Desfazer-se do Mini Cooper foi mais difícil do que Felicity esperava.

- Eu meio que sinto meu coração quebrando. É estúpido demais de dizer que parece que to deixando um bebê? Meu bebê! Foi uma das primeiras coisas que comprei quando me mudei para Starling. Ah Deus, as lágrimas. Por favor, me diz que eu não vou passar vergonha agora. Se controla, Smoak, é só um carro. – falava exagerada e sem parar, com os olhos ainda na direção para onde o carro vermelho desaparecera.

Ao seu lado, Oliver balançou a cabeça e segurava um riso.

- Talvez quando tudo isso acabar você compre outro.

Eles saíram da concessionária e logo encontraram Diggle no novo carro dela, um BMW Série 7 cor grafite. Ok, Felicity tinha que confessar, ele era lindo. A luz do dia apenas destacava o luxo e a elegância.

Felicity mal entrou no banco traseiro e já começou a mexer nos gadgets. Um dos motivos para ela escolher o modelo foi seu alto nível de tecnologia. O computador de bordo era sensacional, e ainda tinha os próprios tablets. Sem contar os inúmeros botões. Ela parecia uma criança na loja de brinquedos. Seus guarda-costas não continham o sorriso com a empolgação dela.

- Ela não sabia dessas coisas quando viemos comprar porque tava ocupada demais nos rechaçando pela blindagem. – Diggle disse ao parceiro num tom divertido.

Oliver incrivelmente entrou na brincadeira.

- Pobre Mini Cooper já foi esquecido.

- Vocês são ridículos. – Felicity revirou os olhos.

- Já tá imaginando como hackear o sistema? – Oliver provocou.

- Deixarei essa parte pra você.

Ela estava tão entretida com a novidade que, na hora do happy hour com Iris, fez questão de buscá-la na redação. Ao chegar, mandou uma mensagem a ela: Sua carruagem chegou. Viu Iris saindo do prédio com uma expressão confusa até que identificou Diggle fora do carro.

- Srta. West. – ele disse, abrindo a porta.

A jornalista estava surpresa. Não tinha como negar que ter uma melhor amiga rica tinha suas vantagens. E, mesmo com situação horrível que fez com que Felicity tivesse guarda-costas, tinha um lado bom que era a de se sentir como uma celebridade.

As duas se abraçaram assim que Iris sentou.

- Tão chique. Isso sim é a cara de uma CEO poderosa. – Iris falou com um sorriso após cumprimentar Oliver. – E ainda tem almofadinhas. – adicionou pegando o objeto.

- Cortesia do cara da loja. – Diggle falou.

Cortesia nada, se considerar o quanto Felicity pagou pelo carro. Mas ela não podia negar que as almofadas eram fofas.

- Tem massagem nos bancos. Massagem, Iris. – ela repetia agitando o manual em mãos. – Eu nunca mais vou sair desse carro. E esse banco que eu to reclina tanto que praticamente vira uma cama. Só que não posso fazer isso agora senão eu esmago alguém. – ela deu um chute leve no banco do carona, onde Oliver estava.

- Você sabe que é só falar que eu vou para trás. – ele disse.

No restaurante, elas logo pediram uma garrafa de vinho tinto.

- Ao carro novo! – Felicity exclamou erguendo sua taça para um brinde.

- A uma possível manchete. E, é claro, à nossa amizade. – Iris adicionou, batendo as taças.

- E que manchete é essa, hein? – a loira perguntou depois de tomar um gole.

Iris contou sem muitos detalhes sobre o artigo de um caso de corrupção que estava escrevendo e cuja previsão era ser publicado naquela semana.

- Iris West, desmascarando o lado sujo do mundo. Sei que você vai arrasar. – a CEO sorriu.

O assunto depois se deslocou para a mudança de Felicity.

- Era para ter sido esse fim de semana passado, mas alguns detalhes tanto de papelada quanto de reforma atrasaram.

- Reforma? – a jornalista franziu o cenho. – Mas o loft já não é novo?

- E é. Mas são só uns pequenos ajustes. Resolvi abraçar a designer de interiores dentro de mim. Até porque não tenho tempo para ficar monitorando uma grande reforma. Enfim, esse fim de semana eu oficialmente me mudo.

- Yay! Não tenho compromisso, então pode contar comigo para te ajudar. Quero ver esse loft. Vou carregar Eddie também para servir de músculo.

A comida delas chegou.

- Sabe o que to sentindo falta? – Iris perguntou. – Sair para dançar. Faz tanto tempo.

- Alena tava me falando hoje mesmo que faz um tempo que ela não sai também.

- É um sinal! – Iris se animou. – A gente não faz nada demais juntas há um tempão. Hora de criar vergonha na cara e ir naquela boate que sempre falamos que vamos, mas nunca vamos.

- Qual?

- Verdant.

- Ah, a boate do Tommy! – Felicity explicou ao ver a expressão da amiga. – Eu conheci Tommy Merlyn no dia do basebol. – E aí ele a seguiu no Instagram. Ela seguiu de volta. Às vezes eles trocavam mensagens.

- Olha ela andando com realeza. Justo, já que você é praticamente a rainha da tecnologia. E Tommy, huh? Ele é uma gracinha.

A loira revirou os olhos com o sorriso malicioso de Iris.

- Nem comece. Senão não vamos lá.

- Mas eu quero conhecer lá! – Iris sacou o celular e começou a digitar. – Já mandei a ideia no grupo. Pode pedir pro seu amigo reservar umas entradas para nós.

A conversa foi se estendendo aos mais variáveis assuntos. Felicity sentia o tempo todo os olhares atentos de Oliver e Diggle em si.

- Ah, fica de olho no seu correio daqui pra frente, viu. O convite pra próxima festa de gala da empresa vai chegar.

- Oba! Espera... É a de três anos? – a CEO afirmou com a cabeça. – Ai meu Deus, já tudo isso? Quanto tempo! E lembrar que a gente se conheceu quando você ainda era uma analista de TI...

- E você, uma barista. – As duas sorriram.

Felicity e Iris se conheceram anos atrás quando Felicity descobriu que o C.C. Jitters, a cafeteria onde Iris trabalhava, tinha o melhor mocha latte das imediações da Queen Consolidated, com o equilíbrio perfeito entre café e chocolate. A loira chegou lá afobada e necessitada de cafeína após um leve estresse no trabalho e foi prontamente atendida pela morena que viria a ser sua melhor amiga. Felicity voltou com frequência e cada dia mais trocava palavras com Iris, até uma vez que ela ficou até a hora de fechar por ter se perdido no tempo devido a suas programações e Iris teve que botá-la para fora. Elas foram se aproximando, e o dia que oficialmente viraram amigas foi quando se encontraram num mercadinho próximo ao café, onde Felicity estava comprando um pote de sorvete de menta com chocolate e Iris, vinho, duas paixões que elas tinham.

- Agora você conquistou o mundo. E não é exagero. – Iris piscou o olhou, e Felicity deu de ombros um tanto acanhada. – Você devia ter falado isso antes para poder ter entrado no brinde.

- Só fazermos outro. – Felicity levantou a taça.

- Outro compromisso pra adicionar na nossa agenda: sair pra comprar vestidos. – a jornalista falou após o brinde. – Você como dona da empresa e estrela da gala tem que estar divina.


No dia seguinte, Felicity tinha uma entrevista marcada, que foi conduzida numa das salas de reunião da Smoak Tech. O tema principal era cidades inteligentes, como nesse conceito a interação de recursos e serviços e a infraestrutura de informação e comunicação seriam todas geridas digitalmente e como funcionaria o planejamento urbano com um nível tecnológico tão alto, mas acabou se estendendo para outros temas relacionados, tais como energia, e ela discorreu bastante sobre produção elétrica inteligente e conectada e smart grids.

Oliver e Diggle ainda encontravam meios para se surpreenderem com a inteligência dela.

- Trabalhar para você também tá servindo de aprendizado para mim, Felicity. – Diggle disse enquanto eles voltavam para o escritório dela.

- Espero que bom.

- Sim, bom. Eu só tinha uma vaga ideia de todo esses negócios.

- Bom, foi graças a esses negócios que a empresa deu certo. – Era verdade. Felicity viu um gargalo quanto à existência de tecnologias concretas voltadas para o conceito de cidades inteligentes, e a Smoak Tech foi pioneira nisso, o que a faz deslanchar. Depois vieram as outras linhas de trabalho.

Felicity ainda tinha um tempinho vago até o almoço e aproveitou para colocar em prática uma ideia que tivera.

- Tenho pensado em dar um update e uma personalizada na segurança dos celulares de vocês, ainda mais por causa do nosso projetinho. – disse assim que Oliver fechou a porta do escritório. – Pelo que Oliver falou, a ARGUS foi facilmente capaz de encontrá-lo. Sem contar que não fico confortável com a ideia de uma agência de inteligência estar atrás de mim. Eu pago meus impostos.

Ela pegou os dois aparelhos e se enfiou no próprio laboratório. Os homens, por outro lado, ficaram do lado de fora.

- Acho que podemos colocar Lyla a par sobre ela. – Diggle agitou com a cabeça na direção de Felicity. – Pode ser o apoio que precisamos para tirá-la da mira de Waller.

- Você pode estar certo. Mas eu iria com cuidado.

Oliver estava incerto com a ideia. Não confiava em Waller. Por isso, no fundo, acreditava que ela não desistiria até obter o que quisesse de Felicity.


Ao longo daquela semana e da seguinte, algumas coisas foram estipuladas entre os guarda-costas e sua cliente. Primeiro, decidiram que eles fariam rodízio e houve dias em que apenas um dos homens a acompanhou. Segundo, ela montou alguns computadores no antigo escritório da ST, o que acabou atrasando sua primeira aula com os dois. Terceiro, Diggle e Oliver a treinariam nos dias em que ela não tinha ioga.

Felicity estava empolgada ao entrar na academia. Era diferente do que imaginava. O prédio era um armazém antigo convertido em academia, mas sem perder sua essência. O resultado era um lugar que brilhantemente casava rusticidade e alta modernidade. Era enorme e o espaço comum amplo se expandia em um pequeno labirinto, que a cada virada revelava um canto reservado com diversos aparelhos. Havia também salas no segundo andar destinadas a aulas específicas.

Diggle, seu acompanhante do dia, indicou a direção onde Oliver estava, no fundo da academia, seu canto característico aonde quase ninguém ia.

- Vou falar com Rene rápido e depois encontro vocês. – disse, referindo-se a Rene Ramirez, o dono da academia e um amigo, também ex-militar.

Felicity mal entrou no local quando parou de súbito.

Oliver estava pendurado numa barra de metal apoiada em dois postes verticais. Ele balançou levemente, jogou o corpo para trás num impulso, contraiu o corpo e pulou, colocando a barra nos suportes logo acima. Ele fez isso mais vezes, cada movimento preciso, os joelhos dobrando, os braços esticando e o corpo explodindo.

Ele estava sem camisa, e ela viu o torso e os braços repletos de cicatrizes de diversos tamanhos e formas. Os músculos definidos ficavam ainda mais pronunciados a cada subida, os abdominais, peitorais, tríceps, deltoides... Era como a melhor aula de anatomia do mundo. Gotas de suor escorriam pelo corpo dele, rolando por caminhos tentadores que ela se pegou querendo traçar com os dedos.

Calor tomou conta dela.

Felicity provavelmente concluiria que o exercício era pura física e que Oliver usava seu próprio momento para impulso se não estivesse em choque e boquiaberta.

Ele saltou para o chão ao percebê-la. Firme e preciso, nem ao menos titubeou. Ela continuou a encará-lo, como não fazer isso? Esforçou-se para manter o olhar no rosto dele, mas inevitavelmente descia. Apostava que estava corada. Felicity realmente não queria estar babando. Por favor, universo, que ela não estivesse babando nele.

Seu coração deu um salto ao sentir o olhar dele sobre ela. A intensidade lhe provocou uma série de arrepios.

- Hey Felicity. – Oh, mas por que, por que, ele tinha que falar o nome dela daquele jeito, ainda mais seminu e suado? Aquela voz grave e agora um tanto rouca devido ao exercício que acariciava cada sílaba e o peito dele subindo e descendo com a respiração ligeiramente alterada e isso fazendo os músculos se movimentarem e de novo se acentuarem...

Ela não sabia nem o que dizer.

E ele estava vendo tudo. Toda sua óbvia apreciação pelo corpo dele.

A comédia romântica favorita de Felicity era "Amor a Toda Prova". Numa das melhores cenas, Hannah, a personagem de Emma Stone, ficou embasbacada ao ver Jacob, o personagem de Ryan Gosling, sem camisa. Foi um dos momentos mais realistas dos filmes que ela já vira. Quando se recuperou, Hannah disse que ele parecia Photoshop.

Agora Felicity se sentia exatamente como Hannah.

Por um momento delirante, ela se perguntou se Oliver conseguiria levantá-la que nem os personagens faziam mais adiante. Claro que poderia, ela não devia pesar nada para ele. E se ele descesse o corpo dela roçando nele próprio do mesmo jeito da cena...

E por que ela estava pensando nisso?

Ela já imaginava que Oliver era musculoso mesmo com as roupas que usava, agora sem parte delas e tendo a confirmação... Ele era carnal e elegante. E parecia mesmo Photoshop, mesmo com as cicatrizes. Aliás, ele era ainda mais bonito por causa das cicatrizes, uma perfeita imperfeição.

- Oi. – ela se esforçou a dizer.

Mas que droga, ela tinha que se controlar! Não é como se ela nunca tivesse visto um homem bonito e atlético na vida.

- Diggle tá vindo, ele só foi falar com Rene. – começou a agitar as mãos enquanto falava. – É Rene, o nome? Acho que é...

Oliver apenas balançou a cabeça.

- Vejo que está pronta. – Os olhos dele baixaram para seu corpo, apenas brevemente, mas mesmo assim Felicity sentiu um novo arrepio.

Ela trocou de roupa ainda no escritório. Usava uma calça cinza que volta e meia colocava também para a ioga, um top preto com a costura da borda em rosa claro e uma camiseta azul larga.

- Como foi seu dia? – Oliver perguntou.

Ela agradeceria se ele, acima de tudo aquilo, não fosse gentil também. Tenha misericórdia, Oliver.

- Foi bom. Nada demais. – ela deu de ombros. – E você? Estranhou não trabalhar hoje?

- Sim. Acabei almoçando com minha mãe. Depois fiquei em casa meio entediado. Tive que me segurar para não vir para cá mais cedo e poder acompanhar vocês.

- O que, a programação do Food Network não tava boa hoje? – ela provocou.

Oliver não respondeu. O pior era que ele realmente assistia ao Food Network. Uma das poucas coisas que verdadeiramente gostava.

- Então... O que é isso? – Sem conter a curiosidade, Felicity perguntou apontando para os postes e a barra de metal.

Ela desviou o olhar para o aparelho, mas Oliver continuava com o seu fixo nela.

- Se chama escada salmão. Trabalha a parte superior do corpo. – E muito bem, ela se pegou pensando.

Felicity estava mais calma, porém ainda não cem por cento recuperada.

Talvez ela nunca se recuperasse de verdade depois daquela visão.

Havia uma vida antes de descobrir a escada salmão e uma completamente diferente depois.

Ela apenas balançou a cabeça para mostrar que compreendeu. O silêncio caiu entre eles. Nenhum se moveu. Felicity voltou a olhá-lo. Ela sem pensar umedeceu os lábios. Os olhos dele acompanharam o movimento. Do mesmo jeito que ela já fez com ele. Não passou despercebido por Felicity.

Talvez os próximos segundos revelassem vontades ocultas e reservassem algo louco e profundo e impensável...

Mas eles nunca saberiam, pois Diggle apareceu.

- E aí, cara. – disse a Oliver, que prontamente o cumprimentou, a postura e a expressão tranquilas, imperturbáveis. Como se nada tivesse acontecido.

E nada de fato aconteceu.

Felicity enfim se mexeu e largou a bolsa num canto da parede.

- Já terminou? – Diggle perguntou.

- Ainda não. – o outro homem respondeu.

Oliver seguiu para seu próximo exercício. Enquanto ele andava, Felicity o acompanhou pelo canto do olho. O torso dele era coberto de cicatrizes de bala, de cortes e havia algumas que pareciam ser queimaduras, uma delas ocupava praticamente toda a lombar. Mais calma, ela percebeu que eram pedaços do passado dele, uma espécie de mapa, provas do quanto ele sofrera e perseverara.

Mais que um herói, Oliver era um sobrevivente.

- Certo, Felicity, vamos começar. – Diggle se dirigiu a ela. – Primeiro quero ver o que você já sabe.

Os dois se postaram no centro do piso de borracha. Ela percebeu também que Diggle tinha suas próprias marcas, embora em menor quantidade.

- Bem, o que eu sei basicamente é como escapar sem nenhum confronto a mais, ou seja, atacar o atacante... é certo falar isso?... nas regiões mais sensíveis, no centro do corpo. Virilha, plexo solar, nariz...

- Bom, bom. Exatamente isso. – Diggle balançava a cabeça.

Ela demonstrou alguns movimentos para ele.

- Ótimo, mas basicamente só funciona quando a pessoa está distraída, sem esperar nada. – Como o imbecil que ela atacou no dia do sequestro, pensou. – Agora, se a pessoa já vem mal intencionada, muito provavelmente não vai ser o suficiente.

- E eu também sei dar um soco! – ela exclamou animada, o que o fez rir.

- Vamos ver seu soco, Felicity. – ele ergueu as mãos com as palmas voltadas para ela.

Felicity rapidamente ficou em posição. As aulas de Dinah ecoavam sua mente. Base forte igual soco forte, não se soca somente com o braço, o soco vem do corpo inteiro, a força vem dos quadris e pernas, mantenha o pulso firme... Achava que mandou muito bem, considerando o tempo desde a última vez – e também a distração em forma de Oliver em sua visão periférica. Aparentemente era o dia de malhar membros superiores.

- Golpes sólidos, Felicity. – ela ficou radiante com o elogio. Diggle foi sincero, ela já sabia até do truque de girar o antebraço para diminuir o impacto na articulação do cotovelo. – Podemos trabalhar para dar uma variada em como aplicá-lo.

Em seguida, foi a vez de Diggle. Ele discorreu e demonstrou como acertar outros pontos sensíveis separadamente, como, por exemplo, usar o pulso para acertar o nariz de baixo para cima. Felicity ficou surpresa em saber que podia usar o esôfago para ajudar a desarmar alguém.

- Tá vendo essa espécie de buraco aqui na garganta? – ele indicou em si mesmo. – Se você usar o indicador e pressionar ali para dentro e depois para baixo, é bem desconfortável. Agora demonstre em mim e não precisa ter medo de me machucar, até porque você precisa saber certinho como fazer.

Mesmo com o aviso, Felicity ainda se sentiu mal ao vê-lo tossir ao acertar. Por outro lado, mostrava que a técnica funcionava.

O tempo foi passando. Ele também a ensinou como usar os joelhos para desferir golpes da metade inferior para baixo do corpo. Seu pulso naturalmente acelerou com os exercícios. As endorfinas foram disparadas em seu corpo. A sensação era muito boa. Era naquele estado que meio que conseguia entender porque as pessoas gostavam de violência.

- Será que vamos precisar usar protetores? – uma nova voz surgiu entre eles depois que ela desferiu uma joelhada no abdome dele. Felicity ficou tão focada na aula que mal notou que Oliver terminou seu próprio treino e agora os observava de braços cruzados, o canto dos lábios minimamente erguido.

- Ainda não. – Diggle respondeu divertido. – Mas acho que vamos ter que adicionar boxe nos treinos. Ela ficou feliz demais dando socos.

Ela deu de ombros, acanhada.

No fim, Diggle fez um apanhado geral.

- Hoje foi só uma introdução mesmo. Tudo o que ensinei, mais o que você já sabe, vai ajudar nas próximas aulas, nos movimentos mais complexos. O objetivo não é torná-la mais forte que o atacante, até porque isso quase nunca vai acontecer. Os movimentos vão servir para qualquer tipo de pessoa que atacar. A questão é usar pontos estratégicos, pontos fracos no atacante, ser precisa e ágil. É usar a inteligência, e sabemos que você tem isso de sobra. – ele sorriu.

- Outra coisa. – Oliver se pronunciou sério de novo. – Você vai repetir inúmeras vezes até cansar e quando cansar vai continuar repetindo. Tem que estar entranhado no seu cérebro, de modo que você aja por instinto. Porque num caso de emergência você precisa manter os nervos controlados. E só vai conseguir se treinar bastante para ter segurança nos movimentos e saber exatamente o que fazer. Por isso não reclame. Nós vamos também personificar um atacante o mais real possível, então se você se sentir desconfortável ou intimidada em alguma posição, fala. Com a gente dá para fazer isso. Queremos o seu bem.

Felicity concordou com a cabeça e passou o pulso na testa, coberta por uma leve camada de suor. Era até bom que os dois fossem enormes, lhe daria a confiança necessária para enfrentar qualquer adversário.


- E sabe qual era a genialidade de tudo? O cara tinha as reuniões de negócios no clube de strip. Tudo acontecia em meio às dançarinas. É claro que demoraram a identificar, até porque nenhuma das mulheres era louca de abrir o bico, não por questão de perder o emprego, mas porque, bem, elas podiam muito bem morrer, não é?

- Eu dificilmente consideraria isso genialidade, Iris. – Felicity deu um riso seco.

Iris contava em detalhes o caso de corrupção mencionado no happy hour enquanto as duas carregavam caixas para o caminhão. Ela estava empolgada, a complexidade do crime a fez escrever um artigo enorme que ganhou a primeira página do site. Felicity já esperava pela conquista da melhor amiga, porém mesmo assim estava contente.

- Felicity já é... Quem? A décima pessoa a ouvir sobre isso? – Eddie provocou, passando por elas na direção contrária, de braços vazios. – Sabe que tudo isso foi publicado para qualquer um ler?

Iris revirou os olhos para o namorado e o acertou com o cotovelo.

- Vai quebrar as coisas da sua amiga! – ele exclamou.

- Não foram dez, idiota.

- Eu, seu pai, Wally, Barry, e aposto que você mandou mensagens para aqueles seus amigos da faculdade e outras meninas...

- Calado e continue marchando. Você é músculo. Músculos não falam. Tá aqui por sua força física.

- Como se você não tivesse um gancho de direita perigoso. – Eddie falou orgulhoso, tanto do soco quanto da conquista dela. Aproximou-se dela e beijou-a na testa. – Te amo.

Felicity sorriu com os dois. Tão fofos. Os olhos de Iris brilharam quando ela lançou um último olhar a ele antes das duas tornaram a andar.

O dia de mudança para o loft enfim chegou. Rob estava lá também em serviço, embora ajudasse um pouco.

Iris entregou a caixa para o homem no caminhão e tomou o caminho de volta. Felicity se atrapalhou um pouco. Por que teve que pegar logo duas caixas? Tudo bem que elas não eram pesadas, mas mesmo assim. Uma estava quase caindo quando dois braços surgiram e a pegou.

- Bons reflexos, soldado. – ela disse ao ver Oliver.

- Oi, Felicity. Desculpa o atraso.

- Nada de atraso, chegou bem na hora.

O dia estava quente, então ele usava somente uma camisa azul. A cor caía incrível nele. Ela notou que as roupas casuais dele eram sempre em tons frios e elegantes. Ele tinha um senso de moda muito bom, na verdade.

No dia anterior, ele mencionara a mudança. Ela tinha desconsiderado a oferta dele – até porque foi feita num momento em que os dois estavam meio... afetados –, por isso nem esperava nada, muito menos falou de novo com ele. Contudo, Oliver insistiu e disse que não seria incômodo algum, e ela não conseguiu contra-argumentar.

Eles voltaram ao apartamento. Oliver cumprimentou Rob com um aceno de cabeça e depois o casal de namorados. Felicity percebeu Iris franzir o cenho por frações de segundo, confusa porque o outro homem estava lá e não a trabalho.

Ela não falou a ninguém que eles não eram mais somente a CEO Smoak e seu guarda-costas.

Também percebeu que tentar explicar agora só tornaria tudo mais complicado. E a jornalista com certeza faria comentários sugestivos espertinhos.

Com tantas mãos trabalhando, tirar os pertences de Felicity foi mais rápido que o esperado. Logo ela entrou e viu o local totalmente vazio. Parou e olhou ao redor uma última vez. Seu coração se apertou saudoso e já nostálgico. Despediu-se silenciosamente.

- De novo mais difícil do que eu imaginei. – Oliver pôs-se ao seu lado. O ombro dela quase roçava no braço dele. Ela continuou. – Morei aqui desde que me mudei para Starling. QC, o nascimento da Smoak Tech, a ascensão... Esse lugar viu tudo. – ela pausou. – É ridículo, não é? É só um apartamento.

- Nada ridículo. – ele afirmou. – Foi um lugar marcante para você. Parte da sua história.

Ela olhou para ele e sorriu. Oliver, como se a sentisse, encontrou seu olhar e devolveu com seu quase sorriso – que ela estava começando a associar somente a ele, característico dele. Um gesto que cada vez mais ela via como reconfortante, suave até, e que cada vez mais a cativava. Ela jurava que a tempestade dos olhos dele se amansava um pouco.

Queria-o sorrindo até que se acalmasse completamente.

- Vamos. Tá na hora de escrever mais um pedaço da minha história.

- Tenho certeza que vai ser notável como você, Felicity.

Ela sentiu um calor agradável no peito. Os dois saíram, e Felicity fechou aquela porta pela última vez.


- Esse lugar é sensacional. – Iris falou pausadamente assim que entraram no loft. Ela olhou ao redor boquiaberta. – É gigante, é lindo, é exatamente como eu imaginei pra você.

Arrumar as coisas no novo local foi um pouco mais complicado. Contudo Felicity sabia que ia demorar alguns dias até que tudo estivesse em plena ordem. Por enquanto, ela estava admirando sua cozinha nova, que parecia saída de um catálogo. Luzes embutidas, eletrodomésticos de última geração brilhando; até mesmo botou uma adega digital. Aliás, precisava fazer uma visita ao seu site favorito de vinhos para comprar umas duas caixas e estrear com estilo.

- Linda demais para quase não ser usada. – disse para Oliver, que entrou carregando duas caixas. Ele as fazia parecer que não pesavam nada.

- Talvez seja a sua vez de descobrir sua paixão pelo Food Network e se inspirar. – Ele a estava provocando, vejam só. Ela notou que ele aos poucos se soltava mais ao seu redor. Estava revelando até um senso de humor. Ela pontuou isso como crescimento pessoal.

- Sou mais Discovery Home & Health.

- Nem deu pra notar com esse apartamento.

Quando a mudança terminou, Felicity sorriu satisfeita consigo mesma com a beleza do local. Ficou como imaginou. Claro, era bem maior que o antigo, mas ela mesmo assim conseguiu manter o ambiente aconchegante e agradável.

- Conseguimos, gente! – exclamou animada para os amigos. – Acho que a gente tem que sair pra comer e fazer um brinde. Você tá incluso, Rob, é uma ordem. Um gole de... sei lá, champanhe... não vai atrapalhar seu trabalho.

Quando Felicity teve a ideia de se mudar, esperou que todas as mudanças em sua vida fossem boas. E, até o momento, um mês depois, eram.


A primeira semana no novo apartamento seguiu tranquila. Felicity instalou a segurança personalizada e ela funcionou perfeitamente. Pegava movimentos até na varanda, conforme Oliver indicara. Ela não perdeu a oportunidade de lançar a ele um comentário espertinho, claro.

Um dia, ela recebeu uma mensagem de Malone, que queria lhe comunicar sobre andamentos da investigação do caso dela, e ela tirou uma pausa no dia para tomar café com ele. Que, aliás, não foi tão esquisito quanto imaginava.

- A mulher que te atacou, ela tem ligações com a máfia russa. Ela vai ser indiciada. Estamos expandindo a investigação, até porque meu capitão está louco com as máfias, especialmente por causa da movimentação delas nessas últimas semanas. Você sabe. – ele dizia.

- Por que ela iria me atacar? – Felicity franziu o cenho.

- Essa é a pergunta de um milhão de dólares, não? – Billy respirou fundo antes de falar. – Só sei que tô com um pressentimento estranho em relação a tudo isso.

- Olha quem tá embarcando na própria intuição agora! – ela brincou. Ele apenas a fitou em silêncio.

- Tô falando sério. Por que você está no radar da máfia?

Felicity ficou pensativa. A única certeza que tinha era que queriam seu vírus. Pensou que fosse apenas o ciberterrorista, mas talvez... O quê? O crime organizado queria expandir suas atividades? Recrutá-la? Que loucura.

- Eu te conheço e sinto que você não tem negócios sujos. E aí eu comecei a pensar: já rejeitou algum negócio por achar suspeito?

A mulher o interrompeu antes que pudesse continuar.

- Vincent Anders. – disse. – Se debruce sobre ele. Meus guarda-costas acharam suspeito ele querer se encontrar comigo justamente no jogo. Aposto que ele serviu de isca para me arrastar até lá. Também acho que, se dar uma cavada, vai encontrar algo. – Ela mesma iria revirar a vida dele naqueles dias, aliás.

O olhar de Billy se desviou para algum ponto além dela, pensativo.

- Ele pode ter ligações criminosas também. – ponderou.

- Boa e velha lavagem de dinheiro.

- Outra coisa. Você contou aos seus guarda-costas? – o homem voltou a olhá-la. Felicity apenas tomou um gole do cappuccino. – Por quê?

- Porque o trabalho deles é me proteger. E eu confio neles. – falou com tanta veemência que sua voz saiu até com uma sombra de rispidez. – E tudo que você me contar eu contarei a eles.

- Não é bom ficar falando por aí de uma investigação policial.

- É uma investigação policial sobre mim, Billy. Eu decido quem sabe sobre a minha vida.

O homem suspirou resignado.

Após o café, ela prontamente relatou a Oliver e Diggle a conversa. A expressão de Oliver ficou mais dura do que de costume.

- Vasculhe Anders apenas para ter confirmação disso. Depois, não faça mais nada.

Ela apenas aceitou, mesmo que estivesse curiosa com a instrução dele. Imaginou que ele faria. Ainda devia ter seus contatos da ARGUS.


Com ou sem óculos?

A pergunta ecoava na mente de Felicity enquanto ela se olhava no espelho do closet. Ela estava quase pronta para sair com as amigas para a boate. Os cabelos estavam soltos, escovados e enrolavam bem no fim, formando ondas delicadas. Já escolhera até os sapatos. Só faltava maquiagem, que dependia da decisão dos óculos.

Ela colocou a armação de novo e se contemplou por alguns segundos. Combinava com a roupa.

A maquiagem foi bem leve, afinal, ela teve que fazer sem enxergar direito. Mas Felicity já fizera isso outras tantas vezes que a qualidade final era a praticamente a mesma. Um esfumado leve de marrom no côncavo, um delineador apenas para destacar a raiz dos cílios, uma máscara, blush e batom rosas. Repôs os óculos e aprovou o resultado.

Saiu do closet, pegou os sapatos e sentou na cama para calçá-los. Eram sandálias pretas de salto fino com tiras prateadas.

Pegou a pequena bolsa que usaria. Levava somente o básico: celular, identidade, um pouco de dinheiro, cartão de crédito e chave de casa. Nem precisava mais se preocupar com as chaves do carro. Era uma vantagem inesperada de se ter guarda-costas. Iria e voltaria no próprio carro em pleno conforto.

Oliver apareceu pouco tempo depois que ela desceu para o primeiro andar.

- Hey. Já estou pronta. – ela disse ao abrir a porta.

Ele não respondeu. Seu olhar varreu desde o rosto dela até os pés. Capturou o vestido preto que ia até metade das coxas, o decote em V e as aberturas nos ombros e nas laterais do corpo, e essas se expandiam até a parte de trás. Depois subiu lentamente, tão lentamente ou pelo menos era o que parecia a Felicity, pois seu coração bateu várias vezes – e olha que ele acelerou –, e é possível que ele tenha se demorado frações de segundo nas pernas e no peito dela até que voltasse ao ponto inicial.

Uma onda de calor a percorreu. Ela tentou identificar o que havia nos olhos de Oliver, admiração, aprovação, desejo? Ele era tão estoico, tão controlado. Contudo, ela podia jurar não estar alucinando que aqueles azuis definitivamente pareciam mais escuros agora, mais selvagens. Viu o peito dele subir calma e profundamente de um jeito não característico.

De um jeito semelhante ao que ela fazia para não demonstrar que estava afetada.

Oh, Deus... A mão de Felicity agarrou a maçaneta com mais força.

- Excelente. – ele disse, e Felicity inevitavelmente ficou pensando se ele estava falando dela. – Vamos.

Ela teve dificuldade para trancar a porta sob o escrutínio dele. O olhar, ela notou, desviou para as costas, nuas exceto pelo zíper e por algumas tiras de tecido, e por isso não usava sutiã. Suas pernas tremeram nos saltos, lembrando que ao virar de lado para se olhar no espelho vira o começo da curva de seus seios, apenas uma prévia provocante.

No carro, Oliver abriu a porta para ela entrar, e Felicity agradeceu com um meio sorriso. Ele apenas respondeu com um aceno de cabeça, novamente impenetrável. Ela o observou enquanto dava a volta para entrar no banco do motorista. Ele usava blazer e uma camisa social, mas estava sem gravata. Uma versão pouco menos formal do uniforme do dia a dia.

O trajeto até a Verdant foi em silêncio. Felicity sentiu incômodo, pois achava que não era algo mais que existisse entre eles.

Eles entraram na boate pela fila exclusiva da área VIP, menor que a normal. Uma batida alta, mas energizante recebeu Felicity. As luzes piscavam, e embora ainda não estivesse cheio, o clima era animado.

Ao subir para a área VIP, não tardou a encontrar suas amigas. Iris ficou boquiaberta, Dinah fingiu bater palmas, Caitlin expressou aprovação e Alena arregalou os olhos.

- Você tá uma arraso! – Alena exclamou.

- Você parece que vai matar alguém do coração. – Iris comentou com um sorriso maroto. – Sério, que vestido pecaminoso. Amei!

Pecaminoso. Felicity ficou encabulada.

- Chegaram há muito tempo? – perguntou, tentando desviar o foco de si.

- Nada. – Caitlin respondeu. – Vamos pedir bebidas agora.

Elas fizeram os pedidos. Naquela noite, as bebidas com base de rum estavam promoção. Dinah se empolgou, disse que só ia beber rum a noite toda, e Felicity embarcou atrás. Sentaram numa mesa com um sofá e cadeiras. A conversa fluiu junto com o álcool.

- Felicity, você tem que fazer uma social para estrear seu apartamento novo. – Caitlin disse.

- Com certeza. – Dinah concordou.

- Eu vou. Deixa eu me adaptar cem por cento.

- Nós precisamos de uma foto! – Iris falou de repente. – Para aproveitar que todas estamos aqui. E enquanto ainda estamos lindas.

Felicity já estava de pé antes que pudesse pensar muito.

- Oliver, você tira uma para nós?

- Claro. – ele respondeu com um fantasma de sorriso.

Felicity pegou o celular de Iris e andou até ele enquanto tomava um gole do drinque.

- Hum... Eu não sabia que a combinação de sucos com rum era tão boa assim. – comentou por alto. Provavelmente o álcool estava começando a entrar em seu sistema.

As mulheres se agruparam no sofá, e a foto foi tirada.

- Estamos maravilhosas! – Caitlin falou numa voz aguda olhando para a tela do aparelho.

Um tempo depois, quando a boate ficou mais cheia, elas resolveram descer para a pista de dança.

- Vamos, Oliver. – Felicity parou na frente dele.

- Vou ficar aqui em cima. Tenho uma visão mais ampla do local. E de você. – ele explicou. – Divirta-se. – Mais um sorriso quase não existente.

Tentando afastar a expressão do guarda-costas de sua mente e com um novo drinque em mãos – Hurricane, o nome, ela achou divertido –, Felicity desceu com as amigas.

Mas acabou que ela não conseguiu.

A temperatura estava mais quente lá embaixo por causa dos vários corpos dançantes, agitando-se freneticamente. Felicity seria mais um deles e estaria aproveitando se não fosse por ele.

O olhar dele.

Fixo, firme, poderoso. Tão intenso que parecia físico, uma presença concreta ali ao lado dela. Ela o sentia em suas costas, quase uma carícia.

O mundo real começou a desaparecer, colocar-se em plano de fundo. Seus sentidos estavam uma bagunça. A cabeça girava. Seus batimentos cardíacos dispararam. Sua pele zumbia. Embora no calor, calafrios explodiram em si. Suas pernas se arrepiaram, seus braços, sua nuca. Até seus mamilos.

Um pulso entre as coxas. Ela inteira pulsava.

Teve dificuldade para respirar, ainda mais porque irracionalmente um gemido queria escapar de seus lábios.

Aquilo não fazia nenhum sentido.

É claro que Oliver a estava observando. Ele era seu guarda-costas. Era o trabalho dele.

Não tinha nenhum motivo para tamanho caos... Mas, oh, era um caos prazeroso. E ela sabia o que era aquela agitação, só não queria admitir.

Não queria admitir que apenas um olhar de longe a excitou.

Oliver estava lá em cima, mas nunca parecera tão perto, tão invasor, tão íntimo.

Sabe-se lá por que, Felicity se virou para trás. Seus olhos encontraram os dele e se prenderam. As partículas de seu corpo se agitaram ainda, gerando correntes elétricas. Estar sob o olhar dele era alucinante. Ele era magnético.

Oliver esbanjava magnetismo sexual, ela sempre soube, porém só compreendeu a profundidade disso agora.

Por instantes – ela não soube quantificar quantos –, parecia que só existiam ela e ele. Eles foram catapultados para uma nova dimensão; a realidade foi deixada para trás.

Talvez fosse por isso que, pela segunda vez, os olhos dele percorreram seu corpo. Languidamente, descaradamente. Ele a devorou. Dessa vez, mesmo com a distância, ele não escondeu a aprovação.

Felicity estava tão tensa, uma corda de violino pronta para tocar.

E ela resolveu que iria.

Quebrou o contato visual, voltou ao presente, voltou-se para as amigas e levou a bebida à boca.

- Anda, Smoaky! – Iris chamou sua atenção. Ela rodopiava. Era uma ótima dançarina.

Felicity tomou coragem e foi até ela. Estava energizada ainda, a pele ainda desperta, e aproveitou-se disso para se soltar, se redescobrir. Balançou o corpo, entregando-se à dança. Deixou-se levar pelo ritmo, pela batida, pela sensualidade, pela provocação.

Se seu vestido era pecaminoso, ela também seria.


Oliver estava atento a tudo. Felicity não movia um milímetro sequer sem que seus olhos seguissem, predatórios.

Ele por vezes mudava a direção do olhar para vasculhar outros cantos da boate – e era quando se lembrava de beber a água em sua mão, quando sentia o vento do ar condicionado, quando sentia a música reverberando por seu corpo, quando se dava conta do ritmo de sua respiração.

Ao voltar para sua cliente, viu um homem se aproximar. Ficou tenso – não deveria –, porém logo relaxou ao ver quem era. Tommy se aproximava das mulheres. Oliver não podia ouvir o que falavam, apenas interpretou a cena que se desenrolava lá embaixo.

Tommy cumprimentou Felicity primeiro com um beijo na bochecha, depois se voltou para cada uma de suas amigas. Elas continuavam movimentando-se com a música enquanto trocavam palavras por cima das batidas.

Tommy puxou delicadamente a loira um pouco para longe. Oliver ficou confuso. Por que seu melhor amigo estava dançando sozinho com sua cliente?

Aliás, por que ele estava na pista? O trabalho dele era gerenciar o local.

O ritmo da dança dos dois caía quando se inclinavam para conversar. O volume com certeza atrapalhava, mas justificava tamanha proximidade?

Tommy disse algo ao pé do ouvido dela. Felicity inclinou a cabeça para trás e gargalhou. Oliver nunca a ouvira rir daquele jeito, mas, bem, ela já estava no terceiro drinque, provavelmente havia o efeito do álcool ali.

Os dois dançaram por duas músicas e se separaram. Ela voltou para as amigas, e Tommy sumiu. Uns quinze minutos depois, ele surgiu ao seu lado.

- Não é engraçado como há um tempo éramos nós lá embaixo bebendo todas e dançando? Agora estamos aqui, os sóbrios. – disse, apoiando-se à grade do mezanino.

- Você estava dançando agora mesmo. – Oliver apontou.

Tommy o observou de esguelha, lutando contra um sorriso maroto.

- E é claro que você viu.

- Meu trabalho é observá-la, sabe.

- Eu sei. – O tom de Tommy carregava um quê de sugestão que fez Oliver por um segundo se perguntar o que ele queria dizer. – Vez ou outra eu faço isso pela clientela.

- Pela clientela? – Dessa vez, foi a vez de Oliver de insinuar.

Confusão cruzou o rosto de seu amigo.

- O que, você acha que eu to atraído por ela? – falou, uma risadinha escapando. – Não estou. Quer dizer, se ela flertasse sério comigo, eu não seria doido de dizer não... Olha pra ela, ela tá a mistura perfeita de anjo e pecado hoje... Mas definitivamente não é o caso. Felicity tá virando uma amiga. E por que você se importa, aliás?

O guarda-costas ficou em silêncio, o maxilar contraído.

- A essa hora eu já estaria tão alucinado que nem saberia mais meu nome. – Tommy disse um tempo depois.

Àquela hora, Ollie Queen provavelmente estava traindo sua namorada mais uma vez no banheiro com uma aleatória.

- Agora você lucra em cima disso. – falou.

- Melhor ramo de negócios do mundo.


O efeito de Oliver em seu corpo desapareceu – ou então ela se acostumou com ele. Felicity não saberia dizer. Talvez o álcool tivesse a anestesiado.

Uma parte embriagada dela sentia falta do caos, e ela resolveu procurá-lo. Seu pulso acelerou em expectativa ao erguer o olhar para o mezanino. Ele continuava a olhá-la, mas também divida sua atenção com uma mulher.

Um interruptor foi desligado nela.

Óbvio. Oliver atraía pessoas sem esforço, e Felicity realmente não achava que o fato de ele estar de serviço fosse impedir isso.

Ela continuou observando, mas lançando olhares discretos para não chamar a atenção dele. A conversa entre os dois era aparentemente cordial e havia uma distância respeitosa.

Felicity já estava cansando de dançar, e agora seu ritmo caiu ainda mais. Suas amigas, porém, continuavam animadas, e ela não subiria sozinha.

Quando todas finalmente decidiram pausar, Felicity percebeu as solas do pé doloridas a cada degrau que pisava. Elas se jogaram nos assentos que tomaram ao chegar. Oliver, por sorte, não estava mais com a mulher. Felicity descaradamente colocou os pés sobre a mesinha para tentar dar um descanso a eles enquanto afundava no sofá. A noite não estava acabada, e ela nem queria que acabasse agora.

Tommy surgiu novamente, acompanhado de uma garçonete que carregava uma bandeja com várias doses.

- Às mulheres mais bonitas da noite. – ele disse galante. – Por conta da casa.

- Aposto que você já disse isso para várias só hoje. – Felicity falou para ele com um riso solto.

- Pode ser, mas nenhuma ganhou shots de tequila.

- Obrigada, Tommy! – Iris sorriu para o dono da boate.

- Que isso. Falei a Srta. Smoak quando a conheci que seriam muito bem tratadas quando enfim viessem aqui. – ele piscou para a CEO.

- Então obrigada, Felicity. – Caitlin falou.

- Yay! – Alena exclamou, já se inclinando para a bandeja que foi posta na mesa.

Cada uma pegou sua própria dose, elas fizeram um brinde e viraram.


Felicity não sabia como ainda estava de pé. Mas ela se sentia muito bem. Estava bêbada na medida ideal. O mundo girava de uma maneira divertida, e ela ria por qualquer coisa.

Nunca tinha tomado tanto rum. Era bom, muito bom, e Felicity provavelmente fez mais piadinhas com "Piratas do Caribe" do que devia. Ainda bem que ela comeu bastante antes de sair de casa porque era isso que estava segurando os cinco – cinco? – drinques mais a tequila. Colocou um pouco de água no meio, o que ajudava. E ela parou por aí. Sabia que mais uma gota e toda a euforia desapareceria e passaria mal.

Estava de volta à pista de dança com as amigas – todas também em seu próprio nível de embriaguez. Seu corpo estava coberto com uma camada grossa de suor, fios de cabelo grudavam em sua pele, o que mostravam que ele estava bagunçado também, seus óculos estavam meio embaçados e suas pernas, mesmo com os músculos doloridos, incrivelmente ainda se mexiam conforme a música.

Ela nem sabia que horas eram, porém devia ser quase hora de ir embora, pois aos poucos surgiam novos espaços na pista. A multidão começava a encerrar a noite.

- Daqui a pouco vamos também, viu. – Dinah berrou para ser ouvida.

- Sim, eu mal posso esperar para tirar esses sapatos. Meus pés estão me matando. – Felicity falou com a língua enrolada.

- Você pode voltar carregada. Só precisa pedir. – Caitlin disse marotamente. As outras abriram sorrisos maldosos ao entenderem.

- Até ele te levar para cama. – Alena adicionou. Ela estava com os olhos cerrados, quase fechados, e Felicity se preocupou por um instante, mas ela parecia estar se aguentando muito bem.

- Pode até fingir. Ai, não to conseguindo andar direito. Você me ajuda?

- Me recuso acreditar que é preciso fingir com um homem desses. – Iris comentou para piorar ainda mais. Alena engasgou, Dinah riu.

Felicity estava escandalizada. Ao mesmo tempo, rezava para elas não terem notado o momento carregado entre ela e Oliver naquela noite e ela ter se insinuado dançando para ele.

- Vocês são horríveis!

Elas subiram pouco depois para pegar os pertences. Alena dizia que queria parar para comer batatas fritas antes de ir para casa. Oliver olhou para Felicity com uma pergunta silenciosa.

- Não, vamos agora porque você tem que me levar para a cama. Quer dizer, não assim. Eu quis dizer para casa. Porque eu vou dormir. Ah, você entendeu... Não entendeu?

Felicity devia saber que a combinação de sua embriaguez e Oliver Queen não ia dar certo.

Mas também! Era tudo culpa de suas amigas com suas insinuações. Seu cérebro idiota, bêbado e traíra ainda ecoava as palavras delas.

Embaraçada, ela fechou os olhos com força e depois os abriu apenas para encontrar Oliver com uma expressão calma.

- Entendi.

Felicity se despediu de cada uma.

- Boa noite, senhoritas. – Oliver falou cordialmente, o qual elas responderam com sorrisinhos, obviamente afetadas pelo charme dele, e encaminhou-se para a escada com a CEO. Ela olhou para trás e as viu se entreolhando e depois Dinah fazendo um gesto obsceno e apontando para as costas do homem.

Felicity as amava, mas naquele momento queria matá-las.

Ela olhou para a escada, soltando um suspiro. Não aguentava mais subir e descer.

- Quer ajuda? – Oliver ofereceu.

Proximidade entre eles era tudo o que Felicity não queria agora.

- Não, eu consigo. – Orgulhosa, forçou-se a ignorar os músculos cansados, segurou no corrimão e desceu devagar, focando num pé após o outro.

Lá fora, enquanto andavam para o carro, ela exclamou:

- Ah, me esqueci de falar com Tommy! Adorei esse lugar. Ótima variedade de bebidas. Muito boas elas também. Acho que nunca bebi tanto rum na vida. – ela pausou. – Hey Oliver, por que acabar com o rum? – e riu abertamente.

Ele balançou a cabeça, prendendo um sorriso.

- Você e Dinah com certeza fizeram questão de acabar com o rum. – disse embarcando na dela. – Jack Sparrow estaria orgulhoso.

- Capitão Jack Sparrow. – ela corrigiu.

- Eu sei. Falei de propósito.

- Olha você com um senso de humor. – Felicity bateu com as costas da mão no braço dele desajeitadamente.

Eles entraram no carro, e Felicity tirou as sandálias, suspirando de alívio. Ela deve ter caído num estado de semi consciência porque logo estava em seu prédio. Ficou com preguiça de se calçar só para chegar ao apartamento, então resolveu ir descalça mesmo, seriam poucos passos. Teve dificuldade para sair do veículo e acabou aceitando a mão que Oliver oferecia.

- Eu to bem! – exclamou com um tanto de irritação. – Não vou passar mal nem nada. Não é a bebida. Eu só... Sabe quando o cansaço bate?

- Sei. Até porque são quatro da manhã.

- Sério? Wow! – Seu rosto expressou surpresa. – E como é que você tá aguentando aí firme e forte?

Oliver hesitou antes de responder.

- Eu não durmo muito. – disse num tom profundo.

- Sério? – ela repetiu. – Isso é triste. Dormir é uma das melhores coisas da vida.

Oliver aproveitou a distração dela e pôs a mão dela em seu antebraço para apoiá-la.

- Um dia você vai voltar a dormir bem. – ela disse categoricamente, ou tanto quanto possível com a língua enrolada.

Eles entraram no elevador. Felicity notou que ainda o segurava, mas não protestou. Seu cérebro estava enevoado; a letargia aos poucos tomava conta de si. Meio consciente, ela apertou o braço dele umas duas vezes, como se quisesse relembrar e reafirmar os músculos que havia por baixo do tecido. Oliver franziu o cenho, porém deixou passar.

Teve que soltá-lo para abrir a porta. Ela entrou e logo depositou as sandálias no chão. Ele a seguiu e colocou a chave do carro no aparador.

- Você vai ficar bem? – perguntou.

Felicity abriu o zíper do vestido no meio da sala, e ele nunca desviou o olhar tão rápido, um tanto desconcertado. Ela se virou de frente para ele com a roupa folgada.

- Voooou. – respondeu prolongando a sílaba. – O máximo que vai acontecer é eu parecer um morto vivo amanhã. Ou hoje. Amanhã porque ainda não dormi. Não precisa se preocupar. Mas é claro que você se preocupa porque você é um cara legal. Você é um bom homem, Oliver.

O guarda-costas não soube o que responder.

- Beba muita água, viu. E não se esquece de ligar a segurança antes de dormir.

- Sim, capitão. – ela fingiu bater continência. – Ah não, você é tenente. Era.

Oliver sorriu de leve.

- Boa noite, Felicity. Durma bem.

- Boa noite!

Ele foi embora.


A cabeça ainda girava quando Felicity acordou na manhã seguinte. Ela abriu os olhos, porém ficou na cama. Notou que dormira só de calcinha. De repente, se lembrou de ter começado a tirar o vestido com seu guarda-costas ainda lá. Ela levou a mão direita ao rosto, se amaldiçoando internamente.

Por sorte, conteve-se até ele sair.

Ou não.

Felicity tinha esse... uh, probleminha. Às vezes quando bebia ficava um pouco pervertida.

Ela se esticou para pegar o celular na cabeceira para ver a hora. Recebera algumas mensagens, e uma delas fez seu coração saltar. Que ridículo.

Oliver Queen [8:32]: Bom dia! Você tá bem? Tá viva? :)

Ele mandou um emoji sorridente, aquele com as bochechas coradas. Ela, a mente ainda nebulosa e lenta, se pegou imaginando-o sorrindo daquele jeito.

Felicity Smoak [11:07]: Pq mandou mensagem nessa hora maldita?

Surpreendeu-se com a resposta rápida dele.

Oliver Queen [11:09]: Eu disse que não dormia muito. Vai me dizer que não se lembra da noite anterior...

Felicity Smoak [11:09]: Eu lembro tudo!

Felicity Smoak [11:09]: quer dizer... tem algo q eu deveria lembrar? Eu fiz alguma maluquice?

Na verdade, ela tinha uma lembrança muito boa da noite. Despir-se indevidamente, a dança provocante, o olhar magnético... Mas vai que...

Oliver Queen [11:10]: Você foi você mesma como sempre ;)

Agora um emoji piscando o olho. Quê?

Oliver Queen [11:11]: Você ainda não me respondeu. Tá bem? Dormiu bem?

Felicity Smoak [11:11]: Dormi

Felicity Smoak [11:11]: Essa é a vantagem da bebida

Felicity Smoak [11:11]: A gente apaga

Felicity Smoak [11:12]: Ainda não saí da cama mas to bem

Felicity Smoak [11:12]: Acho

Felicity Smoak [11:12]: Só meio lerda

Felicity Smoak [11:12]: Normal

Felicity Smoak [11:12]: Bem vinda a ressaca, Felicity!

Oliver Queen [11:13]: Bom. Se lembrou de trancar a porta? Ligar o alarme?

Felicity Smoak [11:13]: Siiim

Oliver Queen [11:14]: Aproveita o dia pra descansar.

Felicity Smoak [11:14]: E vê se vc tenta dormir mais um pouco. N posso ter um guarda costas zumbi me protegendo

Felicity Smoak [11:14]: Imagina se surge um apocalipse zumbi? Quer dizer, nesse caso vc... me atacaria?

Felicity Smoak [11:15]: Péssima analogia

Felicity Smoak [11:15]: Perdoa a minha mente q parece q ainda ta bebada

Oliver Queen [11:15]: Relaxa. E vou tentar sim. Se cuida, viu?

Mais um emoji sorrindo. Ele queria dizer algo? Ele estava... flertando? Por que ela estava analisando demais aquilo?

Não podia deixar de pensar se a troca de olhares mudou irreversivelmente a dinâmica da relação deles. De novo.


NA:Eu sempre achei um crime a série numa ter mostrado a Felicity nesse vestido de The Flash. Crime consertado.

Traduzir "salmon ladder" sempre vai ser esquisito.
E eu to tão empolgada com esse negócio de treinar a Felicity que se a fic ficar maior do que eu planejei é culpa disso.

Não esperei que o capítulo fosse ficar desse tamanho. Tava reservando a cena da boate para o próximo, mas, assim que parei antes dela, achei que o capítulo não tava completo.

AVISO: tô na reta final da monografia, então minhas previsões de atualização ficaram mais imprevisíveis ainda :( Mas já falei antes e falo de novo: a fic não será esquecida.

Espero muito que tenham gostado. Beijos!