Trabalhar na ARGUS ensina coisas interessantes. Como, por exemplo, hackear o computador de bordo de um carro, colocar um trojan de alerta e conseguir rastrear seu sinal mesmo com ele desligado.
Oliver fez isso – por precaução – logo quando ele e Diggle decidiram ficar de olho nas atividades de Felicity.
E foi com um assomo de espanto que Oliver recebeu o apito de seu celular, indicando que o Mini Cooper estava em movimento. Tinha acabado de jantar depois de malhar e agora estava vendo televisão. Ele olhou o relógio. Definitivamente não era hora de o carro estar saindo.
O que Felicity estaria fazendo? E sozinha?
Se fosse algo suspeito, algo que corroborasse ela ser uma criminosa... Um incômodo se instalou nele, misturado a um prelúdio de decepção. Não queria que fosse verdade.
Oliver abriu o aplicativo. Não conseguiu identificar o destino. Talvez ela não usasse o computador de bordo como GPS. Ele pulou do sofá, se arrumou com pressa e saiu do apartamento.
Mesmo com o potencial para Felicity ser mais uma pessoa de fachada em sua vida, Oliver ainda estava preocupado. E se algo de ruim acontecesse com ela? Foi invadido por uma sensação de receio, como se olhasse para um precipício e visse apenas sombras; uma pontada mais forte do que esperava.
Ao partir com a moto, ele rezava para que, não importasse o que acontecesse, ela estivesse bem.
Ela congelou imediatamente ao ser imobilizada. Nunca seu coração disparara tão rápido.
Segundos se passaram. O chuvisco a molhava cada vez mais. A mão em sua boca era grande, tinha calos, era definitivamente masculina. Esperou por alguma outra reação de seu atacante. Uma arma apontada, uma ameaça clara, um golpe, uma facada... Qualquer coisa. Nada veio.
O choque inicial passou. Felicity, aproveitando o silêncio, mexeu o corpo para se libertar, tentou acertar a pessoa em locais estratégicos – cabeça, virilha, abdome –, porém foi bloqueada todas as vezes.
O homem a puxou para trás, mergulhando-os ainda mais em sombras. Felicity se sentiu ainda mais apreensiva. Pôde apenas acompanhar, as pernas bambeando com os passos; estava sendo controlada como uma boneca. No entanto, um lado racional dela notou que ele não a tratou com agressividade ou brusquidão.
A mão em sua cintura a virou e ela se viu de frente a...
A luz fraca do local não a impediu de identificá-lo. Os traços másculos lhe seriam reconhecíveis em qualquer.
Um misto de emoções a atingiu. Surpresa, alívio, irritação.
- Você quer me matar do coração?! – ela sibilou entre dentes, exasperada, lembrando-se pouco antes de falar de não gritar.
Oliver a soltou. Seus olhos eram austeros e havia neles um quê de... dúvida? Desapontamento?
Felicity pausou, procurando acalmar sua respiração e seu corpo que tremia.
- O que está fazendo, Felicity? – ele perguntou, seu timbre grave e sua cadência profunda a fazendo pensar em como ele podia soar ameaçador.
A claridade voltou à mulher.
- O que você está fazendo aqui? – ela devolveu, meio encabulada de ter sido pega, meio curiosa de verdade. Seu cérebro a mil desdobrava as implicações daqueles últimos instantes. – Você me seguiu?
Só que ela também podia ser bastante intimidadora. A Smoak Tech não estaria em seu atual patamar se não fosse por sua tenacidade. Então tratou de devolver o olhar afiado de Oliver no mesmo nível.
- Como é possível? E por quê? – continuou em disparada.
- Eu perguntei primeiro. – O homem não estava abalado. Ela notou a sisudez dele mais... sisuda que o normal. Jurava ter pensado que, com o tempo que se passou desde que se conheceram e se aproximaram, aquilo tinha amansado um pouco para ela.
Ele a fitava clinicamente, como uma pessoa de interesse a ser investigada. Aquilo a atingiu no peito, percebendo pela primeira vez como a opinião dele sobre ela importava – e vai saber quando isso aconteceu. Oliver estava... desconfiado dela? Desapontado com ela?
Um novo pensamento lhe surgiu. Ele devia ter notado as meias verdades que vinha contando nos últimos dias. Devia ter notado que ela lhe omitia coisas.
E ele estava certo.
No entanto, ele também perseguira seu rastro de alguma forma. O que significava que ele também estava mentindo.
Felicity só percebeu naquela noite que estava numa rota de colisão. Uma nova, que envolvia ela e seu guarda-costas – Diggle também? Provável –, além da dos ataques que sofrera... Ou não?
O que estava acontecendo?
Novas questões estouraram, tanto da parte dele quanto dela, mas essas Felicity sabia serem muito mais fáceis de obter respostas.
Respirou fundo. Teria que se confessar a ele e trazer às claras sua investigação. Não foi como planejou que acontecesse. Era humilde o suficiente para saber que teria que dar o primeiro passo.
- Versão resumida: alguém tentou invadir o sistema da empresa, eu investiguei os rastros e consegui resgatar a origem do sinal para cá, para aquele prédio. – ela apontou para trás.
Ela jurou ter visto a expressão de Oliver deslizar por frações de segundo. Por que motivo? Ele acreditava nela? Ou não?
- E você ia fazer o quê? Invadir o local? – Felicity não gostou do desdém dele. Fazia-a parecer inconsequente e inocente. E, tudo bem, dissera a si mesma que a ideia era idiota, porém ouvir dele era pior. – E se machucar? – O coração dela pulou. Ele soava mais preocupado que desdenhoso?
Por que ela analisava tanto ele? Por que se sentia tão afetada?
- Para sua informação, não é nada que eu mesma não tenha cogitado antes de vir. Mas, Oliver, – ela pausou, deu mais um passo na direção dele, invadindo seu espaço pessoal, ainda encarando-o, e continuou com a voz mais firme e sincera. – eu não sou covarde, eu detesto mistérios, eu não gosto de me se sentir impotente. Então é claro que eu tive que vir. Porque se tem alguém que quer me ferir, eu quero ser a primeira a saber. E se eu tiver que sangrar por isso, que seja.
Silêncio. A chuva apertou. Um novo clarão acendeu o céu, trazendo um novo trovão. A carga elétrica da atmosfera vinha tanto do fenômeno quanto deles.
- Já respondi a você. Sua vez. – Felicity falou.
A língua de Oliver perpassou por seus lábios enquanto ele pensava, misturando-se às gotas de chuva. O olhar dela inevitavelmente se desviou para eles. Imaginou se ele sentiria algum gosto. Imaginou, por um instante irracional, dentro daquele ar afetado, como seria o gosto dele.
- Versão resumida – ele repetiu as palavras dela. – Eu te segui sim, mas porque achei que você estava fazendo outra coisa.
Felicity ficou confusa.
- O quê?
- Não importa agora. – ele desconversou rispidamente. – Vamos checar o seu lugar antes que a chuva fique ainda pior.
Ele quebrou o contato visual, e Felicity automaticamente sentiu falta. Recomponha-se, mulher. Oliver passou por ela e pôs-se a analisar o prédio.
- Qual apartamento?
- Trezentos e três.
- Eles têm câmera na entrada, além do que parece ser um sistema simples de digitar código e destravar a porta. Você consegue invadir qualquer um dos dois?
Espera. Invadir tipo hackear? Ele sabia que ela era capaz disso? O quê?
- Hum... – ela falou perdida. – Eu só trouxe um tablet, mas acho que consigo desativar as câmeras. Tem que ser elas primeiro para depois eu tentar quebrar o código de entrada, ainda mais se eu tiver que me aproximar para tal. Mas eu pensei mais em subir pela escada de incêndio. A porta da frente é muito pública, não acha? Sem contar que, chegando no apartamento, teria que arrombar a porta.
- E com a escada, teria que arrombar a janela. As situações são muito semelhantes, na verdade. Entrar pela porta da frente é mais limpo.
- Tudo bem, MacGyver, mas eu não sei como abrir uma fechadura sem chutá-la que nem nos filmes.
Aceitando que ele seria seu parceiro pelo resto da noite, Felicity se acomodou num canto do beco sob uma pequena marquise, tirou o tablet e pôs-se a trabalhar. Oliver rondou o local, procurando por algo além de sua compreensão.
- Uh, tava pensando aqui... Acessar diretamente o teclado de entrada vai nos economizar tempo e melhorar a aparência, digamos. Mas para isso preciso de um cabo. – Felicity pausou por um momento antes de continuar com a ideia. Ela confiava nele, isso antes de ele a espreitar e demonstrar suspeita dela. Oliver falou que a protegeria sempre. O mesmo continuaria valendo após o segredo dela vir à tona?
Mas algo dentro de si não incrivelmente a impedia de não confiar. Felicity não costumava crer nas pessoas com facilidade, no entanto a rápida confiança em Oliver veio tão imperceptível, tão espontânea.
- Tenho esse cabo no meu carro. Preciso que pegue ele para mim. Ele é de cor grafite metálico, é pequeno, na verdade. – ela enfiou a mão no bolso e puxou a chave. – Algo me diz que você sabe onde meu carro está. – comentou sem conter o sarcasmo.
- Não vou deixar você sozinha. – ele retorquiu.
- Bom, eu estava muito bem até você surgir como um perseguidor e quase me dar um treco. – ela devolveu. – Vai logo, é bem rápido, e só to te mandando para economizar tempo e impedir que a gente fique ainda mais molhado, e não de um jeito divertido. – ela comprimiu a boca, amaldiçoando-se por sua falta de filtro e noção.
Oliver se aproximou dela, pegou a chave e sumiu pela escuridão. Felicity piscou e não o viu mais. Honestamente, como um homem daquele tamanho desaparecia tão fácil, tão silencioso? Esse tipo de coisa era ensinada no Exército? Eram as Forças Especiais ou escola de espiões? Ainda bem que ele era seu guarda-costas.
Ela se distraiu com seus algoritmos e conseguiu desativar o circuito interno do prédio, assim como algumas outras ao redor do prédio só por precaução. Deu um soco no ar de comemoração. Logo viu que Oliver estava de volta e com certeza ele presenciou sua bobeira.
- Ainda bem que você se lembrou de manter o tom baixo. – ele comentou. Dessa vez sua voz não estava mais dura, e sim carregava... divertimento? Ela demorou a perceber mais um dos quase sorrisos dele.
Também demorou a perceber que havia exclamado junto com o soco. Oh.
O homem se aproximou e estendeu o cabo.
- Beleza. Acabei com as câmeras também. – Felicity se levantou num salto, guardou o tablet e o cabo. – Vamos.
Eles saíram do beco, atravessaram a rua e pararam em frente à porta. Oliver ficou cobrindo a visão dela e do teclado.
Felicity, como a perita em apetrechos tecnológicos, sabiam que teclados de interfone tinham pequenas entradas para cabos que os técnicos usavam para manutenção. Bom, na vida ela conseguiu um cabo com aquele, e em poucos minutos conectado ao aparelho o código de destravamento da porta surgiu na tela de seu tablet.
Os dois entraram, Oliver na frente, completamente alerta, e tomaram o elevador.
- Cadê sua arma?
- Eu não preciso de arma.
- Ok, ninja. – ela revirou os olhos. Aparentemente tinha um deus guerreiro como guarda-costas.
Não tardaram a achar o apartamento 303. Antes que Felicity perguntasse como entrariam, Oliver retirou uns pedaços metálicos pequenos e finos – deve ter sido que ele pescou do beco antes – e usou um deles para destravar a fechadura.
- Você aprendeu isso no Exército, Tenente? – ela sussurrou provocadora.
- Não, quando eu escapava de casa quando era adolescente para fazer besteira.
- Playboy MacGyver.
- Calada. – ele não soou irritado ou duro, e sim entretido.
A porta se abriu, Oliver se preparou, mas... A sala estava vazia. Felicity o seguiu. Ele vasculhou todos os aposentos, depois os armários. Nada. Ninguém estava em casa. Ela seguiu para o desktop e estava prestes a ligá-lo quando Oliver a interrompeu.
- Tome isso. – ele a entregou um par de luvas de cozinha. – Para não deixar digitais.
- Eu não vou usar isso. – ela redarguiu. – Não porque são feias, mas completamente não práticas. Só vai me atrapalhar a digitar.
Oliver conteve um grunhido de irritação.
- Então o que sugere, Felicity? Você não vai tocar nesse computador de mãos nuas.
Ele estava certo, contudo não o disse em voz alta, não queria alimentar o ego dele. A mente dela logo formou uma solução.
- Posso abrir o gabinete e tirar o HD para analisar.
- Vai demorar muito.
- Olhe ao seu redor. Parece que o dono vai voltar logo? Ou isso ou então veja se a pessoa tem no mínimo uma luva fina, tipo aquelas de médico, que não restrinja meus movimentos.
Por coincidência ou não, o dono do apartamento tinha tais luvas, e em poucos instantes Oliver surgiu com elas na sua frente.
- Ótimo.
Ela ligou o computador. Oliver, que não gostava de ficar quieto, deu mais uma ronda no apartamento. Acabou achando correspondências antigas, e pegou uma delas.
- O nome Andrew Ellis te traz alguma coisa? – perguntou ao voltar junto dela no quarto.
- Não. Mas posso dar uma olhada nisso também.
Minutos se passaram enquanto Felicity apenas digitava. Ela estava completamente focada, seus dedos voavam no teclado, Oliver nem acompanhava. Ele na verdade estava surpreso com as habilidades dela, agora que as experienciava ao vivo.
- Droga! – ela exclamou frustrada. – Fui enganada. Não foi daqui que partiu a invasão. Usaram esse computador de botnet.
- Quê? – Oliver questionou confuso.
- Como espião. Ou seja, infectaram esse computador de modo que as rotas que usaram para invadir o sistema da empresa passaram por aqui, mas não se originaram por aqui de verdade. É tipo quando pessoas usam computadores alheios pra minerar mais coin, ou então quando os usam para fortalecer e agilizar a invasão a algum outro computador ou servidor. – ela grunhiu irritada. – Como eu não vi isso?
- Não consegue detectar a origem verdadeira?
- Não agora. Esse pode não ser o único aparelho no botnet. Sem contar que suspeito também que estão usando esse botnet para surfar... Se eu rastrear os IPs de origem, irão surgir vários, aposto que em diversos locais do mundo. – ela rolou a cadeira pra trás, se afastando do computador e erguendo a cabeça para ele. – Aliás, Andrew Ellis é só um cara qualquer. Nenhuma ficha criminal, trabalha como designer gráfico e atualmente está viajando a trabalho. Então essa excursão não serviu para nada.
- Que pena, Felicity. – ele soou sincero.
Ela desligou o computador e se levantou. Antes de saírem, limparam o chão por onde pisaram, molhado por causa da chuva. Essa, aliás, estava ainda mais forte quando saíram. Ela levantou o capuz do moletom, mas ele não servia para um tempo daquele. Oliver, por outro lado, estava com um casaco mais pesado.
Os dois caminharam de volta a moto de Oliver, que ele parou perto do prédio.
- Como você soube que eu estava aqui, aliás, sendo que eu estacionei longe?
- Você fez um desvio para cá antes de estacionar. Calculei que era seu destino verdadeiro.
Agora que a "missão" estava acabada, Felicity percebeu que eles tinham muito o que conversar. Mas por hoje não. Ela estava ensopada, frustrada e o cansaço começava a bater.
Eles foram de moto até o Mini Cooper, e Felicity se apressou para entrar nele. Pegou o tablet uma última vez para reativar as câmeras. Quando partiu com o veículo, não se surpreendeu com Oliver a escoltando.
O tempo ficou mais feio ainda, transformando-se em numa tempestade com ventania. Felicity estava receosa ao dirigir sob aquele aguaceiro, quase não dava para ver nada, suas mãos agarravam o volante, mas conseguiu controlar os nervos.
Chegou ao seu bairro e uma nova onda de frustração tomou conta de si. Um poste caíra numa rua, apagando o bairro inteiro. Uma equipe da companhia elétrica tinha acabado de chegar, mas ela sabia que o conserto demoraria muito. Encostou o carro, soltou um palavrão e lamentou audivelmente, deixando-se cair sobre o volante. Ficou ereta num salto quando ouviu uma batida na janela.
- Vamos para meu apartamento, ainda tem luz lá. – Oliver praticamente teve que gritar para ser ouvido. Ela estava com pena dele, mais encharcado ainda que ela.
O céu ribombou pela enésima vez.
- Se a natureza não nos matar antes. – ela comentou ácida.
Oliver lhe deu o endereço, e eles partiram. Na verdade, turbilhonada pelas emoções da noite, Felicity mal pensou que seguia para a casa de seu guarda-costas, aquele homem que a desconsertara desde o primeiro instante que se conheceram, o que abria a possibilidade de que pudesse estar a nutrir uma atração por ele...
Oliver morava próximo ao Parque Lincoln. Felicity, por insistência dele, estacionou na vaga dele do prédio, e no espaço que sobrou ele pôs a moto. Eles entraram no apartamento, ele acendeu a luz e ela se surpreendeu com a beleza moderna do lugar.
- Que sorte que eu fechei a sacada quase toda. – Oliver comentou, aproximando da porta de vidro. Parte da cortina se agitava e havia uma pequena poça a frente, mas nada grandioso. Ele fechou a porta e virou-se para Felicity, que parou em frente à televisão. – Bom, sinta-se à vontade. – adicionou, um tanto acanhado.
- O que me deixaria bem à vontade seriam toalhas. – ela forçou a piada nas palavras para escapar da tensão.
Oliver desapareceu por alguns segundos e logo voltou com uma pilha de toalhas, colocando-a no aparador, além de um pano, que usou para secar a poça na sacada.
- Me dá seu casaco, vou botar na lavanderia.
Felicity tirou os pertences do moletom, despiu-o e deu para ele. Enquanto o esperava voltar, ela sentou na borda da mesa de centro – não queria sentar no sofá, na chaise longue ou nas cadeiras de jantar e encharcar tudo – com algumas toalhas. Tirou os tênis e as meias e começou a se secar o máximo que dava.
Oliver ressurgiu sem o próprio casaco e os sapatos. Enxugou-se brevemente, depois foi para a cozinha, pegou velas, uma caixa de fósforos e duas lanternas e caminhou até ela. Entregou-lhe uma das lanternas com a instrução de usar caso fosse para qualquer outro canto do apartamento. Só então notou onde estava sentada.
- Por que você tá na mesa? – franziu o cenho.
- Não queria molhar tudo. A mesa é mais fácil de limpar. – ela deu de ombros.
- Não seja boba. Melhor do que ficar desconfortável. – ele depositou as coisas sobre o sofá.
- E por que está pegando essas coisas? Não acha que vai faltar luz aqui também?
- Não custa ser precavido.
- Se faltar luz aqui, é culpa sua por tentar o universo. – ela parou de falar por causa de um tremor.
- Você está com frio.
- Um pouquinho só.
Ele inclinou a cabeça.
- Você está tremendo, Felicity.
- Um pouquinho só. – repetiu. – Não vou ter hipotermia, relaxa. Nem tá mais frio para isso, o inverno acabou. É só a chuva mesmo.
Oliver a ignorou e acendeu a lareira a gás.
- Vem cá. – falou suavemente para ela.
A mulher se levantou, enrolada numa toalha, e foi até ele. O calor a envolveu, ela suspirou e relaxou um pouco.
- Hum... é gostosinho. – murmurou de olhos fechados depois de um tempo. Ao abri-los, encontrou Oliver encarando-a.
- Quer alguma coisa? To pensando em fazer um chá.
- Chá seria legal. – ele se afastou para a cozinha. – Ah, se por algum acaso você tiver biscoitinhos seria ótimo também. Eu jantei faz um tempo... Aliás, que horas são? – ela pegou o celular e tomou um susto. Mais de onze e meia.
- Qual que você quer? – ele perguntou pegando a chaleira elétrica.
Felicity foi até a cozinha e apontou para onde ele indicava. Surpreendeu-se. Havia diversos pacotes e uma caixa grande com caixas menores, tudo da mesma marca, Whittard. Sem conter a curiosidade – Oliver Queen era fã de chás? –, ela começou a vasculhar.
- Meu Deus, quantos! Esses saquinhos são de ervas soltas? Legal, nunca tomei assim! – começou a ler as etiquetas. – Hortelã, Limão e Gengibre, ok, sabores conhecidos... Maçã e Flor de Sabugueiro Europeu? Camomila Dourada... Qual a diferença pra camomila tradicional? Serenata de Morango, gostei... Sundae de Baunilha? Existe? Achei meu tipo. Chocolate também? Ah, é amargo, mas ainda serve... Framboesa e Cranberry, Laranja e Canela, Flor de Cerejeira... – Por último, pegou as caixas. – Ah, nessa daqui só tem os clássicos. Earl Grey, Jasmim, English Breakfast... Olha, tem um chamado Super Frutas! E Felicidade de Mirtilo!
Distraída, Felicity nem percebia os olhares atentos que ele lhe lançava, além da risada abafada.
- Já escolheu?
Ela se virou para ele e viu-o pegar acessórios típicos para fazer a bebida. Até isso ele tem!
- Como você quer que eu escolha? – ela voltou para os chás. – Acho que vou nesses de erva solta... Flor de Cerejeira parece legal.
- Pega o de camomila para mim.
Felicity pegou os dois pacotes e depositou-os sobre a bancada. Intrigada, observou Oliver fazer os chás meticulosamente e encher duas canecas. Por último, ele abriu um armário e tirou mais dois pacotes, só que dessa vez era um de scones e um de macarons.
- São sobras, mas é o que eu tenho.
- Eu adoro macarons! – Felicity exclamou animada.
Eles mal se sentaram no balcão quando tudo ficou escuro. A única fonte de luz era a lareira por ser alimentada a gás.
- Viu? É tudo culpa sua. – ela falou para Oliver.
Com a ajuda das lanternas, Felicity e Oliver acenderam velas, uma na cozinha, outra na mesa de centro e uma no aparador que dava para o corredor. A mulher aproveitou para pesquisar no celular, enquanto ainda tinha bateria, o que estava acontecendo.
- Manutenção rotineira numa linha de transmissão. O circuito de backup caiu com a tempestade e afetou várias regiões da cidade. Que maravilha. – ela bufou.
Pegaram os chás e os aperitivos e sentaram no sofá sobre toalhas, um do lado do outro. A chuva continuava a fustigar a janela, mas agora que estava abrigada Felicity desfrutava do som. Ela bebeu o chá e suspirou em aprovação. O gosto era marcante, rico, cada nota se agitando em sua língua.
- É delicioso!
De repente, Felicity se deu conta que era a segunda vez em questão de dias que estava num momento... casual... com seu guarda-costas.
Por que isso não é mais estranho do que é para ser? Ainda mais depois de terem descoberto estarem mentindo um para o outro. Coisa que, aliás, você deveria desvendar.
- Então, como é que você virou o rei do chá? Ou seria lorde? Lorde Queen, do condado dos chás. – ela começou a falar para impedir seu cérebro de continuar naquele raciocínio e ainda imitou um sotaque inglês no final, o que divertiu o homem.
- Minha mãe ama chás, e na última viagem dela à Inglaterra ela foi nessa loja, Whittard, e presenteou a família toda. Tive que aprender a fazer chá com as ervas puras.
- Ela comprou a loja inteira? Porque são muitos que você tem aí.
- Se você acha que aqui tem muito, não viu o que ela tem. Acho que o sonho dela é eles começarem a fazer negócios nos Estados Unidos. – ele pausou. – Você não conhecia a marca?
- Não. Nunca fui à Inglaterra.
Oliver não escondeu a surpresa.
- Como não? Imaginei que, sendo uma empresária de sucesso, tenha viajado bastante. – ele tomou um gole da bebida.
- Acredite se quiser, nunca fui à Europa, mesmo depois da empresa. Temos negócios lá, mas outros representantes foram, não eu. Já fui até à China, mas nunca à Europa.
Eles ficaram em silêncio, e Felicity caiu de boca na comida. Os scones eram de queijo e cebola e os macarons, de diversos sabores – tudo maravilhoso.
- Não me diga que os scones são direto da Inglaterra também. E que os macarons vieram da França.
- Não, vieram daqui mesmo. – Oliver falou depois que engoliu um salgadinho. – Os macarons vieram de uma padaria local, Thea ama isso, então eu procuro ter sempre para quando ela vem aqui. Tanto eles quanto os scones ela trouxe da última vez que veio, sobraram e ela se esqueceu de levar. – Felicity notou o amor que ele tinha pela irmã enquanto falava.
- Pode apostar que se ela tivesse esquecido lá em casa, não duraria nem dois dias.
- Não sou fã de doces. – Oliver deu de ombros.
- Notei, você só fica nos scones. Pode deixar que eu faço o sacrifício. – ela levantou dramaticamente um macaron de baunilha, como se o oferecesse aos céus, e comeu.
Quando terminaram, permaneceram sentados, observando um ao outro sob as velas, tão perto que o joelho dela quase roçava na coxa dele. Felicity notou as chamas iluminando o rosto de Oliver, o conjunto de luz e sombra duelando entre si, estranhamente harmoniosas. Era uma ilustração perfeita do que pensava dele. Alguém com um passado que o perseguia e o perturbava, mas também com uma imensa capacidade para gentileza e altruísmo. Ele a intrigava, um mistério que adoraria desvendar, mas que estava muito bem sem fazê-lo por puro respeito a ele; a exceção à sua regra.
Poderia ser mais outra rota de colisão surgindo em seu caminho. Mais uma que o envolvia.
Só que nesse caminho havia apenas os dois.
Felicity despertou de seu torpor quando ele se inclinou. Seu coração deu um salto, mas ele só estava tomando impulso para ficar de pé. Ela se apressou sobre a louça.
- Você lavou lá em casa, pelo menos me deixe retornar o favor.
Oliver abafou uma risada.
- Disse para se sentir à vontade aqui.
Felicity bocejou quando desligou a torneira. A exaustão enfim abateu seu corpo.
- Achei que ia ficar acordada até a luz voltar, mas vejo que não vai dar. Até porque nem sei que horas vai voltar. Sem contar que vamos ter que acordar cedo amanhã para ir à empresa, e antes vou ter que passar em casa para trocar de roupa, o que me lembra que eu só trouxe celular, documento do carro, carteira de motorista, chaves de casa e do carro e o tablet. Ah, e por sorte coloquei o estojo da lente, senão eu ia ter que dormir com elas e arriscar acordar com uma infecção...
- Felicity. – Oliver disse para fazê-la parar de falar. Ela o fitou. – Pode ir dormir. Fica com a minha cama.
Felicity definitivamente não imaginou Oliver na cama. Dormindo, claro. Ele tinha cara que dormia sem camisa. Ou despido. E se fosse assim, ela tocaria a coberta que tocou a pele nua dele, e o tecido que cobriria suas pernas dela teriam tocado a virilha dele e o... Não complete isso! Ela nunca se obrigou tanto a terminar um pensamento. Odiava seu cérebro fértil às vezes.
Esforçou-se para demonstrar total impassibilidade em sua expressão.
- E você?
Oliver hesitou antes de responder.
- Eu aguento. Fico com o sofá ou a chaise.
Ela olhou para o sofá. Era grande, mas mesmo assim ele ainda ficaria desconfortável.
- Absolutamente não. Não quero meu guarda-costas quebrado me protegendo amanhã... ou hoje. Já deve ter passado da meia noite. Deixa que eu fico no sofá, eu pelo menos dou nele.
- Não, eu insisto, por favor. Não posso deixá-la desse jeito.
- E eu não posso deixá-lo sacrificar uma noite só por minha causa. – A mente da CEO obviamente não recuperara a sanidade plena, pois ela logo se ouviu falando. – Faz o seguinte. Se a sua cama for gigante, nós dois podemos dormir nela, cada um no seu canto. Todo mundo ganha e fica confortável.
Felicity quis um buraco para se esconder. Meu Deus, ela estava beirando à loucura, só pode.
Contudo, Oliver nem se incomodou pelo comentário dúbio. Na verdade, ele aparentava perturbação. Felicity já vira a máscara dele cair, porém não era o caso. Ele parecia lutar. Como se seus demônios o tivessem tomado de supetão e ele se esforçava para contê-los. Foi então que aprendeu, naquele instante, mais uma camada de Oliver. Alguns traços de sua expressão fechada por vezes deslizavam, e ela via o lábio inferior dele se contrair de leve, a prova que ele travou o maxilar, os olhos escurecendo, se retraindo. Tão sutil que ela achava que ninguém mais sabia disso.
Perguntou-se o que o fez ficar assim. Algo que ela disse? As implicações de seu comentário, mesmo que não fosse o que queria dizer? Suas palavras insinuosas fazendo-a soar como uma pervertida que queria pular na cama dele com ele, conteúdo sexual e tudo? Algo a mais relacionado a camas? Não, ao sono. Ele tinha pesadelos e temia ter um na presença dela? Mais ainda, temia a reação dela a ele?
Ah.
O conhecimento surgiu nela como se houvessem lhe virado uma carta. A compaixão brotou dentro de si. Seus sentimentos por ele não mudariam ao presenciá-lo tendo pesadelos. Não queria que ele sofresse. Não queria vê-lo inquieto. Não queria ser responsável por provocar inquietações nele.
- Não, Felicity. – As palavras bruscas deixavam claro que ele queria distância dela. A pontada em seu peito embotou a compaixão.
- Tá. Então voltamos ao início. Eu durmo aqui na sala, você no seu quarto. E eu posso ficar nessa discussão a noite toda. – adicionou ao vê-lo abrir a boca. – Só vou sossegar quando concordar comigo.
Oliver admitiu a derrota a contragosto.
Eles recolheram as toalhas e levaram para a lavanderia.
- Achei que estaria seca já. Mas vou ter que dormir molhada ainda. – disse depois de saírem do pequeno aposento.
Ele parou de andar respirou audivelmente antes de falar:
- Você pelo menos aceitaria eu te emprestar algumas roupas?
Felicity não sabia o que era pior: deitar onde ele deitava ou vestir o que ele vestia. Saiu de uma furada só para entrar em outra.
O universo gostava de pregar peças tentadoras nela. Peças das quais ela não conseguia fugir completamente.
Ela usou a lógica: dormir molhada poderia desencadear um resfriado. Não precisava de mais essa. Só por isso aceitou a oferta dele.
Oliver entrou em seu quarto, e ela o seguiu incerta. A cama era king size, o que não a surpreendeu. Havia somente uma cômoda e poucos itens de decoração. Não havia uma porta de separação para o closet, para onde o homem se foi, apenas uma para o banheiro da suíte. Ele retornou com uma camisa azul-clara simples e uma samba-canção antiga.
- Pode usar meu banheiro à vontade. – disse entregando as roupas.
Felicity andou a passos rápidos para o banheiro e trancou a porta. Suspirou antes de tirar suas peças molhadas, mais do que consciente de que ele estava logo do outro lado daquela maldita parede. A blusa que usava por baixo do casaco incrivelmente ficara um pouco úmida. Ousou até mesmo despir-se do sutiã – era para lá de desconfortável dormir com um. Ainda bem que a calcinha estava intacta. Assim que colocou as roupas dele, sentiu o mesmo aroma masculino do que no dia do basebol. Não conteve um suspiro. O tecido da camisa era confortável, e ela conteve um impulso racional de se abraçar e se aninhar a ele.
De volta ao quarto, Oliver também se trocou. Vestia uma calça de pijama azul marinho e uma camisa cinza que ela agradeceu pelo bem da saúde mental dela e ao mesmo tempo se lamentou. Ele a fitou, e Felicity jurou ter visto o olhar dele ameaçar deslizar para baixo – para as pernas dela à mostra –, porém se conteve e se recompôs.
- Para deixar sua aventura no sofá um pouco melhor. – Ele separou um lençol, uma colcha e um travesseiro para ela.
- Obrigada. – ela conseguiu sorrir. – Pensei em botar minhas roupas lá na lavanderia para secar junto com os casacos.
- Claro, vai lá.
Na sala, já com as mãos livres, Felicity pegou o estojo da lente e foi para o banheiro, dessa vez sem ser o de Oliver. Tirou as lentes de contato e decidiu deixar o cabelo, ainda úmido, solto mesmo.
Oliver estava próximo ao sofá quando ela voltou ao aposento. Mesmo com a visão embaçada, viu que ele praticamente tinha feito a "cama" dela; colocou o travesseiro e abriu o lençol. Estupidamente, Felicity ficou tocada.
- A colcha ta aqui do lado se sentir mais frio.
- Obrigada. E não só pelo chá ou pelas roupas... Por tudo.
O olhar dele era terno.
- Felicity, eu jamais abandonaria você na rua.
- Eu sei, quero agradecer mesmo assim. – Ela detestou ter que acabar com o clima, contudo precisava se prender um pouco à realidade que o blecaute roubara. – Mas sabe que nós temos muito o que conversar depois de hoje, não?
A suavidade enfraqueceu do azul das íris dele, e Felicity se arrependeu automaticamente. Oliver apenas acenou em afirmação.
- Vou apagar as velas e a lareira. Está com sua lanterna, não? – ela acenou com a cabeça e ergueu o objeto.
Antes de ele se recolher, Oliver virou-se para ela uma última vez.
- Boa noite. Durma bem.
Oliver não dormiu direito, contudo não por seus motivos usuais. Felicity ocupou sua mente durante boa parte da noite.
Ainda se sentia mal por ter deixado-a ficar com o sofá.
Quando ela sugeriu que eles partilhassem a cama, logo se imaginou tendo um pesadelo, ela chamando-o e ele machucando-a ao acordar. Só o pensamento de ele ser o responsável por feri-la – mais uma vez a culpa – o deixara desestabilizado.
Depois pensou que esse era o maior motivo para rejeitar a oferta dela. E não a óbvia quebra de limites entre eles, o profissionalismo da relação deles, o fato de ela ser sua chefe. Era quase como se não fosse pelo risco de pesadelos, ele teria aceitado.
O que beirava ao insano. Felicity era sua cliente. Uma mulher a ser respeitada.
Ele nem se dava conta de que ela era a mulher que mais respeitava nos últimos tempos.
A quem estava enganado? Seu relacionamento com ela deixou de ser o típico cliente-guarda-costas há tempos.
E isso configurava outro problema. Ela se aproximara dele com uma facilidade incrível. Oliver sabia que uma parcela caía em seu colo, afinal, ele deixara – imperceptivelmente, sem querer.
Mas o que poderia ter feito? Os momentos mais íntimos deles vieram de externalidades. Ele não a abandonaria tão chateada e insegura quanto no jogo de basebol, muito menos a largaria em seu bairro sem luz – tudo bem que agora isso não fazia mais sentido. Oliver jamais abandonaria alguém em necessidade.
Sem contar o motivo que o fez ir até ela naquela noite. Chegou desconfiado, porém bastou a versão resumida dos segredos dela para automaticamente acreditar nela. Ali, deitado na cama, depois da "missão" deles, com a mente mais clara – ou tanto quanto possível –, via que, por mais que tivesse se esforçado para rejeitar, estava travando uma batalha perdida contra sua intuição, que sempre lhe dissera que Felicity era inocente. Só que, nesse caso, também não era como se ele fosse a vítima da situação. Escondera que suspeitara dela como uma criminosa.
Os pensamentos corriam acelerados por sua cabeça, semelhante à cadência que Felicity normalmente usava para falar...
Ele grunhiu.
Que inferno. Será que a presença dela estava afetando-o?
Oliver nem soube explicar quando ou como sua mente desligou, e ele apagou. Abriu os olhos, já de manhã, e olhou a hora. 6:19. Surpreendeu-se por se sentir revigorado. Levantou-se e logo trocou de roupa, deixando o blazer e as armas para o final.
A chuva parara. A luz voltara, então fazer café da manhã seria mais fácil. Na sala, encontrou Felicity ainda dormindo. Ela estava toda coberta pelo lençol, só a cabeça de fora, encolhida e acomodada de um jeito confortável, o rosto pacífico e relaxado. Completamente adorável. Ele não teve coragem de acordá-la.
Ele suspirou, meio resignado, meio irritado, e foi para a cozinha. Tomou o máximo de cuidado para não fazer muito barulho. Passou o café, fez algumas torradas, tirou frutas da geladeira e acabou de ligar o fogão, prestes a fazer omeletes, quando inevitavelmente e a contragosto voltou ao sofá.
- Felicity. – chamou. Nada. – Felicity. – tentou um pouco mais alto. Esperava não que ela não estivesse num sono pesado. Não queria tocá-la para despertá-la. – Felicity, vamos. Tá na hora de ir para a empresa.
Ela se mexeu.
- Uuuugh. – Até mesmo ela grunhindo era fofo. Ela virou de barriga para cima, deixou cair o braço sobre a cara, mas logo a retirou e despertou.
- Bom dia. – Oliver não conteve um sorriso.
Desorientação perpassou seu rosto por um segundo até ela se situar.
- Hey. Bom dia. – ela devolveu um sorriso mais aberto ainda.
Felicity se sentou brevemente, espreguiçou e ficou de pé.
- O café tá quase pronto. – Oliver informou voltando para a cozinha e pegando os ovos.
Ela olhou para a ilha, surpresa com a comida posta.
- Você... você não precisava.
Oliver deu de ombros. Era apenas uma questão de praticidade – ou pelo menos o que dizia a si.
- Dá tempo de se arrumar enquanto eu termino aqui. – ela acenou com a cabeça e se inclinou para pegar a roupa de cama. – Deixa aí, na volta eu arrumo. – Mas ela o ignorou e carregou as coisas consigo.
Oliver colocava as omeletes nos pratos quando ela voltou.
- Agora que notei que a luz voltou. – comentou. No mesmo instante também que ele já estava meio arrumado, com as mangas da camisa social dobradas para cozinhar melhor.
Ela sentou num dos bancos e inspirou profundamente.
- O cheiro tá muito bom! E tá bonito também. Fiquei com mais fome ainda.
Oliver deu a volta no balcão, depositou uma caneca na frente dela e sentou.
- Não sei como gosta do café, por isso tá puro. Tem creme, leite e açúcar, se quiser.
- Tá ótimo. – A gratidão sincera dela aqueceu o peito dele.
Felicity botou creme no café, Oliver colocou pouco açúcar.
- Por que faz isso? É tão... mínimo. Mais fácil colocar nada. – ela o provocou.
- É só para cortar a amargura em excesso. Gosto do gosto forte.
Eles começaram a comer.
- Dormiu bem? – ele perguntou.
- Apaguei. Não esperava por isso. Tava mais cansada do que achava. Aliás, seu sofá é bem confortável. E você? – Felicity misturou cream cheese e geleia numa fatia de pão e abocanhou.
- Deu para descansar.
Felicity o encheu de elogios pela omelete.
- Meu Deus, isso é muito bom! Parece de restaurante chique. Isso não é omelete comum. Que mágica é essa?
- Eu meio que fiz a receita da versão francesa, mas não usei a técnica para cozinhar para dar tempo.
- Técnica. Pff. Olha você, seu esnobe, sabendo fazer l'omelette française.
Oliver geralmente comia menos variedade pela manhã, mas acabou comendo tudo com ela e ficou para lá de satisfeitos.
Eles saíram por volta de 7:30 para a casa de Felicity. Dessa vez, ele dirigiu. Lá, o blecaute continuava, mas a previsão era que a energia voltasse ainda naquela manhã. Oliver esperou na sala enquanto ela se arrumava. Felicity escovou os dentes – seu hálito devia estar uma droga há um tempão –, arriscou até tomar um banho rápido e colocou uma blusa rosa meio transparente e uma saia preta com detalhes pendurados. Também separou a roupa da ioga.
Uma batida na porta do apartamento, e Oliver prontamente atendeu. Conteve a surpresa de seu rosto, mas Diggle não.
- Oliver, oi. – ele franziu o cenho. – O que está fazendo aí dentro?
- Cheguei cedo. – A mentira saiu com naturalidade. – Não consegui dormir direito. – Uma verdade.
Diggle pareceu não engolir, mas logo a confusão desapareceu. Internamente, um pensamento que lhe surgira havia pouco tempo ganhou força.
Os dois entraram no momento que Felicity reapareceu na sala. Oliver notou que ela deixou o cabelo solto. Devia ser a primeira vez que a via indo trabalhar daquele jeito.
- Oi, Dig. Bom dia.
- Bom dia, Felicity.
Os três saíram e foram para o carro.
- Ah, aliás, não se esqueça de tirar seu programinha do computador de bordo antes de devolvermos o carro, viu? – ela disse para Oliver num tom blasé.
A cabeça de Diggle virou tão rápido que quase quebrou seu pescoço.
- Quê?
- Ah, você não sabe? – A mulher parecia meio perdida. – Bom, nós realmente temos muito o que conversar hoje.
- Ele sabe do vírus, mas não da sua aventura ontem. – Oliver se intrometeu. Viu Felicity pelo retrovisor estreitando o olhar para ele.
Diggle estava mais confuso que antes.
- Então eu estava certa sobre vocês dois estarem me espiando.
Oliver detestou aquela palavra, principalmente porque o lembrava Waller. E porque, por mais artifícios que tenha usado e dito para atenuar, para o observador de fora, era na verdade uma palavra correta.
Seu parceiro abriu a boca, porém nada saiu.
- Vamos fazer isso aqui e agora? – Oliver falou.
- Pensei mais em meu escritório, pela privacidade. – Felicity respondeu.
- Não. – ele disparou ríspido.
- Por que não?
Bom, eles meio que iam fazer "aqui e agora" porque Oliver teria que começar a revelar parte de seus pensamentos das últimas semanas.
- Porque existe a possibilidade de existir bugs no seu escritório.
- Pelo amor de Deus! – Felicity estava estarrecida. – Você sabe o que eu posso fazer, já viu o que eu posso fazer, acha mesmo que eu seria estúpida a ponto de deixar meu escritório ser grampeado?
- O que diabos está acontecendo?! – Diggle exclamou. – E você – ele olhou para parceiro, a voz saindo com uma fração de culpa. Oliver sabia que o amigo não gostou de espionar Felicity. Ele mesmo, honestamente, também não. – por que não me falou nada que seu rastreador apitou?
- Aconteceu rápido demais, Dig. Não quis perder tempo e arriscar perder – ele hesitou. – qualquer que fosse o... propósito da viagem.
Felicity bufou no banco traseiro.
- Tô interessadíssima para saber por que vocês suspeitavam... suspeitam de mim.
- Não suspeito mais de você, Felicity. – Oliver soou calmo, sincero.
Mas o humor indignado dela não melhorou; pelo contrário.
- Sabe o que me dei conta agora? Que vocês afirmaram tanto que sempre me protegerão, que meu bem-estar é o que mais importa, mas estavam me vendo como uma pessoa de interesse!
Dessa vez, Oliver também ficou irritado.
- Felicity. – A voz saiu baixa, grave e um tanto cortante. – Não importa o que nós dois pensamos de você, sua segurança sempre foi nossa prioridade. Isso nunca mudou, nem vai. Nunca sequer cogitamos em falhar com nosso dever com você. Você pode não acreditar, mas é a verdade. Até porque, se não fosse, você com certeza teria sido esfaqueada.
Um segundo depois e Oliver percebeu que tinha ido longe demais. Ele a viu puxar o ar com mais força que o necessário e seus olhos se arregalarem de leve.
- Tudo bem. – Diggle veio com um tom conciliador. – Nós mentimos para você, mas aparentemente você também ocultou coisas de nós, Felicity. Todos temos nossa parcela de culpa. Apontar o dedo para o outro é inútil e não vai adiantar nada. O que podemos fazer é deixar tudo às claras.
O trajeto até a Smoak Tech continuou tenso. Felicity deixou um bilhete para Jerry, que ainda não chegara, dizendo para impedir qualquer um de entrar seu escritório pela manhã. Lá dentro, ela cruzou a distância até sua mesa com passos firmes, os saltos ecoando mais alto que o normal, a frustração ainda evidente.
- Ok, vamos acabar com isso logo. Podemos falar à vontade. Como aposto que já perceberam, o som daqui não sai. – disse ao se largar na cadeira. – A não ser que o Sr. Queen queira brincar de caça ao tesouro e escutas.
Oliver travou o maxilar. Para onde fora o clima agradável do café da manhã?
- Quem vai primeiro? – Diggle, o sensato, começou.
- Por que você saiu sozinha ontem, Felicity? – seu parceiro perguntou, dessa vez tranquilo.
A CEO suspirou. Ela começara a aventura, como Oliver mesmo dissera, toda, afinal. Não tinha motivos para se irritar. Relaxou sua postura.
Hora da colisão.
- Logo após o sequestro, decidi investigar por conta própria o que aconteceu. Comecei a seguir o dinheiro que levaram de mim, o que foi em parte produtivo. O rastro ia até uma conta em Corto Maltese, que, não sei se vocês sabem, é um paraíso fiscal. Sem contar que cada fundo monetário estava enterrado dentro de outro, inúmeras empresas de fachada relacionadas, o que é uma confusão para saber a origem e o dono, que é o objetivo de tudo.
"Também dei uma vasculhada nas câmeras de segurança para identificar os sequestradores e pensei em aplicar ao algoritmo da SCPD, inspirada pelo que Billy falou, mas não consegui nada. Nenhum dos homens bateu com qualquer base de dados. É como se eles nem existissem. Eu chequei a quadrilha que a polícia prendeu, e todos foram identificados.
"Por fim, antes de o sequestro acontecer, a empresa tem sido vítima de hackers. Ninguém conseguiu entrar. Mas eu resolvi investigar os vestígios digitais para também descobrir quem está por trás e consegui um possível endereço de origem. – ela olhou diretamente para Oliver. – E foi onde você me achou. E é isso.
Felicity não mencionou que passou a noite no apartamento dele. Oliver também não fez questão de comentar.
- Caramba, Felicity. – foi o que Diggle disse impressionado.
- Sua vez.
Os homens se entreolharam, mas Oliver resolveu falar. Ele sentiu total sinceridade por parte dela e sabia que ela notaria caso recebesse algo diferente.
- Nós fomos contatados por uma agência de inteligência do governo e recebemos informações de que existe um ciberterrorista que está fazendo o que seria a mais letal arma cibernética. Ele precisa de um conhecimento que não tem e foi informado que você o teria, o que faria de você uma ciberterrorista. Mas nós não concordamos em fazer nada para eles. No entanto... Não conseguimos deixar isso de lado e combinamos de pelo menos ficar de olho em alguma atividade suspeita sua. Por isso instalei o vírus e fui atrás de você ontem. Achei que você estaria encontrando o criminoso ou fazendo algo relacionado a ele.
Felicity nunca esteve tão espantada na vida.
- Ai meu Deus! Quê? Eu, uma terrorista? – ela ficou sem o que dizer por longos segundos. – Espere... Vocês foram contatados por uma agência? Os dois?
Oliver devia saber melhor do que contar a verdade e ainda ser ligeiramente vago com um gênio.
- Eu. – ele corrigiu, preparado para receber qualquer julgamento dela.
Os olhos de Felicity se focaram no rosto dele e se estreitaram. Ele podia jurar ver as engrenagens do cérebro dela rodando a uma velocidade incrível.
- Think tank. – ela murmurou. – Você não trabalhou numa think tank. Trabalhou para a inteligência americana... – Mais uma pausa. – ARGUS.
Tanto ele quanto Diggle estavam impressionados.
- Onde você ouviu falar desse nome? – Diggle questionou.
- Bom, agora vocês já sabem que eu posso hackear. Devo deixar claro que, desde a fundação da ST, eu nunca, repito, nunca usei nada disso para alavancar o desenvolvimento da empresa... Bem, a única coisa um tanto mais, uh, moralmente ambígua foi fazer uma pesquisa um pouquinho mais extensa com meus diretores quando estava montando a diretoria... E só voltei a usar minhas habilidades após o sequestro. Contudo, na época da faculdade, eu fiz umas escolhas bastante questionáveis e no meio delas descobri o que é a ARGUS.
- Você era uma hacktivista?
- Pode-se dizer que sim.
Oliver e Diggle trocaram mais um olhar.
- Eu ouvi algo a mais no dia em que falaram comigo. – Oliver se pronunciou. – Que você se envolveu com um caso no FBI na época de faculdade por causa de hacktivismo. E isso nos deixou mais intrigados ainda porque abria possibilidade de tudo ser verdade.
À menção do caso, Oliver viu Felicity se retrair. O brilho dos seus olhos diminuiu, e ela pareceu abandonar o ali e agora um pouco. Ele reconhecia a expressão, era de alguém mergulhando em memórias desagradáveis.
Por aquilo ele não esperava.
Muito menos a urgência de tirá-la daquele estado. Saber que Felicity, o ser mais iluminado que já conhecera, tinha demônios incomodou.
- O quanto sabe desse caso? – Sua voz estava alterada também, distante.
- Que seu namorado de faculdade tentou apagar empréstimos estudantis e que o algoritmo que ele usou seria seu. – ele falou procurando transmitir calma.
- E era. Mas ele confessou ser dele e por isso foi para a prisão.
Saber que a história de Cooper Seldon era verdade não trouxe alívio a Oliver. Queria nem ter mencionado-a para não chatear sua cliente. Também não perguntou mais nada, visto que, nas vezes que ele mesmo deixou escapar alguma escuridão, ela o respeitou e o recebeu com compreensão.
- Outra coisa. – Oliver voltou a falar. – Depois do jogo de basebol, eu e Dig conversamos sobre você ser um alvo e quem pode estar por trás disso. Decidimos também fazer uma investigação por conta própria. Também não gosto de não saber das coisas. – ele arriscou abrir um pequeno sorriso para ela. – E foi quando me dei conta de que o sequestro, a facada e o ciberterrorista podem estar conectados. Você mencionar tentativas de invasão na empresa só contribui para isso.
Felicity ficou rapidamente curiosa.
- Faz todo sentido... – ela começou a ponderar e então sua boca se abriu em um "Oh" inaudível. – Ai meu Deus.
- Felicity? – Diggle chamou.
- Faz total sentido! – A mulher nem pareceu ter ouvido o guarda-costas. Ela se levantou de um salto e caminhou rapidamente até eles. – Quais as chances de terem mencionado a você ao acaso a bagunça com o FBI? Uma arma cibernética objetiva basicamente invadir o máximo de servidores possíveis ou ter a capacidade de invadir qualquer um... Eu sei o que eles querem! Pelo menos, uma parte do eles. Eles querem meu vírus. O vírus que Cooper usou anos atrás. – ela olhava de um para o outro nervosamente. – Só para vocês saberem, eu nunca o criei com o objetivo de cometer crimes e causar o caos na internet e destruir tudo, mas imaginei que ele poderia, quer dizer, eu tenho uma imaginação muito fértil. Achei que com o hacktivismo eu poderia expor fraudes governamentais, esquemas de corrupção, digitalmente revelar criminosos...– A voz dela foi ficando cada vez mais trêmula, e seus olhos se encheram de lágrimas.
- Hey... – Oliver deu dois passos em direção a ela e tocou seu ombro delicadamente.
Só o pensamento de ela ser uma criminosa a aterrorizava. Pelo que quer que ela tenha passado, não mudou sua essência, sua bondade e empatia. Lembrou-se dela contando sobre a origem da Smoak Technologies. Aquela era a verdadeira Felicity.
Oliver se perguntava agora como pôde sequer desconfiar dela. O inferno congelaria antes de Felicity Smoak ser tornar uma vilã.
Ela olhou profundamente nos olhos dele e procurou por conforto. Oliver deu além disso, deu também compaixão e mostrou a ela que revelar seus segredos e passado não mudou o jeito como a via. Pelo contrário, apenas corroborou.
Nada mais preenchia seu campo de visão a não ser Felicity.
Ela respirou com calma, tranquilizando-se. Só então Oliver retirou a mão.
- Então nossas investigações convergem. – Diggle falou.
Oliver e Felicity se afastaram.
- Nem é preciso dizer que vamos ajudá-la descobrir quem te transformou em alvo. – ele disse.
- Eu na verdade pensei em contar a vocês algumas vezes. Provavelmente teria contado com mais alguns dias se tudo não tivesse estourado. – Felicity confessou.
- Foi até bom assim. Os segredos acabaram.
- Como vamos fazer isso? Não é como se pudéssemos ficar aqui na empresa vasculhando meio mundo. Vão desconfiar. Ainda somos seus guarda-costas. – Diggle ponderou.
- O que você sugere? Que a gente tenha um covil secreto para discutir isso? – Felicity riu, mas logo depois franziu a testa. – Na verdade, não é uma ideia louca.
- Não me diga que você tem um covil, Felicity. – Diggle brincou.
- Na verdade, o primeiro escritório da Smoak Tech. Eu sinto nostalgia em relação a ele, então acabei comprando o lugar, mas nunca mais usei.
- Uma última coisa para encerrar esse assunto. Você chegou a investigar a mulher que tentou te esfaquear? – Oliver quis saber.
- Ainda não. Pensei, mas não fiz.
- Ótimo. Então vai ser nosso primeiro passo. E o executivo com quem você conversou no jogo.
Felicity demorou apenas segundos para entender o que ele queria dizer.
- Sabia que deveria ter contado a vocês mais cedo!
O lugar de nascimento da Smoak Technologies ficava próximo à academia que Oliver e Diggle frequentavam.
Na sexta-feira após o expediente, Felicity embarcou na nostalgia que a invadiu e foi para lá. O local era na cidade, o que foi um ponto positivo na hora da locação – pois assim facilitaria o contato com investidores, além de contar com a própria infraestrutura da cidade –, porém estava infestado de roedores e insetos. Por isso o preço estava baixo, e foi ainda mais baixo após Felicity negociar. Ela concluiu que pagar por dedetização valeria pela localização.
Após a empresa ter deslanchado, ela só voltou uma vez, que foi quando comprou o prédio – ela estava numa onda louca de êxtase porque agora tinha dinheiro! Fazia bem mais que um ano.
O escritório, na verdade, era um porão vasto. Hoje só continha basicamente caixas, pois virou uma espécie de depósito não oficial da empresa.
- Se a gente precisar de alguma privacidade para nosso... trabalho, aqui é uma boa opção. – Felicity falou andando pelo espaço. – Dá facilmente para instalar uns computadores, uma tranca de segurança... E tem a vantagem de estar a uma distância a pé de um lugar em que vocês constantemente estão.
- Algo me diz que você vai querer dar umas escapadas para cá, Felicity. – Diggle falou brincando.
- Tô ficando boa em driblar meus guarda-costas.
- Bem... – Oliver abriu a boca.
- Se eu imaginasse que eles estavam me rastreando, eu teria driblado cem por cento. Se um dia eu desaparecer, ninguém me acha. – ela lançou aos dois um olhar desafiante.
Diggle fixou o olhar nela durante longos segundos, ponderando.
- O quanto você sabe de defesa pessoal?
A cabeça de Oliver virou-se para ele automaticamente.
- Não muito. – Felicity deu de ombros. – Dinah me ensinou algumas coisas, tipo acertar nariz, virilha, plexo solar... Foi assim que eu temporariamente escapei dos sequestradores.
- Bom. Acho que você precisa treinar mais. Poderíamos ensiná-la.
- Não. – A palavra saiu da boca de Oliver num estalo.
A animação que Felicity começou a sentir diminuiu drasticamente.
- Por que não? – Diggle olhou para o parceiro.
- Protegê-la é nosso trabalho. Não faz sentido treiná-la.
- Não é como se ela fosse virarmestre em Krav Magá que nem você. É só para ela se virar num caso extremo, ainda mais por ser um alvo.
- Dinah sempre diz que não dói a nenhuma mulher saber se defender. Infelizmente num mundo como o de hoje. – Felicity disse.
- Ela tem alguma força física. Você já a viu nas aulas de ioga. Não tem como fazer umas poses avançadas daquelas sem força. – Diggle continuou.
Eles a observavam fazendo ioga? Novidade para Felicity.
- E não é como se fosse exigir muito esforço da gente. Podemos usar a academia ou, sei lá, colocar algumas coisas aqui...
Oliver olhou para Felicity. Ela viu que ele passou a cogitar a ideia. Tentou não demonstrar muito sua empolgação.
Ela não era a maior amante de atividade física, mas fazer algo com um propósito? E com eles dois, que – estava na hora de admitir – viraram seus amigos? Lembrava-se das aulas básicas que Dinah lhe dera. As endorfinas liberadas nos movimentos... Havia um prazer esquisito nisso, em descobrir o que seu corpo era capaz. Era algo semelhante à ioga.
- Você realmente quer isso, não? – ele perguntou.
Ela deu de ombros, fingindo para ninguém.
- Bem, você demonstrou potencial quando tentou me agredir naquele dia. – ele pausou por alguns segundos. – Tá. – suspirou, derrotado. – Ok, Felicity. Vamos ver se eu ensino a você como escapar da pose em que te prendi. – ele deu um sorriso provocante com o canto da boca.
Ela inspirou com dificuldade. Deveria ter pensado melhor do que se envolver em atividade física de alta proximidade com um homem perigosamente sensual.
NA: Fato interessante: a marca Whittard realmente existe. Conheci quando morei na Inglaterra. Não sou fã de chás, mas eles vendiam também chocolate quente e café, sem contar que a loja é linda e as coisas são fofas demais (meio caras também, socorro).
A fic também é cultura ;D
Maior capítulo até agora. Coloquei coisa além do planejado, mas gostei muito de como ficou. Eu quase fui pro clichê de uma cama só (um dos meus favoritos!), mas, conforme fui escrevendo, percebi que não era a hora, especialmente pelo lado do Oliver... Pelo menos, não ainda.
Espero que tenham gostado!
Até a próxima atualização. Beijoooos.
