Regra nº 1 de convivência com Oliver Queen: se ele está descendo a porrada no boneco de treinamento, algo está errado.

Diggle entrou na academia achando que seria mais um dia de rotina. Ao se aproximar de onde seu parceiro estava, começou a ouvir os sons familiares. Oliver, com um bastão bo em mãos, movia-se rápido como um raio, seus braços quase um borrão. Cada golpe era preciso, poderoso e letal; tamanha a força aplicada fazia o objeto tremer, o choque deles criando uma sinfonia agressiva que viajava pela atmosfera.

- Oi, Oliver.

Ele continuou por mais alguns instantes até reduzir o ritmo e parar. Partiu o taco ao meio e jogou os pedaços num canto, depois olhou para Diggle e acenou a cabeça em cumprimento.

- Tudo bem? – John perguntou, mesmo já sabendo a resposta.

- Eu to bem. – Veio a resposta rápida e um tanto seca.

Regra nº 2 de convivência com Oliver Queen: se ele diz que está bem, ele não está.

Diggle também sabia que não conseguiria arrancar a verdade nem tão cedo – quando conseguia, para ser mais exato. Oliver compartimentava, armava-se de sua pose, escondia, escondia até que ele estourava e botava para fora em fúria.

Ele só não sabia se essa bomba relógio iria estourar hoje.

John começou sua própria série. Depois, os dois treinaram luta juntos. Trocaram algumas palavras, mas Oliver estava monossilábico. Quando terminaram, ao invés de sair, ele voltou com os punhos para o boneco.

- De novo? Quando eu cheguei você tava nisso! – o outro não se conteve.

- John. – Oliver falou, a voz naquele tom que parecia calmo, mas deixava implícito o perigo.

Uma pausa. A expressão de Oliver falhou um pouco. Diggle achou que ele iria desabafar.

- Eu só preciso... – ele começou a dizer. Diggle esperou.

Mas a resposta completa não veio.

Diggle, resignado, foi embora. Ficou pensando o que acontecera ultimamente para deixar o melhor amigo tão incomodado. Poderiam ser as tentativas de ataque à cliente deles, mas lidara com coisas muito piores no Afeganistão. Oliver ficava confortável na linha de fogo.

No entanto, quando se tratava de coisas mais relacionadas à vida...

Após o fim de semana do aniversário, Diggle praticamente confirmou suas observações e suspeitas. Em todos os anos que o conhecia, Oliver nunca fora protetor com alguém. Nem seu trabalho parecera tão pessoal. Ele podia ser especialista em estratégia e segurança e um profissional notável, mas era uma negação com sentimentos.

E Diggle tinha quase certeza que havia algo por Felicity brotando nele. Via as sutis, mas significativas mudanças em Oliver desde que começou a trabalhar para ela, especialmente quando ele estava na órbita dela. O suficiente para fazê-lo sorrir – verdadeiramente, sinceramente, como nunca visto. O suficiente para amenizar a tensão em sua postura, e ele não parecer mais que carregava o peso do mundo nos ombros. O suficiente para fazer sua melancolia e sisudez racharem.

Talvez o suficiente para destruir as barreiras que ele mesmo construíra ao redor de si.

Talvez o suficiente para fazê-lo sair da prisão em que ele mesmo se colocara.


Oliver não era covarde. Ele não era de se esconder. Não tinha como ser assim e um soldado, onde absolutamente tudo o que você era influencia nas suas chances de sobrevivência. Por isso, ele sabia que tinha que admitir coisas para lidar com elas e seguir em frente. Para não enlouquecer.

Como ele estar atraído por sua cliente.

Seu punho acertou com ainda mais força o boneco. Seu maxilar se contraiu.

Como ele sentir algo por Felicity.

Outro golpe letal. E depois outro e outro.

Por isso todo o comportamento estranho com seus amigos. Ciúmes. Pelo amor de Deus, ele estava com ciúmes de Barry Allen. Barry Allen!

Ele treinava – ou melhor, agredia o boneco – na esperança de que aquilo fizesse sentido. Só porque aceitara não significava que fizesse algum.

Oliver era traumatizado e repleto de sombras. Ele tinha um oceano tenebroso dentro de si. Cometera atos terríveis e havia uma parte dele, vinda de suas habilidades, que gostara disso, e ele se enojava dela, de si.

Como um sentimento tão... Comum? Simples? Não, não era simples. Inferno, isso ele soube no momento que admitiu. A palavra certa lhe era sussurrada, como se viesse lá do mais profundo de suas águas, um lugar que recentemente percebera, mas ele relutava em admitir.

Como um sentimento tão humano estava se desenvolvendo nele? Como ainda podia? Ele achava não ser mais capaz.

Havia tanta coisa que Oliver via errado dentro de si que de fato não era.

Seus braços voavam a cada golpe. Ele intercalava movimentos de ataque, defesa e para esquivar, coordenando-os com seus pés.

Era tão errado. Por vários motivos.

O primeiro deles era óbvio. Ela era sua cliente. O que devia ter havido entre eles era uma relação profissional. Apenas.

Mas ela tinha que ter vindo com seu humor, seus sorrisos, sua sensatez, sua empatia.

Sua luz.

Ela era o ser mais iluminado que já conhecera. Não havia ninguém mais no mundo que irradiasse luz com tanta naturalidade. Felicity não se escondia. Ela era seu completo oposto.

Por isso ele ficou intrigado com ela desde o momento que a conhecera. Felicity o desarmou completamente. Na verdade, assim que a viu arregalando os olhos com a caneta vermelha – jamais se esqueceria da caneta –, era como se o ato que ele punha todos os dias nunca tivesse existido. Ele era apenas Oliver, o resultado de todas as experiências pelas quais passara. Nada de soldado, nada de playboy, nada de espião.

Apenas um homem.

E assim ele sorriu genuinamente pela primeira vez em anos.

Ele devia saber que já estava perdido desde o início.

O outro motivo porque era errado era por ele mesmo. As pessoas que se aproximavam dele se machucavam. A última, há dois anos...

Seu coração acelerado pelo exercício apertou, comprimiu, e ele errou próximo golpe. O canto de sua visão embaçou. Elas voltaram. As lembranças, as piores de todas, as mais difíceis de conter. Ele parou por um instante e baixou os braços, o peito subindo e descendo amplamente, tentando normalizar o fôlego, porém era menos pelo treino.

Controle. Ele tinha autocontrole. Oliver respirou fundo, armando-se de sua blindagem emocional, arrancou as memórias da mente e as enterrou de volta. A mudança nesse caso específico não era tão súbita, demorava alguns segundos, mas ele conseguiu. Ele nem se incomodou com a dor, estava acostumado, estava fadado a conviver com ela pelo resto da vida.

Oliver fitava um ponto a frente. Voltou a pensar em Felicity. Por mais que não fosse apropriado, ainda era melhor que sua história.

Percebeu como a simples imagem dela o acalmou de um jeito rápido, mas natural.

Tão errado.

A luz dela estava passando para ele, penetrando-o em pequenos, mas poderosos feixes. Seria possível?

Ele devia se regozijar dela, porém isso significava que poderia ser uma via. A escuridão dele poderia passar para a CEO.

Outro motivo: o trabalho dele era protegê-la. E ele mesmo tinha um alto potencial para machucá-la. O que significava que tinha que protegê-la dele.

Lutar não adiantou. Oliver foi até a parede, se apoiou por um segundo depois deslizou até sentar no tatame. Olhou para as mãos. As juntas estavam ligeiramente avermelhadas pelos movimentos incessantes. Não sabia há quanto tempo estava mergulhado neles.

Ele não se lembrava de ter passado por um turbilhão de sentimentos como aquele. Sentimentos bons.

Oliver podia estar confuso, mas de uma coisa tinha certeza: jamais poderia se entregar a essa atração.

Tudo se manteria o mesmo se ele mantivesse seu controle.


O treino do dia foi substituído por jantar num restaurante chinês. Ao contrário da última vez em que estivera num lugar do tipo, ainda no começo do trabalho, Oliver e Diggle não olhavam Felicity de outra mesa ao longe, e sim estavam sentados junto com ela. O clima também não era esquisito e de adaptação, mas sim de descontração.

E aquele era um restaurante tradicional, ao julgar pelo fato de Oliver estar falando em mandarim com o garçom. Felicity não devia mais se surpreender, mas ainda sim o fazia.

- Jiùshì zhèyàng. Xièxiè.

Quando o garçom se afastou, ela falou:

- Russo, chinês... O que mais?

- Árabe. – ele respondeu.

- A escola de idiomas da ARGUS é outro nível.

- Não posso negar que na ARGUS minhas habilidades melhoraram, mas não foi onde aprendi. Aliás, você meio que acertou, pois lá tem como aprender novas línguas.

- Russo eu sei, árabe eu presumi que captou no Oriente Médio... Agora o chinês?

- Também lá. – Oliver respondeu e deu uma pausa hesitante. – Eu... conheci alguém lá.

- Oh. – ela fez, não sabendo mais o que dizer com mais esse novo pedaço dele. Algo lhe dizia que essa pessoa foi mais que um amigo. O que importava quem Oliver amara?

- Mas Diggle sabe árabe mais que eu. – ele apontou para o parceiro, sentado ao lado de Felicity.

- A diferença não é tanta assim. – o outro contrapôs.

- Só sei que é um hall interessante de idiomas para saber. Eu só tenho meu francês e olhe lá. – ela falou.

As bebidas deles vieram. Diggle puxou um envelope de seu terno e o estendeu a Felicity. Curiosa, ela pegou e abriu. Era o convite de casamento dele e Lyla.

- Sorte que ainda havia alguns modelos sobrando. E sei que está meio em cima da hora, mas eu não imaginei que meu novo trabalho me traria uma grande amiga.

Ela estava surpresa e tocada.

- Obrigada, Dig. É claro que eu vou. – Sorriu para ele. – Parece que perdi um guarda-costas para o fim de semana. – ela se virou para Oliver. – E talvez outro?

- Receio que sim.

- Ele vai estar em missão. – Ela franziu o cenho em confusão. – Ele vai ser meu padrinho. – Diggle esclareceu.

- Aw, que amor. – O sorriso se espalhou mais ainda pelo rosto dela. A amizade dos dois era incrível. Ela olhou a data. – Sorte que não bate com a viagem para a Europa.

A viagem aparecera um tanto repentinamente, e Felicity aproveitou não somente para talvez fechar um novo negócio – dessa vez legítimo, ela checara – como também para visitar filiais da Smoak Tech em outros lugares e, por que não, dar uma passeada também. Era sua primeira visita ao velho continente, afinal! Ela estava bem animada...

Mesmo que o turismo também incluísse um encontro com o líder da Bratva.

Anatoly respondera, através de Oliver, que os dois poderiam se encontrar na Espanha. De acordo com o russo, ele já estava com o compromisso marcado e era a oportunidade perfeita. Felicity ficou apreensiva com a notícia, porém sabia que tinha que fazer aquilo de um jeito ou de outro.

- Foi a primeira coisa que chequei assim que a viagem surgiu. – Diggle pausou. – Mas a lua de mel bate. Era mais por isso que eu queria informar você.

Felicity logo entendeu o que ele quis dizer.

- Não, você vai na sua lua de mel. Você iria mesmo se não tivesse a Europa. Nada mudou. Você não vai deixar de aproveitar seu casamento ao máximo por minha causa.

Ele olhou de um lado da mesa para outro, indo de Oliver a Felicity.

- Mas vocês precisam de mim, principalmente você, Felicity. Não quero falhar com meu dever com você.

- Você não vai. – ela disse sorrindo com o canto dos lábios de jeito suave. – Oficialmente se chama férias. É um direito seu. E é sua lua de mel, não é uma viagem qualquer.

- Dig, não vou negar que ter você lá ajudaria muito. – foi a vez de Oliver de se pronunciar. – Mas Felicity está certa.

- Whoa! – ela soltou baixinho. – Mais um para o registro. – murmurou.

Oliver a ignorou.

- Deixa comigo. Eu consigo lidar com isso. Tenho a vantagem de conhecer os russos.

- Não deixe nada acontecer a nossa garota.

- Jamais. – Oliver deixou escapar um pequeno sorriso também.

Felicity sentiu o afeito preencher seu peito. Oliver e Diggle, seus fiéis escudeiros.

Diggle informou que a noiva já conseguiu umas informações preliminares na ARGUS. Felicity conheceu Lyla no aniversário de Oliver, e ela era uma mulher sensacional. As duas logo se entrosaram. A CEO não pôde deixar de sentir uma empolgação por conhecer uma espiã na ativa. Já Lyla, bastou um encontro para evaporar os restos de suas suspeitas sobre Felicity. Ela era tão encantadora quanto Oliver e Diggle apontaram.

- Vamos buscá-la aqui perto assim que sairmos daqui e ela relatará seus achados durante o trajeto até seu apartamento. – Ele olhou para a cliente, que acenou, já tendo brincado com a tecnologia do carro o suficiente para impedir que informações saíssem dali.

Felicity se fartou de dumplings como era o objetivo da ida até ali. Ela saiu do restaurante com o estômago cheio e contente. Eles pegaram o carro e partiram. Nem deu cinco minutos e pegaram Lyla num local que parecia aleatório para Felicity, e talvez esse fosse o objetivo.

- Oi! – ela cumprimentou a outra alegremente assim que essa sentou ao seu lado.

- Boa noite, Felicity. – a agente sorriu.

Lyla foi direto ao assunto:

- Acredita-se que Overlord é o líder da Helix, um grupo de hackers que oferece serviços ilegais de programação e hacking para criminosos.

- Tipo uma consultoria de informática dos vilões. – Felicity comentou. – Algo me diz que esse nome não é desconhecido...

- Eles são extremamente bons no que fazem e isso explica a falta de informações e rastros de seus membros.

- O que também pode explicar por que Felicity não conseguiu identificar seus sequestradores. – Diggle adicionou.

- Sim, ainda mais que acreditamos que eles têm alguma força paramilitar para sua própria proteção.

- Tá praticamente confirmado que esses caras me sequestraram. E havia um expert em computação com eles. – a CEO ponderou.

- Eles também têm um sistema de comunicação complexo, tanto que a ARGUS ainda não entendeu plenamente. Basicamente é isso. As informações eu juntei aqui. – Lyla entregou a Felicity uma pasta. – É uma mistura de material escrito e digitado. Não é como se as pessoas não fossem notar eu imprimindo um bando de coisas relacionadas a um caso. Também não me arrisquei a sair com nenhum dado digital.

- Seria interessante. Eu poderia fazer uma busca mais rápida.

- Vou ver se consigo algo. – Lyla notou que os homens estavam em silêncio. – Meninos?

Oliver não dissera nada até então, pois seus olhos, quando não estavam na direção, estavam nos retrovisores. Diggle, percebendo o parceiro, começou a avaliar também.

- Carro. – disse simplesmente.

Lyla também entrou no modo alerta. O carro caiu em silêncio. Felicity ficou um tanto apreensiva. Ela olhou para trás, porém não identificou nada tão suspeito num primeiro momento, mas confiava nos amigos.

Oliver alterou o trajeto diversas vezes e conseguiu despistar quem os seguia. Quando chegaram ao loft de Felicity, ele subiu junto com ela enquanto Diggle e Lyla vasculharam brevemente o prédio.

- Você não devia ter feito isso. – Felicity disse a Lyla assim que ela entrou no apartamento. – É o trabalho deles.

A agente deu de ombros.

- Já é instinto. Além do mais, eu não arriscaria minha posição por qualquer um. – ela abriu um pequeno sorriso.

- Muito obrigada pela ajuda.

- De nada. Na verdade, agradeça mais àqueles dois. – Lyla olhou para o noivo e Oliver, que estavam próximos à porta da varanda conversando. – Eles têm uma opinião respeitadíssima de você. E vejo que não estavam errados.

Felicity devolveu com um sorriso acanhado.

- Johnny te deu o convite?

- Sim. Obrigada por isso também.

Os homens se aproximaram delas.

- Vamos? Já tá passando da hora da babá. – Diggle disse a Lyla.

- Eu vou ficar aqui por um tempo ainda para garantir. – Oliver disse. Felicity apenas olhou para ele e sussurrou um "Ok" para si mesma.

O casal foi embora. Felicity se virou para Oliver.

- Eu nunca vi alguém tão viciado em horas extras.

- Não é como se eu tivesse mais o que fazer. – ele falou.

- Você sabe que as janelas aqui são todas blindadas, certo? – E qual janela hoje em sua vida não era fortemente reforçada, Felicity pensou com um quê de amargura. – Enfim, vou tomar um banho. – Ela pegou a bolsa e os sapatos e subiu.

Felicity queria mesmo era afundar na banheira, mas, com ele ali, se conteve com uma ducha. Pôs uma blusa e uma calça e desceu de novo. Ao descer novamente, encontrou Oliver encostado na grade da varanda. Ele tirou o blazer e a gravata e abriu os dois primeiros botões da camisa. Ela viu as peças sobre uma poltrona. Ele contemplava um prédio e parecia perdido em pensamentos.

- Vendo se tem alguém subindo minha varanda? – disse apoiando-se ao lado dele.

- Tudo limpo.

- Alguma coisa na cabeça? Você parece bem curioso com aquele prédio ali. – Ela o indicou com a cabeça.

- Nada novo. – ele desconversou.

Ela olhou para frente.

- Aqui tem um visual bem legal, não?

O loft era privilegiado. Naquela parte do bairro não havia prédios de altura considerável, e os que havia era do tamanho do dela, ou seja, pouco altos, e eram poucos, espaçados. O resultado era uma ótima visão da cidade, uma mistura perfeita de árvores e construções. No horizonte era possível ver o contorno da baía. O pôr do sol ali era bem bonito.

- Tem sim. – ele concordou.

- Vou pegar algo para comer. Quer alguma coisa?

Ele enfim se mexeu e se virou para ela.

- Nós acabamos de jantar.

- Mas não teve sobremesa. É hora do chocolate.

Felicity foi até a cozinha, pegou a caixa fechada com bombons que comprara recentemente e voltou.

Oliver foi embora uma hora depois. Durante quase todo o tempo, eles ficaram do lado de fora, observando a cidade. Dali nem parecia conter os horrores que queriam destruir Felicity. Ela comeu os bombons, Oliver disse que só ia experimentar um, mas acabou comendo alguns. Eles quase não conversaram, porém não foi necessário, até mesmo a tensão entre eles suavizou; ficaram apenas desfrutando da companhia do outro. Felicity nem precisou daquilo para aliviar sua apreensão, que só durou a volta do restaurante mesmo. Era um silêncio que ela não precisava preencher.


Nos próximos dias, os guarda-costas revezaram para cada um ficar com ela por um tempo após voltar para casa, mas quem quer que perseguira seu carro não apareceu novamente.

Num dia, Felicity chegou ao loft quando já era noite. Ela largou a bolsa no aparador e se desfez dos sapatos no tapete. Nem se deu ao trabalho de ligar a luz, a única iluminação vinha dos feixes que entravam vindos do mundo lá fora e da lua. Desabou na chaise longue da sala de estar e fechou os olhos, respirando fundo.

- O dia não pareceu tão cheio assim.

Ela abriu os olhos e viu Oliver parado do outro lado do sofá, as mãos nos bolsos da calça. Estava prestes a responder quando percebeu o olhar dele nela. Seu raciocínio falhou. Estranhamente, a mistura de escuridão e luz baixa tornava os olhos dele ainda mais azuis.

Os dois trocaram olhares carregados antes. Contudo, daquela vez, Oliver não escondia nenhum pouco o peso e a intensidade. Como na boate. O que provocou a mudança? Não interessava. Ela simplesmente não conseguiu desviar.

Felicity arfou, e aquilo de alguma forma serviu como permissão para o guarda-costas se aproximar. Ele cruzou a distância num andar tranquilo, sorrateiro, esbanjando confiança, os olhos não desviando um segundo. Ele sentou na borda da chaise.

A mulher ficou tensa, o coração disparou, o ritmo da respiração alterou. Sobressaltou-se quando sentiu a mão direita dele envolver seu tornozelo.

O toque era suave e firme. A maciez da pele dela contrastava com a aspereza dele. Oliver subiu e desceu a mão languidamente num caminho curto. Um arrepio surgiu dali e explodiu por todo seu corpo. A fricção elevou sua temperatura. Mais um suspiro lhe escapou.

Ele ainda sustentava seu olhar, o desejo tornando-se mais claro a cada segundo. Felicity batalhava para manter a compostura.

A mão de Oliver subiu, passando pela canela dela, pelo joelho, indo parar na parte inferior da coxa. Ele a apertou gentilmente e foi quando Felicity abandonou a cautela. Relaxou. Permitiu-se sentir. Devolveu o olhar dele do mesmo jeito, deixando a atração guiá-la. Oliver estreitou os olhos momentaneamente com a reação dela e um sussurro baixo e rouco escapou de sua garganta.

A intimidade dela reagiu e começou a pulsar. Sentiu a umidade surgir.

Oliver começou a acariciar a coxa, o movimento um pouco mais forte que o anterior. A palma estava completamente em contato com a pele dela. Num momento, ele subiu a barra da saia dela.

O caminho mudou. Ele deslizou a mão para a parte interna da coxa. Felicity sentia-se mais excitada a cada segundo. Ela afastou as pernas um pouco, expondo-se a ele, convidando-o.

Oliver parou por um momento a carícia, baixou a cabeça e encostou os lábios onde a mão estivera, tão perto da virilha, tão perto de onde ela o queria. O toque foi breve, uma tortura, mas serviu para fazer Felicity gemer. A luxúria tomou conta de seu ser. Estava completamente molhada agora.

Ele deslizou a mão por entre suas pernas. Seus dedos esbarram em sua calcinha, provocantes, depois traçaram o contorno de sua intimidade com um pouco mais de pressão. Felicity agarrou o estofamento com força, e os segundos que se passaram pareciam uma eternidade enquanto ele a torturava, torturava.

Oliver enfim tirou a peça de roupa para fora do caminho, e Felicity jogou a cabeça para trás e soltou um gemido alto quando os dedos tocaram seus lábios. Depois, acariciaram toda sua intimidade, variando pressão e velocidade. Ela reagiu soltando sons incoerentes misturados ao nome dele, a sanidade lhe abandonando, o prazer subindo, subindo e, oh, ela esperava muito que ele a levasse ao limite e o estilhaçasse...

O polegar dele se juntou e deslizou pela umidade, depois subiu para seu ponto de prazer, circulando-o, massageando-o. A aspereza dele a deixava ainda mais sensível. Os quadris dela começaram a se contorcer.

Dois dedos dele lhe penetraram, fáceis devido à excitação dela, e mais um gemido agudo foi arrancado dela. Suas paredes internas se contraíram, deliciando-se com o toque. Ele enterrou os dedos fundo antes de começar a movimentá-los.

- Olhe para mim, Felicity. – a voz dele saiu num misto de autoridade e suavidade.

Ela ajeitou a cabeça e tornou a fitá-lo nos olhos. Sentiu mais um arrepio. Ela apoiou sua própria mão sobre a perna dele, firmando-se enquanto ele a levava à loucura. Seus quadris entraram no ritmo, indo para frente e para trás, ampliando o prazer.

O polegar voltou mais uma vez ao clitóris. Os movimentos ficaram rápidos, desesperados, os gemidos mais altos. Felicity sentiu Oliver prestes a arrancar o orgasmo de si, que lhe invadiu de repente, e ela emitiu um grito...

E a cena se dissolveu.

Felicity percebeu que na verdade estava em seu quarto, sua cama. Tudo não passara de um sonho.

Quase tudo.

Seu coração estava martelando no peito, assim como seu sexo. Contudo, agora era diferente porque ela estava de volta à realidade e não conseguia acreditar que estava excitada por causa de Oliver, que tivera um sonho erótico com ele...

Que porra aquilo significava? Ela bem sabia, mas recusou-se a admitir. Não, não, não. Aquilo não era possível.

Calma. Ela precisava de calma. Parou, fechou os olhos de novo e controlou a respiração. Inspirou, prendeu o ar três segundos, expirou. Repetiu algumas vezes.

Mais sã, ela voltou a dormir. Ainda se sentia agitada, e o pulso entre as pernas não ajudava. Vários minutos se passaram, e ela continuou desperta. Se continuasse assim, ficaria um caco para o trabalho no dia seguinte. Droga.

Só estava fazendo aquilo para resolver a situação, repetiu mentalmente. Porém seus dedos ainda estavam trêmulos quando ela segurou a barra de seu short e puxou-o para baixo, a calcinha indo junto. Jogou as peças para o lado e afastou as pernas. Seus nervos se agitaram em expectativa, assim como seus mamilos.

Ela se tocou e fechou os olhos imediatamente, um suspiro lhe escapando. Estava tão molhada quanto no sonho – ou seria que estava molhada no sonho por causa da realidade? Acariciou-se, mas não era como se precisasse construir a excitação. A mão esquerda deslizou por baixo da blusa, segurando num de seus seios, tocando-o, apertando-o, sentindo o mamilo intumescido.

Repetiu os movimentos do sonho, e a imagem de Oliver inevitavelmente lhe veio à mente. Fantasiou que as mãos pertenciam a ele. Felicity deixou-se levar.

Sua outra mão, depois de acariciar o outro seio, deslizou pela blusa, sensualmente por seu abdome, disparando arrepios, e foi para seu clitóris, estimulando-o – e seu êxtase disparou, subiu num ritmo frenético.

Deslizou os dedos foram para dentro de si. A fricção e o jogo de suas mãos – das mãos de seu guarda-costas – a enlouqueceu rapidamente. Atingiu o clímax, dessa vez de verdade. Seu corpo todo se contraiu, a costas arqueadas, a cabeça estava virada para trás, o grito cortou seus lábios. Era como uma onda colidindo com um penhasco, forte, bruta e incrível, espalhando umidade. Sentiu-se escorrendo até mesmo para o colchão. A onda demorou a propagar, e mesmo quando os movimentos dos dedos e quadris diminuíram naturalmente, ainda sentiu arrepios e espasmos percorrendo seu corpo.

Lambeu os dedos, limpando-os, a respiração completamente fora de controle. Só então Oliver dissolveu de seu delírio.

Vestiu novamente a calcinha. Quando fechou os olhos, adormeceu mais fácil do que a primeira vez.


Felicity acordou. A campainha ainda ecoava pelo ar. Grogue, perguntou-se que diabo era aquilo até que um choque de consciência lhe atingiu. Sentou rapidamente, a cabeça chegou até a girar, e viu a hora. Puta que pariu, já eram mais de 8:30. Nunca estivera tão atrasada.

De repente estava desperta. Pulou da cama e por sorte lembrou que estava só de calcinha e blusa e colocou o short. Saiu em disparada do quarto, desceu as escadas. Alguém batia na porta lá fora com força e, sem prestar atenção no alarme, Felicity a abriu.

E lá estava Oliver Queen, o motivo de sua insônia e atraso.

As memórias da noite anterior vieram numa enxurrada.

Ela ficou em choque por dois segundos até perceber a postura alerta dele. Estava até mesmo com a arma em mãos.

- Desculpa, desculpa, desculpa! – exclamou incessantemente.

Oliver fechou os olhos por um momento e exalou em alívio. Ele colocou a pistola de volta na cintura.

- Porra, Felicity. Eu estava quase derrubando essa porta. – disse com um tom ainda carregando preocupação.

- Eu sei, eu sei. Desculpa mesmo. Acordei agora. Me atrasei. – ela falou rápido.

Felicity abriu espaço, e ele entrou, fechando a porta. Ela encontrava-se estranhamente agitada e imobilizada. Seus dedos entrelaçavam-se uns nos outros. Seu cérebro apontava a chaise longue, exatamente a mesma do sonho, bem ali, atrás dela.

Oliver pegou o celular e digitou algo.

- O que é isso?

- Estava avisando a Diggle que você está bem. – ele levantou o olhar para ela. Felicity se esforçou para se concentrar no agora. – Liguei pra você várias vezes.

- Imagino. Mas meu celular estava para vibrar. – ela respirou fundo para se acalmar. – Segura aí que eu me arrumo rapidinho e vamos sair.

Ele balançou a cabeça em afirmação. De repente Felicity se deu conta de seu traje. O short mal chegava à metade de suas coxas, a blusa do pijama era larga e era provável que estivesse mostrando para ele a curva lateral dos seios.

- Dez minutos! Ou menos! – exclamou e correu para a escada.

Pegou o primeiro vestido que viu no closet e lingerie. Tomou a chuveirada mais rápida do mundo com o objetivo principal de acalmar qualquer vestígio da noite anterior. Colocou os óculos, rapidamente arrumou o cabelo no rabo de cavalo clássico. Pegou a bolsa, uma nécessaire de maquiagem que ela nem sabia o que tinha dentro, mas que rezava para ser suficiente, e colocou dentro da bolsa. Antes de sair, pegou um par de sapatos e correu para o primeiro andar.

- Ah, o celular! – exclamou. Sem pensar, empurrou os sapatos para as mãos de Oliver, que a olhou confuso enquanto ela subia de novo. Pegou o celular e o carregador e desceu de novo.

- Nove ligações de você e Diggle, uau! – disse olhando para a tela. – Desculpa de novo. – falou olhando para ele.

Incrivelmente Oliver suprimiu uma risada.

- Vamos, Felicity.

Ela não conseguiu deixar de pensar em como o nome dela soou como no sonho. Um arrepio lhe percorreu a espinha. Aquele seria um dia difícil.


Felicity entrou no carro que nem um pequeno furacão.

- Oi, Dig! Desculpa o susto!

- Só estou feliz que esteja bem. – ele disse, entrando e ligando o motor.

Oliver acabou sentando ao lado dela no banco traseiro, ainda carregando os sapatos. A ida à empresa foi agitada. Primeiro ela pegou o celular.

- Jerry, oi! Escuta, eu acabei me atrasando demais hoje, mas to a caminho. Pode fazer um favor para mim? Odeio te pedir isso, mas, enfim... Pode pedir pra mim café da manhã naquele lugar que eu volta e meia vou? Pede um daqueles cafés fortes especiais, vou precisar hoje... E uma quiche. E um muffin de frutas vermelhas. Eu pago quando chegar... Ok? Muito obrigada! Tchau!

Felicity largou a bolsa sobre o banco e pegou a nécessaire.

- Por favor, me diz que tem coisa boa aqui. – falou vasculhando. Oliver não conseguia nem nomear um produto. Ela puxou um batom e exclamou surpresa. – Ah, esse é um dos meus favoritos da vida! Achei que tinha perdido no sequestro. – Era uma cor única; um vermelho puxado para o rosa, um tanto escuro, mas suave, perfeito para qualquer ocasião, por isso ela o adorava.

Ela o jogou no banco para poder passar os outros produtos primeiro. Oliver, sem pensar, o pegou e leu o nome.

- Nem tente ver alguma lógica nos nomes. Não existe. – ela disse ao vê-lo franzir a testa.

Ele já vira mulheres se maquiando antes, mas observou-a intrigado. Ela, distraída, nem percebeu. Ainda rearrumou o cabelo umas duas vezes antes de colocar os sapatos. Foi então que se lembrou da massagem e... bem, o dia mal começou e já precisava. Ela apertou os botões, recostou a cabeça no banco, fechou os olhos e relaxou. Quase se esqueceu de ler algumas coisas do trabalho, mas logo lembrou.

A comida já estava lá quando ela chegou ao escritório.

- Jerry, você é um anjo. Um anjo. – disse apressando-se para abocanhar a quiche.

Felicity incrivelmente conseguiu não sujar a mesa toda enquanto comia e trabalhava ao mesmo tempo.

Só depois que se acalmou que percebeu que o clima parecia... anormalmente abafado. Ainda não era verão. Ela olhou para os guarda-costas, que pareciam desconfortáveis dentro dos ternos.

- Parece que o sistema de refrigeração central está ruim. – Diggle comentou.

Ela não sabia de nada disso. Convidou Jerry a entrar.

- O que está acontecendo? – ela agitou os braços, tentando indicar a temperatura.

- Ah, houve um pequeno problema com a manutenção rotineira do ar. Vai demorar um pouco a voltar ao normal. – ele prontamente respondeu. – Foi me informado que o prazo seria até o fim do horário comercial, Srta. Smoak.

- Espero que seja mesmo, pois senão vou ter que fazer ligações e usar minha voz alta. – Ela olhou brevemente para o calendário na tela do computador. – Aliás, só relembrando que passarei boa parte do dia na Modelagem. Por sorte tava marcado para mais tarde.

O Departamento de Modelagem da Smoak Technologies era um dos mais avançados e mais importantes do mundo, a julgar pela quantidade de dados únicos que gerava. Provavelmente era o setor mais crucial da empresa e um dos que tinha segurança e acesso mais reforçados. As informações serviam tanto para o desenvolvimento de novos produtos e atualizações de produtos existentes como também para o Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento.

Era um dos locais favoritos dela, pois misturava diversas áreas, como programação, engenharia e física, o que fez com que aumentasse seus já vastos conhecimentos sobre os fenômenos da natureza. Ele nasceu mais da paixão dela por aprender e desvendar incógnitas do que para fins comerciais mesmo, embora ajudasse e muito nos lucros. Sem contar que ela nunca foi o tipo de CEO a se trancar no escritório e ficar separada do resto; ela gostava de caminhar pelos setores, saber e ver o que sua empresa estava fazendo, falar com os funcionários.

- Sei disso, senhorita. – disse Jerry e então saiu.

Felicity voltou sua atenção para Oliver e Diggle.

- Acho melhor vocês tirarem esses ternos, pelo menos.

Eles obedeceram. Diggle, não muito depois, acabou saindo e ficando no corredor, pois, na opinião dele, lá corria ar e estava mais fresco que o escritório. Felicity de repente se tocou que estava sozinha com Oliver.

Ela caprichou na garrafa de água antes de voltar a trabalhar e focar no novo produto que a empresa lançaria. Contudo não conseguiu afastar completamente seus pensamentos.

Sua fantasia.

Forçou-se a manter os olhos na tela do computador, mas bastou apenas um desvio de milímetro para se perder. Ergueu o olhar um pouco. Oliver estava de pé, próximo à janela, olhando para fora, porém ela sabia que ele estava atento a qualquer mínima perturbação no ambiente. E como aquele dia já estava marcado pelo incidente do sonho, é claro, é claro, ele arregaçou as mangas, deixando os antebraços de fora.

Ela contemplou os músculos levemente contraídos, as veias saltadas, os pelos do braço. Desceu para os dedos. Longos, bonitos e fortes. Dedos que já a tocaram. Nos ombros, nos braços, na boca, na cintura. Quando se abraçaram, quando treinavam.

Mas não onde desejava. Não dentro dela.

Arrepios. Felicity teve que apertar suas coxas uma contra a outra para evitar a ânsia de atingi-la. Mesmo assim, sentiu-se consciente de sua intimidade. Comprimiu os lábios.

Era muito pior tê-lo ali logo a sua frente fisicamente a sua frente. Realidade e imaginação se misturavam. Oliver era a verdadeira perdição.

Não podia mais esconder a paixão arrebatadora por ele.

Ele era inatingível.

Era mesmo?

O olhar dele percorrendo seu corpo com ardor estava selado em fogo em sua mente. Não fora mentira. E eles passaram tempo sozinhos no aniversário dele.

Mas e daí? Talvez Oliver também a achasse atraente, só que ele era sério e comprometido ao trabalho. E reservado. E contido. Não iria cruzar o último limite entre eles.

E atração não era incomum. Pessoas se sentiam atraídas umas pelas outras. Não significava nada permanente.

Ela percebeu que estava encarando-o. Logo ele notaria, e se ele encontrasse o olhar dela... Felicity não sabia o que faria. Voltou seu olhar para o computador. Foco. Não era uma adolescente com sua primeira paixonite. Ela tinha uma empresa multimilionária a comandar, droga! Podia conter seus sentimentos por seu guarda-costas até que sumissem.


Felicity achou que treinar com Oliver não ia dar certo.

Mas, tirando alguns momentos carregados e calorosos, as coisas iam bem. Um novo potencial do que seu corpo podia fazer estava sendo desdobrado, e ela estava descobrindo força e habilidade para luta as quais não tinha nem ideia, tanto com ele quanto com Diggle.

Até o dia que ele falou que iriam treinar movimentos no chão. Logo ela se imaginou pressionada contra o tatame pelo corpo de Oliver. E aí não ia mais dar certo.

Foi mais ou menos assim que aconteceu.

Junho chegou com força e, para piorar, já trouxe uma amostra do verão. Uma massa de calor brutal e rara estacionou sobre Starling City, tornando a atmosfera pesada, grudenta e abafada. O ar condicionado da academia estava ligado, porém no canto onde estavam, por algum motivo, o vento não chegava plenamente. Nenhum dos dois estava aguentando muito, já estavam até descalços, e Felicity inevitavelmente acabou tirando a blusa, ficando só com as calças de ioga e o top. Ela sentiu o olhar de Oliver a varrendo discretamente, um calafrio lhe subiu, e por isso mesmo que ela não queria tirar a peça. Não queria que ele a distraísse. Então, tomando o gesto dela como permissão, ele também tirou a própria camisa.

Céus.

Primeiro ele quis começar com autodefesa. Ela deitou no chão, e ele sentou sobre o quadril dela, as coxas uma de cada lado.

Felicity tinha que ficar lembrando toda hora que ele personificava um atacante, alguém que queria atacá-la ou pior, que não devia se sentir agitada, mas ele estava logo ali em cima dela, peitoral à mostra, olhando-a para baixo, um olhar sério e concentrado, o suor começando a brotar em sua pele...

Nenhum pensamento platônico estava em sua mente agora. Não tinha como.

Ele era a maior tentação a que tentava resistir e com muita, muita dificuldade em toda sua vida.

Ela estava perdida. Por que se raios pensou que tudo aquilo era uma boa ideia?

Ela inspirou fundo, concentrando-se nas palavras dele, porém até o discurso professoral dele lhe causava frisson. Focou no lado dela que desfrutava de realizar os movimentos, de aprender.

Ele a ensinou como bloquear um braço que queria estrangulá-la e sair do aperto.

- Firme um de seus pés ao lado do meu e o outro no centro das minhas pernas. – Ela o fez, o próprio tornozelo dela em contato com a pele dele. Os dedos roçavam minimamente o pé dele e deveria ser um crime como aquele quase contato era o suficiente para iniciar as faíscas. – Agora eleve seu quadril.

O quê? Os pensamentos coerentes fugiram de Felicity. Seu cérebro começou a falhar. Seu coração disparou e não voltaria mais ao normal pelo resto da noite. Mas ela ainda conseguiu fazer o movimento, e foi quando percebeu que a maldita calça de ioga a deixava sentir praticamente tudo, e seu quadril erguido estava em contato com a pélvis e a virilha dele.

As faíscas ficaram mais fortes. A qualquer momento o calor explodiria nela.

Várias repetições depois, ela executou o movimento com primazia, usando o quadril para impulso e girando seu corpo, seu peito e sua pele roçando nele... E então se viu sobre ele.

- Perfeito. – O elogio de Oliver foi seguido por um sorriso, e a visão dele deitado ali subjugado por ela era uma perdição.

Felicity sentiu um arrepio, a endorfina sendo liberada pelo exercício físico querendo lhe provocar aumentar o outro tipo de agitação nela e embaçar o limite entre os dois. Mas, oh céus e tudo que fosse mais sagrado, que ela não ficasse excitada logo agora.

O próximo movimento foi só um pouco diferente. Agora era ele quem estava entre ela, suas coxas em contato com as dele.

A cada segundo ficava mais difícil se encontrar, a cada segundo ela tinha mais trabalho para lembrar que aquilo era uma simulação e ele devia vê-lo como um bandido.

E lá estava ela com os braços dele presos quando veio a próxima instrução:

- Semelhante àquela vez, você ergue seu quadril o mais alto que puder. – O "mais alto que puder" acabou se mostrando com ela roçando sua parte íntima no peito dele.

E foi quando o fogo estourou nela. O cérebro entrou em pane. Felicity teve que se esforçar para não soltá-lo, ainda mais quando um tremor a percorreu. Esforçou-se para controlar a respiração. Suas bochechas ficaram coradas, e ela esperava que o rubor pudesse se passar como reação às altas temperaturas. Seu pulso estava mais acelerado, mas o último motivo para isso era o treino. Ela nunca esteve tão consciente de sua intimidade.

Oliver, desgraçado – e sensual e tentador –, parecia tranquilo como sempre. Ela invejava o autocontrole dele nesse momento. Esperava que ele continuasse assim. Não o queria percebendo o caos prazeroso se instalando nela.

Por sorte ou sabe-se lá como Felicity ainda continuava plena seguindo as instruções de seu treinador.

- Aí você gira o quadril assim. – E sem cerimônia alguma ele pediu para ela soltar o aperto dos braços dele ao redor de seu pescoço ("Não sai do lugar"), segurou os quadris dela com as mãos enormes e o retorceu. Alguns dos dedos dele pressionavam firmes a pele dela, e de novo regozijou da mistura de aspereza e maciez dele. A visão dela embaçou. Seus mamilos endureceram; sorte que o top tinha bojo. Ela engoliu em seco. Ele a largou e pediu para ela realizar o movimento sozinha. – Ótimo. Agora você coloca o pé da perna que tá por cima na minha pélvis – ele deu dois tapinhas na coxa esquerda dela. Mais arrepios. – e depois volta com o quadril no chão e coloca o outro pé. – Felicity acabou se atrapalhando, mas não pelo movimento em si, e acabou sendo pior porque ele acabou tendo que agarrar a outra coxa dela e a colocou na posição.

Ela comprimiu a boca e no último segundo conteve um gemido. Estava praticamente com as pernas arreganhadas para ele, e ele estava quase deitado sobre ela por causa do aperto dela.

A excitação se desprendeu de seu autocontrole ruindo e a invadiu. A endorfina que queimava em seu corpo era dela agora. Sua mente enfim parou de funcionar. Felicity começou a sentir seu sexo ficando úmido. Só podia rezar para que a calça estúpida não a traísse.

Mas ela tinha que se forçar, sabe-se lá como, a continuar com aquilo. E não cair em insanidade no processo.

Ela ficou naquela posição por um longo tempo porque Oliver queria que ela repetisse o golpe para ela prender e bloquear os pulsos dele.

A terceira técnica era uma variação da segunda, pé na pélvis dele e tudo, só que dessa vez ela envolveu e prendeu os braços dele e a parte superior de seu tórax entre suas pernas. Ela nunca imaginou ser capaz de algo com aquela complexidade, por isso ficou muito contente consigo mesma quando dominou os movimentos, e se viu no chão, com ele também derrubado de costas, o braço direito dele esticado e preso nas mãos dela com força.

- Calma aí, calma aí, não precisa quebrar meu braço! – Oliver riu. – Quebre o do atacante de verdade.

Felicity ergueu o pescoço e viu a cabeça dele saindo por trás de sua coxa esquerda. A empolgação se converteu em excitação sexual. Percebeu o tríceps dele roçando sua virilha. Se por algum acaso ele notasse umidade, ela irracionalmente iria culpar o clima.

- É apenas eu. – A voz dele soou um pouco rouca; ainda havia um sorriso provocador naqueles lábios sedutores.

A aula continuou, com a dinâmica de sempre: primeiro Oliver demonstrava os golpes, depois ele a guiava a fazer e ela repetia até dominar. Ele explicava cada detalhe, atencioso como sempre, às vezes ainda dizia o nome dos movimentos. Ele passou ainda a colocar socos e chutes no meio, deixando de serem apenas golpes de autodefesa.

Os dois rolaram pelo tatame, seus membros resvalavam um no outro, até mesmo entravam em contato direto, friccionavam-se e pressionavam-se contra o outro. As pernas dele ficaram entre as dela e vice-versa. Ele a apertou várias vezes contra o chão de diversos ângulos. Por vezes, Felicity jurou ter sentido algum volume, porém gastou seus últimos esforços mentais em não pensar nisso. Até porque, racionalmente falando, se Oliver realmente estivesse reagindo a ela, era algo natural devido à proximidade deles. Eles nunca estiveram tão perto, com os corpos tão colados e embolados. Um impulso químico, a própria endorfina dele. Nada mais. Não seria o tesão completo que a tomara.

E Felicity ficava mais e mais excitada. Nunca fora estimulada daquele jeito. Nem sabia ser capaz de se sentir assim. Inevitavelmente não conseguiu mais segurar uns gemidos e teve o trabalho de tentar fazê-los soar como resultados dos esforços dos exercícios e não de prazer. Eletricidade a percorria da cabeça aos pés e principalmente em sua intimidade, que pulsava e continuava úmida. Sua respiração e coração nunca estiveram tão descompassados. Até mesmo o suor deles servia para impulsioná-la mais.

- Perfeita. Você tá arrasando hoje. – disse Oliver, a voz saindo um tanto entrecortada depois de ela o derrubar no tatame. Ela soava orgulhoso e gentil e suave, e ela queria que ele parasse.

Ela levantou o olhar para ele, que sorriu, devastando-a. Ele agora estava de bruços, com a cabeça completamente presa entre as coxas dela. Quase onde ela o queria. Imaginou-o abaixo o rosto, roçando-o contra seu sexo, a boca encontrando os lábios dela, tomando-a...

Ela ofegou.

Ele a soltou e ficou de joelhos. Felicity continuou estatelada no chão.

- Por favor, me diga que estamos acabando. – Ela queria acabar mais para não correr o risco de ter um orgasmo ali do que pelo cansaço em si. Porque que ela gostava de lutar. E continuava gostando agora mesmo com uma excitação jamais sentida antes.

- Só mais um movimento novo e a gente para.

- Nããããão. Cansei. – ela grunhiu.

- Quê que eu falei de cansaço logo na primeira aula de todas? – ele cruzou os braços, explicitando os músculos maravilhosos e que brilhavam pelo suor. Nada disso a ajudava manter a sanidade.

- Não ligo. – ela fechou os olhos, tentando e falhando em afastar a luxúria.

Ele segurou uma risada.

Felicity achou momentaneamente sua voz:

- Você quer matar meus músculos, né? Eu preciso deles pra ir trabalhar amanhã, preciso ir pra reuniões, entrevistas, convenções... – ela tagarelou.

Oliver engatinhou até ela e colocou uma mão no antebraço dela, fazendo uma leve carícia. O contato a acendeu, alimentou o fogo dentro dela.

- Mais um. Prometo. E depois a gente repassa tudo uma última vez. – sussurrou calmo.

- Sorte sua que to cansada demais para brigar.

Felicity achava que já tinha tido todas as surpresas da noite. Ledo engano. Delicado, Oliver a rolou até ficar de bruços, firmou suas mãos no quadril dela e a puxou para cima, colocando-a de quatro. Ele se pôs atrás dela, apoiando os joelhos no tatame, e segurou no abdome com os braços. O peito dele roçava as costas dela.

Ela ficou sem palavras. E definitivamente estava encharcada. Esperava que os próximos golpes não envolvessem ele a tocando perto dali. Não tinha mais o que esconder.

Ela mal prestou atenção nas instruções dele, ainda chocada. Implorou a seu cérebro para voltar a funcionar só naquela última vez para ela se livrar logo, e sua batalha interna nunca foi tão acirrada. Por um milagre, mesmo que com dificuldade, ela fez a manobra de defesa.

A última repetição dos exercícios a levou ao limite da sanidade. No fim, quando Oliver a pressionou inteiramente contra o tatame, ela pressionou a coxa uma na outra e ficou imóvel. Literamente estava a um mísero passo do orgasmo. Seu peito subia e descia, fantasmas de tremores a assaltavam. Se ele a tocasse, se ele ficasse sobre ela, se ele ao menos respirasse próximo a ela... Explodiria em lascívia e em gemidos altos e incontroláveis.

Nunca em sua vida...

Nunca um homem tivera um poder magnético sobre ela tão absurdamente grande.

Felicity ficou ainda ali, os nervos em frangalhos, procurando se acalmar, enquanto Oliver ficava de pé e ia em direção aos pertences deles e pegava uma toalha.

- Você tá bem? – ele perguntou depois de se enxugar por uns segundos. Franziu a testa, confuso. Ela permaneceu em silêncio. – Felicity? – ele disse após se arrumar. Havia uma nota de cautela em sua voz. Ela sabia o por quê; ela não parava de falar e subitamente agora estava em silêncio.

O tatame mexeu quando ele deu passos em direção a ela.

- Eu to bem. – Felicity se viu dizendo.

Mas na verdade não estava.

Bem ela estaria se eles parassem de dançar na órbita um do outro e se entregassem à paixão arrebatadora. Bem ela estaria se ele transasse com ela e a levasse ao ápice de verdade. Múltiplas vezes. Bem ela estaria se ele transformasse o sonho erótico dela em realidade. As inibições de Felicity estavam em ruínas. Não era capaz mais de se recriminar por tais pensamentos.

E nem queria.

Ela estava louca.

Ele a deixava louca.

Ela queria embarcar na loucura.

Queria deixá-lo louco.

Queria que ele embarcasse na loucura também.

Oliver era tinha um autocontrole impecável. Ela queria rachá-lo e destruí-lo. Queria-o se entregando, queria vê-lo mergulhado na lascívia, no pecado, queria que apenas desejo por ela ocupasse sua mente e seu corpo.

Então ela o deixou se aproximar. Agora estava mais calma, conseguiria lidar com ele. Virou o corpo, ficando de costas. Oliver agachou ao lado dela.

- Eu machuquei você? – ele soava preocupado de verdade.

Ela agiu. Numa descarga de adrenalina, pulou sobre ele, derrubando-o e imobilizando-o. Segurou pulsos dele pelo gancho que ele ensinara e os prendeu ao lado do corpo. Inclinou-se sobre ele.

- Não, mas você caiu na minha armadilha. – falou provocantemente.

Ele ergueu uma sobrancelha na maior tranquilidade.

- Sabe que posso sair disso fácil, fácil, não é?

- Eu sei. – ela deu de ombros.

Por isso mesmo ela o soltou e, tomando a posição como vantagem, deslizou as mãos pelos ombros dele. Dessa vez nada tinha a ver com a objetividade e a firmeza de quando ela o segurou ali mais cedo. A carícia era clara. Os olhos enevoados e faiscantes dela também. Ela não cerceava mais o limite do prazer, mas não estava longe; ainda estava excitada, a endorfina ainda corria em seu corpo. Por isso ela agia daquele jeito.

Oliver pareceu afetado por um segundo. Seus olhos se arregalaram bem de leve. Ele inspirou lentamente, como se procurasse não se descontrolar.

Liberte-se, Oliver.

Felicity desceu as mãos pelo peitoral dele depois pelo abdome. As linhas dos músculos dele eram pouco perceptivas pelo tecido da camisa, mas, como era a primeira vez de Felicity fazendo isso, ela nem ligou.

Ousou desviar os olhos dos dele e desceu para as mãos, fascinada com a descoberta, com a definição, com a dureza.

Porém ainda não dureza que queria.

Ela moveu os quadris, calculando certeira para que o movimento passasse perfeitamente como se acertasse o conforto de sua posição, e não para incitá-lo embora fosse esse seu propósito. Diabolicamente inocente.

Voltou a fitar os olhos de Oliver. As íris dilataram um pouco, tornando o azul mais sombrio, mais elétrico.

Ela mesma continuava com a eletricidade correndo em seus nervos.

- Felicity... – ele começou a dizer com a voz ficando trêmula.

Sim, ela celebrou mentalmente.

- Então, acabaram todos os movimentos que você tinha pra me mostrar? – ela perguntou com um sorrisinho.

- O que está fazendo? – ele devolveu.

Ela franziu o cenho.

- Uma pergunta a você.

Felicity viu que ele estava minimamente afetado. Se não tivesse, já teria saído dali há muito tempo.

Ele mudou de estratégia:

- Achei que estivesse cansada.

- E estou. Para treinar. – Mas não para outras coisas, ela deixou implícito. – Não vê que meus músculos tremem em fadiga? – ela tirou uma das mãos dele e ergueu o braço. Na verdade ela vibrava mais de luxúria.

- Certo, você só queria me desarmar mesmo. Para terminar por cima.

Oh Oliver... Ela não sabia se ele falou de propósito ou não – parecia que não; parecia mais que ele deixou escapar naquele estado anormal –, contudo não deixou a oportunidade passar.

- É a minha preferência, mas não é uma coisa que me incomoda de verdade. Eu gosto mesmo quando me fazem terminar. – Nada implícito dessa vez.

Então ela simplesmente saiu de cima dele e ficou de pé. Nem olhou para trás enquanto pegava os tênis e os calçava.

Oliver respirou audivelmente antes de se levantar.

Ela não vestiu de novo a camisa, apenas a pendurou no ombro. Pegou a bolsa e virou-se para o guarda-costas.

- Vamos?

Era bem tarde e a hora de fechamento se aproximava, por isso quase não havia pessoas ainda. Os dois se encaminharam para a saída dos fundos da academia; Rene permitira que eles a usassem por conta do acesso restrito ao público, além de menor visual, até mesmo ofereceu uma das vagas dos funcionários. Oliver julgou a saída mais segura também. A porta ficava ali nos fundos próximo onde estavam, e eles tinham que passar num pequeno corredor antes de ir para o exterior.

- Então, como eu tenho me saído nesses treinos? – Felicity perguntou.

- Surpreendentemente bem, na verdade. – ele respondeu. – Ou talvez nem tão surpreendente assim, você já deixou claro como se sobressai nas mais coisas mais diversas. – Ele piscou para ela e somado ao meio sorriso, Felicity quase se desfez. – Quanto ao boxe, você tá avançando bem, tá começando a achar seu ritmo e tá aumentando sua resistência. E tem ficado menos cansada, por mais que continue reclamando da fadiga como sempre. Inclusive não vai tardar muito para que fique que nem as pessoas nos vídeos que te mostrei.

- Nem vem! O dia que eu me transformar naquilo vai ser o dia que eu vou ter cruzado para o lado negro da força. Vou ter começado a gostar de atividades físicas. Será que vou virar adepta da vida fitness? Argh!

- Felicity, você faz ioga, autodefesa e boxe. Isso não é coisa de gente que desgosta de exercício.

Ela revirou os olhos.

- Comecei a treinar por necessidade de sobrevivência. – tentou redarguir.

- Autodefesa. Aí descobriu gosto por socos. – ele abafou uma risada.

Os dois entraram no corredor.

- Tá, mas e quanto à autodefesa? – ela resolveu abafar a discussão.

- Melhor ainda. Já acho que você conseguiria se virar numa eventualidade. Mas mesmo assim ainda tem que treinar mais. – ele parou por um segundo antes de continuar. – E seria bom se parasse de fingir flertar com seu atacante. Por mais encantadora que você seja, não acho que ele vai parar por causa dos seus olhos brilhantes e seu sorriso iluminado.

Felicity quase tropeçou. Decidiu jogar a cautela pela janela.

- Talvez eu não estivesse fingindo completamente.

Oliver parou de andar, surpreso, e virou-se para ela.

- Apenas uma parte era simulação. – ela continuou, fixando seu olhar nele. – Todas vezes que falei algo com certeza não era para um atacante, mas para meu guarda-costas. Eu queria. Eu quero.

Pronto. Ela enfim deixou claro, enfim revelou o que estava rondando seu interior havia semanas.

Silêncio. A atmosfera ficou inflamada.

Sua vez, Oliver.


Quando aceitou sua atração por sua cliente, Oliver tentou suprimi-la. Em vão. Desde então, todos os dias ele listava motivos para não se render a ela, do profissionalismo que os uniu até seus demônios internos.

Sua resolução ferrenha balançou.

Ele já imaginava que ela era atraída por causa dos olhares que ela lhe lançava e os deslizes verbais. Mas agora era diferente...

Agora Felicity explicitou sentir o mesmo que ele. Sem titubear, sem sombra de dúvida.

Ele não sabia o que dizer, o que pensar, o que sentir. Suas emoções entraram em choque, a seu lado emocional tomava o comando de si.

- Não dá para negar esse clima, essa tensão entre nós. – Felicity continuou a dizer. Os olhos dela eram resolutos e febris. Oliver entendeu o comportamento dela durante todo o treino. Tentou ignorá-lo, mas agora não dava mais.

Inferno, pensamentos impróprios cruzaram até mesmo a mente dele umas poucas vezes. E seu corpo teve impulsos de reagir ao dela tão ali. Contudo, ele se controlou.

Ele tinha que respeitá-la.

- Você consegue? – ela finalizou.

Oliver podia omitir sua vida inteira dela – um dos motivos para mantê-la longe –, podia até mesmo contar algumas mentiras, porém a honestidade era o que sempre queria dar a ela. Fora assim desde o começo. Felicity lhe oferecia espaço para ser ele mesmo, para ser sincero como ninguém, como nunca antes sentira.

- Não. – ele respondeu profundamente.

Mais silêncio. O ar estalava.

Oliver nem ousou tentar ver o que se passava na mente de Felicity pois estava muito ocupando pensando, perdido no próprio conflito.

Ele tinha plena consciência de seu controle e, para evitar perdê-lo completa e irreversivelmente, permitiu-se soltá-lo um pouco. Só uma vez, apenas uma vez para ele não ficar insano.

Só de curiosidade. A atração por ela vinha o assombrando havia semanas. Quem sabe aquele momento não servisse para aquietá-lo...

Contudo, lá no fundo, em seu âmago, algo lhe dizia que isso não aconteceria. Ele mesmo já havia lhe dito que não se relacionaria com Felicity porque sabia que, desde o princípio, não seria puramente físico ou casual.

Mas a questão era que agora ele não estava pensando direito. Suas inibições iam ao chão ao passo que a libido subia. Ele controlou a subida dela também, afinal, se a deixasse toma conta, não haveria volta e sabe-se lá o que aconteceria.

Seus olhos escureceram. Felicity viu o momento em que a postura e a resolução dele mudaram. Os lábios dela se partiram de leve. Ela inspirou com dificuldade, o peito – ela ainda estava sem camisa, inferno, mostrando aquele corpo maravilhoso só para enlouquecê-lo – se elevando, explicitando a pele dela. Ainda estava corada, tanto pela volúpia quanto pelo calor, e somado ao suor e ao cabelo desarrumado, ela nunca lhe parecera tão apetitosa.

Ele largou a mochila no chão, cruzou a distância já pequena deles como um raio, tirou a bolsa dela de seus ombros, arrancou a blusa pendurada no ombro, jogando longe, segurou-a pela cintura e a empurrou contra a parede.

Seus olhares não desviaram do outro um mísero milímetro sequer. A respiração de Felicity ficou ainda mais alterada, e a cada inspiração o peito dela roçava no dele. O coração de Oliver também estava descompassado.

As mãos dele percorreram as laterais do corpo dela sensualmente, controladamente. Suas digitais pressionavam-se contra a pele dela, arrancando arrepios. Felicity queria que ele a apertasse ainda mais, porém via que ele estava se segurando, e ele tinha que parar com isso, mas ao mesmo tempo entendia que um passo gigante porque era a primeira vez que ele se permitia, e era tão novo, tão inesperado e inebriante que ela resolveu aproveitar. E depois ela o tentaria mais.

Já as mãos dela foram para os pulsos dele, acariciando-o num movimento de ascensão, passando pelos antebraços, bíceps e se postando sobre os ombros. Ele estremeceu, os lábios também se partindo. Um rugido começou a se formar no fundo da garganta dele, mas ele apenas vibrou. Felicity segurou-o pela nuca, passou para as costas, descendo até a cintura dele e deu uma leve puxada contra si. As pernas dele foram para frente, o quadril se encaixando entre ela, e ela pôde sentir a ereção dele começando a se formar contra a parte inferior de seu ventre.

Ela gemeu em aprovação. Explodiu de novo, a luxúria de pouco antes a inundando. Ele a espelhou.

Os toques dele ficaram mais intensos. Oliver subiu pelo abdome dela, espalmando os seios dela e apertando-os. Ela arqueou o corpo, soltando mais sons.

- Maldito top. – ofegou, as pálpebras tremendo.

Oliver não conteve seu rugido agora. Suas mãos desceram, deixando rastros flamejantes para trás, agarraram as coxas dela e as ergueu, abrindo as pernas dela, e ele se aninhou ainda mais entre elas, enfim pressionando seu corpo completamente contra dela.

Os dois gemeram. Felicity não aguentou mais e quebrou o contato visual, seus olhos se fechando, a cabeça indo para trás, a boca se partindo ainda mais. Ele a incitou a travar as pernas nele, e ela respondeu, cruzando os tornozelos na altura da lombar dele, trazendo-o ainda mais perto. Suas intimidades pressionaram-se. A calça a permitiu plenamente sentir o volume. Mesmo com os tecidos os separados, a sensação era maravilhosa. Ela estava encharcada de novo.

- Oh Oliver...

O guarda-costas mergulhou a cabeça no pescoço dela e fechou os olhos. O primeiro contato dos lábios dele com a pele dela os energizou. Ela era macia, cheirosa, deliciosa. Ele a beijou diversas vezes, subindo e descendo, do queixo até os ombros. A barba a arranhava e talvez ficasse para trás vermelhidão, mas ela nem ligava, que ele deixasse sua marca nela; o contato a tornava ainda mais sensível aos arrepios. Felicity abriu pleno acesso a ele enquanto o acariciava na nuca, nos ombros, nas costas. Ela enterrou os dedos no cabelo dele, e ele aprovou. O nome dela escapava de seus lábios como num canto.

Oliver passou a segurá-la pela bunda, os dedos enterrando-se nela, prendendo-a ainda mais entre ele e a parede, e foi quando começou a friccionar seus corpos. Os gemidos de Felicity subiram de volume, os grunhidos de Oliver eram cada vez menos contidos.

Ele desceu os beijos até o decote do top dela. Lambeu-o aquele vale, depois subiu com lábios e língua para a maciez do seio direito dela. Não se conteve e a mordeu. Ela agarrou o cabelo dele com mais força. Ele se satisfez com os dois seios.

Seus corpos ondulavam um contra o outro. O aperto das pernas de Felicity nele era forte, e a cada mexida dos quadris dela, ele só sentia seu pau ficando maior e mais duro.

- Droga, Felicity. – ele soltou cheio de prazer.

- Não para. – ela respondeu. E ele era incapaz disso.

Saber que qualquer um poderia simplesmente surgir ali e interrompê-los só tornou tudo melhor.

Os movimentos foram ficando mais intensos, mais bruscos, mais vigorosos e lascivos. Uma nova camada de suor surgiu. O calor só subia, mas dessa vez era muito melhor porque era devido à fricção deles. Os corpos ficavam cada vez mais colados. Os seios dela estavam amassados contra ele, esfregando-se nele tanto na subida quanto na descida. Felicity já estava excitada desde o treino, e ela enfim se soltou, tornando-se a volúpia, e não tardou a sentir o prazer cerceando o limite de novo, e ela deu uma risada em meio aos sons e os nomes de Oliver que escapavam, recebendo a sensação. O orgasmo estourou nela, ela se desfez, tremendo diversas vezes, vibrando contra o corpo dele, o gemido arrancado do âmago dela, alto, rouco e longo. Oliver nunca ouviu som tão incrível, ainda mais que seu ouvido estava bem próximo da boca dela.

Ele se surpreendeu também. Depois que ela se acalmou, com alguns espasmos tardios ainda a assaltando, Oliver tirou sua boca do pescoço dela e ergueu a cabeça, olhando-a. Como se o sentisse, Felicity abriu os olhos.

- Queria tomar crédito por isso, mas sinto que nem posso, mal comecei. – ele disse, e já soava meio rouco devido aos próprios sons.

- Pode sim. – ela falou, a voz falha. – Você me deixou com tesão desde esse maldito treino. O mérito é todo seu.

- Felicity... – ele grunhiu, fechando os olhos de novo por um segundo.

Ele sabia que não deveria, era brincar com fogo e com o risco de perder inteiramente o controle, mas precisava. Tirou uma das mãos das nádegas dela e a tocou entre as coxas.

- Deus, Felicity. – gemeu ao encontrar o tecido encharcado. Indo contra suas restrições – ele não conseguiu se segurar –, tocou-a, seus dedos afundando, e ele sentiu o contorno da parte mais íntima dela, e a coerência o abandonou por um segundo. Ele deve ter murmurado o nome dela, mas nem tinha certeza.

Quando ele voltou a tocá-la na coxa, eles ficaram imóveis na posição e apenas se fitaram, pulsos e respiração desenfreados. Oliver foi o primeiro a se soltar do abraço. Tirou as pernas dela de si e se afastou. Seus olhos desviaram para as calças dela e a mancha escura na região do sexo dela o fez ficar ainda mais excitado. Felicity continuou encostada na parede para suporte, as pernas ainda bambas.

O ar era pesado, caloroso e elétrico.

- Nós... nós precisamos ir. – ele falou, sabendo que a loucura – infelizmente – não poderia durar para sempre. A decepção quis manchar a lascívia dele.

- Você realmente não está em condições de sair por aí assim. – ela falou suavemente.

Ele bem sabia disso. Tinha que voltar ao normal. Não tinha como com ela ali. O único jeito era ela se afastar, e ele jamais a tiraria de sua vista. Ele ficou tenso com o conflito.

- Eu posso dar um jeito nisso. – Os olhos de Felicity flamejavam. Ele nunca ouvira aquele tom rouco dela de pura obscenidade e era... Porra, era magnífico.

Ele sentiu seu membro pulsar em expectativa. A lógica, a sanidade o mandava dizer não, mas sua mente estava enevoada. Já estava fora da realidade havia um tempo e correr em direção a ela lhe parecia não natural.

- Felicity... n... – ele forçou a palavra "não", mas não saiu. Porque seria mentira. Não era o que queria de verdade.

Ele queria Felicity.

Seu corpo estava tomado por chamas. Ele era desejo. Nem percebera que sua tempestade interior amansara.

- É por causa do risco de qualquer um surgir aqui? Porque se for isso podemos ir para o carro. – ela umedeceu os lábios.

Oliver grunhiu. A ideia do carro era ainda mais tentadora, e ele logo imaginou as possibilidades naquele lugar, ainda mais com a sugestão que irradiava dela...

Controle. Não escape, controle.

Sem nenhum pudor, os olhos de Felicity o percorreram do rosto até a calça dele e se demoraram no volume, analisando-o de verdade. Ela ofegou; ele parecia enorme.

Então ela decidiu por ele. E foi a vez dela de cruzar o espaço e o empurrar contra a parede oposta. Oliver soltou um som surpreso quando suas costas bateram na superfície sólida, mas não a impediu.

- A não ser que você não queira. – ela sussurrou ao pé do ouvido dele e mordiscou o lóbulo. Teve que ficar na ponta dos pés para alcançá-lo. Ela tocou os lábios de leve no maxilar dele. – Diga-me que não quer, Oliver.

Ele abriu a boca para falar, mas não saiu nada. O mundo real escapava dele, ia para longe, fechando-se apenas em Felicity, o corpo dela, o hálito contra o rosto dele, os lábios, o toque. Ela era tudo que podia processar.

- Eu realmente preciso que você fale alguma coisa. Consentimento é essencial. – ela ainda imprimiu humor.

Felicity o beijou mais uma vez, agora com mais pressão. O contraste da barba dele com os lábios dela só alimentava o fogo dentro dele.

- E-eu quero. Continua, por favor.

Ela sorriu. Seus lábios traçaram lentamente a linha do maxilar dele enquanto suas mãos escorregavam para dentro da camisa dele, acariciando sua cintura e depois subindo pelos abdominais. Uma delas desceu pela calça, segurando, envelopando o volume. Ela o apalpou e contornou sua forma. Oliver estremeceu e soltou grunhidos.

Ela desceu os beijos para o pescoço ao passo que, com as duas mãos, baixou a calça e a cueca dele apenas para libertá-lo. Os olhos de Oliver se fecharam com força e a cabeça tombou para trás. Felicity se afastou apenas para umedecer os dedos com a boca.

- Fel... Ugh... Porra. – Oliver soltou exclamações incoerentes quando os dedos tocaram a ponta do membro dele. A mão dele procurou a cintura dela, procurando se apoiar.

Felicity não deixou de gemer também ao senti-lo, o som vibrando contra o corpo dele, o hálito colidindo com sua pele. Desfrutou de como o controle dele se desfazia aos poucos. Ela circulou a ponta com o polegar antes de percorrer todo o comprimento com os dedos, surpreendendo-se e deliciando-se com o tamanho e a rigidez. Claro que um homem imponente como ele teria uma masculinidade no mesmo nível. Ela imaginou como seria a sensação de tê-lo todo dentro de si; suas paredes internas se contraíram com o pensamento. Ela até mesmo massageou as bolas dele.

Oliver continuava reagindo. E ela queria mais. Subiu de novo e o evolveu com toda a mão, apertando. Ele puxou o ar, um tanto estrangulado, e o corpo retorceu. Grunhidos se misturaram ao nome dela escapando por seus lábios.

- Ainda tão controlado... – ela murmurou, percorrendo a pele dele com a língua languidamente. Sua mão começou a bombear o pau. Ele enterrou os dedos na cintura dela.

Felicity levantou a cabeça para contemplá-lo, concluindo que ele era ainda mais bonito com a face retorcida em prazer, os lábios partidos, de onde escapavam sons, os olhos fechados, as pálpebras tremendo.

- Olhe para mim, Oliver. – A ordem saiu suave. Ele não demorou a abrir aqueles oceanos, e Felicity viu como eles não estavam mais tempestuosos, mas escuros e elétricos.

Ela continuou, variando os movimentos, pressão, velocidade. Os gemidos dele eram músicas para os ouvidos dela. O toque dela era alucinante, e ele percebeu o controle lhe escapando, mas a sensação era tão certa...

Felicity o beijou pelo rosto: queixo, maxilar, bochecha e parou no canto dos lábios. Ele não a beijou na boca, então também não o faria. Mas queria provocá-lo. Num dos beijos, tocou com a ponta da língua no começo do lábio inferior dele, o toque tão leve quanto uma pena. E deu certo. Ele se contraiu e arrepios o percorreram sob a outra mão dela, que continuava na cintura dele. Suas unhas o arranhavam de leve.

Oliver não aguentou mais e fechou os olhos de novo quando sentiu o prazer crescendo, o ápice chegando. Os grunhidos se tornaram mais profundos. Felicity aumentou a velocidade, incitando-o.

- Liberte-se para mim, Oliver.

E ele o fez. Ela continuou masturbando-o enquanto ele explodia. Gotas recaíram sobre o abdome dela e até mesmo um pouco no top, mas a maior parte mesmo ficou na mão dela.

Ele demorou um pouco a voltar a si. Abriu os olhos, o peito subindo e descendo, sentindo-se sem fôlego como nunca na vida. Ela o fitava de volta, com um sorriso ao mesmo tempo doce e devasso. O olhar dela cintilou quando ela ergueu a mão tomada pela essência dele e lambeu o polegar. A língua dela percorrendo o dedo, varrendo qualquer resquício, mas um som rouco só se desprendeu dele ao ver a garganta dela engolindo.

Oliver não sabia como estava vivo. Mas essa era a questão. Desde que ele resolveu mergulhar na paixão por ela se sentia vivo. Dessa vez não houve liberdade no orgasmo porque ele já se sentia incrível, coração batendo, sangue rugindo nas veias, sem demônios e traumas desde muito, muito antes.

Ele não sabia que começou a se sentir assim desde o momento que a conhecera.

Felicity se afastou e pegou a toalha em sua bolsa para se limpar. Oliver, ainda aéreo e leve pelo prazer, demorou um pouco antes de abrir sua própria mochila.

Eles saíram do prédio e novamente eram CEO e guarda-costas. No carro, ele como motorista, ela no banco de trás, eles trocaram um olhar pelo retrovisor, plenamente consciente do que fizeram, sem arrependimentos.

O corredor mal iluminado era a única testemunha do segredo compartilhado.


NA: Chegamos! As coisas literalmente esquentaram. Até a próxima!