- Youkai...
- Oh, então pelo menos um de vocês está ciente de quem somos. - A criatura esboçou um sorriso satisfeito. - Sim, humana, você está na presença de um magnífico youkai. Sinta-se honrada.
A poucos metros de onde estava, havia uma criatura saída direto de uma lenda antiga; um monstro. Não, um youkai. Devido a aparência dele, Aya pôde imediatamente classificá-lo como um dos que não conseguia - ou não queria, quem sabe - camuflar sua identidade. Contudo, isso não a assustou como deveria. Na verdade, com aquela aparência - a criatura possuía uma baixa estatura, pele verde e seus trajes assemelhavam-se aos de um monge -, ela só conseguiu pensar em uma coisa ao vê-lo:
- Mestre Yoda... - deixou escapar em um sussurro.
Ao ouvir aquilo, o youkai que até então vinha demonstrando, apesar de tudo, certa imponência, perdeu a compostura. Pareceu tão ofendido que Aya só podia concluir que ele estava familiarizado com a franquia Star Wars.
Pensar que um youkai pudesse estar antenado na cultura pop dos humanos fez com que sentisse uma vontade incontrolável de rir. E foi o que fez: riu. Uma risada sonora irrompeu de sua garganta, horrorizando os presentes que, diferente dela, estavam morrendo de medo do pequeno monstro. Não ligou para a voz de Hitoshi, que pedia que ela se controlasse. Continuou rindo. Riu, não apenas porque era engraçado imaginar youkais - criaturas supostamente cruéis e malignas - assistindo filmes, mas também porque depois de tantos anos, finalmente pôde comprovar a existência deles.
E agora estavam salvos.
¨Okaa-sama, eles existem! Otou-sama, nós ficaremos bem agora! O senhor pode descansar em paz!¨
- Maldita humana! Como ousa caçoar de mim?! - A criatura questionava aos gritos, enquanto aproximava-se dela, brandindo um cajado de duas cabeças em sua direção. - Irei te ensinar uma lição!
- O quê? - Assustou-se ao vê-lo assumir o que imaginou ser uma posição de batalha, e parou de rir imediatamente. - Não, espere! Eu não quis ofende-lo! Juro! - Espalmou as mãos em frente ao corpo, um sinal para que ele se acalmasse. - Caso tenha ofendido-o, sinto muito!
- Tarde demais!
- Aya-nee-san! - Hitoshi entrou na frente da prima, para protegê-la de um eventual ataque. - Fique atrás de mim!
- Vossa Majestade! - exclamou Satoru ao ver o rapaz entrar na mira do inimigo.
- Vossa Majestade? - Uma nova voz foi ouvida. - Como assim "Vossa Majestade"?
Todos os olhos, que até então estavam fixos na criatura ameaçando-os com um cajado, voltaram-se para a porta, onde um homem mantinha-se encostado no beiral da mesma.
Não, aquilo não era um homem, por mais que se parecesse com um. Era belo demais para ser um homem comum, e também, haviam aquelas orelhas, pontudas como as de um elfo. Sim... Aquilo definitivamente era um youkai, e do tipo que sabia como se disfarçar.
- Não se meta, kitsune!
Raposa?
Ignorando o ser esverdeado, o bonitão continuou a encarar os prisioneiros e estava falando com Hitoshi quando perguntou:
- Você, que tipo de monarca você é? Um rei?
- Nenhuma palavra, senhor - sussurrou Satoru, alertando Hitoshi para não revelar sua identidade.
Aya teve de concordar. Por mais que quisesse confiar naqueles seres, a segurança do Imperador vinha em primeiro lugar - o que era uma grande ironia considerando onde estavam.
- Guardar informações não é muito aconselhável, Majestade. Se quer um conselho realmente bom, eu posso lhe dar: enquanto estiver aqui, responda toda e qualquer pergunta feita a você. Principalmente na presença dele.
Ao ouvir aquilo, a princesa sentiu-se eufórica. Sem sequer dar-se conta, afastou-se de Hitoshi e deu alguns passos a frente, dizendo:
- "Dele"? Você está falando sobre o genocida, não é mesmo? Estamos no Castelo de Edras, não é mesmo?
- Aya!
- O geno... Como se atreve?! - O youkai verde bateu o cajado contra o chão, assustando-a. - Criatura insolente! O que pensa saber sobre o meu mestre?!
- E-eu...
- Hai, hai, Jaken-san! - O bonitão segurou o outro youkai para que ele não avançasse sobre ela. - Não precisa se exaltar. Aposto que ela não fez por mal.
- Solte-me!
- Você irá matá-la? - perguntou em dúvida. Tal questão fez Aya recuar automaticamente.
- Solte-me logo, kitsune abusada!
- Pronto, pronto! Já soltei!
Livre das mãos do youkai raposa, aquele que agora sabiam chamar-se Jaken olhou com raiva para Aya, mas não tentou atacá-la novamente. Ao invés disso, deu as costas para todos e saiu da sala, dizendo:
- Descubra quem é o líder e leve-o para o castelo. Ele está à espera.
Por um segundo, sentiu-se tentada a ficar feliz por ouvir tais palavras, afinal, era justamente aquilo o que foram fazer ali: encontrar o castelo e conversar com o governante de Edras. Mas então ela viu a expressão de pesar que por um momento estragou a bela pintura que era o rosto do youkai de cabelos ruivos e, ao invés de felicidade, sentiu uma pontada de medo. Pela primeira vez desde que saiu de Tóquio, a ideia de comprovar a veracidade de uma lenda antiga não pareceu tão atraente aos seus olhos.
Suspirando, o ruivo disse:
- Vocês ouviram. Quem é o líder?
- Eu! - Apressou-se a responder. Embora soubesse que já era muita tarde, não queria envolver seus companheiros ainda mais naquilo tudo.
Infelizmente, seu primo não parecia concordar com ela, ao que ele disse:
- Ela está mentindo. Quero dizer, sim, ela é a líder, mas eu também sou.
- Hitoshi!
Ignorando-a, ele prosseguiu:
- Você perguntou que tipo de monarca eu sou, certo? Bem, meu nome é Hitoshi e eu sou o seu governante, o Imperador do Japão - concluiu pomposamente.
Em seu íntimo, Aya sabia que ele estava dando seu máximo para não fraquejar diante das circunstâncias e continuar agindo com dignidade apesar delas. Todavia, todo seu esforço foi em vão já que o youkai pareceu nem um pouco intimidado pelo seu título. Na verdade, ele parecia preocupado quando respondeu:
- Hitoshi, certo? Eu vou te dar mais um conselho, então preste bem atenção: nunca mais volte a se referir a si mesmo como o governante de um youkai. Nossa raça já tem um líder e não é você.
- Como ousa fal...
- Satoru-san! - Aya usou de sua autoridade para fazer o homem calar-se. - O que ele diz é verdade. Nós estamos em Edras, um lugar que, para todos os efeitos, não existe; nossos títulos não importam aqui.
- Vejo que você é a verdadeira líder. - Ele sorriu para ela, mas logo voltou a assumir uma expressão séria. - Contudo, Hitoshi, se você é mesmo o Imperador humano, então deve vir conosco. Ele vai querer saber porquê está aqui.
- Quem é "ele"? - seu primo questionou.
- O Lorde de Edras, nosso único governante - respondeu, após alguns segundos de hesitação. - Agora vamos logo, antes que ele se irrite ainda mais pela demora.
O youkai foi até a porta, onde conversou rapidamente com alguém do lado de fora e então voltou para dentro da sala com duas faixas em suas mãos.
- Eu terei que vendá-los, espero que não se importem.
¨Adiantaria alguma coisa caso fossemos contra?¨
Embora contrariada, a princesa não deixou que tal pergunta sarcástica saísse de sua boca. Não ganharia nada sendo rude, a não ser uma piora drástica na situação.
Só era uma pena que Satoru Matsumoto não fosse acostumado a usar o bom senso que tanto se orgulhava de ter.
- Eu irei junto - decretou ele.
- Não, não irá. Apenas os líderes foram convocados.
- Pouco me importa! Não deixarei que leve o Imperador para onde bem entender! - Exaltou-se.
No segundo seguinte à sua resposta mal-educada, Satoru era pressionado pelo pescoço contra a parede mais próxima por um youkai perigosamente calmo. A cena fez com que os parlamentares que já tinham se acalmado voltassem a ter um ataque de nervos devido à violência que presenciavam. Os mais desesperados - ambos os homens, os quais ela não conseguia recordar o nome - aproveitaram a confusão para tentar fugir pela porta, que tinha sido deixada aberta.
Tolos...
Não foi surpresa alguma ouvi-los gritar, assustados, ao deparar-se com obstáculos impedindo-os de fugir, e então retornarem para a cela, onde, surpreendentemente, consideraram ser mais seguro.
- Escute aqui, criança, nunca mais eleve sua voz contra mim - o youkai avisou. - Eu já era vivo quando seus tataravós nasceram e ainda estarei aqui quando seus tataranetos morrerem, então mostre um pouco mais de respeito, entendeu?
- S-sim.. - O homem esforçou-se para responder. Estava vermelho - se pela falta de oxigênio ou pela raiva de ter sido subjugado tão facilmente, ela não saberia dizer.
Incrível. No início de seus quarenta anos, Satoru não perdia em força ou habilidade para nenhum jovem de vinte. Vê-lo ser subjugado tão rapidamente e com apenas uma mão dizia muito a respeito da força do oponente. Então era com esse tipo de criatura que estavam lidando?
- Ótimo - disse o youkai, afastando-se.
Aproximando-se então de Aya e Hitoshi, ele esperou por mais algum ataque e, quando nada aconteceu, pôs-se a vendá-los. Enquanto fazia isso, ia dizendo:
- Último conselho: não digam nada que possa ofendê-lo.
- O que exatamente pode ser considerado uma ofensa? - sussurrou sua pergunta.
- Qualquer coisa. Ele tem estado bem mal-humorado nos últimos 500 anos.
Aya nada respondeu. Porém, o sentimento de medo cresceu um pouco mais em seu peito. Isso, misturado a sensação aterradora de não poder enxergar, estava começando a fazê-la hiperventilar. Quando pensou que fosse perder o controle, sentiu um toque em seu braço - era a mão de Hitoshi procurando por ela.
- Aya-nee-san?
- Estou aqui - respondeu, segurando a mão dele. - Vai ficar tudo bem - garantiu, tanto para ele quanto para si mesma.
Sentir que era necessária para ele, fez com que se mantivesse calma. Hesitante, começou a caminhar conforme o youkai ia guiando-os para fora daquele cômodo. Como não houve alteração na luz, só percebeu que tinham alcançado o lado de fora quando ouviu o barulho da porta sendo trancada atrás deles, prendendo seus companheiros novamente. Esperava que aquela não fosse a última vez que os veria...
- Mirai, leve-os para o castelo - o youkai raposa ordenou.
- Hã? Mas e você? - Uma nova voz, também masculina, pôde ser ouvida.
- Vou acordá-la.
Alguns risos foram ouvidos em resposta àquilo. Haviam mais youkais ali?
- Boa sorte com isso - a segunda voz respondeu. - Ela está trancada lá há dois dias.
- Não custa nada tentar. Vocês dois - dirigiu-se a eles -, lembrem-se dos meus conselhos. Vou tentar ajudá-los, mas só posso fazer isso se vocês ainda estiverem vivos, entenderam?
- H-hai...
- Vamos - outra voz, dessa vez feminina, soou perto dela -, por aqui.
Alguém segurou Aya pelo braço, guiando-a pelo que ela presumiu ser os corredores de uma casa no estilo tradicional. Andaram por alguns minutos, até que a luz se alterasse; fazia sol do lado de fora.
Sua curiosidade foi maior que seu medo de represálias, por isso perguntou:
- Que dia é hoje? Há quanto tempo estamos aqui?
- Vocês foram pegos em nossas terras ontem a tarde.
Apesar de ela não ter dito muito, aquilo era informação o suficiente. Um dia. Tinham alcançado o Castelo de Edras há 24 horas - talvez mais, talvez menos. Àquela hora o Japão inteiro devia estar procurando-os, desesperados pelo sumiço de seu Imperador. Nunca pensou que diria isso, mas torcia para que eles fossem rápidos em deduzir o que havia acontecido, pois já não tinha mais certeza sobre se eles receberiam permissão para deixar aquele lugar.
- Tragam dois! - ordenou a voz masculina que o ruivo havia chamado por "Mirai". - Nós vamos ter que pegar uma carona, então não se assustem.
De repente, o som de bater de asas foi ouvido e, junto dele, uma onda de ar e poeira atingiu-os.
- Pegar carona no quê exatamente? - perguntou Hitoshi, dando voz aos seus pensamentos.
- Vocês não precisam saber - respondeu Mirai, pegando Aya no colo e colocando-a sentada sobre o que pareceu uma cela. Pelo som surpreso que seu primo soltou, haviam feito o mesmo com ele. - Apenas segurem-se firme!
- H-hai... - respondeu, insegura.
Não achava apropriado agarrar-se à cintura de alguém que nem conhecia, mas não viu outra alternativa quando, sem nenhum aviso prévio, eles levantarem voo. Isso mesmo: levantar voo. Seja lá qual fosse a "carona" que tinham pegado, ela voava.
Ao sentir a brisa do vento em seu rosto, aquela indescritível sensação de estar sobrevoando as alturas, Aya foi acometida por uma mistura de sentimentos - euforia, saudades, alívio e pesar estavam entre eles -, como se a represa que construiu ao redor deles tivesse rompido. Sentindo tantas emoções ao mesmo tempo, não conseguiu impedir lágrimas teimosas de rolarem por seu rosto, e, honestamente, não queria. Por isso deixou que elas rolassem e que fossem secadas pela briza do vento.
Percebendo isso, o youkai sentado em sua frente disse gentilmente:
- Sinto muito, humana.
As palavras dele não trouxeram conforto, somente o medo do que estava por vir.
- Tirem as vendas - uma voz profunda e calma ordenou.
Após o curto "passeio" que tiveram, eles pousaram perto dali - onde quer que isso fosse - e novamente foram guiados por corredores até chegarem aquele local, que Aya presumia ser a sala do Trono ou o equivalente youkai para isso.
E ela estava certa.
Depois de retirar sua venda e piscar algumas vezes, deu uma boa olhada ao seu redor. Inicialmente, pensou que sua visão ainda estivesse um pouco embaçada devido ao tempo que ficou vendada, pois o local estava mergulhado em escuridão; quer dizer, havia duas tochas - uma em cada lado de duas espadas cruzadas pregadas na parede atrás do trono -, mas a fraca luz não alcançava toda a sala. Entretanto, a visão que conseguiu ter com o pouco que as chamas iluminavam, foi o suficiente para fazê-la recuar.
Sentado no trono, havia um youkai.
Nem por um segundo, Aya o confundiu com um homem comum. Aquilo não era um homem, na verdade, duvidava que ele sequer fosse considerado "comum" dentre sua própria raça. Apesar de sua aparência belíssima - um rosto de traços fortes emoldurado por longos fios de cabelos brancos -, não sentiu-se atraída por ele. Sendo sincera, toda aquela beleza antinatural fez com que se sentisse desconfortável, ameaçada. Instintivamente, deu dois passos para trás - foi só até onde conseguiu chegar antes de suas costas colidirem contra o peito de alguém. Virando-se para trás, viu o brilho amarelo de olhos muito parecidos com os de um gato.
- Fique parada - o youkai com olhos de gato ordenou.
Reconheceu a voz como sendo a de Mirai. Pelo pouco que pôde distinguir naquela semi-escuridão, ele era muito bonito, quase tanto quanto o youkai ruivo. Contudo, suas feições estavam alteradas pela seriedade com a qual ele a encarava.
- Olhe para frente.
Não respondeu àquilo, somente voltou seus olhos para o Lorde de Edras - o único motivo pelo qual estava ali. Tentou lembrar-se dos conselhos que recebeu. Do sucesso daquela reunião, muitas coisas dependiam - suas vidas, por exemplo. Não podia colocar tudo a perder por causa de uma gafe.
Responder todas as perguntas.
Não insinuar que tem poder sobre a raça youkai.
E, acima de tudo, não ofendê-lo.
¨Isso. Apenas mantenha a calma. Vai ser fácil.¨
Foi o que pensou. Porém, assim que o tal Lorde de Edras voltou a falar - após gastar certo tempo olhando-os atentamente, em especial para Aya -, percebeu que estava errada. Muito errada.
- Mate-os - ele disse simplesmente.
O quê?
Ele não estava falando sério, estava? Olhou ao redor tentando encontrar algo que comprovasse se tratar de uma piada de mau gosto, mas não viu nada além de vultos imóveis - um deles, o de seu primo Hitoshi, parecendo tão chocado quanto ela.
- Sesshoumaru-sama, tem certeza disso? - Jaken questionou. - Ao que parece, um deles possui alta patente entre os humanos. Talvez seja hora de...
- Mate-os - ordenou novamente, fazendo pouco caso do que seu servo tinha dito.
Ouvir aquilo, fez Aya entrar em desespero. Mas, principalmente, fez com que sentisse raiva. Muita raiva. Sentiu raiva de Haru Shinzou por ter entrado naquela guerra, de seu pai por tê-lo apoiado e de si mesma por não ter feito nada além de assistir a tudo em silêncio. Por fim, sentiu muita, muita raiva mesmo daquela criatura. Havia depositado toda sua esperança nele e para quê? Para vê-lo ordenar suas mortes como se eles não passassem de moscas? Sabia desde o início que aquilo podia não sair como o planejado, mas aquilo? Ele nem sequer dignou-se a ouvi-los!
Possuída pelo ódio e indignação, avançou contra o youkai sentado no trono, sem pensar duas vezes no quão estúpida era aquela ideia.
- Nos matar? Você só pode estar brincando comigo! - gritou. Mesmo depois de Mirai tê-la rapidamente alcançado e imobilizado, continuou gritando a plenos pulmões: - Escute aqui, criatura, nós viemos de muito longe para encontrá-lo! De muito longe! Você quer nos matar?! Vá em frente! Mas primeiro você terá que ouvir o que temos a dizer!
Seguido de tais frases, veio alguns palavrões que ninguém nunca ousaria imaginar saindo da boca de tão distinta dama. Hitoshi parecia mais assustado com a atitude da prima do que com a possibilidade de ser morto. Já o youkai-líder continuou calmo - pelo menos externamente.
Após o desabafo de Aya, a sala caiu em silêncio. Ninguém ousou sequer respirar um pouco mais rápido. Todos sabiam o que aconteceria a seguir. Contudo, antes que o Lorde acabasse com aquilo pessoalmente, um assovio admirado foi ouvido. Depois, passos lentos ecoaram pela sala. Como estava imobilizada por Mirai, Aya só conseguiu ver o rosto do intruso quando este parou em sua frente, olhando-a com surpresa. Era uma youkai fêmea. Sua semelhança com o ser sentado alguns metros atrás dela era assustadora, todavia, diferente do que aconteceu antes, a beleza daquela criatura conseguiu atraí-la imediatamente.
- Shippou-chan tinha razão, você é muito bonita - disse a youkai. Sua voz era doce, porém firme. Sentiu seu rosto esquentar pelo elogio repentino, o que só piorou quando ela sorriu largamente, dizendo: - Ele só esqueceu de mencionar que também é burra.
E com aquela frase, o encanto se quebrou.
Aya não gostava mais dela.
Tantos séculos haviam se passado que ela já não se lembrava mais da aparência de sua mãe.
"Rin era muito bonita", dizia Kagome, sua mãe adotiva, sempre que lhe questionava a respeito. "E uma humana, assim como eu."
Durante sua vida, Yuki teve duas mães. Diferente de si mesma, que possuía sangue youkai correndo em suas veias, ambas eram humanas. Então não era realmente uma surpresa que ambas já estivessem mortas.
Teve duas mães e as duas morreram.
Como se isso já não fosse o bastante, simplesmente não conseguia se lembrar da fisionomia de uma delas. Da primeira, a que tinha lhe trazido ao mundo.
Às vezes sonhava com ela. Mas os sonhos eram tão dolorosos, tão sufocantes, que passou a considerá-los pesadelos.
Estava tendo um pesadelo naquele momento. E, como o esperado, doía.
No começo, tudo era branco. E então, havia cor. Cores lindas por todos os lados. Dotada de super sentidos, pôde ver o desabrochar de uma flor em câmera lenta.
Era um belo espetáculo.
De repente, foi tomada por uma onda avassaladora de... De o quê mesmo? Não soube nomear o sentimento. Tudo o que sabia é que era bom, e que precisava compartilhá-lo com alguém.
Por isso, correu. Correu por entre as flores daquele imenso jardim, seus pés afundando na grama molhada pelo orvalho da manhã. Correu até alcançar um castelo, e, quando o alcançou, correu por entre os corredores sabendo exatamente para onde estava indo, e encontrando exatamente quem procurava: sua mãe.
Embora não se recordasse da aparência de sua progenitora, sabia que era ela devido ao sentimento que ecoava dentro de si; um sentimento agridoce, bom e ruim. Sempre que a via em seus sonhos, sua mãe estava envolta em uma aura branca, emanando uma energia calorosa, extremamente confortável.
A pequena hanyou que costumava ser parou por um segundo, sem fôlego diante de tal esplendor.
Magnífica!
Tamanha luz poderia iluminar mundos inteiros. Ela era o sol, sem dúvidas quanto a isso.
Passado o momento de encanto, Yuki aproximou-se, tencionando segurar a mão de sua mãe a fim de guiá-la até as flores. Foi então que um barulho ensurdecedor ecoou pelo local, fazendo-a tapar os ouvidos e fechar os olhos em reflexo. Quando o som cessou e ela reabriu os olhos, continuou na escuridão.
O sol havia parado de queimar.
Desesperada, andou às cegas, procurando ajuda, gritando por sua mãe e pai. Contudo, só uma pessoa veio por ela. E, infelizmente, era a pior pessoa possível.
Novamente, Yuki perdeu o fôlego. Mas dessa vez não devido a uma bela visão, e sim pela força de um golpe dado direto em seu estômago. A dor foi tamanha, que perdeu a consciência. Mas não antes de sentir um nova dor, tão aguda quanto a primeira, em seu braço esquerdo.
Pôde senti-lo queimar.
Mesmo que em alguma parte de sua mente estivesse ciente de que aquilo não passava de um pesadelo, doeu.
Doeu demais.
Doía tanto que começou a se debater, tentando desesperadamente fugir da dor. Fugir não apenas da dor física, não apenas do ferimento no braço; ela queria, precisava, fugir da dor emocional. Daquela dor causada pela escuridão, pelo abandono, pela aterradora sensação de estar totalmente, completamente sozinha no mundo.
Ah... Realmente odiava sonhar com sua mãe.
- Yuki-sama! Acorde!
Acordou emitindo um rosnado assustador. Tinha começado a transformar-se enquanto ainda dormia. Com um movimento rápido, subjugou aquela que seus sentidos interpretaram como "inimigo", prendendo-a embaixo de seu corpo. Suas garras estavam fincadas nos braços da pessoa, segurando-a, enquanto suas presas pairavam a milímetros de distância da garganta da pobre criatura. Criatura esta que mantinha-se imóvel. Tal obediência diante de seu óbvio poder, agradou seu lado territorial, acalmando-lhe um pouco.
Assim que seus olhos vermelhos começaram a focar-se, voltando para a cor natural, notou algo interessante: aquele era um belo pescoço.
O cheiro agradável que a pele preta emitia, fazia-na ter ganas de acomodar-se na curva sinuosa entre o pescoço e o ombro, para assim poder intoxicar-se livremente com tal delicioso aroma.
Ah, agora sabia exatamente quem estava ali.
Não pôde evitar que um sorriso malicioso pintasse seus lábios. Aquela belezinha tinha levado quase um século para ser conquistada. E tinha feito valer cada maldito segundo...
Seu sorriso aumentou ainda mais quando ela, sentindo que as coisas já estavam sob controle, fez um movimento para tentar escapar de seu aperto.
Yuki a pressionou ainda mais.
- O que eu falei sobre me chamar de "sama" em minha própria cama? - perguntou, traçando uma trilha de beijos pelo pescoço esguio.
Tão suave!
Há quanto tempo elas estavam ali mesmo? Um dia? Dois? Não importava realmente. Não quando ainda faltava tanto para que ela se sentisse saciada.
- Contraditório... Você pareceu gostar quando lhe chamei assim ainda há pouco, Yuki-sama - a mulher sussurrou ao seu ouvido em um sopro sedutor.
- Ei! Eu sou uma fêmea! Tenho direito de ser contraditória! - defendeu-se, finalmente erguendo-se para olhá-la nos olhos.
Aqueles olhos...
Eram a parte mais bonita dela. Amendoados como o doce que os humanos chamavam de chocolate.
Akane era uma das youkais mais lindas que Yuki havia tido o prazer de conhecer. E de levar para sua cama...
- Gosto dos seus olhos - confessou. Porém, antes que ela interpretasse erroneamente suas palavras, completou: - Também gosto dos seus seios. Mas nada supera suas pernas, longas e grossas, enroladas ao meu redor...
Conforme ia falando, suas próprias pernas saiam de cima das dela, deixando-a livre para agir. E ela agiu, prontamente rodeando sua cintura com aquelas belas pernas, do jeito que gostava.
- Hummm... Diga-me, do que mais você gosta, Yuki?
O tom sedutor que Akane usou para dar ênfase ao seu nome arrepiou-lhe dos pés até às orelhas sensíveis em sua cabeça. Entretanto, quando estava prestes a respondê-la, continuando assim aquele perigoso jogo de gato e rato, uma voz conhecida soou à porta de sua casa:
- Yuki!
A próxima coisa que pensou é que adoraria matar seu tio postiço, Shippou, com requintes de crueldade.
- Shhh - sussurrou para Akane, quando esta fez menção de se levantar. - Finja que não estamos aqui.
- Eu posso ouvir você, sabe disso, não é?
- Então vá à mer...
- É sobre Sesshoumaru-sama - interrompeu-a com a voz séria.
O tom de Yuki também demonstrava seriedade ao respondê-lo:
- Você realmente quer estragar meu dia, não é Shippou?
Ele não contra-argumentou, mas ela não esperava que fizesse. Um silêncio incômodo se apossou da pequena cabana, até ser quebrado por Akane, segundos depois.
- Tudo bem, eu tenho que ir mesmo - disse ela. - Minhas clientes devem estar sentindo falta da minha simpatia.
Levantando-se, ela depositou um curto beijo em seus lábios, o qual Yuki retribuiu com vontade. Sentia-se mal pela forma como o encontro delas havia terminado, então, com aquele beijo, deixou claro que voltariam a se ver.
Observou, sentada na cama, Akane recolher o que sobrou de suas roupas do chão e vesti-las. Assim que ela saiu pela única porta da cabana - tentando ajeitar os lindos cabelos crespos com os dedos das mãos -, Shippou entrou, com um semblante culpado.
- Kitsune - cumprimentou, não se importando em mascarar sua raiva.
- Você poderia vestir uma roupa? - pediu, mas foi taxativamente ignorado. Yuki continuou imóvel na cama, nua em pelo. Revirando os olhos pela rebeldia dela, prosseguiu: - Sinto muito, certo? Mas é realmente urgente!
- Então não enrole - resmungou, ranzinza.
Suspirando, Shippou foi direto ao ponto:
- Ontem depois do almoço, nove humanos foram pegos dentro da fronteira. Nesse momento estão sendo levados para ele.
Yuki remexeu-se, inquieta. Sabia o que aquilo queria dizer.
- Você é idiota? Por que deixou isso acontecer?
- Eu não pude impedir! Essa é minha semana de folga, sabia? Outros os acharam e prenderam imediatamente. Na verdade, eles tiveram sorte de seu pai só tê-los convocado essa manhã. Isso nos dá algum tempo.
- Não pretendo sair daqui - decretou, voltando a deitar-se.
Não era a primeira vez que humanos, curiosos demais para sua própria saúde, aproximavam-se de Edras. Entretanto, era a primeira vez que um deles de fato invadia a fortaleza. Normalmente Shippou e ela, ou alguém de sua confiança, os barrava antes que tivessem a oportunidade.
O que a levava à seguinte questão: como diabos eles entraram ali? E, por Deus, como chegaram tão longe em suas terras sem serem devorados pelas criaturas que ali habitavam? Não que isso fosse de muita importância agora. Se eles tinham sido levados para ele, já devia ser tarde demais. Não poderia ajudá-los.
Bem, Shippou parecia ter uma opinião contrária a esse respeito.
- Como assim não?! - bradou, chocado. Sempre pôde contar com Yuki em situações como aquela. - Você sabe que Sesshoumaru-sama irá matá-los!
Sim, ela sabia. Seu odioso pai parecia ter algum tipo de aversão à vida no geral, mas principalmente àqueles que perturbavam sua tão preciosa paz.
- Exatamente! Eles já devem estar mortos nesse momento! Por que eu me levantaria da minha cama e sairia do conforto da minha casa para ver algo assim?!
Shippou bufou, irritado. Sabia que seria difícil convencê-la - para a Yuki era preferível morrer à ter que tolerar a presença do pai por muito tempo.
Passou nervosamente a mão pelos cabelos ruivos. Aquela situação toda era muito problemática. Se ao menos ele não estivesse de folga no dia anterior... Se bem que não era sua culpa! Como iria adivinhar que alguns idiotas invadiriam Edras bem quando ele não estava olhando?!
Olhou bem para youkai à sua frente. Ela estava tão crescida! Infelizmente, sua teimosia também só cresceu com o tempo... Sem alternativas, apelou:
- Tem uma humana muito bonita entre eles...
Sabia que era jogo sujo, mas estavam ficando sem tempo, e, se havia algo em Yuki maior do que sua teimosia, esse algo era a paixão que a youkai nutria por outras fêmeas.
Ela pôs-se a rir ao ouvir seu comentário.
- Ah, Shippou-chan... - enxugou uma lágrima que escorreu de seu olho esquerdo - você não viu quem acabou de sair daqui? Acha mesmo que eu iria mudar de opinião por causa de uma humana supostamente "muito bonita"? - Fez aspas com os dedos.
Shippou nada respondeu. Sabia que seu silêncio atiçaria a curiosidade dela muito mais do que descrições detalhadas de como a mulher em questão era.
Dito e feito.
- Assim, só por curiosidade - começou a falar, amaçando o lençol com os dedos -, bonita quanto?
- Veja você mesma.
- Hai, hai! - exclamou, levantando-se. - Você venceu, eu vou!
- Ei! E sua roupa?! - perguntou quando a viu encaminhar-se, enrolada somente em um lençol, para a saída.
- Não temos tempo para isso! - retorquiu saindo porta afora. - Eu guio! - avisou, já montando no dragão de Shippou. - Olá, Kuroo, como vai?
Quis ralhar com ela por agir como se fosse dona de Kuroo, mas não havia tempo para aquilo. Sendo assim, somente montou no animal e deixou que Yuki guiasse.
Sobrevoaram toda a área da cidade de Edras, vendo vários de seus companheiros youkais lá embaixo, cuidando de suas próprias vidas. A viagem não demorou muito, apesar de Yuki morar no extremo oposto do castelo. O problema era que tinham perdido muito tempo conversando. Temia que já fosse tarde demais.
Felizmente, não era. Mas estava quase.
Assim que pousaram no pátio arruinado do Castelo de Edras, deixando Kuroo junto aos outros dois dragões que ali estavam, Yuki adentrou o local. Enquanto andava apressada, ia arrumando o lençol em seu corpo de forma que se parecesse com um vestido. Shippou observava-a em silêncio. Sabia que aquilo era apenas uma tentativa de não prestar atenção às mudanças ao redor.
E como haviam mudanças!
O castelo, outrora tão bonito e bem-cuidado, estava caindo aos pedaços. O descaso com o lugar ficava evidente conforme avançavam pelos corredores e viam os móveis cheios de poeira, aranhas enormes tecendo suas teias no teto, trepadeiras cobrindo as paredes...
Rin odiaria aquilo.
Suspirou quando chegaram em seu destino: a sala do Trono. Não gostava de ir ali, mas às vezes - quando era convocado ou quando necessitava reportar algo com urgência - era obrigado. Aquela sala tinha sido construída anos depois de o castelo ser finalizado e era o único cômodo que Sesshoumaru permitia que limpassem - talvez porque fosse ali que ele passasse a maior parte do tempo e nem mesmo um Dai-Youkai suportasse viver em meio ao lixo.
A porta de madeira estava fechada, então, teoricamente, eles não poderiam ouvir o que era dito lá dentro. Todavia, podiam. E não só porque a audição youkai era bem melhor que a dos humanos... Alguém estava gritando. Uma mulher, pelo tom de voz.
O fato de que alguém estava gritando na presença de seu pai já era o suficiente para surpreender Yuki, mas quando ela entendeu o que estava sendo dito, ao berros, para ele...
Wow!
Quando a pessoa parou de xingar e o silêncio voltou a reinar no castelo, deu-se conta de que era hora de agir. Abrindo ambos os lados da porta, entrou na sala, soltando um assovio admirado.
O local em si continuava o mesmo de sempre: uma sala ampla, ocupada somente por um trono feito de ossos - ossos reais, até onde sabia - em cima de uma elevação no chão. O trono ficava na direção exata da porta, como se Lorde Sesshoumaru estivesse à espera de algo - ou alguém, quem sabe. Na parede atrás do trono, duas espadas cruzadas. Em ambos os lados delas havia uma tocha, as chamas queimando tão fracamente que quase não ofereciam luz o suficiente para iluminar a sala. Não que um youkai precisasse de tais artifícios para enxergar, mas...
Assim que entrou na sala, todos os olhares - com exceção da humana que era segurada firmemente por Mirai - voltaram-se para ela. Até mesmo o dele. Porém, Yuki o ignorou, focando toda sua atenção na criatura escandalosa.
Caminhou a passos lentos até Mirai, parando em frente a ele. Entre os braços do youkai havia uma mulher. Olhou-a atentamente e, para a sua surpresa, a humana sustentou seu olhar. Ela era pequena, magra, seus curtos cabelos eram da mesma cor castanho escuro que seus olhos puxados. Aqueles olhos... Eles revelavam tamanha vivência que Yuki não se atreveria a dar menos de 30 anos para ela.
Teve vontade de sorrir. Ela era realmente linda!
- Shippou-chan tinha razão, você é muito bonita! - disse. Não conseguiu conter seu sorriso ao vê-la corar. - Ele só esqueceu de mencionar que também é burra.
Yuki adorou assistir o encanto sumir da expressão dela, cedendo lugar à indignação.
Era oficial: a humana não gostava mais de sua pessoa.
Notas do Autor: gostaram? a filha do sesshoumaru é bem saidinha, né? a imagem que eu usei para representar ela é de um cosplay da teresa de claymore. realmente acho as duas bem parecidas fisicamente.
eu disse que ia demorar para os personagens fixos de inuyasha aparecerem, mas nem demorou tanto. isso pq eu juntei dois capítulos que já estavam prontos e transformei em um só kk
mas enfim, deixem seus comentários, quero saber a opinião de vcs! ^^
