No dia dezesseis de maio, Felicity entrou empolgada e sorridente no carro.

- Hoje é um dia especial! Cadê o aniversariante?

Oliver estava como motorista da vez, e ela, de tanta animação, quase se jogou contra o banco para abraçá-lo ou beijá-lo na bochecha. Conteve-se no último segundo. Havia pouco tempo que notara que ele não ficava confortável com toques. Provavelmente mais uma manifestação do trauma dele.

- Feliz aniversário, Oliver! – exclamou ao pé do ouvido dele. Estava inclinada contra ele, a cabeça quase sobre o encosto do banco. – Te desejo tudo do mais incrível!

Ele abriu um sorriso.

- Obrigado, Felicity.

O dia foi tranquilo. Felicity fez uma pequena surpresa. Pediu a um de seus restaurantes favoritos uma versão pequena de sua sobremesa favorita, cheesecake de mirtilo, que ela trouxe do almoço. Uma vantagem de ser quem era. Eles ainda colocaram uma pequena vela.

- Felicity, você realmente não precisava. – Ela percebeu que ele ficou desconfortável, mas anda sim comovido.

Ela deu de ombros.

- Eu sei, mas eu quis. Aniversários merecem ser celebrados devidamente. Ainda mais que você disse que não vai fazer nada especial hoje.

- Porque a celebração oficial é sábado.

- Celebrar nunca é demais. E outra coisa. Esse é o melhor cheesecake que você vai comer na vida. Ele é todo feito de mirtilo, até a crosta. Não é excessivamente doce, eu sei que você não curte açúcar, tem o gosto da fruta mesmo.

- Tudo o que eu sei é que vou comer. – Diggle se pronunciou.

- Anda logo, apaga a vela e corta isso.

Oliver cortou o cheesecake e pegou um pedaço. Era delicioso. Ele não lembrava a última vez que parar para apreciar verdadeiramente o gosto de algo.

- Você gostou! Tá na sua cara! – Felicity exclamou.

- É, você estava certa.

- Oh. – ela fez, não escondendo a surpresa. – Bom, não doeu admitir, viu. Eu devia até estar gravando isso.

- Obrigado, Felicity. – ele disse num tom profundo que o fazia soar como se estivesse agradecendo além da sobremesa.

Ela estampava um enorme sorriso brilhante, que a deixava ainda mais iluminada e incrivelmente mais bonita. O tipo de sorriso que despertava um impulso nele ao qual não conseguia resistir e o fazia sorrir também.


Oliver sentiu o celular vibrar no bolso mais uma vez. Já estava ficando irritado.

- Por que a cara amarrada? – disse Felicity erguendo o olhar do computador. – É seu aniversário. Ou será que é por causa disso? Que você tá ficando velho?

Ele não respondeu à provocação, apenas pegou o aparelho do bolso e o mostrou para ela. Coincidentemente a tela acendeu de novo com uma nova notificação.

- Ah, são os parabéns chegando. É natural. Não sei por que está assim.

- Estou no trabalho. – Oliver resmungou. – É irritante. E distrai.

Felicity se segurou para não revirar os olhos. Que exagerado.

- É só por um dia.

Ele passou o olhar pela tela antes de guardar.

- E minha irmã é responsável por boa parte das notificações. – falou.

Thea Queen [13:52]: Oi aniversariante! Acabei com a faculdade por hoje. Tbm não vou pro trabalho. Ainda to na cidade. Tem algum intervalo? Vamos sair pra tomar um café!

Thea Queen [13:58]: Ollie?

Thea Queen [13:59]: Não acredito q vc ta me ignorando

Thea Queen [14:05]: OLIVER!

Thea Queen [14:16]: Qual é, Ollie. Quero te ver hoje, no seu aniversário. Já q vc não vai sair pra comemorar mesmo. Ridículo! Não sei como Tommy permitiu isso.

Oliver Queen [14:32]: Thea, estou no trabalho. Não posso ficar conversando.

- Não tem como silenciar todas as mensagens de uma vez? Se esse negócio parar de vibrar, eu já fico agradecido. – ele falou para a CEO.

Felicity apenas o encarou.

- Me dá isso aqui. – ela suspirou. – Antes que você me deixe doida. – murmurou quase sem som.

No exato momento que ela pegou o aparelho, uma nova mensagem surgiu e ela não conseguiu deixar de ler.

Thea Queen [14:55]: Você não tem intervalo não? Pede pra Felicity, ela parece ser legal. E é seu aniversário! Pode usar essa carta. Só quero te ver.

- Pedir pra mim o quê? – Felicity ergueu o olhar para ele.

Oliver leu a mensagem antes de responder:

- Ela quer que eu vá tomar um café com ela. Pelo meu aniversário.

O rosto da mulher se acendeu.

- Aw, que amor! E por que você não vai? Com certeza pode sair por uma meia, uma hora sem problemas. Dig está comigo. – ela inclinou a cabeça para ver o outro homem lá na entrada.

- Felicity, eu não vou abandonar meu posto para um momento de descontração pessoal.

Dessa vez, ela não conseguiu se conter e revirou os olhos.

- E eu te falei: é só por hoje.

- É só mais um dia. – ele rebateu.

- É um dia especial. – ela pausou por um segundo. – Sério, o que você tem contra aniversários?

- Nada. Só não quero nada interferindo nas minhas atividades. – Oliver deu de ombros.

Felicity respirou fundo.

- Oliver, você é um exímio profissional. Não tem como um mosquito entrar aqui sem que você saiba. Pode muito bem tirar um tempinho pra tomar um ar e falar com a sua irmã, que provavelmente você quase não vê e que deve estar doida de saudade e pra dar um abraço no irmão aniversariante.

- Admiro sua paciência, Felicity. Enfiar razão nessa cabeça dura não é para qualquer um. – Diggle disse. Seu parceiro o ignorou.

Ela tentou outra estratégia:

- Eu tenho um novo produto para lançar, e estava trabalhando nele até você me vir com essa. Então eu adoraria que você parasse de ser teimoso e saísse daqui logo. – Felicity deitou um dos braços sobre a mesa e afiou ainda mais o olhar que lançava a Oliver. – E nós dois sabemos o que vou fazer se você continuar assim.

Guarda-costas e CEO se encararam por alguns segundos, quase como numa batalha silenciosa. Oliver suspirou, como se derrotado, e pegou o celular de volta da mesa dela.

Oliver Queen [15:00]: Onde você quer que eu a encontre?

A resposta da irmã não demorou.

Thea Queen [15:01]: YAAAAAAAAAAAAAY =D

Thea Queen [15:01]: Chego em quinze minutos naquela cafeteria chique Grão Café. Sei q fica aí pertinho

Thea Queen [15:01]: Menos até

Poucos minutos antes da hora marcada, Oliver se levantou da poltrona e ajeitou o blazer.

- Volto em meia hora então.

- Se ficar cronometrando que nem um maníaco, você vai se ver comigo! É pra relaxar! Não tem problema se atrasar. – Felicity disse enquanto ele ia para a porta. Diggle abafou uma risada.

Ao sair, Oliver não pôde deixar de achar que estava fazendo isso mais por Felicity do que por ele mesmo ou Thea.

A irmã acabou chegando mais cedo que o previsto. Ela vinha em sua direção assim que parou em frente à entrada da cafeteria. Thea abriu um sorriso empolgado ao vê-lo, e Oliver nem parecia que ficara irritado. Ela o engolfou num abraço apertado.

- Parabéeeeens! Só desejo felicidade pra você, é tudo o que você merece. Te amo, te amo, te amo. – ela disse.

Ele não pôde deixar de sorrir e retribuir.

- Obrigado, Thea. Também te amo demais.

Eles entraram, sentaram e fizeram os pedidos.

- Então, o que te fez mudar de ideia? – Thea perguntou.

- Felicity insistiu. Na verdade, ela tava quase me mandando vir.

- Ela parece uma mulher legal.

Por algum motivo, Oliver ficou tentando a dizer que ela iria à mansão no sábado. Por algum outro motivo, não disse.

- Ela é uma ótima chefe. – falou, curvando os lábios em seu sorriso característico. Pelo menos, característico a Felicity.

- Quis vir aqui porque tem uns cafés bem diferentes e muito, muito saborosos. Vim só uma vez e tava doida pra vir de novo. – a irmã falou.

- Não conhecia esse lugar. E olha que Felicity ama em café.

- Pode dizer a ela agora.

Thea notou o jeito que ele falava da CEO. Ela ficou o observando.

- O que foi? – Oliver perguntou quando um leve desconforto começou a subir.

- Nada. É só que acho que essa é a primeira vez que te vejo no trabalho.

- Não, não é.

- Tá, pode ser. Mas é a primeira vez que você parece... – a irmã inclinou a cabeça para o lado num gesto que lembrava um pássaro. – Calmo?

- Hoje tá sendo um dia de trabalho calmo. – Oliver falou. – Os últimos também foram. Devo dizer que não é sempre assim.

Mesmo assim, não era isso, pensou Thea. Oliver parecia mais relaxado. Como se não carregasse mais tanto o peso do mundo nos ombros. Era uma mudança não de um só dia.

- Parece que você tá contente.

- Eu gosto do meu trabalho.

- Não, quero dizer com esse trabalho específico.

Oliver franziu a testa um tanto confuso.

- Eu gosto de trabalhar para Felicity.

E era verdade. Mesmo com a relação incomum entre os dois, que extrapolava o profissional, ele achava que Felicity era provavelmente o cliente mais tranquilo com quem trabalhara.

Ela era divertida, sagaz e empática. Ele era fechado e afastava as pessoas, e Felicity via isso, mas o respeitava. Era algo que o deixava curioso, e talvez por isso sua fachada por vezes ruísse quando estava com ela. Ele se sentia confortável na presença dela, relaxado até. Ela lhe dava espaço para ser ele mesmo, luz e escuridão, mesmo que ainda passasse todo o momento contendo seus demônios – e de forma estranhamente mais fácil –, e ela não o considerava inferior embora fosse quebrado.

Sem contar algumas peculiaridades que o entretinham. A tagarelice dela. A mania de usar caneta vermelha. O amor por sorvete de menta com chocolate. As referências geek que ele quase nunca captava. Os batons. Todo dia um batom diferente, colorido e chamativo. Marcante e vívido. Era tão... Felicity. Por vezes, enquanto ia trabalhar, Oliver se pegava pensando qual cor ela usaria. Algo a esperar na rotina. E eles tinham uma ótima rotina. Os dias não pareciam se arrastar ao lado dela.

Os cafés chegaram. Oliver mal sabia com certeza o que pedira, algo filtrado ou torrado de modo diferente, mas era maravilhoso, o gosto do café forte e marcante. Felicity com certeza tinha que conhecer aquele lugar.

Thea pediu quiche para os dois. Eles conversaram durante um bom tempo. Depois de se satisfazerem e saírem, Oliver se surpreendeu com a irmã querendo ainda sorvete. Por acaso, havia uma sorveteria bem perto, e ela o arrastou até lá. Ele acabou escolhendo um gelato de frutas vermelhas porque era o que parecia com menos açúcar artificial. Entre a irmã e Felicity, ele estava tendo uma overdose – ou, na verdade, a quantidade normal e não saudável de açúcar que as pessoas usualmente ingeriam. Oliver não resistiu e tirou uma foto do gelato e mandou para a Felicity com a legenda "Olha como eu não to sendo um maníaco".

Eles se sentaram numa das mesas ao ar livre. Era um dia de primavera agradável. Thea parecia uma criança com suas bolas de chocolate e avelã, limão e morango.

- Isso é muito, muito bom. – ela disse após engolir.

Oliver concordou. Era um gelato delicioso. Seu celular apitou.

Felicity Smoak [15:47]: AI QUE INVEJA!

Felicity Smoak [15:47]: Quero

Felicity Smoak [15:47]: E bom ver q vc ta aproveitando

Felicity Smoak [15:47]: Agora não me mande mais nada se for pra me deixar com água na boca

Ele sorriu para o aparelho. Thea percebeu.


Felicity resolveu vestir as novas luvas de boxe, que vinha usando desde a semana passada com Diggle. Ele a ensinara variações interessantes de chutes e socos, e ela nunca batera tanto num saco de pancada. O negócio era duro. Ele também não estava ali porque recebera uma ligação de que Sara estava meio mal e foi direto para casa da Smoak Tech.

O que significava que só havia ela e Oliver sozinhos.

Ela não sabia o que esperar da primeira sessão de treino com ele. Oliver usava uma camisa preta, e ela agradeceu. Ter que ficar próximo dele seminu? Não iria dar certo. Se bem que a camisa não fazia nenhum favor em esconder tudo o que havia por trás.

- Então... – ela falou. Não gostava de silêncios desconfortáveis. Mesmo que o desconforto viesse mais dela que outra coisa.

- Vamos revisar as primeiras coisa que Dig te ensinou. – Ela rapidamente se encaminhou para o saco. – Não. Os movimentos para desarmar das primeiras aulas. – Felicity parou e voltou a ficar na frente dele. – Aliás, pode tirar as luvas. Hoje não vai ter boxe.

Ela se sentiu ligeiramente chateada porque estava começando a gostar da atividade. Oliver notou o bico dela e abafou uma risada.

- É só por hoje.

Ela largou as luvas próximo à bolsa na parede e voltou ao centro do tatame.

- Não se contenha. Pode me bater à vontade. – ele disse com um sorriso cativante. Somado aos braços cruzados, que evidenciavam os músculos dele, Felicity perdeu o fio da meada por um segundo.

Ela demonstrou os movimentos habilmente. Foram pouquíssimas as correções que Oliver fez.

- Praticamente perfeita, Felicity.

O suave elogio provocou um agito no peito dela.

Oliver começou a explicar o primeiro movimento novo. Um ataque bem comum era alguém tentar um estrangulamento. Felicity achou adorável como ele abraçava a pose de professor e explicava minuciosamente.

- Vou simular um agora. Vou agarrar seu pescoço, ok? E vai ser um pouquinho forte. Pisca os olhos duas vezes rápido se você se sentir muito desconfortável.

Ele deu dois passos na direção dela. Os olhos dele estavam fixos nos dela, brilhantes e cheios de cautela, não dando trégua para ela desviar – não que ela quisesse desviar. Ele era tão mais alto que ela, e seu porte imponente tinha tudo para intimidá-la, para repeli-la, só que o efeito era exatamente o contrário. Ela inspirou com profundidade, e o olhar dele baixou rapidamente para o peito dela. A camiseta e o top revelavam apenas um suave decote. Não soube dizer se ele interpretou o gesto como atração ou nervosismo. Mas bastou para que ela sentisse o calor subir. Ele voltou a olhá-la e Felicity pôs-se a interpretar o que havia ali. Nenhum ardor da semana passada.

Pelo menos, ele não deixou claro.

Oliver agarrou o pescoço dela como dissera. A pele dele era uma mistura de maciez e aspereza e calor.

- Agora, o que você faria nessa situação.

Ela empurrou para longe as reações e se focou no presente.

- Pode falar ou fazer.

- Eu iria... – Felicity agarrou os pulsos dele e tentou afastá-los para abrir a pegada. Ele nem estava estrangulando-a de verdade e a força dele era absurda.

- Aí que tá. Você tá entrando numa competição de força com o seu atacante. Nunca vai dar certo.

Ele a soltou e pediu para ela agarrá-lo.

- É só isso de força que você tem? – ele a provocou, e o tom baixo somado à pequena risada rouca dele reverberaram pelo corpo dela. Ela o apertou com tudo o que tinha. Sentia o pulso ritmado e normalizado dele sob seus dedos contrastando com o dela parcialmente desregulado.

- Agora eis o que você tem que fazer.

Ele simplesmente saiu do aperto dela mergulhando pelo braço dela. Quê? Oliver prontamente explicou ao ver a confusão dela. Ensinou como ela deveria dar um passo para trás com uma perna e firmar sua pose, criando uma base para suportar o corpo inteiro e usá-lo para mover a cabeça para baixo e se libertar.

- Assim você só briga com os polegares, o elo mais fraco do aperto. – ele piscou e sorriu.

Certo. Felicity realmente não sobreviveria até o sábado.

Eles tornaram a inverter, e Oliver fez Felicity repetir o movimento incessantemente. Até quando ela o dominou ele a fez continuar. Ela nem se deu ao trabalho de contar. O pescoço dela devia estar marcado pelas digitais dele.

Novos movimentos se seguiram, e Felicity começou a mudar de ideia sobre sobreviver ao treino.

- Agora vamos até a parede. – ele disse.

Ela caminhou até lá e se virou, sobressaltando-se de leve por ele ter vindo junto e estar próximo a ela.

- Contra a parede. – O timbre dele profundo ressoava.

Havia coisas a fazer contra a parede que Felicity se viu, um tanto afetada e aérea, não negando com Oliver.

Ela apoiou as costas e o resto do corpo na parede. O olhar de Oliver desceu sobre ela por alguns segundos e quando o depositou sobre si, ela percebeu de novo a ausência do fervor.

Mas também não parecia um olhar puramente clínico.

Felicity detestava não conseguir lê-lo como queria.

- O que você faria numa situação dessas?

Antes que Felicity pudesse responder, Oliver cruzou o espaço entre eles e invadiu seu espaço pessoal como nunca antes. Ele colocou uma mão contra a parede, ao lado da cabeça dela e inclinou a cabeça, o olhar ainda prendendo o dela.

Os batimentos dela degringolaram. Ela espalmou as próprias mãos na parede para suporte. Via-se incapaz de quebrar o contato visual. Sabia que aquilo era uma simulação, devia ser uma simulação, mas a intensidade daqueles azuis estava num nível tão absurdamente alto que ela não era louca de imaginar haver algum fundo de verdade...

O ar estalava com energia. A tensão era pesada.

Foque-se, Felicity se ordenou. É um cenário, um jogo.

Ela entrou no jogo.

- Você é um daqueles babacas que ficam intimidando as meninas como forma de sedução? – Pontos para ela por não deixar a voz trêmula, embora algumas regiões de seu corpo por vezes vibrassem.

Oliver não respondeu, mas seus lábios se curvaram num sorriso absurdamente charmoso e provocante. Ele a desarmou de novo por um instante.

Ele mandava sinais incoerentes e ela não sabia como interpretar tudo.

- Você já teve que fazer isso alguma vez? – ela franziu o cenho, curiosa de verdade.

Os olhos de Oliver se retraíram, a expressão endureceu, e Felicity teve a confirmação de que ele estava fingindo.

Um lado dela ficou desapontado.

- Infelizmente, sim. Eu era um babaca. – respondeu sincero. – Teria sido bom para mim se alguma garota tivesse me batido assim antes. Então, Felicity, – A voz dele caiu para o costumeiro tom suave. – o que você faria agora?

Ela ainda estava no jogo e não se conteve.

- Talvez nada. Talvez eu goste de estar numa posição como essa dependendo do cara. – Ela baixou a própria voz para um sussurro convidativo, um tom de flerte. Inclinou a própria cabeça, aproximando-se dele, o olhar dela traçando um caminho entre os olhos dele e a boca.

Os olhos dele se arregalaram minimamente, algo gigantesco para alguém tão estoico como Oliver. Ela sorriu devassa, mordiscando o lábio inferior propositalmente exagerada, e ele acompanhou com atenção. Os próprios lábios dele se partiram de leve. Foi a vez dele de inspirar com dificuldade.

Mais um segundo, mais um deslize da parte dela. Os narizes quase resvalavam. Eles estavam muito perto. Felicity honestamente achou que fossem...

Agora não havia dúvida do que havia nos olhos dele. Oliver não a olhava como se fosse se afastar, mas sim como se estivesse... interessado. Ele parecia desarmado.

Uma onda de satisfação atingiu Felicity, e ela agiu. Ergueu e pressionou o indicador na depressão no pescoço dele para dentro e para baixo. Esticou o braço, afastando o corpo dele do dela – os olhos dele demonstravam espanto agora –, depois o segurou pelos ombros, desferiu uma joelhada no plexo solar e se afastou. Veloz e precisa. Exatamente como aprendera.

- Eu faria isso. – Ela deu curtos socos no ar, animada.

Oliver dobrou o corpo por um momento. Whoa, ela realmente o pegara de surpresa. Ela o vencera. Guardou a vitória com zelo porque não imaginava outro momento em que desarmaria completamente o letal Oliver Queen.

Ele abafou uma risada, ficou ereto e respirou fundo, colocando as mãos na cintura.

- Não posso negar que essa doeu por um instante. – ele disse, o meio sorriso ainda presente. – Muito bom, Felicity. – ele soava orgulhoso de verdade. Ela também estava orgulhosa de si. – Fingir que está seduzindo seu atacante para depois atacá-lo é ousado, mas não o melhor dos planos.

- Espera. Você acha que eu estava seduzindo? – ela falou pôs a mão no peito dramaticamente. – Da onde é que você tirou isso?

Ele apenas cruzou os braços e ergueu uma das sobrancelhas em resposta.

Na verdade, apenas parte era atuação. Tipo, uma parte minúscula mesmo.

E se ela não tivesse se segurado aos últimos fios de seriedade, provavelmente...

- Não era isso que eu queria te mostrar, aliás. – ele falou.

- Ah, é? Você tem mais movimentos para me mostrar?

Felicity apreciou como dessa era Oliver quem parecia duvidoso. Cogitava se o que ela estava dizendo era parte da simulação, verdade ou só mais uma provocação leviana. Ele se recuperou infinitamente mais rápido que ela. Com o Sorriso Quase-Inexistente, estendeu um dedo e o agitou, chamando-a na direção dele.

- Eu mal comecei a mostrar o que sei fazer. – devolveu no mesmo tom que ela, e Felicity se arrepiou em resposta.

Talvez pela atmosfera descontraída, talvez pelo fato de o trabalho todo deles se pautar em simulações... Os dois estavam jogando um jogo que parecia misturar farsa e realidade. Havia um alto potencial para o perigo. Cada traço de verdade se transformava em combustível – que a qualquer momento poderia entrar em chamas.


Oliver contou a Diggle sobre a proposta de Anatoly quando ela estava na aula de ioga. Diggle sabia que algumas conexões de Oliver eram suspeitas, mas mesmo assim não conseguia deixar de se sentir esquisito quando ouvia sobre elas.

- Então Knyazev quer chantagear Felicity? – Diggle recapitulou de forma grosseira. Oliver olhou ao redor para ver se alguém ouvira, mas o corredor estava vazio. Os dois já estavam afastados um pouco da porta da sala onde ela estava por precaução e falavam baixo, mas mesmo cuidado nunca era demais. – E você vai deixar?

Oliver controlou a respiração para impedir a irritação de subir. Ninguém sabia como ele detestava não ter o controle melhor do que seu parceiro.

- Eu não estou deixando nada. – ele retorquiu um tanto ríspido. – Não é como se eu quisesse isso. Estou lidando com a situação do jeito que posso. Só estou procurando um modo de mantê-la segura. E você fala como se eu tivesse feito o pacto.

- De certa forma fez.

Oliver apertou os lábios numa linha fina e estreitou os olhos.

- O que to dizendo, e você tá esquecendo, é que a escolha é de Felicity.

- Nós dois sabemos que é apenas uma ilusão de escolha.

Ele não disse nada. Concordava com Diggle.

- Por sorte, Felicity é habilidosa o suficiente para fazer sabe-se lá o que ele quiser e não levantar suspeita. – ponderou.

- Tem ideia de como esse... encontro vai acontecer? – Diggle perguntou.

- Não aqui em Starling, tenho quase certeza. Anatoly vai ser cuidadoso. Só espero que onde quer que seja, a empresa tenha negócios lá. Pelo menos para justificar uma viagem e nós termos uma fachada sólida.

- Nós? – Diggle respondeu, depois suspirou. – Por que não estou surpreso?

- Preciso de você lá, Dig.

- E você sabe disso desde terça e até agora não falou com ela?

- Falar como? O líder de uma das maiores organizações criminosas do mundo quer que você faça um trabalho para ele em troca da retirada da sua sentença de morte? – Oliver falou asperamente. – O que, não existem cartões para isso? – ironizou.

Diggle apenas o fitou. A verdade era que Oliver não queria estragar seu aniversário com sequer pensar nesse acordo. E ele realmente não sabia como começar a conversa.

- Não é legal ficar escondendo segredo dela. – seu melhor amigo apontou. – Ainda mais isso.

Agora ele ficou irritado.

- E não estou escondendo. – De fato nunca tivera essa pretensão. – Estou analisando as implicações disso e pensando numa estratégia para o encontro.

Porém, era facilmente argumentável que Oliver omitia a informação de Felicity pelo simples fato de querer protegê-la. Sabia que não poderia fazer para sempre, afinal, a CEO era chave da questão, mas havia um lado dele que queria poupá-la completamente do choque – e, por que não, do horror – de saber que o Pakhan da Bratva estava pessoalmente interessado nela. De mantê-la no escuro.

- Conte a ela até amanhã ou eu contarei. – Diggle falou, conhecendo bem as intenções do amigo.

- Não respondo a ultimatos, John. – Oliver rugiu.

A esse ele inevitavelmente respondeu. Tanto porque sabia que Diggle estava certo. Ele estava quase sempre certo, mas Oliver nunca admitiria. Imaginou o que Felicity falaria e o que sentiria se ele demorasse uma semana para comunicar algo tão importante a ela. No dia seguinte, após ela ter uma pausa em seus compromissos, ele abordou o assunto no escritório.

- Hey, Felicity. – ele se aproximou da mesa dela. – Lembra quando eu te falei para obter apenas a confirmação de que Anders é corrupto?

- Sim. Você me aconselhou a não fazer mais nada. – ela desviou o olhar de uma das telas do computador. – O que significa que você faria algo. Você fez e agora vai me contar.

Oliver não se cansava de admirar a perspicácia dela.

- Eu entrei em contato com um contato meu, Anatoly Knyazev... que é ninguém menos que o chefe da Bratva.

Felicity ficou espantada.

- Você conhece o líder da máfia russa? – disse em seu ritmo tão rápido que Oliver só entendeu porque se acostumou à falação dela. – Como? Por quê? Na verdade, não me interessa. E na verdade nem to tão surpresa assim. – ela respirou fundo para se recuperar. – E se você e ele são tão amiguinhos, por que a organização dele quer me pegar?

- Eu realmente não queria envolvê-lo nisso. Mas a gente estava tão no escuro que tive que arriscar.

- Foi por isso que me pediu ajuda para mascarar a origem de um sinal de videoconferência. – ela apontou. Oliver confirmou com um aceno.

- Eu conversei com ele, e ele me disse que não sabia quem você era até um dos subordinados dele daqui entrar em contato. E, assim como o hacker, eles estão atrás de você por causa do algoritmo que você criou. – Oliver pausou por um segundo. – Ele propôs um acordo para eliminar o alvo em você.

- Ah, que legal. Aposto que deve ser uma droga. – ela murmurou, e Oliver, mesmo com a seriedade do assunto, não pôde deixar de sentir vontade de rir com o tom adoravelmente frustrado dela.

- E é. – As próximas palavras saíram amargas da boca dele. – Ele quer conhecê-la e disse que gostaria de fazer um favor a ele. Ele não me disse nada, mas muito provavelmente deve ser algo relacionado a computadores.

- Legal. – ela repetiu. – Provavelmente vou encobrir rastros de uma organização criminosa. Ou apagar pistas importantíssimas que a justiça obteve para minar as atividades deles.

- Você vai? – Oliver franziu o cenho.

Felicity suspirou, enfim percebendo suas próprias palavras.

- Você realmente acha que existe escolha? – ela inclinou a cabeça, estranhamente tornando seu olhar sobre ele mais intenso. O silêncio dele confirmou o que ela imaginava. Mais um suspiro. – Eu nem quero imaginar quantas pessoas esse trabalho vai afetar. – O tom dela era pesado e fúnebre. Oliver o detestou. Queria caçar pessoalmente cada uma das ameaças contra ela e acabar com elas com as próprias mãos. De repente a expressão dela mudou e seu olhar divagou. – A não ser...

- A não ser o que, Felicity? – ele repetiu deixando escapar impaciência, embora não com ela.

- A não ser que eu ache um jeito de contornar essa última parte do acordo.

- Não! – Oliver se alterou. – Não se altera acordos com o diabo.

- E eu não vou usar o meu conhecimento para machucar as pessoas! – Felicity devolveu.

Oliver respirou fundo algumas vezes, procurando se acalmar.

- Felicity, não tente isso, por favor. – Ele soou como se aquilo tivesse sido tirado lá do fundo de si.

- Oliver, você não manda em mim. – ela disparou e ainda completou afiada. – Se vamos ser técnicos, eu sou a sua chefe. – Ele contraiu o maxilar. – Fale com Knyazev. Vou encontrar com ele. Você estabeleça sua estratégia que estabelecerei a minha.

Ele pôde apenas concordar com a cabeça.

Não sabia por que subitamente estava aterrorizado pelo pensamento de que ela sair do acordo implicaria em sua inevitável morte.


Felicity sabia que estava indo a uma mansão, mas mesmo assim quando chegou ficou chocada. Ela esperava uma casa gigantesca, mas ainda sim uma casa. Só que, enquanto seguia pela entrada de carros, encontrou-se diante do que poderia ser definido muito bem como um castelo em miniatura.

Ela se perguntava quantos cômodos havia.

Rob parou o veículo em frente à porta e abriu-o para ela, que pegou a bolsa e o presente e saiu.

- Obrigada, Rob. Eu aviso quando quiser voltar.

- Claro, Felicity. – O guarda-costas balançou a cabeça.

Ela subiu os degraus até a porta. Por um momento fantasioso, achou que teria que bater com a aljava ou tocar um sino – e se divertiu com o pensamento –, porém logo achou uma campainha, bem moderna por sinal. Quem atendeu foi a empregada.

- Oi! Bom dia! Sou a Felicity, eu vim para o aniversário do Oliver... Sr. Queen? Sr. Queen.

A mulher sorriu calorosamente.

- Você deve ser a Srta. Smoak. Por favor, entre.

Felicity se viu num hall de entrada enorme, todo revestido de madeira. Intensos raios de luz natural entravam pelo vitral. Seria exagero dizer que ele era do tamanho do novo apartamento dela?

- Quer que eu guarde suas coisas? – a empregada ofereceu.

- Sim, por favor. Deixa só eu tirar meu celular. – Felicity pegou o objeto, colocou-o no bolso traseiro da calça e depois entregou a bolsa e o embrulho. – Muito obrigada, senhora, uh...

- Raisa. Pode me chamar de Raisa.

- Você é a Raisa! Oliver já me falou de você. – ela abriu um sorriso enorme. – Nada de coisas ruins, juro. Eu só quis saber como ele fala russo.

- E ele me falou de você.

Felicity ficou surpresa por um segundo. Oliver falava dela para sua empregada mais querida?

A expressão doce continuava no rosto de Raisa.

- A Sra. Queen e o Sr. Steele estão na sala de estar. Se puder me acompanhar. – disse.

Felicity seguiu a outra mulher. De repente, se deu conta de que estava prestes a conhecer a matriarca da família Queen. Por algum motivo, ficou nervosa. Ela conheceu magnatas poderosos – ela conheceu Bill Gates! E quando pensava nisso notava que ainda não se recuperara. – sem tremer nas bases, claro que conseguiria passar o dia com Moira Queen.

Walter prontamente se ergueu para cumprimentá-la, um sorriso simpático no rosto e a mão estendida.

- Felicity, que prazer enfim recebê-la aqui.

- Walter. Muito obrigada pelo convite. – ela apertou a mão dele.

Felicity se virou para Moira. A mulher a fitava com um olhar agradável, mas firme e um tanto calculista. As duas se cumprimentaram com um beijo na bochecha formal.

- Srta. Smoak. É um prazer enfim conhecê-la.

- O prazer é meu, Sra. Queen. Obrigada por me receber.

- Seja bem-vinda. Por favor, se acomode. – Moira indicou os sofás.

Os três se sentaram. Felicity ocupou o sofá defronte ao casal.

- Gostaria de algo para beber, Felicity? – Walter ofereceu.

- Não por enquanto.

- Li um artigo que saiu essa semana sobre você. – Moira disse. – A Rainha da Tecnologia, como chamaram.

- Apenas um apelido bobo. Sabe, um pouco de sensacionalismo para vender. – Não era o primeiro que Felicity recebia.

- Não tanto assim. A mais jovem CEO de uma empresa de tecnologia de tamanho sucesso do país. Não é qualquer pessoa que atinge tal. Ainda mais uma mulher, que infelizmente ainda tem que se provar mais do que o necessário no mundo de hoje.

Felicity ficou tímida como sempre ficava quando alguém lhe falava de suas conquistas. Moira estava admirando-a? Wow. Tinha a impressão de que isso não acontecia fácil.

- Bem, obrigada.

- Confesso que eu não li o artigo. – Walter falou.

- Somos dois. – Felicity sorriu. – Meu assistente me avisou, mas nem pude dar muita atenção.

Felicity e Walter conversaram sobre negócios durante um tempo.

- Então, cadê o aniversariante? – ela perguntou.

- Deve estar terminando a corrida dele. – Moira informou. – Ele sempre gostou de correr pela floresta.

- Venha, Felicity. Vamos te mostrar a propriedade. – disse Walter e se levantou.

Os três passearam por boa parte do primeiro andar e estavam se encaminhando para o exterior quando Thea Queen surgiu das escadas. Ela parou surpresa ao ver Felicity, mas logo se encaminhou a ela.

- Você deve ser a Thea. – a CEO disse com um sorriso. – Eu sou...

- Felicity. Eu sei quem você é! – O sorriso da garota foi maior do que Felicity esperava. –Você é incrível! Nossa, eu adoro o seu estilo. – Thea olhou para as roupas dela. – Adorei as botas!

- Oh, ok. – Felicity não sabia o que dizer.

- Desculpa, é que estudo moda, então sempre to de olho no guarda roupa das pessoas. – Thea olhou para a mãe e o padrasto. – Eu não sabia que Felicity Smoak era uma das convidadas hoje.

- Eu já fiz o convite a ela há um tempão. – Walter falou.

- E eu queria cancelar por causa do aniversário do seu irmão, mas ele insistiu que eu viesse.

A cabeça de Thea voltou-se para ela imediatamente.

- Sério? – O sorriso dela adquiriu uma conotação que Felicity não conseguiu captar. – Não sabia que vocês eram amigos.

- Bem, você tem que confiar na pessoa que passa praticamente todo o dia com você. – a loira deu de ombros.

- Roy está chegando? – Moira perguntou.

- Quase. Ele tá a caminho. – a filha respondeu.

Os quatro saíram para o pátio externo. Felicity ficou impressionada. Após as escadas, um gramado verde se estendia até atingir o bosque. Por ser primavera, as flores todas brotaram e aqui e ali havia pontos coloridos, criando um mosaico que só a natureza conseguia.

Eles mal deram uns passos na grama quando um borrão surgiu das árvores. Oliver parou em frente a eles segundos depois.

- Hey. – ele cumprimentou Felicity com a respiração ainda um pouco acelerada.

- Oi, aniversariante! – ela exclamou sorridente. – Eu sei que tecnicamente seu aniversário já passou, mas hoje é a comemoração oficial, então vou continuar te chamando assim.

Ele deu mais um de seus sorrisos característicos. Os outros também foram afetados pela animação dela.

Felicity se esforçou para não notar o olhar dele completamente focado em si, mas Thea fez questão de notar.

- Que bom que veio. Obrigado. – ele disse, e a irmã dessa vez notou a suavidade na voz, algo que ela não se lembrava de ter visto Oliver usar com mais ninguém na vida.

- Eu tenho que te dar seu presente, não é?

- Ah, eu também fiz a mesma coisa. – Thea riu. – Convenci os outros a só darem as coisas pra ele hoje.

Raisa apareceu e chamou os anfitriões.

- Sr. Steele, o senhor tem uma ligação.

- Desculpe, Felicity, parece que nosso passeio foi interrompido. – ele se virou para a convidada.

- Ah. – Felicity realmente estava empolgada para continuar explorando.

- Thea e Oliver podem continuar com ela, se quiserem. – Moira falou.

O celular de Thea vibrou em seu bolso e ela o pegou.

- Na verdade, Roy acabou de chegar.

Thea, Moira e Walter se encaminharam de volta a casa.

- O que pensa que está fazendo? – Oliver perguntou ao ver Felicity seguir os outros.

Ela parou e olhou para trás.

- Entrando?

- Vamos lá, tem um caminho legal e rápido que dá pra conhecer bastante aqui.

Os dois rumaram para o bosque. O dia estava quente na medida do refrescante. O céu não estava cem por cento limpo e azul, mas os raios de sol que escapavam atingiam e aqueciam Felicity de forma agradável.

Havia caminhos bem marcados entre as árvores. Oliver tomou um deles. Os dois não falaram nada, os únicos sons eram dos ocasionais pássaros, da brisa e de folhas e galhos sendo pisoteadas por eles.

- Se eu tivesse crescido aqui, com certeza teria me perdido. Hoje não porque, né, GPS. – ela falou.

- Eu me perdi uma vez. Tinha sete anos, e era um dia frio. Se não me engano, fim do outono. Brincava que era um cavaleiro indo numa missão.

- Para salvar a princesa? – Felicity não conseguiu se conter.

- Salvar um companheiro cavaleiro que tinha se perdido porque seu cavalo ficou doente. Pensava que já andei o suficiente para saber onde tava indo. Depois que cansei, fui voltar. Não consegui. Fiquei andando e andando até que o medo começou a tomar conta de mim, especialmente quando o sol começou a baixar e um vento forte a correr. Quando meu pai me achou, eu só sabia chorar. Fui salvar meu amigo imaginário e quem precisou de salvamento fui eu. Grande cavaleiro que eu era.

Felicity riu com gosto. Não deixou de notar que ele nunca falava tanto, muito menos para compartilhar algo de seu passado. A ternura encheu seu coração ao pensar em Oliver criança.

- Não se preocupa, você é um guarda-costas muito melhor do que um cavaleiro.

- Esse guarda-costas conseguiria salvar a princesa?

Ela o olhou pelo canto do olho.

- Sim. E a mim, embora eu não seja uma princesa.

- Mas é uma rainha.

Os olhos dela se estreitaram acusatoriamente.

- Você leu o artigo. – ele deu de ombros em confissão. – Certo. Vamos esperar que essa rainha aqui nunca precise de salvamento.

- Mas se precisar, saiba que vou estar lá. E vou ter sucesso nessa missão.

Felicity ficou sem palavras. Inspirou com calma, querendo impedir que o agito dentro de si subisse. Inevitavelmente o fantasma, a lembrança do frenesi que tomou seu corpo na boate voltou, ainda mais quando se deu conta do calor que emanava dele por ele estar bem ali ao seu lado.

Estavam sozinhos, dessa vez de verdade. Aquele era mais um momento? Se sim, por que raios ela continuava se enfiando neles? Mas era mais uma vez o magnetismo de Oliver em ação.

- Depois eu aprendi que, se você não sair das trilhas marcadas, é bem difícil se perder. – ele falou, tirando-a de suas divagações.

Ainda bem que um deles era compenetrado.

Eles continuaram caminhando. Oliver mostrou a trilha que dava a uma casa na árvore que teve.

- Por favor, me diz que ela continua inteira! – ela exclamou animada, sua confusão por seus possíveis sentimentos por ele evaporando enfim. Chegou até mesmo a saltitar. Imaginou como seria a casa que ele teria.

- Se ainda existe, tá aos pedaços. Não vamos lá. – Oliver disse sério e categórico.

- Você não tem graça. – ela revirou os olhos.

Oliver a levou a um riacho. Era lindo, parecia saído de um filme ou livro de ficção. Felicity se aproximou para molhar as mãos. A margem estava coberta por um fino filme escorregadio de musgo. Ela acabou derrapando e teria caído se os reflexos absurdos de Oliver não o tivessem feito se mexer. Ele a segurou pela cintura.

- Cuidado. – A voz suave dele saiu num sussurro, tão próxima ao ouvido dela que ela sentiu o hálito dele fazendo cócegas em sua pele.

O pulso de Felicity acelerou. As mãos grandes seguravam-na com firmeza, os dedos pressionados, um deles calhou de se posicionar bem no mísero espaço de pele onde a blusa ergueu-se e separou-se da calça. Nunca estivera tão consciente daquele ponto. Seus braços estavam caídos ao lado deu seu corpo sem saber o que fazer. Sentiu o cheiro suado dele, que deveria tê-la repelido, mas o efeito foi contrário. Cometeu o erro de olhar para o lado e viu a cabeça dele inclinada na direção dela.

Mais próximo do que jamais estivera.

Tanto que Felicity via os riscos em tons de azul das íris dele, a gota rolando por sua têmpora, os detalhes dos traços fortes do rosto, dos pelos da barba curta, os lábios bem ali.

E no segundo seguinte não havia dúvidas de que ela queria beijá-lo.

Os pensamentos sumiram da mente de Felicity. A confusão de antes parecia nunca ter existido.

Um, dois, três... Os segundos foram passando. Ou pelo menos foi o que parecia a Felicity. A expressão de Oliver era calma, mas ela não a leu além disso. Ele não demonstrava querer o mesmo que ela.

Também não demonstrava vontade de se afastar.

Uma brisa correu pelo local, eriçando os pelos do braço dela; seus nervos já estavam sensíveis por causa do homem. A sanidade veio junto. Felicity pôs a mão sobre uma das dele, ignorando a sensação do contato, e deu um tapa de leve.

- Obrigada. – disse e tomou impulso para se afastar. Oliver a soltou sem cerimônia.

Ela deu mais dois passos para a margem e se agachou, mergulhando as mãos no riacho. A água era cristalina e temperatura fria serviu para trazê-la de volta ao normal completamente. Felicity deu até uma bebericada.

O tempo todo Oliver a observava atentamente. Contudo não tinha o mesmo peso do momento fervoroso da semana passada.

- Não sei nem se podia fazer isso. – ela disse, se virando para trás.

- Nunca matou ninguém. E a nascente não é tão distante daqui.

Ela se levantou com cuidado e voltou para o lado dele.

- Péssima escolha de sapato para andar no mato. – falou para terminar de aliviar a tensão.

- Nem tanto.

A caminhada continuou.

- Só falta você me dizer que também tem um lago por perto. Porque, se tiver, devo dizer que você praticamente cresceu em Hogwarts.

Oliver riu. Ela sentiu um afago no peito ao ouvir o som agradável reverberando pelo ambiente. Adoraria ouvi-lo mais vezes.

- Só me falta a varinha. E, se fosse, eu nem teria sobrevivido quando me perdi aqui, afinal, seria a Floresta Proibida, com todas as criaturas místicas selvagens...

Ai meu Deus, ele gostava de Harry Potter? O lado geek de Felicity se alvoroçou.

- Claro. Qualquer pessoa decente gosta. – ele disse, e ela percebeu que tinha falado em voz alta.

Ela não sabia como reagir a essa nova informação. Teve que se segurar para não começar a tagarelar porque poderia ficar falando de Harry Potter pelo resto do dia.

Melhor do que ficar pensando nele como mais de um amigo.

- Eu nunca tinha pensado nisso. – ele confessou. – Mas parece. Ainda mais porque a casa tem passagens.

- Passagens? Tipo, secretas? – ela estava embasbacada. Honestamente, Oliver bem que podia não incentivá-la.

- Mais como atalhos. E cantos.

Felicity se perguntou o que queria dizer até lembrar que um dia ele foi um conquistador sem escrúpulos. Óbvio que ele aproveitou os cantos da casa para ficar de amassos com meninas. Ou para transar. A cabeça fértil dela logo a colocou num dos cantos com ele.

Cala. A. Boca.

Felicity estava num estado irrequieto como nunca antes. Suas emoções subiam e desciam com mais picos que uma curva de sinal difuso.

Eles passaram em mais alguns pontos antes de o circuito chegar ao final. Saíram novamente nos fundos da mansão, mas mais longe, num local diferente. Felicity olhou ao redor e viu um ponto cinza destoante da paisagem.

- O que é aquilo?

- É o túmulo do meu pai. – Oliver respondeu num tom sério e profundo.

Felicity o olhou de esguelha. A expressão dele se fechou. Arrependeu-se de ter falado algo e acabado com a descontração do passeio.

- Desculpa. Não queria te chatear.

Oliver balançou a cabeça e incrivelmente curvou a boca num pequeno sorriso, mesmo que ainda um pouco forçado.

- Sem problema. Foi há anos.

Eles cruzaram o gramado e subiram as escadas do pátio.

- Ah, tem outro lugar que aposto que você vai gostar. – ele disse de repente, e o tom dele deixou Felicity curiosa.

Oliver entrou na casa, Felicity o seguiu enquanto ele tomava uma entrada próxima à cozinha. Havia uma escada que descia para escuridão.

- Ok, eu vi filmes o suficiente para saber que todo castelo de pedra tem passagens secretas e masmorras, mas eu não fico confortável com a ideia de conhecer masmorras de verdade.

Ele abafou uma risada, balançou a cabeça de leve e começou a descer os degraus.

- Não faria isso com você. – ele parou e virou-se para ela. – Confia em mim?

Felicity olhou fundo nos olhos e seu rosto tranquilo. Ela recebeu a pergunta com mais seriedade do que necessário, suas emoções se manifestando de novo.

- Com a minha vida. – respondeu sem conter a profundidade na voz. Não havia frase mais real.

Ela desceu atrás dele. Mal tocou chão quando as luzes se acenderam.

- Wow! – ela exclamou surpresa e boquiaberta.

Estavam na adega da mansão. O local combinava o clássico e o moderno, mesclava madeira e pedra e era vasto, dividindo-se em ambientes. Na entrada havia um balcão e uma estante com várias taças e outros tipos de copos.

- É exatamente como eu imaginei. – Felicity falou em voz alta sem perceber. Nem percebeu Oliver franzindo a testa em confusão.

Ela tomou a dianteira e deu uns passos para dentro do local.

- Isso é tipo a Disney para adultos. – ela parou e olhou para ele. Oliver soltou mais um Sorriso.

- Aqui não tem só vinhos, como outras bebidas também. – ele voltou a andar e ela foi atrás. – Essa parte do começo foi reformada há algum tempo, mas lá trás tem uma parte praticamente intocável.

- Ok, posso tocar alguns? – ela perguntou sem se conter.

- Mas é claro.

Felicity se divertiu pegando garrafas de vinho. Havia de vários tipos, locais e épocas. Alguns estavam cobertos por poeira. Ele se entreteve vendo-a entretida.

- Como é que sua família sabe o que tem aqui?

- Não sabemos.

- Que calúnia. Eu com certeza já teria criado um sistema de identificação e localização. – O olhar de Felicity se perdeu por um momento.

- Você tá imaginando como faria, não é? – Oliver quebrou o silêncio. Ela deu de ombros e pôs a garrafa de volta. – Não seria você se não imaginasse.

Um arrepio ao percorrer ao lembrar como as palavras eram semelhantes à última mensagem que ele lhe mandou no fim de semana passado.

Oliver a levou até um canto. As garrafas eram definitivamente mais antigas, o pó que as cobria, mais grosso.

- Aqui era onde eu queria te mostrar.

Felicity esperou enquanto ele vasculhava os suportes. Ela não conseguiu deixar de analisar o gesto dele. Se não o conhecesse, acharia que ele só estava mostrando a adega para impressioná-la e seduzi-la. Mas óbvio que isso não era verdade, Oliver sabia que ela gostava de vinhos e queria diverti-la. E ela estava feliz lá.

Ele se virou para ela e se aproximou dela com um sorriso. Em suas mãos havia uma garrafa antiga.

- Não! – ela soltou ao reconhecer. – Isso é o...?

- Seu futuro presente de aniversário. – ele disse.

Felicity contemplou o Lafite-Rothschild nas mãos dele como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Oliver a observava com um sorriso. Ela esticou a própria mão para pegar o objeto, mas ele esticou o braço para o alto, tirando-o do alcance dela.

- Quantos anos você fez, doze? – Felicity revirou os olhos.

- Só to te dando uma prévia. – ele falou.

- Você sabe que posso usar meus novos golpes para pegar isso de você.

- Tente. – O sorriso de Oliver era zombeteiro.

Felicity bufou. Ainda assim, teimosa, ela ainda tentou golpeá-lo. Rápido como um borrão, Oliver a bloqueou, segurando seu pulso. Ela tentou usar a outra mão, mas nada feito. Ele a empurrou delicadamente contra a pilastra que havia no meio, desarmando-a completamente e tirando o ar de seus pulmões.

- Só uma dica: não diga às pessoas que você vai atacá-las.

- Isso foi só um treino.

- Então tenho que te treinar mais. – Ele baixou a garrafa, mas continuava prendendo-a.

Lá estava ela de novo entre Oliver e uma superfície sólida.

E lá estava ela de novo não achando ruim como deveria.

Os dois se encararam longamente.

Um barulho longínquo os fez se afastarem. Felicity sentiu como se tivesse despertado de um transe.

Oliver voltou onde achara o vinho.

- Diga "até breve". – ele brincou.

- Não acredito que vou ser capaz de sair daqui sem isso. – ela comentou.

Ele guardou a garrafa. Os dois voltavam para a entrada.

- Me diz que a gente vai tomar algum desses no jantar. – Felicity mudou de assunto.

- Nada acertado, mas se quiser, pode escolher. Seja a sommelier do dia. – ele piscou para ela.

- Ai meu Deus, agora não sei o que fazer. São tantos!

Felicity acabou escolhendo um tinto e um branco, ambos secos. Eles retornaram à entrada e pararam de súbito ao encontrarem a origem do barulho: ninguém menos que Tommy.

- Olá, vocês dois. – ele falou, o canto da boca retorcido num sorriso que Felicity falhou em ver como maroto.

Mesmo com as garrafas, ela foi até ele e o abraçou. Ele foi tomado pela surpresa por um segundo, porém logo tratou de corresponder. Oliver apenas os observava em silêncio. Eles se soltaram, e Tommy foi cumprimentar o melhor amigo com um aperto de mão e um tapa nas costas.

- Então, o que estavam fazendo aqui embaixo? – perguntou ainda sorrindo.

- Oliver estava me mostrando a Disney. – Felicity indicou o arredor com os braços.

Tommy arregalou os olhos por frações de segundo, mirou o olhar de um para outro, como se procurasse algo, e mesmo não encontrando não conseguiu conter a língua afiada:

- Ah, a versão para maiores de dezoito. Espero que tenha sido tão mágico quanto a de verdade. – Ele teve a cara de pau de dar uma piscadela.

Felicity franziu o cenho, confusa. Já Oliver tinha uma ideia do que o amigo deixou subentendido, mas não estava muito propenso a aceitar.

- O que você está fazendo aqui, Tommy? – disparou antes que o outro falasse ainda mais besteiras. Sentiu que seu nível paciência com o melhor amigo deu uma drástica queda nos últimos dias.

Se Oliver fosse honesto consigo mesmo, perceberia que isso aconteceu desde a ida de Felicity e Tommy ao lounge bar.

- Vim pegar bebidas. Tô pensando em fazer uns drinques para nós. – ele olhou para Felicity. – E pelo visto você também.

- Ah, é pro jantar. – ela balançou as garrafas. – Mas super topo drinques para agora. O que tem em mente?

- Margaritas. Se bem que depois que vi esse rum aqui – Tommy pegou a garrafa. – acho que uma rodada de mojitos também cai bem.

- Rum? Melhor esconder isso daquela ali. – Oliver abriu um sorrisinho, lançando um olhar provocador a Felicity, que respondeu bufando adoravelmente.

- E eu não sei? – disse Tommy.

E sabia mesmo, Oliver se deu conta com estranho desconforto. Às vezes esquecia que houve mais gente na Verdant além dele e Felicity.

Quem poderia culpá-lo quando em cena houve um vestido preto como aquele?

Os três subiram de volta ao andar principal, apenas Oliver não carregava nada. Foram à cozinha.

- Agora que notei. Por que você tá com roupa de malhar? – seu melhor amigo perguntou.

- Tava correndo. E aí Felicity chegou e fui mostrar a propriedade a ela. – Oliver passou pelos dois sem sequer olhá-los. – Acho que é melhor eu tomar um banho e ficar descente para os convidados. – explicou.

- Então ponha um short de banho. – Tommy largou as garrafas na bancada da ilha e se virou para ele. – Dei a ideia de todos irmos pra piscina. Ou a hidromassagem. O que cada um quiser. Eu já vim pronto. – e indicou sua bermuda.

Naquele momento, Thea entrou no recinto.

- Você nem é interesseiro. – ela o cutucou com o cotovelo e depois se virou para o irmão. – Mas essa é a ideia. Mamãe e Walter já subiram para se trocarem. Sorte que o Roy já tem algumas mudas aqui.

- Ah. Terei que ficar de fora dessa. – Felicity lamentou. – Não sabia disso. Não trouxe roupa de banho.

- Besteira. Aposto que os Queen têm roupas para os convidados.

- Pior que temos mesmo. – Thea falou. – Eu também posso te emprestar um biquíni, se quiser. Ficar de fora é que você não vai.

- Contanto que esteja tudo devidamente higienizado. – Felicity não se segurou.

Thea riu.

- Pode ter certeza disso. – ela piscou.

- Então vamos. – a CEO falou animada.


Oliver não sabia explicar por que sentiu a tranquilidade e a descontração do passeio embotar quando Tommy apareceu.

Também não deixou de notar os sorrisos trocados entre o melhor amigo e Felicity. Parecia que a relação dos dois se desenvolveu ainda mais rápida que a dele com a CEO e num nível diferente.

E, acima de tudo, Oliver não sabia por que pensava tanto nisso enquanto se jogava uma chuveirada rápida e trocava a roupa esportiva por um short.

Rumava para a piscina quando Raisa o interrompeu com um convidado. Era Barry Allen, perito criminal da SCPD. Eles se conheceram na época do ressurgimento da morte de Robert e devido justamente ao caso. Eles formaram uma relação cordial que inesperadamente se tornou uma amizade sólida após o fechamento do caso. Barry era completamente diferente de Oliver: um nerd risonho que conseguia ser ao mesmo tempo extrovertido e um tanto socialmente inapto – mas alguém podia argumentar que o próprio Oliver se tornou algo assim após retornar a Starling –, para lá de inteligente e um ótimo profissional. Os dois tinham um tipo de amizade em que não se falavam todo o dia, mas que estariam lá pelo outro sempre que precisassem.

- Oi, Oliver! Feliz aniversário! De novo. – Barry o cumprimentou.

- Obrigado, Barry. E obrigado, Raisa. Deixa que eu o levo. – Oliver disse à mulher, que sorriu, assentiu e se afastou.

- Devo dizer que se não fosse por ela eu estaria vagando até agora por aí. Talvez caísse por um portal para outra época ou algo assim. – Barry falou. Oliver franziu o cenho. – É a primeira vez que venho aqui.

- Bem, estão todos na piscina.

Os dois começaram a andar.

- É, sua irmã mandou mensagem. Sorte que eu já vim de bermuda. Hoje fez um calor agradável.

Eles chegaram à piscina. Moira, Walter e Roy já estavam dentro d'água. Nenhum sinal ainda de Felicity e Thea.

- Barry! E aí, cara? – Tommy foi o primeiro a vê-los e ir até eles. Ele estava fora, carregando duas jarras. Deixou uma delas sobre a mesa onde Oliver jogou sua camisa, e cumprimentou Barry com um aperto de mão e um tapinha nas costas. O perito criminal sorriu e retribuiu o gesto.

- O que é isso? – Barry perguntou, indicando as jarras.

- Margaritas. Acabei de fazer. Não é porque fiz, mas estão perfeitas.

Oliver pegou uma cerveja no bar, colocou na borda e mergulhou na água. Barry falou com os outros antes de entrar também.

- Parabéns, Oliver! – Roy disse assim que ele emergiu. Ele agradeceu. – Onde está Thea?

- Subiu com Felicity para ver roupa de banho pra ela. – Oliver de repente se deu conta de que veria Felicity de biquíni. Seus dedos se contorceram embaixo d'água. – Daqui a pouco devem estar chegando.

Tommy, que foi ao bar pegar copos para servir os drinques, aproximou-se da borda.

- Ok, família, quem quer um caprichado do Tommy? Aproveitem minha boa vontade agora porque quero mergulhar também!


O closet de Thea mais parecia uma boutique. Felicity não conseguiu deixar de ficar chocada. E também um pouco acanhada, pois a jovem Queen foi além de simpática com ela e acabou não lhe oferecendo uma das roupas de visitantes, mas um dos seus próprios biquínis. Era um conjunto com estampa azul marinho e bege.

- Pode ficar com ele. Comprei online, botei uma vez para experimentar e não ficou bom em mim, mas acho que vai ficar maravilhoso em você. – disse jogando o biquíni para Felicity. Ela notou que era de grife e não pôde deixar de ficar surpresa com a facilidade que a outra se desfazia de peças caras como aquelas.

Thea também lhe emprestou um par de chinelos – as duas calçavam quase o mesmo – e uma saída de praia longa e estampada.

- Para não molhar as próprias roupas.

Por insistência da outra, Felicity trocou de roupa no banheiro dela. Ao sair, Thea exclamou:

- Ficou incrível!

- Bom, a estudante de moda sabe o que faz, não é. – disse ainda sem graça.

Felicity só pôs a saída de praia porque não estava confortável com andar pela casa só de roupa de banho. As duas chegaram à área da piscina, que era tão suntuosa quanto o resto da casa. A hidromassagem era praticamente acoplada à piscina, e no momento estava vazia.

Moira, Walter, Oliver e dois homens – um rapaz que só podia ser Roy, o namorado de Thea, e o outro que lhe parecia... familiar? – já estavam na água.

Tommy distribuía as margaritas quando Thea e Felicity chegaram.

- Eu quero uma! – a jovem Queen exclamou. Ela chamou atenção de todos para as duas.

- É pra já! E para a futura comandante suprema do mundo corporativo? – Tommy olhou para Felicity, que abafou uma risada e revirou os olhos.

- Manda. Quero ver se é bom mesmo nessa arte como gosta de se gabar.

Felicity tirou a saída de praia e a colocou numa cadeira.

- Sou bom em várias artes, minha cara Smoak. – Tommy disse charmoso. Ele olhou sem pudor para ela, mas ela sabia que os gracejos e os flertes exagerados e inofensivos eram parte da extravagância dele. Na verdade ela gostava bastante de Tommy. – Caramba! To começando a pensar em fazer ioga também.

Ele deixou os copos delas junto aos outros próximos à borda onde o melhor amigo e Barry estava. Barry admirou da maneira comum e respeitável que todo homem deveria fazer com uma mulher bonita. Oliver, por sua vez, embora notasse o exagero do amigo, propositalmente não olhava mais para ela, como se a chegada dela não fosse nada demais.

Thea sentou na borda e pulou para dentro, propositalmente quase acertando o namorado, enquanto Felicity contornou a piscina entrou pela escada, perto de onde o casal anfitrião estava, e foi até os meninos. Por sorte já vira Oliver sem camisa, senão com certeza teria passado alguma vergonha. Ela prendeu o cabelo num coque alto e bagunçado, então parou e franziu a testa para Barry, que a espelhou.

- Vocês se conhecem? – Oliver perguntou ao notá-los.

- Mais ou menos. – Barry respondeu.

- Eu acho que o vi pelos corredores da delegacia umas poucas vezes. Você conhece o Detetive Thawne, não é? Ou a namorada dele, Iris? Ou o parceiro dele, Malone? – Felicity perguntou.

- Trabalho bastante com os detetives.

Felicity se colocou na borda entre Barry e Oliver e pegou a margarita.

- Bom, então oficialmente... Felicity Smoak. – ela falou, virando-se para Barry.

- Hoje em dia não tem como não saber quem você é. – ele deu uma risadinha, que ela o espelhou. Oliver não riu. – Barry... Allen.

Ela tomou um gole. Estava perfeitamente equilibrado. Tinha que admitir que Tommy era habilidoso quanto a drinques. Claro que ela não diria em voz alta; ele não precisava de um ego ainda mais inflado.

- Então, como vocês se conheceram? – Seus olhos alternavam entre os dois homens.

- Foi há uns três anos. Nós, uh... – Barry olhou para o amigo, e Felicity logo soube a verdade.

- Foi na época do caso do meu pai. – Oliver disse num tom diplomático, e ela teve sua confirmação.

De repente, água levantou e um pouco molhou Felicity. Era Tommy mergulhando.

- Mas que droga, Merlyn! Eu não estava a fim de molhar o cabelo! – exclamou para ele assim que emergiu e nadou até eles.

- E você molhou a bebida. – Thea disse se aproximando deles, agarrada a Roy por um braço e com a margarita em outra.

- Nem é exagerada, huh Thea? – ele disse. – E, qual é, Smoak, você tá aqui pra se divertir. – Ele respingou mais água nela. Por sorte ela já tinha baixado o copo.

Felicity lhe lançou um olhar afiado. Oliver não segurou um sorriso. Ela e Roy se apresentaram oficialmente.

- Aliás, todo mundo levanta o copo. Tá na hora do brinde. – falou Thea. – Mãe! Walter! – gritou para o outro lado, e eles a seguiram. Depois ela olhou para Oliver. – Ao aniversariante. Ao melhor irmão que alguém pode ter. Sou abençoada por ter você na minha vida, Ollie. E eu tenho certeza que seus amigos também partilham do mesmo sentimento.

Todos exclamaram animados e, aqueles que puderam, bateram os copos e as garrafas. Assim que beberam um gole, Thea soltou o namorado e abraçou o irmão.

- Te amo.

- Te amo, Speedy. – ele sussurrou e beijou a cabeça dela.

- Aff, tinha que falar isso em público. Amo menos agora. – ela o soltou e nadou para trás.

Oliver abafou uma risada.

Thea e Roy resolveram apostar corrida para cruzar o comprimento da piscina. Tommy não tardou a se juntar, e Barry também logo seguiu. Logo a atmosfera foi preenchida por exclamações, risadas e água voando.

- Olha as crianças. Você não vai não? – Felicity se virou para Oliver, que estava meio afastado da borda só com a cabeça de fora, e pôs o copo no chão após mais um gole. – Não me diga que um ex Forças Especiais não sabe nadar.

Oliver abriu seu costumeiro sorriso.

- Eu sei, mas nunca fui fã de natação. E você?

- Só sei o suficiente para não me afogar. – ela deu de ombros. – Quer dizer, por um tempo, né. Porque se eu me ver numa situação onde não consigo nadar, só flutuar, uma hora eu entro em pânico e aí não consigo mais flutuar...

A final do "campeonato" ficou entre Barry e Roy, e quem levou foi o namorado de Thea.

- Agora me chamem de Rei da Piscina.

- Cala a boca. – Thea pulou sobre ele para tentar afogá-lo.

Pouco tempo depois, duas pessoas novas chegaram. Diggle e Lyla.

- Já tá todo mundo se divertindo, huh? – ele disse parando próximo à piscina após cumprimentar todos brevemente.

- Oi, John, Lyla. – Thea nadou até eles. – Achei que trariam Sara.

- Ela ficou com meus pais. Por isso só estamos chegando agora. – Diggle esclareceu.

- Ah, tava doida pra vê-la. – Thea lamentou. Ela adorava bebês. – Entrem, entrem! Me digam que receberam minha mensagem.

O casal logo também ficou só de roupa de banhou e entrou, indo onde Oliver e Felicity estavam, agora junto a Moira e Walter; os CEOs estavam engajados numa discussão. Eles parabenizaram Oliver.

O tempo passou tranquilo com o clima de diversão. Tommy teve que sair da água para mais uma jarra, só que dessa vez de mojito. Felicity ficou se controlando e bebeu devagar apenas dois copos, um de cada drinque. Ficar bêbada logo quando ainda tinha o resto do dia pela frente – e ainda na casa da família de seu guarda-costas – não ia dar certo.


Oliver se esforçou para não olhar. Mas Felicity deu a volta e desceu pela escada, e ele foi surpreendido pela visão dela. Seus olhos inevitavelmente recaíram sobre ela. Não foi capaz de desviar.

E aí ele teve que se esforçar para não demonstrar reação, para manter-se aparentemente imperturbável.

Ele admirou Felicity, sem que tivesse muito controle na decisão. Contemplou principalmente as pernas torneadas desaparecendo na água a casa seguindo e as curvas sinuosas que desenhavam seu quadril e cintura. Havia uma leve definição nos músculos que ele não esperava, em especial a dos superiores. Devia ser a ioga, ela não treinou luta o suficiente para isso.

O corpo dela era uma obra de arte.

Oliver ainda a olhava, aliás. Agora Felicity estava na hidromassagem junto com Tommy e Barry. A conversa fluía entre os três com a maior facilidade do mundo. Ele notava como os homens pareciam cativados por ela.

Barry e Felicity eram muito parecidos. Uma voz no fundo da mente de Oliver lhe sussurrou isso assim que viu o amigo mais cedo, porém foi facilmente ignorada.

Não mais.

Os dois podiam não se conhecer muito bem antes, mas o dia de hoje definitivamente mudou isso. Eles tinham muito em comum: eram inteligentes, tinham gostos semelhantes em termos de cultura, a personalidade adorável e carismática, e Barry sempre entendia as referências pop da CEO e por vezes – Oliver notou pela primeira vez – ele também descarregava a falar – o que era meio irritante, para falar a verdade.

Só não era irritante quando Felicity o fazia.

Oliver não conseguia identificar o se formando dentro dele. Ele estava confuso. Era um sentimento tão desconhecido dele, tão irracional, tão inesperado, ainda mais por se tratar dela...

- Ollie, você tá legal? – Thea o despertou.

Ele se virou para ela.

- Eu to bem. – respondeu.

Thea parecia desconfiada.

- Você fechou a cara. Ficou mais sério que o normal. Parece que vai afogar alguém. – disse.

Ele levou a garrafa a boca, mas nada veio. Conteve um grunhido.

- A cerveja acabou. – falou à irmã como se fosse alguma explicação.

Oliver precisava de mais. Saiu da piscina.

- Hey, pega mais um pouco para mim? – veio a voz da hidromassagem. Ele se virou. Era Felicity, que estendia o copo para fora da banheira.

Ele não soube dizer por que não conseguiu dizer "não". Foi até lá e pegou o copo.

- Ele é o aniversariante. Você que deveria estar pegando as coisas para ele. – disse Barry num tom divertido. Ela jogou água nele em resposta e depois se virou para Oliver.

- Eu juro que pegaria, mas é que eu já fiquei mal acostumada com esses jatos... – Felicity comprimiu os lábios numa expressão adorável. – Ei, e na volta por que você não entra aqui também? Até agora não te vi aqui.

Quando Oliver voltou com as bebidas, ele entrou na banheira – afinal, era a casa dele, era a festa dele – e se acomodou no lugar ao lado de Felicity. Ela e os amigos prontamente o incluíram na conversa, mas vez ou outra eles faziam referência a momentos anteriores. E ele acabou sentindo uma pequena satisfação quando os outros dois homens saíram, deixando somente ele e Felicity.

- Agora temos os jatos só para nós. – ela disse trocando de lugar para ficar em frente a ele. Depois se espalhou e afundou ainda mais na água para aproveitar os tais jatos. Ela deitou a cabeça, fechou os olhos e soltou um suspiro que deixou Oliver tenso por um segundo. – Isso é relaxante demais. Eu não sei como sua família não vive aqui dentro.

- Porque não é recomendável ficar muito tempo aqui? – ele ofereceu.

- Eu teria problemas então se tivesse uma banheira dessas. Sorte que não tenho espaço para isso. A minha nova já uma grande tentação.

Felicity ficou um instante curtindo. Oliver não conseguiu deixar de observá-la. Ela abriu os olhos.

- Já foi a Budapeste? Sempre quis ir porque lá é conhecido pelas casas termais.

- Um dos poucos lugares que não fui. E eu não sabia dessa fama da cidade.

- Eu descobri vendo um programa desses de viagem de bobeira porque não tinha nada mais interessante passando.

- Bom... Acabou que foi interessante.

Felicity continuava só com a cabeça para fora.

- Pensei que não fosse molhar o cabelo. – ele disse divertido ao ver fios dourados se remexendo dentro da água.

- Ah, bem, Tommy já fez questão de batizá-lo. E eu to me convencendo que lavar em casa vai compensar por isso aqui. Aliás...

Ela se afastou da borda e foi para o meio da banheira. Soltou o cabelo, que caiu numa cortina dourada, e mergulhou completamente pela primeira vez. Quando emergiu, o olhar fixo nele tinha um brilho travesso.

- Vem. – Felicity o puxou pelo braço, e ele acabou indo sem que seu corpo comandasse ou sequer cogitasse resistir, ficando bem de frente a ela.

Oliver mergulhou, e ela fez o acompanhou. Subiram e foi só então que ela o soltou. Eles trocaram um riso abafado, e só esse momento já foi o suficiente para fazê-lo se esquecer de seus sentimentos conflitantes de mais cedo.


- Ok, quem ta a fim de uma sinuca? – Felicity perguntou.

Após a piscina, a comemoração migrou para o salão de jogos – é claro que havia um salão de jogos na mansão. Walter, Moira, Diggle e Lyla foram direto para a mesa de carteado. Tommy se virou para ela com um sorriso.

- Eu! – E depois se virou para o melhor amigo. – Vamos, cara? Faz um tempo que não jogo em dupla.

Felicity jurou que os olhos de Oliver brilharam quando ele olhou para ela e a viu como sua adversária.

- Ah, então você acha que consegue me vencer? – Ela deu dois passos na direção dele e cruzou os braços. Um sorriso maroto pintava sua boca.

- Eu tenho certeza. – ele disse também deixando escapar um sorriso.

- Quero vê-lo tentar.

- Pois vai. – Ele foi à mesa.

- Prepare para se decepcionar, Oliver. Não é porque é seu aniversário que vou ser legal com você. – Ela o acompanhou.

- Ele é muito bom. – disse Tommy atrás deles.

- Eu também sou. – Ela piscou para os dois, o que era fofo, pois Felicity não sabia piscar direito. – Agora só preciso de uma dupla.

- Alguém falou em sinuca? – Thea apareceu ao lado deles.

- Espero que seja boa, Thea.

- Eu vinha pra cá escondida quando criança e jogava sozinha. Foi assim que aprendi. – revelou a caçula Queen. – Isso vai ser legal. Garotas contra garotos.

- Sim! – Felicity exclamou animada.

Tommy organizou as bolas na mesa. Cada um pegou um taco.

- Acho que o aniversariante deve começar. – Tommy anunciou.

Ninguém discordou. O jogo iniciou. Uma bola amarela encaçapada por Oliver determinou a cor da dupla masculina. As bolas vermelhas então ficaram sob responsabilidade das meninas.

Todos ficaram surpresos com o quão boa Felicity era no jogo, menos Oliver. Devia saber que aquele cérebro único dela a tornaria muito boa. Ele também estava levemente frustrado porque a habilidade dela era equiparável à sua. A dele vinha de suas profissões, já a dela...

- Geometria. – explicou Barry, que, junto com Roy, era um espectador. – É tudo uma questão de geometria.

- Exatamente. – Felicity concordou e se virou. – Alguém que me entende. – E abriu um sorrisinho para ele.

Oliver errou a próxima tacada por milímetros. Sua expressão se fechou por um segundo.

- Algum problema, Tenente? – ela falou, voltando-se novamente para a mesa. – A mão suou? Escorregou? Não sabe manusear um taco?

Ele ergueu o tronco e mirou um olhar firme nela, embarcando na dela.

- Eu sei manusear um taco como poucos.

Espera... Quê? Era só sua mente fértil interpretando além do que devia, Felicity disse a si mesma. Mesmo assim ela ficou sem palavras por um instante.

- E você, Srta. Smoak? – ele continuou a provocação, aplicando o tom que sempre usava com aquelas palavras, e a CEO se agitou por dentro. Filho da puta.

- Claro que sei usar um taco. Não viu todas as bolas que derrubei? – ela conseguiu falar.

E era verdade. Embora os meninos estivessem na frente, por causa de Felicity elas estavam logo atrás.

- Não o suficiente para estar ganhando. – Oliver encostou o taco no chão, apoiando-se na parte de cima dele com as duas mãos. Ele permanecia fitando-a.

- Ainda. – Felicity sorriu marota.

- Então vem aqui mostrar de verdade o que você sabe. – O desgraçado a chamou com o dedo da mesma maneira que no dia do treino, um sorriso com aquela maldita covinha escapando.

Ela circulou a mesa em direção a ele. Já iria para lá mesmo fazer a jogada, visto a distribuição das bolas. Só que Oliver não saiu do lugar, e ele permaneceu bem ao lado dela quando ela parou onde queria e analisou a mesa.

- Tá meio complicado, huh? – ele falou. – Um errinho e você encosta numa amarela.

O braço dele roçava no dela, e continuou quando ela inclinou-se, preparando o taco.

- Não sou você. – ela devolveu, olhando para cima, para ele.

E Felicity usou a geometria para sair do aperto. Fez a tacada, sua bola colidiu com a lateral da mesa, depois foi para o outro lado, bateu em outra bola e ainda conseguiu encaçapá-la.

Tommy não deixou de ficar impressionado. Thea gargalhou.

- Toma essa, Ollie! – exclamou.

Felicity se ajeitou e se virou para Oliver. Os dois estavam bem no espaço pessoal do outro.

- Você estava dizendo...? – ela falou. – Acho que isso nos deixa empatados.

- O jogo não acabou. – Oliver falou.

Mas não demorou muito para que acabasse. Thea e Felicity acabaram virando e ganhando.

Embora estivesse verdadeiramente se divertindo, Oliver não conseguiu deixar de se sentir incomodado por um segundo. A CEO o viu apertando os lábios.

- Meu Deus, achei alguém tão competitivo quanto você! Ou mais! – Tommy dizia rindo.

Felicity foi até Oliver e o cutucou bem delicada com o taco.

- Disse que não conseguia me vencer.

- Paramos de jogar por acaso? – ele perguntou.

- Você sim. É a vez de Barry e Roy. Seja um bom perdedor e saia da mesa.

- Vença esses dois. Quero minha revanche. – Oliver deitou o taco sobre a mesa. – Ainda vou ganhar você, Felicity.

Ela inspirou com dificuldade. Droga.

A nova partida terminou com a segunda vitória das meninas, embora tenha sido mais tranquila que a primeira. E também porque Roy não era tão bom quanto suas adversárias.

- O rei é só da piscina mesmo. – Thea tirava com a cara do namorado. – Aqui só tem rainhas! Who run the world? – ela ergueu a mão para a Felicity, que bateu empolgada com a sua própria enquanto ria. Thea não somente era uma ótima parceira e sinuca, como também uma pessoa bem legal.

Depois, eles trocaram de duplas.

- Vem cá, Oliver, é só comigo mesmo que você vai conseguir ganhar. – Felicity disse.

Teimoso como ninguém, ele rejeitou e se juntou à irmã. Barry se tornou seu novo companheiro.

- Time Geometria! – ele exclamou animado.

Felicity riu. Oliver revirou os olhos e conteve um bufo.

- Nerds. – Tommy falou.

- Os mais adoráveis. – Thea completou.

Devido ao intelecto, Barry e Felicity eram compatíveis e bastavam apenas de poucas palavras e gestos para definirem as jogadas. Por isso pareceu que eles iam ganhar, ainda mais depois de uns deslizes de Oliver – os quais ela não deixou passar, claro. Incrivelmente, as coisas começaram a mudar quando ele passou a responder, e os dois voltaram ao clima de provocações.

Os outros por vezes se entreolharam. Parecia que quando curtiam um com o outro Oliver e Felicity ignoravam o mundo ao redor. A forma como se olhavam, como agiam ao redor do outro, os sorrisos. Sem contar que... Bem, o ar entre eles era elétrico.

- Eu realmente espero que você com uma arma na mão seja melhor. – Felicity disse uma vez. – Porque estou desapontada com suas habilidades de mira, Tenente.

Os olhos de Oliver chegaram a cintilar quando ele respondeu:

- Já te disse que não preciso de arma.

- E agora vejo que isso é bom, não?

E acabou que Oliver enfim conseguiu sua vitória.

- Graças a mim. – sua irmã falou.

- Agora eu posso jogar com você, Felicity.

- Quem disse que eu quero jogar com você? – ela devolveu. – Prefiro te vencer.

- Como agora?

- Teoricamente nós dois estamos empatados.

Felicity acabou saindo da mesa, e Oliver a acompanhou. Thea, Tommy, Barry e Roy se divertiram durante um tempo. Quando cansaram das cartas, Diggle e Walter migraram para a sinuca. Só após um tempo que a CEO e o guarda-costas iniciaram a parceria.

- Ah não! – Tommy lamentou. – Agora com eles dois juntos ninguém mais ganha.

A mente de Felicity e a mira excepcional de Oliver os tornaram a dupla imbatível mesmo. Bastava apenas um olhar para se entenderem. Eles continuaram rindo e se provocando. Ninguém os venceu, embora Walter e Diggle tenham quase conseguido.

- Não sabia que você era tão bom assim, Walter. – ela constatou surpresa.

- Nasci e cresci no país dos pubs, Felicity. Sempre tive um gosto particular por eles. – ele respondeu com seu sotaque inglês cadenciado.

Foi a última partida e mais acirrada. As últimas duas bolas, uma de cada cor, rolaram sozinhas várias vezes até que Felicity conseguiu matá-la com uma tacada tão absurdamente precisa que surpreendeu até a si própria. Ela ficou encarando a mesa por uns segundos, depois ergueu o olhar para sua dupla.

- Yay! – comemorou dando um soco no ar. – Bate aqui! – Ela ergueu a mão para Oliver, que prontamente a atendeu.

As pessoas, incluindo Moira e Lyla que apareceram depois – Lyla inclusive chegou a jogar uma vez –, se dispersaram para outras atividades. Felicity se recostou à mesa, e Oliver parou ao seu lado.

- Até agora não acredito naquela jogada. – ela disse.

- É, você arrasou.

- Agora você vai elogiar meu jogo mesmo tendo passado um tempo querendo vencer de mim?

Ele franziu a testa para ela.

- Eu nunca disse que você não era boa. Pelo contrário, já esperava que fosse. – Foi a vez de Felicity ficar confusa. – Por causa desse seu cérebro genial aí. É seu superpoder.

Nenhum elogio dele a afetou tanto quanto esse. Felicity teve que controlar seu rosto para não demonstrar o espanto.

- Sempre achei que meu superpoder fosse... Sabe, hackear. – ela sussurrou. Oliver conteve um riso com a discrição dela.

- É parte dele.

Os dois ficaram num silêncio confortável por um momento.

- Você também não é ruim, viu? – ela falou. – Bom jogo.

- Mas você sabe que temos um problema não é? – O tom profundo e sério dele a fez arregalar os olhos. Ele sorriu da reação dela, e Felicity viu que era brincadeira. Ele continuou: – Nós dois ainda estamos empatados. Temos que definir quem é o melhor.

- Um dia a gente define isso, Oliver. Um dia.


Thea arrastou todos para a sala de estar para a troca de presentes. Ela convencera a família e os convidados – à exceção de Felicity – a presentearem o irmão naquele dia. Oliver não podia deixar de notar como ela estava se divertindo bancando a organizadora.

- Eu primeiro! – ela exclamou e entregou o embrulho. Era uma linda jaqueta em estilo militar. Combinava com o estilo simples mas elegante dele.

Depois foram Moira e Walter. Ela deu uma camisa xadrez, e ele, um relógio. Tommy foi o próximo. O embrulho longo e fino logo se revelou um taco de beisebol.

- Porque faz um tempo que a gente não joga. Tá na hora de mudar isso.

Diggle e Lyla foram certeiros num kit com duas garrafas de uísque e um copo, afinal John era um aficionado da bebida. Barry deu um kit de carteira e chaveiro, e Roy deu uma caneca de cerveja.

- Acho que só falta eu. – Felicity falou.

Ele ergueu o olhar para ela, a sombra de seu Sorriso presente. Felicity levantou do sofá e foi até ele. Não sabia se era pelos olhares sobre si ou pelo fato de que aquele dia deixou mais que claro o quanto uma relação profissional deles evoluiu ou por imaginar a reação dele, mas ela se sentiu um tanto em expectativa.

Oliver prontamente pegou o presente assim que ela o esticou em direção a ele. Felicity ficou ao lado, esperando. Ele abriu o embrulho como todos os outros, rasgando o mínimo e mais metodicamente possível. A caixa surgiu, revelando o título do livro: Todas As Técnicas Culinárias da Le Cordon Bleu.

- Para quando o canal de culinária não tiver com a programação boa e você não ficar no tédio.

Oliver não disse nada, nem se mexeu, apenas fitava a caixa.

Felicity começou a ficar mais nervosa ainda com o silêncio. Será que ele não tinha gostado? Superestimara a paixão dele pela culinária? E quando estava nervosa, ela falava.

- Achei legal já que você gosta de cozinhar. Mas eu nem parei pra me perguntar se você já tinha isso ou não...

Na verdade, ele estava sem palavras porque estava profundamente tocado pelo presente.

Oliver enfim se mexeu e fixou seu olhar nela.

- Não, não tenho... Ou não tinha. – ele sorriu. – Eu adorei. Muito obrigado, Felicity.

Ela respondeu com um sorriso largo. O alívio a inundou como uma onda refrescante.

- Eu achei legal porque vem um avental também.

- Eu vi. – Oliver falou.

- Pra você encarnar seu Masterchef interior. – ela piscou.

Felicity achou por acaso enquanto procurava outra coisa num site. Quando bateu o olho no título, logo se lembrou dele falando no dia da pizza. Foi automático: aquele era o presente ideal. Comprou sem pensar duas vezes.


A curiosidade falou mais alto, e Thea puxou Tommy para um dos corredores da casa pouco antes do jantar.

- O quanto meu irmão é burro?

- Ele é tipo particular de idiota, mas por favor elabore. – ele respondeu.

- Tem algo acontecendo entre ele e a Felicity? Porque tem o jeito que ele olha para ela e eu acho que nunca ouvi o tom que ele usa com ela em toda minha a vida. Parece que ele se diverte de verdade com ela. Você os viu jogando sinuca. Ele até sorriu. Não me lembro de visto a última vez que Ollie sorriu. Tipo, um sorriso verdadeiro e fofo. E eles estavam flertando sem parar.

- Oh, isso explicaria muito.

- Tipo o quê?

- Que ele pode estar com ciúmes de mim. Com a Felicity. Embora não tenha nada acontecendo entre nós.

- Quando é que você notou isso?

- Quando ela foi à boate com as amigas. Ou como ele soou esquisito quando eu e ela fomos ao lounge bar. Ou como ele foi meio ríspido comigo hoje. Ou como ele meio que parecia perturbado quando eu zoava falando da beleza dela... que, aliás, ele totalmente nota. Ele estava tentando tanto não babar nela naquele biquíni. Tá, talvez babar seja demais. – O sorriso de Tommy crescia cada vez que falava.

Thea percebeu. Até ela mesma não pôde deixar de admirar Felicity. A mulher foi abençoada.

- O cara tava tão tenso. – ela concordou. – E pelo jeito que você tá sorrindo você não vai parar usar seu charme com ela. Você vai propositalmente e sem nenhuma vergonha flertar com ela só para deixá-lo doido, não?

- Você quer dizer que eu vou continuar sendo charmoso com a adorável Srta. Smoak até meu melhor amigo idiota admitir que tá afim dela? Nah, não é meu estilo. – Tommy falou zombeteiro.

Thea cruzou os braços.

- Eu condenaria isso se não tivesse uma parte de mim que vai gostar. – ela também sorriu brevemente e continuou, agora com mais sinceridade. – Faz um tempo que não vejo Ollie assim. Ele é tão melancólico e estoico. É bom vê-lo relaxado. E acontece que Felicity é uma ótima garota.

O homem a observou.

- Você já gosta dela, não é?

- Sempre admirei a figura pública dela, mas agora que a conheci... O que tem pra não gostar? Ela é a perfeita combinação de fofa e foda. Ela é dona da própria empresa. Ela a construiu do nada. Ela é engraçada, sem papas na língua e tão inteligente. E aparentemente é capaz de rachar a rigidez do meu irmão.

Tommy concordou com um sorriso.

- E para responder às suas perguntas. Sim, Oliver é burro. Mas não, não acho que tem algo acontecendo entre ele e sua protegida.

A animação de Thea deu uma esfriada.

- Provavelmente por que ele acha que não é ético se relacionar com um cliente.

- Sim. – ele concordou. – Isso seria bem Oliver.

- Sem contar que ele acha que não merece ser feliz. – Thea adicionou com o coração pesado. Sua voz saiu meio entrecortada. Tommy concordou tristemente. Eles conheciam o suficiente o TEPT de Oliver para terem certeza disso. – Mas está tudo aí. Os olhares deles, o jeito como se comportam... E hoje só confirma isso. Não vamos esquecer como ele a levou para dar uma volta no bosque. Sozinhos.

- E ele a levou à adega. – Tommy completou.

Thea arregalou os olhos para ele.

- Sério?

O homem não conteve um sorriso maroto.

- Seriíssimo. Pena que não para fazer o que eu faria sozinho com uma mulher bonita na adega. Luz baixa, isolamento... – Ela revirou os olhos. – Não me contive e fiz uns comentários quando os encontrei, e Ollie fechou a cara para mim. Por isso que eles estavam na cozinha naquela hora.

- E o presente! – Thea exclamou de repente. – Eles se conheceram há... o quê?... poucos meses?... e ela já sabe da paixão dele por culinária. Ollie não é do tipo de compartilhar a própria vida. E temos que admitir que foi o presente que ele mais gostou.


Assim que Rob chegou, Felicity lamentou um pouco. O dia fora tão agradável e tranquilo, e as companhias foram ótimas. Não queria que acabasse. Ela se despediu dos presentes enquanto Rob conversava com Oliver.

- Obrigada pelo biquíni. – Felicity falou a Thea.

- Ah, não foi nada. Ele tava jogado há um tempinho no meu armário. Parecia que tava esperando você e esse seu corpo maravilhoso.

Felicity corou.

- Ai, espero que volte mais vezes! – a mais jovem disse.

Felicity não podia deixar de ficar surpresa com o quanto Thea parecia já gostar dela e pela rapidez também.

- Bom, gosto de pensar Felicity está a uma ligação de distância. – Walter falou aparecendo ao lado delas.

- E estou. – a CEO sorriu.

Ela rumou para o saguão de entrada, onde Oliver estava parado próximo à porta, tendo acabado de se despedir tanto de Barry quanto de Rob, que foi pegar o carro.

Ele se virou para ela. Nenhum dos dois pensou. Quando Felicity foi em direção a ele, Oliver abriu um dos braços. Felicity já entendia porque o mesmo impulso passou por ela. Eles agiram por pura naturalidade, não houve sequer hesitação. Ela esticou os braços também, e eles mergulharam um no outro, num abraço. Ela o envolveu pelos ombros e pescoço, tendo até que ficar na ponta dos pés para alcançá-lo melhor, e ele cruzou os braços na cintura dela.

Foi apertado, foi gentil, foi sincero, foi cheio de ternura. Seus corpos se uniram, se encaixaram como se não fosse a primeira vez. Oliver exalou com calma, suas pálpebras tremeram e ele inevitavelmente fechou os olhos. Ficou ainda mais relaxado. Felicity desfrutou do calor, da completude e da sensação de segurança.

Eles ficaram daquele jeito por um tempo. Ela foi quem se afastou, embora nem tanto assim; Oliver ainda segurava a cintura dela com uma das mãos. Eles se fitavam.

- Obrigado por ter vindo. E pelo presente. – ele disse.

- Obrigada você pelo convite. Tô feliz que gostou do livro. Achei que seria o presente perfeito.

- E é.

Felicity sorriu.

- E fique sabendo que resisti à tentação de voltar na adega, pegar o Lafite e sair correndo daqui. – brincou.

- Vou conferir só pra desencargo. – ele devolveu.

Ela se aproximou de novo, segurou o rosto dele e o beijou na bochecha.

- Tchau, Oliver.

- Até segunda, Felicity.

Ele a acompanhou com o olhar até ela cruzar a porta. No corredor, Thea observou tudo.

Oliver e Felicity eram dois imãs desesperadamente tentando não agir como tal.

O que se torna insustentável em algum momento.


NA: E esse "momento" já tá escrito, devo avisar! ;)

Maaaas vai demorar um pouquinho ainda, confesso. Eu preciso de umas coisas acontecendo antes. Vocês aguentaram até aqui, conseguem aguentar mais pouco. Estamos chegando, galera!

Eu deveria... pedir desculpas pelo tamanho...? Socorro, eu nunca tinha escrito um capítulo tão gigante (meu recorde antigo era 12.987 palavras, eu chequei).

Falei no anterior que esse seria um capítulo mais leve. Isso não vai se manter pra frente. As coisas vão ficar meio dark. Vai ser uma montanha-russa de emoções ;D

Espero que tenham gostado. Vou tentar não atrasar tanto o próximo. Até breve!