para a porta. Estava com a mão na maçaneta quando a ouviu:

- Oliver.

A voz saiu baixa, quase um sussurro. Crua. Vulnerável. Foi a primeira vez que ele não gostou de como seu nome saiu daquela boca. Ele se virou novamente. Felicity estava de pé e o fitava, o semblante abatido.

- Você pode... ficar um pouco? – ela perguntou. Ele captou incerteza. Em seu olhar, havia dúvida e apreensão. A luz que ela sempre emitia estava diminuída, tímida.

A ira subiu em Oliver. O senso de proteção lhe invadiu como uma onda quebrando forte no oceano. Sentiu as mãos querendo se contrair em punhos, mas conteve-se apenas com polegar roçando os dedos indicador e do meio, um tique que começou no Exército.

Queria punir quem tentara atacá-la pessoalmente.

Nunca mais queria ver Felicity daquele jeito.

- Claro.

Ele se aproximou dela devagar, um passo após o outro, os olhos fixos nos dela, transmitindo o máximo de calma e compreensão. Segurou um dos braços dela com delicadeza. Estavam próximos mais uma vez.

- Tudo bem não estar bem. – disse com o tom suave que estava se tornando regra quando estava com ela.

Felicity inspirou com dificuldade e desviou o olhar. Oliver viu um leve brilho de lágrimas nele. Seu maxilar se contraiu por frações de segundo, mas ele logo desfez. Irritação não era o que ela precisava no momento.

- Felicity, fale comigo.

Ela prontamente voltou a olhá-lo, dessa vez com firmeza. Por um segundo, viu um pouco de surpresa. Sabia por quê. Era a primeira vez que ele usava o nome dela.

Oliver desfrutou como a palavra saía de seus lábios, a voz grave e profunda marcando cada sílaba, destacando-a com o respeito e a delicadeza que merecia. Ele gostava do nome dela. Dizê-lo despertava em seu peito algo... bom.

Eles haviam cruzado uma linha da qual não tinha volta. Nenhum se deu conta. E mesmo se desse, também não ligariam.

Os dedos continuavam envoltos no pulso dela. A pele era macia. Ele sentia o pulso reverberando.

Fazia um longo tempo que estivera tão confortável com o toque de outra pessoa.

Os lábios dela tremeram enquanto ela procurava as palavras.

- É só que... Quando eu enfim superei aquela terça-feira... isso acontece. Parece que... Sinto que... – Felicity lutava para se expressar. Estranho. Ela era sempre tão eloquente. – Parece que algo mudou naquele dia. Quer dizer, mudou mesmo. Minha vida mudou. – ela deu uma risada seca, forçada; nenhum pouco parecida com a alegria espontânea que ele via e em algum momento naquelas semanas passou a associar a ela. – Mas sinto que, desde então, eu tenho estado fora de órbita. Mesmo que um pouco.

- Tudo bem sentir-se assim. É normal. Também é passageiro, lembre-se sempre. – A hipocrisia ecoava em Oliver, ele estava bem consciente disso. Mas só porque não acreditava no que dissera para si mesmo não significava que não acreditava para os outros.

E ele não importava naquele momento. Apenas ela.

- Quanto aos ataques que você sofreu... Não pode impedir que eles venham. Mas eu posso impedir que eles a atinjam, como hoje. E eu vou. Sempre. – Oliver, talvez inconscientemente, talvez não, tentava tirar aquele sentimento dela, o peso, tomando-o para si, mais um fardo para carregar.

Ele segurou o ombro direito dela com a outra mão e disse bem fundo naqueles olhos que ainda brilhavam, ainda prendiam choro:

- Felicity. Eu não vou deixar nada acontecer a você.

Ele não prometeu, mas era como se tivesse; havia tanta convicção ali. Era algo além de sua função, porém ele não se conteve. O que Oliver disse era uma certeza entranhada nele. Protegê-la passou – não se sabia quando, talvez naquele instante, talvez quando vira a faca na mão da mulher – a ser mais que seu trabalho, passou a ser questão de honra.

Não sabia por que tamanha determinação.

Felicity inspirou e expirou devagar, o ar entrou e saiu carregando parte de sua apreensão. As gotas em seus olhos sumiram. O peito ficou mais leve.

Oliver soltou o ombro dela. Quando ia desprender os dedos do pulso, a outra mão dela levantou e segurou o pulso dele. Ela o apertou com mais força do que normalmente faria. Queria reafirmar a solidez dele, a completude.

Na ausência de órbita, Oliver era uma certeza.

- Obrigada. – Felicity disse.

- Hey... Você nunca tem que me agradecer.

Eles se soltaram, porém continuaram perto, os azuis dos olhos ainda trancados no outro. O silêncio era confortável, mesmo com uma leve tensão crescendo entre eles.

- Sabe... Eu estou até ficando com fome. – Felicity disse, abraçando o estômago.

Oliver sorriu. Lá estava ela voltando ao normal.

- Vou pedir pizza.

- Tenha certeza que ela é grande o suficiente para dois. – ele piscou.

- Mario's?

- Melhor pizza da cidade.

- Eu só não sei que sabor. Amo pepperoni, mas também comeria a de azeitonas pretas e cogumelos... – ela falava, a voz deixando para traz os últimos resquícios de perturbação.

- Os dois. Peça duas.

Felicity botou as mãos na cintura. Um brilho divertido surgiu em seu olhar.

- Eu como quando estou ansiosa. Não me incentive. – ela apertou os lábios por uns segundos, pensativa. – Certo. Duas então.

Ela se afastou para pegar o telefone e ligar. Oliver aproveitou para tirar a jaqueta e sentar no sofá maior. Ele olhou brevemente ao redor. O apartamento era colorido e convidativo e combinava com ela. Viu algumas caixas vazias empilhadas perto da mesa de jantar. Imaginou que ela já devia estar se preparando para a mudança. Perguntou sobre isso assim que ela terminou de fazer o pedido.

- Sim. Comecei aos poucos para não ficar doida no dia de mudar.

- Me chama no dia. Eu te ajudo.

Ela abriu um sorriso doce.

- Você realmente não precisa.

- Eu sei, mas eu quero. E não como seu guarda-costas.

Um tremor involuntário a percorreu. Oliver notou porque ele sempre notava, era seu trabalho, mas ignorou. Escolheu ignorar.

Felicity trocou o peso de um pé para outro, procurando afastar a tensão. Ou pelo menos superá-la.

- Uh, que tal um vinho para acompanhar? – ela mudou de assunto. – Um Cabernet Sauvignon? Se bem que cogumelo combina mais com Pinot Noir... Mas é tudo tinto, não é. Também tenho um Jerez e ainda não testei essa combinação com pepperoni.

Oliver franziu o cenho, surpreso.

- Você conhece bastante de vinhos. – ele apontou.

- Pff. Nada. Eu amo vinho e amo pizza. Só joguei essa combinação no Google.

Felicity foi até o suporte na cozinha onde guardava os vinhos e puxou uma garrafa de Cabernet Sauvignon.

- Italiano. Bem temático. E não tem como errar com um clássico. – disse enquanto balançava a garrafa para ele.

Ele sorriu mais um daqueles sorrisos quase não existentes. A animação dela o contagiou, atingindo-o, encontrando um ponto enterrado lá fundo nele, até então letárgico e adormecido, que ele achava não existir mais. Oliver sentiu um calor espalhar dentro de si. Ele era o que sempre foi – aço e reflexos – e pularia no primeiro sinal de perigo, mas também, naquele instante, relaxou. Pura e simplesmente.

Felicity colocou o vinho para gelar e depois sentou no sofá ao lado dele. Dobrou os joelhos sob si e virou-se para ele, apoiando o cotovelo no encosto.

- E você? Também tem uma veia de sommelier?

- Pode-se dizer que sim. Embora eu tome mais uísque, gosto bastante de vinho. – Oliver omitiu que não desfrutava de bebida como antes, os aromas, o gosto na boca, o estalar na língua. Ele bebia porque recordava que era bom. – Aprendi a gostar em casa mesmo. Tem uma adega na casa da minha família.

Também não sabia explicar por que compartilhava aqueles detalhes com ela.

Óbvio que a família dele tinha uma adega própria, pensou Felicity. Imaginou um lugar vasto, antigo e de pedra, iluminação moderna, mas baixa, e fileiras e fileiras de garrafas postas, muitas sob uma camada de pó. Imaginou vinhos raros e lendários, talvez alguns até que o mundo pensava não existir mais.

Oliver não falava de um jeito arrogante ou superior, mas sim constatando um fato.

- Aposto que tem umas coisas legais lá, tipo um Lafite-Rothschild de 1982.

- E tem. Algumas garrafas.

Felicity arregalou os olhos. Ela acreditava, afinal, os Queen eram bilionários. Mas mesmo assim... Caramba.

- Na próxima vez que eu estiver lá, vou ver se acho para você.

A surpresa dela aprofundou.

- Você... você simplesmente não vai me dar um vinho desses. – Ela apostava que o preço atual de uma garrafa estava na casa dos milhares.

Oliver deu de ombros. A adega da mansão tinha muitas coisas e não era como se a família fosse vendê-las ou beber tudo durante a vida. E, honestamente, não ligava para o valor monetário. O vinho com certeza teria mais valor, outro valor, muito mais significativo, nas mãos de Felicity. E se ele contribuiria para a felicidade dela, por que não?

- Eu ia, mas se você não quiser... Talvez eu te dê de presente de aniversário porque aí fica muito feio você devolver. – falou de brincadeira.

- Você sabe meu aniversário? – ela perguntou, um misto de surpresa, confusão e curiosidade.

Ele a fitou fixamente.

- Vinte e quatro de julho. – respondeu categórico. – Você tem consciência que eu li seu perfil quando me ofereceram o posto, certo? Assim como você recebeu um meu.

Felicity lutava contra as agitações dentro dela que sugiram com o vinho, a menção do aniversário, a gentileza dele.

- Sim, mas... Nem por isso eu gravei o seu aniversário.

- Bom, é meu trabalho estar atento a tudo sobre você. – Grave, sério e rouco. Foi assim que a voz soou. Somado ao olhar penetrante dele, que a percorreu rapidamente de cima a abaixo para pontuar ainda mais as palavras, o tom provocou um arrepio em Felicity. Ela sustentou os olhos dele, as correntes – por mais tumultuosas e sombrias que fossem – daqueles mares convidativas, provocantes. Encantadoras. Era impotente frente a elas.

- E quando é seu aniversário? Porque se você vai me dar um vinho raro, o mínimo que eu posso fazer é retribuir. – ela se forçou a falar para escapar daquelas reações.

Não havia nenhum motivo para seu guarda-costas despertá-las. E com tamanho ímpeto.

- Dezesseis de maio. – Oliver realmente não ligava para presente, mas, bem, foi ele mesmo que se enfiou naquela.

- Hey, tá perto!

A conversa continuou a fluir. A atmosfera era agradável, natural. Oliver até mesmo se desfez dos sapatos. Depois de um tempo, Felicity se levantou e foi ao banheiro para tirar o resto de maquiagem e as lentes de contato. Ela na verdade queria tomar um banho, mas não se sentia nenhum pouco confortável em se despir com Oliver logo no aposento ao lado.

Seu cérebro pensava nas coisas mais malucas.

Estava quase saindo quando ouviu a campainha tocando.

- Já to indo! – exclamou, mesmo sabendo que Oliver, como seu protetor, já estava conferindo.

Ela se apressou, saiu e pegou a carteira. Contudo, Oliver já entregava o cartão de crédito para o entregador de pizza.

- Não! Eu pedi, eu pago. – ela se lançou contra ele, tentando pegar o maldito retângulo de plástico. Mas o homem apenas estendeu o braço direito e bloqueou-a. Felicity continuou lutando, tentando atravessar aquele mais de um metro e oitenta de puro músculo – devia ser cômico porque ela viu a entregador dar uma risadinha –, até que Oliver guardou o cartão no bolso do jeans, pegou as caixas, despediu-se do entregador e fechou a porta.

Ele se virou para ela com um sorriso convencido e brincalhão, as covinhas aparecendo de leve. Porém não foi capaz de amansar a frustração dela.

- Por que você fez isso? – Felicity perguntou cruzando os braços.

- Qual é, Felicity, não é nada. – E de fato não era. Ele era o bilionário ali. Embora fosse apenas questão de tempo até que a própria Felicity se tornasse uma.

Ela revirou os olhos e bufou. Já estava pago, não tinha volta.

Oliver viu pela primeira vez a cara lavada dela e os cabelos longos soltos. Notou que as mechas douradas caíam naturalmente em suaves cachos. Ela parecia mais nova, mais refrescada. Ainda linda.

- Pega o vinho. O jantar está servido. – ele disse.

Eles se acomodaram na mesa de centro e sentaram no chão. Felicity abriu a garrafa na cozinha antes de depositá-la num canto junto com duas taças, um cortador de pizza caso o corte do restaurante estivesse mal feito e guardanapos.

- Porque é muito melhor comer o pedaço inteiro com as mãos.

Oliver foi ao banheiro lavar as mãos e quando sentou no tapete do outro lado da mesa e de frente a Felicity, ela pegou uma fatia de pepperoni e mordeu. Ela fechou os olhos e soltou um gemido que Oliver definitivamente não devia ter classificado como prazeroso. Seu corpo também não devia ter ficado tenso com o som.

Ele serviu a bebida nas duas taças e ia levar a sua à boca quando ela o interrompeu.

- Espera, espera! Temos que fazer um brinde.

- A quê? – ele perguntou confuso.

- Não precisa de um motivo. Só fazer clinc mesmo. Mas se você insiste... A estarmos aqui, vivos. – Oliver captou a voz dela embargando de leve. – E à melhor pizza.

Ele tocou a taça na dela e tomou um gole antes de pegar um pedaço da pizza.

- Queijo é uma das melhores coisas da vida. É por isso que eu não conseguiria ser vegana. – Felicity comentou depois de uns instantes.

- Não sei, existem uns pratos veganos bem legais.

- Como você sabe? Já experimentou?

- Curiosidade apenas. Eu gosto de cozinhar. – ele deu de ombros.

Felicity, por sua vez, não escondeu a surpresa. Ele era sexy, gentil e cozinhava? Logo se lembrou das palavras de Donna Smoak: Se você achar um cara gostoso que cozinha, case com ele. Você não vai achar outro.

Agora não, cérebro idiota.

- Sempre gostou? – ela perguntou.

- Não, foi algo que eu descobri depois do Exército. – ele confessou, sério, a voz ecoando aquela época, trazendo notas sombrias e de seus pecados.

Oliver descobriu na culinária um bálsamo, uma espécie de terapia para lidar com seus demônios.

Felicity percebeu tudo. O Oriente Médio o marcara profundamente, o mudara para sempre. Ela via o sofrimento, a vergonha, a dor. Era a primeira vez que Oliver, consciente ou não, mostrava sua alma torturada.

Ela detestava que ele tivesse passado por aquilo, seja lá o que fosse. Mais uma vez ela estava curiosa, porém estava muito mais tocada por ele ter escolhido-a para compartilhar um pedaço dele, por menor que fosse.

Oliver receou que suas palavras houvessem matado o clima bom entre eles, mas não. Ao levantar o olhar para Felicity, viu-a encarando-o fixamente. Contudo, naqueles olhos não havia julgamento, pena, repúdio, asco ou medo, como esperava, como sempre esperava quando alguém sabia que ele era um ex-soldado. Viu compreensão, gentileza e surpreendentemente gratidão.

O chão pareceu ter sido arrancado dele. O fôlego ficou preso em sua garganta por frações de segundo.

O ar ficou estático, carregado. O jantar foi esquecido. Os olhares que trocavam agora eram os mais intensos de todo o dia. De todo o tempo em que se conheciam.

Oliver percebeu tardiamente que sua máscara tinha caído. Colocou-a de volta, quebrou o contato visual e comeu mais um pouco.

- E você? Quando descobriu que gostava de computadores? – ele perguntou para mudar o assunto, porém realmente queria saber.

Queria saber mais sobre ela do que ousava admitir.

O rosto de Felicity se iluminou.

- Eu construía computadores desde os sete anos. Sempre fui curiosa com as peças, algumas tão pequenas e delicadas, mas tão poderosas. A primeira vez que vi uma placa-mãe foi como se um novo universo se abrisse para mim, o que não deixa de ser verdade, de certa forma. Parecia uma micro cidade, com ruas e prédios... Comecei com hardware, mas depois passei para software e foi quando me achei no mundo da inovação, da tecnologia. Tive certeza que queria fazer minha carreira nisso. Criar, construir, ver algo se formando do zero... Foi assim que a empresa surgiu. Eu queria criar coisas para mudar a vida das pessoas para melhor. E se eu mudo as pessoas, eu mudo o mundo.

Oliver estava sem palavras. Ela falava com tanta paixão, sinceridade, entusiasmo, certeza. Ele poderia ouvi-la por horas. Era incrível saber que a Smoak Technologies surgiu por um motivo tão simples, mas tão grandioso. Ela só queria ajudar as pessoas. Era a cara de Felicity. Ela podia ser um gênio certificado, mas era seu coração que a tornava tão cativante.

Ele nem se deu conta da expressão de pura admiração com a qual a olhava.

Manter sua fachada perto dela começou a ser tornar difícil.

- O que foi? – Felicity perguntou, acanhada pelo ardor do olhar dele.

- Nada.

Eles continuaram a comer. A quantidade de fatias que Oliver ingeria definitivamente não contribuía para sua dieta, mas as pizzas tiraram Felicity de seu humor sombrio. E ele faria de novo sem pestanejar.

Outros assuntos foram surgindo. Conversar com ela era tão fácil, tão sem esforço e ele ainda acharia isso mesmo se não houvesse se fechado há anos. Não pôs muito pensamento nisso. Aliás, nem naquela noite desde o momento que entrara na casa dela. Não queria explorar nada daquilo, seus sentimentos, suas palavras, por isso tratou de empurrar tudo para longe e compartimentar.

- Eu não aguento mais. – Felicity disse olhando tristemente para as caixas de pizza, onde havia poucas fatias. – Mas também eu to muito feliz.

- Eu devo ter comido quase uma pizza inteira. Então o resto é seu.

- Já é o jantar de amanhã. Ou o almoço. Bom. – Oliver revirou os olhos e abafou uma risada. Ela logo o repreendeu. – Hey, nem todo mundo foi abençoado na arte culinária como você.

Aquele deveria ser o momento final do jantar, porém nenhum dos dois se mexeu, nenhum quis se mexer. Eles continuaram a conversar e somente quando terminaram o vinho que se levantaram. Felicity colocou a garrafa vazia no lixo, juntou as fatias restantes e guardou na geladeira. Quando se virou para lavar as taças, viu Oliver já na pia com uma esponja na mão.

- Vou ter que brigar com você por causa disso também?

Ele se virou para ela com um mais um sorriso charmoso devastador.

- Gostaria de vê-la tentar.

Felicity se recostou na ilha e o esperou. Ele estava de costas. Um tanto alterada pelo álcool, ela se permitiu admirar os ombros largos e os músculos, que saltavam pela camisa enquanto ele movimentava os braços. Seu olhar percorreu o tronco dele, parando na jeans. Ela mordeu o lábio ao ver o contorno da bunda dele. Honestamente, uma pessoa não deveria ser tão bonita até mesmo lavando louça.

Ele fechou a torneira. Os dois voltaram à sala. Perceberam ao mesmo tempo, com uma pontada de decepção, que a noite chegou ao fim.

- Bom, acho que já vou. – ele disse.

- Acabou de me correr que eu não devia ter deixado você tomar metade do vinho. Tá dirigindo! – Felicity falou num estalo.

- Não foi a decisão mais sábia, mas estou bem, Felicity, juro para você. Todo o carboidrato tá segurando o efeito do álcool. Aliás, parabéns, a combinação com o vinho foi perfeito.

Ela sorriu, deleitando-se com o elogio.

- Não acredito que você tá reclamando do carboidrato. Não é como se duas pizzas fossem fazer um estrago nesse seu abdome incrível. – ela apertou os lábios com força, mas não se conteve. – Não que eu saiba que é incrível, eu nunca vi, só imagino... Quer dizer, não imagino, é só o que parece.

Não seria Felicity se não cometesse um deslize verbal.

Ela fechou os olhos com força e contou baixinho até três.

- Só vai.

Oliver calçou os sapatos e vestiu a jaqueta. Ela o acompanhou até a porta. Eles se entreolharam, incertos sobre como agir. Segundos se passaram. Felicity não sabia como se despedir dele. Um aperto de mão, um abraço? Ele teoricamente estava em serviço, mas a última hora e meia havia sido totalmente informal e descontraída, mais como se tivesse passado com um amigo do que um empregado. Acabou que não fizeram nada. Oliver apenas cruzou o batente.

- Você vai ficar bem? – ele perguntou, virando-se para trás. A profundidade na voz explicitava o que queria dizer.

- Vou sim. – disse com um sorriso suave.

Ela estaria bem contanto que tivesse seu protetor ao seu lado.


Em ocasionais domingos, a família Diggle se reunia na casa dos pais de John. Os almoços quase sempre se estendiam até a noite de tão agradável o clima. Volta e meia Oliver comparecia, como no dia seguinte ao basebol. Ele foi mais para discutir um assunto do que pela confraternização.

Ao chegar, Oliver foi cumprimentado por Heather, a mãe de Diggle, que disse que filho estava no quintal. A casa era tinha um andar apenas, mas a área externa era enorme, o que tornava a tornava o lugar ideal para as reuniões familiares.

Ele encontrou Diggle, Lyla e Sara conversando entre si. O amigo carregava a filha no colo, que foi a primeira a identificar o padrinho. Ela se inclinou na direção dele, o bracinho estendido. A pontada no coração que acompanhava Oliver toda vez que a via se manifestou. Doía, embora estivesse acostumado.

- E aí, cara? Foi mal. Agora ela está numa fase bem tátil. – Diggle falou, tentando conter o braço da bebê, mas em vão.

Oliver, em mais uma tentativa de ser um padrinho decente, resolveu tomá-la no colo. Sara foi com facilidade, e assim que ele a ajeitou nos braços, ela depositou a mão sobre seu maxilar e começou a acariciar. Depois de uns segundos, ela olhou para os pais e exclamou animada, o rosto demonstrando surpresa.

- Gostou da barba do padrinho, é? – disse Lyla sorrindo. Diggle a imitava, e seus olhos brilhavam cheios de amor. Até Oliver ficou comovido; seu peito aqueceu e um pedaço do desconforto que sentia perto da menina se desfez – ele permitiu que se desfizesse.

Sara ficou em seu colo durante um bom tempo enquanto ele socializava com os presentes. Ela até mesmo envolveu o pescoço dele com os braços e deitou a cabeça num de seus ombros. Então Lyla se afastou, levando-a, e Diggle entrou na cozinha para pegar uma cerveja. Oliver resolveu aproveitar que os dois estavam sozinhos e longe dos outros para falar o que queria.

- Como está Felicity? – Diggle perguntou abrindo a garrafa.

- Ela estava bem perturbada quando eu a levei para casa ontem, mas... acredito que ela está melhor agora. – Oliver respondeu, propositalmente não mencionando o tempo que os dois passaram juntos. Ele jurava que o jantar estava bem compartimentado dentro de si – não pense –, então não havia motivo algum para o deslize hesitante no fim de sua fala. – Ela é uma mulher forte.

- Me distraí ontem e me esqueci de mandar uma mensagem para ela. – Diggle depositou a bebida no balcão, tirou o celular do bolso e digitou brevemente. Oliver esperou paciente antes de se pronunciar de novo.

- Acho que nós dois podemos concordar que o que aconteceu não foi algo ao acaso.

- Definitivamente não. – Diggle bebeu um gole e levantou o olhar para a janela. Sua expressão ficou sombria.

- Alguém sabia que ela estaria lá de antemão. Os portões do estádio fecham com início do jogo e abrem no fim, por isso não foi um caso de terem visto ela lá dentro e depois mandado a mulher entrar. – Oliver cruzou os braços, já imerso no modo analítico.

- Não é como se não existisse gente com habilidade de invadir o estádio. – Diggle apontou. Os dois ali tinham tal habilidade.

- Possível, mas não o mais provável. Não, Dig, isso foi premeditado.

Oliver sentiu a hesitação do amigo antes de ouvi-lo:

- ARGUS?

- Waller não seria descuidada assim. – Oliver falou duramente. Sabia como a antiga chefe operava.

- Então, quem sabia da presença de Felicity no jogo?

- Só podemos ter certeza de quem estava no jogo. Os executivos da ST, o VP com quem ela conversou. Pode ser que ela tenha contado a outros. Mas, por motivos práticos, vamos primeiro considerar as variáveis que temos e não as incógnitas.

- Acha possível o pessoal da ST estar envolvido? Os próprios funcionários de Felicity? – Diggle franziu o cenho para o amigo.

- Acho tudo, Dig. Não os conhecemos. – Oliver afirmou com seriedade.

- Penso também que pode ter algo a ver com o sequestro. É o segundo ataque a ela em menos de um mês.

Oliver cogitou com própria Felicity no dia em que se conheceram ela não ter sido uma vítima aleatória. A hipótese se tornou mais provável.

- Ou até mesmo à história de ciberterrorismo que Waller falou, se for verdadeira. – Algo estalou dentro da cabeça de Oliver. – E se tudo estiver conectado? O sequestro, o ataque ontem... Waller disse quer Overlord, o ciberterrorista que a ARGUS está perseguindo, deseja as habilidades de Felicity. Pode ser o jeito dele de abordá-la.

- Assumindo que ela não esteja aliada a ele. – Diggle apontou cirurgicamente.

A surpresa colidiu com Oliver. Esquecera-se de ver Felicity como suspeita, como adversária. Quando isso aconteceu?

- Sim, claro. Assumindo que ela é uma vítima. – ele tentou desconversar.

- Também temos que descobrir o que ela está escondendo de nós. Você viu como ela se comportou quando fomos à delegacia na quinta-feira.

Oliver não podia negar que o comportamento foi de fato suspeito.

- Ou pode ser um terceiro agente. Alguém fora disso que saiba das habilidades dela. Que talvez esteja concorrendo com o ciberterrorista. – Diggle adicionou.

- Mas por que Felicity? – Oliver não conteve a frustração em seu tom, o senso de proteção o invadiu com intensidade, urgente. Por que tanto ela corria tanto perigo? Por que ela era um alvo? O que ela tinha de especial? – Tantos hackers no mundo...

- Bom, agora você a conhece. Ela é um gênio.

Havia tantas linhas de pensamento, tantas suposições. Era como andar em círculos.

- Isso não explica... – Oliver ponderou por alto. – Enquanto a polícia prendia a agressora, ela murmurou algo em russo.

- Russo? – Diggle estava confuso. – Você não quer dizer que a máfia russa está envolvida?

- Já disse para não descartar nenhuma possibilidade. E pode ser que a mulher apenas seja apenas uma mercenária relacionada à máfia. Ainda assim... Lembra quando fomos à delegacia com Felicity? O que Capitão Lance disse? Algo está acontecendo com as máfias.

- Ok, agora já está beirando à loucura. – Diggle bebeu mais da cerveja para tentar processar tudo. – Vamos com calma. Vamos lembrar que a SCPD tá investigando tudo.

- Não é como se nós estivéssemos de braços cruzados, Dig. Felicity está no nosso radar há um tempo.

- Sim. Caso Waller esteja certo sobre ela. Sobre ela ser uma criminosa. – Diggle relembrou com cautela. Fitou o compadre com um misto de dúvida e curiosidade. – E você vai sair por aí investigando.

Oliver realmente não entendeu o olhar do outro homem.

- Ela é nossa cliente, Diggle. Temos que saber quem a está ameaçando para protegê-la da melhor forma.

John abriu a boca, mas o que quer que fosse dizer se perdeu.

- Apenas lembre que não estamos mais em combate. – disse após um instante.

Oliver estreitou os olhos. Sua postura enrijeceu.

- Não foi você mesmo que me disse que o lar é um campo de batalha?

Mas o que Oliver não sabia era que Diggle quis dizer aquilo para que, ao chegar em casa, Oliver soubesse que sua família e amigos – e o resto da cidade, devido à fama que tinha – teriam milhares de expectativas sobre si após o Oriente Médio, muitas não verdadeiras, e que esperasse por isso. Porque a readaptação não seria fácil.

Diggle decidiu não discutir mais ao ouvir o tom ríspido e cortante, somente suspirou resignado.

- Ok, então qual o primeiro passo?

- Você vai me apoiar nisso?

- Vou estar ao seu lado do mesmo jeito que o começo, Oliver. Para lembrar a você quem é. E impedir que você se perca em si mesmo. – Diggle levou a garrafa à boca antes de continuar. – Tem diversas hipóteses pairando. Qual você vai seguir?

Oliver prontamente respondeu:

- Duas, na verdade. Primeiro, o VP da Azel Inc. Ele quis fazer negócios com Felicity no jogo, e ela é atacada. Segundo, a atacante.

Oliver aproveitou o resto do dia. Contudo, seu subconsciente reanalisava a discussão e o ataque.

Como todas aquelas peças se juntavam no quebra-cabeça maior?


Felicity aceitou meio a contragosto o convite de Iris para andar de bicicleta. O que queria mesmo era voltar a sua investigação.

Acordou disposta e determinada, mesmo que o medo e a perturbação do dia anterior não houvessem desaparecido cem por cento. Mas ela estava usando o mesmo mecanismo do sequestro: ela tinha um poder e ia usá-lo. Não poderia ficar parada, não poderia remoer o que aconteceu senão enlouqueceria.

Ela se esforçou para o ver o lado bom. Não fora atingida e agora tinha Oliver e John para protegê-la.

Ia afundar-se em programação após ter feito as unhas – como quase sempre fazia aos domingos – quando sua melhor amiga lhe mandou uma mensagem, e ela não conseguiu negar. O dia tá lindo! Para de ser preguiçosa, só vamos, Iris escrevera.

E o clima era agradável de fato. A primavera definitivamente entrara. O dia estava ensolarado, a temperatura batia os 21°C.

O que explicava Felicity estar sentindo o vento cortando seu rosto no circuito que faziam à beira-mar. Ela e Iris estavam lado a lado, e Rob as seguia de perto.

- Parece que to andando de bicicleta com o presidente. – Iris comentara divertida assim que começaram a pedalar.

- Se eu fosse o presidente, com certeza teriam mais seguranças. – Felicity murmurara.

- Se você fosse o presidente, seria incrível. Já passou da hora desse país ter uma mulher presidente. Sem contar que você com certeza seria o presidente mais amado da história. Além da super inteligência, você é um amor de pessoa.

Agora elas discutiam o jogo de basebol.

- Estava vendo meu feed e de repente vejo você. – Iris explicava que um site de entretenimento local publicara fotos dela e postara nas mídias sociais. Felicity resmungou. Sabia que tinha um nível de fama na cidade e vez ou outra aparecia nas revistas de fofoca. No geral, não se incomodava, visto que não atrapalhava seu cotidiano. Porém não queria particularmente os eventos de ontem noticiados. – E seu guarda-costas celebridade. Aliás, devo dizer que num primeiro momento, eles insinuaram que ele era seu acompanhante... Na verdade, insinuaram que você era acompanhante dele, o que achei sexista... – O próximo grunhido de Felicity foi mais alto. Com certeza não precisava daquele tipo de especulação em sua vida recentemente complicada. – Mas depois obtiveram a informação correta e editaram. E claro que também foi reportado, e também no jornal, sobre a tentativa de ataque. Foi quando eu te liguei e você não atendeu. Aliás, por que você não atendeu? Ou ligou de volta?

Porque, depois da delegacia, ela estava jantando com o tal guarda-costas celebridade.

Iris definitivamente não tinha que saber disso.

Felicity já sabia da repercussão do ataque. Depois que Oliver foi embora, ela pegou o celular e viu algumas mensagens, não tanto quanto após sequestro, o que mostrava que o alarde dessa vez não fora grandioso, ainda bem. Além disso, a primeira coisa que Rob disse ao se encontrarem foi perguntar se ela estava bem e se precisava de algo.

- Não estava muito a fim de lidar com o mundo quando cheguei em casa. Ainda estava processando. – tentou explicar e se esforçou para soar sincera. Acabou que era uma meia verdade. – Desculpa mesmo.

- O que importa é que nada aconteceu.

Durante o circuito, Felicity ainda contou que encontrou um novo apartamento e que rompeu com Billy. Depois, as duas pararam para um lanche e falaram de Dinah, que estava num encontro com colegas da academia de polícia, e Caitlin, que viajara no fim de semana com o namorado Ronnie Raymond.

Elas se despediram, e Felicity seguiu direto para casa. Seus dedos já coçavam quando cruzou a porta. Tomou um banho apressado e logo estava atrás do computador.

Mesmo que seguir o rastro de seu dinheiro roubado não tenha sido cem por cento produtivo, ainda sim revelou informações possivelmente relevantes.

Inspirada pelo que Billy dissera quando fora à delegacia, Felicity teve a ideia de resgatar imagens de câmeras, sejam de tráfego ou outras, do dia de seu sequestro para ver se conseguia identificar os bandidos. Depois, usaria um software de reconhecimento facial e por fim aplicaria todas essas informações ao algoritmo da SCPD com algumas modificações.

Era um tiro no escuro depois de semanas terem se passado? Provavelmente. Contudo, era melhor que nada. E o próprio Billy falara que iria ajudá-la se ela apresentasse algo.

Começou acessando o rastreador do Mini Cooper para mapear a rota que o carro seguiu no dia. Depois, levantou as câmeras no momento da abordagem inicial e na região do banco Starling National. Conseguiu algumas imagens razoáveis, que depois de algum tratamento puderam ser aplicadas ao reconhecimento facial.

Felicity deixou o programa rodando enquanto ia jantar – quase se esqueceu de comer de tão concentrada e se surpreendeu por já ser tão tarde. Quando voltou e olhou para a tela, ela resmungou frustrada.

Não conseguiu nenhuma identidade. Em nenhum banco de dados conhecido.

Antes de parar pela noite, Felicity percorreu os documentos da SCPD e puxou os nomes dos membros da quadrilha que foram presos e dos suspeitos foragidos. Todos eles tinham correspondência nos bancos de dados.

O que significava que seus sequestradores não eram parte do grupo.


Felicity tinha sua própria empresa de tecnologia, então nada mais justo do que ela desenvolver o sistema de segurança para seu novo apartamento. Uma das primeiras coisas que fez após fechar negócio foi falar com sua dupla dinâmica, Cisco e Curtis, para construir um protótipo com base nas criações que a empresa já tinha. Ela mesma se encarregaria da programação.

Segunda-feira ela desceu até um dos laboratórios do setor de pesquisa e desenvolvimento a pedido de Cisco e Curtis. Eles apresentaram a criação empolgadamente, e Felicity estava satisfeita com o resultado, mesmo que não esperasse algo diferente. Os engenheiros entendiam como a mente dela funcionava e eram capazes de concretizar suas ideias mais malucas.

- Ótimo! Finalizem o produto final e me avisem o mais rápido possível. Me mudo na semana que vem. – disse ao término da reunião.

No caminho de volta ao vigésimo quinto andar, ela explicou aos guarda-costas seu raciocínio.

- Queria criar algo único para dificultar possíveis invasões.

- É uma ideia brilhante. – disse Diggle.

Os três entraram no escritório dela.

- Ainda mais considerando o risco que você está correndo. – Oliver falou. Seu tom era normal, mas Felicity não pôde deixar de pensar como caiu ríspido no ambiente.

Ela parou de andar de repente e se virou para Oliver.

- Não dá mais para ignorar que você é um alvo, Felicity.

Ouvir a verdade de outra pessoa – dele – fez um peso se instalar no estômago dela.

- Eu sei. – disse engolindo em seco.

- E precisamos falar sobre isso. – Oliver adicionou.

- Vá em frente. Mas o que eu sei é o que eu disse a polícia. – ela foi se sentar.

- Não consegue imaginar realmente alguém que queira te machucar? Inimigos? Rivais? Sejam pessoais ou profissionais? – ele caminhou até parar em frente à escrivaninha e pôs as mãos nos bolsos. Estava com o terno aberto, e Felicity viu um flash de uma das armas dele. Diggle se posicionou perto da entrada, embora prestasse completa atenção à conversa.

- Não. – a CEO afirmou categórica. – A última rivalidade que tive foi na vida profissional e foi quando comecei a empresa porque todo mundo queria me comprar. Curiosamente, a Queen Consolidated foi a única que não tentou. Mais um motivo para gostar do Walter.

- E sua família? Amigos? Colegas de trabalho?

Se ele soubesse que ela já vasculhara a vida dos membros da diretoria e seus maiores investidores...

- Minha família é só eu e minha mãe. – Felicity respondeu. – E antes que você pergunte: meus diretores, minha mãe, você, Diggle e Rob e o VP Anders eram os únicos que sabiam da minha ida ao jogo. Nem mesmo as minhas amigas mais íntimas sabiam. – ela cruzou as mãos em cima da mesa e o fitou firmemente. – Acabou o interrogatório?

- Não. E não é um interrogatório. – o outro falou simplesmente.

- Mas parece. Vai sair por aí investigando?

Felicity não tinha nenhum direito de sair dando alfinetadas daquele jeito, porém não conseguiu se conter. Um fio de frustração e irritação – não com Oliver em especial, mas com a situação toda – a invadia aos poucos.

Na verdade, ela cogitou seriamente contar aos dois sobre sua própria investigação. Não só porque eram seus guarda-costas, como também por serem especialistas em segurança. Eles poderiam dar ótimos insights.

Contudo não queria que eles – os ex-militares – soubessem que o que fazia consista em hackear. Sabe, um pouquinho ilegal. Ops.

- Eu e Dig trabalharemos melhor se essa ameaça tiver uma cara. – Felicity percebeu que ele contornou a pergunta. Ela tentou ler a expressão dele e... Havia alguma coisa estranha.

Aparentemente Oliver Queen não era o mestre da impenetrabilidade.

Pelo menos, não para ela.

- E quanto ao sequestro? – ele falou.

- O que tem ele? O mesmo que eu falei antes vale para ele. – Felicity franziu o cenho em confusão.

- Você falou particularmente com o Detetive Malone naquele dia na semana passada...

Ela se esforçou para disfarçar a tensão que lhe surgiu.

- Eu imaginei que os sequestradores não tinham nada a ver com a quadrilha que a polícia pegou. Parece que estou certa... considerando o último sábado. Ele também levantou a hipótese de ser algo relacionado a mim ou a empresa, assim como você.

- E por que não contou a nós?

Parabéns, presa na sinuca de bico. Ela respirou fundo e contou mais uma parte da verdade:

- Desde o sequestro, minha intuição dizia que havia algo que não batia. Que eu não fora uma vítima aleatória. Uma parte de mim dizia que era paranoia, e eu não queria alarmá-los. Acabou que não é paranoia.

- Felicity... Não importa se o que você acha é algo irreal ou paranoico, pode falar conosco. Deixamos claro isso no primeiro dia. Deixe que nós nos preocupemos com a sua segurança.

A expressão suave no rosto de Oliver e sua voz gentil a fizeram querer se esconder. Pela primeira vez, não gostou de mentir para ele e Diggle.


Felicity tivera ideias malucas na vida, mas aquela poderia entrar no top três.

Ideia maluca e estúpida.

Ela olhava para a chave do carro sobre mesa, mordendo o lábio inferior enquanto decidia.

Não conseguia evitar. Odiava mistérios, odiava não saber. Ainda mais quando se tratava de sua própria vida.

E que a ideia provavelmente poderia custá-la.

E que não seguir a ideia provavelmente colocaria outras pessoas em perigo.

Felicity sentiu o coração dar um aperto. Se alguém tivesse que sofrer, que fosse ela. Pegou a chave e saiu.

Tudo começou quando, após encontrar mais um beco sem saída com o reconhecimento facial, resolveu tomar um novo caminho. Debruçou-se sobre as invasões a Smoak Tech, tomando como base as observações de Alena, e pôs a fazer a engenharia reversa para identificar a origem do sinal. Demorou dois dias, nos quais ela foi dormir de madrugada – e teve que caprichar no corretivo na manhã seguinte e colocar sua melhor cara de pôquer pra despistar seus guarda-costas –, o que mostrava que, quem quer que fosse, era bom. Mas Felicity era melhor, e enfim conseguiu rastrear um local possível. Ali mesmo em Starling.

Seu coração disparou em empolgação com a primeira pista concreta. Foi aí que o pensamento surgiu: iria ao local ou não?

Resolveu não se precipitar e deixar a ideia cair em segundo plano até o dia seguinte. Contudo, não foi o que aconteceu, e ela passou a quarta-feira inteira remoendo em sua mente.

A curiosidade venceu. Alguém a colocara em perigo e precisava saber por quê.

Um vento cortava a cidade naquela noite. Eram mais de nove horas quando Felicity, completamente alerta, olhando de um lado para outro, o capuz do moletom na cabeça, deslizou sorrateiramente para dentro de seu Mini Cooper. Tanto tempo que não dirigia! Aquela provavelmente seria a última vez que dirigiria seu amado carro vermelho antes de se despedir dele, visto que o BMW blindado estaria pronto naquela semana.

Ela não ligou o computador de bordo e usou o GPS do tablet para colocar a rota. Assim que ligou o carro, seu pulso acelerou.

Sairia tarde, sozinha para um endereço aleatório no meio da cidade para encontrar sabe-se lá o quê. Não era a melhor demonstração de instinto de sobrevivência. Logo pensou em Oliver e Diggle. Não seria ótimo ter dois homens que sabiam lutar ao seu lado? Ou capazes de salvá-la caso algo acontecesse?

Felicity balançou a cabeça com veemência. Controlou a respiração, procurando se focar, deixar sua mente analítica afiada. Era apenas uma missão de reconhecimento.

Meia hora depois, ela chegou ao destino. Estacionou o carro a dois quarteirões de distância, numa rua um pouco mais movimentada e iluminada, e cruzou a distância final a pé. O tempo deu uma fechada e um trovão soou ao longe. Que maravilha. Só esperava que não caísse uma tempestade. Felicity andava vigilante, mas se esforçava para não aparentar tensão; imaginava que chamaria a atenção. Ainda bem que usava roupas escuras; o casaco era azul-marinho e a calça – tudo bem, era de ginástica e destacava suas pernas mais que necessário, mas eram confortáveis – e os tênis eram pretos. O moletom também era de um tamanho maior, o que deu para esconder o tablet com facilidade.

O local era um prédio aparentemente residencial de aspecto antiquado, mas razoavelmente conservado. Parecia o covil estereotipado de um hacker antissocial e com raiva do mundo – acredite, Felicity conhecia o tipo melhor que ninguém –, alguém com muito tempo nas mãos e a fim de pregar peças, e não de uma pessoa que a transformara num alvo, que a sequestrara e/ou tentara esfaqueá-la.

Felicity não abordou seu destino diretamente. Preferiu avaliá-lo escondida num beco do outro lado da rua, cercado de um lado por uma lanchonete pequena e por uma lavanderia fechada por outro, com uma quantidade boa de tralha para se esconder. Antes de sair do carro, vira que o apartamento ficava no terceiro andar, então poderia muito bem acessá-lo pela escada de incêndio. Eis os problemas: não sabia se no beco de acesso a escada havia câmeras, se a escada em si era de fácil acesso, se a janela do local estava trancada – diabos, se alguém a esperava lá. Além disso, havia algumas luzes ligadas em outros apartamentos. Não poderia chamar atenção de seus residentes.

Outra solução seria acessar pelo galpão ao lado. Mas aí havia a questão da segurança do próprio galpão e que, se quisesse chegar ao terceiro andar, teria que pular de um prédio para outro. Nada feito.

Ela se lamentou. Deveria ter investigado o prédio mais a fundo, ver se ele dispunha de sensores infravermelhos, pois aí poderia acessá-los e checar como era o movimento lá dentro...

Que inferno! Ela só queria saber mais sobre o computador que pelo visto fora responsável pelas invasões a sua empresa. E sobre seu dono.

Mais um clarão cortou o céu, e por um lado foi bom porque deu a Felicity uma visão iluminada do beco oposto ao seu. Viu que a escada de emergência estava presa, mas que pelo menos não havia câmeras. Gotas fracas começaram a cair, e Felicity agradeceu seu cérebro por ter feito-a colocar lentes de contato. Óculos embaçados definitivamente a atrapalhariam.

Bom, ela teria que arriscar.

Felicity estava quase fora de seu beco de observação quando um novo trovão soou. Jurou ter ouvido outro barulho junto, porém mal pôde processar porque de repente uma mão foi parar em sua cintura e outra cobriu sua boca.


NA: Em primeiro lugar, peço desculpas. Sempre postei no domingo e nesse último não consegui. Preferi atrasar a postagem do que comprometer a qualidade do capítulo.
Mas cá estamos!
O título foi propositalmente enganoso, desculpa também haha Eu to apaixonada pela cena da pizza, o capítulo ficou grande por causa dela.

Tentarei postar na próxima semana. A partir de agora não prometo nada. Mas tenham certeza que a fic vai ser atualizada, vai ser finalizada.

A pessoa aqui ama comentários, então podem deixá-los à vontade que eu sempre respondo =D Até a próxima, beijão!