3 meses antes
Não foi preciso muito para que Yuki entendesse o que estava acontecendo. Ela era a general das tropas youkais por um motivo. E embora humanos e youkais fossem duas raças distintas, havia certas similaridades entre ambas. Traição era uma delas.
Após o atentado que a princesa humana e seu primo tinham sofrido, ainda no território de Edras, ela havia ficado surpreendentemente zangada... Em busca de respostas, chegou a interrogar o homem chamado Satoru, que afirmou não estar envolvido naquela armação. Ela acreditou nele. Nenhum humano, por mais treinado que fosse, sustentaria uma mentira diante de seu interrogatório.
No entanto, por mais que tenha ficado satisfeita em descobrir que o traidor não estava entre eles, aquilo levantou a seguinte questão: quem era o mandante?
Quando questionados, os humanos hesitaram em oferecer um nome, mas todos eles pareciam ter um suspeito em mente. À época não entendeu o porquê da hesitação, embora Shippou tenha a convencido a não pressioná-los, mas agora entendia. O fato de que o traidor estava no comando de um país inteiro fazia dele um obstáculo e tanto. Quer dizer, para os padrões humanos ele era alguém a se temer. Pelo menos foi isso que suas investigações particulares - feitas após deixar sua equipe e os humanos na segurança de Edras - revelaram.
Haru Shinzou... Do seu ponto de vista, ele não era nada demais como político. Tinha feito pouco, quase nada, durante os anos que antecederam sua posse como Primeiro-Ministro e, após ter assumido o cargo, suas decisões não melhoraram muito. Mas ainda assim, ali estava ele: prestes a assinar um tratado de paz com a China, a nação tida como a favorita para sair vitoriosa daquela guerra.
"Como?", era a pergunta que não queria calar. As coincidências que rodeavam aquele humano eram muitas para que ela de fato acreditasse tratar-se de coincidências.
E sua intuição não a enganava. Teve certeza disso quando Satoru resolveu compartilhar suas próprias suspeitas com ela. Assim que o humano terminou de falar, a pergunta que rondava sua mente - como? - foi substituída por: "Por que ninguém percebeu isso antes?!" Era tão óbvio que o Primeiro-Ministro estava por trás das mortes dos dois últimos Imperadores, bem como do atentado ao atual, que chegava a enervá-la.
Em sua mente, uma linha foi traçada para explicar todas as pequenas coincidências que cercavam aquele homem:
2018, ano em que assumiu o cargo de Primeiro-Ministro;
2019, início da guerra e de suas tentativas em fazer o Japão tomar partido nela;
2021, a morte do único que ainda se opunha à entrada do Japão na guerra, o Imperador Heisei;
2027, o início do afastamento gradual do Japão de sua até então aliada, a Rússia;
2028, o assassinato do Imperador Toshi e da maioria dos membros de sua família, na época, atribuído aos chineses - o que foi rapidamente negado por eles;
2029, o desaparecimento dos dois últimos membros da família imperial, seguido do rompimento imediato de relações com a Rússia e rendição à China.
Tendo alinhado esses acontecimentos em sua mente a resposta para todas as suas perguntas a respeito de Haru Shinzou tornou-se aparente: manipulação. Ele era um grande manipulador, por isso ninguém foi capaz de ver através de seus movimentos até que fosse tarde demais.
A forma como ele foi capaz de prever a queda da Rússia a tempo de afastar-se dela sem que seus antigos aliados percebessem suas intenções havia sido astuta. No entanto, o modo como ele agora usava esse afastamento para convencer o povo nipônico de que eram os russos os verdadeiros inimigos e não a China como chegaram a pensar um dia e por isso deveriam aceitar a oferta de paz que eles, generosamente, fizeram, era digno de receber seus parabéns.
Yuki realmente o congratularia por sua astúcia se o fato dele enganar seus súditos dessa forma não lhe fosse repugnante. Haru Shinzou lembrava-a de seu pai e isso não era bom... para ele.
5 dias antes
Aquela era a última reunião antes do plano ter início, por isso queria ter certeza de que todos ali entendiam quais eram seus papéis. Afinal, para que tudo desse certo, eles teriam de desempenhá-los com maestria. Havia muito em jogo ali, e nenhum espaço para falhas.
Depois de três meses, estavam do lado de fora de Edras novamente. Dessa vez, no entanto, tinham sido capazes de alcançar Tóquio. Deviam isso à relativa calma que a recente aliança com a China trouxe para todos, mas, principalmente, ao fato de que agora quem estava no comando era ela. Não negaria que a ajuda de Satoru fora de extrema importância para que ela entendesse a situação atual do governo japonês, mas também não daria a ele todo crédito. Seu ego não permitiria que o fizesse. No máximo, admitiria que eles formavam uma boa dupla.
Estavam escondidos no que antes fora um hotel cinco estrelas, segundo os humanos, mas que agora, devido a guerra, tinha se tornado abrigo para sem-tetos. Havia mais deles ali do que ela era capaz de contar, mas isso não ameaçava o disfarce deles, muito pelo contrário. Aquela era uma área que os japoneses no geral não gostavam de sequer passar perto, pois acreditavam que lhes traria má sorte.
Uma superstição muito bem-vinda naquele momento.
- Então é aqui que nos despedimos... - disse Aya, chamando sua atenção.
Yuki ainda conseguia notar certa melancolia na princesa, mas gostou de saber que ela finalmente havia se resignado ao fato de que não poderia acompanhá-los até o distrito de Chiyoda.
Uma equipe muito pequena havia sido escolhida a dedo para a realização daquela missão e a princesa humana tinha surtado quando soube que não fazia parte dela. Mas não havia nada a ser feito, ela não era necessária. Sua presença apenas atrapalharia. Se dependesse de Yuki nem mesmo o primo dela, Hitoshi, os acompanharia, mas a presença dele tinha sido requisitada pelos humanos que os ajudariam a adentrar Koukyo, a residência imperial.
Após muito debater consigo mesma, ela havia chegado à conclusão que era impossível invadir Koukyo de forma silenciosa. E para que tudo desse certo, era absolutamente necessário que eles passassem despercebidos em sua infiltração. Não que temesse os humanos, longe disso. Se a existência dos youkais fosse descoberta, eles aniquilariam todos antes que eles tivessem tempo para pensar em se organizar e atacar. Contudo, todo seu plano tinha sido criado para evitar o máximo de baixas possível em sua raça. Não tinha porquê arriscar a vida dos seus, se podia fazer tudo sem que os humanos desconfiassem de sua existência.
Assim, tinha permitido que Satoru usasse seus contatos para obter ajuda do lado de dentro de Chiyoda. Embora ele não tivesse revelado nada a respeito do que eles planejavam fazer uma vez que estivessem dentro do território do Primeiro-Ministro, Satoru conseguiu que alguns humanos se disponibilizassem a ajudá-los a entrar lá. Em troca, a única coisa que pediram foi uma prova de que seu amado Imperador estava vivo. Esse era o único motivo pelo qual a presença de Hitoshi se fazia necessária. Sem ele, nem sequer conseguiriam dar início ao plano.
Finalmente a princesa tinha entendido isso.
- Sim - concordou. - Mas não se preocupe, você poderá me rever em cinco dias, princesa.
A mulher revirou os olhos diante de sua provocação, o que fez um sorriso divertido nascer em seus lábios.
- Boa sorte - desejou, olhando diretamente para seu primo. - E tomem cuidado.
- Cinco dias - Mirai lembrou. - Passou disso e nós...
- Têm permissão para virar aquele lugar de cabeça para baixo! - concluiu, séria.
Torcia para que nada desse errado, porque se desse... Bem, digamos que as tropas youkais de Edras já estavam há muito tempo sem ver sangue.
Após terem deixado o esconderijo, tinham ido encontrar-se com os contatos de Satoru. Por tratar-se de humanos, Yuki achou melhor que apenas ela e Shippou - devidamente disfarçados, é claro - acompanhassem Hitoshi e ele naquele encontro.
Não deixou transparecer, mas ficou surpresa pela emoção que os humanos demonstraram ao rever o garoto. Pelo que tinha aprendido, o Imperador era apenas uma figura simbólica, sem nenhum poder real... Então por que pareciam amá-lo tanto? De qualquer forma, eles cumpriram com sua promessa e, ao comprovar que o Imperador vivia, colocaram os quatro para dentro de Koukyo.
Eram cinco pessoas: três mulheres e dois homens. Nenhum deles possuía poder político ou uma posição elevada na sociedade. Todavia, se durante suas vidas isso foi visto como algo ruim, naquele momento, era um presente divino! Qual a única classe invisível aos olhos de um governo, especialmente um governo em crise? Os pobres.
Namida, Akemi, Mina, Hiruzen e Onoda. Uma copeira, uma cozinheira, uma faxineira, um jardineiro e um motorista de caminhão de lixo. Quem imaginaria que essas pessoas representariam qualquer risco aos planos do Primeiro-Ministro? Com certeza não ele!
Haru Shinzou não fazia ideia do que o aguardava!
Atualmente
Durante uma guerra, quem mais sofre são os civis. Mesmo os soldados têm mais regalias que um cidadão comum, apesar de terem de arriscar suas vidas para isso. No entanto, por mais privilégios que alguns tenham, sempre haverá alguém acima deles: o governo. Enquanto os civis e os soldados sofrem, os governantes vivem suas vidas da melhor forma que podem, apenas relegando ordens aos outros. Já era assim quando ainda não passava de um filhote e os youkais ainda andavam livremente por aquelas terras, e não tinha mudado. Começou a perceber isso quando descobriu que seriam colocados para dentro daquele local em um caminhão de lixo - ali provavelmente era um dos últimos lugares, se não o último, onde ainda havia uma coleta periódica -, mas teve realmente certeza quando chegou lá dentro.
A guerra não tinha tocado aquele lugar. Na verdade, viver ali podia muito bem fazer alguém duvidar da existência de uma guerra. Era lindo, enorme e a deixava enojada.
Felizmente, não teria que ficar ali por muito tempo. Era o quinto dia. Finalmente a hora de colocar a segunda e última parte do plano em prática havia chegado.
A chegada da filha do presidente chinês aconteceu de forma bem escandalosa. Comboio e dezenas de seguranças armados protegendo seu carro. Havia chegado na noite anterior à festa, o que também era uma medida de segurança, e permanecido trancada em seu quarto, em Kyuuden, desde então, era o que os sussurros dos empregados diziam.
O que eles não tinham como saber era que tudo aquilo não passava de atuação. Um chamariz para esconder o verdadeiro paradeiro da humana. Como ele sabia disso? Porque tinha passado os últimos quatro dias transformado em raposa, rodeado os jardins de Koukyo, em busca de informação.
Enquanto Satoru passava-se por jardineiro, Yuki lavava roupas e Hitoshi vestia-se de mulher para trabalhar na cozinha do palácio imperial, ele tinha de usar sua magia para ouvir a conversa alheia e fugir de tiros quando algum segurança o avistava. Não que ele se importasse, é claro! Pelo menos estava sendo útil!
Suspirando, Shippou moveu-se, desconfortável, fazendo esforço para passar pelo buraco que tinha cavado embaixo da cerca que rodeava aquela casa. Felizmente, a casa de chá ficava em meio ao jardim do leste, o que impedia que qualquer um visse sua ação. Para que o segredo sobre quem estava hospedado ali continuasse, poucos guardas foram posicionados no local, facilitando ainda mais a sua entrada.
Tendo finalmente conseguido passar pelo buraco, Shippou chacoalhou-se para livrar-se um pouco da terra.
- Tudo bem aí, Shippou-chan?
Ainda que tivesse reconhecido a voz, seus instintos o fizeram rosnar automaticamente para a pessoa.
Era Yuki. Não ficou surpreso por encontrá-la ali, fazia parte do plano. As pequenas gotas de sangue manchando seu uniforme de empregada e o desaparecimento do lenço que usou para esconder suas orelhas durante aqueles dias significava que os guardas tinham sido eliminados.
Ótimo. Até o momento tudo estava ocorrendo como o planejado.
- Humano? - sussurrou ela. - Feito.
Shippou sabia com quem ela falava então apenas acenou e correu em direção à casa, deixando-a para trás, escondida em meio aos arbustos. Haviam câmeras lá por isso ela não devia se aproximar, mas ele duvidava que quem quer que estivesse monitorando-as fosse dar muita importância para uma raposa que resolveu pular uma janela aberta.
Já dentro da casa, ele finalmente voltou à sua aparência humana. Seus músculos doíam! Definitivamente iria precisar de uma massagem depois! Entretanto, esse não era seu único problema. Estava nu e não havia nenhum sinal de roupa à vista!
Praguejando, arrancou uma cortina da janela e enrolou-se nela, cobrindo suas partes mais reveladoras. Ficou extremamente ridículo, mas não tinha tempo a perder com esse tipo de coisa. Continuou andando pela casa, farejando em busca do cheiro dela. Por sorte, não encontrou nenhuma das empregadas dela no local.
Pelo menos pensava tratar-se de sorte, mas então descobriu que aquilo não era coincidência quando deparou-se com três mulheres desmaiadas no chão da sala, Yuki próxima delas.
- Fiquei impaciente - explicou, dando de ombros.
Shippou quis xingá-la, mas agora mesmo é que não tinham tempo para isso.
- Se alguém a viu nas câmeras...
- Não se preocupe, eu as quebrei! - disse, defendendo-se. - Agora vá logo!
Negou com a cabeça, realmente não a suportava! Mas ao invés de dizer-lhe isso, a obedeceu e seguiu seu caminho. Tinha finalmente encontrado o cheiro da humana.
Com um "puf" desapareceu da sala, reaparecendo dentro do quarto daquela que procurava. Através do fino papel da parede que separava seu quarto de dormir do seu quarto de vestir, pôde ter um vislumbre dela, ou melhor, de seus contornos.
Curioso, olhou ao seu redor. Sabia que o tempo estava correndo, mas fazia eras desde a última vez que teve contato com humanos e por isso não resistiu a remexer em algumas coisas. Como o armário dela estava entreaberto, ele foi seu primeiro alvo.
Suas roupas era estranhas e muito diferentes das que sua melhor amiga costumava usar quando a conheceu, constatou com um sorriso. Porém, seu sorriso logo transformou-se em uma careta quando sentiu seu dedo ser espetado por algo pontudo. Que diabos era aquilo?
De repente, leves batidas ecoaram pelo quarto, chamando sua atenção.
- Já está na hora? - Uma voz feminina perguntou.
- Sim, senhorita - outra voz respondeu.
Shippou logo reconheceu como sendo a de Yuki. Droga, ela realmente não tinha paciência!
Agitado, pegou o que tinha lhe espetado na mão, descobrindo tratar-se de uma adaga. Uma muito bonita por sinal.
- Estou a caminho, pode retirar-se agora.
Algo na voz da humana lhe deixou preocupado. Ela parecia ansiosa...
Quando ela encarou por tempo demais a porta do quarto percebeu que tinha razão em preocupar-se: ela havia desconfiado de algo.
Sem dar tempo para que ela fizesse qualquer coisa, sumiu e apareceu imediatamente depois atrás dela, bem na hora em que ela virou-se, provavelmente para ir até a outra parte de seu quarto, buscar sua adaga.
- Não me diga que estava à procura disso... - provocou, segurando a adaga de duas pontas na mão.
- Devolva e talvez eu perdoe sua audácia - comandou, mais calma do que ele esperava.
- Ah, talvez você perdoe a mi... - interrompeu a si mesmo conforme algo nela ia mexendo com algo dentro de si.
Uma sensação de conhecê-la de algum lugar, de estar com o nome dela na ponta de sua língua, foi apossando-se dele até que uma palavra escapasse de sua boca sem que sequer se desse conta disso:
- Rin?
Ao ouvir aquilo, a humana pareceu desestabilizar-se completamente. Mais pálida que o papel da repartição do quarto, ela respondeu, também em um sussurro:
- Como conhece esse nome?
Shippou só podia estar brincando com a cara dela! Por que demorava tanto?!
Irritada, bateu na porcaria da porta. Precisou controlar-se para manter sua voz num tom baixo ao responder a humana. Esperava que com isso ele caísse em si e fizesse o que tinha de ser feito rapidamente.
- Algo está acontecendo! - Uma voz irritante soou no ponto em suas orelhas, quase deixando-a surda.
Francamente, será que aquele homem ainda não tinha entendido que sua audição era muito superior à dos humanos?! Não havia porquê gritar!
Afastando-se a passos rápidos da porta, saiu daquela parte da casa para respondê-lo:
- O que é?!
- Uma movimentação estranha! Acabo de ver alguns seguranças seguindo na direção da casa de chá! Vocês ainda estão aí? Algo deu errado?
Merda! As câmeras!
- Mudanças de plano, Satoru: saiam daqui imediatamente! Não nos esperem!
- O quê? Como assim?
- Sem perguntas! Saiam logo antes que eles interditem as saídas!
- Mas e vocês?!
- Vamos logo em seguida! Obedeça!
Sem dar tempo para que ele a respondesse, arrancou o ponto de sua orelha e jogou no chão, pisando em cima do mesmo.
Estava furiosa! Com Shippou e consigo mesma! Se ele não tivesse aparecido exatamente naquela hora, trazendo a maldita humana desacordada em seus braços, provavelmente teria ido até ele e iniciado uma briga.
- Fomos descobertos - contou.
Felizmente, ele viu que aquele não era o momento de dizer coisas estúpidas como "eu avisei".
- E agora?
- Agora vamos sair daqui em grande estilo - respondeu, nada animada.
Shippou fez uma careta, mas não ousou reclamar. Entregando a humana para ela, assumiu sua forma mais ridícula: a de um enorme balão cor-de-rosa.
Yuki sentou-se sobre o balão, a humana em seus braços, sem nem um pouco de pena do amigo por ele ter que flutuar pelos céus carregando todo aquele peso.
Enquanto fugiam, puderam avistar os seguranças que Satoru havia mencionado. Felizmente, nenhum deles olhou para cima e por isso não viram aquela cena... inusitada. Não que ela se importasse de ser vista em cima de um balão cor-de-rosa, é claro, estava mais preocupada com a possibilidade de ser derrubada com um tiro.
Para o seu alívio, enquanto cruzavam o imenso território de Koukyo, também avistou um caminhão conhecido andando em uma velocidade um pouco maior que o normal pelas estradas do lugar. Acompanhou apreensiva o caminho dele, suspirando aliviada quando ele cruzou o portão de saída.
De alguma forma, tinham conseguido completar o plano.
- Agora... O que faremos com você? - perguntou, olhando para a bela mulher que haviam acabado de sequestrar.
