A primeira década sem ela foi assustadora. Nunca admitiria em voz alta, mas sentiu um medo aterrador de que aquela humana o tivesse tocado tão profundamente que nunca mais poderia voltar a ser o que era antes dela.

Seu plano inicial era realizar sua vingança tão desejada e então encontrar a ela e sua filha no pós-morte. Contudo, tais planos foram frustrados pelo inconveniente de seu meio-irmão e a verdade que trazia consigo: Yuki estava viva. A mãe dela não estava, mas ela... ela estava.

Como poderia seguir com seus planos sabendo daquilo?

Devido a esse contratempo, apenas a parte que envolvia sua vingança pôde ser levada adiante. Tentaram fazê-lo mudar de ideia, ousaram até mesmo trazer o nome dela para a situação, mas isso apenas tornou seu ódio mais intenso, sua vontade mais inquebrável.

Recusando-se a participar daquilo, Inuyasha o abandonou, retornando para o mesmo lugar de onde tinha vindo. Sesshoumaru aprovou tal atitude; não precisava dele. Na verdade, gostaria que Jaken tivesse feito o mesmo, o que não aconteceu. Seu servo escolheu lhe ser leal mesmo durante seus tempos mais sombrios. Às vezes, perguntava-se se após presenciar e participar da aniquilação de toda uma raça, ele arrependia-se de sua escolha...

Provavelmente sim. Todos os dias.

Ao fim daquela primeira década, quando finalmente retornou para casa, pensou que conseguiria seguir em frente com o que tinha lhe restado, mas descobriu algo interessante: quando se abandona alguém, não se pode exigir que os sentimentos dessa pessoa permaneçam os mesmos.

Yuki não era sua mãe. Ela não era Rin.


Em um piscar de olhos, cem anos haviam se passado. Notícias sobre o falecimento da companheira humada de Inuyasha chegaram até seus ouvidos, trazendo à tona memórias indesejáveis. Sentiu pena de seu meio-irmão hanyou, embora soubesse que a esposa dele havia vivido bem mais do que o natural, devido aos seus poderes de sacerdotisa. Um privilégio que nem todos os humanos tinham.

Com sua morte, imaginou que a criança que ela e seu irmão haviam criado como uma filha finalmente reencontraria suas origens, mas isso não aconteceu - a menina ainda tinha um pai a quem se apegar. Na verdade, mesmo quando perdeu sua única figura paterna, cinquenta anos depois, ela não dignou-se a aparecer, apenas seguiu seu rumo como se não passasse de uma orfã.

Todavia, o mundo estava mudando rapidamente. Após sua vingança ter resultado no fim do domínio youkai sobre os territórios do Norte, Leste e Sul, como eram divididos até então, os humanos se perceberam como maioria e souberam como tirar proveito disso. Multiplicando-se como coelhos, eles assumiram o controle daquelas terras e passaram a perseguir os poucos youkais que haviam sido poupados pelo Genocida. Viver escondida foi a única forma que sua raça encontrou para sobreviver à ascensão dos mortais. Estavam em decadência e, na época, Sesshoumaru não podia importar-se menos com isso.

Entretanto, havia alguém que se importava com a situação deplorável dos seus, mesmo que por tantos não fosse sequer considerada parte deles. Ela importava-se tanto que abriu mão de seu orgulho, retornando para casa e enfrentando seu verdadeiro pai após séculos de silêncio entre os dois.

Não foi uma conversa fácil. Não foi sequer uma conversa. Ela apenas disse o que tinha para dizer enquanto ele tentava entender como a criança de suas lembranças havia crescido tanto a ponto de transformar-se naquilo. De alguma forma, no entanto, ao fim do monólogo de Yuki, Sesshoumaru já tinha concordado em transformar o local onde vivia - Edras, o único dentre os antigos territórios youkais a não ter sido invadido pelos humanos - em um refúgio para a espécie que um dia desejou varrer da face da terra.

A vida era algo realmente estranho. Ele, que um dia sonhou em dominar o mundo, agora era o líder de seu próprio povo, povo este que um dia tentou destruir. E ele, aquele que odiava humanos, exceto uma, agora mantinha mortais dentro da fortaleza que construíra para mantê-los do lado de fora.

Todas essas mudanças ocorridas no curso dos fatos lhe pareceram patéticas à princípio, mas, naquele momento em específico, elas faziam todo o sentido. Absolutamente todos os acontecimentos no mundo durante aqueles últimos séculos só existiram para que aquele momento ocorresse. Se Byakusaiga estava novamente sendo empunhada por alguém, após tanto tempo longe de sua dona original, era graças ao caos que havia recaído sobre o mundo.

Ele, que havia jurado nunca mais ser fraco, ao ver aqueles olhos, deixou escapar em um sussurro:

- Você... voltou?


- Temos nos visto com bastante frequência nessas últimas horas - comentou Yuki, provavelmente irritada por ter de voltar a vê-lo em um espaço tão curto de tempo.

Sua filha nunca foi capaz de perdoá-lo por tê-la abandonado quando criança. Para ela, pouco importava se ele tinha ou não voltado para buscá-la depois, só o que ela conseguia se lembrar era dos anos em que ele não esteve por perto e do sofrimento que isso lhe causou. Normalmente, Sesshoumaru respeitava os sentimentos dela, deixando-a extravasar sua frustração através de provocações infantis, mas não tinha tempo para aquilo no momento.

- Quem era aquela humana?

- Por que quer saber? - retrucou, abusada.

- Responda! - comandou, sem paciência.

Com uma pontada de orgulho e remorso, assistiu sua filha assumir uma posição séria, digna de seu cargo como general. Era realmente uma pena que ela apenas o respeitasse como líder e não como seu progenitor.

- Seu nome é Sol Yi-Min, de origem chinesa, 24 anos, filha do atual presidente da China e, pelo tempo que Vossa Majestade assim o desejar, nossa convidada em Edras - respondeu, como quem faz um relatório.

Sol Yi-Min. Então era assim que ela era chamada... A mulher capaz de empunhar a poderosa Byakusaiga tinha um belo nome.

Com o canto do olho, mirou a espada que estava de volta ao lugar que pertencia: fixada na parede atrás de seu trono. E pensar que apenas uma hora antes ela havia simplesmente saído de seu lugar e voado para fora do castelo... Devido ao fato de ser um youkai e aquela espada não poder ser tocada por alguém de sua espécie - cortesia de Toutousai, o falecido ferreiro para quem encomendou uma espada que fosse feita a partir de um fragmento de sua Bakusaiga -, havia ficado impossibilitado de pará-la e por isso apenas a seguiu até o lado de fora de sua residência, até vê-la parar ao lado de uma mulher que, cercada pelo perigo, não hesitou em pegá-la. Esse acontecimento por si só já tinha sido uma surpresa, mas nada podia ser comparado ao verdadeiro choque que sentiu ao tê-la virando-se para si e poder contemplar aquela face.

Seu silêncio deve ter atiçado ainda mais a curiosidade de sua filha, pois ela trocou seu pé de apoio, claramente incomodada.

- Pergunte, general - disse, uma sombra de divertimento cruzando seus olhos.

Jamais admitiria, mas também apreciava provocá-la. Era o único jeito de alcançá-la, afinal de contas.

- Não possuo nenhuma dúvida, senhor - ela respondeu, teimosa. Mais teimosa que a mãe e com o péssimo gênio do pai, Yuki era realmente algo a mais.

- Nesse caso, está liberada.

Por nenhum momento Sesshoumaru esperou que ela hesitasse em obedecê-lo, então talvez sua surpresa tenha ficado visível quando ela questionou:

- O senhor a conhece?

- Nunca conheci alguém de nome Sol Yi-Min. - Embora não tenha evitado a pergunta, sua resposta foi evasiva..

- Mas o senhor pareceu surpreso...

- Humanos são todos iguais - pontuou. - Por um instante, pensei já tê-la visto antes, de fato, mas foi apenas minha imaginação. Não tenho saído de Edras pelo tempo que ela está viva, você deve saber bem disso.

- Desconheço sua rotina, senhor - debochou. No entanto, apesar do deboche, ela deve ter achado sua resposta boa o suficiente, pois disse: - De qualquer forma, estou me retirando. Se tiver algo mais a dizer, chame Shippou-chan.

Ela lhe deu as costas sem sequer se dignar a se despedir. Sesshoumaru a acompanhou com o olhar conforme ela se afastava, um desconforto incômodo em seu peito.

- Ela não se recorda, não é mesmo, Sesshoumaru-sama? - Jaken, que esteve o tempo todo ao seu lado durante aquela a segunda reunião do dia com sua filha, disse em um tom de pesar.

Ele nada respondeu. Não era necessário que concordasse, a resposta era óbvia. Era um tolo por ter acreditado que ela se lembraria mesmo depois de todos aqueles anos. Yuki era apenas um filhote quando aconteceu, fazia sentido que já não recordasse o rosto de sua mãe.