"Ele só esqueceu de mencionar que também é burra."
Burra... A palavra continuava a se repetir em sua mente em um loop infinito, deixando-a cada vez mais zangada.
- Burra? - repetiu, oferecendo à youkai a oportunidade de retratar-se.
Ela não o fez. Na verdade, ratificou suas palavras anteriores ao dizer:
- Exato. A não ser, é claro, que você prefira ser chamada de suicida...
A forma como ela ergueu uma de suas sobrancelhas sugestivamente enquanto ostentava um sorriso sarcástico fez Aya perguntar-se se aquela era outra forma de distinguir os youkais. Seriam metade deles desbocados como ela enquanto a outra metade era apenas sem escrúpulos como o youkai sentado no trono?
- Eu não sou burra - defendeu-se pateticamente.
- Não se preocupe, ninguém aqui está te jugando! - Ela sorriu mais abertamente, como se estivesse se divertindo muito. - Nós nunca esperamos muita coisa de vocês humanos!
- Eu não sou burra! - retrucou, mais enfaticamente.
Sabia que estava fazendo papel de boba, mas não conseguiu se controlar. Podia estar em uma situação complicada, mas ainda era uma princesa! Ainda que aquela youkai não lhe devesse obediência devido sua posição social, ela era claramente mais nova e por isso lhe devia o mínimo de respeito! O que havia de errado com aquela raça?!
- Certo, tudo bem - a outra concordou, erguendo as mãos em sinal de defesa -, você não é burra. Nessa caso, vamos dizer apenas que sua decisão de invadir as terras de uma raça desconhecida e então amaldiçoar o líder dela não foi uma grande demonstração de inteligência da sua parte. Novamente, sem julgamentos!
- Você...
Não a suportava. Podia conhecê-la há menos de cinco minutos, mas já tinha certeza disso. Odiava pessoas como ela, que encontravam no ato de zombar dos outros uma fonte inesgotável de prazer. A pior parte é que nem sequer podia discordar dela. Ter ido até ali tinha sido a decisão mais estúpida que já tomou em sua vida e, pelo andar da carruagem, teria que pagar por esse erro fatal com a mesma.
Porém, antes que a situação chegasse a esse ponto, eles teriam de ouvi-la.
- Você - repetiu - faz alguma ideia do que está acontecendo lá fora? Algum de vocês, escondidos nessa fortaleza há tantos séculos, faz ideia da atual situação do mundo lá fora?
Sentiu o aperto de Mirai sobre si afrouxar conforme ia falando, até que o youkai a soltou de uma vez. Ele não se afastou, no entanto. Talvez temesse que ela atacasse mais alguém, embora soubesse que uma humana não seria páreo para nenhum deles.
- Deixe-me adivinhar: vocês têm se matado mais rápido do que conseguem se procriar?
A youkai antes tão cheia de humor tinha assumido uma expressão séria.
- Há uma guerra...
- Houve outras antes.
- À nível mundial...
- Duas, se não me engano.
- Tem durado há nove anos...
- Conheço uma que durou mais.
- Estamos sendo destruídos! - exclamou, perdendo a paciência. - Quase metade da população japonesa pereceu, países inteiros sumiram do mapa! Como pode agir tão friamente?!
- Já se perguntou porque nossa raça vive escondida, como você mesma disse, em uma fortaleza? - perguntou, curvando-se para ficar da mesma altura dela e poder olhá-la nos olhos. - Por que uma raça tão poderosa como a youkai virou apenas lenda para assustar crianças humanas ou divertir os adultos em festivais estúpidos?
Embora tentasse, Aya não conseguiu evitar sentir-se intimidada. É claro que já havia se questionado sobre aquilo. Milhares de vezes.
- Sim...
- E à que conclusão chegou?
- As histórias dizem...
- Esqueça as histórias. Conheço todas e a maioria delas não fazem sequer sentido. Eu quero saber a sua opinião. O que levaria uma raça tão poderosa a apagar a sua própria existência do mundo?
Aya ficou em silêncio. Não por desconhecer a resposta, mas porque esta havia tornado-se vergonhosamente óbvia. O quê além da necessidade de sobreviver levaria alguém a viver em uma fortaleza, escondidos do resto do mundo?
Percebendo que não receberia resposta, a youkai prosseguiu:
- Houve um tempo em que os youkai dominavam o mundo. Mas então um de nós teve um dia ruim e decidiu exterminar a própria raça. - Ela soou amarga, como se ainda não tivesse perdoado o responsável por aquilo. - O que sobrou de nós está aqui. Edras se tornou nosso refúgio quando vocês, humanos, assumiram o nosso lugar como raça dominante na Terra.
Espiando por sobre os ombros dela, Aya notou que o youkai-líder continuava na mesma posição de quando eles haviam adentrado a sala. Seria realmente ele o genocida? Tudo levava a crer que sim. Entretanto, tinha algo a incomodando em tudo aquilo. Uma certa ironia que, de todos os anos em que conhecia aquela história, havia notado somente agora: se ele tinha tentado exterminar a própria raça, como acabou se tornando o líder dela?
De repente, o olhar dele se fixou no dela; firme e assustador. Contudo, quando ele falou, suas palavras não foram para Aya e sim para a youkai à sua frente:
- General Yuki, você não deveria revelar tanto à intrusos.
Então o nome dela era Yuki... Uma general, hein? Não estava esperando por isso.
- Do quê importa? Eles não vão sair daqui, não é mesmo?
Ou por aquilo.
Então aquele seria realmente o fim para eles?
- Quer dizer que não está aqui para intervir pela vida dos humanos? - perguntou.
Aquela que agora sabia chamar-se Yuki permaneceu em silêncio. Talvez estivesse sopesando suas opções. Matar os invasores e preservar o segredo sobre a existência de sua raça ou salvá-los e ter de lidar com as consequências disso mais tarde?
Antes que ela pudesse se decidir por abandoná-los à própria sorte, Aya disse:
- Eu sei porquê vocês vivem aqui!
- Sabe?
- Não é difícil imaginar o que aconteceu depois, quando os humanos descobriram que vocês já não eram mais a maioria. Você disse que não devo levar em consideração as histórias que ouvi sobre a sua raça, então eu não vou. Não preciso. Posso não saber muito sobre vocês, mas conheço a minha raça o suficiente para afirmar: humanos são vingativos. Tenho certeza que eles... que nós temos uma parcela de culpa no que se refere ao seu confinamento.
- Não seja prepotente, humana! - exclamou Jaken, indignado por seu comentário. - Como se seres tão inferiores como vocês fossem páreos para nós!
- Mas ela tem razão, não tem, senhor Jaken? - Yuki inclinou levemente sua cabeça, como se analisasse os fatos. - Humanos por si só nunca poderiam ser comparados a vocês ou a mim, mas, juntos, eles são capazes de coisas terríveis. - Dirigindo-se novamente à humana, completou: - Você está certa: nós criamos esse lugar para nos proteger de uma provável extinção. Foi necessário para nossa sobrevivência. E não há covardia alguma em querer sobreviver, então, por favor, meça suas palavras da próxima vez.
Aya sentiu seu rosto esquentar devido à vergonha. Em sua raiva, tinha insinuado que os youkais viviam escondidos como covardes, enquanto o resto do mundo ardia em uma guerra sem fim, sendo que ela própria desejava poder encontrar uma fortaleza como aquela para proteger aos seus e a si mesma. Uma grande hipócrita, era o que ela era.
- Sinto muito - pediu, sincera. - Eu não deveria ter dito aquilo, deixei que a raiva me dominasse. Sei exatamente como é estar disposta a sacrificar tudo pela possibilidade de sobrevivência. Na verdade, é justamente por isso que eu es... que nós estamos aqui: porque chegamos ao limite. Estamos sendo massacrados e não há rotas de fuga, exceto... Edras.
Permitiu-se respirar fundo por um momento. Sabia que tinha conquistado a atenção de todos os presentes, mesmo que seus olhos não se desviassem dos da youkai. Aquele era o momento de explicar o porquê de estarem ali, e então... aguardar a decisão deles.
Foi mais difícil do que imaginou, mas finalmente conseguiu reunir coragem para dizer:
- Nós estamos aqui para pedir a ajuda de vocês, youkais. Por favor, salvem os humanos.
Ela era surpreendentemente sincera para uma humana, foi o que Yuki pensou durante toda aquela conversação. Embora tivesse chamado-a de burra e suicida, sabia que ela não era nenhum dos dois. A pobre humana apenas estava desesperada. Por qual outra razão teria vindo até eles?
Yuki não era tola, sabia desde o início qual era a intenção dela, mas, ainda assim, sentiu-se surpresa por ouvi-la pedir ajuda tão... descaradamente. Como se não tivesse acabado de ouvir que a raça dela tinha culpa no atual isolamento do que restou dos youkais...
Conseguiu conter uma risada à tempo, mas sabia que seus lábios crispados tinham deixado claro seu divertimento. Ela era realmente engraçada! Se o resto de seu grupo fosse como ela, não faria mal algum deixá-los vivos.
- Certo, então.
Pigarreou, tentando recompor-se. Agora que tinha decidido-se, vinha a parte mais difícil: convencer aquele cara.
Ainda de costas para seu pai, disse:
- Acredito que eles não representam perigo.
- Você acredita?
Ele soou calmo, como sempre. Não parecia nem um pouco alterado com o fato de estar revendo a filha depois de alguns anos.
Yuki gostaria de ser tão insensível quanto ele...
- Sim.
- Então por que não diz isso olhando para mim? Acaso teme este Sesshoumaru?
- Temor não é exatamente o que eu sinto... - debochou, virando-se para ele finalmente.
- Yuki... - alertou Jaken, sempre preocupado com a possibilidade dela irritar o pai além do limite.
- Nesse caso... Aproxime-se.
"Se você não me teme, então aproxime-se", era o que ele dizia. Não era uma ordem, estava mais para um desafio. E ela o odiou ainda mais por isso. Se fosse uma ordem, poderia descumpri-la, como já fizera antes, mas um desafio? Não iria permitir que aquele sujeito pensasse que ela sentia qualquer coisa além de desprezo por ele.
Erguendo seu queixo, deu quatro passos determinados até ele e parou em frente ao trono. Não deixou emoção alguma transparecer conforme era examinada pelos olhos atentos do Dai-youkai, nem mesmo quando este assumiu um ar de decepção.
- Vejo que esqueceu tudo o que aprendeu em suas aulas de etiqueta - comentou, analisando o desalinho de sua aparência.
Yuki cerrou os punhos àquilo. Um erro logo percebido por seu pai.
"Controle-se!", ralhou consigo mesma. Já havia passado da época de bancar a youkai revoltada há alguns séculos. Agora era a general de todo um exército e precisava portar-se como tal. Além do mais, tinha prometido à Shippou que o ajudaria a livrar a cara dos humanos invasores, o que não aconteceria se deixasse-se levar pelo rancor que sentia sempre que revia seu progenitor.
Com isso em mente, permaneceu em silêncio, apenas à espera de um novo comando.
- Então você crê que esses humanos não sejam uma ameaça... - disse Sesshoumaru, redirecionando a conversa ao seu rumo original ao notar que a filha estava sob controle. - Deseja que eu os ajude?
- O que eu desejo pouco importa, não é mesmo? No fim, a decisão final pertence ao senhor.
- Correto. Mas este Seshoumaru não tem interesse em ajudar a raça humana, tampouco manter vivos aqueles que se atreveram a invadir minhas terras. O mais apropriado a fazer nessa situação seria matá-los e preservar, assim, o segredo sobre nossa existência.
- Matá-los não será solução, pelo contrário.
- Por que diz isso?
- Entre esses humanos está o Imperador do Japão. Duvido que eles tenham vindo para cá em segredo, isso seria burrice demais até para os padrões humanos. - Sorriu, debochada, olhando de esguelha para a humana que não gostava de ser chamada de burra. - Eles devem ter deixado ordens para que o governo ataque caso não voltem no tempo estipulado.
- Nesse caso, mataremos todos.
- E revelar não apenas ao Japão, mas também ao resto do mundo a nossa existência e localização? - questionou, irônica.
- Você superestima os seres humanos.
- E o senhor os subestima! - acusou. - Se eles souberem nossa localização, aqui será o novo laboratório de testes nucleares deles!
- A barreira tem se mostrado extremamente eficiente nos últimos séculos, por que isso mudaria agora?
- Ataques concentrados e contínuos poderiam ser o suficiente para rompê-la. Sim, não há como ter certeza disso, mas eu prefiro continuar no escuro do que ser bombardeada por mísseis.
- Então o que sugere, general Yuki? - Sesshoumaru inquiriu, após um momento preso em pensamentos.
- Que usemos essa oportunidade sabiamente...
- E pensar que justo você iria querer arrastar os youkais para a guerra...
Àquilo um silêncio pesado se seguiu. Embora alguns dos presentes - os humanos - não tivessem entendido o significado daquele comentário, os demais o fizeram, pois conheciam o contexto que o envolvia. Yuki tinha sido a única a pedir ao pai que fornecesse abrigo aos youkais quando viver entre os humanos tornou-se um risco maior do que eles podiam tomar. O fato de que agora ela pedia que ele fizesse o oposto, permitindo que os youkais saíssem da fortaleza e lutassem em uma guerra, era no mínimo irônico.
- Por que faz isso? - Sesshoumaru novamente questionou ao não receber resposta para o seu comentário. E antes que a filha pudesse dizer qualquer coisa, alertou: - Tenha o cuidado de pensar bem em sua resposta, general.
Yuki quase engoliu em seco, mas não o fez. Odiava aquela sensação de ter que pisar em ovos com alguém. Era um espírito livre! Acostumou-se a ser senhora de si mesma, a não dever nada para ninguém! Entretanto, quando tratava-se de seu pai, precisava moderar seu tom, seus modos, tudo o que a tornava quem ela era... Perto dele, seus piores defeitos afloravam e Yuki não gostava disso. Nem um pouco.
Todavia, naquele momento, precisava ignorar isso e dizer o que ele queria ouvir. Seu pai não aceitaria menos que a verdade absoluta. Ele quase nunca tinha a chance de impor seu poder perante ela, mas quando tinha aproveitava-se sem pensar duas vezes. Tinha de ser sincera. Uma resposta errada e todos estariam mortos.
Suspirando pesadamente, disse, por fim:
- Porque também sou parte deles.
Aya estava extremamente confusa com aquela conversa.
De que barreira eles falavam? Por que aquela youkai se dirigia tão informalmente ao líder deles? E, acima de tudo, como poderia aquela criatura fazer parte dos humanos?
Sua vontade era fazer todas essas perguntas em voz alta, mas sabia que não era o momento certo. Talvez nunca fosse. O melhor era continuar em silêncio e aproveitar-se que alguém ali parecia disposto a ajudá-los, independente de por qual motivo. Só esperava que Hitoshi tivesse o discernimento de não revelar que eles haviam saído de Tóquio sem avisar a ninguém sobre onde estariam. Se pudessem sustentar aquele mal entendido só até saírem dali...
E pensar que tinha se ofendido por ter sido chamada de burra! Não ter preparado um plano B só provava o quão estúpida era! Mas agora já era tarde para arrependimentos. Só podia rezar para que tudo desse certo no final.
- Yuki-hime! - Jaken exclamou, tirando-lhe de seus pensamentos.
Hime?
E agora mais essa... Aquilo não podia significar que ela era uma princesa, certo?
- Não ouse se comparar novamente com aquela raça! - ele prosseguiu, brandindo seu estranho cajado. - Você pode ser teimosa, agressiva, promíscua, mal-educada, arrogante e nunca aceitar meus conselhos, mas nem mesmo você poderia ser comparada àquela escória!
De repente, o clima que estava pesado, devido à seriedade do assunto, mudou, tornando-se imediatamente mais leve. Após o comentário de Jaken, risadas puderam ser ouvidas. Mesmo Aya não pôde evitar esboçar um sorriso.
- De fato, nem um pouco parecida! - zombou o youkai ruivo de antes.
- Calado, Shippou! - Yuki gritou, claramente zangada. - E você, seu youkai raquítico, não tem mais algumas botas pra lamber?!
- Ah, sua menina estúpida! Eu estou te defendendo e é assim que me agradece?!
- Pois esse tipo de defesa não me interessa!
Ambos os youkais tinham dado alguns passos em frente, aproximando-se um do outro, e berravam, ignorando na presença de quem estavam.
Porém, logo eles foram lembrados.
- Silêncio! - ordenou o líder que agora Aya sabia chamar-se Sesshoumaru.
Ao comando dele, todos calaram-se. Até mesmo as risadas cessaram.
Tendo todos voltado à seriedade de antes, ele prosseguiu:
- Muito bem, general. Entretanto, se os humanos desejam ser salvos por este Sesshoumaru, eles que defendam a si mesmos. - Ajeitando-se no trono, mudou de posição pela primeira vez desde que aquela conversa havia se iniciado. - Você disse que o atual Imperador do Japão está entre eles... Jaken, por que não fui informado que tínhamos uma visita tão ilustre em nossas terras?
O pequeno youkai verde empertigou-se, voltando para perto de seu líder com certo receio.
- Sesshoumaru-sama, eu tentei avisá-lo, mas...
- Quem? - interrompeu-o.
- Ao senhor, é claro!
- Qual dos humanos?
- Ah! É claro, é claro! - exclamou, finalmente entendendo o que o outro youkai queria dizer. - Sumire, traga o humano até aqui! - ordenou.
Foi a vez de Aya empertigar-se ao ouvir aquilo. Temerosa, assistiu uma youkai de aparência estranha - a criatura era de baixa estatura, um pouco menor que a própria Aya, antenas erguiam-se de sua fronte, linhas roxas contornavam a pele exposta de seu corpo e algo semelhante a uma capa estendia-se de seus ombros - guiar Hitoshi até o trono. Quando seu primo passou por si, olhou-a com preocupação. Ele também entendia a importância daquele momento.
Desejou poder ir com ele, mas sabia que todos seus movimentos estavam sendo analisados e um passo em falso poderia significar o fim para ambos. Assim, continuou em seu lugar, rezando para que tudo desse certo.
- Apresente-se, humano! - Jaken ordenou.
Pôde ver Hitoshi engolir em seco antes de aprumar-se e responder da forma mais confiante que conseguiu:
- Sou Hitoshi Yamato, o atual Imperador do Japão.
Embora não tenha demonstrado, ficou surpresa pela economia de palavras que ele usou para apresentar-se. Em situações como aquela, onde dois monarcas se reuniam, era de praxe que introduções longas e cheias de floreios fossem feitas. Hitoshi estava realmente se esforçando para não ofender ao outro.
- Agora vejo o porquê de o mundo humano estar em decadência. Seus novos líderes não passam de crianças que mal aprenderam a caminhar com as próprias patas.
Aya prendeu a respiração diante daquela ofensa. Esperava que o primo fosse mais forte que ela e mantive-se o controle mesmo após aquilo.
- Infelizmente, o senhor tem razão. Humanos têm o péssimo hábito de confiar nas pessoas erradas, colocando-as em posições que não merecem ou estão aptas a ocupar. Contudo, garanto que idade pouco tem a ver com isso, considerando quem são os líderes das maiores potências do mundo.
- Oh... - O youkai parecia surpreso por ter recebido uma resposta tão pacífica ao seu ataque. - Não faz muito tempo que ocupa a posição de Imperador, certo?
- Não, senhor.
- Acredita que isso o isenta dos erros cometidos por seus antecessores?
Hitoshi hesitou. Como não hesitaria perante aquilo? De fato, ele não havia feito nada que ajudasse a causar aquela guerra, entretanto... O que tinha feito para acabar com ela? Sua juventude não podia ser usada como desculpa já que durante toda sua vida foi educado para assumir o trono um dia.
Como responder aquilo?
- Não, não isenta. Porém, acredito que estar aqui agora é prova o suficiente de minha vontade em consertar os erros de meus antecessores.
- Você não pode salvar seu próprio povo... Que tipo de líder é você?
- Do tipo humano - respondeu, um quê de amargura em sua voz.
O sentimento de não ser considerado o suficiente... Aya conhecia bem aquela sensação. Provavelmente era a única ali que conseguia ver além da postura calma e diplomata do primo. Hitoshi devia estar se sentindo humilhado.
Mas aquele era apenas o começo.
- Humanos são realmente criaturas frágeis. A despeito do que minha general acredita, vocês não são fortes. Mesmos juntos, só podem resistir por um tempo limitado. Vocês têm prazo de validade... E o de alguns sempre se aproxima mais rápido que o dos demais.
Pela primeira vez, Aya sentiu algo além de indiferença naquele youkai. A cada momento que se passava, a certeza de que estava na presença do genocida, o protagonista de sua história de terror favorita, aumentava. Seu comentário deixava claro o desprezo que sentia pela raça humana, mas, talvez, o que ele realmente ressentisse fosse a fragilidade que uma humana em específico demonstrou, centenas de anos antes. E se esse fosse o caso, então aquele tal de Sesshoumaru ainda possuía emoções em algum lugar embaixo de toda aquela indiferença.
Ou não.
- Por que eu salvaria uma raça tão inferior à minha?
- O senhor quer saber o que tem a ganhar nos ajudando, certo?
Hitoshi parecia nervoso, como se lutasse para manter o controle sobre suas próprias emoções. Mais do que nunca Aya quis aproximar-se dele, alertá-lo para que se acalmasse. Ela mais do que ninguém sabia o quão perigoso podia ser perder o controle em uma situação tão delicada quanto aquela.
- Tudo. Qualquer coisa que desejar. Somente peça e será seu - declarou.
- Qualquer coisa? Você fala como se tivesse o mundo em suas mãos...
- Aquele que sair vencedor dessa guerra de fato o terá.
- Quer dizer o Imperador...
- Exato.
- Espere, Vossa Majestade... - tentou intervir, mas já era tarde.
Não houve tempo para dizer coisa alguma. Antes que pudesse, Hitoshi caiu na teia que aquele youkai vinha tecendo desde o início daquela reunião, sem que ninguém percebesse suas reais intenções.
Sentiu seu estômago afundar em uma terrível sensação ao ouvir as palavras seguintes do Lorde de Edras:
- Entendo... Nesse caso, este Sesshoumaru não tem escolha a não ser vencer mais uma guerra. - Sorriu pela primeira vez, e Aya nunca havia presenciado algo mais assustador. - Fique tranquilo, humano, eu salvarei sua raça. E não apenas ela, também salvarei você.
- O quê? Como assim? - Hitoshi perguntou, claramente confuso.
Seu pobre primo ainda não havia entendido.
- Assim que tudo isto acabar, você estará livre de suas obrigações como Imperador, pois eu, Sesshoumaru, serei o único a reinar sobre estas terras.
Como sua mãe havia dito certa vez, todos os youkais, sem exceção, eram monstros.
