Ele estava arruinado. Todos os seus esforços tinham sido em vão. Os planos que arquitetou com todo o cuidado, o tempo que gastou colocando-os em prática... tudo arruinado. E por quê?! Como?! Se ao menos conhecesse as respostas para tais perguntas talvez não se sentisse tão frustrado naquele momento.
Ele esteve tão perto! Pôde até mesmo chegar a sentir o gosto da vitória e do poder que viria com ela... Mas agora isso não passava de lembranças que serviam unicamente para alimentar sua frustração e ódio durante o tempo em que passava ali, em sua cela.
Sua atual situação não poderia ser mais deprimente. Encarcerado como o mais baixo dos criminosos, agonizando pela falta de água e comida, bem como as seções diárias de tortura, há mais de uma semana, ele já não passava de um pálido reflexo do homem altivo que foi um dia.
Após o sequestro da filha do presidente chinês, enviada pelo mesmo para representá-lo naquela cerimônia, todos os olhos voltaram-se para ele. Ninguém pareceu disposto a parar para pensar que ele não ganharia absolutamente nada fazendo algo como aquilo. Por que ele arriscaria perder o apoio de uma nação tão poderosa quanto a China? Por que arriscaria sua posição?! Ninguém questionou-se a respeito dessas incoerências ou ouviu seus apelos quando ele próprio o fez. Tal atitude pareceu-lhe estranha a princípio, mas sua prisão deu-lhe tempo para analisar os fatos e compreender: tudo tinha sido uma grande armação.
Infelizmente, nada podia fazer com essa nova descoberta. Era tarde demais. Sob sua cabeça pesavam acusações seríssimas. Agora era considerado um criminoso de guerra. Quão irônico era que seu fim se devesse não aos pecados que cometeu, mas aos que lhe atribuíram injustamente? Riria da ironia se ainda fosse capaz.
Tentou suspirar dramaticamente, mas nem mesmo isso pôde fazer. Engasgou ao sentir seu nariz quebrado latejar em uma dor agonizante. Contudo, toda a dor que sentia não o desmotivou, apenas fez com que seu ódio aumentasse. Se houvesse um inferno, faria questão de arrastar a pessoa que orquestrou aquilo tudo para lá junto com ele.
- Haru Shinzou...
De repente, onde não havia mais nada além de escuridão, uma mulher apareceu. Ela era bela como a própria Divindade que o visitava em seus sonhos durante tempos necessários. Conseguia ver a aura magnífica que envolvia seu corpo mesmo através de seus olhos inchados.
- Divindade... - sussurrou, preso em um encantamento.
- Haru Shinzou - ela repetiu, seu tom de voz reprovador. - Olhe só para você...
- Ajude-me...
- Ajudá-lo? - soou surpresa, mas ele sabia que era sua falsidade falando. Conhecia-a bem. - Não vejo como eu poderia...
- Por favor, salve-me... - consertou sua fala. A Divindade sempre gostou de vê-lo implorando.
- Ah, pobrezinho...
Ela aproximou-se dele em um piscar de olhos, segurando seu rosto com suavidade e fazendo-o olhá-la. Ele nunca havia estado tão perto dela. Aqueles olhos... Aqueles assustadores olhos... Se pudesse, teria gritado de horror.
- Não se preocupe, Haru Shinzou, eu irei salvá-lo de seu sofrimento - garantiu, seu aperto se intensificando.
Se pudesse, teria gritado. Mas não pôde. Não porque estava muito machucado para isso, mas porque não teve tempo de tentar fazer suas cordas vocais funcionarem.
A Divindade fora rápida em cumprir sua promessa.
Eles não permitiram que ela ficasse acordada. Mantiveram-na "apagada" durante toda a viagem. Agora, no entanto, seus sentidos, apesar de lentos, estavam funcionando novamente. Foi assim que soube que tinham chegado ao seu destino final.
Permaneceu em silêncio, fingindo ainda estar inconsciente, numa tentativa de ouvir a conversa de seus captores - duvidava que o homem de vestes estranhas fosse o único participando daquele plano -, mas foi em vão. Eles quase não falavam e o pouco que era dito não oferecia nenhuma pista de quem eles eram, para onde iam ou o que fariam com ela.
Interiormente, amaldiçoava sua sorte por ter reservado-lhe aquele destino. Não era para ser ela naquela situação! Sua verdadeira posição jamais lhe ofereceria tal risco!
Cerrou seus punhos com força tentando acalmar-se. Assim como seus pés, suas mãos estavam amarradas atrás de suas costas, então não havia como eles perceberem seu movimento, e, sendo sincera, já não se importava. Precisava aliviar seu nervosismo de alguma forma. Estava com medo, não negaria. Ter crescido como uma garota durona apenas a ajudava a manter a calma diante de seu medo, não a deixar de senti-lo.
- Hora de voltar a dormir - uma voz masculina disse, próxima demais dela.
Instintivamente, começou a debater-se, desferindo golpes, na maioria das vezes certeiros, em direção a outro de seus captores. Pôde ouvir vozes, gritos assustados, ordens para que seu agressor a dopasse logo, e os odiou por tamanha covardia. Irada, golpeou ainda mais forte, ouvindo um som de dor. Sorriu. Era o que eles mereciam!
Todavia, seu sorriso transformou-se em uma expressão surpresa quando um barulho alto foi ouvido ao seu lado. Parecia que a porta do automóvel que estavam tinha sido arrancada de uma só vez. Teve certeza que tinha sido isso que aconteceu quando uma nova voz, dessa vez conhecida, foi ouvida:
- Droga, já não se fazem princesas como antes! - reclamou.
"O sequestrador!", foi tudo que conseguiu pensar antes de ser arrastada por uma força inigualável e ter um pano encharcado pressionado contra seu nariz.
No segundo seguinte, estava novamente inconsciente.
- Essa princesas de hoje em dia... - Shippou continuava reclamando, mas Yuki sabia que ele só fazia isso porque não gostava de ter que manter a humana naquelas condições. Se não soubesse melhor, diria que ele estava atraído por ela e daí vinha sua pena.
- Ela não é uma princesa - corrigiu Aya, uma princesa de verdade. - Ela é a filha de um presidente, não de um monarca.
- Não muda o fato de que vocês são muito agressivas! - pontuou, nervoso. - Olha só o que tive que fazer com nosso transporte! - Apontou para o furgão, cuja a porta tinha sido arrancada por ele.
- Não se preocupe, ele já serviu ao seu propósito - tranquilizou-o.
De fato, aquele furgão roubado tinha sido extremamente útil na fuga deles, principalmente quando alcançaram o ponto de encontro - onde a equipe de apoio os aguardava - e precisaram abandonar o caminhão de lixo.
Felizmente, o contratempo ocorrido na casa de chá não os impediu de completar o plano. Satoru havia retirado-se com o humano de Koukyo logo após receber suas ordens e, apesar de estar levando mais passageiros que o combinado - aparentemente Hitoshi tinha se negado a deixar os humanos que os ajudaram para trás -, conseguiu chegar ao destino marcado no tempo estipulado. Shippou e ela, que tinham os seguido durante todo o caminho, garantindo a segurança de todos, pousaram logo depois, trazendo a humana à tiracolo.
Sem perder tempo, eles logo trocaram de transporte - os humanos, incluindo a que tinham sequestrado, seguiram viagem no furgão, com ela própria os monitorando, já Sumire, Shippou e Mirai foram voando pelos céus, o nekomata em cima de seu namorado cor-de-rosa. Devido a necessidade de passarem despercebidos, as rotas mais difíceis foram escolhidas, o que quase fez com que estourassem o limite de tempo concedido pelo Lorde de Edras para que eles retornassem para casa - o que, felizmente, não aconteceu. Odiaria que uma guerra se iniciasse por causa de um mísero atraso. Além do mais, teria que apresentar-se ao seu pai para um relatório da missão e relatar falhas não estava em seus planos.
Com isso em mente, resolveu que já estava na hora de preparar seus companheiros - principalmente os humanos - para o que viria a seguir. Estavam a apenas alguns quilômetros de distância da fortaleza, podia até mesmo ver a cerca humana que rodeava os limites dela, bem como a barreira mágica que a protegia - embora essa última só pudesse ser vista por olhos youkais -, sabia que eles apareceriam a qualquer momento.
Dito e feito.
- Vejam, lá vem eles - avisou, apontando para o horizonte noturno.
Os humanos olharam para cima, tentando desvendar do que ela falava, mas nada viram. Seus olhos eram quase inúteis durante à noite e não tinham nem 1/3 do alcance que os olhos youkais possuíam. Eles só souberam do que se tratava, quando os três dragões cortaram as nuvens em um voo belíssimo, pousando na campina desmatada em que estavam.
- Não gritem! - Satoru ordenou para os seus, quando estes assustaram-se diante da visão das criaturas. Ficou surpresa por vê-los o obedecer, pensou que eles seriam mais escandalosos.
- Eles não vão nos machucar - garantiu a princesa.
- Mas o que... o que... - o homem chamado Onoda gaguejava, apontando para Danai e seus amigos.
- Dragões - Mirai respondeu, sucinto.
- E nosso transporte até nosso destino final - Shippou completou.
Àquela altura os humanos sabiam que eles não eram normais. Já que teria que levá-los para Edras, ela tinha achado por bem revelar de uma vez quem eram, para que não houvessem surpresas desagradáveis depois. Entretanto, ao que parecia, ela deveria ter se aprofundado mais em suas revelações...
Suspirou, impaciente. Não tinha tempo a perder dando explicações!
Como se lesse seus pensamentos, a princesa Aya disse:
- Eu contarei a vocês tudo o que sei! Mas só quando chegarmos ao nosso destino! - barganhou.
Hesitantes, os humanos olharam-se entre si antes de engolir em seco e acenarem, concordando.
- Ótimo! - comemorou. Caminhando em direção à sua companheira de duas cabeças, cumprimentou-a com um abraço carinhoso para matar as saudades e então a montou com facilidade. Em cima de sua dragão, disse aos humanos: - Espero que não tenham medo de altura, mas se tiverem, fechem os olhos!
Ressabidos, quase obrigados, eles montaram nos enormes dragões, os youkais os ajudando enquanto seguravam-se para não rir de seu nervosismo.
- Confortável, Shippou? - zombou de seu amigo que tinha abrido mão de guiar Kuroo em prol de levar a humana sequestrada em seus braços. - Só tenha cuidado com suas mãos! Mirai está bem na sua frente!
- Cale-se! - resmungou, franzindo o cenho. - Vamos, amigão! - ordenou à Kuroo, e embora não estivesse sendo guiado por ele, o dragão o obedeceu, levantando voo.
Yuki ordenou o mesmo à Danai, mas quando estava no ar deu uma nova ordem:
- Queime!
Imediatamente, labaredas de fogo deixaram a enorme boca do animal, atingindo em cheio o furgão em que os humanos viajaram.
Surpresa, uma das humanas que levava em sua "garupa" exclamou:
- O que está fazendo?!
- Eliminando eventuais provas - explicou.
- Mas e se virem o fogo?! - questionou, preocupada. - Eles podem vir checar e...
- Não se preocupe, princesa, incêndios são comuns por essas bandas.
Tendo tranquilizado as preocupações dela, ordenou aos demais:
- Vamos!
Em fila, os três dragões seguiram voando em direção à Edras, levando consigo, pela primeira vez, humanos que tinham permissão para estar naquelas terras.
Se Hitoshi tivesse que apontar em si mesmo uma qualidade que na prática mais parecia um defeito, ele diria sem pestanejar: "minha capacidade de ver o melhor nas pessoas". Agora se essa responsabilidade fosse atribuído a outros, a resposta mudaria: "sua inocência". De qualquer forma, independente de sua qualidade mais infame ser sua inocência ou sua capacidade de ver o melhor nos outros, ele estava ferrado. Duvidava que qualquer um fosse levar esses detalhes em consideração quando soubessem que ele tinha deixado a filha do presidente chinês, justamente aquela que lhes deu tanto trabalho sequestrar, fugir de suas vistas.
E ele estava certo. Quando Yuki retornou da reunião que teve com seu pai, parando no quarto que vinha servindo como cativeiro para a mulher chinesa desde que eles chegaram em Edras, horas antes, ela não ligou para seus ferimentos ou para suas explicações, ela apenas lhe deu um olhar de desprezo e saiu de lá em busca de sua presa.
Ele poderia ter ficado para trás, preso em sua vergonha, mas escolheu segui-la. Yuki estava realmente furiosa e ele não a conhecia bem o suficiente para ter certeza que ela não descontaria sua raiva naquela moça. Apesar da agressividade com que a chinesa havia o tratado, não queria que a machucassem. Ela parecia já ter sido ferida vezes o suficiente.
Sendo assim, ele seguiu a youkai pelas ruas da principal cidade de Edras, passando por entre as casas e youkais que os olhavam de forma atravessada. Mesmo após três meses de convivência, aqueles seres ainda não o suportavam. Embora não gostasse de ser tratado com tanta rudeza, entendia a posição deles. No entanto, o que nunca compreenderia era porque eles também tratavam Yuki, a princesa deles, daquela forma.
- Saiam da frente, malditos! - ela gritava, abrindo caminho à força entre eles.
Certo, talvez os entendesse um pouco.
De repente, ela parou no meio de uma rua, olhando fixamente para a direção norte, como se estivesse vendo através das casas - não duvidava que realmente fosse o caso, considerando que aquela raça tinha supersentidos - e murmurou:
- Maluca...
Apressada, ela seguiu naquela direção e ele não perdeu tempo em ir atrás dela. Não foram necessários mais que cinco minutos de corrida para que ele entendesse o que tinha chamado a atenção dela. A alguns metros de distância, fora da área residencial e próximo à grande montanha que se erguia ali, estava uma mulher humana, cercada por youkais, tentando afastá-los com um pedaço de pau.
- Tsc. Atiçando leões com uma vara! - Yuki reprovou tal atitude.
Hitoshi teve de concordar, mesmo ele sabia que aquilo era estupidez.
- Ei! - a youkai gritou, chamando a atenção de seus súditos. - Deixem a humana em paz! Já disse que os que estão aqui são convidados e não comida!
- Essa é nova! - reclamou um deles. - Sinto o cheiro, é diferente!
- Obedeçam!
- Tsc. Defendendo os seus? - perguntou outro, com um sorriso sarcástico em suas feições repugnantes. - Como o esperado de uma hanyou asquerosa...
Ele viu o rosto de Yuki fechar-se, seus traços expressando uma calma assustadora. Contudo, antes que a youkai pudesse avançar e destroçar aquele que havia a ofendido, a voz da humana fez-se ouvir e soava terrivelmente séria:
- Cale-se! - ordenou, imperiosa. - E afastem-se todos ou acabarei com vocês, um por um!
Ela assumiu uma posição de batalha, segurando aquele pedaço de pau como se fosse a mais refinada das katanas.
Surpreso, ele ficou parado, apenas olhando-a e admirando sua coragem, embora soubesse que aquilo era uma grande tolice. Não havia como ela vencê-los!
Descobriu, um pouco tarde, que ela não queria realmente derrotá-los, e sim distraí-los para que alguém com um verdadeiro poder intervisse.
Hitoshi acompanhou com olhos vidrados Yuki estraçalhar os rebeldes com uma rapidez extraordinária. Ironicamente, o único que ela permitiu que vivesse, apenas desmaiando-o com um golpe, foi aquele que havia a ofendido. Pensar no que ela faria com ele quando tivesse algum tempo livre quase fez com que sentisse pena daquela criatura.
Quase.
- Agora... - Ela virou-se para a humana, seus olhos ainda vermelhos de ódio.
Hitoshi sentiu náuseas ao ver aquele olhar maligno, mesmo que não lhe fosse direcionado. Pensou que a mulher desmaiaria de tanto medo, principalmente porque, tendo a vida privilegiada que ela provavelmente teve, aquela deveria ser a primeira vez que assistia a um massacre. Todavia, ao invés de gritos de horror, ela mantinha uma expressão impassível no rosto.
Abandonando sua posição e voltando a ficar de pé, ela comentou, calma como se falasse do tempo:
- Você não tem nenhuma finesse, sabia disso?
O que o surpreendeu mais, no entanto, nem foi a postura altiva que ela exibia e sim o objeto que segurava em sua mão esquerda. Onde antes havia um pedaço de pau, agora tinha uma espada.
Ela deve ter piscado. Em algum momento, seu choque gerado pela incredulidade de ter aquela humana zombando de si mesmo após presenciar o que era capaz de fazer aos seus desafetos deve ter dado uma trégua, permitindo que ela piscasse. Só isso explicaria o fato de que em um segundo a humana segurava um pau e no outro uma espada. E não era uma espada qualquer, mas sim aquela que costumava enfeitar, junto à sua irmã, a sala do Trono!
- O quê... - tentou, mas não conseguiu esboçar seus pensamentos. Estava paralisada por aquele acontecimento.
A humana, no entanto, continuou a surpreendê-la ao mostrar-se capaz de formular um frase inteira e soar positivamente surpreendida enquanto a pronunciava:
- De onde no inferno surgiu uma espada como essa?!
- Não foi do inferno e sim de dentro de mim. - Uma voz extremamente conhecida respondeu a pergunta da humana e, ao ouvi-la, Yuki sentiu todo seu corpo retesar-se por medo do que viria a seguir. - Mas creio não haver mais diferença entre ambos.
Seu pai, Sesshoumaru, Lorde de Edras, tinha saído de seu esconderijo pela primeira vez em décadas. E o motivo para tal excepcional atitude era uma espada. Ela riria dessa estupidez se não estivesse muito ocupada temendo o que ele faria com aquela que, para todos os efeitos, tinha roubado um de seus bens mais preciosos.
Como se sentisse o perigo iminente, a humana finalmente esboçou uma reação condizente com a situação: olhos arregalados, boca levemente aberta e uma palidez mórbida, esse era o retrato atual dela. Foi essa a visão que seu pai teve quando ela virou-se para ele. Não fazia jus à beleza dela, mas também não a tornava grotesca. Então por que ele hesitou, como se visse um fantasma?
- Você... voltou?
