Ela flexionou sua mão esquerda após um espasmo involuntário perpassá-la. Uma sensação de queimação ainda percorria aquela área de seu corpo mesmo depois de horas terem se passado desde aquele acontecimento. Bastava lembrar-se da sensação do peso daquela bela espada e a palma de sua mão ardia como se ansiasse por tocá-la novamente.
Suspirou, rolando sobre o colchão surpreendentemente confortável no qual havia passado a noite. Não compreendia o que estava acontecendo. Nada daquilo fazia sentido, por mais que tentasse entender. E não estava falando somente do fato de uma espada ter surgido ao seu lado, vinda do nada, justamente quando precisava de algo para proteger-se. Falava sobre o porquê de precisar se proteger em primeiro lugar. O que eram aquelas criaturas que a atacaram? Havia estranhado a aparência de seu sequestrador, é claro, mas pensou tratar-se de uma espécie de fantasia usada para mascarar sua identidade. No entanto, pelo pouco tempo que esteve livre, correndo por aquele lugar em busca de uma saída, viu outros como ele, alguns até mesmo piores, o que jogou por terra sua teoria inicial.
Abrindo seus olhos, pôs-se a encarar fixamente o teto de sua cama dossel - algo antiquado e desnecessário, em sua modesta opinião. Tinha chegado à uma conclusão óbvia: independente de onde estava e quem eram seus sequestradores, ela deveria sair dali o mais rápido possível. Não podia arriscar que eles descontassem nela a frustração que sentiriam ao saber que os esforços empregados em seu sequestro tinham sido em vão.
Infelizmente, sua tentativa de fuga anterior iria dificultar um pouco as coisas. Eles não a deixariam sozinha de qualquer forma, já que aquilo tratava-se de um sequestro, mas depois de ter enganado o rapaz que havia ido alimentá-la e deixá-lo para trás, inconsciente, enquanto fugia, com certeza a segurança ao seu redor tinha sido triplicada. É claro que isso apenas tornava mais curioso o fato de eles ainda estarem mantendo-na naquele quarto extravagante mesmo depois de tudo... O que pretendiam? Acaso achavam que se a tratassem com gentileza conseguiriam as informações que desejavam? É... Só podia ser isso. Bem, nesse caso, o azar era todo deles.
Determinada a encontrar qualquer coisa naquele quarto que pudesse orientá-la por onde começar a criar uma estratégia de fuga, sentou-se sobre a cama e afastou as pesadas cortinas que a cercavam, pronta para descer dela. Contudo, seus movimentos cessaram imediatamente quando ouviu uma voz dizer:
- Até que enfim! Pensei que dormiria até o fim dos tempos!
Olhando em direção à voz, pôde ver a mesma criatura de antes: uma moça de aparência jovem, vestida em uma roupa de couro preta, seus cabelos brancos, que estavam presos em um rabo de cavalo, contrastando com sua vestimenta. Ela estava sentada em uma poltrona próxima à cama - o que era deveras curioso já que lembrava-se de ter visto aquela poltrona encostada contra a parede da primeira vez que acordou. Era óbvio que ela tinha invadido o quarto durante algum momento de seu sono e mudado o objeto de lugar, a fim de vigiá-la mais confortavelmente.
- Venha logo! - ordenou, levantando-se da poltrona e dando-lhe as costas.
Nem por um segundo sequer pensou em tirar proveito dessa oportunidade para atacá-la. Tinha presenciado em primeira mão o que ela era capaz de fazer e podia apostar que aquilo não passava de um teste.
- O que é você? - perguntou, recusando-se a sair de seu lugar.
Revirando os olhos, a criatura respondeu:
- Meu nome é Yuki.
- Yuki, certo. Um belo nome. - Acenou para aquela pequena informação. - Mas não foi isso o que perguntei. - Cruzando os braços, assumiu a expressão mais arrogante de que foi capaz, ao perguntar: - O que você é? O que todos aqui são? E que lugar é esse?
A mulher tinha um olhar incrédulo ao responder-lhe:
- Realmente... Vocês humanos não tem nenhuma noção do perigo. Nenhuma!
- Humanos? - Foi sua vez de soar incrédula. O que ela queria dizer com aquilo?
A outra levou uma mão ao rosto, esfregando-o.
- Eu não levo jeito pra isso... - murmurou, parecendo cansada. Assumindo uma expressão determinada, como se tivesse se resignado a um fato inevitável, começou a falar: - Escute bem, pois só vou dizer uma vez: vocês - apontou para ela -, humanos. Nós - apontou para si mesma -, youkais. Entendeu? - Antes de receber qualquer resposta, já estava afastando-se novamente, deixando-a para trás. - Ótimo! Agora vamos logo que eu estou com fome!
Ela ficou no mesmo lugar por mais alguns segundos, perplexa.
Youkais... Há quanto tempo não ouvia aquele termo?
O estômago dela roncou pela terceira vez em um curto espaço de tempo; alto como o grito de um dragão em fúria. Era óbvio que estava faminta. Como poderia não estar? Nos últimos dias sua dieta limitara-se à pão e água - as únicas coisas que puderam oferecer a ela durante os momentos em que despertava de seu sono induzido - e desde que chegaram em Edras, um dia e meio atrás, ela não havia ingerido nada, nem água. Mas isso se devia única e exclusivamente à sua própria burrice! Eles tinham tentado alimentá-la na tarde anterior, mas ela preferiu ludibriar e agredir aquele que generosamente havia se oferecido para tratar dela, à comer o que lhe tinha sido levado. Agora, ela fazia o mesmo, provavelmente por pensar que os alimentos dispostos na longa mesa estavam envenenados ou algo do tipo.
- Coma - ordenou.
- Estou sem fome - respondeu, altiva.
Como se ultrajado pela mentira deslavada que ela contava, seu estômago roncou novamente, o som ecoando por toda a sala de refeições.
- Wow! O que foi isso? - uma voz divertida soou à entrada do cômodo. Olhando em direção à porta, avistou Shippou passando por ela. - Tem um dragão escondido por aqui, Yuki?
- Sim, e está bem ali - concordou, apontando para a barriga da humana. - Não adianta disfarçar - disse à Yi-min -, nossa audição é sensível, podemos ouvir o quão faminta está.
- O que foi? - Shippou perguntou, alterando seu tom de voz de divertido para preocupado. - Não há nada que te agrade?
Yuki ergueu uma sobrancelha ao ouvir aquilo. Shippou era estranhamente gentil com aquela humana - não que normalmente ele fosse rude, longe disso, é só que ele também não fazia o tipo que adulava pessoas teimosas.
- Você realmente espera que eu coma na mesma mesa que meus inimigos? - perguntou, sua voz cheia de sarcasmo.
E com esse comentário, Yuki perdeu de vez sua paciência. Estava tentando ser legal, realmente estava! Desde que aquilo era um sequestro, qualquer um em seu lugar a manteria trancada em algum lugar pequeno e sujo, deixando-a passar fome e sede, a fim de que essas condições precárias estimulassem-na a barganhar as informações que possuía em troca de um pouco de conforto. Entretanto, havia optado por seguir uma estratégia mais pacífica, afinal, não era de seu feitio machucar belas mulheres. Assim, ao invés de um cômodo apertado e cheio de ratos, tinha alocado-a em um dos exuberantes quartos localizados no casarão que servia como quartel para os youkais sob seu comando, e, ao invés de deixá-la trancada o tempo inteiro em seus aposentos, reforçando a segurança ao seu redor para evitar uma nova tentativa de fuga, escolheu permitir que ela caminhasse livremente por aquele lugar - sempre acompanhada, é claro -, inclusive levando-a para tomar o desejum junto aos seus.
Todavia, a ingratidão que ela demonstrava à sua boa vontade estava fazendo com que começasse a se arrepender de ter sido tão gentil.
- Não seja por isso! - exclamou, apoiando suas mãos sobre a mesa e levantando-se. - Sempre podemos te levar de volta para seu quarto e servir suas refeições lá. Melhor! Podemos passar a tratá-la como uma verdadeira prisioneira e deixá-la com fome! Que tal? - sugeriu, com um amplo sorriso em seus lábios.
- Yuki... - Shippou chamou sua atenção, o que a deixou ainda mais irritada.
- O que há com você, Shippou? Por que a defende tanto? Pensei que seu interesse fosse os machos - debochou.
Ele lhe dirigiu um olhar severo, o qual sustentou firmemente. Embora o amasse como a um irmão, não hesitaria em enfrentá-lo como já fez outras vezes.
Contudo, antes que um desentendimento maior ocorresse, sua visão periférica captou uma movimentação no outro lado da mesa. A humana levantava-se, exibindo uma expressão de total plenitude.
- Devo esperar que alguém me acompanhe ou posso voltar para meu cativeiro sozinha?
Uma de suas melhores amigas tinha voltado à vida após mais de cinco séculos de espera. Sol Yi-min era a reencarnação de Rin, tinha mais certeza disso a cada segundo que passava ao lado dela. Ainda que a semelhança física não fosse prova o suficiente, a teimosia e altivez - esta última característica tinha sido herdada pela velha Rin devido ao seu convívio com seu esposo, Sesshoumaru - que ela ostentava deixariam isso evidente.
Quis rir da cara de espanto que Yuki fez ao perceber que sua ameaça não tinha causado o efeito desejado na prisioneira, porém conseguiu controlar-se. Sua amiga era muito sentimental e poderia muito bem levar sua ameaça adiante se desconfiasse que algum deles duvidava de que ela era realmente capaz de cumprir com o que dizia.
- Eu a levo - ofereceu-se, já levantando-se. - Ah, e antes que diga qualquer coisa estúpida, saiba que estou lhe fazendo um favor. Você se faz necessária na sala de reuniões, general.
Seu olhar deve ter transmitido que o assunto da reunião era algo sério, pois ela apenas disse:
- E você?
- Irei logo em seguida - garantiu.
Suspirando, ela fechou os olhos por um momento, antecipando os problemas que teria que resolver. Quando os abriu, toda a irritação já tinha ido embora, deixando apenas o cansaço estampado neles.
- Certo - disse, acenando em concordância, e então saiu da sala de refeições sem nem sequer olhar mais uma vez para a humana.
Para a reencarnação de sua mãe.
Foi a sua vez de suspirar. Aquela situação tinha potencial para tornar-se desastrosa se mal administrada, e, para o seu azar, justo ele havia sido incumbido de não permitir que isso ocorresse.
Só de pensar nisso já ficava cansado...
Balançou sua cabeça para espantar tais pensamentos. Por mais que o Lorde de Edras acreditasse que se pode lutar contra o destino, ele sabia que não seria tão fácil assim. O que tivesse que acontecer, aconteceria. Não valia a pena se estressar antecipadamente.
Com isso em mente, voltou-se para a jovem Yi-Min.
- Tem certeza que não deseja comer?
O silêncio dela foi resposta o suficiente.
- Se você quer assim... - resignou-se. - Venha, vamos.
Fez menção de tocá-la no ombro para guiá-la até a porta, mas teve seu toque rejeitado. Entendendo o recado, apenas estendeu seu braço, dizendo:
- Primeiro as damas.
A maneira como ela andava de cabeça erguida e expressão fechada mesmo que seu estômago continuasse a fazer barulhos assustadores era hilária. Mas ele não riu. Tinha impressão que, assim como Yuki, ela se tornaria mais arisca caso se sentisse humilhada.
"Rin, é realmente você, não é?", pensou, olhando-a com carinho.
Realmente esperava que dessa vez ela tivesse uma vida longa e feliz. De sua parte, faria todo o possível para que isso acontecesse. Mesmo que ela fosse viver sua vida longa e feliz longe deles. Longe de sua família.
- O que aconteceu? - quis saber assim que adentrou a sala de reuniões do QG.
Espalhados pelo cômodo estavam as mesmas pessoas de sempre: seus amigos e subordinados mais confiáveis eram os únicos com permissão para participar de reuniões como aquela. Levando isso em conta, Yuki não quis pensar muito no que significava ter um humano naquela sala.
- Um erro de julgamento de minha parte, foi o que aconteceu - respondeu Satoru.
De alguma forma, aquele homem tinha conquistado o direito de estar ali entre eles. O fato de não ter medo de assumir seus erros tinha ajudado-o nisso.
Cruzando os braços, olhou-o com seriedade, pronta para ouvir o que ele tinha a dizer.
- Prossiga.
- A equipe de monitoramento conseguiu captar a transmissão de um anúncio.
Anúncio... Lembrava-se de ter ouvido um desses na primeira vez que saíram de Edras. Haviam lhe explicado que um anúncio era feito pelo governo sempre que algo extraordinário acontecia, mas que devido a guerra eles tinham se tornado extremamente raros. Normalmente, um anúncio nunca trazia boas notícias.
- Haru Shinzou está morto - continuou ele. - Foi executado após sua traição ter sido comprovada. Aparentemente, o presidente chinês em pessoa comandou a execução, mas essa parte são apenas rumores que se espalharam entre a população.
- Então ele já está no Japão?
Isso foi rápido. Nove dias tinham se passado desde o sequestro da filha dele e embora em outro momento isso fosse considerado tempo mais que suficiente para deslocar-se de um país a outro, as coisas não eram tão fáceis assim em tempos de guerra - principalmente quando se é o Chefe de Estado de um dos países envolvidos. Mas é claro que talvez ela apenas tivesse subestimado o verdadeiro amor de um pai por sua prole.
- Não apenas está no Japão, como também já assumiu o controle do Estado. O governo, o exército, a população, tudo está nas mãos da China agora.
- E por que isso é um problema? Pensei que fizesse parte do plano...
Ela realmente não queria soar insensível, mas não estava entendendo o porquê de tamanho alvoroço por causa daquilo. O plano deles tinha sido criado levando aquilo em consideração. Eles previram o que aconteceria. Estavam cientes que vidas japonesas seriam perdidas no processo de invasão dos chineses e tinha escolhido seguir em frente apesar disso, pois visavam o bem maior. Então... Qual era o ponto?
- Sim, mas nosso plano também envolvia usar a filha do presidente como barganha para chutá-lo do Japão e deixar-nos fora dessa guerra. Mesmo que ele quisesse se vingar depois que nós a devolvêssemos, não poderia, pois vocês, youkais, já estariam no poder.
- Satoru, vá direto ao ponto - ordenou, já impaciente.
Suspirando, o homem apoiou as mãos na cintura, negando com a cabeça como se ainda não acreditasse no que tinha a dizer.
- O ponto, general, é que não podemos barganhar algo que não possuímos.
- O que quer dizer? - perguntou, um mau pressentimento se apossando de seu corpo.
- Olhe você mesma. - Virando a tela de um tablet para ela, ele inquiriu: - Já viu essa garota em algum lugar?
Se ela já tinha visto? Havia acabado de estar com ela!
- Você não pode estar falando sério...
Na tela do pequeno aparelho uma imagem desfocada era exibida. Apesar da pouca qualidade da foto, o rosto da moça que estava ao lado de um homem mais velho em uma espécie de palanque lhe era extremamente familiar.
- Sol Yi-Min... - murmurou, incrédula.
- Meu erro foi pensar que poderíamos usar o amor dele pela filha como uma arma, mas não cogitar que se ele realmente a amasse, nunca permitiria que ela viesse sozinha para um país que até pouco tempo atrás era um inimigo. - O arrependimento era palpável em suas palavras e ficou ainda mais evidente quando ele completou: - Sinto muito.
