Foi como embriaguez.

Você bebe, fica bêbado, comete loucuras, depois no dia seguinte acorda, volta para a realidade, vê o que fez e volta ao normal.

Ou pelo menos tenta.

Ele abriu as janelas do carro um pouco apenas para entrar a brisa. O vento não era tão gelado quanto gostaria, porém serviu para deixá-lo sóbrio.

Errado, a palavra ecoava em sua mente. Pode ter parecido certo e ele não se arrependia, mas no final foi errado.

Soltar um pouco do controle não serviu para não perdê-lo todo, mas sim para complicar – e destruir, lhe foi sussurrado; ele sempre destruía – a situação. Também não serviu para aquietá-lo – inferno, se ele não fosse quem era, com certeza estaria beijando-a e levando-a para cama assim que chegassem ao apartamento. Só serviu para deixá-lo um passo mais perto do penhasco da insanidade, e ele tinha que retroceder.

Oliver se retraiu no trajeto até o loft. Felicity percebeu. Nenhum dos dois falou desde que entraram no veículo. Ele nem a olhou novamente pelo espelho, receando ser assaltado novamente pela paixão. O ar mudou de cumplicidade para comodismo, e, surpreendentemente, ainda assim não era esquisito.

Eles chegaram à casa dela. A rotina seguiu como sempre: ele a levou até lá em cima e checou o local. Foi se despedir dela e foi quando se viram frente a frente. Parecia que uma era transcorreu desde o corredor.

Oliver fitou Felicity. Ela também se fechou; era uma reação a ele. Aquilo o incomodou. Mas era o certo. Ele respirou com calma.

- Precisamos conversar. – disse detestando cada sílaba.

A expressão dela era algo totalmente diferente de antes. Tinha seriedade e alguns traços carregavam uma leve tensão, um prelúdio, como se bastasse um empurrão para soltá-la. Oliver entendia. Ele sabia o que estava por trás. Ela sabia o que ele diria.

- Não, não precisamos. – ela respondeu, e incrivelmente soava serena. Mas houve uma falha aqui em outra enquanto articulava. Oliver não respondeu. – Assim que conversarmos, acaba.

A pose dela rachou. Ele viu o brilho da decepção. Da rejeição. Oliver sentiu uma pontada no coração. Ele não estava rejeitando-a, era a última coisa que queria. Ele só... ele só... não podia. Por mais profundamente que quisesse, não podia.

- Posso ao menos explicar? – ele arriscou.

Felicity não respondeu de imediato. E Oliver viu que, de alguma maneira, ela entendia o que estava se passando com ele. Claro que entenderia. Ela era a pessoa com quem sua fachada desapareceu mais vezes.

E lá estava ela de volta, mesmo que, ambos sabiam, agora parecia um tanto falsa.

O fato de Felicity compreendê-lo não significava que o aprovava.

- Isso é uma conversa. – ela disse e se aproximou da porta, abrindo-a. Um gesto claro.

Mais uma pontada. Oliver se encaminhou até a saída. Sem se conter, olhou para ela. Ele dissera que iria atrás de todas as ameaças contra ela, contra qualquer coisa que trouxesse perturbação àquele rosto encantador. Só que dessa vez não podia. Ele mesmo colocara a morbidez nele.

Por um segundo, a doce loucura voltou e ele se viu retirando as palavras e tomando-a em seus braços como ansiava. Mas...

Você infecta tudo que toca.

- Boa noite, Felicity. – Nem mesmo o clima pesado foi capaz de tirar a suavidade que sempre acompanhava o nome dela.

- Boa noite, Oliver. – A voz saiu séria e formal.

Ele saiu pela porta, que se fechou logo em seguida. Enquanto Oliver caminhava, ele sentiu o peso recair novamente sobre si. Seus demônios apareceram para andar com ele, como sempre. Aquilo era o normal dele, infelizmente aquilo era o certo.

Sabia que estava acabando com algo precioso antes mesmo de começar, mas era melhor chatear Felicity agora do que machucá-la de um jeito imperdoável.

Ele estava fazendo o trabalho dele. Era o guarda-costas dela e sempre a protegeria.


Talvez Oliver pudesse ter mudado de ideia em breve, mas...

Às vezes, parece que uma coisa pequena ruim acontece e desencadeia um monte em seguida, na maioria das vezes pior do que a primeira. Tudo para reafirmar uma ideia – mesmo que, no caso, essa ideia fosse errada. Errada de verdade, não o que certo guarda-costas considerava como errado.

Os próximos dias foram assim.


O primeiro pensamento que cruzou Felicity pela manhã foi a noite anterior. Mais precisamente, o final da noite anterior. E isso explicava porque levantou tão... letárgica.

Arrumou-se, e algo preenchia seu peito, estufando-a, tomando-a. Era desagradável. Tinha o potencial para sufocá-la. Ela tomou café, mas nem mesmo ele foi capaz de animá-la – café sempre a animava. Quando viu seu rosto no espelho enquanto se maquiava, de repente despertou.

Por que ela estava chateada? Seria só sexo! Sexo negado não era o fim do mundo. Não era para sentir o desapontamento mais do que devia.

Parecia simples, se o homem em questão não trabalhasse junto dela. Se ela não tivesse que vê-lo daqui a pouco. Se ele não fosse seu amigo. Se ele não fosse traumatizado.

O pior de tudo era ver o lado dele. Felicity sabia de onde vinha a rejeição. As cicatrizes de Oliver também eram internas, e por causa delas ele se via como quebrado. Ela sabia da escuridão, e essa em nenhum momento a impediu de nutrir sentimentos por ele.

Ela não quis ouvir as explicações dele para não manchar ainda mais as cenas quentes da academia.

Diggle foi quem foi buscá-la na porta assim que a abriu. Ele a cumprimentou como sempre, ela conseguiu responder e percebeu que teria que fingir e se armar de uma pose pelo dia inteiro.

Aliás, pelos próximos dias. Até que... aquilo passasse.

Nada mudou. Nada mudou mesmo.

E ao mesmo tempo tudo mudou.

Oliver esperava no carro quando ela entrou. Eles se cumprimentaram, porém, por mais que ambos tenham se esforçado, ainda sim houve um quê de formalidade e distância nos tons. Ela só esperava que Diggle não notasse.

Por sorte, os dias seguintes foram cheios. A gala estava bem perto, e os organizadores, tanto da Smoak Tech quanto das empresas contratadas, queriam passar os últimos detalhes com ela. A festa foi assunto das mensagens recebidas de Donna, e ela se sobressaltou lembrando que, ai meu Deus, minha mãe está vindo. Depois, pensou consigo se era seguro deixar Donna num hotel mesmo ou no apartamento dela. Afinal, não era loucura achar que os bandidos que a queriam poderiam muito bem usar a mãe para atraí-la. Decidiu discutir com os guarda-costas.

O lançamento do novo produto seria na mesma semana da gala. Sem contar os eventos usuais na cidade dignos de um executivo de tamanha importância como ela que ela compareceria e que logo após a festa vinha o casamento de Diggle e a viagem para a Europa, e Felicity teria que adiantar trabalho até que voltasse.

Ah, a viagem. A qual ela passaria diversos dias com Oliver. E somente ele.

Felicity sentiu a empolgação com a viagem diminuir. Depois veio irritação. Ele estava manchando as coisas em seu caminho e ela de certa forma estava permitindo isso.

Ela bem cogitou contar toda a história para Rob e assim levá-lo ao velho continente...

Mas, tirando esse momento, ela ficou ocupada o suficiente para não voltar a pensar em Oliver. Ajudava, embora pouco, que naquele dia ele, devido ao trânsito de pessoas – pelo menos essa era a desculpa estratégica –, se posicionou do lado de fora do escritório, deixando-a com Diggle.

Quando teve uma pausa para respirar, ela chamou Oliver a contragosto para dentro. Foi direto ao assunto para não se deixar levar pela confusão relacionada a ele.

- Então, minha mãe vem à cidade para a gala e atualmente ela tá com uma reserva de hotel, mas, devido às circunstâncias, não tenho mais certeza se essa é a melhor opção.

Felicity não estava animada com a solução de hospedar a mãe. As duas eram parecidas, mas ao mesmo tempo tão diferentes que às vezes inevitavelmente Felicity perdia a calma. Era pior no passado. A ascensão da Smoak Tech também foi acompanhada pela melhora no relacionamento das duas. Mas ela faria o que fosse necessário para garantir a segurança de Donna – que, tirando o que a mídia noticiara, não sabia da verdadeira extensão do perigo que a filha corria.

- Eu diria para manter a reserva e um de nós três acompanhar sua mãe se estivéssemos lidando com apenas um criminoso comum. – Diggle disse. – Mas são pessoas que têm capacidade de invadir um quarto de hotel. Então seria melhor mesmo ela ficar com você, visto que o loft tem uma segurança maior, sem contar que o trânsito de pessoas é infinitamente menor que num hotel.

- E mesmo assim manter um de nós com ela toda vez que ela sair. – Oliver completou.

Felicity imaginou por um segundo se Oliver falou aquilo pensando em ele mesmo escoltar Donna, porém ela o conhecia. Ele não era do tipo de fugir e se esconder.

- Já imaginava isso. Até falei com Rob já. – ela disse depois suspirou. – Já vou me preparar mentalmente para minha mãe. Ela vai querer saber por que a mudança, mas vou ser bem genérica com ela.

Após a conversa, Diggle pediu licença para ir ao banheiro e depois acabou trocando de posto com Oliver, o que a deixou sozinha com ele.

Não dava para ficar fingindo ou ignorando. Eram pessoas maduras. Eles tinham que fazer isso de uma vez. A sensação de cheio voltou a se manifestar no peito de Felicity, embora nunca tivesse desaparecido. Ela se preparou para as palavras dele.

- Pode se explicar agora. – disse num tom aparentemente leviano, mas que carregava um mundo por trás.

Ela viu nos olhos dele, por trás da máscara, que ele compreendeu perfeitamente o que queria dizer. Viu que a retração continuava lá também.

Oliver deu um passo em direção a ela, ficando de frente para a mesa e bloqueando a visão deles para quem estava de fora. Ele respirou fundo.

- Não posso fazer isso. – disse, e era clara a resignação, como ele lutava contra os sentimentos por ela e como parecia já saber o que aconteceria caso se rendesse a eles.

- É por causa do seu trabalho?

- Sim. – Não era o maior dos motivos, mas era verdade. – Meu dever é te proteger e se nos envolvêssemos... Eu não poderia fazer meu trabalho direito. Eu me distrairia.

A CEO não conteve um suspiro de frustração. Ela realmente não via como eles dormirem juntos afetaria o trabalho dele.

- Como? – ela quis saber. – Seu trabalho é me observar o tempo todo.

- Não, meu trabalho é identificar e neutralizar ameaças contra sua vida. – ele a corrigiu. A formalidade atiçou a frustração dentro dela. – Se fosse observá-la, eu perderia as coisas ao redor. E essa é a questão.

Era pura desculpa.

- Nós dois sabemos o quão habilidoso você é. Você não é de se distrair. Não se distrairia na hora séria. – Felicity dizia por experiência própria como foi difícil fazê-lo rachar no dia anterior.

- A questão é que existem limites. Nossa relação era para ter sido apenas profissional.

O sangue dela fervilhou nas veias.

- Agora você me vem com limites! – disparou, a voz se descontrolando, mas ainda sim mantendo alguma postura. Se a perdesse, chamaria atenção de Jerry e Diggle lá fora, e aí o segredo deles viria à tona. – Não me lembro de você ter mencionado isso quando me permitiu ir a sua casa, a casa de sua família. Ou quando nos tornamos amigos.

- Nada disso devia ter acontecido.

O tom neutro dele foi um balde de água gélida. Dessa vez veio a dor. Ela respirou com certa dificuldade enquanto processava as palavras dele. Ele a via como uma distração.

Mas se ele realmente se sentia assim, por que não impediu nada no começo? E foi então que Felicity notou que Oliver estava usando com ela a fachada que colocava para todo mundo, a farsa que ela percebeu logo quando a conheceu.

No entanto, havia uma verdade ali... Que vinha do âmago dele. Dos demônios. Era aí a origem de toda a restrição dele.

Oliver tinha plena noção que ela percebia ele usando a máscara. Contudo era o que tinha para afastá-la.

- Então é assim que vai ser? – ela falou rispidamente. Teria que vê-lo todo dia, sabendo de seus sentimentos, sabendo que ele correspondia à atração, porém a recusando por ele achar errado. Teria que vê-lo todo dia sem tê-lo.

Seria uma tortura.

- É assim que vai ser daqui para frente entre nós? – ela repetiu e gesticulou entre eles brevemente.

A expressão dele voltou a ser séria.

- Não importa o que eu sinta, Felicity, meu compromisso profissional com você jamais mudará.

Ela já imaginava que Oliver fielmente manteria seu trabalho com ela por mais que se recusasse a se render à paixão entre eles. Ele era teimoso assim.

E lá estava ela certa mais uma vez.

Queria não estar.

A frustração se transformou em raiva.

- Eu ficarei ao seu lado por quanto tempo você quiser. – Mas não ao lado como ela queria, ela pensou amarga. – Basta uma palavra e eu irei embora e você nunca mais terá que me ver.

As palavras eram uma avalanche caindo, colidindo com ela. Agora ela era um misto confuso de emoções. Ela sabia que ele não estava falando isso por querer de fato ir embora. Ele era um homem honrado.

No entanto, havia a tentação. Por um segundo doido, Felicity cogitou "e se?". E se ela despedisse Oliver? Definitivamente seria melhor para lidar com os sentimentos por ele. No entanto... Ele estava ajudando-a com a investigação, sem contar que não havia especialistas tão bons como ele no mundo, quem dirá no ramo de segurança pessoal, para substituí-lo. E ela também ficaria sem provocá-lo, sem as conversas, sem os Sorrisos Quase-Inexistentes... Ela ficaria sem um amigo. Talvez já tivesse perdido o amigo com essa confusão.

Havia dor em pensar em não vê-lo mais todo dia. E era maior do que a de ter que conviver com sua paixão por ele e reprimi-la.

Ela logo soube. Mesmo com o clima pesado entre eles, ela não conseguia se ver sem ele.

Felicity odiou a ideia dos guarda-costas no começo e olhe agora onde estava.

- Não tem necessidade. – ela comentou, sem conseguir disfarçar a mágoa e a acidez. Seus dedos recomeçaram a digitar no teclado, o olhar voltando para as telas.

Ele conteve um grunhido.

- Esse é o outro motivo. – disse, e ela sem se segurar ergueu de novo os olhos para ele. A pose dele rachou, e ela teve vislumbres do mundo dele por trás: luta, resignação, culpa, solidão. Vontade, esperança. Até a voz a partir de agora mudou. – Eu tenho uma tendência a destruir coisas boas na minha vida. As pessoas que se aproximam de mim... elas se machucam. Eu inevitavelmente as machuco.

O coração de Felicity quebrou, mas por causa dele. A ternura e a compaixão por ele a invadiram. Ela estava chateada, porém entendia a resistência dele, e era uma situação tão complicada. Havia certo e errado e percepções do que era certo e errado. Ela se levantou e caminhou até ele. Parou em frente a ele, não para tentar a tensão entre eles, mas sim para que ficasse claro para ele. Olharam-se com atenção.

- Você não quer me machucar, certo? – falou suavemente. Ele concordou com a cabeça. – Então não machuque.

A base da resistência dele tremeu.

- Machucá-la é a última coisa que quero. Mas não é tão simples assim, Felicity. – A voz dele também baixou, tornando-se cada mais crua e vulnerável. Ela não devia ter se arrepiado com o nome dela, mas o jeito com que ele o pronunciava era demais para ela aguentar.

- Eu confio em você.

- Não devia. Não assim.

- Você é um homem bom.

- Não sou, Felicity.

Quanto mais ela o elogiava, mais forte ficava a tempestade dentro dele. Ao mesmo tempo, algo lá no fundo, um pequeno ponto de luz se agitava, como se desafiasse o caos. Era um conflito que só mesmo Oliver para aguentar – e não mostrar a ninguém – e ainda ficar de pé.

- Então a sua negação é por não me querer...

Ele a interrompeu prontamente:

- Não é falta de desejo. Pelo contrário. Eu nunca quis tanto alguém em toda a minha vida. – O azul das íris dele adquiriu um brilho refletindo as palavras. O tom arrastado e rouco dele causou uma explosão de arrepios dentro dela.

Honestamente, por que ele não poderia simplesmente beijá-la até que nenhum dos dois conseguisse mais respirar? Ou transar com ela até que ela enfim o arrancasse de seu sistema?

Oliver brigava com as palavras e no fim acabou escolhendo confissão.

- Eu tenho medo de algo acontecer com você e ser minha culpa.

O coração de Felicity pulou. Ela também estranhou; Oliver não tinha medo, ele era provavelmente o homem mais corajoso que já vira. Ela se pronunciou com calma.

- Bom, se é verdade, então por que escolheu esse trabalho? Não pode viver com medo caso contrário você não age.

Ele balançou a cabeça de leve. Ela não entendeu o que ele quis dizer. Ele pulava na frente do perigo num piscar de olhos. Fora treinado para correr em direção ao fogo. Diabos, havia um lado deturpado dele que adorava a linha de fogo e o que ela trazia, tanto bom o quanto o mal – e principalmente o mal, que era o que o assombrava de verdade.

- Não, não é isso. Eu não sinto medo do meu trabalho. – ele pausou. Era péssimo naquilo de compartilhar. Por isso enterrava todos os sentimentos no fundo de si e lutava todo dia para não senti-los. – Acontece que... Eu nunca tive um cliente que ficou tão próximo de mim. O que significa que minhas preocupações são agora num nível pessoal. Não entende, Felicity? Proteger você não é apenas meu trabalho. É parte de quem eu sou.

Felicity ficou sem o que dizer por um instante. Mas depois se achou.

A claridade a invadiu.

- Entendo. – Ela se afastou dele, a atmosfera entre eles mudou de novo, e ela contornou a mesa para sentar. – Bom, eu disse que assim que conversássemos acabaria. – Ela sentou na cadeira e sem cerimônia voltou a trabalhar. Oliver voltou ao seu posto.

Ele a rejeitou e pronto. Não iria ficar correndo atrás dele. Ela tinha respeito próprio, sabia seu valor. Ela queria coisas da vida, e se ele não fosse fazer parte disso porque se recusava... que seja. Oliver que lidasse com seus problemas.

Ele fizera sua escolha, ela fazia a dela.


Um estrondo abafado chamou atenção de Felicity, tirando sua concentração do programa de televisão. Ela olhou ao redor da sala do apartamento a procura da origem, e seu coração pulou e acelerou desenfreadamente ao olhar para a janela. Havia um ponto de rachadura, de onde divergiam alguns caminhos. Como se fosse um tiro.

Mal chegou a essa conclusão quando veio o segundo disparo, e ela o viu atingindo o mesmo ponto. Mais rachaduras.

O vidro tinha blindagem, mas o armamento parecia pesado, e ela receava que mais um tiro ou outro e a janela se espatifaria. E aí o atirador se voltaria para o verdadeiro alvo: ela.

Por instinto, ela mergulhou atrás do sofá. Estava nervosa e com medo, mas também alerta, e sua mente já desdobrava possibilidades e soluções. Por sorte, ela estava com o celular, e os dedos voaram para disparar o aplicativo de emergência. Ela devia ligar para a polícia, ativar o alarme de casa, porém na verdade seu primeiro pensamento foi uma pessoa. Por mais que o clima entre eles estivesse esquisito, ela tinha uma certeza enraizada em si que ele viria a seu auxílio. E naquele momento precisava ouvir a voz dele.

- Oliver?


Ele nunca saiu de casa tão rápido na vida. Bastou seu celular apitar com o acionamento do alarme e automaticamente entrou em modo de alerta. Em questão de segundos estava pegando a chave da moto e saindo pela porta. Ela ligou quando ainda estava no elevador.

- Fale comigo, Felicity.

Ele colocou o mini fone para continuar na ligação. Subiu na moto e arrancou.

- Tem alguém aqui... Não no apartamento, mas perto. Tá atirando no vidro para quebrá-lo. A blindagem não vai aguentar muito. – ela disse. Ela estava com medo e, embora a voz falhasse, ainda sim tinha certa firmeza.

Oliver ouviu um novo tiro ao fundo. Obviamente o armamento era pesado para ter alguma chance contra a blindagem. Pura ira tomou conta de si. Ele incrivelmente se sentiu mais desperto, mais afiado, mais frio. Deu boas vindas às sensações. Seu corpo estava preparado, sempre estava. A frieza clínica dele, de acordo com um de seus instrutores da Academia Militar, era um dos motivos por que ele foi um exímio soldado. Ele era uma máquina de guerra como poucos havia.

- Felicity, escute minha voz. Não desligue. – disse com calma. – Preciso de visual. Você consegue fazer isso? Outra coisa: não fique no primeiro andar. Vá para o seu quarto, para o closet. – Ele dizia aquilo para o risco de a blindagem não aguentar até ele chegar. Claro que uma parede não era nada para uma arma de guerra, porém pelo menos ainda era uma barreira e dificultaria a mira do atirador.

Ele ouviu os sons dela pelo apartamento e provavelmente pegando ou indo a um computador.

Oliver já analisara o arredor do apartamento dela. Era muito provável que o atirador estivesse no prédio alto mais próximo e essa seria sua primeira parada até ela lhe oferecer mais informações ou ele chegar antes disso, porém ele não descartava outras possibilidades. Quanto à identidade do atirador, talvez fosse quem a perseguira dias antes.

Já era noite e, portanto, o trânsito, mais tranquilo. Mesmo assim ele voou pelas ruas de Starling.

- Ele está bem perto, aliás. No prédio alto que a gente vê da varanda. – A voz dela veio, e ele não pôde deixar de sentir alívio. – Desbloqueei a entrada para você.

Felicity mal se pronunciou quando veio mais um tiro. Dessa vez um estampido alto acompanhou. Ela gritou. Oliver soube o que aconteceu. O vidro estilhaçou.

Agora bastava um tiro para tirar a vida dela.

Por sorte Oliver não morava longe. Ele chegou segundos depois. Ele entrou, encontrando a porta destrancada como ela dissera.

- Entrei. Vou desligar. – disse e cortou a ligação.

O elevador estava perto, e ele pegou para o último andar. Seu coração batia forte pela adrenalina, mas era mais pelo risco a ela. A viagem demorou uma eternidade.

O último andar do prédio não dava para o telhado, porém havia acesso. Oliver abriu uma porta e subiu as escadas que surgiram. Agora seus movimentos eram calmos e calculados. Sua respiração era controlada. Queria se aproveitar do elemento surpresa. Sua pistola estava pronta em sua cintura, porém ele não queria usá-la ainda.

Uma nova porta, e Oliver a abriu. Logo viu um homem na beirada, o rifle armado num tripé. Ele estava completamente imóvel, apenas esperando uma mira limpa, esperando o alvo aparecer.

Oliver reconhecia a pose como ninguém. Ele mesmo estivera nela diversas vezes.

O ódio era um rio gelado em suas veias.

Silencioso e furtivo, ele adentrou o telhado, caminhando nas sombras, escondendo-se nelas. Sua mente calculava a abordagem.

Ele parou num ponto do outro lado de onde entrara. Não podia demorar muito senão ou o cara atiraria ou decidiria dali para tentar invadir o loft.

Oliver achou um pedaço de metal no chão e o pegou. Logo teve uma ideia. Snipers não se distraíam fácil, nem com sons pontuais. Ele jogou o metal para o outro lado e logo em seguida pegou a própria pistola e atirou na maçaneta da porta. O tiro quebrou a postura do atirador. Oliver avançou rápido e letal, sua mão indo parar no braço dele que saiu do gatilho com a distração o suficiente para que o guarda-costas o tomasse e acertasse um nervo para impedi-o de atirar. Oliver imobilizou o homem e o arrastou para longe do tripé. Ele resistiu, saiu do aperto ao desequilibrar Oliver e tentou lutar, mas bastaram apenas dois golpes antes que Oliver tivesse o braço dele torcido para trás.

- Quem é você? – rugiu.

O atirador tentou pegar uma faca de seu cinto com a outra mão. Oliver percebeu e o desarmou, chutando-o na perna e tirando seu equilíbrio. Mais um chute e jogou a faca longe. A lâmina deve ter cortado o homem com a brusquidão, pois ele ganiu. Tentou se soltar do abraço sufocante, porém não deu certo. Oliver o soltou apenas para socá-lo na garganta e dar uma joelhada na cabeça, procurando atordoá-lo ainda mais, depois o tomou numa chave de braço tão forte que em questão de segundos o ar foi extinto de seus pulmões, e ele desmaiou.

Oliver soltou o homem e olhou ao redor. Viu uma mala, provavelmente onde carregara o tripé e a arma. Também devia conter mais armas. Ele queria identificar o atirador, porém não sabia se era a única ameaça. Foi até a beirada do telhado e olhou para a rua, procurando alguma suspeita. Nada imediato. Seu olhar se voltou para o prédio de Felicity. Mais provável que possíveis ameaças extras estivessem ali. A raiva novamente atiçou nele ao ver o rombo na linda parede de vidro e pensar nela lá dentro amedrontada.

Ele arrastou o homem até o prédio de Felicity, e o amarrou por precaução na entrada da escada no corredor do andar dela. Depois foi até o loft, digitou o código especial que ele, Diggle e Rob tinham para acessar e entrou. Olhou ao redor; não identificou novos criminosos nem no prédio nem ali dentro. Subiu para o segundo andar.

- Felicity?

Foi na suíte dela, mas nada. Percorreu-a inteiro antes de ir para o escritório. O alívio foi uma onda refrescante ao vê-la encolhida contra a parede com um laptop no colo. Oliver se ajoelhou ao lado dela e, sem pensar, uma de suas mãos foi parar na bochecha dela, segurando-a com uma delicadeza que contrastava com a letalidade apresentada por ele poucos minutos atrás.

- Hey, sou eu. Você está salva. – A voz saiu gentil. Ela ergueu o rosto amedrontado para ele. – Você está bem? – Ela não respondeu, mas meneou com a cabeça em afirmativa.

Ele se afastou ao perceber o contato íntimo e como começou a desfrutar dele mais do que devia. A tensão no corpo dela se desfez visivelmente, e ela ajeitou o corpo. Oliver a acompanhou enquanto ela levantava com calma e um tanto trêmula.

- Respira fundo. – ele orientou. Ela o fez, contabilizando a inspiração e expiração. Ele queria continuar segurando-a, mesmo que apenas nos braços para estabilizá-la, mas se conteve.

- O que aconteceu? – perguntou após alguns segundos.

A imagem do homem reacendeu a fúria em Oliver.

- Atirador. Eu o desarmei e o desacordei. Arrastei-o até aqui só por precaução.

Ela ficou rígida ao saber que seu atacante estava ali.

- Onde ele está? Traga-o aqui.

Os dois desceram até o primeiro andar, ela ainda carregando o laptop, e Oliver trouxe o homem para dentro. Ao retornar, viu Felicity no celular. Assim que desligou ela se virou para ele.

- É John. Perguntou o que aconteceu porque o alarme apitou e também se devia vir, eu disse que não, mas ele já está a caminho.

Oliver largou o homem desacordado aos pés dela.

- O que vamos fazer? – ela perguntou.

Ele não respondeu. Começou a andar de um lado a outro, um passo calculado e controlado, mas ainda sim parecendo um animal enjaulado. Uma fera prestes a soltar sua fúria. Sua expressão era firme, dura e brutal, e ela podia ver a raiva ainda borbulhando em seu sangue, irradiando de seu corpo. Felicity via os contornos da escuridão. Sabia que nada daquilo era voltado para ela.

Ela nunca viu um homem tão mortal em toda sua vida.

E mesmo assim ela nunca se sentiu tão protegida.

Era por isso que não conseguia deixar de sentir intrigada por ele. Oliver era um homem tão complexo e intrigante. A dualidade dele era cativante. Ele era sombrio e ríspido, e ainda assim lhe mostrou gentileza, respeito e apoio como ninguém.

Oliver parou, agachou-se sobre o corpo e explorou os pertences do homem. Achou uma arma e a pegou, depois mexeu nas roupas e nos bolsos dele.

- Felicity, consegue identificá-lo? – perguntou, levantando o olhar para ela.

- Acho que sim.

- Parece um matador de aluguel. – ele disse após um tempo.

A paciência dele estava anormalmente baixa nos últimos dias e agora com essa informação...

Outra explosão fervente. Sua fúria cresceu novamente. O inferno se libertou dentro dele. Seu maxilar se contraiu ainda mais forte.

Primeiro o sequestro, depois a faca e agora um assassino profissional.

Ele estava cansado de correr por inúmeros cenários e nunca conseguindo a certeza que queria.

Alguém queria matar Felicity.

E ele queria respostas agora.

Era hora de embaçar as linhas da legalidade. Por acaso Oliver tinha muita experiência com isso. Ele olhou para Felicity, respirando profundamente para conter as chamas queimando dentro dele. Ele sabia que ela mesma tinha tons de cinza, mas não achava que elas aguentariam a ideia dele. Ela tivera vislumbres de quem ele realmente era, momentos em que sua fachada rachara, a máscara escorregara. Sua ideia seria nada do tipo. Ele estaria propositalmente convidando-a para seu passado, para sua escuridão como nunca antes. Ele a mergulharia em águas desagradáveis e nojentas dentro dele, dentro de sua vergonha. Se ele não estivesse tão furioso, ele teria sentido um quê de dúvida antes de propor isso a ela.

Mas o pensamento de mais alguém estar vindo para pegá-la e ele não sabendo das razões era pior.

- Você confia em mim? – Sua voz saiu um tanto dura, mas ainda havia bastante da suavidade que ela vinha aflorando nele desde o momento que a conhecera. Ele perguntou mesmo totalmente consciente dos últimos dias tumultuados entre os dois. Mas o distanciamento dele era por ele desejá-la demais. O trabalho dele, a missão, nunca foi alterado. Era dever dele protegê-la. Por isso a pergunta. Ele só precisava que ela confiasse nele nesse quesito. E ele viu tudo isso no azul dela enquanto a fitava.

Ele a perguntou o mesmo antes, mas num tom descontraído. Ele percebeu como ela respondeu mais profundamente do que esperava. E queria ouvir as palavras do mesmo jeito de novo.

- Com a minha vida. – E elas vieram, ecoando com o mesmo tom calmo.


Felicity não demorou a reconhecer o homem.

- Michael Lamar. Um assassino de aluguel com uma fama e tanta no mundo do crime. – informou sem tirar os olhos da tela do computador. – Ex-militar. Parou de servir há... quatro anos. – Ela fez um cálculo rápido. Lamar serviu no Oriente Médio quase na mesma época que Oliver. – Foi quando trocou de lado.

- Não o conheço. Nunca o vi. – Oliver o olhou friamente.

Ela se virou para o guarda-costas.

- Ok, por que um assassino de aluguel está atrás de mim? Vamos às possibilidades. Os bons e velhos mafiosos... Mas eles têm vários maníacos assassinos, por que contratar um? Então... Overlord? Faz mais sentido?

- Sei tanto quanto você. Mas vou descobrir mais esta noite.

Um alerta na tela do computador chamou a atenção dela.

- Oliver, a polícia tá vindo. Eu impedi que o alarme do loft os avisasse, mas alguém deve ter ouvido os tiros e os chamados. O que vamos fazer?

- Eu tenho um plano. – ele disse misterioso. Afastou-se alguns passos, sacou o celular e ligou para Diggle.

- Estou chegando. – Foi a primeira coisa que seu parceiro disse. – Parando o carro agora.

- Bom. Preciso de você. Se apresse.

Diggle apareceu na porta minutos depois. A primeira coisa que viu foi o buraco na parede blindada e depois o atirador no chão. Nem Oliver ou Felicity precisaram explicar o que houve.

- Caralho.

Oliver foi direto ao assunto:

- A polícia tá vindo, mas não posso deixá-los pegá-lo agora.

- O que você tem em mente? – Diggle perguntou.

- Um lugar onde posso interrogá-lo sem perturbações.

Felicity viu Diggle ficar tenso com a palavra interrogar. Como se tivesse um significado diferente.

- Oliver...

- Não é o que está pensando. – o outro disparou.

Felicity só não disse nada pois achava que em breve descobriria.

- Esse lugar não é o meu antigo escritório, é?

- Não. Receio que possam descobri-lo.

- Ok. – Diggle respirou fundo. – O que você precisa de mim?

- Vamos seguir a rota tradicional, pelo menos na aparência. Fique com Felicity. Fale com a polícia. Diga que o aplicativo de emergência que temos com ela foi ativado e você veio atrás dela. Vou avisar assim que chegar ao local depois venham. Preciso do seu carro, Dig. – Oliver se virou para Felicity. – Tomei cuidado com câmeras quando entrei no prédio e quando vim para cá, mas mesmo assim certifique-se que nenhuma me pegou e, se pegou, substitua as gravações. Talvez eu precise de sua ajuda para uma coisa daqui para frente.

Ele pegou as chaves com Diggle e partiu carregando consigo o assassino. Felicity mal concluiu a varredura nas imagens conforme Oliver pedira quando a polícia chegou.

- Foi noticiado um tiroteio, senhorita...

- Smoak. Felicity Smoak. – ela disse já tendo desligado e largado o laptop.

- John Diggle. – ele tomou a dianteira e cumprimentou o policial. – Trabalho na segurança da Srta. Smoak.

O policial o olhou intrigado.

- O senhor já estava aqui durante o incidente ou chegou depois?

- Durante. Eu tentei ir atrás do homem, mas ele acabou fugindo. – Diggle disse prontamente.

- Como soube onde ir exatamente?

- Tem só um prédio com a visão perfeita para cá. Eu e meus parceiros já havíamos o observado desde que começamos nosso trabalho. Era a opção mais provável.

O policial parecia acreditar em Diggle.

- Conseguiu ver o rosto do atirador, Sr. Diggle?

- Não. O telhado do prédio estava sem iluminação plena. – Por sorte isso era verdade, Felicity pensou. – Mas não duvido que uma varrida minuciosa nas câmeras locais vai mostra-lo.

O oficial se deslocou para perto do buraco junto de Diggle e Felicity. Ele não escondeu a surpresa com o tamanho.

- Armamento pesado, huh. Específico assim como o alvo. – ele se virou para a mulher. – Alguma ideia de quem possa ser?

- Algumas. – Felicity deu de ombros. – O Detetive Malone está mais inteirado do meu caso. Se isso puder chegar a ele...

- Claro.

Os policiais fecharam o buraco provisoriamente com o que acharam no apartamento e no resto do prédio. Depois eles foram embora. Felicity ficou encarando a parede sentindo-se vulnerável.

- Não se preocupe, eu passo a noite aqui com você. – Diggle disse parando ao lado dela. – Você é uma das mulheres mais inteligentes e duronas do mundo. Vai conseguir superar isso. E lembre-se: você não está sozinha. – ele sorriu para ela. Ela incrivelmente conseguiu retribuir.


Uma vantagem de ser da família de uma companhia gigante como a Queen Consolidated era que ela abandonava locais, mas os deixava ainda sob sua possessão e com uma segurança questionável e que não representava desafio algum a alguém como Felicity Smoak. E Oliver fez questão de saber deles tanto por motivos profissionais na ARGUS quanto pessoais.

Ele trouxe o assassino a um laboratório desativado, mas que ainda sim continha recursos com eletricidade e água, mesmo que o abastecimento fosse péssimo. Colocou o homem amarrado numa cadeira com correntes e deixou-o desacordado enquanto inventariava o arredor. Alguns objetos quebrados aqui e ali e que talvez fossem úteis.

Tudo dependia do homem.

Tão apressado em acudir Felicity, Oliver nem mesmo pegou a faca que normalmente usava no dia a dia. Nem imaginava que, ao sair de casa, acabaria ali naquela situação.

Ele falara a Diggle que não faria um interrogatório como costumava nas Forças Especiais, mas, se realmente fosse necessário, a sala do outro lado de vidro podia ser facilmente enchida de água e havia uma fonte de corrente elétrica. Não seria a primeira vez que usaria essa técnica.

Uma sensação desagradável queria invadi-lo. Nela havia também uma faísca de agito, o que não devia existir, o que ele odiava, o que o deixava amargo. Ele se odiava.

Ele olhou para a cadeira. Bastou saber que o assassino era um ex-militar para as lembranças o assaltarem e repassarem em sua cabeça. Ele revivia tudo separadamente e ao mesmo tempo de uma vez. Parecia que ocorria agora e não anos atrás.


Oliver passou a vida sentindo lá no fundo que não se encaixava, sem achar seu propósito. Por isso largou faculdades. Nunca imaginou que o Exército lhe traria claridade.

Ele brilhou na Academia Militar de Monument Point. O treinamento revelou suas habilidades. Descobriu-se um estrategista nato. Ele era insanamente bom em empunhar armas e em diversas modalidades de luta. Compreendia seu corpo se movimentando, cada músculo e cada membro dele, e mais ainda compreendia e lia perfeitamente os movimentos do adversário. Ele se dava bem e se sentia confortável empunhando seja facas, pistolas ou rifles de sniper. Sua mente tinha um dom único para se focar, para compartimentar, para não deixar se abalar e ser tomado por emoções.

- Na guerra, filho, essa frieza é tudo. É o que te faz sobreviver. – lhe dissera um de seus treinadores.

Sobreviver. E não viver. Oliver, ainda ingênuo na época, não notou a diferença. Achou que as duas palavras eram sinônimas.

Agora ele achava que lados opostos de um espectro.

Contudo, havia diferença em ser um soldado exímio no treino e na guerra. Oliver só aprendeu isso tarde demais.


O galpão era afastado do centro da cidade. O caminho até lá foi em silêncio total. Diggle apenas lhe perguntou se estava bem ou preocupada e manteve-se alerta ao seu lado enquanto eles entravam no local.

Não demoraram para encontrar Oliver. Ele estava num aposento com uma parede de vidro, onde do outro lado havia uma sala menor, lembrando Felicity de uma sala de interrogatório. O assassino estava sentado numa cadeira, ainda desacordado, e o guarda-costas estava de frente a ela, fitando o outro de braços cruzados. Logo a frente de Oliver tinha uma mesa e sobre ela havia uma faca e alguns objetos metálicos pontiagudos. Eram pedaços de outros objetos maiores, como se houvessem sido improvisados em... facas e adagas.

- Como foi com a polícia? – ele perguntou sem desviar os olhos um milímetro sequer.

- Tudo tranquilo. – Diggle respondeu. – Ainda não acordou ele?

Oliver girou a cabeça para Felicity. Ela o notou ainda mais fechado e sério que o normal.

- Bom saber que trouxe o tablet. Enquanto eu estiver com ele tente descobrir quem o contratou. Ficarei com o fone no ouvido. Me conte se achar algo. – ele olhou para o parceiro. – Esconda-se. Leve-a com você.

Ela e Diggle foram para trás de uma parede. O ponto estratégico a permitia ter uma visão do que acontecia sem se revelar.

Oliver se aproximou do homem na cadeira por trás e apertou um ponto na região do colo. Deve ter sido um nervo pois instantaneamente ele despertou com um salto. Felicity não pôde deixar de ficar impressionada. Ela o via treinar com Diggle, porém aquela era a primeira vez que presenciava plenamente as habilidades dele em ação.

O homem olhou de um lado para outro, analisando o local, até que Oliver deu a volta novamente na cadeira e parou em frente a ele.

- Michael Lamar.

Lamar abriu um sorriso frio.

- Eu sei quem você é. – disse. – Não o riquinho. Sargento Queen... Ou melhor, Tenente. Uma lenda das Forças Especiais. O prodígio de Monument Point. Deveria saber que não seria qualquer um a me pegar.

Oliver nem ao menos reagiu ao tom de deboche.

Estranhamente uma excitação percorreu Felicity. Sentiu estar prestes a desvendar um pedaço da história de Oliver e não conseguia conter a curiosidade. Apenas metade de sua atenção estava em seus dedos digitando e hackeando.

- Michael Lamar. Serviu três anos no Iraque, um no Afeganistão. Trigésimo segundo batalhão de infantaria do exército americano em Kandahar. Virou um mercenário logo após a dispensa.

- Que honra um herói de guerra saber minhas credenciais.

- Tornei minha obrigação saber depois de sua aventura hoje.

Lamar se remexeu, tentou se soltar das correntes. A parte de trás da cadeira refletia no vidro, mostrando todos os movimentos dele, e Felicity imaginou que seria por isso que Oliver escolheu aquela sala.

- Não faria isso se fosse você. – Oliver falou simplesmente.

O homem sossegou.

- O que você quer, Queen? Você não pode me manter aqui. Você é apenas o guarda-costas de Felicity Smoak.

- Eu posso. – Oliver disse. – Enganou-se se acha que sou apenas o guarda-costas da Srta. Smoak.

Felicity sabia que Oliver estava mentindo, blefando para o cara, mas a fria facilidade com que as palavras saíram ainda a surpreendeu. Seus olhos deviam estar demonstrando algo perigoso, pois ela viu o homem vacilar por um segundo.

- Se fosse você, eu pensaria de novo antes de ser tão assertivo ao afirmar que não posso mantê-lo aqui. – Oliver continuou, a voz a cada sílaba tornando-se mais baixa e calma, escondendo a ameaça por trás. – Eu poderia entregá-lo para a polícia e, acredite, seria melhor para você.

O receio sumiu dos olhos do assassino. A expressão sádica voltou ao rosto.

- Ah, um dos especiais. Eu devia saber com o que ouvi de seus feitos...

Oliver o ignorou.

- Você sabe o que eu quero. Quem o contratou?

- Ah, Queen. Você acha que vai ser fácil assim? – Lamar devolveu.

- Tudo depende de você. Posso muito bem transformar isso em difícil se quiser.

- Sei que pode. Foi para isso que foi treinado. – O homem inclinou a cabeça de lado e olhou Oliver de cima a baixo como um experimento científico. – Sabe que é isso que não entendo? Nós temos habilidades semelhantes, mas você é considerado do bem e eu, do mal. Essa porra de dicotomia.

Felicity parou de digitar completamente. Lamar continuou:

- Queria saber qual a diferença entre eu e você agora. Que eu mato pessoas como profissão? Matei pessoas no Oriente Médio. Você também. Alguns diriam que você fez pior.

- Eu sei muito bem do sangue em minhas mãos.

A voz de Oliver saía gélida e afiada, mas Felicity notou uma nota, lá no fim, quase imperceptível. Profunda, sombria. Também viu que havia falhas em sua postura letal e imponente. Os ombros subindo milímetros por terem ficado ainda mais tensos, o dedo polegar se arrastando lentamente contra os outros, escondidos pela mesa, num tique nervoso. Detalhes mínimos que o mundo ignorava, mas que ela aprendeu a perceber e assim não lhe eram mais invisíveis.

Felicity já imaginava que Oliver matara – afinal, ele estivera na guerra –, era com certeza algo para marcar a alma de alguém. Por isso ela não se surpreendeu. Nem ficou enjoada ou chocada. Pelo contrário, um afluxo de compaixão lhe subiu. Oliver podia ter matado, mas não sentia nenhum triunfo ou orgulho. Havia... Arrependimento. Culpa. Choque. Agonia. Cada morte provocada pelas mãos dele era um demônio que o atormentava.

Ela desvendou e entendeu um pouco mais o mistério que Oliver Queen era.

Ele era poderoso, implacável e mortal. Um assassino. E mesmo assim Felicity não o temia.

- Lá a morte só era permitida, só era celebrada porque éramos pagos para isso e interessava ao governo americano. Nós éramos peões. Nos pintavam como heróis, cavalheiros que trariam liberdade e democracia aos pobres oprimidos. Mas o verdadeiro interesse naquela terra abandonada eram seus recursos. A guerra só é lucrativa para os jogadores poderosos. Governo, magnatas, traficantes de armas. Demorou um tempo para eu entender isso. E para decidir usar as habilidades que eles me deram para benefício próprio.

"Fizeram uma lavagem cerebral em nós, nos fizeram acreditar que estaríamos indo para fazer o bem. Eu tenho um dilema. Você já se perguntou se monstros fazem a guerra ou a guerra faz os monstros? Acho que é um pouco dos dois. Eles nos treinam, nos ensinam a matar, mas quando se chega no campo de batalha... É quando se torna real. É quando você racha ao meio. E é uma merda o sentimento de que você é bom naquilo, em matar, torturar, aterrorizar. Vejo que você é bom nisso, Queen. Não só pelo que to vendo aqui, mas é que, quando eu comecei minha nova carreira, eu acabei, de curiosidade, pesquisando perfis de antigos colegas. Achei o seu, mas sua ficha militar tinha mais tarjas pretas que letras.

"No fim, não importa a resposta ao meu dilema. A verdade irreparável é que guerras precisam de monstros. Como eu, como você. Ou você os cria ou eles se criam sozinhos."

Felicity viu que os nós anormais de tensão em Oliver se desfizeram. Ele estava com a postura relaxada. Imaginou que seria o contrário porque o homem estava descaradamente chamando-o de monstro...

Foi quando ela se tocou. Oliver estava confortável com as palavras porque ele acreditava nelas.

Oliver acreditava verdadeiramente que era um monstro.

O choque a tirou de eixo, tanto que ela ofegou baixo, o que fez Diggle lhe lançar um olhar de atenção.

- Continue. – murmurou. Felicity fez isso.

Oliver, por sua vez, sentiu a paciência esvair, porém sua expressão continuou impassível. Ele pegou a faca de Lamar e um dos pedaços metálicos, aproximou-se do outro e cravou a faca improvisada no ferimento já existente. O assassino ganiu. Sangue tornou a escapar pelo tecido da calça.

- Você pode falar agora ou pode passar pela pior dor da sua vida pelos próximos dias. – ameaçou acidamente.

- Que honra isso seria. – o homem provocou.

- Quem te contratou para matar a Srta. Smoak?

- Ninguém.

Oliver não resistiu e socou o nariz dele com o cabo da faca. Mais sangue. Oliver continuou limpo. Ele quase nunca se sujara nas vezes que fizera aquilo; era parte da rotina.


A rotina era a seguinte: limpar as lâminas, recontar as balas, desmontar as armas, limpar os componentes, remontar as armas. Oliver a criou e a repetiu exatamente durante mais de um ano. Só assim que conseguiu sobreviver ao tempo no Reconhecimento. Foi quando ele aprendeu a diferença entre viver e sobreviver.

Ele esqueceu o que era viver naqueles meses. Não tinha mais como se sentir plenamente um ser humano. Depois de cada missão, de cada cicatriz ganha, depois de cada interrogatório.

Quando foi recrutado para a Força de Reconhecimento, um esquadrão de elite das forças armadas, logo ao completar um ano no Oriente Médio, Oliver sentiu orgulho, pois era o resultado de seu trabalho. Seus colegas e superiores se surpreenderam com as habilidades e a disciplina dele. Ele passou na frente de vários outros soldados que estavam lá havia mais tempo.

O Reconhecimento, em teoria, era especializado em missões de localização e resgate. Seu foco eram elementos cruciais e importantíssimos para a guerra e contraterrorismo. Era só isso que o mundo sabia, pois as missões do esquadrão eram altamente secretas. Por isso a ficha de Oliver era tão confidencial. Isso porque as equipes iam atrás de terroristas, os interrogavam em buscas de informações e depois na maioria das vezes os matavam. Os interrogatórios eram na verdade sessões de tortura. Não tardou para ele descobrir isso.

Oliver foi um interrogador. E um dos melhores.

Ele tinha um conhecimento ímpar sobre anatomia aprendido na Academia, mas para aquela finalidade. Sabia onde e como cortar alguém para que a pessoa pudesse sangrar por dias sem morrer e onde infligir mais dor. O ângulo da arma, a pressão, a profundidade do corte.

A inteligência americana fazia questão de mostrar os frutos do Reconhecimento. Os ataques terroristas impedidos, as células desmontadas, as armas e as bombas apreendidas. As vidas salvas. Tudo isso sob o discurso de que o trabalho daquela unidade era necessário.

Oliver se viu preso num ciclo onde não conseguira escapatória até hoje. Ele enterrou e enterrou suas emoções e sentimentos até não sentir mais nada e continuou seguindo ordens. Continuou atravessando um dia de cada vez.

Ele tinha horror de si mesmo, um profundo ódio. Ele não conseguia viver consigo mesmo sabendo que seu maior dom, seu propósito era aterrorizar. Que só contribuía com caos no mundo.

Foi o Reconhecimento que quebrou a alma de Oliver e preencheu o espaço entre os pedaços das trevas. Ele se surpreendeu com a extensão delas, como podiam penetrar tão fundo nele, e ele aceitou que não havia limites para até onde sua escuridão ia.


- Estou falando a verdade. – Lamar cuspiu sangue.

Oliver resolveu tentar uma vez e foi por outro caminho.

- Foi Overlord quem o contratou?

- Já disse que não foi ninguém. Mas esse nome... eu o vi na dark web. Quem quer que seja, queria a captura da mulher viva.

Oliver se sentiu perto de uma informação crucial. Ele usou o objeto em mãos e abriu um corte na outra coxa de Lamar.

- Explique melhor.

O assassino respirou com dificuldade antes de continuar.

- Os rumores espalhados pelas máfias aqui acendeu o interesse na sua adorável cliente na dark web. Overlord aparentemente é o único que a quer viva. Quanto ao resto... Ela virou o alvo preferido de homens como eu, mercenários e assassinos. Imagina ser responsável pela morte de um dos CEOs mais importantes do mundo. – Mais um sorriso sádico.

A ira foi mais forte do que Oliver pôde conter. Tirou a faca, contornou a cadeira, agarrou a cabeça de Lamar e encostou a lâmina na garganta dele.

- Vamos, Queen, vai em frente. Liberte o monstro.

Oliver sabia que o homem estava falando apenas para provocá-lo. Funcionou.

Fazia tanto tempo desde a última vez que matara.

E agora a questão apareceu pela primeira vez. Ele faria isso? Se significasse salvar sua cliente? Sabendo do custo em sua alma? Ele mataria de novo apenas para salvar Felicity?

Ela estava ali. Ela podia vê-lo. Ela o veria assassinando uma pessoa, mesmo que tal pessoa fosse a escória do mundo.

Felicity ativou o fone e falou com ele:

- Oliver, já estava na dark web e aproveitei para checar as informações. Ele está certo. Existe uma recompensa pela minha morte, mas ninguém sabe quem está oferecendo. Chequei brevemente o histórico de atividades de Lamar. Todos os outros, uh, trabalhos dele teve mandantes... Dissidentes europeus, guerrilhas africanas, guerrilhas asiáticas... Menos o meu. Ele chegou até a trabalhar com um tal de Sha... Shabh. Que nome engraçado.

Por fora, Oliver manteve-se o mesmo. Lamar não sabia do ponto no ouvido, muito menos que o alvo dele estava ali. Por dentro, mais uma explosão de fúria.

Shabh. Fantasma. O responsável pelo ataque à equipe dele na primeira missão que liderara no Afeganistão. Ele não somente conhecia o nome, como o homem por trás. Ele mesmo o capturara quando era agente secreto.


O nome dela era Shado Gulong. Sargento-Médico da primeira equipe dele no Afeganistão. A única mulher. Ele a conheceu junto dos outros membros quando eles jogavam dardos na área de entretenimento da base. Dardos, sinuca, pingue-pongue, videogames, internet... Distrações ali eram necessárias; sem válvula de escape do dia a dia os soldados enlouqueceriam.

Shado tinha ascendência chinesa e uma beleza delicada, assim como sua voz. Ela tinha uma das personalidades mais tranquilas que Oliver já vira. Era incrível como ela se mantinha em meio a poeira, destruição, bombas e tiros. Ela era também uma das lutadoras mais habilidosas, mesmo sendo pequena. Foi por intermédio das lutas nos treinos que eles se aproximaram. Poucos meses depois, eles se envolveram. Foi com ela que ele aprendeu meditação e chinês.

Relacionamentos entre os soldados não eram expressamente proibidos, mas também não eram encorajados. Os oficiais faziam vista grossa. Não haveria problemas contanto que as missões não fossem atrapalhadas. E Oliver e Shado sabiam perfeitamente como agirem em campo e em privacidade. Ela foi uma das pouquíssimas coisas que prestou naquele buraco de inferno.

Oliver nunca se apaixonara por ela, tinha certeza disso, mas ele a amara. Existem vários tipos de amor, mas o que o ele teve por Shado não pôde ser classificado como fraternal ou romântico. Ele a amara como exatamente ela era: um ser humano. O tipo de amor que simplesmente era a essência de humanidade. O tipo de amor altruísta e empático que poucos tinham a capacidade de sentir em sua forma pura.

Tanto que não houve drama entre eles quando ele foi recrutado pela Força de Reconhecimento na segunda turnê. Shado entendeu perfeitamente que ele estava partindo para uma nova missão. Também não houve despedidas; eles sabiam que a qualquer momento podiam partir daquele mundo.

Incrivelmente, quando Oliver pediu baixa do Reconhecimento – após uma missão que ele foi radialmente contra e foi provado certo e após o interrogatório de um adolescente ao qual ele apenas assistiu; essa foi a gota d'água – e voltou à unidade original, Shado ainda estava lá. Era sua última turnê.

Ela era a mesma Shado de sempre. Ele, por outro lado, um homem bastante diferente.

Seu novo esquadrão era liderado por ninguém menos que John Diggle. Ao lado dele, estava Lyla Michaels, Sargento de Inteligência da equipe. Foi quando os dois se conheceram e também se apaixonaram.

- Meu novo 18Z. – disse Diggle assim que foram apresentados. Era a designação para um Sargento de Operações, como Oliver.

O tempo no Reconhecimento amadureceu Oliver em termos de estratégia e liderança, e ele não tardou a liderar sua primeira missão.

Um dos homens pisou numa bomba ativada por placa de pressão. O membro do esquadrão antibombas com eles conseguiu desarmá-la. O que ele não sabia era que havia uma segunda bomba conectada por sinal a essa e, se ambas não fossem desarmadas ao mesmo tempo, a outra dispararia.

Foi o que aconteceu.

A segunda bomba foi plantada no outro lado do prédio em que estavam. A explosão atingiu Shado completamente. Houve apenas restos mortais.

Oliver se lembrava perfeitamente do momento. Só conseguia pensar que falhou. Falhou no planejamento, falhou em observar seu arredor, falhou com sua equipe. A culpa o invadiu, mas ele já aprendera como compartimenta-la. Diggle a viu assim mesmo.

- Eu sei que você a amava e por isso tá sentindo mais do que o normal, mas... Não foi sua culpa e você deveria saber disso. – ele disse assim que Oliver saiu do galpão onde depositara os últimos pertences de Shado em sua caixa. Naquele lugar não havia ritos fúnebres, apenas caixas padronizadas e impessoais. Não havia tempo para luto.

Oliver não falou ou demonstrou qualquer tipo de reação. Apenas continuou fitando o horizonte escuro. O céu do deserto tinha a capacidade de ser estrelado como em nenhum outro lugar do mundo. Era belíssimo para aqueles que sabiam e ainda conseguiam apreciar beleza.

- Você fez um ótimo trabalho. A missão, mesmo com isso, foi um sucesso. Apenas uma baixa é algo muito bom para esse lugar. – Diggle continuou. – Shado sabia dos riscos, são os mesmos que todos nós corremos. Ela foi uma soldada exímia. Vai receber as honras que deve.

A escuridão dentro de Oliver apenas ficou mais densa, mais profunda, mais enraizada. Ele reforçou as barreiras ao redor de si para não sentir. Ele se afastou mais do homem que costumava ser. Ficou ainda melhor em compartimentar suas emoções.

A investigação sobre as bombas não foi tão esclarecedora. O responsável pelas bombas agiu por diversas vezes onde havia presença americana no Oriente Médio, mas era tão bom que nunca fora identificado. Por isso ganhara o apelido de Fantasma.

Até que anos depois, quando Oliver era agente secreto, Shabh ressurgiu, agindo ali mesmo nos Estados Unidos. Dessa vez, a ARGUS conseguiu identifica-lo. Oliver o capturou pessoalmente. Mas mesmo assim não obteve paz.

Ele já estava afundado demais na escuridão para ver algo além dela.


Oliver retirou a lâmina, voltou a ficar de frente para Lamar e se abaixou até seus olhos ficarem no mesmo nível. Sua expressão, ou a falta dela, exalava terror.

- Sabe de uma coisa? Existem monstros que de fato têm interesse por você. Amigos meus. Vão adorar saber de seu trabalho com Shabh. – Os olhos de Lamar se arregalaram por frações de segundo. Ali estava algo até então escondido. Ele sentiu uma onda de orgulho por Felicity. Claro que só ela para descobrir esse segredo. – Fiz minha pesquisa bem. Shabh matou uns tais amigos... O que significa que você também os matou. Eles vão adorar conhece-lo. – Oliver pausou por um segundo. – Você nunca vai encostar em Felicity Smoak. Você não vai encostar em mais ninguém. Até nunca mais, Lamar.

Oliver desacordou o assassino de novo. Diggle e Felicity saíram do esconderijo. Ele se virou para o parceiro.

- Ligue Lyla. Tenho um presente para a ARGUS.

Michael Lamar apodreceria na cadeia.


Oliver se fechou ainda mais. Felicity notou isso na volta de carro junto com ele. O olhar alerta dele por vezes falhou, e ele pareceu perdido em pensamentos. Reencontrar um ex-militar e o submeter a um interrogatório foram gatilhos pesados para ele reviver momentos da guerra.

Ela notou que Oliver parecia confortável no interrogatório, o que lhe dizia que ele fez aquilo outras vezes. E o interrogatório pode ter muito bem borrado os limites da moralidade, ainda mais quando ela ouviu o comentário sombrio de Lyla sobre o acesso a água e eletricidade na sala adjacente onde estavam.

Quando chegou em casa – e também por que não conseguiu dormir de uma vez, mesmo com John acomodado no escritório –, ela sucumbiu à curiosidade novamente e com o computador em mãos descobriu que conduzir eletricidade por água num aposento fechado era uma das técnicas de ação das Forças Especiais. Técnicas de tortura, ela corrigiu mentalmente.

Ela relembrou também o que sabia sobre Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Distanciamento emocional, evasão, pesadelos, relembranças de episódios com as mesmas sensações da primeira vez... Os artigos eram a definição de Oliver, se possível.

Ela logo soube que, se ele se afastara dela depois da cena deles na academia, agora que ela tivera um vislumbre concreto do passado dele seria muito pior.

E foi.

No dia seguinte, ele estava completamente fechado. Ela não conseguia lê-lo.

Ou pelo menos achava até que ele começou a depositar o olhar sobre ela e quando ela notava, ele desviava automaticamente. Num determinado momento, em frações de segundo, ela conseguiu ver a dor e a vergonha. A decepção e a expectativa. E a resignação.

Oliver estava esperando o julgamento de Felicity. Que ela o condenasse, que ela sentisse nojo dele, que o olhasse com horror. Ela sentiu o coração quebrar por ele de novo.

E sabia com uma certeza ferrenha que jamais conseguiria fazer nada disso.

- Sabe, você pode desistir. – ela disse quando ele a seguiu para dentro de seu laboratório.

Oliver franziu o cenho.

- Do quê?

Ela parou na frente dele e ergueu o rosto para ele.

- Você fica esperando que eu te olhe como um monstro. – disse sem rodeios. – Por causa de ontem.

Ela conseguiu a primeira reação dele. Ele arregalou os olhos por um instante; foi quase nada, mas para o sempre estoico Oliver, era o equivalente a uma bofetada.

- Não vai acontecer. – ela continuou. – Porque quando eu soube que você foi um soldado eu já sabia que você viria com a sua bagagem. O que você fez... ou o que deixou de fazer... não muda nada. – Felicity devia parar por aí, mas não se conteve. – E imagino que o que quer que tenha acontecido, você acha que é mais um motivo para me afastar.

- Eu te disse que não era um bom homem. – Oliver falou com um tom sombrio.

Felicity não conseguiu nem sentir frustração por causa da decisão dele de afastá-los. A tristeza era demais ao ver como Oliver se via. Ele não conseguia ver nada em si além de sombras.

- Você cometeu atos horríveis, pecados que eu vejo que tiveram um preço alto para você e que se refletem em como você age até hoje. – ela falou suavemente. – Você acha que tudo o que fez tirou sua humanidade a ponto de achar que não merece compaixão ou perdão. Mas o fato de você sentir vergonha e culpa prova que nada disso é verdade. Eu digo que essas coisas são uma prova da bondade que existe em você.

Felicity quebrou o contato visual para deixá-lo absorver as palavras e continuou circulando pelo laboratório, mexendo em ferramentas e protótipos.

- Você estava na guerra. Fez o que fez para sobreviver. Não é pecado querer viver. E mais... Com tudo o que você passou, você tinha todo o potencial para ter se transformado num Lamar da vida, mas não foi o que aconteceu.

Quando ela terminou, voltou a ficar bem de frente para ele. Olhou-o fundo nos olhos.

- Seu trabalho é literalmente proteger as pessoas. Um monstro de verdade não escolheria isso. – Ela pausou. – Eu acho que você merece o melhor.

Felicity se afastou, sem perceber que deixou um Oliver estupefato para trás.


NA: Confesso que dei uma neglicenciada aqui no FF hahaha Espero que tenham gostado! Daqui a uma semana posto o próximo ;)