Ele os havia arrastado para a lama. Aquela guerra podia ter sido a responsável por eliminar a maior parte de sua família, mas tinha sido ele, Hitoshi, quem bateu o último prego no caixão que enterraria a Dinastia Yamato de uma vez por todas.

Já não era mais o Imperador do Japão... E a culpa era inteiramente sua. Onde estava com a cabeça quando decidiu que ir até aquele ninho de cobras era uma boa ideia?! Apesar de amar e respeitar sua prima, ter ido até ali, guiando-se somente pelas palavras dela tinha sido estupidez. Ele, como o Imperador de uma grande nação, deveria ter tido mais discernimento! Fora educado durante toda sua vida para isso! E ainda assim não conseguiu perceber a aranha tecendo ardilosamente sua teia envolta dele...

Tudo tinha sido premeditado! Desde o momento que adentraram a sala do trono, tudo o que foi dito e feito, tinha sido friamente calculado para manipulá-lo e levá-lo àquele fim! Como pôde não perceber isso antes?! Era tudo tão óbvio! Aquele tal de Sesshoumaru nunca aceitaria ajudá-los sem receber algo em troca. Não aquele youkai. Não o genocida sobre o qual Aya havia falado. Seu maior erro foi acreditar que oferecer a ele riquezas e algum status seria o suficiente para satisfazê-lo... Pensou que os youkais podiam ser convencidos pelos mesmos métodos usados nos humanos, mas descobriu, tarde demais, infelizmente, que aquela raça era muito mais ambiciosa que a sua.

Um erro de julgamento que o atormentaria para sempre.

Talvez ter tido a posição de Imperador tomada de si não tivesse sido algo tão ruim assim no fim das contas...

Suspirou, pela enésima vez somente naquela manhã, em uma tentativa de criar coragem para sair do quarto que lhe foi gentilmente oferecido por seus anfitriões. Sim, agora ele e toda a comitiva imperial eram oficialmente hóspedes do Lorde de Edras. Por tempo indeterminado, ao que parecia.

- Maravilha... - deixou escapar em um sussurro.

Revestindo a si mesmo com o pouco de dignidade que lhe havia sobrado, rumou até a porta do pequeno cômodo, abrindo-a e saindo em seguida.

Mal deu um passo porta afora e estacou ao ouvir certo comentário:

- Humanos suspiram demais...

- Deus! - exclamou, ao deparar-se com a dona da voz.

- Não, youkai.

Hitoshi não soube como reagir àquilo. Tinha sido uma piada?

- Certo...

- Estou aqui para acompanhá-lo até a sala destinada às refeições - explicou. - Você demorou demais, então estamos atrasados.

- Sinto muito, eu...

- Não preciso de explicações. Apenas me siga - ordenou, pondo-se a caminhar a passos rápidos.

Ele ainda hesitou por alguns instantes antes de segui-la, mas acabou por obedecê-la. Que outra opção tinha?

Enquanto andava a bons dois passos de distância daquela criatura, ia analisando-a. Ainda não havia se acostumado com a ideia de que uma raça inteira existia em meio aos humanos sem que nenhum deles soubesse disso.

Youkais... Eles eram tão estranhos!

Aquela em específico possuía características físicas no mínimo curiosas. A começar pelo fato de que era roxa.

Quer dizer, sua pele era de um tom lilás claro, mas havia várias linhas roxas contornando todo seu corpo - bem, não podia dizer com certeza que aquelas marcas estavam por todo o corpo dela, mas era o que os curtos pedaços de panos que ela usava como roupa davam a entender. Honestamente, sentiu-se um pouco incomodado com o excesso de pele exposta da youkai, por isso resolveu focar sua análise em partes menos comprometedoras dela. Seu cabelo, por exemplo, era ondulado e mantido em um corte chanel, e, assim como seus olhos, eles eram de uma cor preta tão escura quanto uma noite sem estrelas. Mas, apesar disso, o contraste deles com o resto dela não era tão chamativo quanto poderia ser. Não quando havia antenas erguendo-se de sua testa, ou uma capa preta espessa grudada aos seus ombros.

Sumire... Se não se enganava, esse era o nome dela. Engraçado, ela era muito diferente da youkai que havia interferido por eles no dia anterior, Yuki. Isso o levava a crer que, assim como os humanos, a raça youkai também diferia muito entre si, sendo alguns deles mais semelhantes à monstros que outros.

De repente, ela se virou para ele, olhando-o com um olhar mortal que o fez interromper seus próprios passos.

- A-algum problema? - perguntou, hesitante.

Quando pensou que ela pularia em cima de si num ataque furioso, ela disse somente:

- Chegamos.

Foi quando percebeu que estavam parados em frente a uma grande porta, localizada em uma ala totalmente desconhecida. Droga... Tinha ficado tão distraído com seus pensamentos que esqueceu-se de gravar o caminho feito até ali. Um erro de principiante, já que em seus estudos havia aprendido que em situações como aquela um conhecimento apropriado sobre o território inimigo podia inverter o resultado de toda uma guerra.

- Ah, certo... - respondeu, ainda na defensiva.

Tentou sorrir um pouco para amenizar o clima pesado que, por uma razão desconhecida a ele, havia se instalado entre os dois, mas a youkai não correspondeu. Ela apenas o olhou por alguns instantes e então abriu a porta, mantendo-a aberta para ele.

Foi só então que Hitoshi se deu conta que ela o olhava à espera que ele entrasse na sala, o que, devido ao seu nervosismo, acabou levando mais tempo do que o necessário.

Deus... Ele devia estar causando uma impressão e tanto naquela raça.

Apressado, adentrou o local. Tentou agradecê-la por tê-lo acompanhado, mas quando virou-se ela já havia fechado a porta; com força. Não teve tempo para refletir sobre a grosseria desnecessária dela, pois, no segundo seguinte, uma voz preocupada ecoou pelo cômodo:

- Vossa Majestade!

Satoru aproximou-se dele a passos largos, preocupação por todo seu rosto. Não o via desde o dia anterior, então também esteve preocupado. Felizmente, a aparência de seu secretário deixava claro que ele tinha sido bem cuidado durante o tempo em que estiveram afastados. Se não isso, ao menos não o torturaram ou coisas do tipo, como temeu durante sua noite mal-dormida. Na verdade, olhando para eles agora, percebeu que todos os membros da comitiva imperial pareciam bem, na medida do possível. Perguntava-se se eles já haviam sido informados sobre o ocorrido...

- Satoru-san... - cumprimentou, um tanto desanimado -, que bom que está bem.

- Bem?! Como eu poderia estar bem?! Acabo de saber o que aqueles monstros querem obrigar o senhor a fazer!

- Ah, o senhor já sabe... - constatou.

Olhou de canto para Aya, que sustentava o mesmo olhar deprimido desde que saíram da sala do trono, deixando a grandiosidade da Dinastia Yamato para trás. Provavelmente tinha sido ela quem revelou a nova realidade deles para seus companheiros de viagem. Gostaria que ela não o tivesse feito. A responsabilidade era dele, afinal.

- É claro que sei! A maldita criatura que trouxe-me até aqui fez questão de gabar-se a respeito!

Ah, então não tinha sido ela...

Grato, olhou novamente para a prima, sorrindo-lhe. Esperava que o seu sorriso não tivesse parecido tão triste quanto o que ela lhe ofereceu em resposta.

- Mas garanto ao senhor que isso não ficará assim! - Satoru prosseguiu, claramente revoltado. - Se aquele tal de Sesshoumaru acredita que por ser um humano o senhor é uma presa indefesa, ele logo mudará de ideia! O senhor nunca esteve e nunca estará sozinho!

- Satoru-san... - Hitoshi soou surpreso, até mesmo emocionado pelas palavras de seu fiel companheiro, contudo, era preciso tirar quaisquer intenções de rebelar-se da mente dele. - Agradeço suas palavras, mas não há nada a ser feito com relação a esse assunto. Eu já não sou mais o Imperador do Japão. Embora eu acredite que meu título continuará a ser usado para fins políticos durante essa guerra, assim que ela acabar, tal mudança de monarcas se tornará oficial.

- Como pode dizer isso com tamanha calma? - uma das parlamentares, uma mulher de meia idade, perguntou.

- Sui Makishima-san, certo? - Ao receber um aceno de concordância, prosseguiu: - Espero que a senhora acredite em mim quando digo que parte meu coração ter que abrir mão da posição de Imperador. Não pelo status, é claro, mas porque essa posição tem sido da minha família por séculos e ser afastado dela assim... Nunca quis trazer tamanha desonra aos meus antepassados.

Cerrou os punhos, tentando controlar a emoção. Era difícil falar tão abertamente sobre a frustração que sentia no momento, mas devia aquilo aos seus súditos.

- No entanto - continuou -, a situação em que nos encontramos atualmente exige medidas extremas. Embora pouco se fale a respeito, todos aqui sabem que o Imperador nada tem a ver com os assuntos políticos, servindo apenas como uma figura simbólica. Devido a isso eu sempre estive de mãos atadas, sendo obrigado a somente assistir enquanto outros tomavam decisões terríveis em nome do nosso amado país. Porém, agora, no momento em que mais precisamos, foi oferecido a mim a oportunidade de tomar uma decisão, uma decisão que pode salvar a raça humana da auto-destruição. Como eu poderia negar-me?

- O senhor não deveria ser forçado a pagar um preço tão alto pelos erros dos outros, por nós... - Sawamura, um dos dois únicos parlamentares homens a integrarem a comitiva, disse, parecendo envergonhado.

- Não se engane. Não faço isso por vocês somente - confessou. - Na verdade, estou sendo um pouco egoísta. Apenas um garoto querendo ser útil pela primeira vez em sua vida... - Riu, sem graça.

- Waka-dono... - disse Satoru, surpreendendo Hitoshi ao chamá-lo por "jovem mestre". Faziam eras desde a última vez que tinha o chamado assim. Tal termo fez um sentimento nostálgico nascer no rapaz, mas este logo foi substituído por constrangimento quando o homem continuou a falar: - Não seja condescendente conosco, muito menos tente aparentar um egoísmo que não é natural de sua pessoa. Todos aqui sabem que se o senhor não tivesse aceito essa ideia estapafúrdia, nós estaríamos mortos agora. O senhor nos salvou, e por isso somos todos gratos.

O homem inclinou-se em uma profunda reverência, a qual foi imitada pelos demais presentes. Ainda tentou dizer que aquilo não era necessário, mas foi ignorado.

- Mas não se preocupe, Vossa Majestade, seu sacrifício será momentâneo. Continuaremos com esse teatro, até que possamos sair daqui. E quando estivermos em nosso território...

- Satoru-san! - Aya interviu, antes que ele pudesse terminar de expor seus pensamentos. - Creio que seja melhor o senhor guardar seus pensamentos para si mesmo. Lembre-se de onde estamos.

- A senhorita está certa, Aya-sama - ele concordou. - Este não é um lugar apropriado para esse tipo de conversação. - Olhando-a com uma fúria má contida, acusou: - Só é uma pena que a senhorita não tenha tido tal discernimento antes de nos meter em tamanha confusão! Teria sido uma benção se tivesse feito uso de sua inteligência e medido os riscos antes de sugerir essa estupidez!

Para a surpresa de todos, Aya não retrucou como já tinha feito antes. Pelo contrário, apenas abaixou a cabeça, envergonhada, e murmurou um "sinto muito". Naquele momento, Hitoshi percebeu que a culpa que ele sentia não podia se equiparar à que a prima carregava sobre os ombros. Embora não tivesse forçado ninguém, tinha sido ela a sugerir que eles fossem procurar a ajuda daquela raça - que, na época, nem mesmo ela sabia com certeza se existia ou não. Os pensamentos de autocomiseração que rondavam sua mente deviam ser os mesmos perturbando a paz dela.

- Aya-nee-san... - chamou a atenção dela -, se você tem culpa por ter nos guiado até aqui, nós oito temos culpa por ter aceitado sua ideia mirabolante e eu, principalmente, tenho culpa por ter subestimado aquela criatura. As histórias que você nos contou sobre ele deviam ter sido o suficiente para fazer-me ficar alerta, mas eu decidi ignorá-las. Ingênuo, acreditei estar no controle da situação e bem... este é o resultado.

- Se eu pudesse voltar atrás...

- Você viria mesmo assim - interrompeu-a.

- Sim, mas sozinha. Não colocaria o senhor, nenhum dos senhores - olhou ao redor, nos olhos de cada um dos presentes -, nessa situação. Realmente, sinto muito.

- A senhorita fez o que julgou ser necessário - disse Akemi, a mais velha do grupo. - Assim como nós, a senhorita sabe que qualquer coisa, mesmo a morte, seria mais honroso do que nos vendermos para os chineses, a escória que levou a maior parte da família Imperial desse mundo.

Um silêncio pesado apossou-se deles. As lembranças do atentado que matou o antigo Imperador, bem como seu irmão, cunhada e sobrinhos, retornaram com força total, trazendo de volta a indignação, raiva e pesar que sentiram na época.

Aya mal podia lembrar-se de quando descobriu o acontecido sem sentir as pernas tremerem e a bile subir até sua garganta. Se para ela ainda era tão doloroso mesmo após um ano ter se passado, só podia imaginar como era para Hitoshi, que perdeu não apenas seu tio, como seu pai, mãe e irmãos. Todos de uma vez só.

- Haru Shinzou passou de todos os limites quando cogitou a hipótese de unir-se aos responsáveis por aquela tragédia - o outro rapaz chamado Denki concordou. - Se para evitar que isso ocorra eu tenha que sacrificar minha vida, que seja. Eu estava disposto a fazer justamente isso quando me ofereci para vir com vocês e ainda estou. Tenho certeza que os demais pensam como eu.

- Hai! - os outros parlamentares concordaram em uníssono.

- Pessoal...

- Viu? Não tem com o que se preocupar! - garantiu, quando notou que a prima estava ficando emocionada demais para responder qualquer coisa. - Entramos nessa confusão juntos e sairemos juntos dela. Ouviu, Satoru-san?

Satoru suspirou longamente antes de acenar, concordando.

- O senhor tem toda razão. - Virando-se para Aya falou: - Peço perdão por ter me exaltado, Vossa Alteza.

Se sua prima ia ou não aceitar as desculpas dele, Hitoshi ficou sem saber, pois, naquela hora, uma voz foi ouvida, chamando a atenção para si:

- Humanos realmente suspiram demais.


Olhando na direção da porta, Aya avistou um grupo de youkais os encarando com expressões divertidas.

Eles lhe eram familiares: todos os quatro estiveram no fatídico encontro entre os humanos com o líder dos youkais. Embora agora, sob a intensa luz do dia que adentrava o cômodo pelas enormes janelas, eles parecessem ainda mais peculiares.

O youkai chamado Shippou era de longe o mais atraente para os padrões humanos. Sendo alto, com músculos que podiam ser notados mesmo através da roupa - uma camiseta azul e calça jeans preta, um tanto desbotada - que usava, longos cabelos ruivos amarrados em um rabo de cavalo e olhos claros brilhantes, ele era a definição de "padrão". Se não fosse por suas orelhas pontudas, garras afiadas nas mãos, patas no lugar de pés e o fato dele possuir uma calda, ele faria muito sucesso entre os humanos.

Bobagem, ele faria sucesso mesmo com todos esses "atributos".

Em segundo vinha Yuki. A princesa-general possuía traços delicados que contrastavam com sua atitude desbocada e posição social. Era alta, embora menor que Shippou. Seus olhos eram castanhos claros, beirando o dourado - Aya tinha certeza que eles deviam parecer com mel derretido quando a luz do sol recaía sobre eles. Já seus cabelos eram brancos, lisos, e desciam até o meio de suas costas em cascatas. Honestamente, se não fosse pelas orelhas de cachorro no topo de sua cabeça, ela pareceria muito com uma humana comum que resolveu pintar o cabelo por diversão. No entanto, embora não houvesse nela o mesmo brilho chamativo que Shippou ostentava, ela continuava sendo belíssima. O que era quase um desperdício considerando o modo nada feminino com que se vestia e se portava.

Em terceiro lugar vinha Mirai e a youkai fêmea que tinha acompanhado Hitoshi até o trono no dia anterior, da qual não se recordava o nome. No quesito aparência, havia um empate técnico entre os dois. Não é que fossem criaturas horrorosas, cheias de deformidades, é só que... O brilho que deixava Shippou ainda mais encantador, tornava aqueles youkais assustadores. Eles não se pareciam nem um pouco com humanos e isso a assustava. Mirai até poderia ser considerado fofo se você gostasse de gatos - a pele cinza, as orelhas pontudas, a cauda bifurcada e a expressão rabugenta que os olhos amarelos ostentavam deixavam claro, junto com os bigodes, que ele era um nekomata -, mas a outra youkai... No dia anterior, havia achado-a somente esquisita, mas agora, vendo-a à luz do dia, sentiu medo dela. Bastante.

Contudo, esforçou-se para não deixar suas emoções transparecerem. Nenhuma delas. A partir daquele momento, demonstrações de fraqueza deveriam ser evitadas a todo custo.

Com isso em mente, respondeu ao comentário da youkai de aparência assustadora:

- Humanos têm o hábito de suspirar quando estão frustrados com algo. Vocês não?

Tentou ser o mais simpática que pôde. Simplesmente não podia arriscar irritá-los. Não antes de estarem fora daquele lugar, no mundo humano, prontos para escaparem deles.

- Na verdade, não - Yuki respondeu, intrometida. - Particularmente, tenho métodos mais interessantes para aliviar a frustração...

- E ninguém quer saber quais são... - Shippou cortou a fala dela.

- Como se já não soubéssemos... - zombou Mirai, revirando os olhos.

Yuki limitou-se a cruzar os braços e estalar a língua em desagrado. Pelo visto, eles não estavam errados em seus comentários...

Aquela cena deixou Aya confusa. Não podia negar que, apesar de suas aparências, as interações deles eram completamente normais - engraçadas até! - e esse quadro em nada tinha a ver com o modo que eles eram pintados nas lendas.

Se bem que o genocida fez jus ao que diziam dele... Mas seria certo julgar toda uma raça pelas ações de um só? Nesse caso, os humanos estariam perdidos...

Sem que se desse conta, já estava suspirando novamente, o que retornou a atenção dos youkais para ela de novo.

- Continue suspirando assim e logo não sobrará nenhuma felicidade dentro de você - Yuki alertou.

- Já devo ter excedido meus limites então... - respondeu, misteriosa.

A youkai olhou-a com curiosidade, mas não insistiu no assunto. Ao invés, mudou o rumo da conversa, dizendo:

- Bem, já que vocês serão nossos hóspedes por tempo indeterminado, há certas coisas que precisam saber. Que tal conversarmos enquanto comemos? - sugeriu, indo sentar-se na longa mesa tradicional, onde o café da manhã estava posto.

Seus companheiros logo a acompanharam, indo sentar-se nas almofadas próximas a ela. Os humanos hesitaram, é claro, mas, assim que Aya tomou a frente, voltando a sentar-se no lugar que estava até Hitoshi chegar, eles criaram coragem e a imitaram.

Um silêncio desconfortável se seguiu, porém logo foi quebrado por Shippou. Assim como ela, ele também parecia interessado em manter as coisas em um nível amigável.

- Certo... - começou ele -, acredito que um bom começo seria nos apresentarmos, já que a maioria de vocês não esteve presente na reunião de ontem.

Os parlamentares permaneceram quietos, apenas olhando uns aos outros e depois encarando Aya e Hitoshi em busca de orientação.

- Tsc... Francamente, vocês humanos são tão... - Yuki resmungou, irritada. - Meu nome é Yuki, vocês podem me chamar de Yuki-sama ou de general se preferirem. Viram? É fácil! Apenas digam seus nomes!

Parecendo incomodado por ver a youkai zombar do nervosismo de seus companheiros, Hitoshi assumiu para si a responsabilidade de apresentar o grupo.

Levantando-se, disse:

- Meu nome é Hitoshi Yamato, me chamem de Hitoshi, por favor. Estes são Aya Yamato, Satoru Matsumoto, Denki Yagami, Sui Makishima, Eiji Sawamura... - Conforme dizia os nomes, ia apontando para cada um deles, que apenas acenavam como forma de cumprimento. - Hanabi Minami, Naomi Yagi e Sayuri Yves.

Ao terminar de apresentá-los, voltou a sentar-se.

- Prazer em conhecê-los - falou o youkai raposa, educado. - Meu nome é Shippou. Vocês podem me chamar, bem, de Shippou, acho... - Riu sem graça.

- Ou de Shippou-chan! - sugeriu Yuki.

- Shippou é o suficiente - respondeu sério, o que fez os demais youkais esboçarem sorrisos divertidos.

Ao que parecia, o youkai raposa possuía certos complexos...

- Voltando ao assunto - ele continuou, como se nada tivesse sido dito -, deixe eu apresentar a vocês...

- Podemos nos apresentar sozinhos - Mirai o interrompeu.

- É, não somos filhotes que ainda não aprenderam a falar... - a youkai de aparência estranha concordou, sendo um pouco mais ácida em seu comentário.

- Vão em frente, então.

- Meu nome é Mirai, então vocês já sabem como devem me chamar.

- Sucinto - Shippou aprovou.

- Como sempre.

Tendo ele apresentado-se, só restava agora a youkai roxa, justo a qual Aya não recordava-se o nome.

Com um olhar e tom de voz entediados, ela disse:

- Meu nome é Sumire. Prefiro que vocês humanos não falem comigo a não ser que seja absolutamente necessário. Nesse caso, me chamem de Atlas.

- Ruuuude! - acusou Yuki, enquanto tentava disfarçar sua gargalhada.

- Certo... - Mesmo Shippou teve dificuldade para disfarçar seu divertimento com a excessiva sinceridade da, provavelmente, amiga. - Agora que todos nos apresentamos...

- Espere! Eu tenho uma pergunta! - exclamou Yuki. Aprumando-se em seu lugar, ela apontou para Aya e Hitoshi, dizendo: - Vocês dois têm o mesmo sobrenome... Por quê? São irmãos?

Após ela ter chamado atenção para esse fato, todos os youkais pareceram interessados a respeito.

- Não somos irmãos... - respondeu, olhando para o primo.

- Casados, então?

- O quê?! Claro que não! - soou horrorizada.

Só de pensar em Hitoshi sendo seu marido tinha vontade de vomitar. Eles podiam não ser irmãos, de fato, mas eram quase tão próximos quanto. Principalmente agora que eram a única família que tinham.

- Eu não sei se deveria me ofender ou não com isso... - comentou Hitoshi, rindo.

- Se não é isso, então por quê? - a youkai insistiu, muito interessada.

- É comum humanos compartilharem o mesmo sobrenome, ainda que não possuam laços de sangue... - tentou desconversar. Não queria que aquela raça obtivesse essa informação. Só Deus sabe o que poderiam fazer com ela futuramente.

No entanto, Hitoshi parecia não ter a mesma preocupação.

- Somos primos - revelou. - Mas a senhorita não está de todo errada, Yuki-san, pois considero Aya-nee-san como uma irmã mais velha. - Sorriu amoroso para a prima.

Aya sentiu-se na obrigação de retribuir tal sorriso. Embora tivesse havido um tempo em que ressentiu o nascimento do primeiro filho homem na família imperial depois de quarenta anos, tinha aprendido, conforme o observava crescer, a gostar dele. Hitoshi desde criança fora encantador, nunca deixando sua futura posição lhe subir à cabeça. Mesmo quando ele tornou-se de fato o Imperador, sua atitude para com ela e os que o cercavam não mudou. O fato dele ainda chamá-la por "nee-san" quando ela havia passado a tratá-lo por "senhor" provava isso.

- Sama - corrigiu Yuki. - E com "primos" você quer dizer...

- Você não sabe qual o significado de primos? - Aya perguntou, surpresa.

- Sinto muito, eu pensei que tivesse ficado claro que nós não tínhamos contato com os humanos até vocês chegarem aqui? - ela respondeu, como se fosse óbvio.

- Bem, é que esses termos já existem há bastante tempo...

- Não para nós - pontuou. - E então? O que significa?

- Quando o irmão ou irmã de um dos seus pais tem um filho, você é primo dessa criança - explicou, da maneira mais didática que pôde. - No nosso caso, Hitoshi é filho do irmão de meu pai.

- Entendo... Espere! Então você é uma princesa?! - exclamou, espalmando ambas as mãos na mesa, o que fez com que a louça tintilasse. Parecia realmente chocada.

Bem, quando soube que aquela criatura também possuía sangue real sentiu a mesma coisa...

- Como chegou a essa conclusão? - Mirai inqueriu, achando graça de tal hipótese.

Aya sentiu-se ofendida. Será que era tão absurdo assim que alguém como ela fosse uma princesa?

- Idiota, ela acabou de dizer! - Deu um cascudo no nekomata. - Eles são família e o garoto era um Imperador, ou seja...

Um som surpreso ecoou em uníssono pelo cômodo, mas isso não a incomodou tanto quanto o modo como a youkai se referiu à Hitoshi: "O garoto era o Imperador". Era, no passado. Aquilo significava que para os youkais a mudança já havia ocorrido. Enquanto os humanos mal tinham digerido aquilo, eles já viam o seu líder como o novo Imperador...

Alheios aos seus pensamentos, continuaram a discutir acerca de sua, agora ex, posição social.

- E vocês diziam que nunca houve uma princesa tão desgraciosa quanto eu... - Yuki comentou, parecendo satisfeita.

- E não há - afirmou Shippou.

- Como não?! - a youkai exaltou-se. - Ela é uma princesa e tem a boca mais suja que um anão!

- Pelo menos não tanto quanto você - ele se corrigiu, olhando Aya de forma analisadora.

Ela odiou ter causado tal impressão neles. Normalmente, era uma pessoa pacífica, embora, é claro, tivesse seus momentos de fúria. Era realmente uma pena que eles tivessem a conhecido justamente em um desses episódios...

- Sinto muito pela impressão que causei a vocês - disse, tentando consertar ao menos um pouco a situação. - Acabei por deixar-me levar pelo momento...

- Não se preocupe, todos aqui estão acostumados a xingar aquele cara. A única diferença é que fazemos isso mentalmente, para que ele não descubra e nos mate - zombou Yuki, arrancando alguns risos de concordância.

No entanto, houve alguém que não aprovou aquele comentário, por achá-lo muito desrespeitoso. Para a surpresa de todos, esse alguém era Hitoshi.

- Não creio que essa seja a maneira correta de se referir ao líder de sua raça, muito menos ao seu próprio pai - ele admoestou, sério.

Um assunto delicado. Para ambos, aparentemente.

Aya e os demais presentes assistiram com uma apreensão crescente Yuki assumir uma expressão séria. Temiam que aquela conversa não acabasse de um modo agradável.

- Como disse? - inquiriu em um tom debochado.

Hitoshi se remexeu em seu lugar, mas continuou a encarando fixamente. Ele não retiraria o que disse. Não com respeito àquele assunto.

Yuki apoiou as mãos contra a mesa, levantando-se em seguida. Chegou até mesmo a abrir a boca para dizer algo, mas o quê exatamente eles não saberiam nem tão cedo, pois, naquele momento, alguém adentrou o cômodo em que estavam.

Afobado, o youkai de aparência similar à de Sumire disse:

- General, nós temos problemas.

Nenhum deles sabia então, mas a notícia que o youkai trazia com ele mudaria o curso de tudo.

Aquele era o início do fim.


Notas do Autor: gostaram? cap focado nos personagens originais... estão gostando deles? já têm um favorito? me contem! bjs e até a próxima. ^^