Ao longo da última semana, Felicity resolveu elaborar um algoritmo para tentar relacionar as contas de fachada, com os sequestradores e os hackers que tentaram invadir a ST. Ainda não conseguiu muita coisa, devido tanto à avalanche de documentos forjados e empresas fantasmas envolvidos quanto à complexidade do botnet. Quem quer que estivesse por trás de tudo fez um trabalho exemplar. Ela imaginava ser mais de uma pessoa. Por mais avançado que fosse seu intelecto, ela tinha uma empresa para comandar no dia a dia e não dispunha de todo o tempo para investigar.
Felicity também tentou ver onde a facada se conectava no cenário, porém acabou se desvirtuando quando investigou Vincent Anders mais a fundo. Como dissera a Billy, na hora em tom de zombaria, Anders lavava dinheiro para a máfia russa. Ele tinha uma parcela de uma empresa de logística marítima, que os russos usavam para contrabando. A máfia entrava com armas e proteção e a empresa, com infraestrutura e investimento. Ele definitivamente usara a proposta de negócios para atrair Felicity ao jogo e à sua atacante, Katrina Panvel, que também entrou no estádio por intermédio de Anders.
- O que eu não entendo é como isso se relaciona às outras coisas. – Felicity dizia aos guarda-costas.
Os três estavam no antigo escritório da ST. Enquanto ela montava computadores e programava, os dois carregavam para dentro alguns equipamentos de treino. Diggle e Oliver passaram os últimos minutos após o próprio treino dela lutando no tatame. Felicity, teclando distraída, só ouvia o choque dos golpes, os corpos rolando pelo chão e os ocasionais grunhidos.
O que não a fez olhar para trás e ficar observando a demonstração de testosterona era um mistério. Honestamente. Ainda mais que Oliver estava de novo seminu. Sério, ele alérgico a camisas? Ele também era o único homem que ela conhecia que ficava muito bem de calças cargo. E claro que os olhos estúpidos dela se desviaram para ele por frações de segundo assim que a voz dela os interrompeu.
- Vocês acham que Overlord está ligado aos russos também? Trabalha para eles?
- É possível, mas acho muito improvável. – Oliver falou, a respiração ainda um pouco alterada. – Minha resposta é não. A máfia é um mais jogador no tabuleiro.
- Mais um? – Felicity respondeu incrédula. – Quantos você acha que têm? E quando minha vida virou um tabuleiro?
- Enquanto não desvendarmos a relação entre cada um, não temos como saber. É só que... O mundo virtual não é o modus operandi da máfia.
Ela franziu o cenho.
- Como é que você tem tanta certeza de como uma máfia opera?
- Você aprende todo o tipo de coisa na ARGUS.
- Tantas entidades obscuras... Parece até um livro que eu li. O Tabuleiro dos Deuses. – Felicity comentou por alto. – E você estava certo. Anders realmente é corrupto e lava dinheiro para a máfia.
- Acredite, eu sei alguma coisa de corrupção empresarial. – Havia um quê de amargura no tom de Oliver.
Felicity continuou intrigada. O que Oliver sabia sobre isso? Ele não tinha relação com os negócios da família... A não ser que a Queen Consolidated...
Ela sentia algo querendo chegar a sua mente, mas escapando por seus dedos.
Mais tarde, já em casa, Felicity foi pesquisar. Ela mesma dissera a si mesma que não importava a história de Oliver, porém sua curiosidade a venceu. Bem, tecnicamente não vasculharia algo dele, não desvendaria o mistério que aquele homem – ele ainda era um mistério por mais que o conhecesse, confiasse nele e visse seu bom coração –, e sim relacionado a ele.
Nem demorou muito a achar. Num estalo, Felicity se lembrou. Merlyn Global Group. O CEO, Malcolm Merlyn, fora preso por fraude financeira e por ter sido o mandante do assassinato de Robert Queen.
Aliás, eis algo que Felicity não sabia – pelo menos ainda. O julgamento de Merlyn ocasionou o maior conflito entre Oliver e Tommy de todo o tempo que se conheciam. Isso porque, no início, Tommy não acreditou no que o pai pudesse ter feito, ainda mais quando era seu melhor amigo acusando-o. Depois que as provas foram saindo, Tommy voltou-se contra o pai, mas demorou um tempo após o encerramento do caso para que os amigos voltassem ao normal.
Robert morrera havia muitos anos, ela achava talvez até mesmo antes de Oliver entrar para o Exército, vítima de uma fatalidade a bordo de seu iate. Pelo menos, era o consenso até três anos atrás. Um dos artigos relacionando a morte e o julgamento dizia que Robert tinha cometido seus próprios crimes e, numa tentativa de encobertá-los, despertou a fúria de Merlyn, que armara sua morte.
Por isso ela ficou com a pulga atrás da orelha ao conhecer Oliver. Ele não pode ter aparecido nas notícias como playboy após seu retorno, mas apareceu quando o caso ressurgiu.
E Felicity tinha quase certeza que ele fora o principal responsável pelo ressurgimento. Afinal, na época ele era agente especial e tinha à disposição os diversos e praticamente ilimitados recursos da ARGUS. Provavelmente foi lá que ele descobriu algo de errado com a morte do pai.
Um homem em busca de justiça podia ser implacável.
Mais uma carta revelada sobre seu guarda-costas.
Oliver Queen, herdeiro bilionário, herói de guerra, espião e o homem que desmascarara o assassino de seu pai, revelando ao mesmo tempo um esquema de fraude e corrupção que impressionou a cidade.
Se fosse outra pessoa, ela não via as peças destoantes se encaixando, mas faziam total sentido para alguém tão complexo quanto Oliver.
A confirmação de Felicity sobre Anders fez Oliver se lembrar de um jantar na casa de Diggle e Lyla – e como a investigação parece enfim estar se encaminhando para algum lugar.
Não eram convites incomuns, mas Oliver dessa vez foi especificamente com um objetivo, e, dentre todos ali, ela era a única a não saber disso.
Bem, tirando a bebê Sara. Mas ela não contava. E ela estava feliz em seu cercadinho na sala.
Começou como mais uma ocasião como qualquer outra, conversas sobre assuntos banais e depois foi para o casamento. A especialidade de Lyla, frango à cacciatore, estava em restos na mesa, porém ainda havia o vinho de Lyla – dizia ela que ainda não compensou todo o tempo sem álcool durante a gravidez – e a cerveja dos meninos.
- Só de ouvir vocês planejando cansa, imagina fazer o trabalho mesmo. – ele brincou.
- Às vezes acho que a gente devia era ter levado a sério a brincadeira de ter se casado no alto de um jipe no Oriente Médio. – Diggle comentou.
- Considerando como nós rompemos por um bom tempo, Johnny, definitivamente não teria sido uma ideia boa. – Lyla o contestou.
- Então a gente estaria se casando de novo agora. – Diggle deu de ombros. – Por mim tudo bem. – Ele se virou para a futura esposa com olhos brilhantes. – Caso com você em qualquer lugar, qualquer momento, quantas vezes quiser.
Lyla revirou os olhos para ele, mas logo o beijou rapidamente nos lábios.
O canto da boca de Oliver se elevou num sorriso. Ele ficava contente de ver seus grandes amigos num relacionamento feliz e saudável.
Havia uma pequena farpa o espetando no coração, bem de leve, quase imperceptível, mas existente e que ele conseguia ignorar.
- Oliver, – Lyla o chamou. – já decidiu se vai levar uma acompanhante pro casamento?
- Vou não. – Ele bebeu um gole da cerveja.
A mulher abriu a boca para falar, mas depois a fechou.
- Ia perguntar como pode ter tanta certeza, mas cá está você jantando conosco ao invés de estar por aí num encontro.
Ele franziu o cenho com o novo rumo da conversa.
- É, faz um tempo que eu não ouço nada sobre você que não seja trabalho, treino, esportes e às vezes sua família. E põe trabalho nisso. – seu parceiro adicionou.
Qual era a do repentino interesse na vida amorosa dele?
- É porque não tem nada para contar. – Oliver falou fora da zona de conforto.
E não tinha mesmo. Fazia um bom tempo que ele não saía com uma mulher muito menos transava.
Ele tinha pacto não estabelecido consigo mesmo. Só relações casuais, só quando suas necessidades sexuais falavam mais alto. Os segundos durante o orgasmo eram os únicos em que se sentia verdadeiramente livre. Ele saía de si, daquele oceano sombrio e caótico; era quando seus erros e seus traumas não existiam, quando ele se tornava ele – o que quer que fosse que sobrasse da bagunça complexa do qual ele era formado.
Era um escapismo. Algo egoísta também, não dava para negar. Ele interagia com as mulheres já pensando nesses momentos. Isso não significava que ele não dava prazer a elas, pelo contrário. Ele sabia plenamente como satisfazer uma parceira. Sem soberba. Ele gostava muito de tocar, beijar e chupar, especialmente quando provocava gemidos sinceros e incoerentes que alimentavam sua própria luxúria. Oliver só achava seu prazer mais importante.
Mas alguém podia culpá-lo por querer apenas... se achar? Por não querer se sentir quebrado e defeituoso por um instante? Não tinha nada a oferecer para um relacionamento sério.
Agora pensando nisso, sentiu falta da euforia.
- Melhor ter nada para contar do que ter Helena Bertinelli para contar.
Oliver revirou os olhos. Não era novidade que Diggle recriminava algumas de suas escolhas.
- Pensei que fosse falar de Susan Williams. – retorquiu.
- Ela era suspeita, mas Helena era outro nível. Algumas missões da ARGUS são menos loucas.
- Ele não sabe de Isabel Rochev? – Lyla embarcou na provocação, olhando para Oliver.
- Porra, como pude esquecer. – Diggle balançou a cabeça.
Oliver apenas bebeu mais cerveja, esperando os dois pararem. Às vezes ter amigos era um saco.
Mas para quê ter amigos se eles não vão te sacanear em algum momento?
- Acontece que ultimamente a mulher com quem ele mais tem passado tempo é Felicity. – Diggle não conseguiu se segurar.
Ah Diggle, você não sabe de nada.
- Hum. – Lyla fez intrigada.
A menção da CEO fez Oliver lembrar por que estava ali. Mirou em Diggle um olhar significativo. O outro logo entendeu, a descontração sumiu de sua face e ele grunhiu baixo.
- Então vamos fazer isso agora. – murmurou.
A mulher ficou confusa.
- Tem outro motivo pelo qual vim hoje. – O tom de Oliver mudou para negócios. – Apenas por precaução: desliguem os eletrônicos.
Lyla sabia exatamente o que um pedido desse queria dizer. Ela ficou em silêncio e desligou o celular. Mesmo com a nova segurança, Oliver e Diggle fizeram o mesmo como sinal de boa fé.
- O que diabos está acontecendo? – Lyla ficou de pé e cruzou os braços, a taça de vinho numa das mãos, de onde por vezes bebericava. Olhava firmemente do noivo para o amigo.
- Antes de mais nada, saiba que a informação chegou a mim e fui eu que pedi para John não dizer nada. Eu fui insistente. Não é culpa dele. – Oliver falou calmamente.
A mulher apenas esperou.
- Overlord. O que sabe sobre isso? – Oliver perguntou.
- Ele é um ciberterrorista que está no radar da ARGUS há um tempo. – ela respondeu.
- Isso é tudo?
- Sim.
- Lyla, – Oliver estava seriíssimo. – por favor, preciso saber mais dele.
- Sabe que não é mais um agente, não é, Oliver?
- Não impediu Waller de vir atrás de mim há cerca de um mês. – ele apontou.
Ela ficou um tanto surpresa.
- Por isso você conhece esse nome.
- Você trabalha em algum caso relacionado a ele?
Lyla pausou. Oliver a viu cogitando.
- Teve motivo para escondermos isso de você. Serei totalmente honesto com você, Lyla. Apenas peço o mesmo. Você é uma das mulheres mais centradas e justas que esse mundo já viu. Preciso dela agora. – ele tentou convencê-la.
- Me aliciar não vai ajudá-lo, Oliver.
- Você me conhece há anos. Sabe que não sou um bajulador ou que vivo de conversinha. – ele deu um pequeno sorriso. – Se tem algo que sabe é justamente que eu não falo.
Mais uma pausa. Diggle nem ousou se intrometer. Sua noiva suspirou, e Oliver esperava que fosse um ponto para ele.
- Não, não trabalho e nunca trabalhei com Overlord. – Ele sentiu a sinceridade nas palavras.
- Mas sabe de alguma atividade dele? De como ele quer criar a arma cibernética mais sofisticada de que se tem notícia?
- Isso eu sei.
Agora era hora de entrar na questão crítica.
- Waller acha que Felicity Smoak está aliada a ele. Sim, a mulher que nós protegemos. – adicionou ao ver os lábios dela se partirem de leve. – Por isso ela queria que eu a espionasse. Claro que rejeitei porque, como você mesma apontou, não sou mais um agente. Mas você sabe que Waller não faz nada por um acaso e ela me deixou com a suspeita sobre Felicity. Por isso eu quis investigá-la eu mesmo. Por isso também contei a Diggle no mesmo dia e pedi para ele não lhe contar nada. Queria tirar minhas próprias conclusões.
- Você queria saber se Waller ou Felicity estava mentindo. – Lyla redarguiu.
- Acontece que Felicity é inocente. Ela é, na verdade, uma vítima de tudo isso... Seja lá o que isso seja porque ainda não tenho todo o cenário. É aí que você entra.
- Você quer que eu lhe diga mais sobre Overlord. Por que não fala com a própria Felicity? Pelo visto ela parece ser um gênio do hacking.
- Eu falei. Agora ela sabe do interesse de Waller. Estamos ajudando-a a investigar. Mas Overlord, quem quer que seja, é mestre em encobrir rastros. Felicity está avançando, mas não tão rápido quanto gostaria.
A agente parou para digerir as informações. Ela olhou para Diggle.
- Não acredito que escondeu de mim uma potencial ciberterrorista.
- Eu sei. Começo a pedir desculpas desde já. Mas espero que entenda. – ele falou.
- Eu entendo. – Lyla ofereceu meio a contragosto. – O pior de tudo é que entendo. No lugar de vocês provavelmente faria o mesmo.
Oliver sentiu um pouco de alívio. Confiava no julgamento de Lyla e ali ela estava se mostrando exatamente como pensava e queria. Ela entendia o cinza do mundo como poucos.
Ele também não queria que isso fosse um problema no quase casamento dos amigos.
- Então vocês querem que eu ofereça o que puder de informações a vocês. Informações sigilosas, vale pontuar.
Oliver se preparou para o golpe final.
- Também. Mas queria que nos ajudasse a tirar o interesse de Waller em Felicity. – ele respirou fundo. – Depois da minha rejeição, Waller deixou implícito uma ameaça, que seria implacável com Felicity. Ela realmente acredita que Felicity é terrorista.
- Vocês querem que eu tire uma mulher que não conheço, e portanto não confio, da mira de Waller. Porque parece que ela tá na mira do jeito que está dizendo.
- Você com certeza sabe das notícias, Lyla. – Diggle se pronunciou. – Viu que Felicity já sofreu dois ataques no intervalo de um mês. Alguém quer ela. Seja morta ou viva. E nós não queremos falhar em nosso trabalho.
- Por que a querem? – a mulher perguntou. Ela captou a hesitação de Oliver. – Você falou em honestidade, Oliver.
Mas aquela era uma informação crucial que ninguém mais tinha a não ser os guarda-costas e a CEO. Revelar a Lyla abria chance de Waller saber.
Só que aquele era o motivo de eles chegarem a Lyla, não? A confiança na integridade dela. E no que era certo ao invés de hierarquia.
- O que estou contando não pode sair daqui, Lyla. – frisou.
Algo estalou na mente da mulher.
- Ah, então essa é a questão, não é? Vocês querem que eu esconda informações da minha chefe. Informações nas quais ela está pessoalmente interessada.
Oliver não deu para trás:
- Nós todos sabemos que Waller tem índole questionável. Isso se reflete em suas ações. Você sabe disso, Lyla. Estava comigo em Praga.
Oliver sabia que usar Praga era como usar um punhal afiado e dilacerador. E por isso mesmo deixou como cartada final.
Aliás, o caso foi o estopim para a saída dele da agência.
Lyla engoliu em seco, tomada pelas lembranças.
- Sabemos que Lyla não hesitará em passar por cima de uma mulher inocente para atingir seus objetivos. Mesmo que o objetivo, nesse caso, seja realmente pertinente.
- Deixar os fins justificar os meios é um passo para nos transformarmos nos inimigos que juramos combater. – Diggle afirmou. E foi no momento certo porque dos três ele era o mais vocal em relação à justiça, o mais preto-e-branco, o mais alinhado à dicotomia bem-e-mal.
- Vocês sabem que talvez Amanda tenha me deixado fora do caso Overlord de propósito por causa de vocês. – Lyla apontou cirurgicamente.
- Porque aí você dando uma olhada levantaria a suspeita dela de que te colocamos para dentro do assunto. – Seu noivo completou.
A mesma lógica já tinha passado por Oliver.
- Sorte nossa que Lyla é uma exímia espiã. Sei que vai ser minuciosa.
Lyla suspirou em derrota plena.
- Não acredito que estou concordando com vocês. Verei o que posso fazer para ajudar. – Bebeu mais vinho para aceitar a decisão mais facilmente. Os homens a espelharam com a cerveja.
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes. Diggle virou a cabeça para checar Sara, que agora dormia a sono solto.
- Johnny fala tão bem dela. – Lyla falou de repente. – De Felicity.
- E você sabe que ninguém é melhor julgador de caráter do que Dig. – Oliver voltou ao clima descontraído de antes. A não ser por ele; era o único erro de seu melhor amigo. Diggle apreciava em Oliver coisas que ele sabia não existirem – não via, na verdade.
- Não tem como ser melhor que Yoda. – ela concordou com um sorriso.
Oliver estava certo em confiar nela. Foi uma estratégia muito boa.
- Ela me lembra você, Lyla. – disse Diggle. – Ambas independentes, poderosas e corajosas. Sem gostar o gosto pelo vinho. Iria gostar dela.
Não tinha como não gostar de Felicity, pensou Oliver. Só a diretora da ARGUS mesmo.
O clima de amizade voltou mesmo quando Diggle comentou maroto:
- Acho que não é uma boa hora pra mencionar que eu quero convidar Felicity pro casamento, certo? A gente pode dar a ela o lugar que seria da acompanhante de Oliver.
Calhou de o convite de Walter a Felicity para ir à mansão Queen convergir com a comemoração do aniversário de Oliver.
- Deixa que eu remarco. – ela disse a ele em seu escritório.
- Não precisa.
- Claro que sim! É um dia pra você aproveitar com seus amigos e família.
- Por isso mesmo você tem que ir. – A expressão no rosto de Oliver era tranquila. Ele a fitava com atenção, e ela não conseguia desviar.
Felicity soltou um "Oh" quase inaudível, sem conter a surpresa. Não soube o que responder.
Desde a boate ela se sentia pisando em ovos quando se dirigia a ele. Não que ela a fosse a pessoa mais relaxada e contida do mundo com ele, contudo agora ela hesitava em dizer qualquer coisa, ficava pensando demais em como agia, em como ele agia, as reações, as posturas deles.
Oliver, por outro lado, era o homem sério e gentil de sempre, tão imperturbável que às vezes ela se pegava pensando se o olhar ardente entre eles não foi um delírio induzido pelo álcool. Ele era tão reservado que não simplesmente explicitaria admiração por ela.
Seria uma opção razoável se o corpo dela não tivesse se agitado tão intensamente. Tão intensamente real. Felicity conhecia bem sua excitação.
E então ela se pegava pensando. Havia... atração entre eles? E o que fazer? Felicity não ia arruinar a relação deles, tanto a profissional quanto a amigável, por causa da porra de um momento, por apenas uma possibilidade – ela ainda achava que era apenas possibilidade – de sentir algo por ele.
Não que ela quisesse dormir com Oliver.
Não que ela rejeitasse a ideia. Se porventura surgisse a oportunidade. Sabe, num universo paralelo, numa linha do tempo insana.
Improvável.
Oliver era seu guarda-costas. Quando o perigo sumisse – sabe-se lá como –, ela não precisaria mais de seus serviços e ele desapareceria.
Ignorou a pontada no peito com a perspectiva de simplesmente não tê-lo mais por perto.
Eles já estavam errados em serem amigos. Algo além disso era... era...
Impensável.
Por que cada vez mais apareciam novas complicações em sua vida?
E lá estava ela perdida em pensamentos de novo.
Independentemente do que o futuro reservasse, a verdade era que Oliver e Diggle marcaram sua vida. Era irreversível. Felicity não podia simplesmente passar por cima disso. Já estava perdida.
- Ok. – disse um tanto resignada. – Eu vou. – ela pausou, procurando limpar a mente. – Então eu entrego seu presente no sábado.
Foi a vez dele de ficar surpreso.
- Você me comprou um presente?
- Claro. – ela revirou os olhos. – A gente combinou isso, lembra? – No dia da pizza, ela quase completou. Não precisava se arrastar de volta a sua zona de confusão interna.
- E como é que eu não estava junto?
A confusão dele era simplesmente adorável. Oliver tinha a capacidade única de ser o homem mais letal, sexy e adorável que já conhecera.
- Porque esse é o propósito, duh. E eu comprei online. Também ia te dar de presente mais uma folga na quarta-feira, mas você é teimoso e sei que não vai aceitar.
O Sorriso Quase-Inexistente – sim, agora ela usava letras maiúsculas – apareceu, mas numa nova versão. A boca dele se curvou mais, ela quase via os dentes e... Ai Deus, ele tinha covinhas. Como ela não percebeu antes?
- Quarta vai ser o dia que eu vou te treinar. Não vai me negar essa diversão no meu aniversário. – A voz dele aprofundou apenas um pouco, mas o suficiente para ser sugestiva.
Bom, havia a possibilidade de ela não sobreviver até o sábado.
Para cortar qualquer tipo de relação com Vincent Anders, Felicity o convocou para um almoço. Ela propositalmente escolheu um restaurante com mesas em cubículos reservados. Até não se incomodaria de fazer a reunião em seu escritório, mas ela receou que o acesso dele fosse expor sua empresa de alguma maneira.
Ela não devia estar pegando a paranoia de Oliver.
Pouco depois do meio dia, ela entrou no restaurante com Oliver atrás de si. Anders apareceu poucos minutos depois e sentou na cadeira em frente a ela.
- Srta. Smoak, finalmente pude encontrá-la. Essas últimas semanas têm sido agitadas. Muito obrigado pelo convite. – ele a cumprimentou com um aperto de mão e se sentou.
- Entendo perfeitamente. Já estava mais que na hora de conversarmos de novo. – ela soava normal, como se não soubesse dos negócios escusos dele.
- Esperava fazer isso em particular. – Anders olhou de esguelha para Oliver recostado a uma parede ao lado da mesa, mais próximo a Felicity. Ele estava impenetrável como sempre.
- Meu guarda-costas tem minha permissão para ouvir assuntos relacionados à empresa. – ela disse tranquila, mas firme. – Ele não vai a lugar algum. – Seu tom era final.
O olhar de Anders vagou rapidamente de um para outro. Por um momento, ele pareceu lutar consigo mesmo se insistiria, mas acabou dizendo nada.
E, mesmo se não tivesse permissão, Oliver não sairia do lado de Felicity.
Os executivos conversaram sobre assuntos banais até o meio da refeição.
- Então, Srta. Smoak, como fica nossa proposta? – ele falou após beber um gole de vinho. Ela não o acompanhou na escolha de bebida e preferiu um chá gelado.
Felicity mastigou sem nenhuma pressa antes de se pronunciar.
- Lamento informar que ela se encerra aqui. – ela fez questão de mostrar como parecia desapontada mesmo. Foi fácil com seu carisma. – Receio que esse negócio não esteja alinhado com a estratégia da minha empresa neste exato momento.
A surpresa de Anders pareceu legítima.
- Pensei termos encerrado a primeira reunião na mesma página.
- Pensei o mesmo. Acho que acabei sendo afetada pela euforia do jogo... Sim, eu estava bastante empolgada, mesmo com o que aconteceu depois. – ela mencionou causalmente ao facada, sem nenhum objetivo secundário. Não era como se alguém lá não houvesse sabido o que aconteceu. – Acabei reanalisando na calma do escritório junto com minha equipe e concluímos não levar a parceria à frente.
O Vice-Presidente contra-argumentou e insistiu. O que ela queria dizer era que não iria contaminar sua empresa com dinheiro sujo. Ela acabou ficando um tanto desconfortável. Foi quando Felicity pensou que havia algum outro motivo por trás da proposta. Uma armação para ela? Não importava, a Smoak Tech não se aliaria a Azel Incorporated. E sua intuição dizia que a proposta particularmente também não tinha nada a ver com o vírus ou qualquer um de seus ataques. Pelo menos esse assunto se encerrava hoje.
Uma terceira voz interrompeu Anders:
- Acho que a Srta. Smoak deixou seu ponto claro.
Fazia tanto tempo que ele não a chamava daquele jeito. Ela nunca percebeu como soava quente. Especialmente com a cadência baixa e ressoante, com apenas uma pincelada de rispidez. A sombra de um aviso. Arrepios prazerosos a percorreram.
Oliver era para ter ficado quieto o tempo todo. Mas ele realmente não pôde se segurar, pôde? Seu senso de proteção por ela falou mais alto, ainda mais com a insistência do outro homem. A pose dele – Felicity agora conseguia perceber como ninguém – aparentava tranquilidade e descontração, mas escondia por trás a ameaça; ele estava pronto para entrar em ação a qualquer segundo. Seu olhar era penetrante e clínico. Oliver jamais conseguia disfarçar sua imponência, era quem ele era. Mas ele devia parecer um tanto intimidador sim pois bastou Anders erguer o olhar para ele, um tanto intrigado por que o guarda-costas estava falando pela CEO, para finalmente aceitar a derrota. Felicity só esperava que o VP não ficasse desconfiado da atitude dos dois.
Ao fim, Anders pagou sua parte, se levantou e cumprimentou Felicity cordialmente.
- Hey... Nem tudo está perdido. Pode ser que no futuro surja uma nova oportunidade e melhor ainda para nós dois. – ela sorriu e deu uma piscadela. Anders não conseguiu conter o próprio sorriso.
Felicity continuou sentada depois que o homem foi embora.
- Isso foi bom. – comentou para Oliver, que saiu de seu posto e sentou no assento recém desocupado. – Ele foi bem educado. Se eu já não soubesse... Ele nem parecia um mafioso.
- Tem um motivo para ele não ter sido pego até agora. – Oliver falou.
- E aí? O que você acha? Já podemos eliminar "ameaça da máfia russa" da nossa lista de afazeres? – ela apoiou os cotovelos na mesa e deitou o queixo nas mãos unidas.
Oliver lhe lançou o olhar sério que usava quando ela imprimia brincadeira nas ameaças à sua vida.
- Não. Pelo menos, ainda não. – Ele parecia esconder algo, mas Felicity não pressionou. – Até porque é só questão de tempo até a SCPD pegá-lo, ainda mais depois da dica que deu a Malone. E aí sim vai ser meio difícil eles acharem que você não teve algo a ver.
Ela deitou os braços na mesa.
- Como assim? Eles vêm atrás de mim, tentam me esfaquear e depois vão ficar suspeitando que eu apontei o dedo para um dos preciosos executivos deles? O ataque não deu certo, eles ficaram abertos a vulnerabilidades. A polícia pode ter seus problemas, mas não é incapaz assim de ligar os pontos. Mesmo comigo dando um empurrãozinho.
Oliver apenas balançou a cabeça.
- Vamos? – perguntou referindo-se à empresa.
- Calma aí, ainda não pedi a sobremesa. E você pode aproveitar para almoçar também.
- Óbvio que não. Ainda mais hoje que estou sozinho. Eu peço algo para comer no escritório.
- Besteira. Já estamos num restaurante, e um muito bom por sinal. Já comeu aqui?
Oliver não respondeu.
- Não me faça transformar isso numa ordem. – Ainda silêncio. Ela suspirou. Tão teimoso. – Oliver, nós dois sabemos que você consegue me proteger almoçando. Você pode, sei lá, – ela olhou ao redor e pegou a faca ao lado de seu prato. – estar comendo e usando essa faca e consegue desarmar qualquer ameaça com ela. Nem é uma faca de carne e nem é propriamente balanceada.
- Eu teria achado mais divertido se você não tivesse usado uma faca de exemplo.
- Que seja. – ela revirou os olhos, baixando o talher. Mas não podia negar que Oliver Modo Protetor era atraente.
- Na verdade eu já me safei usando uma faca comum. – ele disse num tom descontraído.
- Quando? – ela franziu o cenho.
- Missão em Barcelona.
Oliver não devia nem sequer respirar qualquer coisa que remetesse a ARGUS, ainda mais num lugar público como aquele, mas confiava na segurança avançada que Felicity pôs nos eletrônicos deles. Sem contar que ela sabia que ele era ex-agente e o que era a ARGUS. Para quê esconder?
Felicity ficou interessada porque Oliver oferecia propositalmente um pedaço de seu passado. Ela o imaginava atirando uma faca a vários metros de distância e acertando o alvo com acurácia.
- É claro que você já fez isso.
O garçom surgiu, e Felicity o chamou e falou empolgadamente:
- Oi! Carl, não é? Enfim, Carl, eu posso ter terminado, mas meu amigo aqui não comeu, então pode trazer o cardápio de novo? Pra mim também, to doida por uma sobremesa. Talvez um tiramisu...
Ele foi embora, e Felicity voltou-se para Oliver, que apenas a fitava, a postura já mais relaxada. Ela devolveu com a mesma firmeza.
- Eu sou a dona da empresa, posso estender meu horário de almoço quando eu quiser. E você, como meu guarda-costas, deve me seguir. E agora eu ordeno que você almoce. – brincou.
- Sim, Srta. Smoak.
Ele a olhava por cima dos olhos, as íris com um brilho diferenciado, um sorriso pequeno, mas provocador, charmoso e devastador no canto dos lábios. Lá estava a voz baixa de novo, e o timbre profundo e grave característico dele soando com um toque rouco, logo acima de um sussurro. Um trovão antes da chuva. A perfeita combinação de calma, respeito, seriedade e provocação. Perturbadoramente sexy. Não conhecia nenhum outro homem com tal capacidade.
Ela perdeu o fôlego por um momento.
Em momentos como esse não tinha como não pensar que havia atração dele por ela.
Felicity só podia esperar manter sua sanidade ao redor de Oliver Queen.
Onze horas separavam Starling City de Moscou.
Eram quase sete horas da manhã, e Oliver estava na sala em frente do computador. O céu já clareara, porém ele deixou as cortinas fechadas; a única luz do apartamento era a do corredor. Queria o mínimo de visibilidade atrás de si.
Conseguir a conversa não foi fácil. Primeiro pela segurança da videoconferência, mas sorte que Oliver conhecia uma expert em computação – e Felicity nem o indagara sobre seus motivos quando ele pediu ajuda a ela. Segundo pelo homem em questão.
Uma missão em Moscou, um quadro de valor inestimável, uma informação errada, uma emboscada, salvamentos e um tempo fora do radar. Foi assim que Oliver conheceu o figurão da Bratva, Anatoly Knyazev.
Na época, ele ainda estava na ARGUS, o que, pelo menos no papel, o colocava como antagonista de Anatoly. Mas operar secretamente significava que a agência operava nas zonas moralmente cinza – ainda mais sob o comando de Waller. E como as atividades da máfia russa eram internas – ou seja, fora da jurisdição da ARGUS, ela fazia vista grossa a certas coisas.
Estranhamente, Oliver e Anatoly se deram bem, criando até mesmo um laço amistoso. O russo dissera que, se Oliver precisasse, estaria ali para ajudá-lo.
- Oliver Queen, meu americano favorito! – Anatoly exclamou assim que atendeu.
Oliver pôs um sorriso educado.
- Anatoly.
- Faz um tempo, não? – o russo ergueu o copo de vodca e fez uma espécie de brinde à câmera. – Servido?
- Acabou de começar a manhã aqui.
O outro homem deu de ombros.
- Prochnost. – saudou.
- Prochnost. – Oliver saudou de volta.
- Então, o que podemos fazer um pelo outro?
Sem rodeios. Sem conversa fiada. Oliver esperava por isso, afinal, aquele era o líder da Bratva. Anatoly já sabia que ele queria algo. Uma partida num jogo para lá de conhecido no tabuleiro que Felicity mencionara.
- Faço algo por você desde que nos conhecemos, Anatoly. – disse calmamente.
- A irmandade sempre apreciou sua discrição. – o chefe falou. – Vamos ver se o que você quer é equivalente suficiente a isso.
- Você com certeza já sabe que as coisas estão meio agitadas pelo submundo de Starling City.
A expressão do mafioso endureceu um pouco.
- Sim, e no que isso afeta você?
- Não me afeta, mas sim alguém com quem trabalho.
Anatoly ficou em silêncio por um momento.
- Sabe que eu sei qual seu trabalho, não, Oliver?
- Não duvido. – Oliver tinha plena consciência de todas essas brechas e possível conflito de interesses antes mesmo de cogitar a ideia de entrar em contato com ele. – Estou apenas curioso com seu interesse em Felicity Smoak.
- Por que se importa com essa mulher?
- Apenas quero fazer meu trabalho. – respondeu sem pestanejar. Ele definitivamente não podia demonstrar que Felicity era mais que uma cliente, mas uma amiga.
Uma amiga com quem tivera um momento caloroso dias atrás e o qual ele não devia estar pensando agora.
- Só quero saber onde ela se encaixa nos seus jogos de poder. Porque eu tenho certeza que ela não deseja se infiltrar neles.
Suspeita surgiu no rosto do homem.
- E você quer que eu acredite apenas em sua palavra?
- Como mencionei antes, você tem acreditado em minhas palavras há alguns anos. Nunca dei motivo algum para desconfiar delas.
- Exceto por hoje.
- Nada disso. – Oliver redarguiu com a tranquilidade de quem fala sobre o tempo. – O que eu quero é que nós dois sigamos nossos caminhos separadamente.
- O que acha que quero com sua cliente, Oliver?
- A morte dela. – ele foi direto e até mesmo casual. – Por um motivo que queria entender.
- Pensei que fosse dizer as habilidades dela. – Uma breve pausa. – E você nem mesmo reagiu. O que significa que sabe do que estou falando.
- Nós dois sabemos que sei coisas além de um homem normal.
- Adoraria as habilidades dela se fossem usadas para meu agrado.
- A Srta. Smoak não tem nenhum interesse a não ser a empresa dela. Sigo a agenda diária dela. Pode ter certeza disso.
Anatoly ponderou em silêncio.
- Que tal uma proposta?
Oliver foi resoluto:
- Não ouvirei proposta alguma enquanto não me contar o motivo, Anatoly. – Sua voz saiu dura como um diamante.
- Não brinque com poderes que não conhece, Oliver.
- Na verdade, – o guarda-costas abriu um pequeno sorriso cínico. – conheço tais poderes. – Ele respirou uma vez antes de continuar. – Tenho plena noção da situação em que estou. Tudo o que trago é a verdade. Esperava receber a mesma cortesia.
Cortesia. Risível. Mas Oliver sabia melhor do que ser mal educado com alguém como aquele homem.
Mais silêncio. O ar entre os dois se tornou um pouco afiado. Oliver achou que perderia a partida até que seu colega voltou a falar.
- Saiba que o que está acontecendo na sua cidade surgiu aí. Não dei a ordem para cortar a garganta da sua preciosa cliente. – Graças aos anos se endurecendo, se fechando e trancando emoções e sentimentos que Oliver conseguiu manter-se impassível ao ouvir aquela coisa horrenda. Seu autocontrole era invejável. – Nem sabia quem ela era, aliás, até meu Capitão entrar em contato comigo. Concordei com ele pela gravidade da situação.
O russo de repente parou. O guarda-costas esperou, embora sua paciência se esvaísse a cada segundo. Tão perto, mas tão longe.
- Continue. – disse. – Ainda não estamos no mesmo nível para fazer negócio.
- É o máximo que contarei. Ou você ouve minha proposta ou encerramos por aqui. – As palavras deixavam implícito o perigo. Oliver sentiu que encerrar não se referiria apenas à conversa quanto à relação dos dois.
O estrategista em si entrou em ação. Uma proposta com Anatoly seria o mesmo que fazer acordo com o diabo. Mas até agora essa era a única pista concreta de descobrir por que – ou um dos por quês – Felicity era um alvo. Talvez fosse um jeito de garantir a segurança dela.
E foi naquele instante que Oliver percebeu que faria qualquer negócio sujo para protegê-la.
- Diga.
A expressão de Anatoly suavizou. Não escondeu o triunfo.
- Gostaria de conhecer a Srta. Smoak. – Oliver ficou tenso no mesmo instante. – E se ela fizer um trabalho para mim, tiro a ordem para eliminá-la.
Absolutamente não, Oliver teve que se segurar para não rugir. Que qualquer custo caísse sobre ele, não ela. Não Felicity, que fez nada para merecer a reviravolta em sua vida nos últimos dois meses.
Porém agora ele não tinha opção.
- Antes de eu responder, conte por que ela é um ameaça para você.
A seu mérito, Anatoly nem prontamente revelou:
- Soube que a Srta. Smoak é capaz de virtualmente revelar as verdadeiras identidades de todos os meus irmãos.
Oliver suspeitou que o vírus tivesse algo a ver, mas ter a confirmação foi ainda impactante. Felicity tinha o poder para expor organizações criminosas. Havia tantos desdobramentos sobre isso...
Ele também logo imaginou que o "trabalho" de Anatoly para Felicity era ela cometer algum crime para limpar alguma sujeira da Bratva.
E, acima de tudo, ele não queria Felicity respirando o mesmo ar que o russo. Não a queria nem mesmo a cem metros dele.
Merda.
- Levarei a proposta a ela. Respondo em até uma semana. – Oliver falou diplomaticamente.
- Estou num dos raros momentos em que me sinto generoso. Farei o seguinte: estenderei esse prazo para dez dias. Até lá, se meus associados fizerem algo a Srta. Smoak... Bem, azar. – Anatoly abriu um sorriso frio e debochado.
- Do svidaniya, Pakhan. – Oliver disse.
- Do svidaniya, Oliver.
Oliver ainda ficou um tempo sentado no sofá repassando a conversa.
A Bratva estava atrás de Felicity por causa do vírus. Num estalo, Oliver se lembrou da animosidade emergente entre facções criminosas de Starling. Ele aproveitou o computador ligado e deu uma breve pesquisada. As máfias, incluindo as russas, estavam indo uma atrás da outra, porém o motivo nunca ficara claro...
Até agora.
De algum modo, os criminosos souberam do vírus, acharam que cada adversário era responsável, brigaram por informações até que descobriram quem tinha o poder de verdade. Felicity.
O caso ficou ainda maior – mais complexo e mais perigoso.
Além disso, ainda havia a ARGUS e Overlord. A agência podia não saber do vírus, mas sabia de Overlord.
No fim, tudo voltava àquele nome. Homem? Mulher? Instituição? Tamanha obscuridade atrás de uma palavra... Entidade acabava se tornando mais correto. Overlord era a origem de tudo. Seria quem – ou o quê – que movia as peças do tabuleiro?
Como os criminosos sabiam sobre Felicity? Fora Overlord que vazara a informação sobre ela para o crime organizado? Se ele a queria pelo algoritmo, por que fazer isso?
E se a ARGUS a queria para chegar ao terrorista, será que a ajudariam? Quando a CEO, na verdade, era apenas uma vítima? Oliver precisava da ajuda de Lyla mais que nunca.
Quanto mais perguntas eram respondidas, mais surgiam.
Oliver definitivamente não devia ter substituído a folga do fim de semana por aquele dia. Por um milagre, conseguiu dormir ainda mais algumas horas naquela manhã. Curiosamente, ouviu a voz de Felicity em sua mente num tom de brincadeira lhe dizendo que não queria um guarda-costas zumbi. Mas depois passou o tempo todo analisando as novas informações. Pensou até mesmo em falar com Diggle, mas não o distrairia do trabalho, mesmo que fosse para contar algo para ajudá-lo no trabalho. Apenas conseguiu distrair o cérebro quando saiu para correr e depois foi à academia. Só que ele não aguentou e lá por volta das seis horas da noite acabou ligando para Felicity.
- Hey, Felicity.
- Oi! – A voz dela veio mais agitada e alta que o normal. Havia um barulho de fundo que dificultava ouvir. Shopping? Restaurante? Bar? Oliver achou estranho. Pela hora ela devia estar voltando da aula de ioga.
- Achei que dava para falar agora, mas não dá.
- Não, claro que dá! Dá sim!
- Quem é? – Uma nova voz surgiu distante. Masculina. Não era nem Diggle nem Rob.
Oliver automaticamente pensou num encontro. Foi tomado por... estranheza.
Por quê?
- É só o Oliver. – Felicity se afastou do celular para responder.
- Onde você tá? Mal consigo te ouvir. – Oliver disse.
- Ah, estou num lounge bar.
A sensação o preencheu, tomou seu peito. Era desconfortável.
- Não acredito que vai me deixar falando sozinho. – o homem disse num tom baixo e provocante.
- Rapidinho. – Felicity disse para seu acompanhante com sua voz doce. – Eu falo com ele. Você nem vai sentir minha falta.
- Eu já sinto.
Ela abafou uma risada.
- Na verdade, não é tão rápido assim. Deixa. – Oliver não sabia explicar por que queria desligar logo.
- Fala que você tá num encontro!
Oliver engoliu em seco. Parecia um calombo descendo, rasgando sua garganta. Felicity teve a audácia de gargalhar. Um som leve e agradável que dessa vez ele não conseguiu apreciar.
- Palhaço. – Ele a imaginou revirando os olhos só pelo tom dela. – Você sabe que isso não é um encontro, Tommy.
Tommy? O nome ecoou dentro da mente de Oliver. Frações de segundo depois percebeu que falara em voz alta.
- Sim, Tommy. Você conhece o Tommy.
Claro que ele conhecia. A voz do homem de repente se tornou familiar. Seu melhor amigo. Ele respirou fundo. O motivo da ligação estava quase esquecido.
- Oi, Ollie! – o dono da boate o cumprimentou.
- Olá, Tommy. – ele devolveu sem muita empolgação.
- Ignore ele. – Felicity voltou ao celular. – Então. Sou toda ouvidos. Aproveite por que tem alguém querendo me deixar doida numa terça-feira. – ela soou meio longe mais uma vez. Felicity e Tommy com certeza já viram uma gota de algum álcool. – Mas não vai acontecer. Você já viu como eu fico bêbada.
Ah, sim. Ótima hora para relembrar o fim de semana na Verdant.
- É uma conversa que definitivamente precisa de um nível de sobriedade. – ele imprimiu descontração nas palavras.
- Ah, agora eu to curiosa!
Ele não conseguiu conter o sorriso.
- Não precisa, Felicity. Sério. A gente se fala depois, é melhor. Aproveita sua noite.
- Ooookay. Boa noite!
Ele desligou, mas ficou encarando o celular. Por que Tommy estava num... não encontro com Felicity? Quando foi que os dois se tornaram tão amigos? Ou talvez... algo mais?
Ele não sabia por que estava tão surpreso. E tão incomodado.
NA: Tenha milhares de ideias para um capítulo e no final saia com três. (a fic só aumenta, socorro)
Essa sou eu. E por isso demorei, nem foi tanto pela monografia como eu esperava.
Olhem que tá de volta!
Esse capítulo na verdade era metade de um. Achei melhor postar separadamente porque o clima é bem diferente do que vem a seguir. Esse serviu mais para movimentar o enredo, como bem viram. A partir de agora vamos começar a explorar a história do Oliver. Tava doida pra isso desde que comecei a primeira frase da fic ;)
PRÓXIMO CAPÍTULO: aniversário do Oliver. Muito muito Olicity. Praticamente só Olicity.
(Até agora tenho 6000 palavras e contando, socorro)
Beijos e até a próxima!
